Arquivo de setembro, 2014

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Foto: Reprodução/Instagram

Pensem em dois artistas pródigos em carisma. Os dois são essencialmente atores. No entanto, cada um tomou um rumo distinto em suas carreiras. Ela, Deborah Secco, acompanhamo-la desde a tenra idade, passando pelas adolescência e fase adulta, em diferentes segmentos audiovisuais, como o cinema, a TV e o teatro. Testemunhamos o seu crescente progresso interpretativo até alcançar a reconhecida e prestigiada maturidade artística. Ele, Marcos Mion, um ator com largo potencial mas que, por seus forte poder de comunicação, desenvoltura nata e capacidade ímpar de improvisação, acabou trilhando um caminho diverso não menos meritório, a apresentação com enorme êxito de programas de televisão. Agora, imaginem um texto deliciosamente alegre, romântico, informativo, referencial e charmoso escrito em parceria por Rosane Svartman, Lulu Silva Telles e Ricardo Perroni (o mesmo já fora levado aos palcos com outros elencos, inclusive Deborah, em 2010 e 2011, dividiu a cena com Erom Cordeiro). E, para completar, somem a este promissor conjunto um diretor experiente, com ampla ciência da salutar relação que deve haver entre o teatro e seu público e que seja um profissional convicto de suas opções cênicas: Ernesto Piccolo. Assim nasceu “Mais Uma Vez Amor”. A trama é centralizada em um casal, Lia e Rodrigo, que se conheceram quando adolescentes na época em que eram estudantes, com seus típicos e tradicionais uniformes em branco e azul, no ano de 1970, um período no qual o Brasil vivia um temerário sentimento de ufanismo, sob a égide dos desmandos militaristas de uma ditadura. As inseguranças, fragilidades e anseios de autoafirmação dos jovens, a descoberta da sexualidade, a perda da virgindade e consequências que a cingem e a massacrante pressão exercida sobre “a primeira vez” são discutidos com propriedade. Vê-se desde logo uma propensão de Lia para a adoção de uma postura mais libertária, ao contrário de Rodrigo, que se evidencia levemente conservador. Em 1976, o longa-metragem de Bruno Barreto “Dona Flor e seus Dois Maridos” faz grande sucesso, e os conflitos previstos do casal ganham contornos com maior visibilidade. Os sonhos de Lia de se libertar individualmente se elevam, indo de encontro com o pensamento médio coletivo. Rodrigo se engaja no “Projeto Rondon”, vai para a Amazônia, e chega a uma definitiva e surpreendente conclusão, ou seja, a de que lá tudo é verde. O amor entre ambos existe, é fato, todavia há sempre o fantasma de uma terceira pessoa para desestabilizar o relacionamento. Somos transportados para o ano de 1978, em que Lia satisfaz seus desejos mais íntimos de liberdade. Ela quer ler todos os livros, escutar todas as músicas, ir a todos os lugares, “alimentar-se da cultura do mundo”. Está em Londres, “a cidade onde tudo acontece”. A moça com rescaldos do “Movimento Hippie” e da “Liberdade Sexual” vivencia um desbunde comportamental, com direito à experimentação das drogas, lisérgicas ou não. Contudo, uma avassaladora saudade da terra natal, uma espécie de banzo a abala. Enquanto isso, Rodrigo torna reais seus planos “pequenos burgueses”. Após 1981, chegamos a 1984, e vemos e ouvimos nas ruas pessoas reunidas em multidões e seus brados clamando pelo retorno da democracia que nos fora usurpada pelas armas e pelo direito legítimo de escolhermos de forma direta por meio do voto o nosso Presidente da República, no movimento conhecido como “Diretas Já”. Rodrigo por ora está casado, exerce a função de bancário e o resultado natural desta conjuntura é ter filhos. Os desencontros e contrastes entre Lia e Rodrigo recrudescem, a despeito do persistente amor que os une. Um amor que por vezes é velado e em outras ocasiões se escancara em um quarto de motel com luzes de néon. As mudanças ocorrem não só nas personalidades dos personagens, mas de modo negativo nos costumes. Se antes podíamos namorar nas salas escuras de cinema com Dona Flor nas telas, o que vieram a seguir foram os filmes pornográficos e o seu “sexo profissional” (o filme em cartaz se chama, sujeito à gama de interpretações, “Bububu no Bobobó”; esta situação atesta o limiar da falência dos clássicos cinemas de rua; a direção de Ernesto Piccolo se aproveita deste episódio para criar uma divertida e inventiva cena de plateia). No presente, muitos desses espaços são ocupados por grupos religiosos. Ainda no que concerne aos movimentos, Lia invariavelmente foi a participativa, e Rodrigo, o apolítico. Em 1986, somos assaltados pelos planos econômicos “milagrosos” com o intuito de se combalir a hiperinflação. Não foram poucos aqueles que fecharam portas de supermercados e impediram o barulho das máquinas de marcar preços. Lia foi um deles. Em 1989, é alçada ao Poder uma equipe que promete mudar o Brasil. Sua política econômica cruel acaba com os sonhos de toda (ou quase toda) uma nação. Inclusive o de Rodrigo, que almejava comprar uma casa própria. Algum tempo depois, a juventude colore o seu rosto com tintas de indignação, no movimento “Caras Pintadas”, e há uma renovação política. Em 1994, o Brasil é “tetra”. Já em 2010, o casal se reencontra e suas diferenças se avolumaram. O elo que os liga, entretanto, parece-nos inquebrantável, mesmo com o passar das décadas. O “pequeno burguês” Rodrigo nem é tão pequeno nem é tão burguês. Ele repensa a sua vida, não mais acredita na fidelidade matrimonial e avalia a possibilidade de ter tomado outras decisões no passado. Como ir com Lia para Bora Bora, por exemplo, que atualmente é massagista e tem uma filha que “é a cara dele”. Os anos se sucedem e afirmações otimistas sobre os vindouros são ditas, amparadas no humor. A velhice chega para todos nós, e se tivermos sorte, o amor do outro a acompanha. Todo este atraente e interessante conteúdo narrativo contextualizado na comédia romântica, com as “idas e vindas”, encontros e desencontros de um casal empático na própria natureza, fora apresentado ao público pelos autores com desenhos sensíveis, agudeza de espírito e emoção. O diretor Ernesto Piccolo se utiliza de um prodigioso material para lhe impingir acertados dinamismo e leveza. Esta agilidade é provada em cena não só pela fluidez do texto, mas fisicamente também, com a movimentação constante dos atores e o aproveitamento profícuo da cenografia, inteligente e prática, que inclui dois biombos divididos em quatro partes, transparentes, dobráveis, que se transformam de acordo com a ambiência sugerida (percebem-se outrossim uma armação vazada e corrediça que serve como cama, uma outra diminuta, penteadeiras e três gigantes panos dependurados que são usados para a projeção de imagens marcantes que nos remetem à fase história retratada com seus símbolos e signos, ou alusões poéticas, como uma chuva em Londres). Ernesto aposta no patente e inquestionável entrosamento entre Deborah Secco e Marcos Mion, o que faz com que torçamos inabalavelmente pela felicidade de seus personagens. As músicas, selecionadas com apuro, posicionam-nos na História. Ouvimos Novos Baianos, Chico Buarque, Gal Costa… Caetano, e sua maviosa voz, reina soberano na maior parte da encenação. O diretor explora ao máximo de seus atores as notórias potencialidades interpretativas e de comunicabilidade com os espectadores. É obrigatório que se destaque a bela plasticidade de corpos quando se simula o amor do casal. Deborah Secco está irradiante em cena, exibindo com generosidade todo o seu já conhecido talento, vivacidade e aptidões cômicas e dramáticas. Marcos Mion é absoluto nas suas extroversão e naturalidade no palco, esbanjando, é claro, a graça que lhe é habitual. Marcos, sempre que puder, deveria conciliar suas atividades como apresentador e ator (o seu berço). Os dois exibem incrível perfeição na forma física (seus corpos são mostrados dentro de um contexto). Tanto Deborah quanto Marcos devem dar prosseguimento às suas experiências teatrais. Suas popularidades e sucesso alcançados na TV e demais áreas são justificados. O carisma que detêm transcende o senso comum. A iluminação é bonita e coerente com o propósito da peça. São percebidos gradações (quase “fade outs”), focos pontuais, sejam eles frontais ou laterais, sombras, meias-luzes e plano aberto (num tom suave, jamais “estourado”). Em determinados instantes, notam-se texturas luminosas azuis, lilases e alaranjadas. Os figurinos são tão ecléticos quanto elegantes, que se distribuem em vestidos estampados, com relevos, fluidos, “de noiva”, camisas sociais, polo e regata, terno e gravata, jaqueta estilo militar, calças jeans e social, “underwear” (roupas íntimas em geral), e calçados como sandálias, botas de cano longo, coturnos, tamancos, tênis e mocassins. Com produção de Deborah Secco e Léo Fuchs, “Mais Uma Vez Amor” é um espetáculo, uma comédia romântica, que se vale de um bem estruturado texto para abordar o amor e a sua resistência à implacabilidade da passagem do tempo, com ênfase na História recente e na mudança das pessoas e costumes da sociedade. Aprende-se que o amor nunca é demais. Que sempre há lugar para um “mais uma vez”. Mais uma vez… amor. Mais uma vez… Deborah Secco e Marcos Mion.

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Foto: Paula Kossatz

As palavras “sexo”, “drogas” e “rock’n’roll” sempre foram associadas umas às outras como se constituíssem uma tríade “sagrada”. Como se juntas representassem um protesto desabrido contra todo e qualquer tipo de conservadorismo e ortodoxia, um grito de libertação das convenções sociais e uma reafirmação de cada uma delas no que tange à sua força transformadora sobre os indivíduos. O sexo é um consolidado tabu, que sofre avaliações sob distintos prismas, sejam eles progressistas ou reacionários. A prática sexual e suas amplas possibilidades são tão julgadas que são levadas inevitavelmente a um “aprisionamento” a estigmas, pudores, condenações e regras que preconizam o que é normal ou não. As drogas se integraram ao mundo de modo implacável, avassalador e definitivo. O homem teve e tem ao seu dispor, em variados períodos históricos, vasta gama de entorpecentes. Discute-se em independentes esferas do Poder e da sociedade civil a viabilidade de sua descriminalização. O consenso é longínquo. Se em épocas passadas, as drogas simbolizavam sinal de “status” e “glamour”, hoje pululam campanhas de conscientização acerca de seus males e prejuízos à saúde, no entanto há também os seus defensores ferrenhos, que apregoam o seu direito de consumi-las por meio de manifestações coletivas ou mesmo artísticas. O “rock’n’roll”, gênero musical surgido com potência na década de 50 nos Estados Unidos, influenciado precipuamente pelos blues, jazz e country (existem outros entendimentos no que se refere à sua criação), mostrou-se pujante e consistente instrumento de denúncias ou insatisfações individuais ou em grupos ao atravessar décadas. Atualmente, a sua solidez denunciatória revelou um visível abalo tanto política quanto artisticamente. Esta trinca polêmica e controversa serviu de inspiração para o dramaturgo americano Eric Bogosian escrever “Sexo, Drogas & Rock’n’Roll” nos anos 90, que se tornou um enorme sucesso no circuito Off-Broadway, sendo montado em muitos países e ganhado o Obie Awards de Nova York. Como o ator, dramaturgo e roteirista Bruno Mazzeo cultivava o desejo de retornar aos palcos, mas com uma dramaturgia que não fosse de sua lavra, para, segundo ele, “sair do seu lugar comum de interpretar seus próprios textos e fazer assim um exercício como ator”, o prestigiado e prolífico diretor Victor Garcia Peralta lhe apresentou a obra de Bogosian, que logo o conquistou. O enredo escrito pelo autor, e traduzido aqui no Brasil por Maria Clara Mattos de modo sagaz e com uma certa liberdade para adaptá-lo melhor às nossas realidades, possui um humor crítico, feroz, iconoclasta, cru e ácido. Ou como Victor o definira: “uma comédia cruel”. As características deste mesmo humor estão presentes em níveis diferenciados nos seis personagens vividos por Mazzeo. Trajando apenas funcionais e básicos t-shirt preta, calça jeans e tênis (figurinos de Bruno Mazzeo), o artista, em seu primeiro monólogo, e nos minutos iniciais do espetáculo defende um morador de rua, “ex-dependente químico”, fragilizado emocionalmente, com patentes sequelas de seu vício “abandonado”, que assume para si um papel de vítima da desoladora situação na qual se encontra. Necessitando de dinheiro para custear o seu tratamento, pois o serviço público de saúde sucateado se descuida de suas obrigações, suplica aos seus pares para que contribuam, dentro de seus limites, para salvá-lo. Nota-se elipticamente uma alusão à falta de hábito do ser humano em prestar a caridade, em auxiliar o próximo. O “ex-dependente” lança sobre nós uma corresponsabilidade acerca de sua miséria pessoal. De forma ou outra, calamo-nos e nada fazemos para tirá-lo de sua desgraça. Não somos caridosos e sim assumidamente egoístas e individualistas. Não perderemos tempo com um desvalido “cheirador”. Que ele fique só. Ele e seu pó. Após, somos defrontados com um hiperativo líder de uma banda de rock com seus indefectíveis óculos escuros sendo entrevistado por um famoso apresentador de TV, um “rockstar”. Também adicto, em seu colóquio com o entrevistador, ostenta personalidade ególatra, exagerada autoconfiança e seus desvarios e cognição comprometida pelo abuso das drogas. Para o roqueiro, cuja fama lhe fez mal, a droga é um catalisador, uma peça fundamental para a potencialização da sua inspiração. Narra com jactância e fanfarronice os excessos cometidos por seu grupo musical durante as turnês. O artista de rock é o signo de uma perigosa e temerária cultura que acredita equivocadamente na união indissociável entre a música e as drogas. Uma cultura “assassina” que ceifou muitos talentos. A despeito disso, mantém-se firme, em não poucas ocasiões, no “mainstream”. Há ainda a figura do endinheirado pomposo que “chafurda na própria lama de alienação consumista”, um arquétipo cada vez mais presente na elite econômica brasileira. Seus valores são distorcidos, a sua ética é claudicante e os seus anseios descabidos, afrontosos e incompatíveis com a realidade social vigente. Fumando compulsivamente um charuto cubano, o abonado homem se vê em meio a conceitos de competitividade absurdos e tortos. Seu comportamento evidencia aspectos autodestrutivos, porquanto o percebemos em um progressivo e dilacerante círculo vicioso em que a concorrência com seus semelhantes na prodigalidade, no perdularismo e na ostentação assume proporções inqualificáveis. As marcas e grifes internacionais asseguram o seu “status”. A sua sobrevivência como ser social depende da falsa noção de superioridade perante os outros de acordo com os bens que possui. Não se dá conta de que está agrilhoado a um constante descontentamento íntimo que o direcionará irreversivelmente para um abismo moral. A seguir, testemunhamos um jovem prestes a se casar em sua tresloucada despedida de solteiro, bebendo a cada palavra que profere, acompanhado de seus amigos e uma obrigatória garota de programa. O que nos constrange é sabermos que o rapaz e sua generalizada idiotia é compartilhada por significativa parcela de nossa juventude. Suas vidas são precárias, pobres e indigentes. O consumo desenfreado das drogas e do álcool somado a uma educação deficitária no núcleo familiar os tornaram imbecis, infantilizados, com altíssimo grau de estouvamento em seus perfis. Apalermados na essência, ostentam diminuta ou quase nenhuma inteligência. Exibem posturas corporais que beiram ao ridículo e entonações vocais esdrúxulas. “Morou?” é uma palavra de ordem. “Leke” é um pronome de tratamento. O vocabulário é raso, limitado, pleno em reiterações e gírias. Para os jovens contemporâneos “tudo é muito, mas muito maneiro”. Vão à igreja e depois “entornam na cerveja”. Veem graça no fato de alguém vomitar, nos vídeos pornográficos bizarros, em um incêndio acidental e numa possível “overdose”. Frases sem nexo ditas por outrem são consideradas sensacionais. Fatos banais, brincadeiras tolas e confrontos físicos com “pitboys” sem motivação justificada ganham vultosa relevância. Um retrato triste de uma geração perdida, sem sonhos, sem futuro e garantias de evolução. Em outro personagem, um empresário de artistas obscuros porém “fabricantes de dinheiro”, com sua ganância desmedida e apreço pelo lucro puro e simples, vislumbramos a face mais vadia do capitalismo. A ausência de emoção e sensibilidade o transformou em um sujeito irascível, estressado, arrogante e autoritário. A deficiência emocional permite que mantenha sem culpas mais de um relacionamento potencialmente afetivo. E, por último, um artista desacreditado, incrédulo, desiludido que, padecendo de uma paranoia coerente com a implacabilidade vigilante moderna à qual somos consuetudinariamente submetidos, crê em “teorias da conspiração” engendradas pelas grandes corporações. O “Sistema”. Um “Sistema” que nos “devora”, “antropofágico”. Defende que o contrariemos como saída mais eficaz para salvarmos nossas ideias e identidade. As máquinas se conectam, são solidárias entre si, uma “quadrilha autômata”, e os alvos preferenciais somos nós. Insistem em desvendar nossos gostos e predileções com o único e exclusivo propósito de vender. Ao ligarmos a TV, somos “assaltados” com anúncios e propagandas em série. Sofremos uma “lavagem cerebral publicitária” contínua. Para existirmos temos que comprar um determinado micro-ondas. Cuidado com o supercomputador que estão construindo sem que saibamos! Lembram-se do “kubrickiano” HAL 9000? A nossa individualidade foi usurpada por interesses escusos com objetivos rentáveis. A nossa sagrada privacidade “escoou pelo ralo”, confirmando as afirmações premonitórias de George Orwell e seu “1984”. Vivemos uma era apocalíptica onde a computação é tirana, controla tudo e todos. Os artistas precavidos devem esconder as suas Artes nas mentes para que não sejam roubadas pelo “Sistema”. A direção sempre vitoriosa de Victor Garcia Peralta (com a assistência de direção de Guilherme Siman) privilegia intencionalmente o trabalho de ator de Bruno, auxiliando-o na busca nada fácil da identificação dos seis personagens exibidos, com suas diferenciações bem marcadas e delimitadas, logrando incontestável êxito. Victor, já parceiro de Bruno Mazzeo nos palcos (o primeiro como diretor e o segundo como autor), conhece com exatidão as amplas aptidões dramáticas e cômicas do artista, e as eleva ao seu grau máximo. O diretor, além disso, atingiu uma velocidade narrativa saudável, com a passagem de um quadro para o outro intermediado por belas projeções com contextos psicodélicos e pictóricos (vídeos de Rico e Renato Vilarouca) sobre cinco painéis verticais corrediços com ripas brancas maiores e pretas menores, que se posicionam em diversos locais da ribalta, valorizando o desenho cênico; o cenário que aposta na praticidade é de Dina Levy; usa-se também uma moderna cadeira giratória). Não há resquícios de estagnação no que diz respeito à ocupação do palco, com Bruno se movimentando todo o tempo, e aproveitando ambos os lados daquele, os seus centro e proscênio. Bruno Mazzeo (um dos vencedores da láurea de “Melhor Ator” na 3ª edição do “Prêmio FITA de Teatro”, na Festa Internacional de Teatro de Angra de 2013) nos proporciona a nítida sensação de que as interpretação e composição de cada “character” lhe causam imensurável prazer. Ele expõe com pujança irrefreável uma maturidade artística que justifica a conferência de sua atuação. Ainda lhe cabe, com disposição física impressionante, aliar a acrimônia do texto de Bogosian com a sua verdade como ator. O artista brinca com seus corpo e voz com detalhismo e versatilidade. A iluminação de Dani Sanchez em cumplicidade com a direção, foca-se sobremaneira na figura de Mazzeo, não abjurando os planos abertos. Uma luz com propósitos e intenções largamente pensados e calculados. A trilha sonora de Plínio Profeta é um precioso regalo para os amantes do rock, encaixando-se com perfeição no universo da peça. As músicas selecionadas, todas legítimos clássicos, como “(I Can’t Get No) Satisfaction”, dos Rolling Stones, corroboram a total e absoluta compreensão acerca da dramaturgia encenada. “Sexo, Drogas & Rock’n’Roll” não só satisfez a Bruno Mazzeo ao dar vida a personagens que não vieram de sua privilegiada mente, mas provocou em nós, espectadores, um movimento com frequências variadas, que nos tirou de incômoda e desconfortável inércia. “Sexo, Drogas & Rock’n’Roll” é um espetáculo viciante. O único vício que realmente vale a pena, pois nos deixa mais vivos do que antes.

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Foto: Dupla Identidade / TV Globo

Aparentemente, Edu Borges é um homem perfeito. Ele é educado, bonito e culto. Deixa rastros de charme e sedução por onde quer que passe. O jovem elegante, além de ser bem-sucedido na carreira de advogado, estuda Psicologia. No entanto, apesar de toda esta miríade de qualidades, Edu é um “serial killer”. No atraente, instigante e interessantíssimo primeiro capítulo da nova série da Rede Globo, exibida na noite de ontem, escrita por Gloria Perez, e dirigida por Mauro Mendonça Filho e René Sampaio, “Dupla Identidade”, com direção de núcleo de Mauro Mendonça Filho, fomos logo apresentados a uma galeria de personagens, seus perfis, objetivos, dramas e conflitos, e ao tema central da produção, o assassinato brutal em série de mulheres e a subsequente e difícil descoberta de seu autor. Edu faz parte de uma equipe que apoia o senador Oto (Aderbal Freire Filho), que em época de eleições, visa a um cargo político. O rapaz inteligente que ostenta barba semicerrada propõe, numa reunião de correligionários, ideias que parecem brilhantes e infalíveis para o êxito da campanha do político, como a defesa e o apoio às mulheres face ao desenfreado crescimento da violência da qual são vítimas. O candidato é aliado do Governador, sendo assim seria incômodo atacar a política de segurança vigente. Todavia, Edu, com a sua argúcia, convence Oto de que este é um caminho certeiro e vitorioso no que diz respeito à conquista de eleitores, principalmente os femininos. Enquanto isso, os assassinatos em série prosseguem. E a mais recente vítima é Mariana (Yanna Lavigne), uma garota de programa amante do senador, que momentos antes de sua execução com requintes de crueldade, é convidada pela produtora de moda Ray (Débora Falabella) para ser modelo de um desfile. O seu romance com o político é desvendado por sua esposa Silvia (Marisa Orth), que decide inapelavelmente pelo divórcio, o que atrapalharia as pretensões eleitorais de seu marido. Silvia e Oto são pais de Júnior (Bernardo Mendes), um rapaz que acabara de vir da França onde, por dois anos, fora estudar Artes. A seguir, Júnior, devido a um celular achado em seu apartamento, é apontado pela polícia como suspeito do crime cometido contra Mariana. As investigações policiais são capitaneadas pelo delegado Dias (Marcello Novaes), que almeja ocupar o importante cargo de Secretário de Segurança Pública do Estado, e a elucidação das mortes colaboraria para a sua indicação. Contudo, o retorno de Vera (Luana Piovani), uma psiquiatra forense que acabara de fazer um curso de especialização no FBI (Federal Bureau of Investigation), nos Estados Unidos, atrapalha os intentos de Dias. Ambos possuem uma mal resolvida história no passado. Para alguns, a presença de Vera no caso é uma estratégia de marketing. A dupla de policiais terá pela frente uma penosa e árida tarefa, a começar pela explicação da morte bárbara de Mariana, que numa área coberta por folhas secas, foi amordaçada, algemada e ferida. De um de seus olhos escorreu um rímel negro que se misturou a uma, duas gotas de sangue espalhadas pelo local da tragédia. Acompanhamos o passo a passo frio de Edu em direção à sua realização pessoal. O seu maior prazer, segundo Vera, seria o inacreditável sentimento de poder ao manipular sua vítima, e no instante em que percebesse que ela pressente a proximidade de sua morte, sentir-se um Deus. Mata-se tão somente para satisfazer um interesse individual. Impossível não nos lembrarmos da expressão cunhada pela filósofa alemã naturalizada americana Hannah Arendt, a “banalidade do mal”. O “serial killer” é calculista, premedita todas as etapas, desde a conquista de sua “presa” até os seus momentos finais. Os procedimentos brutais são os mesmos. Controla a situação. Brinca com a polícia, apostando em sua superioridade intelectual e autoconfiança desmedida. “Planta” potenciais provas para confundir os investigadores. E está invariavelmente pensando em seu próximo crime. E uma de suas vítimas poderá ser Ray, a produtora de moda. Ela é mãe de uma menina, Larissa (Maria Eduarda Miliante), separada e sofre de “borderline” (um transtorno de personalidade limítrofe que se caracteriza pelas oscilações de humor, impulsividade e dificuldades de relacionamento; vive-se no limite entre a normalidade e os surtos psicóticos). Num encontro “casual” na praia, Edu, que também é esportista, pois joga “altinho” com os amigos (nota-se a boa forma física do ator, que disse em entrevista sobre a sua decisão de se exercitar com mais afinco, privilegiando os antebraços, a fim de conferir maior credibilidade ao criminoso), conquista Ray (ao lado de sua confidente Dina, defendida por Mariana Nunes), que acredita ter encontrado o homem ideal. Ele a convida para comer uma pizza margherita e tomar um chope sem “colarinho”. Edu nos convence, se não soubéssemos de sua face monstruosa, de que é um sujeito normal, como todos nós. A trama pensada por Gloria Perez, que estudou muitos casos semelhantes na historiografia do crime mundial, mostra-se corajosa e indômita ao abordar um assunto tão escabroso, mas que se insere não só na atualidade, mas em períodos passados. Os diálogos e pensamentos em “off” de Vera demonstraram ao público de que houve cuidadosa e aprofundada pesquisa acerca dos comportamentos e motivações dos assassinos em série. A direção de Mauro Mendonça Filho e René Sampaio atingiu com precisão o difícil equilíbrio entre as cenas de avolumadas tensão e violência que cingem os fatos relativos aos crimes em si e os dramas paralelos que completam o desenho teledramatúrgico de “Dupla Identidade”. A ambiência de um thriller investigativo/policial é primorosamente retratada. Os atores, de reconhecido naipe, representam indiscutivelmente um dos méritos da atração que irá ao ar nas próximas sextas-feiras. Bruno Gagliasso, um intérprete talentoso, intenso e disciplinado, que sabiamente fugiu ao estigma de galã, procurando e aceitando papéis que o desafiassem sobremaneira, como o homossexual Júnior de “América, o esquizofrênico Tarso de “Caminho das Índias”, o vilão Teodoro de “Cordel Encantado” e o Van Gogh nos palcos teatrais, construiu Edu com uma “visceralidade contida”, uma “intensidade represada”, ou seja, temos a impressão de que a sua ultraviolência nata só eclodirá nos instantes da prática de seus delitos. Débora Falabella compôs Ray com a riqueza de detalhes que é própria da atriz, convencendo-nos de que é uma mulher ativa, independente, sonhadora e mãe dedicada. Também, assim como Bruno, habituada a personagens espinhosas, como a dependente química Mel de “O Clone” e a vingativa Nina de “Avenida Brasil”, Débora, certamente, irá nos surpreender mais uma vez, em especial nos episódios em que Ray manifestar seus surtos. Tanto Luana Piovani quanto Marcello Novaes estão de maneira irrefutável “infiltrados” na “alma” de seus “characters”, impingindo-lhes firmeza, resolução e sobriedade dignos de autoridades policiais. Poderão ainda exibir outro lado emocional de Vera e Dias concernente ao conflito que lhes é comum. Marisa Orth realçou Silvia com a dignidade de uma artista com o seu valor, legitimando a indignação imaginada de uma esposa traída não uma única vez, com a disposição feroz de pôr um termo a esta inglória condição. Bernardo Mendes nos prova de que é detentor de largo potencial artístico ao assumir, como Júnior, uma postura ao mesmo tempo frágil e rebelde. Um papel que se “casou” bem com o jovem ator. Aderbal Freire Filho, um consagrado diretor de teatro, oferece-nos a feliz oportunidade de conferirmos a sua porção ator, e a composição de Oto, um político ambicioso, indiferente aos sentimentos alheios e um tanto inescrupuloso corrobora a sua potencialidade e maturidade interpretativas. Ainda no elenco, teremos Dedina Bernardelli, Rogério Fabiano, Igor Angelkorte, Felipe Hintze, Henrique Taxman, dentre outros de igual relevância. A trilha sonora de Andreas Kisser se vale de um som pesado, com suas potentes interferências vocais. A abertura de Flavio Mac é refinada, com nuances fantasmagóricas e referências claras e objetivas ao movimento cinematográfico expressionista alemão, cujos alguns de seus notáveis representantes foram F. W. Murnau, Fritz Lang, Carl Dreyer e G. W. Pabst. Veem-se sombras, silhuetas escuras de pessoas nas ruas em preto e branco das cidades, com suprema valorização das formas geométricas, como linhas e círculos, amparados por texturas azul e vermelha (provável que a última seja uma menção ao vermelho sangue das vítimas de Edu). “Dupla Identidade” tem a missão nada fácil de “segurar” o telespectador por uma semana até o seu epílogo, mas pelo que assistimos em seu pioneiro capítulo a série não encontrará obstáculos para lograr o sucesso esperado, visto que a sua excelência se espraia no texto, no elenco, na direção e na produção. Ademais, conhecer mais a fundo a interioridade da mente perturbada, perturbadora e complexa de um “serial killer” é, por incrível que possa nos parecer, fascinante dentro de seu contexto aterrador. A selvageria é algo nato ao ser humano. Pode permanecer latente, quieta ou nunca se manifestar. Entretanto, pode se duplicar quando adentra e lá escancara o seu poder, nos inebriantes olhos azuis de Edu. “Dupla Identidade” é uma série imperdível. Duplamente ou mais.

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Foto: Ricardo Borges

Pensemos no celebrado e importantíssimo movimento teatral “besteirol”, cujo ápice decorrera na década de 80, em específico no Rio de Janeiro. Toda a irreverência e o descompromisso com as convenções até então estabelecidas somados a uma intensa vontade de “se transformar” o teatro sedimentaram no panorama cultural da época mudanças definitivas que se refletem até os dias atuais. Sob outro contexto, nos anos 70, o revolucionário grupo “Asdrúbal Trouxe o Trombone” semeou com sua saudável anarquia e ruptura das amarras vigentes, num momento de forte e temerosa patrulha política, o terreno para uma nova forma de se construir ou desconstruir uma narrativa dramatúrgica e levá-la aos palcos. Creio que, consciente ou inconscientemente influenciado por estas correntes, aproveitando-se de sua avassaladora comicidade em aliança com oportuna crítica social, Luis Miranda, o autor de “7 Conto – A Comédia”, criou com notável inspiração, riqueza de detalhes e precisa e poderosa comunicação entre ator e público o que se confere na encenação apresentada na ribalta. São sete personagens interpretados pelo próprio Luis, representativos de um determinado setor da sociedade civil contemporânea, com matizes denunciatórios imbuídos de desvairado humor. Com direção habilíssima, engenhosa e com superlativo grau de compreensão da proposta do dramaturgo, Ingrid Guimarães, insigne referência da comédia de qualidade, conduz a peça de maneira que a leva a um ponto relevante de plenitude cênica. Há a preponderância de intenções que realcem com preciosismo cada tipo composto com meticulosidade pelo ator. São criações incrivelmente distintas entre si, que servem tanto para gargalharmos, rirmos, refletirmos, mudarmos ou não nossos conceitos, preconceitos, pensamentos e ideias. Logo no início de “7 Conto – A Comédia”, somos surpresos, vagando trôpego pelo espaço da plateia, por Queixada, um “guardador de carros”, o “flanelinha figuraça”, que ostenta com orgulho o seu colete encardido de guarda de trânsito, tendo no interior de sua esfarrapada bermuda jeans com a braguilha aberta uma garrafa de pinga ou algo que se assemelhe, e empunhando um cone para “organizar” o caótico trânsito das ruas. Impressiona-nos com suas tiradas supostamente filosóficas, com direito a resvalos no Português. Exercendo uma função já “institucionalizada”, Queixada nos deixa observações hilariantes, acertadas e sem resquícios de estigmatização sobre os homossexuais. Com seu ventre estufado, bêbado, o homem de voz embargada assevera que os gays (adeptos do hedonismo, bem-sucedidos em sua maioria), apreciam frequentar locais badalados das praias com seus sungões e óculos escuros (que guardam outros objetivos), ostentar seus corpos musculosos e que os mesmos têm um jeito “gostoso” de falar e seduzir, uma retórica mansa para conquistar outrem. Queixada simboliza não só o caos no trânsito, mas a desordem imperante no perímetro urbano no qual trabalha, com a anuência do Poder Público. Já com Caroline, uma atriz infantil negra, deparamo-nos com o momento mais emocionante do espetáculo. E isto ocorre em vista do tratamento dado ao tema racismo. Um fato real, seriíssimo, que parece não ter fim. A ingênua menina com suas tranças “loiras” e vestido volumoso vermelho ornado com bolinhas brancas e laçarotes, mangas bufantes e segurando uma Minnie como fiel companheira (irá interpretar a Chapeuzinho Vermelho), ressente-se de que não há papéis para crianças da sua cor, e de que na escola, nas encenações teatrais, invariavelmente as personagens que lhe eram ofertadas não se configuravam como principais, sendo estas pertencentes às brancas. A cútis alva determinava as escolhas. Se por um acaso defendesse um “character” direcionado para aquelas de pele clara, sofria com ofensas, piadas, chistes e gracejos (hoje, o chamado “bullying”). Luis, com juízo, toca em um assunto tabu que insiste em existir num país miscigenado, com origens africanas, indígenas e europeias, mas que, todavia, em seus estádios de futebol, ouvem-se os nefastos gritos de “macaco” bradados por uma “torcedora” branca para um atleta negro. Infelizmente, esta posição segregacionista se estende às Artes. Nem mesmo a televisão, por mais que se esforce em debelar este vício, mostra alguma resistência, talvez por pressão do gosto dos telespectadores e interesses econômicos. Os galãs e as mocinhas serão quase sempre brancos, basta ligar a TV (com exceções, é claro). E quando o contrário acontece, vira notícia. Sobram aos negros os signos do folclore nacional, figuras históricas… As empregadas domésticas são negras, pardas ou mulatas, basta ligar a TV. Com o rareamento das novelas de época, o trabalho para os negros escasseia, pois não há escravos para serem interpretados. Caroline chega a fazer comovente prece a um ilustre criador de histórias infantis para que invente uma personagem negra para ela. O dramaturgo é extremamente corajoso e bravo ao não deixar de fazer uma crítica ácida, acre e mordaz, vez por outra, à nossa cada vez mais degradante, corrompida e falida política brasileira, com todas as suas maracutaias, escândalos, desvios de dinheiro público e impunidade generalizada (os espectadores não poucas vezes aplaudem o ator em cena aberta como sinal de que são cúmplices na indignação). Uma anomalia “cultural” que grassa na televisão do Brasil, os programas sensacionalistas que exploram descaradamente as miséria e desgraça humanas ganham visibilidade, só que às avessas, quando Luis Miranda personifica um “pastor” de religião qualquer, o apresentador do “Brasil Elite” Detona, que vocifera, simula emoção, interage com os telespectadores e a produção como se fosse um amigo íntimo, realiza performances e “mise-en-scènes”, a fim de lograr o maior número possível de simpatizantes. Detona se comporta com insatisfação face aos absurdos vigentes e faz propaganda aberta de produtos de luxo. A enorme graça está justamente na questão do “pastor” defender não os necessitados, mas sim a elite, a alta burguesia, com seus valores tortos, distantes da ética e da moral, afundada em seu consumismo aterrador, ciente de que nunca será punida por seus atos condenáveis e desrespeito para com o próximo. Os jovens deste segmento social são educados por seus pais como se ainda fossem crianças, e em bastantes casos com a conivência de nossa Justiça. Seu “esporte” favorito pode ser um “racha” que pode levar um inocente à morte. Uma brincadeira bem divertida para eles pode ser queimar um índio dormindo num banco de um ponto de ônibus pensando que fosse um morador de rua. De repente, assaltar, roubar sem que se precise pode ser uma “boa”. Os pais, com certeza, contratarão um esperto advogado que os tirará da cadeia. Afinal, são “crianças” e têm um “Estatuto” para protegê-las. Somos cidadãos espalhados pelos quatro cantos de uma nação devastada por pobreza que vive ao lado de riqueza, amparados por “bolsas” e mais “bolsas” assistencialistas e eleitoreiras, numa economia capenga e magra com índices maquiados, que se um dia para Stefan Zweig fomos “o país do futuro”, hoje não somos do “presente” tampouco do “passado”. Sem preterir o humor, a tirania do apresentador chega ao cume, lembrando os abomináveis governantes da Segunda Guerra Mundial, seus discursos odientos, os efeitos do Holocausto e o terrorismo da atualidade, numa cena impactante. Uma outra variação cultural e consequentes contradições é debatida: os cantores de “funk ostentação”. MC Dollar, com sua capa de couro, calças pantalonas justas, óculos escuros, cordões de ouro, chapéu com aba larga e muito brilho (remete aos tempos da “blaxploitation”), canta “raps” que em cujas letras há uma apologia ao mundo glamoroso das grifes internacionais, com refrãos empolgantes para um séquito de fãs sem condições para este tipo de consumo. Uma outra distorção cultural levantada por Luis Miranda referencia ao fato de que, no presente, toda e qualquer pessoa, qualificada ou não, pode apresentar um programa de televisão. Dona Editi, uma líder comunitária e vereadora, sem paciência com os filhos, que traja um vestido estampado com frutas e legumes e ostenta a sua “derriére” com engraçado enchimento, usa grampos, faz piada com seus cabelos, comanda uma atração dentro de sua casa e seus varais, em que dá conselhos para as suas telespectadoras e dicas de culinária praticáveis. Editi não esconde a sua crítica aos programas do gênero nos quais os apresentadores indicam receitas com ingredientes incompatíveis com a realidade econômica do país. O apego ao estrangeirismo e o desprezo pelo Brasil e seus habitantes e diferentes raças são simbolizados pela socialite Sheilla, completamente insana em sua paixão por Paris, suas frases ininteligíveis ditas em Francês, e sua tendência para a evolutiva embriaguez causada por taças e mais taças de champanhe. Com exuberantes casaco de pele, tailleur com brocados e saia “animal print” em tons prata e dourado, chapéu, joias e óculos, Sheilla cita hotéis estrelados, alta gastronomia e demais luxos, com a paranoia de que tudo o que é bom deve ser “geneticamente modificado”. Sheilla não se inibe em assumir seus largos preconceitos com os desassistidos e os desprovidos de beleza. E, por último, o autor não se esquece dos idosos e suas dificuldades em lidar com a tecnologia, no caso os caixas eletrônicos dos bancos, além da intolerância da sociedade para com os mais velhos. Esta exclusão é vista na personagem Dona Arminda, uma senhora simples com seu xale de crochê que se vê desesperada diante da implacabilidade de um caixa eletrônico e suas exigências de senhas, nomes e letras, e a impaciência de seus pares com as suas limitações. Tudo para retirar um extrato de sua vergonhosa aposentadoria que usa para sobreviver, jamais para viver. Quanto à atuação de Luis Miranda, Ingrid Guimarães, sabedora do rico conteúdo textual e do excelente intérprete à sua disposição no palco, recorre a todas às suas potencialidades para que cada personagem obtenha vida própria e identidade, e nos satisfaça gloriosamente. Luis Miranda, ao defender os sete papéis por ele criados, confirma-se no quadro artístico brasileiro como um ótimo ator com inacreditável capacidade para compor tipos e suas mais diversificadas personalidades, entonações vocais e posturas corporais, com oscilações de expressividade no patamar máximo. Os personagens não são caricaturas, e sim veículos para a propagação, por meio do humor, de uma ideia ou pensamento significativo. O cenário de Nello Marrese contribui com eficiência, funcionalidade e capricho para o conjunto cênico. Há cerquinhas de madeira com flores (para Caroline), mesa grande com os já citados varais e peças de roupa, toalhas e bandeiras penduradas para Dona Editi, mesa e cadeira moderna para Sheilla, além de adereços. Mas a sensação são as imagens projetadas em um painel (vídeos de Rene Porto) que não somente embelezam o espetáculo mas lhe dão coerência e inserem o espectador na história. Os vídeos mostram um clipe com garotas potencialmente sensuais, Chapeuzinho Vermelho (papel de Caroline) passeando por um idílico jardim e Sheilla flanando pelas ruas e “boulevards” parisienses. Os figurinos de Helena Soares e Roberto Laplane são inspirados, criativos e exuberantes, colaborando fidedignamente para a identificação dos personagens. O “pastor” Detona, por exemplo, traja um terno risca de giz vermelho e uma gravata roxa. A iluminação transita por vários caminhos e possibilidades. Como Luis se posiciona amiúde no proscênio, há um foco central sobre ele. A cena de MC Dollar corresponde a um legítimo show, com o espocar de luzes coloridas e o globo espelhado de praxe. Percebemos outrossim a presença do verde, do amarelo, do azul e do rosa. As coreografias são creditadas a Luis Miranda, que é bailarino profissional, e aquelas são evidenciadas com primor na apresentação do “rapper”, com movimentos compassados, ritmados e empolgantes. A direção musical compreende eficazmente a proposta da narrativa, executando trilhas e canções originais que primam pela adequação. “7 Conto – A Comédia” se estabelece como uma obra que, por meio de uma comicidade acurada e de nível absoluto, faz-se necessária e obrigatória pelo uso da inteligência crítica ao abordar assuntos áridos de um país que se pretende organizado, com todas as discrepâncias, injustiças e desigualdades do coletivo social. Luis Miranda prometeu e cumpriu com os seus sete personagens nos contar histórias que nos façam rir, refletir e reavaliar entendimentos. Luis, assim, contou-nos uma boa história. Na verdade, Luis Miranda nos contou uma boa história em sete contos… a comédia.

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A personal stylist Mônica Girão e a produtora de moda do jornal O GLOBO Zizi Ribeiro, no Fashion Rio, em sua edição Verão 2014/2015, realizada na Marina da Glória.
Graduada em Publicidade, Mônica se dedica a esta área e a de moda desde 1985.
Produziu catálogos, campanhas, desfiles, editoriais, filmes publicitários e capas de CDs.
Também concede palestras e presta consultoria de tendências de moda.
Já trabalhou para importantes marcas como Louis Vuitton, Triumph, Lee, e Shoppings Rio Sul e Iguatemi (Rio de Janeiro e São Paulo).
Na Editora Abril, conferiram-lhe o cargo de produtora da Revista Estilo.
Foi figurinista do programa “Cineview”, do Telecine e produtora do Caderno Ela do jornal O GLOBO.
Como professora, lecionou na Pós-Graduação da Universidade Veiga de Almeida, no Rio de Janeiro.
Já Zizi Ribeiro, além de produtora de moda do Caderno Ela do jornal O GLOBO, também oferece consultoria neste segmento.
Formou-se na UNIVERCIDADE (Rio de Janeiro) e na FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado), em São Paulo.
Faz comentários sobre moda na Rádio Roquette Pinto, no quadro “Moda de A a Z”, do programa “Painel da Manhã”.
Atua como personal stylist, personal shopper e figurinista de campanhas publicitárias.
Produziu e foi diretora de arte de catálogos de moda de marcas famosas como Mr. Cat, AD, Afghan, Mary Zaide, Tessuti, dentre outras.
Na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, no evento “Niterói em Moda”, exerceu a função de Coordenadora de Moda (houve o desfile das grifes Mara Mac, Reserva, Cantão, Lenny, Maria Bonita Extra, ZeroZen, Totem, Dress To e Agilitá).
Ainda como consultora, foi contratada pela Rede Globo para trabalhar no quadro do “Jornal Hoje”, “Cabine do JH”.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: Coca-Cola Jeans

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O publicitário Diego Grossi e a modelo e produtora de eventos Franciele Almeida compareceram ao desfile da Coca-Cola Jeans, no Fashion Rio Verão 2014/2015, na Marina da Glória.
Ambos participaram da última edição do reality show “Big Brother Brasil”, na Rede Globo, e foram bastante requisitados por fãs para tirarem fotos.
Diego é carioca e Fran, como é conhecida, nasceu em Santa Rosa, RS.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: Coca-Cola Jeans

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A Nativa SPA – O Boticário, que invariavelmente capricha na decoração de seus stands no Fashion Rio (Edição Verão 2014/2015, na Marina da Glória), possuía um espaço espelhado no qual havia espécies de gotas ou pingos transparentes dependurados (os pontos de luz valorizaram o ambiente).

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: Coca-Cola Jeans