Arquivo de novembro, 2015

silencio
Foto: Renato Mangolim

Esther (Suzana Faini), sentada em uma cadeira, enquanto aguarda a preparação cuidadosa da mesa de jantar do Shabbat Shalom judaico (tradicional comemoração que se inicia no pôr do sol da sexta-feira e se finda no pôr do sol do sábado, em que as famílias se reúnem e se confraternizam, em prol da harmonização de seus laços e do fortalecimento de suas ancestrais tradições) por sua doce neta Débora (Gabriela Estevão), uma jovem e bela professora trajada com um recatado vestido rosa, prestes a se casar com o também judeu Flávio (Vicente Coelho), desfia um rosário de pensamentos e opiniões próprios eivados com certa acidez no tocante às instituições como casamento e religião e aos comportamentos de seus entes próximos. A reunião familiar servirá da mesma forma para celebrar o aniversário de 50 anos da passiva Regina (Verônica Reis), filha de Esther e David (Rogério Freitas). Regina é oprimida regularmente por seu marido machista Beto (Alexandre Mofati). David é um senhor calado que, devido aos tremores que se espalham pelo seu corpo, apoia-se em uma bengala, e também em repetidas doses de álcool, sendo repreendido com veemência por sua elegante esposa que ostenta brilhantes joias. Esther possui uma outra neta, Clara (Priscila Vidca). A moça transgride as tradições defendidas com potência por alguns de seus pares ao se vestir de maneira despojada e por ter uma oratória liberal, sendo obrigada a escutar insinuações afrontosas de sua ríspida avó. Clara é uma intelectual que no momento se dedica a fazer uma pesquisa para um livro que está sendo escrito por seu avô David. Durante a peça de Renata Mizrahi, que se apresentou no Festival de Teatro de Curitiba, recebeu os Prêmios Cesgranrio e FITA de Melhor Atriz para Suzana Faini (e várias indicações, inclusive Melhor Texto no Prêmio Cesgranrio e no Prêmio FITA, Melhor Espetáculo Júri Popular no Prêmio FITA, Melhor Atriz para Suzana Faini no Prêmio Shell, Melhor Atriz Coadjuvante para Verônica Reis e Revelação para Vicente Coelho no Prêmio FITA, todas no ano passado), o jantar citado é usado como instrumento possível para o desencadeamento de discussões entre os membros do clã, as quais açambarcam ranços de preconceito e hipocrisia, acobertados pelas vestes da religião que professam. Esther, em quaisquer horas, lança lampejos de moralismo, defrontando-se com suas netas, sob vários aspectos, preferencialmente o afetivo e o profissional. A matriarca, representante feroz dos preceitos da religião judaica, na sua ótica, acredita que as mulheres devam se casar até os 30 anos, caso contrário seriam estigmatizadas pela sociedade. E de preferência com maridos abonados. Discrimina de modo direto a condição de Débora ser uma professora num país, o Brasil, que remunera mal esta categoria. Condena o fato de Clara não se vestir de modo adequado e conveniente, como dito, e levanta suspeitas quanto à sua orientação sexual. A sua relação com o marido David se resume a condenações costumeiras devido ao seu hábito, também mencionado, de beber com frequência. Admira o seu genro autoritário e infantilizado Beto, que tiraniza a própria esposa, que por largo período da obra cênica se submete aos desmandos de seu cônjuge que sempre busca uma “brecha” para burlar os rituais sagrados do Shabbat. Repreende ainda David por estar escrevendo um livro que até então se desconhece o tema, e não admite que empregue o seu dinheiro na pesquisa de sua neta. O que se vê são bastantes conflitos interpessoais num universo familiar que coloca no mesmo patamar os dogmas e preceitos religiosos com vícios e valores deturpados de um ser humano. Renata não quis, acredito, utilizar-se de uma família específica, no caso a judaica, com o intuito de criticá-la e submetê-la a julgamentos morais, mas sim mostrar em um painel dramatúrgico que por trás de uma instituição poderosa que é a religião, regente dos elementos constituintes de uma convivência familiar, escondem-se mazelas e deficiências de personalidades comuns a tantos indivíduos ou conjunto destes. O espetáculo toma um novo direcionamento, o que faz com que outras discordâncias e altercações sejam despertadas, com a revelação do assunto principal do livro de David: a vinda das judias polacas do Leste Europeu para o Brasil entre fins do século XIX e início do século XX para se prostituírem. Além de exibir uma contrariedade de gerações e conceitos, o tema tabu para a comunidade judaica proporciona um inteligente debate na peça sobre parcela de nossa História que não pode ser apagada, e sim avaliada com olhares cuidadosos e isentos. Em nenhum instante, faz-se um juízo parcial acerca das polacas. Diz-se que diversas delas sabiam de seu destino, e de que outras se defrontavam com a armadilha que se escamoteava atrás da promessa de uma vida melhor no Novo Mundo, nas Américas. Os cafetões janotas e insuspeitos que as exploravam são mencionados. Temos, assim, uma noção clara e detalhada, com a narrativa criada por Renata Mizrahi, que não pretere a emoção que exala de cada personagem envolvido com o seu discurso determinado, seja ele favorável ou desfavorável às imigrantes polonesas, do fato histórico. Culpa, vergonha e preconceito são postos na berlinda. Em contrapartida, há os que se aliam à honra, à verdade e à dignidade da pessoa. O silêncio tão propalado no Shabbat é quebrado. De maneira ruidosa e dura. Um segredo é revelado. Toda a estrutura de uma família montada por anos se esfacela face a uma notícia imprevista, e a autora faz bom uso deste trunfo. Passamos a conhecer com maior esclarecimento o perfil de cada “character” pertencente ao contexto dramático que se emoldurou. A direção hábil e objetiva de Priscila Vidca e Renata Mizrahi é focada no convencimento de que os personagens fazem parte realística e intimamente de um único núcleo familiar. A proposta cênica de se retratar uma família disfuncional, como qualquer outra, mas, no caso da peça, a judaica, que se vê diante, além de valores individuais que se colidem, mas de um segredo que transmutará toda a configuração circunstancial pré-existente, é conduzida com sobejos êxito e coerência. Os diálogos são afiados, cabendo aos atores, seguindo uma alternância, uma presença em cena constante a fim de que não percam o dinamismo do andamento do entrecho. O espetáculo, que é anunciado como uma comédia dramática, cumpre a sua promessa, não permitindo que o gênero drama domine todo o espaço da obra, contudo, o segmento da comédia ao qual se alia é aquele próximo da mordacidade, um humor acre que causa risos nervosos na plateia, o que é um mérito. As diretoras procuram impingir à encenação um grau de mobilidade cênica que não admite que o enredo destrinchado descambe para uma inércia narrativa. Tal sucesso é alcançado pelo texto que obedece a uma sucessão de fatos e situações atrativas, e à ocupação física mutável por parte dos atores no perímetro da ribalta. Os artistas trocam as suas falas em distintas posições (uns se colocam à frente do palco, outros atrás, um de frente para o outro, alguns sentados, outros não, além de triangulações entre os mesmos). A condução do assunto “judias polacas”, elemento fundamental da peça, é realizada de modo certeiro, no que diz respeito ao ponto exato para que se iniciasse a nova etapa de conflitos e clímax. O elenco se revela coeso e harmônico, esbanjando a credibilidade de uma família judaica que vive no Brasil, transmitindo uma verdade interpretativa em todos os vieses, que vão das saudações ditas em hebraico, às rezas tradicionais, e aos rituais atinentes à religião, como a lavagem das mãos em uma bacia. Atores audazes que provam desde o começo do espetáculo que, por meio de seus personagens, estão dispostos a nos contar uma história diferente usando toda a sua carga de emoção disponível. Suzana Faini, uma de nossas mais prestigiadas atrizes, já em suas pioneiras locuções exibe a sua magnitude como artista, espalhando a sua nobreza na atuação, amparada numa voz pujante e sugestiva que ecoa por todo o ambiente. Suzana defende Esther, uma senhora amarga, ressentida e preconceituosa, mas com inquebrantável sentimento de apego às tradições judaico/religiosas, e por conseguinte à sua família, mesmo que seja de um jeito um tanto quanto torto, com notória sublimidade e ofuscante brilho. Ainda assim, não se trata de uma mulher apenas com defeitos, e sim um ser humano frágil na sua existência, que deixou com que aqueles sobrepujassem as suas potenciais qualidades como esposa, mãe e avó. Rogério Freitas, como o patriarca David, realiza uma composição magistral do homem preso a um segredo determinante e deflagrador da ação. Rogério se preocupou, e atingiu o seu intento, em construir um homem extremamente vulnerável em sua condição física. Vimos a princípio um David silencioso, com poucas inserções orais, todavia, em certo momento, testemunhamos um David que até então poucos ou ninguém conhecia, bravo, destemido e sem receios das consequências de suas atitudes. Alexandre Mofati busca identificar Beto como um genro, pai e marido multifacetados, pois o enxergamos como um sujeito opressor que trata sua esposa infantilmente, um cidadão ambíguo com relação à sua obediência aos rituais sagrados de sua religião, e um indivíduo mergulhado em poderosos preconceitos. Alexandre delineia os traços do perfil de seu papel com a eficiência e o valor que lhe foram demandados. Gabriela Estevão com plenitude impinge candura e indignação à bonita Débora, quando se torna protagonista de distintas passagens da narrativa. A atriz percorre o difícil atalho da transição de posturas com admirável fluidez. Priscila Vidca, com sua engajada Clara, exibe com nítida presença cênica toda a transgressão do membro da família que se mostra capaz de enfrentar o “status quo” daquele clã em disfunção. Cabe a Priscila um dos momentos-chaves do espetáculo, que é o de explicar tanto para alguns personagens quanto para o público a história das judias polacas. A atriz, também diretora da peça, correria o risco de esbarrar no limite tênue do didatismo, porém a sua compreensão como intérprete lhe proporcionou um resultado feliz nos seus propósitos. A Clara de Priscila Vidca funciona como um agente modificador, aquele que traz mudanças e leva terceiros a se empenharem em sair do comodismo individual. Verônica Reis, como Regina, imprime com medidas exatas o que se verifica, entre outros detalhes, nas suas linguagem corporal fragilizada e emissão vocal num nível abaixo dos demais, toda a complexa passividade da esposa aviltada pelo marido. Verônica possui a virtude de nos surpreender em uma virada de sua personagem, que só é vitoriosa por sua vocação em graduar as emoções diferenciadas. E Vicente Coelho, como Flávio, o futuro marido de Débora, que chega numa fase da trama em que todas a verdades já haviam sido reveladas, em que todo o silêncio que ditava as ordens da convivência familiar rompera, construiu o seu papel com as nuances de perplexidade natas de quem se depara com uma situação que não corresponde à esperada. No entanto, o jovem ator se vale de gracioso humor e efusividade, integrando-se facilmente no quadro ficcional apresentado. Cabe a Vicente um belo episódio da encenação no qual lidera com firmeza e credibilidade uma prece em hebraico. O cenário de Nello Marrese corresponde com eficácia à ideia de se reproduzir um lar comum a qualquer família de natureza judaica. Convicto em suas intenções, Nello posiciona uma cadeira de madeira com estofamento vermelho no lado esquerdo do palco, tendo mais à direita, e servindo como parte precípua da história, uma mesa retangular composta com taças, copos e garrafas de vinho, coberta por uma sóbria toalha, e quatro cadeiras. Mais ao fundo, percebe-se uma pequena estante sobre a qual há utensílios para rituais sagrados judaicos, como uma bacia e uma toalha branca. Os pufes que lhe estão próximos são usados pelos atores na hora do jantar. Os figurinos de Bruno Perlatto estão condizentes com a personalidade de cada membro do clã, demonstrando a sua versatilidade para compor diferentes tipos. As peças de vestuário passam pela elegante blusa azul de Suzana Faini, pelo colete cinza sobre blusa branca de Rogério Freitas, até o costume conservador de Verônica Reis, sem se esquecer obviamente dos quipás. A iluminação de Renato Machado sublinha com destreza toda a ambiência daquele espaço em que se encontram familiares e se desenrolam os conflitos. Como o espetáculo apresenta diversos escalonamentos dramáticos, com aberturas para a introdução da comédia acerba, Renato, do mesmo jeito, busca seguir esta variação, e suas luzes e tons se alternam a fim de complementar com absoluta satisfação o conjunto cênico. Juntam-se a um plano aberto bem suave e agradável, focos como aqueles sobre a citada mesa, valorizando os que estão ao seu redor. “Silêncio!” é uma peça importante sob vários prismas. Aborda com desenvoltura em sua narrativa um tema tabu para um povo sem resvalar para parcialidades (e deixa os seus espectadores inteirados do assunto), e a partir daquele outras questões não menos relevantes para o núcleo familiar e para nós como um todo são levantadas. Um espetáculo que nos aproxima de uma realidade em potencial distante, mas que está bem ao nosso lado. Com um elenco unido na sua perseverança em nos contar com verdade teatral uma boa história, a obra de Renata Mizrahi, em sua essência, faz uma exaltação à supremacia da verdade em detrimento do silêncio que acumula hipocrisias, e destrói ruidosamente as relações humanas. “Silêncio!” é uma peça que não pode ser calada por tudo o que representa como expressão dramatúrgica. A voz cênica de “Silêncio!”, gigante em sua extensão, ultrapassando as fronteiras do palco, far-se-á ouvir por onde quer que passe, despertando ouvidos que teimam em se manter surdos. Muito além do proscênio.

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Este óculos, que integrou a coleção da grife Chilli Beans, que se associou à marca de cristais Swarovski, remete ao modelo “gatinha”, bastante usado nas décadas de 50 e 60.
Na totalidade do espaço de sua armação, o brilho ocupa lugar fundamental.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

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Estes são uns dos modelos de óculos em destaque da coleção apresentada pela Chilli Beans, em seu stand, na temporada Verão 2016 da São Paulo Fashion Week, realizada no último mês de abril.
Ambos estão ornados com correntes em que se encontram pendurados pingentes de cristais Swarovski (o primeiro, como podem ver, numa tonalidade mais escura, e o outro, na cor marrom).

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

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Sobre o stand da marca de óculos Chilli Beans, na qual havia totens com vários modelos de sua nova coleção, muitos deles ornamentados com cristais Swarovski, na edição Verão 2016 da São Paulo Fashion Week, podia-se admirar este imenso enfeite com diversos triângulos espelhados dependurados.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

2-Paulo-Betti_Autobiografia-Autorizada_credito-Mauro-Kury-22-1
Foto: Mauro Kury

Aproveitando-se dos debates recentes de lado a lado em torno da liberação ou não das biografias não autorizadas, o título do monólogo estrelado por Paulo Betti, que está completando 40 anos de carreira, não poderia ser mais apropriado, “Autobiografia Auto-risada” (o trocadilho já nos revela um sinal da adoção do humor por parte do autor, o próprio Paulo, em seu texto, ao narrar no formato dramatúrgico citado parte da trajetória de sua vida, principalmente as infância e adolescência no interior de São Paulo, em específico Sorocaba, nos idos dos anos 50 e 60, e sua fase na EAD, Escola de Arte Dramática da USP, Universidade de São Paulo, também abordada). A proposta de se montar uma peça com viés autobiográfico é, por si só, arriscada, temerária, levando-se em conta determinados fatores, como o potencial interesse que a vida do biografado poderá causar em terceiros. Vemos muitas biografias sendo retratadas nos palcos, sejam elas musicais ou não, mas, em pouquíssimas vezes, assistimos a um espetáculo cujo protagonista é o único contador de sua íntima história real, além de codirigi-la (com Rafael Ponzi). No entanto, o que se depreende ao avaliarmos a encenação de Paulo Betti é que se obteve uma conjugação extremamente harmônica, emocionante, verdadeira, lírica e divertida (apesar de alguns momentos de notada tristeza) de dramaturgia, direção e atuação. No belo cenário de Mana Bernardes, que busca uma rusticidade poética ao dispor sobre a ribalta um largo varal com panos e roupas dependurados, pilhas de livros (há uma vela que permanece acesa em cima de uma delas durante toda a peça), um casebre formado por camadas de tecidos diáfanos, um extenso painel ao fundo do espaço cênico sobre o qual se projetam significativas e simbólicas imagens, um microfone e seu suporte e uma banqueta de madeira, testemunhamos o desfiar encantador de “causos” contados por um Paulo Betti visivelmente entregue aos seus mais honestos sentimentos e emoções. Paulo se vale de sua prodigiosa experiência no ofício, seu talento incontestável e reconhecido carisma para fazer com que a plateia não seja somente uma mera e passiva ouvinte de seus relatos, mas que seja cúmplice de sua jornada, identifique-se de algum modo com a mesma, e com o intérprete se emocione. De pés descalços, vestindo apenas uma calça off-white e uma camisa social branca (o discreto e charmoso figurino, que inclui ainda uma improvisação de saia, um grande chapéu de palha e um paletó cinza, coube a Leticia Ponzi), o ator dialoga espontaneamente com os espectadores (não se vislumbram quaisquer resquícios de barreiras que impeçam a comunicação direta entre ambos, configurando-se como um dos pontos fortes da obra), discorrendo de modo linear ou não acerca dos acontecimentos que definiram a sua identidade como homem e artista. O dramaturgo em nenhum instante se esquiva de revelar aspectos particulares de sua família de origem humilde. Utilizando-se do interessante recurso de nos informar o significado dos nomes de seus parentes, o que nos dá uma possível previsão dos respectivos perfis, somos defrontados com episódios que exemplificam com potência como se convivia em distinto período com hábitos e costumes tão peculiares, inusitados, todavia, genuinamente naturais para o universo do qual faziam parte. Há em suas, pode-se afirmar, confissões, elementos que caracterizam o comportamento de indivíduos modestos que subsistem por meio de trabalhos forçosos, sem acesso ao estudo, com uma sabedoria singular adquirida pela dura vivência, e um alto grau de misticismos e sincretismos religiosos, manifestados por preces, benzeduras, simpatias e crendices. O Paulo criança, que ora se divertia com seu prosaico pião, e ora se aprazia com um brinquedo da época que consistia em uma vara que dominava um círculo, era obrigado a encarar a morte sem nenhum tipo de máscara. Nestes tempos que nos parecem longínquos, apenas nos parecem, o infante que se deliciava com os programas de rádio e idas posteriores ao cinema, enfrentava a visão dolorosa de um animal sendo abatido para o ágape. A opressão sexual era inclemente, alavancada por lendas e mitos. Os meninos recorriam às luxuriosas publicações de Carlos Zéfiro. A atriz francesa Michèle Mercier era objeto recorrente de fantasias inescapáveis. O ator, temporão, o caçula de 15 irmãos, evidencia que sempre manteve laços afetivos acentuados com o seu clã. E nos deixa transparecer que mesmo em meio a tantas adversidades havia uma felicidade implícita, uma ingenuidade que não se vê mais na atualidade. Desenha-se uma nostalgia sem teor melancólico. Em todo o conjunto cênico se percebe a inserção coerente de regionalismos, encontrados nas canções e no vocabulário usados. Paulo Betti traz para o seu texto citações de poetas como Menotti Del Picchia. Aliás, em bastantes passagens de sua dramaturgia, deparamo-nos com fraseados rimados, jogos de palavras. O intérprete em certas ocasiões canta músicas de caráter regional que lhe são preciosas com plena sensibilidade. Todo o processo de narração da história é escorado eficientemente nas projeções contínuas de imagens, provocando-nos estimulante curiosidade, que funcionam quase como um “segundo personagem”. Fotos antigas, certidões, documentos, diplomas, registros históricos servem para realçar e oferecer uma maior verossimilhança aos fatos descritos. A direção de Paulo Betti e Rafael Ponzi (assistência de direção de Juliana Betti) enfatiza a presença de um artista, com sua emoção, sobre um tablado, revelando, assumindo, confessando, expondo a verdade do cidadão Paulo Betti no tocante às suas experiências vividas. Muitas delas sofridas. Temos a nítida impressão de que se trata de um processo catártico de um consagrado ator, que por alguma razão louvável precisou lidar com memórias delicadas de seu passado. Não é fácil tocar em cicatrizes por vezes não fechadas, mexer em feridas que atravessam o tempo, lembrar-se de entes queridos que foram indispensáveis para o que somos hoje. E Paulo Betti teve a coragem de enfrentar a sua história, esmiuçá-la, revolvê-la, avaliá-la, senti-la, e o mais eminente, compartilhá-la conosco. Tanto Paulo quanto Rafael Ponzi lograram com inegável êxito levar esta insigne ideia para o ambiente cênico. A atuação de Paulo Betti é pautada em distintos segmentos, todos eles no mesmo nível de excelência. O ator, respeitado por seus inúmeros trabalhos no teatro, cinema e TV, possui um domínio de cena absoluto, que nos fica claro nos solilóquios, nas narrações de histórias, na personificação de seus familiares, vizinhos e pessoas que lhe eram próximas, e na conversa franca com o seu público, que desde o início do espetáculo se deixou levar pela magia do universo verídico exposto. Uma interpretação sensível, honesta e intensa, sem preterir uma comicidade elegante, amparada pela bonita voz do ator, que saboreia cada palavra emitida, e brinca, folgazão, com a multiplicidade de seus sons. A direção de movimento de Miriam Weitzman potencializa as capacidades expressivas de Paulo Betti, que se move e pausa com esbelteza (há dois atos que merecem a nossa atenção: o ator dança na plateia com uma das espectadoras, e dá vida a uma senhora com idade avançada com um trabalho de corpo criterioso). A iluminação de Dani Sanchez e Luiz Paulo Neném é admirável. A dupla nos oferta um quadro de cores e variações luminosas enternecedores. Azul, rosa, e outras tonalidades formam um conjunto pictórico rico. Há focos sobre o intérprete, meias-luzes e um plano aberto suave. A trilha sonora de Pedro Bernardes aposta em um cancioneiro regional que invariavelmente nos sensibiliza, além de clássicos como “O Mar”, de Dorival Caymmi, e a icônica “Je T’aime Moi Non Plus”, entoada por Serge Gainsbourg e Jane Birkin (e outras composições). “Autobiografia Auto-risada” é um espetáculo que coloca a verdade de um artista e sua história em um patamar meritório, uma encenação que reafirma o talento de um ator como Paulo Betti, ostentando ainda a sua aptidão para a dramaturgia e para a direção, e que se apresenta como uma alternativa de um teatro diferenciado, que mistura emoção e entretenimento, sempre com qualidade. Serve também para confirmar uma intimidade conquistada ao longo de anos com o seu público. Vimos Paulo Betti frente a frente consigo mesmo. Vimos Paulo Betti encarando o seu reflexo num imaginário espelho. Ao final da peça, vimos Paulo Betti nos revelando que o significado de Paulo é “pequeno”. Isto é um bom augúrio, pois toda e qualquer grandeza se originou incondicionalmente em uma potencial pequeneza. Paulo Betti está autorizado para mostrar a grandeza do “pequeno” do seu nome Paulo, em sua autobiografia com risada, no espaço de um palco iluminado, que representa as folhas abertas de um livro de amor declarado .


Uma das grandes atrações da edição Verão 2016 da São Paulo Fashion Week foi o stand da marca de óculos Chilli Beans, que além de mostrar sua nova coleção com cristais Swarovski, impressionou o público com esta gigantesca réplica de um de seus modelos (a reprodução está cercada porque logo depois o convidado principal da grife, o músico americano Iggy Pop, iria aparecer, e fazer uma performance; no momento em que o artista surgiu, o assédio dos convidados e imprensa foi intenso).

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG


Antes de começar a principal semana de moda do país, a São Paulo Fashion Week, em sua temporada Verão 2016, os convidados se aglomeravam na entrada do evento montado no Parque Cândido Portinari, enquanto o cinegrafista aguardava a chegada das celebridades.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG