Arquivo de abril, 2016

Foto: Leo Aversa - Crédito obrigatório.
Foto: Leo Aversa

Em “Incêndios”, tudo se inicia com um testamento. Um inesperado testamento que servirá como agente desencadeador da trama admirável e impressionantemente bem estruturada por seu autor, o libanês radicado no Canadá Wajdi Mouawad (a história surgiu de um processo colaborativo de Wajdi com o coletivo teatral que dirige, Au carré de l’hipotenusa), tendo a escrito no não tão longínquo ano de 2003, e que rendeu um longa-metragem homônimo, lançado em 2010, dirigido por Dennis Villeneuve, e que fora indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. No espetáculo, o circunspecto e resoluto tabelião Jean Lebel (Marcio Vito), no novo escritório do qual se gaba de sua aprazível vista, lê e explica solenemente para os filhos gêmeos de 22 anos, Jeanne e Simon (Keli Freitas e Felipe de Carolis, respectivamente) o que sua mãe, Nawall Marwan (Marieta Severo), manifestou de modo claro como suas derradeiras vontades. Na peça dirigida por Aderbal Freire-Filho, que estreara no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, no segundo semestre de 2013, e desde então tem recebido merecidos e importantes prêmios, com elogios unânimes de público e crítica, Jeanne é uma autocentrada e decidida professora universitária de Matemática (ela realiza complexas comparações entre o núcleo familiar e a Geometria, posicionando o primeiro no cerne de um polígono). Simon é um boxeador amador que extravasa a sua rebeldia e agressividade jovens nos treinos constantes com o seu preparador físico (Flávio Tolezani). Nawal determina aos seus descendentes incrédulos e confusos que saiam em busca de seus pai e irmão desconhecidos no Oriente Médio (em região não especificada na montagem), e lhes entregue dois simples envelopes. Deixou-lhes ainda uma camisa verde de enigmático número 72, um caderno de brochura vermelha, e exigências quanto ao seu enterro (que seja sepultada nua, de bruços, sem epitáfio e pedra sobre ela, permitindo somente as águas dos baldes jogadas em seu corpo inerte). Após cinco anos imersa em silêncio num quarto de hospital ocidental, vinda de terras árabes, amparada por fiel enfermeira (Fabianna de Mello e Souza) que grava suas ausências de sons em fitas cassetes, na volta ao lar, assevera: “Agora que estamos juntos, tudo ficará melhor”. Retornando ao desorientador testamento, Simon vilipendia sua progenitora com vocábulos ofensivos, afogado em infinita revolta, enquanto Jeanne resolve desvendar passo a passo a existência pretérita de quem lhe deu a vida (a enfermeira de sua mãe, hoje funcionária de um teatro, responde às suas urgentes inquirições). Com mochila nas costas, segue firme em peregrinação tortuosa na procura inglória pelos seus consanguíneos, comunicando-se algumas vezes com o seu irmão. A montagem não se submete a uma linearidade arbitrária de tempo e espaço, o que nos permite entender como se deu toda a aterrorizante jornada de Nawal. Moça, quase criança, aldeã, conhece o amor do rapaz de mesma aldeia (Isaac Bernat). O amor é proibido pela mãe da amante (Fabianna de Mello e Souza), e dele surge um filho, previsto pela velha senhora, sua sábia avó (Fabianna de Mello e Souza). Nunca mais se viu o rebento, que teve como pioneiro berço um velho balde. Também não se teve mais notícias de seu amado. A aldeia ficou vazia, e Nawall segue o seu destino incerto, incerta dos horrores que a esperam.  Em seu périplo, em meio a uma terrífica guerra civil, com as barbáries perpetradas por soldados, milicianos e tropas estrangeiras, encontra Sawda (Kelzy Ecard), uma boa mulher que se apraz em cantar com sua linda voz. No entanto, Sawda se adapta e corresponde em atitudes em grau similar às desgraças de um conflito bélico que a arrebatam. Unem-se na paz da aliança e nas temerárias batalhas que as espreitam. Na conjunção de presente e passado, Jeanne segue viagem, e se defronta com pessoas, como um camponês e um zelador de escola (Isaac Bernat), que podem ajudá-la a descobrir o paradeiro de seus familiares, enquanto que Nawall ensina à sua nobre parceira a arte das letras, na escrita e na leitura. A dupla escuta a orquestra dos tiros insanos. Nas loucuras de uma guerra injustificada como as demais guerras, as mulheres comuns empunham coronhas de armas, tornam-se guerrilheiras, o rosto é camuflado nas tintas, e os estampidos de seus disparos já não lhes soam tão assustadores. Mas crianças, idosos e mulheres carbonizados por chamas e incêndios criminosos num ônibus de civis inocentes ainda aterrorizam Nawall. A morte é banal. Sua mente explode em “incêndios”.  A marca da maldade humana se esprai em celas de prisão nos estupros contínuos e abomináveis e nas torturas contínuas e inomináveis. No deserto da destruição da paz, vê-se um aloucado franco-atirador (Flávio Tolezani) com o seu pesado fuzil sobre o ombro, um “sniper” cantando Supertramp, que usa as mãos frias de seus assassinados como microfone de suas frases desconexas ditas num inglês indigente. A verdade começa a aparecer para Jeanne por intermédio de um misterioso homem (Isaac Bernat). Nawall, “a mulher que canta”, que escreveu o epitáfio de sua avó profética, dilacerada pela dor que a acompanhou pelas estradas de sangue, trajada com vestido da cor da escuridão, depõe contra quem lhe fez o mal em um tribunal, num discurso frio e comovente que selará o seu final. A dramaturgia de Wajdi Mouawad, que teve a irrepreensível tradução de Angela Leite Lopes, causa-nos forte e marcante impressão pela forma com que foi brilhantemente estruturada. A peça, que se passa em várias fases da vida de Nawall, sendo que alguns desses tempos distintos que a definem se defrontam com os dias atuais, exigiu de seu autor uma ilimitada capacidade de composição, arranjo e posicionamento das etapas de sua rica história dentro das linhas exigíveis de um contexto teatral, sem que em nenhum momento se perdessem as suas lógica, coerência e fluidez narrativa. “Incêndios”, pode-se dizer, bebe na fonte das tragédias universais clássicas, que têm as mulheres como protagonistas de suas miserabilidades. O próprio Aderbal Freire-Filho, o diretor, afirmou que Nawall se assemelha a uma Medéia, uma Antígona ou Jocasta. Uma obra extremamente contemporânea, que faz um retrato fiel das desgraças da humanidade, como as guerras civis sem fim e sem motivação que nos convençam e o drama clamoroso dos refugiados, e as matanças dos que vivem na inocência. Aderbal, que teve como assistente Fernando Philbert, tomou para si um enorme desafio ao aceitar dirigir esta montagem de avolumada complexidade. O encenador com sua vasta experiência e conhecimentos prático e teórico da milenar arte não se intimidou, e conseguiu selecionar os elementos chaves para tornar a produção em algo cênico que fosse irreversivelmente atraente, instigante, inteligível e emocionante para o seu público. Apostou na ação continuada amparada por um crescente suspense. O diretor logrou prender a nossa atenção com o jeito altamente hábil com que conduziu os seus personagens em cena, sempre procurando atingir uma movimentação, uma dinâmica certeira e adequada dos intérpretes na ribalta, seja em suas marcações, deslocamentos no espaço, entradas e saídas, e ocorrências temporais concomitantes. Há uma linda cena, dentre tantas, em que os atores formam um círculo, e dentre eles estão os baldes, que possuem um alto valor simbólico no enredo. Todo o conjunto da encenação, que vai da atuação de seus atores, passando pela luz em consonância com o cenário, associado aos demais aspectos, torna a direção de Aderbal Freire-Filho exemplar. A Marieta Severo, como Nawal Marwan, coube o valioso, exigente e poderoso exercício artístico de imprimir uma infinita paleta de emoções às diferentes fases de sua vida no entrecho da montagem. Marieta estudou, pesquisou e definiu com apuro interpretativo a sutileza dos gestos, posturas, e consequentemente a voz oportuna, da jovem moça aldeã apaixonada, e depois, decepcionada, tanto com a perda de seu filho quanto com o desaparecimento de seu amado, da mulher aguerrida no seio dos conflitos bélicos, da mãe com sentimentos torturados pelas cruentas contingências, e novamente da mãe redentora e esperançosa de seus atos finais. Marieta, uma das atrizes mais respeitadas do país, evidencia-nos em cada fala, movimento, ação e reação o que a sua prodigiosa vivência como intérprete lhe proporcionou no decorrer de tão preciosa carreira, tornando a construção de sua personagem em outro momento memorável de sua trajetória como missionária das Artes. Felipe de Carolis, um talentoso ator de sua geração (idealizador do projeto, sendo um dos produtores da peça, juntamente com Marieta Severo e Maria Siman, tendo como produtor associado Pablo Sanábio) criou Simon com pujança e explosão dramática, demonstrando os níveis exatos de suas revolta, insatisfação e exasperação com a situação vigente dos acontecimentos narrados. Além disso, em outro episódio da encenação, ostenta sua visível aptidão e entendimento para nos convencer da sensibilidade genuína de seu papel, até então desconhecida, e o seu assombro incontornável ao se deparar com verdades substancialmente desconcertantes e avassaladoras. Keli Freitas, como a sua irmã gêmea Jeanne, agrupa suas cargas emotivas com precisão a fim de que possamos enxergar na moça que se vê de hora a outra com a árida missão de descobrir o paradeiro de seus entes queridos um caráter determinado pela sensatez, pela razão e por sua perseverança inquebrantável na conquista do encargo pesado que lhe foi passado pelas situações adversas (espantoso é o momento em que discursa acerca de teorias matemáticas com segurança e credibilidade). Marcio Vito defende com sobejas compreensão e inteligência artísticas a função do notário Jean Lebel, desenhando o seu papel, que possui elevada relevância no desenvolvimento da trama, com a sobriedade correta e o incisivo poder de convencimento que um homem de seu cargo deve ter, baseado na legalidade acompanhada de seus trâmites burocráticos. Kelzy Ecard compôs com esmero e sensibilidade as linhas da personalidade de Sawda com apreciáveis variações de interpretação, típicas de uma atriz experiente e sabedora de seu ofício, todas elas em perfeita harmonia com os fatos vivificados pela aldeã/camponesa que ecoa pelos cantos do deserto sua canora voz, associada ao desejo íntimo, em meio ao terror presente, de se familiarizar com a magia e o encanto das letras, ensinadas por sua amiga Nawal. Flávio Tolezani exibe em cada um dos papéis que defende uma notável, elogiosa e diferenciada visão acerca dos tipos característicos que personifica. Como o preparador físico de Simon, Flávio oferece-nos uma composição bem definida sustentada na energia determinante e incentivadora dos que se sujeitam a exercer esta profissão como meio de vida (funciona outrossim como uma espécie de confidente para o irmão gêmeo). Já como o ensandecido franco-atirador, Flávio Tolezani exerce um belo trabalho de modelagem artística de seu complexo papel. Ele cria com ostensiva intensidade dramática a figura de um ser patético, repulsivo, frio, desesperado no universo de suas próprias neuroses e perturbações mentais. O intérprete emite as suas falas e cantarola em diminutos intervalos, misturando os idiomas Inglês e Português, numa histeria agonizante. Todavia, em momento diverso, vemos o “sniper” com relativo nível de contrição, mas sem preterir jamais sua reconhecida gelidez. Isaac Bernat, que além de ator, possui uma trajetória bem-sucedida como diretor teatral, empenha-se com glória e obtém dignificante resultado na construção dos variados personagens que vivencia no entrecho cênico. A Isaac foi proposta uma tarefa não fácil de, por intermédio das pessoas significativamente opostas entre si a quem lhes dá vida, perpassar toda a história, servindo como um instrumento individualizado que situa os demais partícipes no contexto dos acontecimentos da obra contada. Seja como o puro, sonhador e romântico jovem que se enamora por Nawall, seja como o camponês típico e o simplório zelador de uma escola que trabalhara em uma prisão ambos esclarecedores das dúvidas de Jeanne, e por fim, como o homem cercado de enigmas que auxilia sobremaneira na elucidação do sedutor mistério, Isaac se revela um intérprete de inegável e indiscutível valor, provando-nos toda a sua inteligência sobre o que faz e realiza em prol de todo o conjunto cênico. Fabianna de Mello e Souza se desdobra com brilhante eficiência e desenvoltura interpretativa nos distintos papéis que lhe são ofertados. Convence-nos como a severa e implacável mãe de Nawall que não admite o seu namoro juvenil tampouco o fruto resultante deste; como a vetusta mulher, exponencialmente sábia, amorosa, misteriosa em suas previdências, avó de Nawall; e como a solícita e generosa enfermeira da progenitora dos gêmeos em seus longos tempos de hospital, depois funcionária de um teatro (quem sabe, uma homenagem de Wajdi Mouawad à sua Arte). A luz de Luiz Paulo Nenen é imensamente bela. Por mais dramáticos e desoladores que sejam os temas abordados pela obra de Mouawad, por mais árido que nos seja acompanhar as dores morais e físicas de Nawall, inclusive no ambiente de uma guerra, Luiz Paulo, com acentuado senso de apuro estético e sensível propósito de “colocar luz sobre o que é escuro”, logrou um incrível resultado cênico/visual ao direcionar sua iluminação, numa parcela considerável, sobre os gigantes painéis formados por um material vazado que nos remete a um metal oxidado/enferrujado pela passagem do tempo (deslumbrante cenografia de Fernando Mello da Costa). Pode-se afirmar que se intentou uma supremacia de tons terrosos em suas luzes (mesmos tons adotados em alguns figurinos). A cor da terra, a cor da terra do deserto. O mesmo deserto da guerra. Seus feixes luminosos são, sem exceção, estratégicos e potentes. Sem trocadilhos, logísticos, não abjurando os planos abertos (jamais exagerados), os focos sobre o intérprete, sem que haja luz à sua volta, e uma calculada gradação de tonalidades luminosas que perpassam todo o espetáculo. O cenário, como dito, e os objetos, ficaram ao encargo de Fernando Mello da Costa. Faz-se necessário que se fale um pouco mais dos painéis vazados com textura metálica (vislumbram-se por detrás deles poéticas e sugestivas silhuetas de arbustos e galhos secos e retorcidos, e a imagem e ação de alguns personagens). Os mesmos, que circundam o perímetro cênico, além de serem incontestavelmente funcionais (constituídos por portas, não percebidas a princípio por nós, até que sejam abertas e fechadas para o entra e sai dos personagens – o vaudeville e seu legado se manifestam até na contemporaneidade), são de modo inegável belos. A grandiloquência destes elementos implica em significações relativas, jamais absolutas. Sua exuberância “metálica, oxidada, enferrujada e dourada” traz em si o fluxo do tempo da narrativa, com o passado se imiscuindo ao presente, ou seja, não representa exatamente uma época específica, indicando, reitero, a irrefreável passagem temporal. O mesmo se pode dizer quanto à questão geográfica do entrecho. A não definição de espaços reconhecíveis no mundo (países, lugares…) justifica a “imparcialidade” do cenário. Fernando se utiliza ainda de objetos precípuos para a configuração temática da encenação, como uma bicicleta antiga, uma estante rústica com utensílios domésticos, uma mesa retangular de escritório com suas cadeiras modernas (e outras de madeira), tamboretes, bancada, guarda-chuva, armas, envelopes, papéis (há uma emblemática cena em que os intérpretes lançam para o ar vários destes, numa metafórica revoada de pássaros – Nawall cita algumas vezes o seu voo de liberdade), e os baldes de metal, signos imponentes e decisivos para os destinos dos participantes da história. Os figurinos de Antônio Medeiros são notavelmente coerentes, em perfeita sintonia com o perfil dos muitos personagens que passeiam por fases históricas diferenciadas e localidades com suas culturas particulares. Antônio se esmerou em precisar cada detalhe dos costumes usados, a fim de que melhor compreendamos o que se desenrola cenicamente. A congruência de seu trabalho é observada nas roupas modernas dos jovens irmãos gêmeos, com moletons e t-shirts despojados, na rusticidade e simplicidade dos trajes aldeões em tons terrosos e crus, no vestido bem cortado negro da Nawall enlutada, na composição caótica da vestimenta de um franco-atirador e seus acessórios (atendendo à sua mente caótica), e na sobriedade cinzenta do terno, colete e gravata do homem dos documentos, além de outras acertadas interveniências. A trilha sonora de Tato Taborda funciona com estimulante potência, provocando-nos incontida estupefação, assumindo a posição de peça chave para o incremento real e valorização legítima de cada sequência de ações da obra. Tato se utiliza dos acordes de um rock pesado, acelerado e pulsante nas cenas de maior tensão. Apropriadamente, ouvimos em árabe canções com notas tão bonitas quanto melancólicas. Há na trilha que acompanha o espetáculo sons incidentais, que nos posicionam num “thriller” bélico, dramático, trágico e familiar. O suspense na saga de Nawall e seus filhos é inato, congênito. Somos surpresos ainda por múltiplos ruídos, que vão dos estampidos ensurdecedores e aterrorizantes dos tiros disparados a esmo ou com intenção, até a poesia e ao idílio inerentes a uma brava chuva que se abate. A direção de movimento de Marcia Rubin empresta vasta sapiência à ação solicitante do texto de Mouawad. Os atores e seus corpos atendem às suas demandas com notada reverência. É visível a marca da conceituada coreógrafa no modo como o material físico de seus intérpretes (o corpo) é explorado. Muitas são as posturas, andanças e movimentações no palco. Dentre tantas, podemos destacar mais de uma passagem em que os gêmeos Simon e Jeanne se abraçam, unem-se, entrelaçam-se numa mistura de afeto e carência, como se ainda estivem “colados” no ventre materno, servindo como prova de que o caráter geminiano dos filhos permaneceu vivo e real, afora o aspecto biológico que os define. “Incêndios” é um espetáculo ao qual não se assiste impunemente. Não ficamos incólumes à ferocidade e contundência brutas de sua narrativa. Ademais, não deixamos de ser alvejados pelas emoções tão díspares e complexas dos seres humanos que nos são colocados à frente. O espetáculo dirigido por Aderbal Freire-Filho é uma flâmula incendiária que tremula ao sabor dos ventos do conhecimento minucioso da alma e do comportamento do homem moderno. Em “Incêndios”, conclui-se que, acima de quaisquer desvarios da humanidade, simbolizados por guerras sem términos, existe um amor, um silêncio e uma verdade que juntos são capazes de derrubar todo e qualquer exército de ignorância e intolerância.

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O modelo David Martins na temporada Verão 2016 da São Paulo Fashion Week, promovida no Parque Cândido Portinari.
David nasceu em São Luís, no Maranhão.
Foi descoberto pelo maquiador Edilson Ferreira em sua cidade natal.
Apresentado à agência Mega Model Brasil, em São Paulo, fora contratado.
Atualmente morando no Brooklyn, em Nova York, é agenciado pela RE:Quest Model Management (Nova York) e pela Mega Model Brasil.
Já fez campanhas para a Calvin Klein e Rockstter, e desfilou tanto no Fashion Rio quanto na São Paulo Fashion Week, apresentando as coleções de diferentes marcas, como Colcci, Lino Villaventura, João Pimenta, Blue Man, Coca-Cola Clothing, Reserva, Alexandre Herchcovitch, Carlos Miele, R. Groove e Ricardo Almeida.
No Fashion Rio Outono Inverno 2014, o modelo desfilou para três grifes.
Passou uma temporada em Milão (participou da Semana de Moda Masculina de Milão).
Fernando Torquatto, Greg Vaughan e Jr. Becker o fotografaram para ensaios.
Participou de uma campanha internacional da Versace, que o fez conhecer vários países.
Recentemente, David Martins desfilou na New York Fashion Week Men’s (Primavera Verão 2016) para as brands Parke & Ronen e Asaf Ganot.
Em Paris, foi selecionado para integrar o cast do desfile do estilista Givenchy, apresentando a coleção Outono Inverno 2016.
Nesta edição comemorativa dos 20 anos da SPFW, David Martins circulou pelas passarelas vestindo peças da marca Cavalera.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

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Foto: Pedro Carrilho/Gshow

A frase célebre do poeta romano Virgílio “Liberdade ainda que tardia”, mostrada na primeira imagem da nova novela das 23h da Rede Globo “Liberdade, Liberdade”, de Mario Teixeira, com a colaboração de Sérgio Marques e Tarcísio Lara Puiati (baseada em argumento de Marcia Prates, que se inspirou livremente no livro de Maria José de Queiroz, “Joaquina, Filha do Tiradentes”), com direção artística de Vinícius Coimbra, já nos introduz, com propriedade, assim como o título do folhetim, no universo autoritário e perverso do Brasil Colonial do Século XVIII, onde se morria por se defender “o direito do povo à praça”. No insalubre Cais do Porto do Rio de Janeiro, temos a pioneira visão de um impoluto homem de farda escura e respectivos galões rubros mirando as embarcações na Baía de Guanabara. O Alferes Joaquim José da Silva Xavier (Thiago Lacerda), alcunhado Tiradentes, caminha no meio da desordem e do caos do local (a câmera da direção o acompanha por trás), mantendo o passo firme e ligeiro dentre mercadores de peixes, soldados, pessoas do povo e negros escravos aviltados por pesados grilhões que os unem, até encontrar e abraçar fortemente o jovem Vendek (Gabriel Chadan), que lhe entrega um livro redentor, o “Recueil”, no qual se pode ler “A Declaração da Independência da América”, que servirá como base precípua para o movimento inconfidente brasileiro. O rapaz entusiasmado é aconselhado pelo militar a não pronunciar a palavra “conspiração” e a “vigiar sua sombra”. No colóquio com o poeta Tomás Antônio Gonzaga (Jorge Emil), Tiradentes discorre sobre a falência de Portugal, e as toneladas de ouro que foram usurpadas pelos ingleses. Teme-se a vinda de toda a Família Real para o Brasil, o que impediria a libertação definitiva da população de seu jugo. Ambos são surpresos por um aliado da Corte, e o derramamento de sangue se inicia. A saída para o Alferes é levar o inspirador livro para o sertão mineiro. Lá, escreve com sua pena, em uma das folhas daquele, uma dedicatória para a sua filha Joaquina (Mel Maia, que será vivida posteriormente por Andreia Horta). Mateus Solano entra em cena como Rubião, um personagem ficcional. O cidadão de fino bigode, com suor a escorrer pelo rosto, vai à procura do Alferes. Brincando com uma moeda entre os dedos, conhece a menina Joaquina, para quem “querer é poder” (Joaquina se ressente da ausência de seu pai). Com o pretexto de extrair um dente, é recebido pela simplória e voluptuosa Antônia (Letícia Sabatella), mãe da esperta garota. Na verdade, Rubião fora lhe dar um saco de ouro, como auxílio para a “causa inconfidente”, o que não agrada a ex-amante do “conspirador” (Antônia não concorda com os atos revoltosos de Tiradentes, por achar que o seu fim será iminente, em outras palavras, a forca). Com belas tomadas aéreas do sertão das Minas Gerais, o inconfidente, com seu cavalo valente, é abordado pelo temido e perigoso salteador Mão de Luva (Marco Ricca) e seu bando. Mão de Luva, com sua voz peculiar, anuncia-se como um “súdito de Sua Majestade, a Rainha”. Os bandoleiros agridem Tiradentes. Após ajeitar sua grotesca peruca, Mão de Luva o rouba, inclusive o livro “Recueil”, que julga ser importante. O defensor da República e da liberdade geral reencontra com júbilo a sua única descendente. Em seguida, numa sala de audiências, é acusado por Antônia de assédio, promessas falsas de matrimônio, e “pudicícia” ofendida. O juiz o pune, obrigando-o a transmitir um de seus bens à mãe e a filha, e a reconhecer legalmente a última, registrando-a com o seu nome. Em outra passagem do entrecho, ao ver um artista de rua sendo espancado por um soldado por usar as suas marionetes como veículo indireto de oposição política, o Alferes profere um inflamado discurso em praça pública, em defesa da liberdade do povo perante o seu governo, asseverando que este tem o dever de zelá-lo, guardá-lo e protegê-lo. A população se atiça com os seus gritos repetidos de “A praça é do povo, senhores!”. Em Portugal, no palácio imperial, a Rainha Maria I (Lu Grimaldi), com seu vestido opulento com a cauda suspensa por serviçais, ao lado de um clérigo, toma ciência da formação de uma conspiração no país que coloniza contra o seu poder absoluto. Para Maria I, tudo se resolve com a execução de seus opositores e descendentes, pois, segundo ela, “um traidor não pode ficar para semente”. Ricardo Pereira interpreta o Capitão Tolentino, que leva Abreu Vieira (Rico Gonçalves), o padrinho de Joaquina, ao Visconde de Barbacena (Xando Graça), que o acusa de contrabando de diamantes e conspiração contra a Rainha. Silvério dos Reis (Ricardo Dantas), também presente, sofre agressão. Os nomes de todos os conspiradores são exigidos. Lilia Cabral vive a personagem Virgínia, a dona do bordel de Vila Rica, em Minas. Sempre com um cantil de bebida, Virgínia lamenta o roubo do livro, num encontro com o Alferes (ele defende o uso de armas, e não somente as ideias, para atacar o Império, e cita como exemplo a luta dos norte-americanos contra os ingleses). Tiradentes e Rubião se reúnem, e se dão conta de que estão sem recursos para prosseguir com a Inconfidência. O bordel é invadido pelo Capitão Tolentino e sua tropa. Enquanto os “conspiradores” se divertiam com prostitutas, recebem voz de prisão por crimes de conspiração e alta traição, em nome da Rainha. Os presos serão levados para o Rio de Janeiro. Antônia fica desolada com a captura de seu ex-amante. Nu, acorrentado, esbofeteado, com sangue a jorrar pela boca, Rubião é torturado, até que diga com quem está o livro da conspiração. Silvério dos Reis o convence a revelar, em troca da comutação de sua pena. Rubião ainda silencia, até que um ferro em forma de gancho é aproximado de seu corpo. Enfim, fala: – O Alferes. Tiradentes. O livro está com ele. O Alferes também é brutalmente espancado, mas não assume a liderança da Conjuração Mineira. Diz algo em tom profético: – Minha morte é só o começo. Escondida em uma carroça, Joaquina foge do campo, e chega à cidade iluminada por tochas para ver o seu pai. O último encontro é rápido, sem direito a choros. No centro citadino, com a população estrepitosa, Joaquina ouve a sentença condenatória de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e o detalhamento com requintes de crueldade do que será feito com o seu corpo morto. Tudo é testemunhado por um misterioso homem, Raposo, também um personagem fictício (Dalton Vigh), simpatizante dos inconfidentes (será o pai de criação de Joaquina, e seu tutor e conselheiro). Traído por Rubião e Silvério na ficção, a vida de Tiradentes é roubada pela corda impiedosa da Coroa. No primeiro capítulo de “Liberdade, Liberdade”, a direção de Vinícius Coimbra (diretor artístico), André Câmara, João Paulo Jabur, Pedro Brenelli e Bruno Safadi apostou na agilidade das cenas, no “timing” do enredo, na diversificação dos enquadramentos e ângulos, e na preocupação de tornar uma história com muitos elementos históricos em algo plenamente assimilável pelo grande público. Os coerentes figurinos de Paula Carneiro e a direção de arte impecável de Mário Monteiro impressionaram. O elenco foi um dos inquestionáveis trunfos deste primeiro capítulo, com todos os intérpretes ostentando perfeita sintonia e compreensão de seus papéis. Thiago Lacerda, destemido como Tiradentes. Mateus Solano, envolvente como Rubião. Letícia Sabatella, determinada como Antônia. Marco Ricca, cínico como o bandido Mão de Luva (ótima composição do sotaque). Lilia Cabral, charmosa e sábia como Virgínia. Lu Grimaldi, prepotente como Maria I. Mel Maia, comovente como a corajosa Joaquina. Ricardo Pereira, como o leal Capitão Tolentino. E Xando Graça, como o nobre glutão e sem meias palavras Visconde de Barbacena. Não houve quem não brilhasse, e se destacasse nesta instigante e oportuna trama. A novela “Liberdade, Liberdade” possui o indiscutível mérito de resgatar um período determinante de nossa História em uma época em que a política brasileira necessita de revisões profundas. Os telespectadores tem, assim, uma preciosa chance de assistir a uma abordagem ampla com elementos reais e ficcionais de um dos maiores valores da sociedade, a liberdade. Liberdade, vocábulo tão rico e útil para os legítimos funcionamento e engrenagem da democracia. Que todos nós, politizados ou não, lembremo-nos do que disse o Alferes para os seus pares num momento de paixão e inspirada oratória: – A praça é do povo, senhores!. E do pensador Virgílio, com sua frase. Tardia, breve, urgente, a genuína verdade é que precisamos sempre dela: a liberdade, liberdade.

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Foto: Caiuá Franco/Rede Globo

Com a exibição da primeira fase de “Velho Chico”, novela das 21h de Benedito Ruy Barbosa, escrita por Edmara Barbosa e Bruno Barbosa Luperi (com supervisão de texto de Duca Rachid), confirmamos não somente a excelência estética e visual, e a ousadia e o arrojo na condução de suas cenas por parte de seu diretor artístico Luiz Fernando Carvalho. Luiz Fernando, que também é diretor de núcleo da Rede Globo, possui a vocação inata de revelar novos nomes, em particular jovens atores, para o grande público que acompanha os folhetins do horário nobre. Não foram poucos os casos em que tal fato decorreu. Na pioneira fase da história de “Renascer”, que foi ao ar pela citada Rede Globo em 1993, criada pelo autor da produção atual, fomos apresentados com maior realce ao casal Patrícia França (a atriz já havia estreado em uma minissérie) e Leonardo Vieira, como Maria Santa e Coronelzinho, respectivamente. Não fora distinto com a obra seguinte que reeditou com similar grau de sucesso a profícua colaboração entre o diretor e o teledramaturgo, com a novela “O Rei do Gado” (1996). Nesta atração, novamente em sua primeira fase, os intérpretes Marcello Antony e Caco Ciocler tiveram a sua real oportunidade na TV, e ambos se mantêm como artistas respeitados até hoje. E para concluirmos esta introdução, não podemos deixar de mencionar a premiada minissérie “Hoje é Dia de Maria”, que nos mostrou uma Carolina Oliveira, como Maria, encantadora. Nas semanas que marcaram os capítulos iniciais de “Velho Chico”, e que serviram primordialmente para nos familiarizarmos com a gênese do enredo a ser desenvolvido no futuro, deparamo-nos com um time excelso de intérpretes do calibre de Tarcísio Meira, Selma Egrei, Umberto Magnani, Chico Diaz, Cyria Coentro, Rodrigo Lombardi e Fabiula Nascimento. Rodrigo Santoro retornou às novelas, gênero onde começou, com enorme maturidade conquistada por anos nos cinemas. Carol Castro iluminou a “gitana” Iolanda. Barbara Reis foi uma agradável surpresa. Julio Machado nos atemorizou com a sua soturna capa preta. Marina Nery, estreante, fascinou-nos com sua beleza selvagem. Dentre os jovens que substituíram as crianças (todos convincentes em suas construções dos perfis e intenções de seus papéis, como a doce Maria Tereza, Julia Dalavia, o arisco Ciço, Pablo Morais, a maldosa Luzia, Larissa Góes, e o acanhado e justiceiro Bento, Dyio Coêlho) está o ator pernambucano Renato Góes, que interpreta o bravo, indômito, viril, romântico e probo Santo dos Anjos, um dos filhos de Belmiro (Chico Diaz). No entanto, engana-se quem pensa que o artista nascido no Recife, e que se formara na Escola Sesc de Teatro – PE, e estudado na Casa das Artes de Laranjeiras, não conhece bem o veículo da televisão. Após participações nos folhetins da TV Globo “Pé na Jaca” e “Cama de Gato”, defendendo curiosamente os papéis de Marcos Pasquim, Lance, e Marcos Palmeira, Gustavo, só que em uma fase mais jovem, e “Água na Boca”, na Band, o intérprete, que também foi apresentador do programa “Comentário Geral”, da TV Brasil, destacou-se com mérito na telenovela imaginada por Duca Rachid e Thelma Guedes, “Cordel Encantado”, como Fausto Peixoto. Voltou a trabalhar com as autoras, na mesma faixa da grade, em “Joia Rara”, desta vez personificando Nuno. Depois de uma passagem pelo quadro do “Fantástico” “Eu Que Amo Tanto”, o ator, que detém vasta experiência teatral, colecionando inúmeros espetáculos (dentre os quais, a “Paixão de Cristo” de Nova Jerusalém, “Cachorro Quente” e “Fazendo História”) ganha a ótima chance de participar da caprichada minissérie de Manuela Dias, exibida no início deste ano, “Ligações Perigosas” (na folhetinesca história baseada no livro homônimo de Choderlos de Laclos, Renato interpretou Vicente, o melhor amigo de Augusto de Valmont, Selton Mello). Não tardou para que Renato Góes já estivesse em locações impressionantemente belas do Nordeste brasileiro compondo com todas as minúcias necessárias um dos protagonistas da primeira fase de “Velho Chico”. Assim que vimos o ator de barba espessa e negra entrar em cena, logo percebemos que estávamos diante de um artista seguro, firme, convicto e plenamente consciente da psicologia do seu personagem Santo. Uma das cenas que de imediato chamou a atenção do público por sua beleza plástica fora a dos recém amantes Santo e Maria Tereza trocando carícias e beijos molhados nas águas régias do Rio São Francisco. Com precisa iluminação a valorizar seus corpos, transformando-os em silhuetas apaixonadas, os enamorados, como crianças efusivas com suas descobertas, selam ali o seu amor. Mas, como a novela assume as suas inspirações no clássico shakespeariano “Romeu e Julieta”, os obstáculos e oposições eram iminentes. Seguiram-se tensos confrontos entre o Coronel Afrânio (Rodrigo Santoro) e Santo. O rapaz que usa um escapulário e um lenço vermelho preso à cabeça que o faz lembrar um cigano, em cima de um lépido cavalo, livrou-se de uma emboscada de Ciço (Santo exigiu de Renato Góes acentuado preparo físico, pois muitas foram as cenas de cavalgadas e ação). O amor de Santo e Maria Tereza teve um preço. A morte de seu pai Belmiro, que se pôs à frente do filho, a fim de salvá-lo de um tiro, disparado por Ciço, aquele que o chama de “mardito”. Em um dos momentos mais impactantes de “Velho Chico”, Santo leva o seu pai, banhado em sangue inocente, sob o som do trote de seu cavalo, ao encontro de sua família pranteada. Santo se torna assim o prócer dos plantadores oprimidos de algodão de Grotas do São Francisco. Herdou os ideais de mudança e justiça do Capitão Rosa (Rodrigo Lombardi) e seu ascendente. Com o apoio dos olhos emocionados de Eulália (Fabiula Nascimento), Santo decide transformar a região, irrigando-a e plantando novos frutos. Seu amor moreno selado no rio lhe foi arrancado do peito, e trancafiado em um convento. Cartas de amor de Tereza jamais chegavam às suas mãos, pois antes, pelas mãos de Luzia, viravam cinzas de ciúme. Acusado de um crime que não cometeu, assediado pela pérfida irmã de criação, Santo, um cavaleiro quixotesco do agreste, sente-se cada vez mais acuado e desiludido. Desconhece que Maria carrega um filho seu. Fugida da casa de seu pai em Salvador, a filha do Coronel flagra o amado num beijo roubado. Iolanda, a “gitana”, lê a sua mão, e não vê algo bom. O pai lhe arranja um casamento com o jovem ambicioso Carlos Eduardo (Rafael Vitti), que sonha em ser Governador. O encontro definitivo entre Santo e Maria Tereza está por vir, e o seu amor se redefinirá. Renato Góes, que também já integrou o cast de filmes, como “Pequeno Dicionário Amoroso 2”, encerra a sua participação na primeira fase de “Velho Chico” no próximo sábado (caberá a Domingos Montagner viver o mesmo papel na semana seguinte). Todavia, os telespectadores não irão se esquecer do olhar firme e da voz segura com acento genuíno brasileiro de Renato. De seu sorriso largo e branco. De seu rosto suado pela labuta no sertão. De seus braços estendidos em êxtase sob a chuva brava. Renato Góes despede-se de “Velho Chico”, “um rio que passou em sua vida”. Aguardam-se outros, novos, para que Renato Góes, o santo forte, possa neles navegar.