Arquivo de junho, 2016

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O modelo Diego Fragoso, na São Paulo Fashion Week Verão 2016, em sua edição comemorativa pelos 20 anos de atividades prestadas à moda.
Diego é alagoano, vive atualmente em Nova York, e pertence a duas agências internacionais importantes, a RE:Quest Model Management e a Elite Model Management Milano.
Além de modelo, é empresário (dono da marca de roupas Maceyork e de uma gravadora de mesmo nome), rapper e DJ (em seu videoclipe “Black Everything”, gravado em Los Angeles, usou as roupas de sua própria grife).
Foi visto nas publicações “Esquire” Rússia e Sérvia, e “Harper’s Bazaar” Brasil.
Em 2012, Diego Fragoso, na Semana de Moda de Milão, desfilou para 12 grifes (dentre elas Dolce & Gabbana e Dirk Bikkembergs), e foi o único brasileiro escolhido para integrar o clipe “Taste.it”, dirigido por Luca Finotti para o site “Models.com” (o vídeo reuniu os rapazes que fizeram mais sucesso na temporada).
Após ter desfilado de underwear para o estilista Philipp Plein em uma semana de moda masculina em Milão em 2013, foi considerado “o corpo da temporada” (Diego possui várias tatuagens por todo o corpo).
Ainda na semana de moda de Milão, circulou pelas passarelas de Giorgio Armani, Emporio Armani, Vivienne Westwood, Carlo Pignatelli e Ermanno Scervino.
Em junho de 2015, cada vez mais dedicado à carreira de músico, apresentou-se no Royal Club, em São Paulo, no qual mostrou as músicas de seu novo CD, “Fashion  Killa”, e seu clipe – gravado novamente em Los Angeles, “Five Star Hotel”.
O modelo já desfilou com exclusividade para a marca francesa Givenchy, e participou de sua campanha Spring Summer 2016 .
Na São Paulo Fashion Week Verão 2016, desfilou para Cavalera e Colcci.
Na última edição da SPFW, Diego Fragoso atuou em outra função, repórter e vlogger, fazendo entrevistas para o VLOGdeCARAS, na TV UOL.

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Foto: Dalton Valério

Em tempos de inconstâncias políticas nacionais que reverberaram de forma negativa na área cultural e artística, o espetáculo “Os Sonhadores”, de Diogo Liberano, baseado na obra do jornalista, crítico de cinema e poeta escocês Gilbert Adair, soa infinitamente atual e oportuno no panorama teatral brasileiro (o romance rendeu o longa-metragem homônimo do cineasta italiano Bernardo Bertolucci, levado às telas em 2003, tendo em seu elenco Eva Green, Michael Pitt e Louis Garrel). Na peça dirigida por Viniciús Arneiro, protagonizada por Igor Angelkorte, Bernardo Marinho e Juliana David, também idealizadora do projeto, três jovens, Theo (Igor), Isabelle (Juliana) e Matthew (Bernardo), os dois primeiros irmãos franceses, e o terceiro um “imigrante” americano. O trio, na Paris de 1968, em plena efervescência do Movimento Estudantil que entrou para a História, e que até hoje serve de referência para manifestações populares espalhadas pelo mundo, decidem ir à Cinemateca da cidade francesa, e lá se deparam com a indesejada notícia de que o seu curador fora exonerado, o que impossibilitaria a exibição dos filmes programados. Ocasionalmente, o casal de irmãos conhece o rapaz vindo das Américas, e a partir deste encontro surge uma relação simbiótica progressiva que os absorve irreversivelmente, levando-os aos extremos comportamentais. Já que os jovens não mais podem se perder nos sonhos e fantasias cinematográficos, resolvem por eles mesmos criar os seus próprios filmes, expandindo as suas imaginações, e testando os limites de suas sensações. Precisam, de modo premente, inventar o seu filme. Invadem velozes e destemidos um importante museu de obras clássicas, e assinam as suas pinturas com tintas transgressoras nas grandes paredes dos longos corredores povoados de turistas curiosos não necessariamente interessados em Arte pura. Theo e Isabelle são filhos de um poeta ultraconservador para quem “a poesia é uma petição”, e de uma mãe que não se expressa verbalmente, representantes legítimos da alta classe burguesa. Estes mesmos irmãos possuem um relacionamento incestuoso, o que não lhes causa quaisquer vestígios de culpa, corroborando a sua face demolidora dos códigos de moral estabelecidos na sociedade. Em vista disso, Matthew, a princípio, vê-se um tanto confuso, aturdido e retraído com tantas novidades que lhe são apresentadas pelos seus parceiros. O americano, mesmo com o seu jeito mais recolhido, mas nem por isso menos rebelde nas ideias, seduz implacavelmente Theo e Isabelle. Os três formam um ser uno e inseparável no tocante ao sexo aberto, um sexo libertador, extasiante, sem regras, manuais ou convenções a serem seguidos. Um poliamor assumidamente subversivo, vertiginosamente sensorial e inegavelmente prazeroso. Um voyeurismo consentido do desejo masculino saciado solitariamente. A visão catártica do prazer do outro que lhe está tão próximo. Jogos caseiros de adivinhações de filmes servem como pretextos para que um jogue com o outro na busca teimosa de um autoconhecimento e conhecimento coletivos. Suas fragilidades são expostas como carne viva. O ser dominante e o ser dominado se justificam no ato sexual e na vida como condição indissociável da existência humana. Em meio a uma realidade dura e truculenta, com o Estado e seu sistema munidos de cassetetes como forma de linguagem possível para enfrentar seus oponentes à sua falta de ideias, os sonhos se tornam mais uma vez a única vereda de salvação genuína. A nudez dos gêneros, frontal, liberal, cotidiana e habitual, sublime em sua naturalidade, impõe-se como forma de expressão e afirmação válida. Enquanto vivem ou sobrevivem num universo onírico de emoções confinados no quarto de hóspedes de Matthew, entregando-se aos vícios da bebida e do fumo com a sua fumaça sempre a afrontá-los, “degustando” rações de gato, a realidade engendrada pelo poder estatal absoluto escorado no modelo irracional se materializa nas ruas amotinadas. A voz virgem do jovem clama pelos seus direitos e liberdades usurpadas. A cultura de uma geração profanada. Uma pedra vale como um livro. Ou o livro tem o peso de uma pedra arremessada na janela não discreta. Theo, Isabelle e Matthew travam diálogos eivados de ideologias individuais ou universais. Seus corpos nus e alvos se juntam num amálgama de peles e formas, num desejo compartilhado. Uma escultura viva e inebriante de linhas delgadas sequer pensadas pela mente mais fértil. A morte quando breve se assemelha a uma imagem de um filme criada pelo olho do amante em pranto. Vivencia-se o sonho, e se acorda com o real. Ouvem-se os sons de tiros, bombas e da turba, vislumbra-se o sangue do inocente escorrendo após o golpe sem misericórdia dos homens fardados e blindados. As paredes têm ouvidos, e os ouvidos têm paredes. A chuva e suas gotas testemunham o fim trágico/poético. O casal sentado passivamente assiste à destruição em fragmentos das forças de manipulação, e à revoada libertadora dos livros de educação. A dramaturgia de Diogo Liberano (codramaturgia de Dominique Arantes) sobressai-se pelo olhar cuidadoso e reverente com o qual se relaciona com as palavras, suas frases e proposições constituídas. Percebe-se, entre um silêncio e outro, que as falas dos personagens, sublinhadas pelos seus conflitos individualizados e com os seus pares, carregam uma riqueza desvelada em sua estruturação, no sentido de tornar o conceito de ideia e opinião emitidos por aqueles nas distintas situações valorizado em sua significância. Há quase uma permanente e constante troca de pensamentos, respeitando-se diferentes sintonias e frequências, entre os partícipes da história, que não raras vezes se embatem por defenderem posicionamentos opostos. Diogo e Dominique preservaram em seu texto cênico o frescor do ideário juvenil, com toda a sua inata contestação, e respectivas reflexão e visão particulares acerca do microcosmo que os cerca, e do grande mundo que está bem próximo, simplesmente do lado de fora. O texto flui com potente regularidade, sustentando a solidez de sua proposta primeira. A direção de Viniciús Arneiro privilegia com proeminência a associação harmoniosa e equilibrada entre o corpo, o seu movimento e a palavra, obtendo admiráveis resultados cênicos. Ficou-nos evidente a sua intenção de trabalhar com acuidade a infinita gama de possibilidades das movimentações corporais de seus atores, acompanhadas de diferenciadas gradações de velocidade e ritmo, exigindo por parte daqueles avolumado e complexo domínio sobre a sua matéria física. Já no prólogo da peça e em outras passagens, vemos Igor, Juliana e Bernardo adentrando o palco com movimentos em “slow motion” exemplarmente compassados, marcados e sintonizados. Num tempo próprio e específico, os personagens vão se estabelecendo como protagonistas de suas histórias. Viniciús teve a brilhante ideia de colocar uma tela cobrindo toda a extensão frontal da ribalta, próxima à invisibilidade, sobre a qual se projetam as mais diversas imagens em variados ângulos e contextos, como as de seus intérpretes, com destaque para o foco em áreas de suas anatomias, como os efeitos deslumbrantes de figuras com forte impacto visual, como os versos inspirados da poetisa polonesa Wislawa Szymborska. A tecnologia foi usada com indiscutível criatividade, à serviço do enriquecimento e embelezamento da montagem (vê-se a imagem etérea holográfica do ator Bernardo Marinho de costas observando a ação). O encenador buscou o humor e logrou êxito em uma das melhores cenas do espetáculo, na qual, em fila, o elenco, supostamente ao som de uma música que se repete impiedosamente, executa uma engraçadíssima coreografia marcada principalmente por estalos de dedos e pulos para a frente com movimentos pélvicos. O elenco formado por Igor Angelkorte, Bernardo Marinho e Juliana David se destaca uniformemente por compreender com agudeza e sabedoria interpretativas os sentimentos múltiplos com toda a sua notória complexidade e contraditoriedade que são característicos aos muito jovens. Igor, como Theo, transita com elegante desenvoltura por todas as fases emocionais por que passa o rapaz cheio de sonhos e ideologias. Em iguais níveis de qualidade nos demonstra os sentidos do desejo, do ciúme e do caráter contestatório. Bernardo Marinho compõe o seu personagem, o americano Matthew, amparado por sua boa voz grave, com finas nuances que demarcam com acentuada nitidez a personalidade retraída, conflituosa, por vezes insegura e incerta, mas provida de intensos anseios íntimos que conforme se desenrolam os fatos do entrecho vão se aflorando progressiva e abertamente. E Juliana David, como Isabelle, explora a sua sensibilidade com distinta convicção, respeitando as variações emotivas inerentes ao perfil da moça liberal, idealista, sonhadora, sem que em nenhum instante permita que a sua ternura se deixe sublimar pelos acontecimentos sucessivos. Todos os intérpretes dão a sua contribuição valorosa para o engrandecimento da montagem. Ademais, torna-se necessário reafirmar o primoroso trabalho corporal que o trio executa. A direção musical ficou ao encargo de Tato Taborda, que se esmerou em criar uma trilha que, além de bela, notabilizou-se pela inquestionável coerência ao se adequar à época histórica em que se desenvolve a sinopse. Lindas canções francesas são inseridas no cerne dos acontecimentos, inclusive um dos maiores clássicos do cancioneiro do país dos jovens Theo e Isabelle, “La Vie En Rose”, interpretado pela voz do ícone do trompete, o americano Louis Armstrong. Tato também se preocupou em demarcar certas passagens com sons instigantes e ruidosos. Todos os fatos buliçosos que ocorrem nas ruas parisienses são traduzidos por ele, com as sonoridades do falatório de uma multidão protestante e outras características, além de explosões e tiros concernentes a uma manifestação revoltosa. Aurora dos Campos, responsável pela cenografia, aposta na junção da neutralidade crua cinzenta com os muito bem aproveitados recursos tecnológicos visuais disponíveis, gerando um painel conjunto que de alguma maneira posiciona o ator em um patamar privilegiado no espetáculo. Observa-se uma espécie de caixa cênica com uma tela transparente vazada em sua frontalidade, como fora dito, tendo ao fundo uma abertura quadrada por onde entram e saem os personagens, dependendo das situações originadas. Há uma outra abertura com forma retangular (uma porta) no flanco esquerdo da ribalta. Usa-se em determinado momento algo semelhante a uma bancada. Os figurinos de Graziela Bastos abraçam o despojamento juvenil do final da década de 60 por meio de casacos, camisa e calça jeans, boots, camisa num tom azul forte, calça ocre, casaco chumbo, saia, blusa, xale, regata e underwear brancos. Há uma intencionada liberdade ao se misturar peças de distintos contextos com cores de larga paleta. Um detalhe neste setor que se destaca são os acessórios, na verdade, os óculos escuros utilizados por Igor e Juliana, em isoladas ocasiões. A iluminação de Rodrigo Belay/In Foco percorre com bastante meticulosidade caminhos que possam ocasionar uma ambiência peculiar, coerente, adequada e sedutora para cada cena. O fundo do palco, em não raras vezes, ganha a sua luz própria. Intentou-se com sucesso um plano aberto intermediário, possivelmente com o objetivo de se deslocar a ação para um período não atual. Uma cena delicadíssima envolvendo a nudez de Igor Angelkorte é iluminada com sábia discrição. E em outras em que a nudez do elenco se impõe necessária, a luz de Rodrigo pretende tão somente embelezar e suavizar as cores de suas peles e linhas de seus corpos, invariavelmente com bom gosto. A espetacular direção de imagens foi conduzida por Allan Ribeiro. Allan executou um trabalho visual riquíssimo, provando a sua inteira aptidão e sensibilidade em captar e inserir belas, insinuantes, autorais, psicodélicas e poéticas imagens sobre a tela em questão. O resultado é inegavelmente arrebatador. O visagismo de Nina Dutra soube com delicadeza realçar os atributos de cada ator, conferindo aos seus papéis um alcance maior em sua credibilidade junto ao público. “Os Sonhadores” é uma peça feita por jovens com a preciosa gana de fazer valer o seu nobre ofício da atuação, que fala de sonhos, de amor e sexo, de comportamentos e ideologias, com poesia, romance e humor. Feita por jovens, mas direcionada para o mundo. Não importa que sua trama se passe em um determinado período histórico, o turbulento ano de 1968. Não importa que tenha acontecido em Paris. Não importa que sejam dois franceses e um americano. “Os Sonhadores” é um espetáculo universal, humano e atemporal. O mesmo grito daqueles jovens do final da década de 60 pode ser ouvido hoje em outras ruas, algumas não tão glamorosas como as parisienses. Os conflitos e anseios afetivos e sexuais juvenis tiveram uma modificação ou outra, mais ainda são conflitos e anseios. A eterna busca pela liberdade, esta se mantém inalterada, independente dos tempos. Se no romance de Gilbert Adair a Cultura foi maculada com a exoneração de seu curador, o que impediu a exibição dos filmes na Cinemateca de Paris, não é necessário ir tão longe para se encontrar algo parecido. Igor Angelkorte, Bernardo Marinho e Juliana David são atores sonhadores, sonhadores atores. Sempre atores. Com eles sonhamos, sem jamais perdermos de vista a realidade sonhada.