Arquivo de outubro, 2016

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Foto: Isabela Kassow

Quatro anos depois, em 2011, do escritor catarinense Cristóvão Tezza ter lançado o seu premiadíssimo livro autobiográfico “O Filho Eterno”, a prestigiada Cia Atores de Laura, liderada por Daniel Herz, no Rio de Janeiro, decide adaptá-lo, pelas mãos de Bruno Lara Resende, para os palcos, tendo como protagonista do monólogo homônimo um de seus membros, Charles Fricks. O espetáculo, que até hoje é montado com sucesso pelos inúmeros lugares por onde se apresenta, levou o intérprete a conquistar os Prêmios Shell e APTR de Melhor Ator. Há quase duas semanas encenada no Teatro da UFF, em Niterói, cidade fluminense, dentro do projeto “Solos em Cena”, que reúne dezesseis encenações do gênero, Charles pôde novamente emocionar o seu público. “O Filho Eterno” narra a história de um escritor de apenas 28 anos, com dificuldades de ser reconhecido no mercado editorial, defensor de conceitos sobre solidão e ideias bastante particulares e pessoais, casado, que se vê à primeira vista entusiasmado com a notícia de que será pai, e que após o diagnóstico de que seu filho é portador da Síndrome de Down, desespera-se e se entrega às visões mais terríficas de sua atual situação. A peça, que se passa em 1980, detalha o passo a passo da agonia deste pai em meio à absoluta ausência de informações precisas e prognósticos otimistas a respeito desta alteração genética, a Trissomia 21 (um cromossomo 21 a mais no código genético humano, que se somou aos outros dois), chamada à época errônea e cruelmente de mongolismo. Só mais tarde, com os avanços dos estudos médicos e científicos, a introdução de métodos coletivos de adaptação, reabilitação, motivação, incentivo e aplicação de práticas multidisciplinares, a doença tão assustadora para os seus pais passou a ser chamada de Síndrome de Down (descrita pelo médico inglês John Langdon Down em 1866, e só em 1959 o também médico, o francês Jêrome Lejeune, descobriu que sua origem era genética). O escritor, que até o momento tinha uma existência enraizada na sua libertadora solidão (a despeito de ser casado), alimentada por doses constantes de uísque, depara-se de uma hora para a outra com diversos fantasmas que o assombrarão, e por consequência lhe usurparão a venerada liberdade. O filho, Felipe, nome forte que permite diversas entonações, eterno em sua “anormalidade”, fez com que se defrontasse com sentimentos que até então lhe eram estranhos e inexistentes, como o preconceito, a culpa e principalmente a vergonha. Acometido de uma fúria “raivosa”, o pai, que sobrevive graças a aulas de redação e a revisões de teses de mestrado, por ironias de seu destino, divertiu-se ao corrigir os potenciais erros gramaticais de uma delas, que dissertava exatamente sobre a doença que agora fazia parte de seu cotidiano. O devastador inconformismo do literato o fez relatar com assombrosa insensibilidade as anomalias características de seu recém-nascido. Não somos poupados em nenhum instante da perturbadora ignorância e preconceito deste indivíduo que se achava superior aos seus pares devido à sua vocação natural para as letras, e a partir dela construir os seus romances, sempre com a marca de seu “esclarecimento. Seus traumas vigentes também se devem ao aterrador formalismo dos médicos assoberbados em seus jalecos brancos e assépticos, eivados de sadismo desconcertante, ao darem aos familiares “as piores notícias de suas vidas”. Como enfrentar os amigos a partir de agora? O que dizer a eles? Responder-lhes que o seu filho é “mongol”? Esta e tantas outras questões aflitivas por vezes o encaminhavam para um escapismo supostamente salvador, escrevendo de modo compulsivo e aleatório suas histórias inacabadas. O homem que se aprazia com os sons e a morfologia das palavras, agora testemunhava o seu rebento com traços diferentes na face, altura menor, com dificuldades de locomoção, isolado em um mundo próprio, balbuciar ininteligíveis simulacros de vocábulos. Creches rejeitam a permanência do menino Felipe, alegando ao seu progenitor que simplesmente ele não se “adapta” ao local. A exclusão pela sociedade de seu filho acaba sendo a sua exclusão pessoal. Uma sociedade que invariavelmente não se importa em excluir o não igual. Uma sociedade onde não há lugar para a diferença. O escritor clama pela “normalidade”, que se afugentou de sua vivência. A chegada de uma filha “perfeita” aplaca de alguma maneira esta sensação de se estar “à margem da vida e de todos”. O filho cresce, os anos passam, e as pequenas e rotineiras situações diárias exercem a função de “normalizar” o que antes era impensável. O seu velho Fusca amarelo lhe serve para gargalhar diante do inesperado progresso do filho em meio a uma adversidade do trânsito. Diminutas e crescentes mudanças, imperceptíveis apenas para quem não as quer ver, ocorrem dia após dia. Partidas de futebol se transformam em grandes eventos de confraternização entre o pai e o filho, antes longamente distantes um do outro. O modo efusivo e a inteligência e compreensão de mundo de seu filho evidenciados defronte a um prosaico jogo de futebol provocaram no escritor desacreditado da vida e de um Deus do Velho Testamento uma evolutiva alteração em sua percepção distorcida e implacável da realidade que envolvia o seu filho e a si mesmo. O problema não estava na doença de quem gerara, o problema não estava no cromossomo 21 excedente, o problema era ele. O sorriso puro, cheio de afetividade de seu filho, capaz de remover as posições mais empedernidas e duras perante o mundo no qual vivemos, fez surgir no pai “castigado” um ser humano avivado, obrigado a se reavaliar, obrigado a rever as suas noções arbitrárias de espaço e tempo, a modificar a forma como idealizava a relação ideal de um pai e seu filho, e a relativizar o conceito discriminatório do que seja normal. A dramaturgia, uma adaptação de Bruno Lara Resende, carrega em si inegáveis méritos, que vão desde a maneira com que fora estruturada formalmente até o modo certo encontrado para se atingir o público, sem que se deixasse cair na tentadora armadilha da pieguice e dos clichês melodramáticos, elementos que poderiam ser utilizados se levarmos em conta a delicadeza e o apelo do tema em pauta. Bruno foi bastante honesto ao transpor para o teatro a incensada obra de Tezza. Esta honestidade é identificada na abordagem franca e sem rodeios dos conflitos, incômodos em sua natureza, envolvendo o pai e a sua rejeição ao filho diferente. Não deve ter sido nada fácil para o dramaturgo/adaptador “criar” uma nova história para aquela que já nos foi contada com demasiado êxito pelo autor de “O Filho Eterno”. Mexer em algo “pronto” é arriscado, perigoso, um ato de coragem. O valor de Lara Resende em seu feito se torna ainda mais realçado se partirmos do princípio de que se trata de uma experiência real, dolorosa e íntima revelada pelo escritor, fator que exigiria cuidado, cautela e prudência máximas em sua adaptação, sem deixar de lado as doses de emoção pertinentes, e o fio de razão necessário. O texto caminha, sempre com equilíbrio, pelo viés da narração feita pelo próprio intérprete, e pela legítima vivência dos fatos pelo personagem com os outros integrantes do enredo. A direção de Daniel Herz para o primeiro monólogo não só de sua companhia mas de seu protagonista Charles Fricks se revela, desde o começo da encenação, determinada e resoluta em seus objetivos cênicos, não hesitante quanto aos rumos interpretativos sugeridos para o seu ator, e reconhecidamente sensível, perspicaz e inteligente. A inteligência de Daniel se traduz em conduzir Charles por uma linha de interpretação que não causasse nos espectadores uma repulsa àquele homem/pai imbuído dos mais desprezíveis preconceitos e ignorância. Mas acontece algo que se assemelha a uma espécie de compreensão coletiva por parte de quem assiste ao desespero avassaladoramente humano daquele indivíduo agora fraco em suas certezas. A pusilanimidade daquele pai em nenhum momento nos causa empatia, mas também não chegamos à pretensão de julgá-lo até que se findem os acontecimentos. Daniel Herz se alterna na priorização dos silêncios e pausas do pai, indispensáveis para o entendimento de sua dor individual, e na dinâmica de cena, percebida pelos movimentos abruptos ou não do personagem pelo espaço da ribalta, indicativos de instantes de euforia, ansiedade e intranquilidade. Todo este denodo do encenador resultou em um espetáculo fluido, ágil, porém respeitoso ao seu tempo particular e único. Charles Fricks, ao defender a figura do pai, chamou para si uma grande e desafiadora responsabilidade. O pai por ele representado não simboliza tão somente a figura ancestral do progenitor, mas a de um homem, no sentido amplo do termo, em toda a sua dimensão humana, com o seu respectivo papel dentro de uma sociedade contemporânea. A Charles coube organizar, e após difundir por meio de sua notável e intensa atuação as muitas camadas psicológicas, comportamentais, emocionais e existenciais do escritor arrebatado pelo imprevisível, perturbado pelo inevitável confronto com o desvio da “rota da normalidade”. Seu personagem possui inquestionável complexidade, evidenciada em não poucos aspectos, percebida por nós à medida que os acontecimentos da narrativa se desdobram. Fricks percorre com força dramática e intenções interpretativas bem definidas o longo e penoso caminho do pai até alcançar os últimos degraus que o levam à redenção pessoal. Aurélio de Simoni nos fornece uma bela e elegante iluminação, ficando-nos claro de que os seus objetivos primeiros não eram o de realçar ou sublinhar as dores, angústias e ansiedades daquele pai, e para isso o prestigiado profissional da luz optou por tons mais alegres e claros. A luz aberta que perpassa boa parte do espetáculo em nenhum momento nos transmite a ideia de sofrimento, ao contrário, a sua leveza serve como contraponto ao peso sofrido pelo protagonista. Isto também não quer dizer que Aurélio não se eximiu de usar focos mais intimistas, principalmente iluminando somente a face do ator, e se utilizando de blecautes e um jogo lateral de luzes que advieram de refletores postos sobre o chão, fora do palco, causando um potente efeito. Vemos na interpretação de Charles Fricks, associado a ela, um pujante componente que a diferencia em seu conjunto: o movimento. Quem ficou a cargo da direção de movimento da montagem fora Marcia Rubim. Marcia explorou todos os limites corporais e de movimentação no palco possíveis e viáveis ao ponto de traduzirem com exatidão toda a gama de camadas emocionais por que passa inevitavelmente o personagem. Suas aflições e angústias são decodificadas em gestos e posturas, assim como a sua culpa, sua redescoberta de valores, efusividade e redenção pessoal. O figurino coube a Marcelo Pies, que vestiu Charles Fricks com inegáveis garbo e sobriedade. O pai traja um conjunto em tons terrosos que engloba terno, calça e mocassins, tendo como contraponto um colete com xadrezes. Uma neutralidade condizente com o perfil de um homem comum da sociedade, adequada à contextualização da profissão que exerce. A trilha sonora original de Lucas Marcier marca com precisão, apostando admirável e acertadamente nos acordes instrumentais, de forma instigante e progressiva, no sentindo de acompanhar com coerência, sem quaisquer resvalos para o pieguismo ou apelo fácil dramático, as fases diversificadas pelas quais transita o personagem pai, respeitando assim todas as suas mudanças, comportamentos e reações face às contingências adversas, e obedecendo com reverência às situações redentoras e de libertação. O cenário de Aurora de Campos segue a linha segundo a qual quanto menos recursos cênicos desnecessários e excedentes no campo teatral forem utilizados melhor e mais bem-sucedida será a aproximação do espectador com a narrativa contada. Para se colocar no palco, não sendo mais do que suficiente, e Aurora sabe bem disso, os elementos úteis que sirvam de apoio visual para se desenhar com esmero e eficiência os dramas compartilhados pelo pai e seu “filho eterno”, a cenógrafa recorre a um belo e amplo painel azul no fundo da ribalta que simboliza com fidelidade o céu a que tanto se refere o personagem na berlinda. As cadeiras, tão simples quanto múltiplas em suas funções práticas, fazem jus ao seu valor como objeto cênico, cumprindo sua missão com significância. “O Filho Eterno” não à toa é um espetáculo que até hoje emociona, faz-nos refletir, pensar, questionar e reavaliar nossos, por vezes, tão errados valores. A montagem, com sua transparente pujança dramatúrgica e nível elevado das verdades interpretativas de seu ator, é um avassalador manifesto, sem imposições, e sim por suas situações esmiuçadas, contra um de nossos mais ruinosos vícios: o preconceito. O preconceito, seja ele qual for. O preconceito, este sentimento tão arcaico e maculado de ignorância, como a própria morfologia de sua palavra nos indica, atravessa a história do homem, e se mantém sólido e inexpugnável em grande parcela da humanidade. Neste caso, trata-se do preconceito inicial de um pai que não aceita o fato de seu filho esperado ser portador da Síndrome de Down. Um preconceito pontual num mar gigante de outros tantos preconceitos, ricos em suas ramificações e extensões. Mas “O Filho Eterno” possui uma outra função importantíssima, que é a de nos fazer despertar para uma emoção que não raro se mantém quieta, silenciosa e latente, mas que, no entanto, ao ser descoberta, revelada e transmitida ao próximo tem a capacidade irremovível de transformação social, e melhora, sem exageros, do mundo. A ela se dá o nome de afetividade. Somente ela é capaz de vencer oponentes poderosos como o preconceito. Não bastam o conhecimento e a vontade de mudança de valores e posições individuais. É preciso que se descubra em si próprio a nossa afetividade. Que todos nós, assim como aquele pai que conhecemos, façamos da afetividade a nossa “Filha Eterna”.

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Foto: Ramon Vasconcelos/Gshow

Estrear no horário nobre de uma emissora de TV não é nada fácil. Estrear neste mesmo horário com uma telenovela em uma emissora reconhecida nacional e internacionalmente por este gênero se torna uma tarefa ainda mais difícil. Maria Adelaide Amaral é uma escritora, dramaturga e teledramaturga prestigiada por público e crítica, com obras como a antológica minissérie “Os Maias” e o remake de “Anjo Mau”, dentre tantas outras produções de similar valor. Iniciou uma bem-sucedida parceria com o autor Vincent Villari em 2013, na Rede Globo, com “Sangue Bom”, na faixa das 19h. E esta profícua colaboração se repete agora com “A Lei do Amor”, um enorme desafio para ambos, levando-se em consideração o fato de que estão sucedendo um sucesso como “Velho Chico”. A nova novela em questão será dividida em duas fases, tendo a direção artística de Denise Saraceni e a direção geral de Denise e Natália Grimberg. A história começa em 1995 na fictícia cidade São Dimas, uma bucólica e campestre região do interior de São Paulo na qual o principal polo de trabalho é a Tecelagem Leitão, comandada com mãos de ferro pelo empresário Fausto (Tarcísio Meira, uma presença sempre bem-vinda na TV brasileira), também dono de uma fábrica de tintas. Casado com Magnólia ou Mág, uma mulher manipuladora e perigosa vivida por Vera Holtz, ostentando a sua familiar potência interpretativa, o patriarca possui pretensões políticas bastante conservadoras e reacionárias. Pai de Pedro (Chay Suede, um dos jovens atores mais queridos de sua geração, desde “Rebelde” até chegar a ser protagonista de “Império”), um rapaz forte, decidido, justo, cheio de ideias próprias, que “bate de frente” com sua madrasta Mág. O arquiteto foi criado pela babá, hoje copeira, Zuza (a cativante Ana Rosa), a quem considera a sua segunda mãe, pois Stela, sua verdadeira progenitora, falecera cedo. Pedro é meio-irmão do rebelde, aproveitador e maldoso Hércules (João Vitor Silva em acertada escalação após o seu impressionante desempenho como Bruno em “Verdades Secretas”), que por sua vez é casado com a doce porém infeliz Carmem (Bianca Salgueiro). Ela tivera um filho precocemente com ele, e se viu obrigada a se casar para não perder a guarda da criança, temerosa do poder econômico do clã. O folhetim também marca o retorno de Sophia Abrahão ao horário das 21h após “Amor à Vida”, na mesma emissora. Sophia defende a outra meia-irmã de Pedro, Vitória, uma moça alegre, de boa índole e romântica. Vitória se apaixona por Augusto (Hugo Bonemer, excelente ator de teatro, principalmente de musicais, que volta à televisão em um papel de destaque para a alegria de seus fãs). Augusto, filho de um fiscal do trabalho já falecido, crê que o seu pai fora morto por saber que Fausto mantinha um caso extraconjugal com Mág enquanto sua esposa Stela era viva. Deduz-se que Mág agirá com intensidade para interromper o namoro dos dois que mal começara. Maurício Destri está quase irreconhecível com uma barba espessa, e seu personagem se chama Ciro, o amigo misterioso, calado e sisudo de Hércules. Frequentador da mansão dos Leitão, faz as provas escolares de seu colega sem qualquer resistência. Logo em suas primeiras cenas, com bonitas imagens captadas do alto, vimos Isabelle Drummond, como Helô, em seu barco rústico praticando a pesca nas águas da represa de São Dimas para a sobrevivência de seus familiares, um pai alcoólatra, Jorge (Daniel Ribeiro) e uma mãe adoentada, Cândida (Denise Fraga; prazeroso ver esta atriz que se sobressaiu em bastantes trabalhos de comédia, voltar às novelas personificando uma mulher triste e castigada pela vida). De repente, seu barco é ameaçado por rapazes inconsequentes, Hércules e Ciro, que com a velocidade de seus jet skis derrubam a sua embarcação. Por sorte, Helô é salva por Pedro, que estava por perto com o seu veleiro. Começa aí uma grande paixão que transcenderá as fases da novela, mas que, como num bom folhetim, terá que superar muitos obstáculos, inclusive uma armação urdida por Mág para separá-los. Helô e Pedro, que serão interpretados no futuro por Claudia Abreu (curiosamente chamada Helô, e com um corte de cabelo semelhante, na minissérie “Anos Rebeldes”, que lhe deu projeção nacional) e Reynaldo Gianecchini na outra fase, entendem-se cada vez mais, da mesma maneira que Vitória e Augusto, o que desperta o enorme e temível ciúme de Ciro. O clima tenso do primeiro capítulo do entrecho ficou por conta de Jorge que, não conformado de ter sido demitido por faltar sucessivas vezes ao emprego, decide defrontar o casal Leitão, piorando a sua situação. A aproximação de sua desgraça se efetiva quando ganha de presente em uma quermesse uma arma de brinquedo, que o faz tentar assaltar o caixa da tecelagem onde trabalhava, tomando uma funcionária como refém. Jorge é preso em uma cela comum, para o desespero de sua filha. O generoso arquiteto Pedro até tentou ajudá-lo, providenciando um habeas corpus. Helô suplica a Mág o seu perdão, sem sucesso. Ocorre um motim, e Jorge é morto. Enquanto isso, acontece um luxuoso jantar na casa dos donos da empresa para homenagear um político corrupto, César Venturini (Otávio Augusto). O clímax para o próximo capítulo se efetuou quando Helô impulsivamente invadiu a mansão dos Leitão e ameaçou Fausto de ter assassinado o seu pai. E assim começou a nova novela das 21h da Rede Globo, uma produção sempre aguardada pelos telespectadores. A trama pensada por Maria Adelaide e Vincent Villari engloba os elementos básicos que sempre caracterizaram o folhetim clássico, como descrito brevemente no título deste texto. Heróis e mocinhas românticos, grandes e pequenos vilões, a luta do bem contra o mal, dos fortes contra os mais fracos etc. As direções artística e geral de Denise Saraceni e geral de Natália Grimberg optaram por uma linguagem mais convencional, tradicionalista, sem maiores e desnecessários malabarismos estéticos. Houve uma alternância entre as cenas românticas (bonitos e ternos momentos de Chay Suede e Isabelle Drummond em um rio com takes filmados do alto, e Hugo Bonemer e Sophia Abrahão em uma colorida e iluminada quermesse), e os instantes de tensão e apreensão que permearam o desenrolar do enredo, envolvendo as leves altercações entre Pedro e Mág, as provocações de Hércules e o cume, protagonizado pelo ator Daniel Ribeiro e os intérpretes diretamente envolvidos com o seu drama, como Tarcísio Meira, Vera Holtz, Denise Fraga, Chay Suede e Isabelle Drummond. O que percebemos também neste primeiro capítulo foi o ótimo aproveitamento de um time de jovens atores, alguns com inegável experiência, que deram um frescor à novela, independente de seus personagens tenderem para o bem ou para o mal. Foi agradável conferir Chay Suede com Isabelle Drummond, Hugo Bonemer com Sophia Abrahão, Maurício Destri, João Vitor Silva e Bianca Salgueiro. E, claro, juntaram-se a eles nomes de respeito da classe artística, como Tarcísio Meira, Vera Holtz, Denise Fraga e Ana Rosa. Ainda com relação a este início de “A Lei do Amor”, que mostra em sua abertura a voz de Ney Matogrosso cantando “Trenzinho do Caipira” (criação de Alexandre Romano, Christiano Calvet e Roberto Stein), podemos destacar a direção de fotografia de Roberto Amadeo e Jean Benoit Crepon, que valorizaram em muitos momentos a luz natural de belas paisagens, e a produção de arte de Guga Feijó e Flavia Cristófaro, que souberam ser fiéis na reprodução de um cenário coletivo que reportasse à segunda metade da década de 90. Aguardemos a segunda fase, que trará um cast digno de atenção, com Regina Duarte, José Mayer, Claudia Raia, Thiago Lacerda e tantos outros, além de marcar a volta de Renato Góes e Grazi Massafera ao vídeo, após seus retumbantes êxitos como o Santo de “Velho Chico” e a Larissa de “Verdades Secretas”, respectivamente. “A Lei do Amor” tem potencial para despertar o interesse do público das 21h por falar sobre algo que nos é intrínseco, regente de nossas vidas, complexo, fugaz ou longo, prazeroso ou doído: o amor. Resta-nos saber se saberemos respeitar as suas leis ou não. “A Lei do Amor” fará a sua parte.