Arquivo de abril, 2017

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Foto: Priscila Prade

Falar de sucesso não é uma tarefa fácil. Muito menos de fracasso. No entanto, estes dois fatos, amplamente significativos em sua condição, inerentes à própria vivência humana, jamais podem ser preteridos de uma reflexão mais aprofundada. Questioná-los, debatê-los, e se possível, chegar a uma conclusão já seria um… sucesso. Seria uma tentativa. Aliás, como se diz na peça escrita e dirigida por Diego Fortes (Prêmio Shell de Melhor Autor), só se atinge o sucesso se tentarmos. Da mesma maneira que somente atingimos o fracasso se tentarmos o mesmo sucesso. E para discorrer sobre estes opostos que norteiam muitas vezes o fato de uma pessoa ser feliz ou não, o dramaturgo e diretor buscou indivíduos que lhe são bem próximos: os atores. “O Grande Sucesso”, um espetáculo lindamente musicado, visualmente arrebatador, compreende a sua história, atemporal e sem localização definida, com personagens sem nome (com a exceção de um único), na coxia de um teatro, ocupada por uma trupe de atores coadjuvantes, secundários, ou quiçá figurantes, de uma montagem, um musical experimental baseado em “Édipo Rei”, de Sófocles (poderia ser “Hamlet”, tanto faz…), encenada há dez anos, onde somente um artista tem destaque, na qual, segundo os mesmos participantes, as maiores loucuras e licenças dramatúrgicas foram inseridas em seu contexto, não se importando com o entendimento da plateia. Com a duração de intermináveis quatro horas, a montagem fictícia provoca nestes artistas tão diferentes entre si, mas unidos na mesma angústia, melancolia e “sofrimento de espera” para entrar em cena, uma sensação potencialmente “beckttiana”. Alexandre Nero interpreta um desse atores, e logo em sua primeira cena com Marco Bravo, ao realizarem aquecimentos físicos e relembrarem passos coreográficos antes do início da encenação, são colocados diante do assunto morte, devido a uma determinada circunstância pessoal de um deles, e o colóquio entre ambos introduz o tom de humor que irá perpassar boa parte da peça. O personagem de Alexandre coloca em xeque a existência de um Deus, em decorrência de acontecimentos não compreensíveis que testemunhamos em nossas vidas. Todavia, revela contradição ao narrar um sonho com um Deus mulher, que lhe diz que “não há sentido da vida”. Ela apenas começa, acontecem algumas coisas e acaba. A dramaturgia ousadíssima de Diego Fortes, sem quaisquer receios de julgamentos por transgredir “convenções teatrais”, utiliza-se de algumas inspirações para costurar a sua narrativa, como a commedia dell’arte (por vezes, parece-nos que estamos assistindo a personagens saídos do clássico filme de Ettore Scola, “A Viagem do Capitão Tornado”, lançado em 1990), o nonsense e a metalinguagem. Assumidamente crítico (em algumas passagens, autorreferente), a obra se encarrega de pôr em discussão a infalibilidade do ator. O ator que sempre busca o sucesso. O ator que não pode errar. O ator, escravo de marcações e textos decorados. Esses profissionais são representativos de nós mesmos, sociedade, reféns de nossa obsessão pelo acerto absoluto naquilo que fazemos. Os fracassos sempre se colocam perante nós como algo imprevisto, porque afinal somos infalíveis. Os artistas de “O Grande Sucesso” são os invisíveis do palco, ou sombras do ator principal, habitantes em sua espera infinita do “lugar de fora”, do limbo, que preferem feijão com arroz a lagostas ou ostras. Percebe-se em certo instante um caráter pessimista e niilista, ou visto sob outro olhar, realista no papel de Alexandre, ao nos afirmar que os homens, assim como em eras pré-históricas, continuam a ser atacados por animais selvagens, só que os animais, dessa vez, somos nós, os homens (sem querer ofender). Temos vários tipos humanos, exponencialmente bem definidos e defendidos com brilho pelos atores/cantores/músicos Carol Panesi, Edith de Camargo, Eliezer Vander Brock, Fabio Cardoso, Fernanda Fuchs, o já citado Marco Bravo, e Rafael Camargo (há ainda a participação de Fernando Trauer e Thomas Marcondes). Diego Fortes, como diretor, soube explorar com sobeja sensibilidade as potencialidades artísticas de cada um, sejam elas interpretativas ou musicais. Em sua condução do espetáculo, vemos a chancela do lirismo estético, visual e musical. Suas intenções de que a música cumprisse um papel colaborativo das situações, pensamentos individuais ou que representassem a consciência coletiva foram executadas com galhardia. A despeito da oratória reflexiva e filosófica de sua dramaturgia, o humor e o histrionismo não foram dispensados, como dito acima, muito pelo contrário, ganharam protagonismo em bastantes cenas, notadamente aceitas pelo público. A direção objetivou também a interação maximamente direta com os espectadores (com cenas inclusive na plateia), e outra em escala um pouco menor. Privilegia-se a ação contínua do elenco (enquanto um ator fala, ou dialoga com outro, há um ou mais personagens exercendo uma atividade; os intérpretes se movimentam em grupo, ou separadamente, em direções variadas). Fez valer a importância das pausas, dos silêncios. Adotou com deliberação uma linguagem dinâmica e ágil para que a mensagem de sua narrativa ganhasse corpo cênico. Quanto às atuações, Alexandre Nero, o qual estamos acostumados a ver em performances marcantes na TV, percorre um caminho cheio de bifurcações ricas em possibilidades interpretativas, enfrentando e se saindo magnificamente bem a cada porta de entendimento de seu complexo personagem que se abre. Alexandre é um ator, pode-se dizer, ousado, destemido, indefinível, pois múltiplas são as variações e transformações por que passa, mínimas que sejam, que o fazem alcançar um nível elevado de desempenho. A peculiaridade deste, razão pela qual se justifica a admiração explícita do grande público, está nos detalhes. Alexandre pode ser blasé, indiferente, ativo, intenso, robusto, frágil, utilizando-se apenas de sua voz (uma pequena oscilação, que seja), um meio sorriso (ou escancarado), e seu potente olhar, que atende a todas as exigências de emoção que lhe são feitas. Tendo uma carreira paralela de cantor, o artista mostra a excelência vocal nas músicas que interpreta, e uma louvável intimidade com mais de um instrumento. Alexandre Nero, como mencionado no título, está acompanhado por sete atores, sete artistas inegavelmente versáteis e talentosos nas muitas atribuições e encargos que lhes são ofertados pela montagem, sejam no campo da atuação, nas áreas do canto ou no encantador e fascinante universo dos instrumentos musicais. Carol Panesi nos provou soberbamente a sua destreza ao tocar o seu violino, tirando sons inefáveis de tão belos. Edith de Camargo encanta os espectadores com a sua doce e charmosa francesa que adora tirar “fotos de família”. O seu bordão “Un, Deux, Trois…” seguido de uma onomatopeia, antes de registrar os momentos da trupe, são irresistíveis. Interpreta com imensa emotividade a canção “Je nóse pas rêver”, composta por ela mesma. Eliezer Vander Brock constrói o seu engraçadíssimo homem-bala com notória inventividade. Fabio Cardoso esbanja a sua irretocável maestria nos teclados, com a adoção de uma postura sóbria, séria e compenetrada. Fernanda Fuchs exibe elogiável expressividade corporal ao dar vida à atriz que crê que a mensagem do ator se baseia em uma interpretação exagerada. Uma de suas cenas que podemos destacar é aquela em que procura se encontrar com o ator principal da peça, surpreendendo-se com o final deste episódio. Marco Bravo aposta com inegável êxito em sua adorável espontaneidade, percebida tanto nas cenas que divide com Alexandre Nero, quanto nas compartilhadas com os outros intérpretes, como Eliezer Vander Brock e Rafael Camargo. Já Rafael Camargo impinge ao seu ator desenhado com meticulosa, suave e propositada afetação a dose certa de comicidade. Rafael possui uma cena de plateia em que expõe toda a sua qualidade vocal. A direção musical de Gilson Fukushima exerce função primordial na peça, não somente pelo seu brilhantismo, virtuosismo e sensibilidade, mas pela sua representação como elemento-chave na composição das ações cênicas. Gilson soube como ninguém orquestrar o conjunto de múltiplas informações sonoras compreendidas no enredo, urdindo com uniformidade a importância das onze composições musicais (algumas escritas pelo elenco, outras pelo próprio Gilson, Diego Fortes, e demais compositores), com o maravilhoso e enternecedor manuseio de diversos instrumentos ao vivo pelos seus intérpretes. A Carmen Jorge coube a tarefa de dirigir os movimentos e criar as coreografias. O trabalho de Carmen com os atores é realçado pela precisão e geometria dos gestos, pela cadência e compasso dos andares dos atores em determinadas cenas, pela leveza e romantismo de algumas danças, pela consciência de coletividade traduzida pelos corpos em constante movimentação. A diretora se debruçou em extrair dos artistas a linguagem corporal que melhor se aproximasse da identidade visual e comportamental de cada personagem integrante do jogo cênico. O design de luz de Nadja Naira é reconhecidamente deslumbrante e inspirado. Há poesia e lirismo na escolha das texturas, formas e intensidades luminosas escolhidas. Nadja teve ampla percepção em harmonizar o quadro da narrativa com os focos adequados sobre os atores, os planos abertos à serviço da vivacidade da ação, os pontos luminosos advindos de luminárias do cenário, e o uso de um forte refletor no canto direito da ribalta. Merecem elogios outrossim a linda luminosidade simbolizadora do pôr do sol, e a fileira de lâmpadas rentes ao chão no fundo do palco em seu fulgurante apagar e acender. A cenografia extasiante de Marco Lima se esmerou em preencher o espaço representante da coxia com o maior número de elementos possíveis que nos reportassem para esse ambiente mágico teatral. Marco oferece ao público um espaço cenográfico riquíssimo, cheio de informações visuais, com bastantes cores, todas elas confluentes para um único ponto, garantindo a coerência de seus intentos e sua consonância com a dramaturgia. As peças decorativas são antigas, de um passado que desconhecemos, encaixadas uniformemente num grande “tabuleiro” onírico. Há um baú de madeira envelhecida, cordas, baldes de latão espalhados, regador, um manequim, tamborete e cadeiras, penteadeira sobre a qual se encontram objetos diversificados, araras com roupas penduradas (uma das coxias reais do teatro fica à mostra), quadros, retratos, abajur e luminárias. No fundo da ribalta há uma enorme parede de tijolos com encanamentos hidráulicos à vista, além de uma pia. Os figurinos de Karen Brusttolin, vencedora do Prêmio Shell, atinge um patamar de elevada qualidade, causando-nos inevitável alumbramento. Sua obra é criativa, elegante, colorida, engraçada, inspirada, eloquente e lúdica. A figurinista mesclou estilos distintos, apropriando-se de tecidos, acessórios e complementos variados. Vasculhando e se apoderando de uma vasta paleta de colorações, Karen conseguiu somar à alma dos personagens o que lhes faltava para torná-los mais reconhecíveis em sua genuína identidade. Nossos olhos acompanham atentamente e com desmedido deleite ao primoroso desfile de vestidos, ternos, jaquetas, blusas, chapéus, adereços, malhas, plumas, botas, sapatos e fantasias de encantadores e engraçados bichos de pelúcia. O visagismo, sem dúvida, levando-se em conta todo o contexto da peça, assumiu um posto de irrevogável relevância. Sabendo disso, a dupla Wilson Eliodorio e Junior Mesquita se empenhou na realização de um trabalho precioso, delicado, poético, a fim de que os integrantes da história narrada nos passassem uma mensagem que fosse além da caracterização simplificada. O que se vê em cada ator é uma suprema valorização de sua persona, seja nos olhos sombreados dos intérpretes, nas suas sobrancelhas desenhadas, no cabelo azulado de Alexandre Nero, nos coques arrumados com zelo, ou nas pinturas dos lábios dos artistas. “O Grande Sucesso” é um espetáculo musical inebriante, interpretado e dirigido com visível paixão, que se propõe, e o faz com indiscutível propriedade, a discutir questões que nos acompanham desde que nascemos. Sucesso, fracasso, vida, morte… Os porta-vozes desse grande debate são eles, os artistas. Grandes desde que nascem. Grandes por não deixarem que a sua Arte feneça. O sucesso desses grandes homens pode até morrer um dia, mas a grandeza de seus feitos e missões, essa jamais perecerá. Esse é de fato o grande sucesso.

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Foto: Raphael Dias/Gshow

Os anos de chumbo já foram retratados na televisão, na própria Rede Globo, em 1992, na excelente minissérie de Gilberto Braga, “Anos Rebeldes”. Desde aquela época, muitos fatos políticos relevantes decorreram em nosso país. Hoje, o Brasil assiste estupefato ao desmantelamento de toda uma estrutura política e governamental. Soa no mínimo oportuna e pertinente a exibição da nova supersérie da emissora, escrita em conjunto por Angela Chaves e Alessandra Poggi (com a colaboração de Guilherme Vasconcelos e Mariana Torres), “Os Dias Eram Assim”, com a direção artística e geral de Carlos Araújo, direção geral de Gustavo Fernandez (e direção de Walter Carvalho, Isabella Teixeira e Cadu França), que tem como pano de fundo parte do período histórico marcado pela truculência de uma ditadura militar até ao emblemático movimento popular e político das Diretas Já, nos anos 80. Em seu ótimo primeiro capítulo, no qual já pudemos conhecer importantes figuras da trama, fomos conduzidos para o ano de 1970, em pleno jogo da final da Copa do Mundo, em que se enfrentaram Brasil e Itália. O país está em festa, na expectativa de se sagrar campeão. No entanto, antes do jogo, testemunhamos as relações promíscuas entre o severo e perigoso empresário Arnaldo Sampaio, vivido por Antonio Calloni (Antonio brilhou ao ostentar em suas cenas o grau de complexidade deste personagem, sob várias óticas), e a cúpula militar governante. Autoritário e sem escrúpulos, Arnaldo, dono da Construtora Amianto, é casado com Kiki (Natália do Vale; sempre compensador conferir o talento desta atriz), uma mulher conservadora, moralista e submissa ao marido. A filha, a bela Alice (Sophie Charlotte, exibindo longos apliques, fez jus à qualidade de estrela de sua geração), possui uma personalidade libertária e transgressora. Está prestes a ficar noiva do ambicioso Vitor Dumonte (Daniel de Oliveira; Daniel, em seus recentes trabalhos, tem defendido bons papéis, como na minissérie “Nada Será Como Antes”). Vitor trabalha para Arnaldo, revelando uma conduta bastante subserviente. Sua mãe Cora, Susana Vieira, é uma pessoa dura, preconceituosa e objetiva (Susana deixou impressa sua forte postura cênica). Na festa promovida para selar o acordo comercial do empresário, acompanhar o jogo da seleção brasileira e anunciar o noivado de Vitor e Alice, com a presença luxuosa do mordomo composto por Ricardo Blat, a potencial noiva surge, para a fúria silenciosa de seus pais, sensualmente trajada com peças de influência hippie. Os lados opostos, sobretudo no que tange à moral e ao comportamento, geradores de sequenciais conflitos num mesmo núcleo familiar, evidenciam-se. Fomos deslocados para o universo de uma outra família da história, em que vive o sensível, porém firme, médico Renato Reis, personificado por uma das recentes revelações da TV, Renato Góes. O público, que se encantou de modo unânime com sua intensa e emocionante interpretação de Santo em “Velho Chico”, terá a chance de conhecer uma faceta completamente diferente de Renato. Deixando a rusticidade de seu personagem anterior, o ator nascido em Recife ganha ares de herói romântico, o que não deixa de ser um enorme desafio. Com os cabelos curtos, lisos e sem barba, o intérprete dignificou a responsabilidade que lhe conferiram ao lhe oferecerem um dos protagonistas da obra. Sua atuação contida, segura e meticulosa em algumas cenas, utilizando-se sobremaneira da linguagem de seu olhar, promete conquistar mais uma vez a torcida dos telespectadores. Renato é irmão do jovem militante político Gustavo, papel que coube a outra bem-vinda revelação da nova geração de atores, Gabriel Leone. Gabriel já possuía passagens na televisão, mas foi somente em “Verdades Secretas” que o talento deste jovem artista começou de fato a ser percebido, consolidando-se em definitivo na novela “Velho Chico”. O viés politizado de seu último personagem, sob outro contexto, é claro, foi mantido, mas agora Gabriel vivencia uma experiência interpretativa substancialmente distinta (no primeiro capítulo, Gabriel Leone, experiente ator de musicais, a despeito de sua juventude, presenteou o público com sua doce e afinada voz, cantarolando, e dedilhando o seu violão, o clássico de Chico Buarque, “Deus lhe Pague”). Gustavo, além de ser irmão de Renato, é irmão de Maria (Carla Salle). Todos são filhos de Vera, Cássia Kis, dedicada mãe que já demonstrou elevada preocupação com o rapaz inconformado com o “status quo”, namorado de Cátia (Barbara Reis), filha de Josias (Bukassa Kabengele), o contador da construtora, e de Natália (Mariana Lima), uma professora. Esta família inter-racial provavelmente será vítima de discriminação por parte da ala conservadora do enredo (basta nos lembrarmos do comentário com inclinação racista de Cora). Voltando a Cássia Kis, esta intérprete com longa carreira, recheada de tipos inesquecíveis na teledramaturgia, invariavelmente constrói suas personagens com uma carga emotiva que é a sua marca pessoal. Gustavo é amigo de Túlio (Caio Blat), representante de um setor mais radical da oposição ao regime totalitário. A cena em que Túlio, indignado com a faixa afixada na frente da empresa de Arnaldo com a exortação “Brasil, ame-o ou deixe-o”, decidiu lançar uma bomba caseira na área interna do prédio, foi muito bem dirigida, com mérito também para os efeitos especiais de Federico Farfan. Patrulhinhas e guardas chegam à região, e iniciam uma caçada aos militantes, onde se nota uma avolumada agilidade da direção em conduzir cenas de contínua ação. Gravadas em ruas estreitas do Centro do Rio de Janeiro, foram um dos pontos altos da supersérie (a direção de Carlos Araújo verdadeiramente nos surpreendeu, não só pelo uso inventivo de sua câmera, utilizando-se de ângulos diferenciados e closes diretos, além daqueles em que os rostos dos atores vão sendo alcançados aos poucos). Gustavo consegue escapar, mas Túlio não, sendo alvejado por um covarde tiro pelas costas em uma de suas pernas. Isto serve para nos mostrar o bárbaro e desumano processo de tortura da ditadura militar, observado impavidamente por Arnaldo, a que os opositores, muitos deles estudantes, eram cruelmente submetidos. Arnaldo, colérico com o fato de sua empresa ter sido atingida por uma bomba, conclama o delegado Amaral (Marco Ricca transmitindo com legitimidade a rudeza e subordinação de seu personagem), para quem “o pau canta, a boca abre”, a achar de qualquer jeito o segundo homem que participou do ataque, no caso, Gustavo. Retornemos à casa de Alice. Em seu quarto, desnuda-se para o seu futuro noivo, que se recusa a ceder aos seus apelos, classificando-a de vulgar. Vitor revela um comportamento moralista e eivado de machismo. A moça que gosta de ler “O Pasquim” e admira a atriz Leila Diniz é repreendida por sua mãe, na frente de sua pequenina irmã Nanda (Letícia Braga; depois, na fase adulta, será interpretada por Julia Dalavia). Alice resolve fugir pela janela, com o intuito de ir à casa da amiga Cátia, descendo pelos andaimes de uma obra em seu edifício. Renato, parado em seu Fusca branco, vê pela primeira vez aquela que balançará o seu coração pelos próximos capítulos. Com a vitória do Brasil, tricampeão mundial, papéis picados colorem as ruas da cidade. Gustavo refugia-se em um bar. Encontra-se com Cátia e Alice. Logo depois, chega Renato, e reconhece a indômita menina dos andaimes. O interesse do médico profissional pela fotógrafa amadora com sua máquina analógica Nikon só aumenta. Por sinal, só para não nos esquecermos, há uma excelente cena com Renato Góes no hospital em que trabalha, no qual, após comemorar um gol, tem que atender a uma paciente na emergência. Trata-se de Monique (Letícia Spiller), que está à espera de seu terceiro filho com Toni (Marcos Palmeira), simplesmente irmão de Arnaldo. O bebê nasce, e Monique sofre de atonia uterina pós-parto, o que a deixa à beira da morte, sendo salva por Renato. Arnaldo chega ao hospital, e exige a remoção de Monique, deparando-se com a resistência do médico (nesta hora, temos um elogiável embate entre Antonio Calloni e Renato Góes). Toni prefere que sua esposa permaneça na casa de saúde. Em agradecimento a Renato, o casal oferece a criança, uma menina chamada Esperança, para o doutor batizá-la. Marcos Palmeira e Letícia Spiller valorizam qualquer produção de que participam. Ainda na cena do bar, inicia-se nas ruas próximas uma batalha entre soldados e guardas e o povo. Os papéis picados deixam de cair para darem lugar a flagrantes de covardia explícita. Os diretores, a fim de realçar estes momentos de tensão da trama, usaram um recurso fílmico em que as imagens parecem borradas, numa velocidade mais lenta (recurso também usado na fuga de Gustavo e Túlio). Cenas de arquivo são misturadas às de ficção. Acuados, com medo, Renato e Alice nunca estiveram tão juntos. Sozinhos em um lugar inóspito, com seus azulejos quebrados, ao som de “Nossa Canção”, interpretada por Roberto Carlos, resta-lhes um ardente beijo, nascendo o grande romance de “Os Dias Eram Assim”. Ainda participarão da supersérie Maria Casadevall (Rimena), o ator chileno Alfredo Castro (Hernando), Felipe Simas (Caíque), Cyria Coentro (Laura), Maurício Destri (Leon), Nando Rodrigues (Hugo) e Julio Machado (Marcos), e tantos outros. A abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguelê e Flavio Mac, cuja música “Os Dias Eram Assim” fora composta por Ivan Lins e Vitor Martins, e cantada belamente pelos atores Sophie Charlotte, Gabriel Leone, Daniel de Oliveira, Renato Góes e Maria Casadevall, enfileira uma série de imagens do período focado (tanques nas ruas, manifestações de protestos de estudantes, jogadores da seleção brasileira comemorando o título…), misturadas a recortes de documentos oficiais ou não, estes escritos a mão. Percebam que a cor vermelha se contrapõe ao p&b, como signo representativo do sangue derramado nas torturas, nas execuções e nos embates diretos entre governo e oposição. A cenografia de Alexandre Gomes e Flavio Rangel se destacou pela fiel reprodução dos apartamentos sofisticado e simples, respectivamente, das famílias Sampaio e Reis (além dos interiores da construtora). O figurino coube à tarimbada Marília Carneiro e Renaldo Machado, que se debruçaram na pesquisa histórica para realçar os perfis típicos de cada personagem, seja nas peças coloridas hippies de Alice, nas roupas despojadas de Gustavo, no jaleco de médico de Renato, e nos ternos com gravata borboleta do empresário Arnaldo. A direção de fotografia ficou a cargo do prestigiado Walter Carvalho, que se valeu de acertados filtros para oferecer o máximo de credibilidade à atração. A produção de arte de Moa Batsow é incrível, atendo-se a todos os detalhes, sejam eles na decoração do quarto de Alice, ou no desfile dos memoráveis Fuscas e demais veículos, que nos fazem viajar na memória e na salutar nostalgia. A gerência musical ficou por conta de Marcel Klemm, que tem em mãos um rico material a ser explorado oriundo daqueles períodos. Tivemos na estreia “Deus lhe Pague”, cantada por Elis Regina, “A Lua Girou”, de Milton Nascimento, e “Sangue Latino”, dos Secos & Molhados. Haverá ainda músicas de Os Mutantes, Vanusa, Gal Costa, outras dos Secos & Molhados, Chico Buarque, Novos Baianos, Walter Franco, Toni Tornado e Raul Seixas. Representando os Anos 80, Fábio Jr. e Marina Lima. Com esta supersérie de Angela Chaves e Alessandra Poggi, “Os Dias Eram Assim”, teremos a oportunidade de revisitar um passado obscuro do nosso Brasil, em que grassava a intolerância, o autoritarismo, a ignorância, o cerceamento da liberdade de expressão, o derramamento de sangue, o medo, a covardia, a luta armada e a divisão no país. No entanto, também teremos a oportunidade de relembrar a riqueza da cultura e da contracultura daquela época, com suas poderosas manifestações artísticas, várias delas nascidas como um grito de resistência. Da mesma forma, testemunharemos o limiar dos sopros dos ventos da democracia, por meio dos movimentos populares. E no meio desse torvelinho de acontecimentos, o amor de Renato por Alice. O amor de Alice por Renato nesses dias… Dias de luta, dias de glória, dias de guerra e dias de paz. Os dias eram assim, acreditem, para Renato e Alice. De lá para cá, muita coisa mudou. Mas alguns dias ainda são… assim.

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Foto: Dodô Giovanetti

O teatro, para a sua própria sobrevivência artística, necessita de renovação. Não só renovação, mas ousadia. E o que não faltam ao novo espetáculo do dramaturgo e diretor Sacha Bali, o musical “Uísque com Água”, livremente inspirado na última obra do americano Charles Bukowski, “Pulp” (1994) são essas características: o caráter renovador e ousado. Sacha, também um conhecido e ótimo ator, além de produtor, em 2007, apresentou ao público a sua pioneira experiência nos palcos com o autor considerado maldito, “Pão com Mortadela” (baseado em “Misto Quente”, 1982), com direção de João Fonseca, um sucesso retumbante, com elogios de lado a lado, que fez com que a peça percorresse várias cidades do país. Quase dez anos se passaram, e o escritor inspirador para o jovem dramaturgo volta para a ribalta com a força absoluta da ironia, do cinismo e das reflexões existencialistas que definiram a venerada obra “bukowskiana”. Sacha se utilizou de inúmeras referências para construir a sua atual montagem. Não abriu mão do estilo único das “pulp fictions” (revistas lançadas no início do século passado, divididas em capítulos, que privilegiavam histórias rápidas, inseridas em vários gêneros, como a aventura, o romance policial e a ficção científica, dentre outros). Os célebres filmes noir americanos com suas narrativas detetivescas e personagens arquetípicos também serviram como nítida influência. Percebe-se na composição de alguns tipos da trama a forma interpretativa adotada pelo Expressionismo Alemão na área cinematográfica. As animações neste segmento audiovisual também ofereceram alguns elementos, e me arrisco a dizer, até mesmo a fantasia e o realismo mágico dos desenhos animados foram influenciadores. As HQs, com seus diálogos diretos, sua dinâmica, seu tempo e estética são visíveis na encenação. A peça musical narra a inusitada história de um detetive particular, Nick Belane (Nelson Freitas), dono de um decadente escritório em Los Angeles, não se sabendo ao certo em que período se passa, que vê o seu modorrento cotidiano ser sacudido pelas inesperadas visitas de misteriosos clientes e suas excêntricas propostas de investigação. Nick tem uma personalidade depressiva, e afoga as suas mágoas, que são muitas, no álcool, principalmente no uísque com água, consumido não somente em seu local de trabalho, mas no curioso bar “O Cão Sedento”. Mesmo vivendo em condições precárias, o detetive que acharia melhor ter sido bombeiro, como o seu colega de escola, não perde o seu fino humor, que se imiscui à sua melancolia inata. Viciado em corridas de cavalo, solitário, Delane, que cobra U$6,00 por hora de trabalho, é procurado por John Barton, um jovem estranho, com língua presa e locomoção comprometida, interpretado por Samuel Toledo. O tal rapaz estranho lhe faz uma peculiar proposta: encontrar um pardal vermelho. Aceito o serviço, Nick sai em busca desse animal improvável. Atolado em dívidas, cobradas de modo inclemente pelo bookmaker Tony (Thogun Teixeira), o detetive, no decorrer desta amalucada empreitada, depara-se com diversas figuras nebulosas e suspeitas, como uma temível senhora que se apresenta como Dona Morte (Rosanna Viegas). Dona Morte deseja que Nick ache a qualquer custo “o maior escritor da França”, Céline (Samuel Toledo). Não sabemos o porquê de seu desejo. Em suas andanças, sempre pontuadas pelos seus pensamentos de reflexão sobre a vida, e consequentemente sobre a morte, em seu bar preferido, “O Cão Sedento”, é atendido por uma tresloucada bartender (Rosanna Viegas). Rosanna também interpreta uma sensual dançarina. O barman de “O Cão Sedento” é personificado por Thogun Teixeira, e é neste estabelecimento em que encontra o suposto escritor francês, um sujeito com sotaque característico e olhos arregalados. Surge no enredo a bela e voluptuosa Jeanie (Carolina Chalita), uma espécie de Jessica Rabbit. Jeanie é casada com Groves (Thogun Teixeira), dono de uma funerária, e o manipula com os requintes de uma dominatrix. Por onde passa, Jeanie deixa os homens enlouquecidos, e algumas de suas vítimas são o próprio Delane e o suposto escritor francês. Em meio a esta sinopse tão mirabolante quanto sedutora na qual há suspense, comédia, drama, violência estilizada e referências tão explícitas quanto divertidas ao universo da sci-fi, como a potencial aparição de alienígenas, e à estética do gangsterismo, há um recurso cênico que oferta um charme extra e especial ao espetáculo: a presença de uma banda ao vivo, comandada pelos músicos Samuel Toledo, Pedro Coelho e André Coelho. A direção de Sacha Bali caracteriza-se exemplarmente pelo capricho e cuidado com os quais se esmerou para transformar todo o conjunto cênico em algo belo, dinâmico, coeso e integrado. As músicas, sejam elas instrumentais, quanto as cantadas pelos atores músicos se unem na constituição de uma admirável harmonia teatral. Sacha também procurou, com inegável acerto, fidelizar-se a todas as referências as quais já citei, que lhe serviram como base para a construção de sua elogiável dramaturgia. Com sua vasta experiência como ator, e formação em muitas áreas ligadas à Arte, Sacha Bali se preocupou, e isto salta aos olhos em sua peça musical, com o que chamamos de “direção de ator”. Percebemos claramente que cada intérprete teve para si o seu momento de busca da composição exata e precisa de seu ou seus personagens com a ajuda precípua, fundamental e generosa de seu encenador. O espetáculo de Sacha é elegante, e nos faz querer vê-lo novamente, o que em se tratando de teatro ou qualquer outro meio de expressão cultural é um enorme mérito. O elenco é extremamente bem escalado, com um time de atores bastante distintos entre si, no que tange às suas formações, experiências e tipos de interpretação, mas todos, sem exceção, detentores de indiscutível talento. Para quem estava acostumado com o ator Nelson Freitas sempre associado à comédia, o que faz muito bem por sinal, irá se surpreender com a sua impressionante atuação como o detetive particular decadente e alcoólatra Nick Belane. Nelson possui um magnetismo pessoal, além de sua absoluta absorção da alma de seu personagem, levando-nos a acompanhá-lo e a torcer por sua vitória ou algo próximo disso, em meio a tantas intempéries episódicas por que passa. O intérprete nos transmite a totalidade de sentimentos natos ao seu papel, definidores de sua personalidade. Sua melancolia, seu pessimismo perante a vida, seu humor cáustico redentor, seu apreço pelas mulheres e pela bebida estão todos condensados na atuação inteira, plena, emocionada de Nelson Freitas, que margeia em proporções similares e equilibradas os gêneros drama e comédia. Rosanna Viegas, que já trabalhou com Sacha Bali outras vezes, como nas peças “Pão Com Mortadela” e “Cachorro Quente”, mais uma vez mostra em cena toda a sua capacidade interpretativa e versatilidade ao dar vida, respeitando as pertinentes distinções, a três tipos que perpassam a narrativa. Rosanna detém uma força natural própria só em estar no palco. Basta emitir uma frase ou fazer um leve movimento de dança, que percebemos desde já estarmos diante de uma atriz de incontestável qualidade. Sua bartender é tresloucada, patética, embriagada e risível. Dona Morte traz em seu entorno a ambiência de mistério necessária para a justificação de sua função na história. E a dançarina que personifica nos transmite a sensualidade plena, acompanhada por um certo ar de desdém, que a valoriza como elemento de um universo proposto. Samuel Toledo é um adorável jovem ator, com muitos recursos interpretativos, a quem já havia assistido em um outro espetáculo, “Elefante”. Samuel teve a incumbência de construir com diferenciações bem desenhadas alguns personagens do entrecho. O primeiro, John Barton, é um sujeito extremamente suspeito e esquisito, que procura Nick Belane a fim de que resolva um caso um tanto quanto bizarro. Samuel quis fazer algo que tornasse este indivíduo mais enigmático do que naturalmente é. E logrou seus intentos com nítido êxito. Seu andar é claudicante e sua fala é presa. Como Céline, “o maior escritor da França”, compõe uma figura soturna e cheia de mistérios, realçando os seus olhares e discursando num tom temeroso e ameaçador. Em outras passagens, o intérprete incorpora um tipo endoidecido com personalidade ansiosa e aflita, usando a voz com entoação distorcida (Samuel se desdobra com máxima eficiência em suas variações comportamentais). Carolina Chalita defende com potente sedução e volúpia o papel de Jeanie. Sua entrada em cena é inegavelmente espetacular. No decorrer da peça, Carolina, diante das reviravoltas de sua personagem, imprime com honorável entendimento as demais nuances à sua interpretação. Revela-nos a firmeza indispensável, o viés temível de seu caráter, sem perder em nenhum momento a sua aura tentadora de “femme fatale”. A atriz se utiliza da técnica apurada de sua voz e respectivas variantes para conferir elevada credibilidade ao que lhe foi proposto pelo texto na construção de Jeanie. Thogun Teixeira passeia com notável desenvoltura por todas as veredas interpretativas exigidas pelos diferenciados papéis que lhe couberam. Como o bookmaker Tony, é truculento e implacável. Como Groves, o proprietário da funerária, ostenta, em contraposição à sua forte compleição física, a fragilidade, vulnerabilidade e submissão próprias do companheiro de Jeanie, ofertando-nos apropriado e certeiro tom de comédia. E como o barman de “O Cão Sedento”, mantém a fiel postura deste profissional que se torna testemunha ocular de importantes fatos do enredo. Valendo-se de sua impressionante voz grave, Thogun cumpre com valiosa dignidade as funções que lhe foram impostas na ação. Uns dos pontos de “Uísque com Água” que merecem a nossa reverência e respeito é a riquíssima trilha sonora de Pedro Gracindo. Contando com músicos excelentes, que se posicionam à esquerda da ribalta, e atores incrivelmente bem preparados em suas vozes para o canto, Pedro criou uma fascinante trilha sonora, que se impõe, por sua importância, como elemento indissociável para o encantamento exercido no público. São acordes sofisticados que remetem ao melhor do rock e do blues, assumindo a nobre missão de emoldurar e valorizar diversos quadros cênicos. Faz-se necessário prestar atenção nas letras da canção, inteligentes e coerentes com a situação e o estado dos personagens. Há momentos solo e em coro (emocionante), além de uma canção interpretada em inglês por Nelson Freitas. O cenário de Diogo Monteiro e Dodô Giovanetti se encarrega de nos transportar com legitimidade para o intrigante universo retratado. Sentimo-nos parte integrante daquele ambiente imbuído de múltiplas referências. Percebe-se um clima underground e decadente na pequena sala onde Nick trabalha, com sua mesa de madeira (com uma luminária, uma garrafa de uísque e um copo sobre ela, dentre outros elementos), uma cadeira verde estofada e outra maior marrom com textura de couro, uma bancada com uma pequena televisão, uma geladeira antiga e uma outra luminária pendurada. Por mais que não se diga a época da narrativa, deduzimos que haja uma inspiração, com total liberdade poética, nos filmes noir norte-americanos (evidente que a presença da televisão é autorizada por esta licença artística). O bar “O Cão Sedento” possui uma atmosfera “bas-fond”, com o seu particular balcão, uma fileira de garrafas sem rótulos no alto, uma mesa com um abajur repleto de lâmpadas (seu efeito é muito bonito), uma placa em vermelho pendurada indicando o seu nome e luminárias metálicas verdes suspensas. A mansão de Jeanie é representada por um sofá estampado, tendo atrás de si uma janela envolta por estampas assemelhadas, além de um abajur. Na porta de entrada, um lustre. O figurino de Marcelo Martins também é merecedor de todas as loas. Marcelo apostou tanto na elegância dos costumes masculinos e femininos quanto na coerência dos trajes, amplamente de acordo com os perfis dos personagens, a suposta época em que transcorre a história, e a sua localidade (Los Angeles, nos Estados Unidos). O profissional não economizou nos ternos, calças com pregas, longos com brilhos, trench coat, chapéus, capote, camisas listrada e xadrez, suspensório, boina, luvas, estola e xale, além de sapatos sociais e escarpins. A iluminação de Roberto Macedo é primorosa. A sua luz exerceu um papel fundamental para o embelezamento da encenação, colaborando com suprema generosidade na ambientação adequada da narrativa. Aliando-se a um tênue fog, o iluminador presenteou o espectador com belos focos e sombreados, luzes quentes brandas (em tons amarelados), meias-luzes, um refletor com forte luz branca na lateral do palco, além do aproveitamento harmonioso das cores vermelha, azul e rosa. Podemos destacar ainda o efeito das garrafas penduradas no bar, refletindo uma tonalidade rósea. “Uísque com Água” traduz-se como um espetáculo musical que se destaca pela sua ousadia dramatúrgica, pelo resgate do legado da obra de um escritor tão incompreendido quanto venerado, como Bukowski, pela sua aposta em um elenco heterogêneo e talentoso, por trazer à baila uma outra faceta do ator Nelson Freitas, pela reafirmação do amor de Sacha Bali por este intelectual e pelo teatro, pela sua consolidação como dramaturgo e diretor, pela excelência de suas composições musicais, e por não temer em apostar neste delicioso gênero de uma forma totalmente diferente. Em certa passagem da peça, o inesquecível e único Nick Delane atribui proximamente ao seu drink preferido, uísque com água, qualidades redentoras, capazes de preencher o vazio de sua vida, saciando a sua sede de existência. Sacha Bali de certa forma faz o mesmo. Sacia a nossa sede voraz em cultivar o bom teatro, redimindo-nos, nem que seja apenas pelo tempo de “Uísque com Água”, de qualquer sensação de vazio metafórica. Sirvam-se. Fiquem à vontade. Há uísque com água para todos. Mas o primeiro copo é de Charles Bukowski.

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Foto: Estevam Avellar/TV Globo

Ao vermos uma novela de Gloria Perez infalivelmente identificamos a sua marca. E não foi diferente ao assistirmos ao primeiro capítulo de “A Força do Querer”, o novo folhetim das 21h da Rede Globo, exibido ontem à noite. Com direção artística de Rogério Gomes e direção geral de Pedro Vasconcelos, a trama nos apresentou a gênese dos principais conflitos que a nortearão pelos próximos meses. Contando com um elenco estelar, formado em grande parte por atores que costumam ser protagonistas em outras produções do gênero, raro de se testemunhar, “A Força do Querer” não fugirá da abordagem de assuntos polêmicos, alguns extremamente atuais, como os que dizem respeito aos transgêneros e sua aceitação pelas família e sociedade, compulsão pelo jogo, busca da beleza perfeita, sereismo, e os potenciais poder e glamour associados ao tráfico de drogas. Além disso, teremos uma policial, Jeiza, com aspirações de ser uma lutadora de MMA, livremente inspirada em Ronda Rousey (papel que caberá a Paolla Oliveira). Ademais, Gloria não se furtará de inserir em sua obra elementos clássicos das telenovelas, como a disputa de dois homens que se conheceram na infância por uma mesma mulher. Suas primeiras cenas ocorreram no Pará com o personagem de Eugênio (Dan Stulbach, um bem-vindo retorno à teledramaturgia da emissora, após um período de experiências como apresentador em outros canais), sócio de uma empresa que comercializa alimentos, ao lado de seu filho Ruy (João Gabriel Bolshaw; Fiuk o representará na fase jovem), marcando a sua ida ao Acre a fim de negociar com um fornecedor local. A região é inóspita, e só se chega de barco. O tempo está ruim. A embarcação tomba, e o menino desaparece em águas turvas. Dan se saiu muito bem ao revelar o desespero do pai. Na verdade, Eugênio estava cumprindo a sua última missão como diretor da empresa, já que pensa em “começar do zero”, realizando o sonho de sua vida, montar o seu próprio escritório de advocacia, o que contrariará seus familiares. Quem assumirá o seu lugar é Caio (Rodrigo Lombardi, um intérprete associado a outras novelas de Gloria, como “Caminho das Índias” e “Salve Jorge”). Caio é um homem honesto, porém bastante ambicioso no que tange ao aspecto profissional, o que atrapalha o seu relacionamento com a passional Bibi (Juliana Paes; uma reedição do casal, como podem lembrar, de “Caminho das Índias”). As cobranças de Bibi são tão intensas que levam ao rompimento do compromisso. O que Caio não esperava é que estava sendo traído por ela com o garçom Rubinho (Emílio Dantas, o ator que se sobressaiu nos palcos ao encarnar o cantor e compositor Cazuza; uma boa escalação, já que se trata de um rosto novo no horário nobre). Rubinho introduzirá Bibi no mundo do crime, no qual a moça assumirá um posto que lhe conferirá irrestrito poder, assumindo a identidade de Bibi Poderosa. Caio, desiludido, desiste da nomeação na empresa, e viaja para os Estados Unidos, onde estudou. Um dos principais sócios desta mesma empresa se chama Eurico, austero e rígido nos negócios. Eurico, irmão de Eugênio, é defendido por Humberto Martins, um artista que sempre imprime dignidade aos seus papéis (também integrou o elenco de algumas novelas da autora, como “Barriga de Aluguel”, na pele de um caminhoneiro). O empresário é casado com a sofisticada e reconhecida arquiteta Silvana (a ótima Lilia Cabral, representando com a elegância de costume). Só que Silvana lhe traz um enorme problema: o seu vício em mesas de pôquer. Esta falha compromete, óbvio, a estabilidade do casamento e a sua situação financeira. Neste mesmo núcleo, temos a bela Maria Fernanda Cândido (brilhou em suas primeiras cenas), cuja personagem Joyce, casada com Eugênio, é uma mulher fútil e exageradamente vaidosa, que direciona essas características para a sua filha pequena Ivana (na outra fase, será personificada pela estreante Caroline Duarte). A criação desta personagem é uma crítica oportuna às mães que se utilizam de seus filhos para se promoverem, e até mesmo ganharem dinheiro, ainda mais em tempos de redes sociais. São mães que não conseguiram almejar os seus sonhos, transferindo-os para os seus filhos, mesmo que muitos não os queiram. O que Joyce não imaginava é que Ivana ao crescer não possuiria quaisquer resquícios de vaidade feminina, aproximando-se cada vez mais do mundo transgênero. Este tema promete aquecer a história, promovendo opiniões contrárias ou favoráveis, tanto dos personagens quanto dos telespectadores. Todos estes episódios relatados se passam no Rio de Janeiro. Voltemos ao rio em que Ruy caíra em viagem com o pai. Já não há esperanças quanto à sua sobrevivência, até que um outro garoto, natural da região, Zeca, filho de Abel (Tonico Pereira), vivido por Xande Valois (personagem de Marco Pigossi na etapa seguinte), tenta salvá-lo, mas também acaba caindo nas correntezas do rio. Desacordados na sua margem, os meninos são encontrados por um índio ashaninka (Benki Piyãko), que lhes dá um chá curativo alucinógeno. Os meninos que veem a Lua se misturar ao rio, ouvem a seguinte profecia do indígena: “Vocês tenham medo do que vier das águas. O rio que juntou vocês vai separar de novo”. O índio lhes ofereceu como proteção um colar, metade para cada um. O tempo passou. Bibi, agora cabeleireira, está casada com Rubinho, desempregado, o que causa um desconforto em sua mãe Aurora (Elizangela). Durante o noivado de Ruy (Fiuk; outra renovação no horário das 21h, é prazeroso ver este jovem ator ostentando maturidade) e Cibele (Bruna Linzmeyer), com a presença de toda a família, incluindo o amigo Dantas (Edson Celulari), pai da noiva, Eugênio anuncia o seu novo sucessor na empresa: Ruy, o seu filho, para o assombro geral. Deslocamo-nos para Parazinho, a fictícia cidade do Pará. Zeca agora tem como intérprete Marco Pigossi (depois de “A Regra do Jogo”, em que deu vida a um policial, Marco tem a possibilidade de defender um tipo bem oposto àquele, haja vista que Zeca é um sujeito simples, rústico, trabalhador – reparem em seu bem construído sotaque, um caminhoneiro apaixonado por Ritinha, Isis Valverde, a fogosa, brejeira e sensual moça que acredita ser filha de um boto, adepta do sereismo, prática das mulheres que se trajam de sereias, tentam ao máximo se assemelhar a elas, sendo que muitas ganham a vida com isso, como é o caso de Ritinha, que faz apresentações públicas como o ser mitológico). O romance dos dois é desaprovado por Abel, que se desabafa com sua irmã Nazaré (Luci Pereira). Zeca está à procura de Ritinha. Ruy está com o seu pai na localidade para se encontrar com um fornecedor. Ritinha, a “sereia”, surge fulgurante de dentro das águas vermelhas do rio de Parazinho, tendo ao seu lado lépidos botos. Os dois rapazes, atônitos, admiram-na. A profecia do índio começa a se concretizar. Começou desta forma a nova novela de Gloria Perez, enriquecida por uma bonita direção de fotografia de Sérgio Tortori, em tons de azul para a noite, verdes em outra passagem, e naturais nas áreas urbanas, valorizando o colorido do mercado de alimentos. A abertura de Alexandre Romano e Cristiano Calvet é embalada pela canção de Caetano Veloso, “O Quereres”, em que há a fusão de imagens de pessoas e paisagens e situações do cotidiano, realçadas por distintas cores. “A Força do Querer” se compromete a seguir o que dita o seu título. Os seus personagens se moverão pelos seus desejos, seus quereres, que não virão facilmente. As suas metas só serão atingidas se forem empreendidas as suas forças, claro. No entanto, onde há mais de uma força, aquelas que intentam o mesmo objetivo, haverá pelejas. Assim como haverá a força individual, tão difícil por ser solitária, por ser contra a maioria do pensamento. A novela de Gloria Perez se baseia nisso. E é nesta conflagração de conflitos que desencadeiam debates, discussões e reflexões que se encontra a tal marca da teledramaturga. Para se assistir às suas novelas, é necessário que se tenha força, força para se aceitar a diferença, para se aceitar o novo, para se enfrentar o tabu. Olhos para se descobrir a tolerância que há dentro de nós, mesmo que a desconheçamos. Basta que para isso, despertemos a nossa força do querer.