Arquivo de junho, 2017

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Foto: Bernardo Santos

Nunca se viu no cenário nacional tantos espetáculos teatrais sendo encenados ao mesmo tempo, ou com períodos de temporada próximos, que se empenham, por intermédio de suas dramaturgias, em retratar outras formas de relacionamento afetivo, pregando, sem doutrinações, a aceitação pelo outro da diferença, e servindo como poderosa arma de dissolução das mazelas deixadas nos rastros dos preconceitos da sociedade civil. Faltava apenas um musical para tocar neste assunto. E “Yank! – O Musical” veio com força para cumprir esta missão. O texto pertence aos irmãos norte-americanos David Zellnik e Joseph Zellnik, e sua primeira apresentação ocorreu no circuito Off-Broadway em 2010. Recebeu sete indicações ao Drama Desk Awards, indicações como “Melhor Musical” no Outer Critics Circle Awards e Lucille Lortel Awards, sendo traduzido e adaptado no Brasil com suas respectivas versões por Menelick de Carvalho, também diretor cênico, e Vitor Louzada. Esta é a primeira vez que o texto dos irmãos Zellnik é representado em uma língua não inglesa. A história se inicia com Hugo Bonemer nos relatando que foi encontrado em um sebo um diário de um correspondente de guerra americano, Stu (Hugo Bonemer), no qual havia suas impressões de suas experiências na Segunda Guerra Mundial, eternizadas no formato de confissões, reflexões, revelações ou simplesmente registros. Mas o que mais chamou a atenção neste velho diário foram as lembranças de um tórrido amor que viveu intensamente com o seu colega de pelotão, o sedutor Mitch (Betto Marque), desde a época do treinamento nos Estados Unidos, passando pelo conflito em si, culminando com o seu término. Passamos então a acompanhar o dia a dia do pelotão 89 em sua fase preliminar de treinamento, por volta de 1943. Nele, há todos os tipos de indivíduos, como o durão e severo Tennessee (Conrado Helt), o exagerado e divertido Professor (Leandro Melo), Artie, o correspondente da revista “Yank” (Leandro Terra), o Sargento que cita Scarlett O’Hara (Bruno Ganem), o austero Cohen (Robson Lima), Rotelli (Chris Penna), Czechowski (Dennis Pinheiro), e Swing (Alain Catein). Stu é um dos mais jovens. Extremamente sensível, mergulha-se em embates pessoais quanto à sua natureza sexual. Possui enormes dificuldades de se entrosar com o grupo, que repetidas vezes zomba ou faz pilhérias de seu jeito “diferente”. O convívio entre os rapazes floresce o clima de intimidade entre eles, o que lhes permite a troca de provocações machistas e gracejos com tons pornográficos. Stu começa a se sentir mais útil e valorizado quando recebe um convite de Artie para ser correspondente do jornal “Yank” (como todas as publicações de guerra, somente as “boas notícias” podiam ser reportadas, jamais os seus horrores). A postura frágil de Stu desperta o interesse do galã do pelotão, Mitch. Mitch, a princípio, reluta em aceitar os seus desejos pelo correspondente. Stu está cada vez mais certo de seu amor pelo companheiro de tropa. O relacionamento de ambos suscitará distintas reações, que vão da hostilidade de alguns, ao posicionamento zombeteiro de outros, até a naturalidade de terceiros. A partir do fato em que os soldados concluem a sua etapa de treinamentos, e vão para os locais de confronto direto, as condutas e os perfis de alguns deles mudam. Ir para o front se estabelece como condição de status para os combatentes. As lutas interpessoais e as diferenciações hierárquicas se acentuam. No mesmo ambiente onde há mortes de amigos e inimigos japoneses, há espaço para a diversão dos shows de belas e voluptuosas mulheres (Fernanda Gabriela) e sessões inofensivas de cinema. O amor de Stu e Mitch tem que sobreviver a todos os tipos de intempéries, como distanciamentos, e principalmente o escancarado preconceito de seus superiores. A descoberta da homossexualidade de um militar por aqueles lhe dava duas únicas alternativas: a prisão ou a ida para a frente de batalha. Vale dizer que em recente entrevista ao programa “Sem Censura”, da TV Brasil, o ator Hugo Bonemer nos contou um fato histórico. Segundo ele, os movimentos gays americanos começaram a se organizar efetivamente a partir do retorno de ex-combatentes homossexuais do front à sua terra natal, em específico a cidade californiana de São Francisco, onde, no bairro Castro, estes mesmos homossexuais eram perseguidos por policiais – esta abordagem violenta se tornou mais dificultosa, pois se tratavam agora de militares gays. A dramaturgia de David e Joseph Zellnik se firma pelas suas intenções em nos revelar por meio de um retrato cênico bem acabado não só o cotidiano próprio de um conjunto de rapazes dentro de um contexto extraordinário, mas também por nos convencer de que o amor entre iguais, ainda que em um ambiente exponencialmente opressor como o militar, inclusive em tempos de guerra, detém uma capacidade inquebrantável de superação, independente de seus ferrenhos opositores. As charmosas e delicadas canções (libreto e letras de David Zellnik; músicas de Joseph Zellnik) são inseridas no desenho narrativo de modo oportuno, coerente e preciso, ou seja, cumprem o seu relevante papel de realçar sonora e melodicamente os fatos pontuais e o tema central do espetáculo teatral. Suas mensagens são bastante claras. A peça se proclama como um libelo artístico contra as intolerâncias humanas, o preconceito enraizado do indivíduo, as imposições sociais que não se justificam, e de certa maneira contra as insanidades atinentes aos atos beligerantes. Os autores se preocuparam em suavizar o clima pesado de um universo conflituoso de proporções mundiais com doses escalonadas de humor e ironia, que funcionam com inegável êxito. Ao abordarem a homoafetividade sem panfletagens, os dramaturgos não só enaltecem o amor e suas infinitas possibilidades de realização, mas também o estado de paz presente na alma do homem quando este sentimento se completa. Há mesmo que subliminarmente uma mensagem pacifista no cerne do texto, ao evidenciar as incongruências e descabimentos natos às ideias e práticas bélicas. Menelick de Carvalho, o diretor, transpôs com primor e notada eficiência a rica atmosfera em que vive o pelotão, com seus dilemas, idiossincrasias, relações interpessoais, visões sobre a guerra e referências individuais. Menelick, com muita habilidade e precisão, nas duas horas de espetáculo, com direito a entreato, deu atenções especiais às cenas de grupo, extremamente dinâmicas, às passagens com momentos mais íntimos e românticos de Stu e Mitch (estas ações mereceram um tratamento delicadíssimo, com bonito resultado), e aos instantes de tensão envolvendo dois ou mais personagens. Os ótimos números musicais foram enquadrados com cálculo e argúcia pelo encenador nos espaços propícios da peça, atingindo um admirável equilíbrio. Em suas mãos, todo o elenco teve a sua chance de brilhar. Não é fácil dirigir um musical, levando-se em conta os múltiplos elementos que o caracterizam, porém Menelick de Carvalho exerceu pleno domínio sobre aqueles, provando-nos seu conhecimento vasto sobre o gênero. A direção musical e os arranjos originais são de responsabilidade de Jules Vandystadt. O desenho de som, que acompanha com elevada propriedade a obra de Jules, é de André Breda. A contribuição do diretor musical e arranjador para a concretização desta montagem foi fundamental. Percebe-se sua extensa sensibilidade para adequar as suas composições/arranjos ao desenvolvimento da ação narrativa, e na condução competentíssima das várias canções que permeiam o espetáculo. Os atores possuem notório preparo vocal, e o diretor, ciente do precioso material que tinha em mãos, aproveitou-o em seu nível máximo. Um dos pontos nobres da encenação, sem dúvida, é a presença de uma orquestra prodigiosamente virtuosa em seus atributos. São músicos de irretorquível profissionalismo, merecedores de intermitentes aplausos. Na regência e no piano, Ciro Magnani; no violoncelo, Thaís Ferreira; na bateria, Léo Bandeira; no baixo, Matias Correa, e nos sopros, Marcos Passos. As coreografias de Clara da Costa são espetaculares. Ela se utiliza com proficiência das habilidades físicas dos rapazes, produzindo criativos movimentos que em diversas passagens nos lembram exercícios militares. São marchas, saltos, e demais movimentações agrupadas ou não que se casam perfeitamente com as canções selecionadas. Há uma mescla inteligente de força bruta e leveza plástica. Os números de sapateado, que tiveram a direção de Gabriel Demartine, são deliciosamente apreciáveis. O desenho de luz foi assinado por Daniela Sanchez. Daniela se esmerou em buscar as informações visuais luminosas que melhor traduzissem o mundo no qual transcorre a história daqueles soldados, e obteve com a sua obstinação um bonito e harmonioso quadro cênico. Não houve economias em planos abertos realistas e focos intimistas, alguns com cores (como nas cenas entre Stu e Mitch, e nas apresentações dos shows das mulheres personificadas por Fernanda Gabriela). Um trabalho inspirado com acentuada dignidade. Os figurinos de Samuel Abrantes nos levam irremediavelmente, o que indica o seu total e absoluto acerto, não só ao tempo em que se passa a ação, mas também ao território específico em que vivem e convivem aqueles soldados agrupados em um pelotão. As fardas/uniformes dos jovens são em tons crus, em aliança com seus indefectíveis coturnos. Peças muito comuns entre os militares são as regatas brancas, também representadas. Ainda são vistos um jaquetão de um superior militar e seu quepe, as roupas casuais e esportivas, incluindo um boné, usadas por Hugo Bonemer em especial ocasião, além dos belos e exuberantes vestidos com ou sem brilhos trajados por Fernanda Gabriela em seus shows, que em muito nos lembram as pin-ups bastante admiradas à época. A concepção cenográfica é de Menelick de Carvalho, com cenografia e adereços de Victor Aragão. O cenário se propõe a retratar com poucos elementos as particularidades do local central do desenvolvimento narrativo, principalmente o quarto e demais instalações, enfim, o alojamento onde estão lotados os militares personagens da trama. Tudo foi pensado de forma não só a buscar estas referências mas também em se atingir um patamar de funcionalidade o qual servisse plenamente à montagem. Menelick e Victor alcançaram os seus objetivos. A primeira imagem que temos é de um escrito, como se fosse um letreiro, todo em vermelho, na parede negra ao fundo do palco, com a palavra que não só intitula a revista da tropa mas o nome do espetáculo: “Yank”. Uma plataforma é usada como tablado para os shows, um beliche metalizado corrediço é levado de um ponto a outro com demasiada eficiência, e uma banqueta de origem semelhante possui distintas utilidades, além de cadeiras. O elenco formado por onze atores, com notáveis experiências em musicais, destaca-se sobremaneira em suas missões ao oferecer ao público não só excelentes números de dança e canto, mas também ao desenhar com extrema compreensão interpretativa e observação acurada, açambarcando uma paleta consideravelmente ampla de emoções, os diferenciados perfis dos personagens. Hugo Bonemer, que passou a ser respeitado neste gênero a partir do musical “Hair”, vindo a fazer outros, como “Rock in Rio – O Musical” (o sucesso lhe valeu a abertura no Rock in Rio Lisboa), e o mais recente, “Ordinary Days – Um Musical Off-Broadway”, entrega-se profundamente ao seu papel, o correspondente de guerra Stu. Hugo tem ao seu dispor, com este protagonista, uma gama enorme de viabilidades de exploração dos sentimentos e comportamentos deste homem sensível, vulnerável, confuso e apaixonado. O ator, com brilho, utiliza-se das tintas mais apropriadas para nos transmitir todas estas faces de seu personagem. Nota-se que sua capacidade vocal está cada vez mais apurada, atingindo as notas que lhe são exigidas. Costumo dizer que Hugo Bonemer teve a sua voz “moldada nos céus”, devido à sua linda afinação, doçura e emotividade. Betto Marque (que já participou do musical “Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos”), como o viril e durão militar Mitch, desenvolve com visível elegância a complexa ambiguidade de seu papel. Betto consegue encaixar as doses exatas de sensibilidade ao homem até então heterossexual que se vê envolvido afetivamente por uma pessoa do mesmo sexo. O contraste entre a fortaleza física do jovem, suas supostas convicções de orientação sexual e sua delicadeza emocional ao concretizar os seus desejos íntimos com Stu demandaram do ator um extenso entendimento de interpretação no sentido de realizar uma composição de seu papel que fosse atraente para os olhos dos espectadores. Sua voz é arrebatadoramente pujante e envolvente, certeira nas variações dos tons solicitados. A gravidade de suas entoações vocais nos soam prazerosas, agradáveis e encantadoras. O casal formado por Stu e Mitch nos convence e nos comove por sua absoluta verdade e destemor face aos naturais e inevitáveis obstáculos. Leandro Terra, como um dos jornalistas de “Yank”, oferece-nos pinceladas irônicas únicas, o que imprime à encenação uma bem-vinda leveza. Fernanda Gabriela, repetindo a parceria com Hugo Bonemer depois de “Ordinary Days…” resplandece a cada aparição nos shows apresentados ao pelotão. Fernanda, dotada de uma voz lindíssima, entorpecedora, criou para cada uma dessas cantoras uma personalidade própria. O que há em comum entre elas é um evidente ar de sedução e sensualidade, o que nos leva a crer que Fernanda se inspirou coerentemente nas divas da canção dos anos 40. Conrado Helt, de “Hair” e “Cinderella”, como Tennessee, mostrou-nos com apuro elementos bem definidos da rudeza e aspereza de seu militar, inconformado com a relação homoafetiva de seus colegas. Completam o talentoso time de “Yank! – O Musical” Chris Penna (de “Chacrinha, O Musical” e “Beatles Num Céu de Diamantes”), Leandro Melo (participou de “Elis, A Musical”), Dennis Pinheiro (foi visto em “S’imbora, O Musical – A História de Wilson Simonal”), Bruno Ganem (“Andança, Beth Carvalho – O Musical”), Robson Lima (“O Mambembe, Um Musical Brasileiro”), e Alain Catein (exibiu suas habilidades em “Godspell”). Enfim, testemunhamos um elenco uniformemente comprometido com a encenação, cumprindo com galhardia todos os pré-requisitos para se fazer um bom musical. “Yank! – O Musical” se enquadra com grandes méritos em um momento bastante delicado de nossa era, no qual se discute abertamente, mesmo que seja em meio a petardos retrógrados, conservadores e obscurantistas, sobre a aceitação pela sociedade de outras possibilidades de relação afetiva e amorosa que não seja aquela ditada como a correta, a normal, a tradicional e adequada às convenções obedecidas pela coletividade. Com uma história sensível, com toques de humor, ainda que seja ambientada em tempos de horror, como a Segunda Guerra Mundial, “Yank! – O Musical”, composto por uma equipe sabedora de suas funções, oferta-nos com suas inspiradas dramaturgia e música, suas coreografias e seus atores um pequeno retrato simbolizador da infatigável peleja daqueles que combatem a escuridão da ignorância e do nefando preconceito. Não há forma de “protesto” e “denúncia” mais sutil e admirável do que aquela feita por meio do poder positivamente manipulador da música, esta etérea e inefável manifestação artística que se origina na mais pura e honesta vontade humana. E “Yank! – O Musical” faz isso muito bem. Nem é preciso comprar a revista homônima. É melhor ver ao vivo.

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Foto: Elisa Mendes  

Em tempos soturnos em que prevalecem em vários setores da sociedade pensamentos organizados de homofobia no Brasil, a decisão de se levar aos palcos cariocas uma parte da fascinante trajetória do engenheiro, filósofo, crítico de arte e fotógrafo Alair Gomes constitui por si só um ato de bravura de seus idealizadores. Nascido em Valença, Rio de Janeiro, em 1921, e assassinado por estrangulamento por um rapaz que frequentava o seu apartamento no coração de sua idolatrada Ipanema em 1992, Alair, Edwin Luisi, tornou-se, no futuro, a partir de suas fotos tiradas da janela dos fundos de sua casa no sexto andar de um prédio na Rua Prudente de Morais com vista para a linda praia de seu bairro, ou nela mesma, um dos expoentes da arte homoerótica contemporânea no mundo. O dramaturgo Gustavo Pinheiro se valeu do diário-guia escrito pelo próprio fotógrafo em suas muitas viagens pela Europa, “A new sentimental journey”, de 1983, para alinhavar o arco dramatúrgico de sua narrativa. “Alair” se passa em seu apartamento no qual o artista recebia alguns desses rapazes que fotografava seminus nas areias da Praia de Ipanema nos anos 70 e 80, praticando atividades físicas ou simplesmente em suas posições naturais. A peça aposta em uma conversa direta entre Alair Gomes e o público, como se ele estivesse contando, confidenciando, revelando as suas histórias, acompanhadas de suas percepções, visões e convicções, marcadas por suas experiências únicas em Paris, Roma, Florença e Londres, em que testemunhamos as suas aguçadas e elevadas observação e conclusão do conceito de beleza e estética materializadas na figura do corpo humano masculino. Paralelo a isso, acompanhamos a relação do fotógrafo com embates culturais, comportamentais, intelectuais e íntimos com dois belos rapazes, interpretados por André Rosa e Raphael Sander. André personifica um típico garoto de praia da Zona Sul do Rio de Janeiro das décadas citadas, praticante de surfe, adepto dos trajes despojados da cultura da cidade, e com o falar inerente aos jovens da época. Mantém com Alair um relacionamento no qual percebemos traços de conflito, haja vista que, ao mesmo tempo em que se permite fotografar pelas lentes de seu interlocutor, não admite a condição de se aproximar de uma camada da sexualidade que de certa forma o atemoriza, mas também o atrai. O personagem de André Rosa trava uma luta interna com a sua vaidade nata. Como diz proximamente Alair em uma passagem da peça, os rapazes sabem que estão sendo fotografados, e se aprazem ao serem desejados por seus corpos torneados. O comportamento do moço possui, por vezes, um tom agressivo, inquisidor. No entanto, essa postura se desmonta ao contemplar as suas fotos. Por sinal, contemplar é o verbo que norteou a vida do profissional Alair Gomes. Uma das cenas mais arrebatadoras da montagem se dá quando Raphael Sander descreve com impressionantes minúcias e detalhes (representando a voz de Alair, Raphael entoou um texto dificílimo) as anatomias perfeitas do Davi de Michelangelo. O rapaz defendido por André, a pedido do fotógrafo, posa, desnudo, no alto, como se fosse em um pedestal, como a famosa e universal escultura. Poucas vezes, a nudez no teatro foi tratada com tanta beleza, cuidado e delicadeza. Uma cena essencialmente artística que, certamente, deixou os espectadores alumbrados com a sua pujança estética. Alair trata os rapazes com quem lida como se fossem meninos, e para ele talvez o fossem. Isso é notado nas nuances de humor da encenação, quando lhes oferece repetidamente um “Toddynho” ou “Danoninho”. Por ser um homem incrivelmente culto, sua erudição colide com o desconhecimento cultural dos jovens que o rodeiam. Já Raphael Sander dá vida a um rapaz contido, com ares de circunspecção. O jovem militar nos indica ser um companheiro de Alair. Todavia, o homem jovem demonstra dificuldades em permitir que se torne pública a sua relação mais íntima com o fotógrafo. Sua juventude se confronta, em algumas ocasiões, com a maturidade de seu amante. Vislumbramos na personalidade deste tão jovem militar sentimentos internos também conflitantes, mais uma vez desencadeados pela complexa questão da sexualidade. Tanto no caso do surfista quanto no caso do militar, a virilidade e as identificações do masculino são bastante evidenciadas, ao contrário de Alair, que ostenta uma suave e discreta feminilidade. Em suas andanças pelo continente europeu, Alair Gomes admira os diferentes tipos de beleza do homem e os aspectos notáveis da arquitetura de cartões postais do Velho Mundo. A beleza do homem pode ser descoberta num hippie, pode ser revelada por um rapaz dentro de uma livraria, como pode ser comprovada nos remadores vestidos de Florença. Causava-lhe indignação o fato de homens esportistas e musculosos, habitantes do berço do Renascimento, estarem com os seus corpos cobertos. Nada escapava aos olhos perscrutadores de Alair. As obras de arte, como “A Criação de Adão”, na Capela Sistina, de Michelangelo, ou a própria representação do Cristo morto na cruz foram objeto de suas profundas observações. A dramaturgia de Gustavo Pinheiro se destaca em vários sentidos. Ele procura contar a trajetória deste artista incompreendido por muitos à época, e que hoje, após a sua morte, teve a sua obra, a sua expressão artística mundialmente reconhecida e valorizada, de um modo que tange o poético, o lírico, o sensível, o reflexivo, sem, em nenhum momento, deixar de reunir todos os elementos complementares e constituintes de uma narrativa dramatúrgica consolidada, consistente e atrativa. Seu texto é direto, enxuto, sem delongas. Gustavo se apega somente aquilo que lhe soa necessário nos revelar. Lançando mão do fascínio que o seu personagem real exerce sobre o nosso imaginário, Gustavo focou, como já fora dito, na confidência das histórias de Alair Gomes, que envolvem tanto as suas viagens pelo mundo quanto as suas experimentações como fotógrafo e suas relações, nem sempre fáceis, com os seus modelos fotografados, os rapazes da Praia de Ipanema. Gustavo Pinheiro, autor do sucesso “A Tropa”, consegue atingir com grandes méritos o seu objetivo final. Não se deixou cair na perigosa armadilha de se utilizar do tema que abrange intrinsecamente sensualidade, erotismo e nudez para forçar o apelo natural que o assunto carrega em si. O dramaturgo imprimiu o máximo de singeleza, adotando uma conduta de reverência, e por que não dizer, de homenagem a um artista considerado maldito por alguns. Sua arte e sua vida estão no texto de Gustavo Pinheiro de uma forma exemplar, completa, com diálogos precisos e diretos, aliados aos pensamentos existencialistas, por vezes melancólicos, de um homem que, na verdade, tinha como única e real companheira a sua arte, sustentada pela sua veneração da nudez clássica masculina. A direção de Cesar Augusto prima pela sua assumida delicadeza em retratar o universo deste personagem tão atraente em seus aspectos de personalidade como foi Alair Gomes. Cesar optou pelo mínimo possível de elementos de cena, privilegiando os atores, a linguagem de seus corpos e o impacto das imagens projetadas. Edwin Luisi alterna as suas posições por todo o perímetro do palco, assim como os outros dois intérpretes. As entradas e saídas dos personagens de André e Raphael dinamizam a ação. Os embates entre Alair e os rapazes são feitos inúmeras vezes “tête-à-tête”. Cesar nos proporcionou com a sua direção uma inegável beleza estética ao reproduzir as célebres fotos dos rapazes praianos, conduzindo André Rosa e Raphael Sander na formação fiel e plástica dessas imagens com seus trabalhados corpos. O grande painel que serve como anteparo para a projeção das imagens (fotos de Alair, pontos turísticos que visitou…) também serve para que os atores se coloquem atrás do mesmo, realizando algumas ações físicas, causando um efeito deslumbrante de sombras. São os próprios atores, André Rosa e Raphael Sander, quem exercem a função de contrarregragem, deslocando para as marcas indicadas o telão, a bancada e a cadeira que compõem o cenário. O espetáculo não se estende em desnecessidades, ostentando um caráter objetivo e conciso em suas legítimas intenções. Edwin Luisi, comemorando os seus 45 anos de carreira, com belos trabalhos na TV e no teatro, reconhecido como um de nossos melhores e mais respeitados intérpretes, traz para si este enorme desafio de representar, ao seu modo, o grande artista controverso que foi Alair Gomes. Em primeiro lugar, cabe ressaltar que somente a presença do ator no palco já provoca na plateia o sentimento de que iremos testemunhar uma memorável atuação. E com Alair, não foi diferente. Edwin captou com sua sabedoria nata e sólida experiência as filigranas que definiriam os principais contornos do perfil do personagem protagonista. Alair é construído por Edwin com bastante sensibilidade e entendimento de seu papel. Não percebemos que o ator quisesse fazer uma transcrição fiel da persona de Alair Gomes, mas sim a sua visão particular, com a ajuda da direção, é claro, do que simbolizou este “menestrel das imagens”. Edwin Luisi compôs o seu personagem com demasiada delicadeza (esta é, sem dúvida, como puderam perceber, a palavra que define o espetáculo). Ele nos passa a naturalidade e a espontaneidade no momento em que as histórias do retratado nos são contadas. A despeito de haver uma discreta melancolia em seu comportamento, não se deixou escapar, por parte do ator, uma bem-vinda dose de ironia à sua conduta, precipuamente no que se refere aos rapazes com quem se relacionava. André Rosa, um cativante ator de teatro, com várias peças em seu currículo, soube, como o rapaz carioca praticante de surfe alvo dos registros de Alair Gomes, identificá-lo com bastante convicção acerca dos aspectos que demarcam as suas ações e reações no trato com o seu interlocutor. Face às diversas circunstâncias, com inegável acerto, André colocou em seu personagem as camadas emocionais que lhe foram solicitadas. Como já lhes disse, ele ora nos apresenta uma conduta inquisidora, levemente agressiva, ora se mostra um rapaz confuso com os desdobramentos advindos do fato de se deixar fotografar seminu por Alair, o que denota o seu preconceito com uma sexualidade que lhe parece incorreta. Ora parece apenas um menino vaidoso ao ver as suas fotos. Seu trabalho de corpo é espetacular, e não nos custa lembrar de sua cena impactante, em seu sentido estético e artístico, ao reproduzir a imagem de Davi, de Michelangelo. Raphael Sander, após exatos dois anos de sua estreia na televisão, dando prosseguimento à carreira neste veículo, pisa nos palcos pela primeira vez nos confirmando sua capacidade de nos provar, com distinta segurança, as intenções mais destacadas de seu personagem. Coube a Raphael defender o jovem militar amante de Alair Gomes. Diferentemente do personagem de André, o papel de Raphael lhe exigiu um grau de sobriedade e comedimento (o que foi cumprido com ampla compreensão), porém com as variações comportamentais atinentes às contingências por que passa. É preciso que se ressalte que Raphael possui uma boa presença cênica, voz articulada e expressividade corporal elogiável. Ele ostenta com a devida verdade a afetividade, demonstrada de modo sutil, pelo artista das fotos. A sensualidade jovem do personagem é sugerida de maneira não ostensiva. Evidencia-nos com clareza a angústia existencial do moço em não desejar a revelação de sua vida paralela com um homem mais maduro para a sociedade. Num repente, deixa que percebamos que é tão somente um rapaz que gosta de uma partida de basquete como tantos outros. Tanto ele quanto André Rosa foram ótimas e acertadas escolhas para fazerem a contracena com Edwin Luisi. O cenário de Mariana Villas-Bôas se baseia em uma economicidade e objetividade que se adequam à encenação. De fato, não haveria necessidade de uma exuberância de elementos cênicos a fim de que os mesmos traduzissem o universo de Alair. Formado por objetos simples, como uma bancada e uma cadeira, além de um grande painel corrediço forrado com tela translúcida, a cenografia cumpre a sua missão de funcionalidade com inegável êxito. O figurino de Ticiana Passos também respeita com dignidade os propósitos de identificação do perfil dos personagens, obedecendo as épocas sugeridas. Para Edwin Luisi, Ticiana optou pela casualidade de seus trajes, em tons neutros. O ator veste uma camisa social de cor clara, uma calça sem ajustes, mais larga, e tênis. O rapaz surfista vivido por André Rosa se apresenta com moletom e bermudas pretos (o intérprete está descalço). Merecem destaque as peças militares usadas por Raphael Sander em seu papel. Todos os paramentos estão presentes. A boina, o pulôver e calça verdes, e os coturnos. Em outro instante, o rapaz veste uma jaqueta de couro preta. Raphael e André desfilam, em determinadas cenas, apenas com calças jeans (seus torsos estão nus, e os pés descalços). A iluminação de Tomás Ribas é deslumbrante, proporcionando-nos vários e únicos momentos de distinta beleza. Tomás se valeu ao máximo de todos os recursos que lhe pareceram condizentes com a atmosfera particular do mundo de Alair. Dois grandes spots (nas partes superiores, tanto à esquerda quanto à direita) exercem função primordial para demarcar as cenas. Os planos se alternam entre os abertos (a luz, no entanto, não é estourada), e aqueles com certo abrandamento de sua intensidade. Tomás se dedicou visivelmente a registrar o valor que as sombras possuem em sua natureza. Essas mesmas sombras são vistas, como disse, a partir dos corpos dos atores que se posicionam, e se movimentam atrás do painel. Os focos assumem reconhecida importância na obra. Só para citar uma das boas utilizações deste recurso técnico, citemos a passagem em que Edwin/Alair recostado sobre o anteparo (a bancada virada) mergulha em algumas de suas reflexões. Em resumo, um trabalho com inquestionável envergadura qualitativa. Coube a Luísa Pitta a sensacional direção de movimento. Luísa executou um indiscutível e louvável “tour de force” no que diz respeito à realização de um elaboradíssimo trabalho de plasticidade dos corpos dos intérpretes. Realmente, arrebata-nos ver ao vivo a reprodução fidedigna, o que não é nada fácil, dos registros fotográficos feitos por Alair Gomes, muitos deles notórios, com os seus personagens reais. André Rosa e Raphael Sander fazem uma bela parceria ao colocarem em prática esta transposição para a realidade do que até então era visto nas impressões fotográficas da obra de Alair espalhadas pelo mundo. O que vemos são uma espécie de “frames” reais destas icônicas fotografias. A postura contida de Edwin Luisi também requer a nossa observação atenciosa. Rodrigo Marçal se encarregou de criar uma trilha sonora que se encaixasse com coerência à ambiência narrativa da peça, com seus fatos e personagens. E logrou vitória ao fazê-lo. Rodrigo, em ocasiões pontuais, insere primorosamente sons incidentais instigantes, e em outros lança mão da envolvente voz de Caetano Veloso com a canção “Mora na Filosofia”, uma composição de Monsueto e Arnaldo Passos. Marcio Mello caprichou no visagismo dos atores. Edwin Luisi exibe cabelos e barbas alinhados. André Rosa adota cabelos ondulados longos, com algumas mechas com tonalidades claras aliadas ao seu castanho, características típicas de um rapaz praticante de surfe das décadas de 70 e 80 (sua barba foi mantida escura, e bem aparada). Raphael Sander se mostra com a sua face imberbe (o que define ainda mais a juventude do militar que representa), e suas melenas estão lisas, em tom escuro, apresentando uma leve desconstrução, o que lhe cai muito bem. Com relação ao videografismo de Renato Krueger, podemos afirmar, com todas as convicções, que o mesmo exerce um papel de extrema relevância no espetáculo em pauta, pois resgata com apurados critérios as imagens eternizadas por Alair, inserindo-nos na profundidade de suas visão e ótica do semelhante masculino. As fotos de Alair Gomes, do Acervo da Fundação Biblioteca Nacional/Brasil, em projeção, não apenas reproduzem a sua obra real, mas colaboram com vitalidade para a nossa interpretação de sua arte. Também são interessantes as imagens dos locais e pontos turísticos que foram visitados pelo fotógrafo, como o Coliseu de Roma. “Alair” é um espetáculo que se confirma como obrigatório de se assistir por uma série de razões. Citemos uma delas. Aproveitando o fato de terem passados 25 anos do assassinato brutal e covarde de Alair Gomes por um de seus supostos amantes, a peça protagonizada por Edwin Luisi vem à baila nos palcos nacionais numa hora mais do que oportuna. Cada vez mais somos assombrados constantemente por estatísticas que indicam a truculência cometida dia após dia contra os homossexuais no Brasil. A classe política venda seus olhos para essa calamidade social. A intolerância à diversidade sexual é estimulada de modo público e escancarado por segmentos políticos (governantes e suas políticas de governo, políticos representantes de diversas esferas com seus inacreditáveis projetos etc), e pasmem, até setores religiosos possuem a sua parcela de culpa na disseminação da discriminação sexual. O caso é grave não somente em nosso país, mas em diversas nações no mundo. Há fortes movimentos que se empenham em transformar esta triste realidade. Mas os mesmos não podem ficar isolados em suas reivindicações em bastantes casos sequer ouvidas. Os crimes não podem se resumir a números frios noticiados em páginas de jornais. A mudança passa pela educação. A educação em casa e nas escolas, porquanto a maior amiga da intolerância é a ignorância. As Artes, com seu poder de comunicação e esclarecimento, têm feito a sua parte. Seja na TV, seja nos cinemas, e até mesmo em campanhas publicitárias de marcas populares. Neste exato momento, um dos representantes que lutam para dirimir esta mazela, ao retratar com absoluta dignidade, elevada bravura e inconteste nobreza, é “Alair”, uma peça teatral que retrata a vida e a obra de um homem, sim, um homem com a sua câmera fotográfica na mão que queria tão somente a sua liberdade. A sua liberdade de ser quem ele era. A sua liberdade de expressar os seus desejos, exercendo o inalienável direito de trabalhar com a sua arte. Pagou um preço alto por isso. “Alair” nos reporta a essas reflexões. Todos, eu digo todos, principalmente os intolerantes, deveriam assistir a “Alair”.

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Foto: Gshow

Ele é bonito, jovem, simpático, educado e comunicativo. É casado com uma bela mulher, Bibi (Juliana Paes), que o ama intensamente, e pai de um filho, Dedé (João Bravo), que o admira. Rubens Feitosa, ou Rubinho (Emílio Dantas), como é mais conhecido, é um aplicado estudante de Química, mas não concluiu a faculdade. Fala vários idiomas, o que deixa os seus pares impressionados. Realiza com habilidade uma série de consertos domésticos para os seus vizinhos, conquistando-os irremediavelmente. Conseguiu uma boa casa para morar com sua família, quando até então dormia com a sua esposa no chão frio e insalubre de um espaço que servia de depósito para um bar, na companhia de ratos. Seu filho ficava com a avó Aurora (Elizangela). Empregou-se como maître de um sofisticado restaurante (um pedido de Caio, Rodrigo Lombardi, a Dantas, Edson Celulari, seu proprietário). Tudo parecia estar dando certo para Rubinho. Porém, não lhe era o suficiente. Ele queria mais. Muito mais. Começou a dar telefonemas suspeitos. Passou a não frequentar as aulas de seu curso acadêmico. As desculpas e mentiras contadas como justificativas de suas seguidas ausências no trabalho e em casa recrudesceram. Não satisfeito em pagar o módico aluguel de sua residência, decidiu comprá-la com um vultoso sinal. Sempre com um sorriso aberto e cativante no rosto, o rapaz de forte presença cria expectativas em Bibi com promessas megalômanas, para a desconfiança de sua sogra. Sempre que pode oferece regalos à sua esposa. Comunica aos seus familiares que agora está fazendo corretagem entre os abastados clientes do restaurante, desagradando Caio, o ex-namorado de Bibi que decidiu ajudá-los para “se sentir por cima”, depois de ter sido traído pela moça (com Rubinho) que adora pagodes e uma cerveja gelada, quando estavam prestes a se casar. Vangloria-se de que a vida de todos irá mudar, de que irá “entrar numa grana preta”. Bibi, talvez por amá-lo tanto, não consegue enxergar que algo errado está acontecendo. Suas cismas são com possíveis traições conjugais. Nada que um vistoso vestido novo a faça esquecer de suas efêmeras dúvidas. A ostentação de Rubinho ganha proporções cada vez maiores. Resolve, após um episódio traumático narrado a seguir, viajar com a sua parceira para uma pousada portentosa em Angra, no Rio de Janeiro. Ele acha que o dinheiro é a solução para tudo, e este pensamento alimenta a sua desmedida ambição. Para Bibi, com seu incontido romantismo, o que vale é o amor. O exibicionismo material do marido chama a atenção de sua vizinha Heleninha (Totia Meireles). O menino Yuri (Drico Alves), seu filho, considerado um alienado por ser adepto de “cosplays”, esbanja esperteza, e percebe a conduta duvidosa do rapaz de barbas ruivas bem cuidadas. Yuri o flagra entrando apressado em um carro de cor escura, quando havia dito para a sua mulher que tinha pegado um táxi. Como um bom adolescente dos dias atuais, registrou o fato em fotos. O menino que se inspira em personagens de animes japoneses para se vestir, ainda tem o que revelar. As conversas do maître com estranhos se tornam mais claras para o público. Rubinho é um traficante de drogas, e está se preparando para participar de uma ousada entrega de entorpecentes no Rio de Janeiro, envolvendo uma quadrilha altamente perigosa e organizada. Sua função seria acompanhar o comboio ao lado de um outro traficante, também com boa aparência. Bibi, vítima de sua acentuada ingenuidade, crê que o seu esposo foi fechar um rentável negócio de corretagem. Imprudentemente, o “aprendiz de traficante” faz uma ligação telefônica para ela, sem sequer imaginar que estava sendo interceptada pela polícia comandada pela durona oficial Jeiza (Paolla Oliveira). Em uma cena reconhecidamente bem conduzida pela equipe de diretores de “A Força do Querer”, de Gloria Perez, liderada pelo diretor de núcleo Rogério Gomes, com a direção geral de Pedro Vasconcelos, tendo como uma das locações a Ponte Rio-Niterói, a tropa militar capitaneada pela Major Jeiza já está a postos para desbaratar a organização. A operação policial provoca um imenso engarrafamento de veículos, dentre os quais se encontra o de Rubens com o seu comparsa. Antes disso, há uma observação interessante do maître com propensões para o crime. Ele já pensa em crescer na hierarquia da quadrilha. No momento em que os traficantes são desmascarados, Emílio Dantas exibe impressionante e convincente tensão de seu personagem, comprovando-nos de que compreendeu com inteligência interpretativa o perfil imaginado pela autora. Ali, naquele instante, testemunhamos o patente medo do criminoso amador na iminência de ser pego. Uma troca de tiros entre policiais e bandidos é deflagrada, nada que não nos pareça familiar no Estado do Rio de Janeiro, principalmente com civis inocentes na rota dos disparos. Desesperado, Rubinho sai do carro, e adentra num ônibus lotado de passageiros parado logo atrás. Jeiza vê o exato momento em que Rubinho se comunica com o seu cúmplice, minutos antes. A policial praticante de MMA detém o rapaz, e o leva à delegacia. Lá, estarrece-nos a ímpar capacidade de Rubinho em levar as suas mentiras às últimas consequências. Nesta hora em que mente, demonstra ser um qualificado profissional do crime. Consegue arranjar um álibi, o que acaba convencendo o delegado de plantão de sua inocência. Mas não Jeiza. Realmente, a sua boa estampa, a sua lábia afiada, o fato de possuir um emprego fixo em um lugar prestigiado facilitaram com que a sua versão fosse aceita pela autoridade. Além do mais, Jeiza não tinha provas, mas apenas uma “impressão” de que o rapaz estava envolvido no crime. A oficial não se conforma, e promete a si mesma que irá provar a participação do depoente. Rubinho volta para a sua casa com uma indignada Bibi. Em outra cena bastante interessante da novela das 21h da Rede Globo, que tem se destacado pelos ótimos núcleos, e pela abordagem de assuntos pontuados pela sua relevância, a policial vai com o seu namorado machista, o divertido Zeca (Marco Pigossi) a um restaurante. E, claro, trata-se do local de trabalho do alvo de investigação da filha de Cândida (Gisele Fróes), a desembaraçada moradora de Portugal Pequeno, em Niterói, no Rio de Janeiro. O clima latente de enfrentamento entre Jeiza e Rubinho foi um ponto alto dos recentes capítulos da trama. Enganou-se o telespectador ao pensar que Rubinho interrompesse as suas práticas delituosas, pelo menos após o susto que tomara. Rubens voltou mais voraz do que nunca. Os telefonemas fora de hora retornaram. O jovem aparece na porta de casa com um moderno e caro carro, possivelmente o mesmo conduzido pelo seu comparsa na noite em que Yuri os flagrou. O menino novamente registra com fotos, e as guarda. Bibi, mais uma vez, acredita na prosperidade quase mágica de seu marido. E com ela, as desconfianças dos demais também se acentuam. Nos capítulos de ontem e anteontem, Jeiza se dedica a ouvir com cautela e paciência a mensagem de áudio interceptada por sua equipe. Ela ouve. Ouve. Aquela voz lhe soa conhecida. Num competente trabalho de junção de imagens da direção, a moça se recorda de seu reencontro com o maître, e a sua dúvida se dissipa, dizendo proximamente: “É o maître…”. E após: “Bingo!”. Rubinho está organizando uma badalada festa de aniversário para sua esposa na gafieira frequentada por parte dos personagens, com direito à apresentação de um cantor popular. O capítulo de ontem nos mostrou a decisão de Jeiza de prendê-lo no instante da celebração, fato que, com certeza, garantirá ótimas cenas de conflito na exibição da novela hoje à noite. A partir da prisão de Rubinho, iniciar-se-á a história baseada em fatos reais de Fabiana Escobar, a “Bibi Perigosa”, que se tornou a “Baronesa do Pó”. Atualmente, Fabiana, que foi casada com um traficante de drogas de uma comunidade carioca, exerce a profissão de escritora. Com isso, a novela de Gloria Perez terá novas engrenagens dramatúrgicas que movimentarão substancialmente a ação de seu folhetim, elevando o interesse do público. A razão desse texto também é o de ressaltar o admirável trabalho de interpretação do ator Emílio Dantas. Emílio soube com extrema destreza e apuro construir o seu papel de modo que nos envolvêssemos com a sua trama, despertando-nos sentimentos distintos com relação à sua postura. Emílio, um carioca que veio de uma carreira musical em bandas, e um estrondoso sucesso ao personificar no teatro o cantor e compositor Cazuza em “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, O Musical”, tendo recebido inúmeros prêmios, tornou-se indiscutivelmente uma das inegáveis surpresas de “A Força do Querer”. Apesar de, a princípio, a carreira de ator não ter estado em seus planos, espetáculos sob a direção de Oswaldo Montenegro (“Aldeia dos Ventos” e “Eu Não Moro, Comemoro”), fizeram com que Emílio mudasse, que bom, de opinião. Sua colaboração com Oswaldo Montenegro prosseguiu na área cinematográfica, com o longa “Léo e Bia”. Com Caio Sóh, filmou “Teus Olhos Meus”. Há outros filmes em seu currículo, como “Linda de Morrer”, de Cris D’Amato, “Em Nome da Lei”, de Sergio Rezende, e “Os Saltimbancos Trapalhões – Rumo a Hollywood”, de João Daniel Tikhomiroff. Em setembro, estará na próxima produção de Vicente Amorim, o thriller de terror “Motorrad”. Nos palcos, o intérprete ainda participou de um outro musical de imensa repercussão: “Rock in Rio – O Musical”. Na televisão, defendeu personagens em telenovelas da Rede Record (“Sansão e Dalila”, “Máscaras” e “Dona Xepa”), até ser contratado pela Rede Globo para dar vida ao vilão Pedro de Lucca nas duas fases de “Além do Tempo”, novela de Elizabeth Jhin (Emílio foi considerado uma revelação). Mas sua grande chance, sem dúvida, de mostrar o seu talento para milhões de brasileiros tem sido em “A Força do Querer”, uma telenovela do horário nobre da Rede Globo que vem recebendo excelente aceitação do público e crítica. Emílio Dantas soube agarrá-la, e fez de Rubinho um sucesso. Hoje, Emílio Dantas é um ator com o seu mérito e brilho fortalecidos. Justamente, porque houve o seu querer em convencer com dignidade um personagem que não quis vencer. Mas Emílio Dantas, com seu sorriso cativante e olhos que o acompanham, soube fazer de sua oportunidade uma vitória unânime.