Arquivo de julho, 2017

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Foto: Mauricio Fidalgo/Gshow

Há duas produções de cunho médico/hospitalar, ambas da Rede Globo, que logo me vêm à mente ao escrever sobre o primeiro episódio da série de Jorge Furtado, responsável por sua redação final, “Sob Pressão”, que estreou na noite de anteontem na Rede Globo: “Obrigado, Doutor”, de 1981, escrita por Walther Negrão, Walter George Durst, Roberto Freire, Moacyr Scliar, Ferreira Gullar e Ivan Ângelo, protagonizada por Francisco Cuoco e Nicette Bruno (na trama, o médico Rodrigo Junqueira, Francisco Cuoco, assumia uma clínica do interior do país, sem quaisquer recursos técnicos e equipamentos, tendo que se desdobrar para que não ficassem desassistidos os moradores da pobre região); e “Mulher”, série de Álvaro Ramos, Euclydes Marinho e Doc Comparato, exibida nos anos de 1998 e 1999, em que as médicas Marta, Eva Wilma, e Cristina, Patrícia Pillar, profissionais de gerações diferentes, dentro da clínica especializada no atendimento às mulheres na qual trabalham, veem-se diante de diversos dilemas éticos e da urgência de se salvar as vidas das pacientes que chegam em suas mãos. Evidente que as circunstâncias que envolvem o sistema público, e muitas vezes particular, de saúde no Brasil, de décadas passadas para cá, mudaram substancialmente, e para pior. “Sob Pressão”, inicialmente em formato de longa-metragem (e exibido na semana passada na própria Rede Globo), foi levado às telas de cinema em novembro de 2016, sob a direção de Andrucha Waddington. O filme foi inspirado no livro de Márcio Maranhão (em depoimento a Karla Monteiro) “Sob Pressão – A Rotina de Guerra de um Médico Brasileiro”. A série atual surgiu a partir de uma ideia original da diretora Mini Kerti, que coassina a direção com o mesmo Andrucha Waddington, cuja criação ficou a cargo de Luiz Noronha, Claudio Torres e Renato Fagundes. Sendo uma coprodução da Rede Globo com a Conspiração Filmes, “Sob Pressão” terá os seus episódios engendrados (incluído o primeiro) por uma equipe constituída por Lucas Paraizo, Antonio Prata e Márcio Alemão, além de Jorge Furtado. O primeiro episódio nos apresenta o cirurgião Evandro (Julio Andrade), que está defronte ao maior desafio médico de sua vida: operar a sua mulher Madalena (Natália Lage), que acaba de sofrer um grave acidente automobilístico. Evandro, por ser seu marido, devido a razões éticas, não pode operá-la. O diretor do hospital Samuel (Stepan Nercessian) deixa isso bem claro. Não há aparelho de ultrassonografia. O clínico geral Décio (Bruno Garcia) não está presente. Evandro, contrariando todas as normas de conduta médica de um hospital, decide operá-la. Seus hercúleos esforços em salvá-la, que lhe pede desculpas, são impactantes. Suas mãos firmes, porém já exausto e nos estertores do desespero, uma sobre a outra, sobre o peito da amada, executando movimentos bruscos de ressuscitação, são em vão. A mão desfalecida de sua esposa com o anel de casamento sem brilho indica o seu fim. Um ano se passa. No meio do caos estabelecido no hospital de subúrbio, Evandro passeia pelos corredores abarrotados de enfermos e feridos jogados em seus cantos. Há todos os tipos de pacientes misturados, sem qualquer critério ou seleção de gravidade. Há o que se feriu na perna, e que, através de um suborno, sugere o atendimento prioritário (Rodrigo Ferrarini). Há a senhora, Dona Dercy, Ângela Rabello, hipocondríaca, que apenas vai ao hospital falar de suas potenciais dores. Há o que deveria estar em uma instituição psiquiátrica (Jack Berraquero). E o S. Rivaldo (Emiliano Queiroz), que mesmo tendo que caminhar, não o faz, pois poderá perder a sua maca. Evandro, que nunca consegue comer, encontra a vendedora de sanduíches em uma das alas do centro hospitalar, Dona Noêmia, Ângela Leal. Surge uma emergência. Uma grávida de sete meses atropelada. Motivo do atropelamento: atravessou a rua mexendo em seu celular, com os fones nos ouvidos. Mais uma vez, o dilema ético entra em questão. Deveria a gestante ser levada para uma maternidade, mas não há tempo nem oxigênio. Salva-se a mãe ou o filho? Evandro quer salvar os dois. Face a esta situação urgente e delicadíssima, o cirurgião apela ao consumo de opiáceos, que lhe garantirão a “segurança” e o “equilíbrio” necessários para a cirurgia. O pai da criança, Vinícius de Oliveira, seu ex-marido, desconhece a gravidez. A mãe da grávida, Dona Rita, é interpretada por Mary Sheila. Evandro se dá muito bem com a cirurgiã vascular, Dra. Carolina, vivida por Marjorie Estiano. O ateísmo do primeiro e a religiosidade da segunda são um contraponto interessante na relação dos dois, que possuem em comum tragédias pessoais. A convivência entre eles e as experiências compartilhadas possivelmente os levarão para um caso amoroso, que servirá como elemento de respiro para uma série onde a palavra-chave “tensão” norteia o conjunto de acontecimentos. A operação se inicia. Não há “ultrassom”. Não há drenos para adultos. Só infantis. Percebe-se uma animosidade entre Evandro e o seu colega, o neurocirurgião Rafael (Tatsu Carvalho), talvez por diferenças hierárquicas. Qual é a saída para o cirurgião? Um pedaço de mangueira de jardim. No meio do arriscado procedimento, uma troca de olhares inevitável entre Evandro e Carolina. Os autores da série não preteriram o humor, e isto é bem-vindo, haja vista a carga dramática intensa que o tema da série carrega. Para alguns, pode soar até “politicamente incorreto”, mas não devemos nos esquecer de que se trata de ficção, e de que nos círculos hospitalares a brincadeira entre os médicos e equipe é fato corriqueiro. Evandro novamente não consegue se alimentar. Ocorre a segunda emergência do dia. Um rapaz, Bredi Pite (Dhonata Augusto), leva o seu irmão de 7 ou 8 anos, que está engasgado com uma bala, para ser socorrido. Dra. Carolina se encarrega de seu caso. Existe entre o personagem de Julio Andrade e o de Stepan Nercessian divergências quanto à política de atendimento do hospital. Evandro é humanista, e Samuel, prático. Tanto um quanto o outro tem as suas razões. Assuntos como o valor de uma vida perante as demais são colocados em xeque no debate dos médicos. A grávida Elaine (Priscilla Patrocínio) corre risco de morte. Faltam luz, bateria no equipamento, sangue e noradrenalina. Não há incubadora, tampouco UTI neonatal. O cantor e compositor Monarco, célebre sambista, personifica o paciente Antenor do Cavaco. Em estado terminal, prefere cantar e tomar uma cachaça ao sofrimento do tratamento (o cantor, inclusive, interpreta uma de suas músicas, “Deus, Dai-me Força e Coragem”). Num papo entre o fumante Evandro e a médica que tem fé Carolina, o cético cirurgião afirma que acima de nós só há… nuvens. Na conversa, descobre-se que o menino salvo com a bala presa em sua garganta é irmão de um “vapor”, traficante de drogas. Engolira na verdade um pequeno pacote com entorpecentes. Carolina corre para socorrê-lo. Não há colonoscópio, não há transiluminação por fibra ótica. Recorre-se à lanterna do celular novo do anestesista Amir (Orã Figueiredo). O menino é salvo. Evandro é um personagem polêmico, adepto de práticas condenáveis, como dopar um paciente corruptor em nome de uma boa causa (comprar noradrenalinas), ou ser capaz de dar o último gole de cachaça para S. Antenor, sabendo que isso anteciparia a sua morte. Quem vai saber? A grávida Elaine é operada. A incubadora de seu bebê Evandro (em homenagem ao cirurgião; Evandro quer dizer “homem bom”) é uma caixa de papelão. S. Antenor morre. Sem o gole de cachaça que o faria feliz. Evandro, há quatorze anos no hospital, marca com um canivete em um portal de madeira do vestiário quantas pessoas já morreram. Nunca parou para contar. Depois de tanta adrenalina, o casal Evandro e Carolina se beija, mas ele é fiel à sua esposa morta. Evandro e Carolina vão para as suas casas. Carolina ao se despir, deixa à mostra cicatrizes na região de sua cintura, revelando algo obscuro em seu passado.  Evandro vasculha o armário de sua mulher, retira um de seus vestidos, e o coloca na cama, deitando-se ao seu lado. Os fantasmas do passado separam Evandro e Carolina. O elenco fixo da série é excelente, contando ainda com Pablo Sanábio, como o residente Charles, Heloisa Jorge, como a enfermeira Jaqueline, e Talita Castro como a técnica de enfermagem Kelly. Os atores do primeiro episódio, em participações mais do que especiais, também mostraram o seu reconhecido valor. Julio Andrade nos passa toda a angústia e ansiedade de um médico determinado a salvar vidas, custe o que custar. Marjorie Estiano construiu uma profissional com a mesma determinação, porém com uma dose maior de equilíbrio e bom humor. Bruno Garcia, Orã Figueiredo e Tatsu Carvalho conferem aos seus personagens um tom de sobriedade bastante convincente com a proposta de seus perfis. Orã nos oferece em alguns momentos sua já conhecida verve cômica. Stepan Nercessian, com grande mérito, dosa o seu diretor com a severidade que o cargo impõe, além de uma certa leveza involuntariamente irônica, própria do ator. A direção de Andrucha Waddington e Mini Kerti é claramente influenciada por uma linguagem cinematográfica, pois ambos, como sabem, iniciaram suas bem-sucedidas carreiras no cinema. Muitos ângulos, tomadas e posicionamentos de câmera são experimentados. A condução das cenas segue um ritmo avassaladoramente frenético e emocionante. As cenas de cirurgia, que necessitaram de orientações profissionais, como a de Márcio Maranhão, o autor do livro, são de um realismo inacreditável. Estes takes são bastante fortes, não são para qualquer telespectador, mas foram realizados com visíveis cuidado e apuro. Os diretores de fotografia Fernando Young e Luca Cerri lograram traduzir com fidelidade máxima a luz ambiente fria hospitalar, utilizando-se outrossim com propriedade da luz natural nas locações externas. A direção de arte de Rafael Targat e os figurinos de Marcelo Pies são extremamente realistas e coerentes. A montagem alucinada e inteligente, com notória qualidade de execução, creditada a Sergio Mekler, é digna de fartos elogios. E a instigante, meticulosa e calculada trilha sonora de Antônio Pinto demarca com emoção e precisão cada cena na qual se exige a sua presença. Num país como o Brasil, em que a Saúde sempre fora colocada em um degrau inferior na escala das prerrogativas governamentais, seja nas esferas federal, estadual ou municipal. Numa nação onde se adulteram remédios para doenças graves em esquemas criminosos. Num país em que recursos da pasta da Saúde são desviados para fins espúrios. Num país no qual as emergências são fechadas, pacientes morrem nas filas de espera dos hospitais, médicos se recusam a atender às pessoas, inclusive crianças, e planos de saúde cobram valores extorsivos de seus conveniados com o aval do Estado, tornando-se um serviço para as elites, a série “Sob Pressão”, que exibe um grupo de médicos abnegados e heróis em busca do cumprimento de suas promessas de salvar vidas é no mínimo necessária e obrigatória para o telespectador brasileiro. Uma obra para ser vista, analisada, pensada e refletida, sem pressão. Ao contrário de nosso país, no qual a maior parte da população dorme e acorda sob uma implacável e constante pressão… de sobrevivência.

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Foto: Bruno Mello

A ideia de se levar aos palcos nacionais a dramaturgia de uma autora latino-americana, a também atriz e diretora teatral argentina Romina Paula, já é por si só valorosa, pois nos permite conhecer um novo olhar cênico, diferente dos quais estamos acostumados a ver. E um novo olhar cênico vizinho, bem próximo de nós (há uma outra peça escrita por um dramaturgo argentino em cartaz no Rio de Janeiro, “Entonces Bailemos”, de Martín Flores Cárdenas). Muito bem traduzida aqui no Brasil por Hugo Mader, “Fauna” exerce um fascínio imediato sobre o público por sua abordagem aprofundada das relações humanas, de nossas próprias crises de identidade, de nossas fraquezas e supostas forças, das falsas aparências do indivíduo, da homoafetividade descoberta mesmo que tardiamente, e da frágil, invisível e temerária fronteira existente entre o real e o fictício em nossas vidas. Além disso, a montagem tem ao seu favor um elenco sólido e poderoso, consciente de seus personagens, e da história que está nos contando. A trama se concentra na busca de dois profissionais do cinema, o cineasta José Luís (Eduardo Moscovis) e a atriz Julia (Erika Mader), em transformar em filme os episódios que marcaram a mitificação de Fauna, uma misteriosa amazona. Para isso, o diretor e a intérprete, que mantêm um romance conturbado às escondidas, rumam para a terra onde viveu a intrigante e encantadora mulher que lhes serve de inspiração. Os conflitos de Luís e Julia não se restringem ao campo afetivo, estendendo-se às sua visões pessoais sobre o trabalho que realizarão. O primeiro sinal que temos acerca do embate entre o que é realidade e ficção se percebe quanto ao gênero no qual irá se inserir o filme em questão. Para José Luís, uma ficção. Para Julia, um retrato fiel de sua personagem, aproximando-se do documentário. Ao chegarem ao local, encontram um dos filhos de Fauna, Maria Luísa, interpretada por Kelzy Ecard. Luísa ostenta um comportamento pouco receptivo ao casal, enfrentando-o repetidas vezes com ares de malícia e sarcasmo, escorada em sua cultura literária e teatral (declama, assim como Julia no começo da peça, o poema de Rilke “Experiência da Morte”; refere-se a “A Vida é Sonho”, de Calderón de La Barca, e a Shakespeare). Enfileira uma série de versões sobre a trajetória de sua mãe, como os dois amores de sua vida, sendo um deles o seu pai. O primeiro, um velho senhor, que a introduziu ao “Círculo dos Poetas”, e depois a desprezou (Fauna travestia-se de homem, transformando-se em Fauno, pois não se permitia a entrada de mulheres no recinto). Surge em cena o seu irmão Santos (Erom Cordeiro), um rapaz selvagem, tosco, bruto e enigmático. Seus silêncios são perturbadores. Suas versões sobre a mãe Fauna se confrontam em alguns momentos com as de Luísa (o moço defende o fato de que sua mãe escrevia contos, ao passo que Maria afirma que a mesma lhes deixou diários). Carrega uma enorme culpa por não ter salvado de um ataque feroz de abelhas duas éguas que serviam a ele e ao seu amigo Pato. Santos nos deixa óbvio que prefere os animais aos homens. As filmagens são iniciadas, com a sua colaboração fundamental. À medida que o tempo passa, e as cenas são ensaiadas, observa-se um clima de tensão crescente no universo ao qual estão presos. Todos estão irremediavelmente ligados um ao outro, sem escapatórias. Suas verdades mais íntimas eclodem. Sentimentos escondidos se descortinam. As histórias de cada um se confundem. As opiniões divergem. Os duelos interpessoais se tornam constantes. Razão e delírio dividem o mesmo espaço. Esses indivíduos reunidos por uma causa comum descobrem que não sabem tanto de si mesmos. Tudo é revolvido, e aquilo em que se acreditava já não lhes provoca tanta fé. A fantasia (ou suposta fantasia) se revela um agente desagregador, seja por meio da realização do filme, seja pelas histórias narradas pelos irmãos, absorvidos por suas lembranças obsessivas de Fauna. A idolatria de Julia e dos filhos por este ser mítico ou “real” potencializou as guerras e pequenas tragédias individuais do distinto grupo. A dramaturgia de Romina Paula nos interessa por traçar com grande mérito o paralelo que há entre o que é real e o que é ficcional, o que é verdade e o que é ilusão, utilizando-se com bastante propriedade de um mito clássico como Fauna, para criar a sua atmosfera narrativa. Sua destreza como autora se evidencia ainda mais ao lançar mão da metalinguagem (atores interpretando personagens que interpretam outros personagens em um filme) como ferramenta de desenvolvimento de seu entrecho. Romina também é bastante feliz ao tratar de temas universais, com demasiada delicadeza e coerência, como a homoafetividade, tanto entre homens quanto entre mulheres. A despeito da densidade de sua trama, fica-nos claro que houve a intenção de pincelar com doses sutis de humor certas passagens de sua obra. Em “Fauna”, Romina Paula se debruça em pesquisar as complexidades comportamentais inerentes às pessoas, com todas as suas incertezas e ambiguidades, além de expor o enfrentamento inevitável que há onde existem diferenças, diferenças de visão, de pensamento, de formas de se enxergar a realidade e de se lidar com a vida e com as próprias vulnerabilidades, além das culturais. A direção de Erika Mader, que está em sua terceira empreitada (as primeiras foram “Sóbrios”, de Adam Rapp, e “Os Insones” (espetáculo adaptado do romance homônimo de Tony Bellotto) e Marcelo Grabowsky (diretor assistente da peça “Amor em Dois Atos”, de Pascal Rambert) prima pela movimentação quase permanente dos atores pela ribalta, realizada com estrita meticulosidade. Os vários espaços do tablado são explorados pelos seus intérpretes (com direito a uma cena de plateia), o que confere à encenação uma bem-vinda carga dinâmica. Os embates entre os personagens, verdadeiros “pugilatos orais”, formam inúmeras espécies de marcação, inclusive triangulares. Erika e Marcelo procuraram envolver a peça com um clima de absoluto mistério, valorizado pela presença intermitente de um fog. Os próprios atores ficaram responsáveis pelo deslocamento dos objetos cenográficos. Em muitas ocasiões, alguns deles fazem as vezes de espectadores da cena do outro. Os encenadores souberam com maestria extrair de seu ótimo elenco suas amplas potencialidades artísticas, e a dicotomia realidade/ficção é representada e traduzida com enorme eficiência pela dupla (Marcelo, claro, encarregou-se da direção da atriz Erika Mader). Há uma cena em particular que nos chama a atenção pelo seu impacto visual e interpretativo: José Luís e Santos, enquanto debatem, seguram sacos de plástico pretos, e vão, aos poucos, jogando feno pelo palco, espalhando-o e o chutando a fim de que todo o perímetro seja preenchido. As cenas de ensaio do filme nos causam curiosidade e admiração, principalmente para aqueles que se interessam pelo ofício do ator, e seus bastidores. Acredito que essas mesmas cenas tenham tido um sabor especial para o elenco. Este se sobressai com a sua potência natural interpretativa, sendo que cada um de seus atores acolhe com generosidade as características precípuas de seus personagens. Eduardo Moscovis se destaca ao construir, com sua modulada voz e porte de fidalgo, um José Luís a princípio ponderado, centrado, que aos poucos vai deixando escapar as suas evidências de fragilidade e dúvidas. Se no começo o cineasta se encontra bastante convicto de seus propósitos e objetivos, ao final o vemos vítima das circunstâncias que o fizeram se redescobrir quanto à sua identidade e desejos naquele lugar inóspito. Eduardo Moscovis trilha com brilho e segurança por todos esses atalhos emocionais. Erika Mader, segura em suas intenções e pretensões, da mesma forma, tem que atravessar uma estrada de distintas emoções até alcançar a linha de chegada de sua atriz Julia, após ter se deparado com diversas situações modificadoras de suas posições, pensamentos e potenciais certezas. Julia se apresenta para nós no início da peça com caráter determinado e incisivo, e em sua reta derradeira já a observamos com a ciência de suas mudanças pessoais e íntimas, que se refletem consequentemente nas atitudes tomadas. Erom Cordeiro, com impressionante maturidade, realiza a composição de Santos com todas as minúcias que o tornam um sujeito arredio, indestrinçável, sensual em sua selvageria natural e brutalidade nata. Santos gradativamente nos prova que, por trás da carcaça de dureza que o protege, esconde-se um homem com sensibilidade e vontades não lapidadas, que vão se mostrando à medida em que as contingências o obrigam a fazê-lo. Bruto e cercado por aura de enigmas, o personagem de Erom garante momentos de riso nas passagens dos ensaios do longa-metragem. Kelzy Ecard, como Maria Luísa, extravasa toda a sua pujança como artista ao conferir à sua personagem as camadas emotivas necessárias, com as doses certas de malícia e sarcasmo, atinentes à personalidade da filha de Fauna. Kelzy se utiliza com soberana destreza de sua voz com variadas entonações, e de sua eminente expressividade corporal. A atriz, assim como todos os integrantes desta história, percorre um caminho pleno em vias e possibilidades interpretativas, a fim de certificar a modificação pessoal de seu papel, exibindo em etapas detalhes de seu perfil até então desconhecidos. Renato Machado, tarimbado diretor de iluminação, produziu um trabalho irretocável. Em grande parte da obra, o que se vê é um plano suave com tons de sépia. Com quatro refletores suspensos ao fundo, dois em cada lateral, e dois, separados, um à esquerda e o outro à direita, mais à frente, Renato teve em suas mãos um extenso leque de escolhas estéticas. Há feixes enviesados, entrecruzados e frontais. Como alguns dos elementos do cenário são seis refletores de tripé, típicos de set de filmagens, a iluminação ganha mais pontos favoráveis com a utilização esperta, na melhor das acepções, destes recursos. Mais uma vez são os atores que os manuseiam, direcionando-os para os seus colegas (valorizando os seus rostos), que podem estar atuando na peça em si, ou para o filme em sua fase de ensaios. O belo e rústico cenário de Fernando Mello da Costa cumpre exemplarmente a sua função de reproduzir o local onde se “isolam” do mundo os filhos de Fauna. Por mais simples que nos pareça, a ideia dos fenos espalhados por toda a geometria do palco nos causa relevante impacto visual (no começo do espetáculo, um pequeno espaço aberto ao centro é mantido, porém, com o desenvolvimento da ação, o mesmo é preenchido). A fim de contextualizar o cenário, Fernando aposta na madeira de tamboretes e banqueta, além de um balde (os refletores de set de filmagens já foram citados). Os coerentes e bonitos figurinos são de responsabilidade de Antônio Guedes. O texto de Romina Paula lhe oferece a chance de se embrenhar em um universo rico de interpretações e representações, no que diz respeito a estampas, tecidos e acessórios. Antônio traduziu com a mesma competência o viés urbano de José Luís e Julia, e o ambiente campestre dos irmãos Santos e Maria Luísa. Pelos trajes usados, sem que haja menção de seus personagens, supomos que se trata de um lugar com temperaturas frias. José Luís usa um pulôver cinza e uma calça levemente arroxeada, e botas (depois o vemos com capote e um casaco preto). Julia traja um colete e uma blusa sobre um legging (após, aparece com um casaco, além das vestes masculinas de Fauno – terno, chapéu etc.). Maria Luísa se apresenta com um poncho sobre uma blusa fluida (como os demais, calça botas, e sua calça se assemelha a um couro). Santos ostenta o torso nu, vestindo-se apenas com um colete de vaqueiro com peles (suas calças e botas também acompanham estas peculiaridades campesinas). Enfim, um trabalho enriquecido pela pesquisa e pelo bom gosto. A direção de movimento coube a Toni Rodrigues. Toni se sintonizou perfeitamente com a direção cênica de Erika Mader e Marcelo Grabowski, e o resultado almejado foi cumprido com reconhecido êxito. As posturas e deslocamentos executados por Eduardo, Erika, Erom e Kelzy na montagem se adequam com exatidão ao desenho de seus papéis e ao vários ritmos que foram impostos àquela. A direção musical é de Marcello H., profissional do ramo cada vez mais requisitado para imprimir a sua marca nas produções teatrais. Marcello, muito acertadamente, optou por sonoridades, ruídos e afins que nos causam estranheza, apreensão e uma sensação de desconforto ao assistirmos à evolução tensional dos envolvidos na trama. Marcello criou, pode-se dizer, uma trilha eminentemente sensorial. O visagismo de Neandro Ferreira se baseia na naturalidade dos tipos retratados. José Luís possui cabelos curtos e barba cerrada, e Julia se mostra com seus cabelos castanhos claros soltos, com um mínimo de maquiagem, representando aqueles que vêm de fora, da cidade. Já a Maria Luísa de Kelzy Ecard exibe suas melenas negras onduladas, também soltas, porém mais curtas, mas com maiores desprendimento e despojamento, com o seu rosto ao natural. E Santos se apresenta com seus cabelos escuros volumosos e com certo desalinho, além de uma espessa barba. Neandro demarca com congruência a distância entre estes dois mundos opostos obrigados a uma convivência forçada. “Fauna”, com Eduardo Moscovis, Erika Mader, Erom Cordeiro e Kelzy Ecard é um espetáculo que se destaca no panorama teatral por sua diferenciação. Uma peça que se distingue pela abordagem de vários temas, muitos deles universais, como as relações humanas e seus conflitos, as crises de identidade, a ideia de morte em nossas vidas e a homoafetividade, através de uma história que busca confrontar a realidade e a ficção se utilizando de um mito clássico. Considerando-se todos esses elementos, já podemos dizer que “Fauna” assegura, corrobora e nos prova a sua incontestável importância no campo artístico. E isso não é ficção. Isso é real. Bem real.

 

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Foto: Raphael Dias/Gshow

Nos corredores frios e brancos do hospital onde trabalha, o ainda residente Renato Reis, primeiro protagonista do ator nascido em Recife Renato Góes, após o estrondoso sucesso que mudou os rumos de sua carreira, ao interpretar o justo e apaixonado Santo dos Anjos em “Velho Chico”, está ansioso com a bola em campo no jogo decisivo da Copa do Mundo no distante ano de 1970. O grito de seu gol pelo escrete de seu país nos remete a um Renato feliz, muito antes das dores de amores por que irá passar. Já nas ruas festivas de um Rio sob chuva de papéis verdes e amarelos caindo de um céu de onde se tudo vê, o rapaz de rosto liso e cabelos ondulados negros se encontra com seu irmão violeiro Gustavo, Gabriel Leone, que cantarola como anjo “Deus lhe Pague” na intimidade de seu quarto rebelde. Gustavo está ao lado de Cátia, Barbara Reis, sua namorada, moça sonhadora que deseja tão somente escrever notícias. O moço alto que com seu jaleco branco salva vidas numa época em que se tiram vidas vê à sua frente Alice, Sophie Charlotte, a bela de franja ruiva saída de um filme francês. Os olhos negros de Renato se unem aos olhos de mel de Alice. Os tempos no Brasil dos homens de farda são de guerra. Liberdade não existe, censura persiste. Coturnos marcham em direção à juventude em júbilo. Agressão de irmão a outro irmão da mesma nação. A bomba estoura, dispara o tiro, o fogo acende. Escondido em galpão abandonado, com azulejo e vidro quebrado, o beijo iniciado. Lábios de Alice e Renato. O amor nascente e recente é celebrado nas ondas do mar e debaixo de gotas de chuva. Troca de anéis improvisados, nem por isso menos apaixonados. Iniciais de nomes marcadas como selo do amor que se supõe eterno. Paralelo ao idílio, o real. Gustavo e Túlio, Caio Blat, inconformistas e inconformados, protestam com tintas em muros do capitalismo. Para Túlio, tintas não bastam face às torturas dos porões. Uma bomba é lançada na sede da construtora de Arnaldo, Antonio Calloni, o pai rico e malvado de Alice. Túlio, o moço que enfrenta o poder, é preso, torturado, não julgado e morto. Gustavo, o outro moço que enfrenta o poder, tem medo. Só lhe resta a fuga. Amaral, o delegado sem lei de Marco Ricca, sai em seu encalço. O Chile, a terra do vinho no sul das Américas, ainda vivendo tempos democráticos de Allende, é o refúgio perfeito. Renato, que em seu hospital confrontou o empresário que usava gravatas borboleta, para salvar as vidas de Monique, Letícia Spiller, a cunhada de seu rival, e seu bebê, passa a ser um de seus alvos, mais um subversivo em sua lista de subversivos. O tirano pai não aceita o romance de sua filha com a subversão. No momento da louca escapada num estacionamento cinzento, sob as súplicas embargadas de Alice, Renato foge para as terras chilenas no lugar de seu irmão, agora sem o violão. Nas plagas do Chile, no exílio involuntário, com mente confusa e perturbada, saudoso de sua amada e família, o médico se sente só. Solidão que se finda pela sedução de uma bela aquecida de poncho, Rimena, Maria Casadevall. Enquanto isso, Gustavo sente o peso da tortura ensandecida do delegado amoral, com sua pele nua e branca ofendida por jatos de água fria. Vera, Cassia Kis, a mãe manipuladora do clã dos Reis, a fim de proteger o corpo frágil de seu rebento preso em cárcere, negocia a suposta morte do filho Renato com os seus algozes, Arnaldo e Amaral. Alice, sem precisar de espelho, vê que será mãe do filho de seu amado morto. A carta de amor de Renato para Alice e o anel de presente envelhecem na gaveta do armário sem culpa. Renato e Rimena unem-se em matrimônio. Valentim é o seu fruto. Alice se casa com o seu antigo namorado, o ambicioso Vitor, Daniel de Oliveira, o herdeiro dos negócios de seu sogro, um homem com paixão doentia pela esposa, que ao ser contrariado seus olhos ficam mais azuis, afoga-se em álcool, sexo pago e o que mais lhe aparecer na frente. Alice, mergulhada em angústia e insegurança bergmanianas, precisava de um pai para o seu filho Lucas, o Lucas de Renato, agora em sua triste memória. Nove anos se passam. 1979, o ano da Anistia. Ao som da voz transcendente de Elis, os exilados políticos põem os seus pés calçados e cansados na porta de entrada da Pátria Mãe Gentil. Dentre eles, Renato, Rimena e Valentim. Na banca de jornais do aeroporto, por obra da ficção, de Deus ou do destino, o pai, Renato, presenteia seu filho, Lucas, com um álbum de futebol. Não foi dessa vez que reencontrou Alice, uma fotógrafa consagrada. O rapaz procura se encontrar com a jovem dos retratos, sem êxito. Todos na casa dos Reis, sem sinal de nobreza, compartilham da mesma omissão. O tempo não para. Nem a mentira. Nem a dor de Renato. Nem a sua incompreensão por Alice nunca ter lhe respondido, e ainda ter se casado. A atmosfera do segredo é opressora. Chegamos ao redentor período do Movimento pelas Diretas Já!, em 1984. Na Cinelândia, no coração do centro do Rio de Janeiro, Renato Reis sorri com aquele mesmo sorriso de 1970, quando o seu Brasil goleou a Itália. Renato Reis sorri, e canta Vandré, para não dizer que ele não falou de flores. Um milhão de pessoas que clamam pelo seu direito de votar, bradam: “Diretas Já! Diretas Já!”. No meio deste um milhão, Alice e sua máquina fotográfica. Registra rostos na multidão. Até que o seu olhar atento mira o que jamais podia imaginar. Mira o seu amor, cheio de vida. A moça que guardou a foto de seu enamorado desde o primeiro encontro, desfalece. O médico sem fronteiras para amar busca a verdade. Descobre ter sido enganado por todos que o cercam, justamente aqueles que ama. Rimena também se calou. Tanto o seu casamento quanto o de Alice e Vitor, um dos responsáveis pela espúria armação, caminha para uma ruína sem volta. Sob fortes ameaças de lado a lado, Renato, agora com o grisalho dos anos em pequenas mechas de seu cabelo, enfrenta o colérico oponente Vitor, cada vez mais perdido em seu destrutivo ciúme. A foto de Lucas emoldurada em seu escritório lhe chama a atenção. Lucas, nascido em 1971, pode ser o legado de seu amor interrompido. Depois de um encontro dentro de seu carro, e depois de um beijo após quatorze longos anos de espera, o irmão de Gustavo e Maria, Carla Salle, decide procurar sua Alice em seu estúdio fotográfico. No meio de rebatedores e fotos espalhadas num caos estético, Renato lhe diz: “Alice, eu fecho os olhos e só vejo você. O que eu faço com isso?”. O casal, após algumas palavras ditas e outras talvez não ditas, está à flor da pele. Num jogo mágico de luzes, sombras e música de Caetano, num jogo mágico de corpos que se redescobrem num sublime prazer e êxtase, colados em suores de mãos, braços e pernas inquietos, com suas bocas entreabertas e lábios sem destino, Renato e Alice enfim resgatam o gozo usurpado. Renato Góes, com esse personagem em “Os Dias Eram Assim…”, supersérie da Rede Globo escrita por Angela Chaves e Alessandra Poggi, estabelece-se de vez como um dos melhores atores de sua geração. A despeito do intérprete possuir inúmeros trabalhos significativos na TV, no teatro e no cinema, pode-se dizer com certeza que se trata de uma das maiores revelações dos últimos anos para o grande público, que se iniciou com o seu impressionante desempenho como o Santo do folhetim de Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Barbosa Luperi. Após essa marcante atuação, as expectativas em cima do próximo papel que o artista representaria aumentaram, naturalmente. E com isso, a pressão de vários segmentos, como crítica, imprensa, e os próprios telespectadores. A emissora na qual trabalha apostou alto em escalá-lo para um complexo personagem protagonista de uma produção teledramatúrgica com fundo histórico polêmico, e acertou plenamente. Renato é um ator dotado de um carisma especialíssimo que demandaria uma análise mais apurada. A soma de talento, beleza, juventude e carisma sempre, ou quase sempre, é vitoriosa, mas Renato Góes tem algo a mais. Sua interpretação calcada em uma naturalidade inacreditável nos reporta aos ensinamentos da famosa escola de Nova York “Actors Studio”, que se baseia nos estudos do teatrólogo russo Constantin Stanislavski e seu “Sistema”. A escola novaiorquina, por conseguinte, desenvolveu, capitaneada por, entre outros, Elia Kazan e Lee Strasberg, a sua própria maneira de lidar com o material emotivo e psicológico dos atores, que passou a se chamar de “O Método”. Quero dizer com isso que Renato não se prende a esquematismos de composição de personagem. É um artista que mergulha fundo na alma de seus papéis, extraindo de si mesmo emoções múltiplas, o que resulta em uma atuação que atinge camadas díspares de plateia. Seu olhar não nos parece estudado ou calculado, apenas seguindo as suas intuições mais íntimas. Sua voz suave e agradável, que guarda para a nossa alegria as suas origens nordestinas, pode a qualquer momento, se assim lhe for exigido, explodir num brado de alta potência dramática. Seu sorriso de menino em corpo de homem também pode ser caracterizado como um de seus fortes atrativos. Todas essas qualidades já lhe garantiram oportunidades em filmes como “Pequeno Dicionário Amoroso 2”, “Por Trás do Céu” (ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Cine-PE em 2016, como Micuim) e “Anjos da Lapa”, em que personifica o cantor e compositor Marcelo D2, e nos palcos, como nos espetáculos “Cachorro Quente” (onde explorou seus dotes para a comédia) e “Fazendo História”. Os admiradores do ator, que adora tirar lindas fotos em suas andanças, já têm o que comemorar. Renato está escalado para viver um príncipe em uma trama das 19h escrita por Daniel Adjafre, “E Deus Salve o Rei”. Renato Góes é assim. Simples e sensível. Generoso com seus personagens. Generoso com sua própria história e a dos autores. Um ator que respeita o seu tempo e a sua raiz. Um artista que contracena com a mesma intensidade não se importando se o ator é um veterano consagrado, um jovem iniciante ou mesmo uma criança. Renato Góes é um ator adulto com sorriso, alma e emoção de criança. Renato Góes é verdadeiro. Por isso faz sucesso. Seus dias têm sido assim… Deus salve o Renato.

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Foto: Nana Moraes

Em 1995, quando a dramaturga Regiana Antonini estreou o espetáculo “Aonde Está Você Agora?”, este texto já falava a respeito da importância do laço afetivo da amizade em nossas vidas. Quais eram os seus possíveis limites. O que poderia colocar à prova este elo essencial na convivência humana. Dois jovens, de origens e camadas sociais diferentes, viam a sua relação de amigos ser posta em xeque a partir de uma viagem ao exterior que o mais abastado faria, com o consequente afastamento de ambos. Em 2016, Regiana, uma de nossas mais prolíficas e talentosas autoras, também atriz, roteirista e diretora, especialista em escrever sobre pessoas, seus relacionamentos e sentimentos, resolve levar aos palcos uma continuação desta montagem, “E O Vento Vai Levando Tudo Embora…”. Em seu elenco, os ótimos Vitor Thiré, Daniel Blanco e Josie Pessôa, com a direção da própria dramaturga. No ano presente, a peça que tem como inspiração uma das mais belas canções do lendário grupo Legião Urbana, “Vento no Litoral”, é remontada com novos atores, os também excelentes Gabriel Chadan e Juliano Laham (Josie Pessôa continuou com sua personagem Beatriz/Bia). A trama gira em torno de dois jovens amigos, adolescentes, Pedro (Gabriel Chadan) e Gabriel (Juliano Laham), que nutrem um pelo outro um afeto inacreditavelmente puro e legítimo, raro de se ver hoje em dia, num período em que laços indispensáveis como a amizade acabam se esgarçando pela vaidade, pela competitividade, e pelo individualismo do homem, além da ausência de tempo para o convívio pessoal, e até mesmo pelo advento das tecnologias contemporâneas de socialização, que nos afastam mais do que nos aproximam. Há uma gritante diferença entre eles, num oceano de afinidades, que é o nível social e econômico. Porém, o que sentem mutuamente é tão forte que este abismo contingencial não os separa. Pedro é o menos favorecido neste campo, e possui vocação natural para as Artes Visuais, como o grafite. E Gabriel, por conseguinte, é o rapaz rico. Com predileção pela música, tendo como ídolo Lou Reed, adora compor, e pretende lançar um disco. No meio do caminho desta adorável história de amizade há uma pedra. Uma viagem. Gabriel fará uma longa viagem a Nova York para estudar. Será que agora as distâncias espacial e temporal farão com que a amizade de ambos seja chamuscada? Pedro e Gabriel mantêm uma ligação de amistosidade baseada nos típicos códigos juvenis de relacionamento, como um gesto recíproco com as mãos, em sinal de que estão de acordo com determinado assunto, ou atingiram certa vitória. Suas personalidades distintas não interferem na ampla e positiva frequência que existe entre os dois. Os chistes e motejos de um lado a outro são comuns e salutares, servindo como recurso de fortalecimento da evidente intimidade nos jovens. Pedro pode ser avaliado como um rapaz mais simples, pouco sutil no falar (seu tom de voz é mais alto), sem meias-palavras, com movimentações de corpo expansivas, demasiadamente autêntico, um pouco tosco até, mas nem por isso menos sensível e humano. E Gabriel ostenta um caráter mais comedido, potencialmente equilibrado, sendo cauteloso em suas argumentações. Gabriel tem uma tendência para o místico e o esotérico, e não abre mão de seu “Livro da Sorte”, que lhe serve, com os seus signos, como ferramenta de esclarecimento do que está por vir, ou como definidor de uma pontual situação. Já Pedro é cético quanto a isso, todavia, à certa altura, capitula, cede aos mistérios deste pequeno livro, que também, de algum modo, agrega-os. Os dois moços têm uma estreita ligação com a natureza e os seus elementos. Associam episódios que lhes são relevantes a uma noite de lua em sua fase cheia ou quarto minguante, por exemplo. Escrevem frases como traduções de seus pensamentos particulares nas areias de uma praia. Em meio a uma ou outra inofensiva piada comum entre homens trocada, vem à baila o assunto que realmente os estremece: o iminente afastamento deles. O que os assusta de fato é se a leal amizade que construíram sobreviverá aos reveses inevitáveis da passagem do tempo. Decidem fazer um pacto. Iriam se encontrar dez anos depois em uma data acertada na mesma praia onde tantas vezes se divertiram e conversaram. O acordo vai mais além, proposto por Pedro, em tom de desafio. Gabriel seria capaz de preterir um grande e verdadeiro amor em nome de sua amizade? Face ao amigo, que padece de um romance malsucedido, Gabriel lhe garante a fidelidade. Uma década se passou, e mudanças substanciais aconteceram. O desencontro à beira do mar como haviam combinado, o crime que entrou na vida de um deles, o que aparentemente evidenciou ainda mais a distância social dos amigos, e o surgimento de uma linda mulher, Beatriz/Bia (Josie Pessôa), que colocará em risco, abalando os seus mais sólidos alicerces, os laços de amizade costurados por anos. A dramaturgia de Regiana Antonini reúne, com ampla sensibilidade, humanidade, lirismo e honestidade, as características que, em inúmeras peças que escreveu, percebemos como seu norte, a sua orientação de pensamento e criação, a sua meta primeira, que é a de abordar, com incrível capacidade de ficção, temas que são os fundamentos de nossa existência, como o amor, a amizade, a união, a lealdade, o comportamento do indivíduo, suas ações, relações e consequentes reações. Mas antes de tudo, Regiana, seja falando de casais, de duas amigas maduras, de ex-namorados, ou de recém-casados com um pequeno filho e suas adversidades, imprime invariavelmente uma farta dose de amor naquilo que faz, tocando de pronto o espectador, pois diz o que queremos ouvir, e nos faz sentir o que almejamos sentir. Suas peças são empáticas, e “E O Vento Vai Levando Tudo Embora…” representa tudo o que eu asseverei antes com notória propriedade e coerência. A autora discorre sem sentimentalismos tampouco pieguices (atalhos fáceis), sobre o grau máximo a que uma amizade pode chegar, sobre a preciosidade de um abraço apertado entre dois amigos, sobre a tênue fronteira entre o desejo e a traição, sobre a relação homem/mulher e seus valores, sobre a ética existente nos acordos entre as pessoas, e sobretudo, sobre a lealdade em seu sentido mais literal. A escolha de “Vento no Litoral”, arrebatadora canção do grupo brasiliense Legião Urbana composta em 1991, e que nos comove até hoje, como inspiração e referência para o seu texto, foi um supremo achado, haja vista que a partir de suas inspiradas letras se pôde construir um panorama narrativo no qual se inserem com perfeição as situações vividas por dois jovens rapazes descobrindo o mundo através de sua união e amizade, e a interveniência de uma terceira pessoa, no caso uma mulher, com todos os seus conflitos, dúvidas e embates existenciais. Como diretora, Regiana Antonini se imbuiu de uma merecedora “autoridade” para materializar cenicamente aquilo que tão bem escreveu. Quem mais teria legitimidade para pôr em prática com tanta fidedignidade a delicada e comovente história que imaginou para os seus personagens Pedro, Gabriel e Bia? Regiana procurou enfatizar esta forte ligação dos dois amigos com uma direção precisa e sensível de Gabriel Chadan e Juliano Laham. Não há quem possa dizer que não há entre eles uma grande e sólida amizade, baseada no respeito e no amor fraterno. Soube, com elevado conhecimento, utilizando-se de lindas projeções audiovisuais, e tendo o rico auxílio da trilha sonora, demarcar as passagens de tempo que acompanham os jovens. Equilibrou com aguçada percepção os momentos conflituosos, os instantes de descontração e brincadeiras mútuas, as cenas de encontros e desencontros, os embates e as tomadas de decisão. Gabriel Chadan é um ator com reconhecida personalidade. A sua intensidade ao defender um papel é sempre progressiva. Gabriel possui inegavelmente um jeito particular de atuar que nos é irresistível. Sua espontaneidade, naturalidade e franqueza interpretativa saltam aos olhos. Tem aptidões não só para nos fazer rir como para nos tocar. Como Pedro, não foi diferente. Colocou em seu personagem a sinceridade de suas emoções, que são muitas. Pedro é desenhado pelo intérprete com traços e contornos que se justificam, sejam eles de revolta ou de afetuosidade. Juliano Laham, assim como Gabriel, revela-nos um brilho especial sobre a ribalta. Juliano, dotado de enorme carisma, trilha com acerto por todos os caminhos e vias interpretativos exigidos. Fica-nos clara a sua vivacidade e sua observação cuidadosa das camadas emotivas de seu personagem. Gabriel Chadan e Juliano Laham estão, pode-se dizer, bonitos no palco. Não somente do ponto de vista estético/físico, mas no que se refere ao fulgor genuíno e pessoal nitidamente percebido por nós. Na noite em que assisti a “E O Vento Vai Levando Tudo Embora…” a atriz Josie Pessôa, do elenco fixo da peça, havia sido substituída pela atriz Mariana Ferreira. Porém, posso lhes garantir que na primeira vez em que vi o espetáculo, há exato um ano, e em cujo elenco estavam Vitor Thiré e Daniel Blanco (ótimos, por sinal), Josie teve uma atuação admirável, mostrando em todas as cenas de que fez parte, como Beatriz/Bia, uma força natural, uma luz irradiante, uma postura firme, uma voz bem colocada e sem hesitações, sempre convicta dos propósitos de seu papel, além de ser, indubitavelmente, uma atriz muito bonita. A elegante iluminação (e operação de luz) ficou a cargo de Cláudio Martani. Cláudio valorizou a encenação com um plano aberto suave, além de dar um enfoque especial em determinadas passagens nas quais os atores se dirigem para a plateia, como se fossem pequenos monólogos. Sua luz se harmonizou completamente com os elementos do cenário. Merece elogio a projeção feita na parede do teatro simbolizando a Lua em fases diferentes, e o uso, em outras situações, das cores. Diego Timbó se responsabilizou pela preparação vocal e musical dos atores. Seu reconhecido empenho é percebido na eficiente maneira como o elenco projeta e imposta a sua voz. A cenografia de Ruslan Alastair (Truque Produções) nos embevece com seus tecidos de papel branco construídos em formas triangular e retangular. São dois deles, os triangulares, um maior, e outro menor, posicionados à esquerda do palco (há uma cena surpreendente e impactante envolvendo este recurso cênico e Gabriel Chadan). Os tecidos de papel retangulares postos lado a lado, e de cima a baixo, no fundo da ribalta exercem função primordial e complementar do entrecho narrativo, pois são neles que as imagens de vídeo são projetadas. Essas encantadoras imagens assinadas por Gelder Martins, também editor, evocam acontecimentos que se interligam com a história, como desenhos feitos nas areias da praia, o sol no horizonte do mar e o encontro amoroso de um casal (produção da Dialética Filmes). A trilha sonora nos conquista de imediato, lógico, pela própria canção que inspirou o espetáculo, “Vento no Litoral”. Todas as vezes em que esta inesquecível e belíssima canção é tocada, em cenas estratégicas, tornamo-nos reféns de seu virtuosismo. Somos ainda presenteados com outra música marcante, “Vai” (2006), na voz de uma de nossas melhores cantoras e compositoras, Ana Carolina. “E O Vento Vai Levando Tudo Embora”, conclui-se, mantém um relacionamento reverente com o universo musical. Os figurinos de Cal Carpenter são diversificados, e se casam com primor ao perfil dos personagens. Com o passar dos anos, esses costumes se modificam, e Cal respeitou plenamente esta questão. Enquanto os rapazes usam bermudas esportivas, regatas, t-shirts, moletom, jeans, casaco de couro preto, Beatriz traja lindas roupas de influência hippie, que vão das saias ao crochê, incluindo uma bolsa típica. Thiago Medeiros realizou um louvável trabalho de visagismo, realçando a beleza do elenco, sem abdicar do “physique” natural dos personagens. “E O Vento Vai Levando Tudo Embora…” nos deixa uma série de mensagens e lições, estas em sua melhor acepção. Saímos do teatro com uma leveza de alma e espírito, certos de quais são alguns dos valores indispensáveis em nossas frágeis vidas. Certos de que uma amizade verdadeira entre duas pessoas pode atingir um grau de sublimidade jamais imaginado. Certos de que o amor é essencial em nossas existências, inclusive o amor entre amigos, puro e leal. “E O Vento Vai Levando Tudo Embora…” nos confirma a riqueza e unicidade de se ter um amigo. Conversar, brincar e até mesmo brigar com esse amigo, para depois abraçá-lo intensamente. Amá-lo. Como diz a letra de “Vento no Litoral”, achemos o nosso cavalo-marinho, deixemos que a onda nos acerte… E o resto? O resto é com o vento. Ele leva embora.