Arquivo de setembro, 2017

cidade-proibida
Foto: Divulgação/Gshow

As histórias de detetive sempre habitaram e instigaram o imaginário das pessoas, seja no cinema, na TV ou na literatura. O primeiro e a segunda se inspiraram ou se basearam amiúde nos livros. Grandes escritores, como Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e Dashiell Hammett criaram detetives antológicos que prendiam o leitor da primeira à última página, como Hercule Poirot, Sherlock Holmes e Sam Spade, respectivamente. Nas telas de cinema, tivemos, por exemplo, “Assassinato no Orient Express” (1974), de Sidney Lumet, que se baseou no romance policial homônimo de Agatha Christie. Na esfera nacional cinematográfica, “Ed Mort” (1997), com direção de Alain Fresnot, e Paulo Betti como o próprio (trata-se de um personagem idealizado por Luis Fernando Verissimo). Na literatura brasileira, o escritor Tony Bellotto se dedicou à sua trilogia protagonizada pelo detetive Remo Bellini, com adaptações para o cinema. Quanto à TV, podemos buscar um personagem divertidíssimo construído por Luis Gustavo para uma novela escrita por Cassiano Gabus Mendes, e que foi ao ar pela Rede Globo em 1982, “Elas por Elas”. Mário Fofoca entrou para a galeria de tipos inesquecíveis da televisão com seu jeito atrapalhado para elucidar crimes. Em “Cidade Proibida”, uma série de Mauro Wilson e Mauricio Farias inspirada livremente no álbum de quadrinhos de Wander Antunes, “O Corno Que Sabia Demais e Outras Aventuras de Zózimo Barbosa” (a produção é escrita por Angela Chaves com a colaboração de Emanuel Jacobina, roteiro final de Mauro Wilson, e direção artística de Mauricio Farias), conhecemos logo em sua primeira cena o detetive Zózimo Barbosa (Wladimir Brichta) em seu característico escritório esclarecendo um caso de traição extraconjugal, sua especialidade, para a sua cliente Irene, rica e bela mulher frequentadora de um clube de grã-finos (Débora Nascimento). Para a desilusão e o espanto da moça, seu marido a trai não com uma amante, mas com um amante. Os pensamentos lascivos de Zózimo são ouvidos em off, o que confere à dramaturgia um viés notadamente rodriguiano. O desfecho de sua relação profissional com Irene, a primeira mulher fatal a surgir, foi malsucedido. O próximo caso do detetive a ser desvendado envolve o advogado Gouveia (Danilo Grangueia), que trabalha para uma importante empresa, cujo dono se chama Lourenço (João Vitti em participação especial). Ele é recebido pela voluptuosa secretária Gladys (Ariela Massotti). A princípio, Gouveia contatou Zózimo a pedido do empresário por desconfiar do comportamento de sua esposa. A questão é que a suposta mulher infiel é Lídia (Claudia Abreu com longos e ondulados cabelos louros). Ao ver a foto de Lídia, sua companheira no passado, a série lança mão de flashbacks a fim de que o telespectador entenda como se conheceram, e se familiarize com o histórico do detetive e com os demais personagens fixos, seus amigos, o policial Paranhos (Ailton Graça) e o sedutor rapaz que presta serviços amorosos a damas carentes, Bonitão (José Loreto). Zózimo também era policial, e fazia dupla com Paranhos. Lídia era a garota mais cobiçada do “dancing” que frequentavam. Um recurso bem sacado pela direção (Daniela Braga e Maria Clara Abreu, juntamente com Mauricio Farias) foi a ideia de que as cenas estavam sendo “fotografadas” em “p&b”, com o propósito de realçá-las. Com um apropriado e insinuante som incidental jazzístico, com sopros, cordas e teclados (afiada e sofisticada trilha sonora de Branco Mello e Emerson Villani), perpassando quase a totalidade da atração, os autores prosseguem em sua interessante, envolvente e detalhista narrativa. Lídia era a protegida de um poderoso argentino de nome Pablo (Pablo é um típico gângster). Com sua saída forçada, Zózimo se amasia com a ambiciosa Lídia, dando-lhe uma loja de roupas em uma galeria de Copacabana. Sem satisfações, Lídia some no mundo. Voltamos aos tempos atuais da série, onde Zózimo conversa com os seus amigos no bar no qual costumam se reunir. Com elegante fotografia de Uli Burtin que se multiplica em diversas texturas, dependendo da situação, podendo ser mais esmaecida, luminosa, sombria, esverdeada ou amarelada (a luz também se ampara nos feixes de faróis dos automóveis, abajures, luminárias e lustres dos cenários e locações), o personagem de Wladimir, que vez ou outra solta uma pérola de humor, decide aceitar o caso, talvez muito mais para saber o porquê de ter sido abandonado pela loura fatal de Claudia Abreu. Após perseguir Lídia em seu carro (os veículos são um charme extra da série, sendo extremamente fiéis aos anos 50), ocorre o esperado reencontro após sete anos de separação. A agora milionária Lídia conta ao ex-amante a versão de uma história rocambolesca como explicação de seu sumiço. Retornando ao bar, irrompe a personagem de Regiane Alves, a garota de programa Marli. Marli é apaixonada por Zózimo, sendo obsessiva e ciumenta, além de acreditar “ser a mulher de sua vida”. A ferramenta dramatúrgica dos pensamentos e reflexões do detetive em off, e que funcionaram a contento, são mantidos. Entre uma cena e outra, são mostradas imagens de arquivo do Rio de Janeiro da época retratada. Com reviravoltas em sua trama (Lourenço decide se separar de Lídia, e se casar com a secretária Gladys), a câmera da direção se revela ligeira, e acompanha o ritmo ditado pela emoção da ação. Um dos maiores méritos desta obra de ficção, que se equilibra entre o tom de farsa e o de realidade, é o seu perfeito timing. As cenas se sucedem com admirável fluidez, entremeadas por diálogos estruturalmente bem amarrados e espertos. A inspiração nos filmes noir americanos da década de 40 é evidente, com seus closes, olhares, modo de falar e algum silêncio. Mortes em meio a mentiras e cumplicidades espúrias decorrem, aumentando a complexidade e o caráter intricado do entrecho. Há beijos cinematográficos, bastantes tragadas de cigarro e bebidas alcoólicas ingeridas pelos personagens enquanto os fatos se desenrolam, e tiradas engraçadas de Bonitão. A desconfiança começa a rondar a mente do detetive que crê que as pessoas matam por três motivos: dinheiro, ódio e amor. Nada é o que parece ser. Este é o mote da série. Em questão de segundos, tudo muda. Algo acontece. Uma morte ocorre, e outra vida é ameaçada. O epílogo atende às reviravoltas de costume, às frases marcantes dos personagens, como “Essa é a minha natureza”, e à ironia sempre posta em seu devido e oportuno lugar. A cenografia de Luciane Nicolino e Claudio Duque e a produção de arte de Angela Melman são demasiadamente fidedignas ao tempo da ação, e se mostram frutos de uma intensa e profunda pesquisa. Os figurinos de Antônio Medeiros são irretocáveis, elegantes e coerentes. São ternos e coletes bem cortados, chapéus tanto femininos quanto masculinos, e longos justos “tomara-que-caia”, só para citar alguns modelos. A abertura de Alexandre Romano, Flavio Mac e Bruno Meira aposta na profusão de imagens coloridas e em preto e branco, como da “cidade proibida”, o Rio de Janeiro, e seus hábitos, mulheres fatais, o cotidiano de suas ruas, carros no trânsito, letreiros em néon etc. O elenco brilhou neste primeiro episódio, correspondendo plenamente à proposta e ao perfil da obra. Wladimir Brichta soube compor um irresistível detetive Zózimo Barbosa. Wladimir, um ator que transita com igual distinção tanto pelo drama quanto pela comédia imprimiu ao seu papel doses com sobriedade precisa. O cinismo, o sarcasmo e a ironia inerentes ao investigador particular estão visíveis na sua entonação de voz, no seu olhar e nos meios sorrisos. Uma escolha altamente acertada para um tipo nada fácil de se interpretar, pois os desvios para uma caricatura ou arquétipo são bastante próximos. Wladimir está muitíssimo bem acompanhado por Regiane Alves, Ailton Graça e José Loreto. Regiane, ostentando um bonito visual com suas madeixas curtas, desenhou os contornos da personalidade de Marli com sensualidade e as características de uma garota de programa da época, convencendo-nos de seu amor incontido pelo detetive, com todas as suas nuances de ciúme e uma certa frustração pessoal pela paixão não correspondida como desejaria. Regiane também aproveitou com sapiência os seus momentos de humor. Ailton Graça desfilou com absolutas segurança e desenvoltura como o policial Paranhos. O intérprete absorveu a aura do tira experiente, calejado, perspicaz, que sente de longe o “faro” quando algo lhe parece errado. Ailton possui a capacidade de ser durão e irreverente com a mesma dignidade, se assim exigir a ocasião. José Loreto defende o gigolô Bonitão com sobejas graça e leveza, alvejando com sucesso as medidas de malandragem associadas a um grau de sedução e charme que homens com a sua função entre as mulheres na sociedade deste período possuem. O jovem ator saboreia com prazer as falas de seu personagem, e nos diverte. Tivemos bem-vindas participações especiais neste primeiro episódio. Claudia Abreu, sempre uma excelente atriz, exerceu pleno domínio sobre a mulher fatal, manipuladora, calculista, gananciosa e surpreendentemente fria, sendo capaz de tudo para atingir os seus objetivos. Claudia pôde mostrar várias faces de Lídia, seja como potencial vítima enganada, seja como uma esposa furiosa, vingativa e mentirosa. Danilo Grangueia trilhou com inegável êxito o caminho para a composição do inescrupuloso advogado Gouveia. Com seu porte solene e tom de voz diferenciado, Danilo nos provocou com o seu causídico escroque, traiçoeiro e perigoso. Débora Nascimento, como Irene, encheu a tela com a sua voluptuosidade implícita, demonstrando com legitimidade a sua decepção ao saber da homossexualidade de seu esposo. João Vitti, mesmo que em rápida aparição, porém com um papel importante para a história, passou-nos a intensidade emotiva do marido insatisfeito com a sua esposa, decidido a se separar. Ariella Massotti cumpriu com eficiência a missão de dar vida à estonteante secretária que se transforma no pivô de um dos principais conflitos da sinopse. “Cidade Proibida” é uma série, gênero merecidamente cada vez mais prestigiado na TV brasileira, que nos desperta irrefutável interesse em acompanhar os seus próximos episódios, que contarão com muitas participações especiais. Dentre as razões, destacam-se o seu elenco talentoso e carismático, a diversidade de seus enredos repletos de suspense, ação, romance e humor, a impecável reconstituição histórica e a direção sensível e hábil de Mauricio Farias e equipe. Vale a pena fazer uma visita nesta cidade proibida que esconde por trás de suas belezas o que há de obscuro e condenável em sua sociedade. Zózimo Barbosa está à sua espera. E não é proibido acompanhá-lo em suas arriscadas mas deliciosas peripécias. Está desconfiada de alguma coisa? Se o seu namorado, seu noivo, seu marido está te traindo, ele descobre. Já pegou o seu cartão? Zózimo Barbosa, detetive particular.

 

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Foto: Junior Marins/Design Gráfico: Danielle V. Cardoso

Na sexta-feira passada, dia 01 de setembro, estreou em sessão para convidados a comédia “A Sala Laranja: no Jardim de Infância” (no original, “La Sala Roja”), de Victoria Hladilo, no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, no Rio de Janeiro. A tradução fluida, cuidadosa e universal ficou a cargo de Elisa Brites, Robson Torinni e Victor Garcia Peralta. Victor Garcia também ficou responsável pela direção. Em seu elenco, Renata Castro Barbosa, Isabel Cavalcanti, Priscilla Baer, Daniela Porfírio, Rafael Sieg e Robson Torinni. Idealizada por Elisa Brites, Robson Torinni e Victor Garcia Peralta, a peça é uma realização da REG’s Produções Artísticas Ltda.. A história de “A Sala Laranja”: no Jardim de Infância” (o espetáculo, que ganha a sua primeira montagem brasileira, já foi visto por cerca de 100.000 pessoas desde a sua estreia em 2013) se concentra na reunião, como de costume, dos pais das crianças de um jardim de infância para a discussão de problemas atinentes à instituição escolar e escolha de projetos lúdicos e pedagógicos que melhor se adequem à educação de seus filhos. O que era para ser um simples encontro para o debate de ideias e encontro de soluções conjuntas, torna-se um campo de batalha com troca de farpas de todos os lados. Os problemas dos alunos e questões da escola servem tão somente como catalisadores das revelações das frustrações, complexos, desvios de comportamento e traços individualizados dos perfis tanto dos pais quanto dos profissionais do colégio (no caso, uma professora). Num tom de comédia assumida e saborosamente crítica e sarcástica, a premiada dramaturga Victoria Hladilo desenvolve uma narrativa ácida, inventiva, reconhecidamente interessante, com a habilidade de se passar em um único ambiente, pouco explorado, com seis personagens totalmente distintos, que passeiam pelas mais diferentes situações de conflito (com muitas das quais nos identificamos), sem que em nenhum momento se vislumbre um viés mais pesado na abordagem dos temas contextualizados. Pelo contrário, Victoria buscou sempre o humor inteligente e criativo para tratar das difíceis e complexas relações de convivência entre pessoas que aparentemente possuem um interesse comum. Este embate involuntário é realçado por uma certa claustrofobia e limitação ao tempo de que dispõem (ninguém pode sair da sala da escola até que a reunião se finde com a chegada dos pequenos alunos para as aulas). O que se vê é uma conflagração aberta, uma disputa acirrada de egos, uma procura de se atingir a superioridade sobre o outro. Uma das grandes sacadas de Victoria é nos mostrar o egoísmo do ser humano, pois na verdade o que se testemunha não é a defesa dos interesses de seus filhos, e sim um esforço na prevalência de suas vontades. A exiguidade do ambiente e seu respectivo confinamento propiciam a eclosão de suas qualidades mais reprováveis (competitividade, manipulação, inveja, ciúme, intolerância…). Outro dos méritos do texto é se utilizar de um local infantil, com situações infantis, como pintar, desenhar, montar brinquedos, para colocar em cena pessoas adultas discutindo e debatendo temas em sua essência adultos. No espaço de semiarena do Teatro Cândido Mendes, observamos a chegada paulatina dos pais dos alunos, recebidos pela educadora Inês (Isabel Cavalcanti). Aos poucos, percebemos os aspectos definidores do caráter de cada um desses pais. Temos a mãe que toma para si, sem que lhe seja dada esta função, um papel de liderança, com contornos autoritários e intolerantes, porta-voz de comentários invariavelmente maliciosos e provocativos. A personagem Sandra é defendida com bastante percepção pela atriz Renata Castro Barbosa. Renata, muito sabiamente, trilha pelo terreno fértil do humor, que por sinal domina como poucos, mas sem perder a noção de transmitir para os espectadores nos momentos oportunos os dramas e fragilidades por que passa o seu papel. Isabel Cavalcanti, que se incumbe de dar vida à educadora/professora/recreadora Inês, optou por um caminho da mesma forma irônico, tendo por missão o apaziguamento dos ânimos exaltados dos representantes dos alunos. Isabel adota uma postura de passividade e calma contrastante com a loucura que se estabelece no recinto. Destaca-se na intérprete a maneira didática engraçadíssima com que lida com os pais. Inês constantemente se comunica com uma mãe ausente, Renata, a fim de receber instruções. Priscilla Baer encarna com delicadeza e graça Gabriela, a mãe zen/hippie, adepta dos florais e mantras. Mesmo sendo seguidora deste estilo de vida supostamente mais equilibrado, a moça com sua bata florida e um celular com um toque de chamada demasiado peculiar, sucumbe na mesma frequência certeira aos desvarios de seus colegas/pares da reunião escolar. Daniela Porfírio, como Verônica, comparece ao compromisso dos pais de alunos acompanhada de seu marido, o executivo Diego, Rafael Sieg. Daniela incorpora com meticulosas doses emocionais a esposa e mãe destemperada, fora de si, sem controle sobre as suas ações e reações, refém de suas visíveis fraquezas. Seu tipo bem construído soma com felicidade o painel de personagens expostos. Seu esposo, o sisudo Diego, parece-nos absolutamente desconfortável naquele ambiente ocupado por indivíduos que lhe soam estranhos. Com belo posicionamento em cena e voz firme, mesclando com ideal balanço os elementos de indiferença e agressividade do yuppie contrariado com a circunstância, Rafael nos convence de suas intenções interpretativas. Robson Torinni, como Martin, encarrega-se de personificar o pai jovem, garotão, prático, objetivo e dinâmico, sempre disposto a solucionar os dilemas do modo mais eficiente e adequado aos demais. Robson compõe o seu Martin com absoluta consciência da missão de seu papel. Martin seria uma espécie de conciliador das altercações surgidas a todo instante. Com ótima presença cênica e inconteste desenvoltura, o ator não se restringe a este aspecto notadamente jovial, evidenciando-nos a sua dureza e até mesmo um descompasso emocional quando a situação lhe foge do domínio. O intérprete, um dos idealizadores, e também produtor da montagem, ostenta uma louvável entrega ao seu personagem, sem inibições ou pudores, respeitando não só a ideia da peça, mas os agentes que movem a conduta de Martin. A direção de Victor Garcia Peralta marca a sua volta às comédias, gênero no qual atingiu grandes e inegáveis êxitos, tanto de público quanto de crítica, como “Alucinadas” (com a própria Renata Castro Barbosa, junto com Luciana Fregolente), “Não Sou Feliz Mas Tenho Marido” e “Os Homens São de Marte… E É Pra lá que Eu Vou”. No entanto, o que define este competentíssimo e sensível encenador argentino, brasileiro por vocação e de coração, é a sua versatilidade em transpor para os palcos dramaturgias de variadas temáticas, como o drama clássico contemporâneo “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, o solo “Tudo Que Eu Queria Te Dizer” e “Decadência”. No que se refere a “Sala Laranja…” , Victor nos dá a impressão de que deixou se libertar, voltando às suas origens, dando vazão ao seu olhar crítico, anárquico e transgressor das normas do cotidiano e das instituições, utilizando-se deste gênero riquíssimo (muitas vezes pouco valorizado pelos especialistas) que é a comédia. Extremamente hábil no manejo do texto que tem em mãos, e do elenco de que dispõe, Victor Garcia esbanja espontaneidade, qualidade, inteligência cênica e propósitos bem definidos na montagem da peça de sua conterrânea. O diretor não teme o potencial obstáculo das dimensões diminutas da semiarena, tendo que dirigir todos os seis atores em cena, colocando-os em pontos estratégicos, ou os conduzindo em suas diversas movimentações, de maneira que haja uma harmonia, e um quadro cênico organizado. É digno de nota, realmente elogiável, o trabalho de direção que Victor imprimiu ao seu elenco. Todos, sem exceção, são atores com múltiplos e incontestáveis méritos. Sabedores dos legítimos intentos da dramaturga e de seu diretor, os intérpretes, uniformemente, cumpriram com brilho e dignidade os deveres de execução de um espetáculo que contém em seu cerne inúmeros atributos. O cenário ficou por conta de Dina Salem Levy. Sua atribuição foi a de reproduzir com o máximo possível de fidelidade o ambiente lúdico e mágico de uma sala de aula de jardim de infância (volto a dizer, adaptando-o ao espaço de semiarena), e o fez com extrema coerência e encantamento. Dina criou um mundo escolar pleno em nostalgias para nós, adultos, que assistimos à peça. São pequenas mesas e cadeiras coloridas espalhadas pelo espaço, tendo sobre aquelas papéis, lápis, objetos feitos à mão, tendo ao fundo uma parede coberta de letrinhas do alfabeto de diversas cores, uma estante com vários compartimentos, uma lousa, bastantes potes para lápis, hidrocor e similares nas prateleiras, além de bichinhos, baldes com rolos de cartolinas e guarda-chuvas, tapetinho sintético etc. Enfim, tudo o que se pode encontrar neste universo infantil escolar. Os figurinos de Luiza Fardin também correspondem com enorme coerência às figuras dos pais retratados e da recreadora. Luisa usa conjunto preto e escarpins para Renata Castro Barbosa, uniforme com avental para Isabel Cavalcanti, vestes hippie com modelagem floral para Priscilla Baer, blusa com estampas convencionais para Daniela Porfírio, terno e gravata para Rafael Sieg e moletom e camiseta cavada para Robson Torinni. A iluminação teve a assinatura de Daniel Gálvan. Ele, apropriadamente, valeu-se de uma luz forte, aberta e permanente, que, na verdade, corresponde à realidade do local em que se desenrola a ação. Não haveria sentido na utilização de efeitos. Daniel escolheu a alternativa mais pertinente, e acertou. A direção de movimento foi feita por Cristina Amadeo. Cristina se esmerou em estudar cada personagem da ação, analisando o seu perfil, a sua característica preponderante, acrescentando um modo de postura e deslocamento que se afinasse com a sua persona, e lhe desse maior credibilidade. Percebemos este trabalho nas atitudes de líder de Sandra, na submissão e fleuma de Inês, na intranquilidade de Verônica, na sisudez de Diego, na leveza zen de Gabriela, e na disposição jovial de Martin. A preparação vocal de Rose Gonçalves atinge níveis qualitativos elevados, pois todo o conjunto do elenco apresenta vozes bem articuladas, respeitando-se rigorosamente as variações emocionais que lhe são impostas (há um momento lírico coletivo comandado pela suave voz cantada de Isabel Cavalcanti bastante emocionante). Ao final da peça, na hora dos agradecimentos gerais, a atriz Renata Castro Barbosa faz uma menção especial ao seu colega de cena Robson Torinni, que se desdobrou bravamente para levantar este espetáculo. De fato, em tempos de sucateamento da cultura do Estado do Rio de Janeiro, em que não se vê o interesse em se apoiar a realização dos espetáculos teatrais, em que teatros são fechados por falta de público, testemunhar um jovem ator como Robson Torinni se aventurar como produtor, e levar adiante o seu sonho de se viver de arte, mesmo com todos os empecilhos, é admirável. Por fim, o que se pode concluir ao se assistir a “A Sala Laranja: no Jardim de Infância” é que se tem à disposição no circuito teatral uma opção de lazer, cultural e de reflexão que se distingue por relevantes atrativos: conhecer a dramaturgia inteligente de uma autora argentina, como Victoria Hladilo, conferir a sua transposição para os palcos por um de nossos diretores mais celebrados, Victor Garcia Peralta, e se deslumbrar com a reunião de um time de intérpretes talentosos engajados com a Arte, para se dizer o mínimo. Além disso, dentro do contexto da trama, passamos a conhecer melhor alguns lados escondidos do ser humano, com toda a sua complexidade, ao se defrontar com os fantasmas da convivência social e do confronto de ideias, dentre outros pontos de potenciais conflitos. Vale a pena voltar a ser “criança” e visitar a sala laranja do jardim de infância de Victoria Hladilo. Mas devemos ficar quietos, pois o papo ali é de gente grande.