Arquivo de outubro, 2017

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Foto: Raquel Cunha/Gshow

Já se viu nas primeiras imagens de “O Outro Lado do Paraíso”, a nova novela das 21h da Rede Globo, com direção artística de Mauro Mendonça Filho e geral de André Felipe Binder, que o seu autor, Walcyr Carrasco, com a colaboração de Nelson Nadotti, Vinicius Vianna e Márcio Haiduck, optou por uma renovação, em alguns aspectos, pois seus elementos basilares não foram preteridos, da narrativa folhetinesca. O seu início, sem as tradicionais aberturas, foi semelhante a um filme, com os créditos (nomes dos atores, diretores etc…) surgindo com o desenrolar de uma cena cotidiana da jovem protagonista da história, Clara, interpretada por Bianca Bin, preparando um café na chaleira, somente com os sons ambientes (ao final, apreciamos o lindo resultado do trabalho de abertura dos craques Alexandre Romano, Alexandre Calvet, Roberto Stein e Cristiano Calvet, que será visto nos demais capítulos). Clara, seu pai Jonas (Eucir de Souza) e seu avô Josafá (Lima Duarte) moram juntos num simples casebre numa região imensa e inóspita de um lugar fictício chamado Pedra Santa, no Estado do Tocantins. Eles sobrevivem graças a uma pequena venda gerenciada pelo patriarca. Nesta mesma região quente e agreste, há dez anos, houve um garimpo no qual se procuravam esmeraldas. Segundo Josafá, eram apenas biritas, sem nenhum valor. Mas Jonas está decidido a retomar o garimpo, e com isso, enriquecer, contrariando a sua filha e o seu pai, já que usará explosivos. Um acidente com estes explosivos tira a vida do garimpeiro. A família tem que se reorganizar. Clara é convidada por Mercedes (Fernanda Montenegro), mesmo sem ter muitos estudos, para ser a professora de crianças de um quilombo próximo, o Quilombo da Formiga. Mercedes é uma senhora misteriosa, mística e solitária, capaz de ouvir vozes, canções, gritos e ecos soturnos. A também benzedeira acredita piamente que o mundo irá acabar, e que só Tocantins se salvará, guardando em sua casa provisões de subsistência, como sementes, água e roupas. E livros (a Humanidade precisará deles). Ela crê que os seus objetos em forma de animais ganharão vida, e que seres invisíveis, “eles”, mandam-lhe mensagens. Sensitiva, diz à moça que entrará em uma nova fase. Prevê o aparecimento de uma mulher, e o seu desconhecimento a aflige. No Quilombo da Formiga, Clara conhece Raquel (Érika Januza), que faz artesanato com capim dourado, e reencontra Dr. Renato (Rafael Cardoso), médico de Palmas, capital, que realiza um trabalho de voluntariado com a população carente do local (Renato costumava frequentar a venda de seu avô, e seus olhos azuis demonstraram interesse pelos olhos azuis da neta de Josafá). Enquanto Clara e Renato se entrosam, chega à localidade, vindo de Palmas, pilotando uma moto, o rebelde Gael (Sergio Guizé). Gael quer conhecer um ponto turístico interessante destas paragens. Com a voz doce de Elis Regina cantando “Morro Velho” ao fundo, o motoqueiro cioso por novidades chega ao Campo do Capim Dourado, onde se faz a colheita desta vegetação, e se encanta ao ver Clara brincando com as crianças. A moça que lê “Marcelo Marmelo Martelo” para os seus alunos percebe o olhar encantado do rapaz que usa dois brincos de argolas, sentindo também um certo encanto. Indo para um outro núcleo da trama, na cobertura palaciana no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, conhecemos Elizabeth (Glória Pires), e sua família. Casada com o diplomata Henrique (Emílio de Melo), ambos têm uma filha, Adriana (Lara Cariello). De origem pobre, nascida no Tocantins, Elizabeth é uma mulher extremamente carente e sozinha. Ressente-se de seu marido se dedicar mais à profissão do que ao lar. Seu sogro, o preconceituoso advogado Natanael (Juca de Oliveira), nunca se conformou com o casamento de seu filho com alguém de um nível social inferior. Após convidar Henrique para ir com ela e a filha para Angra dos Reis, decepciona-se, pois a intenção de seu esposo é ir para Londres a fim de disputar o posto de embaixador que está vago. Natanael se mostra amigo de Beth, mas na verdade está planejando a destruição de seu matrimônio, e para isso contará com uma aliada, a ex-namorada de Henrique, agora amiga, Jô (Bárbara Paz), que está falida financeiramente. Em uma festa típica da região do Jalapão, Clara deixa de conversar com Renato para dar um passeio de moto com Gael, despertando o ciúme do médico, que conhece o seu oponente de Palmas. Com o sol alaranjado e a linda versão de Fernanda Takai para “I Don’t Want To Talk About It” como testemunhas, em meio às dunas deslumbrantes do Jalapão, Clara e Gael parecem estar cada vez mais apaixonados. O amor do novo casal vai do fundo das águas límpidas de um rio até a Pedra Furada. No alto de um grande rochedo, Clara e Gael se encontram com Renato e Raquel. Gael observa com ódio os pequenos gestos de intimidade no reencontro do médico com a professora. O motoqueiro de Palmas ameaça Renato, revelando sua temível agressividade até então ignorada. O clímax da cena ocorre quando Gael ameaça deixar cair o rapaz em um penhasco, segurando-o somente por uma mão (nesta benfeita tomada, percebe-se que a direção tomou como referência clássicos do western, inclusive os de Sergio Leone, tanto no que diz respeito aos closes quanto no que se refere à trilha incidental de João Paulo Mendonça). O pedido de perdão pelo incidente, o pedido de perdão pela desconfiança da amada, o beijo da redenção e o pedido de casamento acontecem sucessivamente. No meio das suas faces um raio fulgurante do sol sempre presente, e a voz apaixonada de Paulo Miklos cantando a bela música composta por Nando Reis, “Vou Te Encontrar”. Gael volta para a sua casa em Palmas. Chega na hora do café da manhã em que estão sentados à mesa a sua mãe, a ambiciosa Sophia (Marieta Severo) e a sua irmã, a sarcástica Lívia (Grazi Massafera). Ao anunciar a Sophia que irá se casar, e que a sua noiva é professora de um quilombo, e filha de um dono de venda, ela se enfurece, e confessa aos filhos a péssima situação financeira em que se encontram. Gael é divorciado, e há um mistério nessa separação, causada por ele. Uma outra filha, Estela (Juliana Caldas), é mantida no exterior por ser uma pessoa com nanismo, e esta condição envergonha Sophia. Disposta a subornar o avô de Clara para que ela se afaste de seu filho, Sophia muda de ideia ao avistar uma pedra com um veio de esmeralda sobre um dos móveis da casa do senhor. Clara lhe dá de presente. Após consultar um especialista, e enxergar a possibilidade de explorar a possível mina de esmeraldas localizada nas terras de Clara, a gananciosa mãe de Gael passa a apoiar o casamento do filho. Numa confraternização de família, Sophia brinda ao amor, a Gael, e principalmente a Clara. Desta forma, iniciou-se o primeiro capítulo de “O Outro Lado do Paraíso”, uma história que nos exibiu, através de apenas alguns personagens, traços dos comportamentos do ser humano, como ambição, individualismo, frieza, manipulação, ciúme, preconceito e cobiça, mas também privilegiou o amor, o desejo, a paixão e a amizade. O elenco deste começo de trama provou o seu brilho, talento, solidez e sobeja consistência na composição de seus papéis, transmitindo-nos a sensação positiva de que aqueles foram estudados e elaborados com a dedicação necessária, respeitando-se as características do lugar específico, no caso o Estado do Tocantins, em que se desenvolve a narrativa, além do Rio de Janeiro. Bianca Bin trilhou a legitimidade de uma moça simples, ingênua e romântica, traumatizada pela morte trágica do pai, que se apaixona pelo rapaz sedutor da cidade grande que lhe diz palavras bonitas. Sergio Guizé, com bastante personalidade, construiu o seu papel na medida certa, passando-nos a noção de ambiguidade de Gael, que alterna doçura e agressividade. Rafael Cardoso esbanjou elogiável desempenho ao moldar o perfil de Renato, convencendo-nos de seu verdadeiro amor por Clara, e de sua dedicação incansável ao voluntariado como médico. Um triângulo amoroso, estreante no horário nobre e em teledramaturgia, cativante em suas atuações, que promete torcidas variadas e emoção de sobra. Há química tanto entre Bianca e Sergio quanto entre ela e Rafael. Um acerto indiscutível na escalação, sem contar o seu caráter inovador. O frescor deste trio foi acompanhado por talentos consagrados, como o de Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Marieta Severo e Juca de Oliveira. Fernanda, como sempre, magistral na sua entrega às personagens que abraça, e no caso de Mercedes, toda a sua força natural e intensidade mística foram lapidadas com a maestria interpretativa que lhe é peculiar. Lima Duarte usa a sua notável experiência ao criar o tipo interiorano, simplório, que nos conquista de pronto com a sua potência cênica. Marieta Severo, como esperamos de uma atriz de sua grandeza, impressiona-nos com a sua ilimitada aptidão em transitar com liberdade pelos meandros mais íntimos de seu papel ao desenhar os contornos precisos de Sophia. Vemos o nascimento de uma vilã que não mede esforços para atingir os seus objetivos, garantindo-nos no futuro momentos que prometem ser marcantes, em que a sua vocação preconceituosa, gananciosa e manipuladora ganhará voz. O mesmo se pode dizer de outro ator maravilhoso como Juca de Oliveira. Sabedores de seu incrível domínio como artista, não nos espantaremos com as artimanhas que seu personagem, Dr. Natanael, será capaz de fazer, utilizando-se de toda a dissimulação e frieza que lhe são natas. Sua perseguição a Elizabeth também promete ótimos conflitos. Glória Pires, uma atriz com inteligência emocional rara, mestre em usar a entonação vocal, os olhares e gestual perfeitos, conquista invariavelmente um nível máximo de qualidade e excelência. Como Elizabeth, vê-se claramente uma mulher infeliz, só, carente e frágil que, no entanto, poderá nos surpreender com as reviravoltas que o autor lhe reserva. Grazi Massafera, a cada personagem que defende, galga degraus elevados em suas composições (não podemos nos esquecer que foi em uma novela de Walcyr Carrasco, “Verdades Secretas”, que Grazi mostrou ao país todo o seu potencial, chegando a ser reconhecida no exterior com a indicação ao Emmy Internacional). Grazi Massafera tem se destacado ao interpretar jovens que misturam malícia e humor. A novela terminou com um olhar insinuante de Lívia ao testemunhar o golpe de sua mãe. Érika Januza, revelada na série “Suburbia”, desfilou desenvoltura, espontaneidade e genuinidade ao personificar a amiga alegre e trabalhadora de Clara. Entretanto, esta alegria vai embora quando terá que enfrentar a ira racista de Nádia (Eliane Giardini), sua patroa, ao se envolver com o seu filho Bruno (Caio Paduan). Emílio de Melo, como o diplomata Henrique, indicou-nos com distinta propriedade a indiferença prevalente de seu papel com relação à sua família, colocando a profissão em primeiro lugar. Emílio, um ótimo ator, terá excelentes chances na novela ao se ver vítima das armações espúrias de seu pai. Eucir de Souza, como ator convidado, teve uma participação digna e comovente ao encarnar o homem ávido em enriquecer, e que acaba morrendo por esta desmedida ganância e irresponsabilidade. Bárbara Paz, como a sofisticada Jô, mostrou-se inteiramente à vontade como a futura aliada de Natanael. E pelo que conhecemos de sua capacidade, e também versatilidade como intérprete, esperamos cenas interessantíssimas em que esteja presente, formando uma parceria promissora com Juca de Oliveira. Vera Mancini, como a empregada de Sophia, distribuiu graça com os seus ditos picantes, demonstrando intimidade com a família. Terá Estela, a outra filha, enjeitada pela mãe, como confidente. Aguardemos diálogos emocionantes. A direção artística de Mauro Mendonça Filho (grande colaborador de Wacyr Carrasco) e geral de André Felipe Binder (também trabalhou com o autor), com a sua equipe constituída por André Barros, Henrique Sauer, Pedro Peregrino, Mariana Richard e Caio Campos, merecem incontáveis elogios por conduzirem com sensibilidade o enorme manancial de talentos que têm em mãos, e explorarem com competência única, adotando uma generosa linguagem cinematográfica, as belezas estonteantes das terras do Tocantins. A inspirada direção de fotografia de Mauro Pinheiro Jr., Pablo Baião e Fabrício Tadeu aproveitou com suprema felicidade a luz forte natural da região, além de usar com sabedoria visual, com filtros e lentes certeiros, as cores inebriantes dos espaços em que se passa a ação. A cenografia de Tiago Marques Teixeira, Mauricio Rohlfs e Danielly Ramos foi bastante coerente, retratando com fidelidade a pobreza da casa de Clara, o ambiente kitsch onde mora Sophia e a sofisticação de alguns detalhes da cobertura de Elizabeth. O mesmo, claro, pode-se dizer da produção de arte de Guga Feijó e Renata Otomura. Ellen Millet, conceituada figurinista, cumpriu a sua missão com garbo, seja nos vestidos bem modestos de Clara, nas roupas modernas com ar transgressor de Gael, e nas vestes com tintas mais carregadas de Sophia. A gerência musical de Marcel Klemm se esmerou na diversificação, utilizando-se, como já fora dito, das vozes de Elis Regina, Fernanda Takai e Paulo Miklos, além da clássica banda Lynyrd Skynyrd (“That Smell”), e dos grupos The Band (“The Weight”) e The XX (“Crystalised). “O Outro Lado do Paraíso” vem com uma função árdua, que é a de suceder o sucesso alcançado por Gloria Perez em “A Força do Querer”, mas em se tratando de Walcyr Carrasco, que coleciona um sem número de êxitos de audiência e público, como foram as suas três últimas novelas (“Amor à Vida”, “Verdades Secretas” e “Êta Mundo Bom!), isto não será obstáculo para o teledramaturgo. Walcyr, além de manter as bases de um bom folhetim, como romance, traição e vingança, irá abordar questões importantes, como a violência doméstica, o nanismo (e o preconceito envolvido), a discriminação racial, o homossexualismo não assumido, com direito à vida dupla, e a homofobia. Já conhecemos em seu primeiro capítulo o paraíso do Tocantins, e em parte o seu outro lado. Precisamos conhecer a saga de Clara, Gael, Renato, Josafá, Sophia e Mercedes para vermos até onde irá este outro lado. E se, segundo Mercedes, ele sobreviverá ao fim do mundo.