Arquivo de janeiro, 2018

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Foto: João Caldas Fº

Encenar Nelson Rodrigues é um ato que se justifica por si mesmo. Trazer à baila a sua dramaturgia tão particular e relevante desperta inapelavelmente o interesse do público teatral em testemunhar um novo olhar sobre a sua obra. A ideia de se remontar “Boca de Ouro”, um dos maiores clássicos de Nelson, peça escrita em 1959, considerada uma de suas “tragédias cariocas”, possui méritos incontestes. Enriquece e valoriza os nossos palcos, resgatando a figura deste autor que retratou como poucos a complexidade psicológica do indivíduo, traduzida nos seus costumes e comportamentos, e nas relações sociais com os seus pares, sejam eles familiares ou não. O consagrado diretor mineiro Gabriel Villela, revelado nos anos 90 junto com outros encenadores, pisou anteriormente no provocativo terreno rodriguiano, ao montar “A Falecida” e “Vestido de Noiva”. A história de “Boca de Ouro” brinca magistralmente com os conceitos de verdade e não verdade. Boca de Ouro (Malvino Salvador), que atende pelos epítetos de “O Drácula de Madureira” e “O Assassino de Mulheres”, é um poderoso e temido contraventor do jogo do bicho do subúrbio carioca, obsessivo por ouro, ao ponto de ter extraído todos os seus dentes, e ter colocado uma arcada feita com o metal precioso. Diz-se também que o homem torcedor do Fluminense (como o dramaturgo) que nasceu na pia do banheiro de uma gafieira (fato que não pode ser dito em sua frente, sob pena de vê-lo encolerizado) furtava as alianças das mulheres casadas com quem se relacionava, com o propósito de derretê-las para a feitura de seu caixão de ouro, um sonho recorrente. Quando se inicia a trama, já sabemos da morte por assassinato do bicheiro. Este crime é o ponto de partida para que o jornalista investigativo Caveirinha (Chico Carvalho), do impresso “O Sol”, saia em busca de esclarecimentos para a sua alentada matéria (como se sabe, o elemento “imprensa” ocupa lugar de destaque em outra de suas peças, “Beijo no Asfalto”; Nelson dominava profundamente o tema, devido à sua profissão de jornalista; o ambiente das redações de jornais lhe era, portanto, bastante íntimo, fazendo-nos compreender a sua inserção em seus textos). A linha dramatúrgica de “Boca de Ouro” se divide em três versões sobre a morte de Leleco (Claudio Fontana), um cidadão em apuros com suas dívidas, sem que nenhuma delas corresponda necessariamente com a verdade absoluta dos fatos, comprovando a intenção do autor em realizar um jogo cênico em que se questiona o que é verídico ou não, deixando fluir a imaginação do espectador, ao mexer com as diferentes camadas emotivas e comportamentais dos personagens envolvidos no enredo. As três possibilidades de ação/reação destes proporcionaram a Nelson Rodrigues a exploração de inúmeras situações contrastantes que contribuíram para a costura inteligente de seu corpo narrativo. Este recurso de dramaturgia se configura nos encontros entre Caveirinha e uma das muitas amantes de Boca, Guigui (Lavínia Pannunzio). Guigui narra ao ávido repórter as circunstâncias de um suposto crime de assassinato cometido por Boca contra Leleco, ligando diretamente a esposa do rapaz, a lasciva Celeste (Mel Lisboa). A partir das três versões dos fatos do crime, tem-se, outrossim, três versões da personalidade do bicheiro de Madureira. O conhecimento ou desconhecimento de sua morte faz com que a empertigada madame monte um perfil do homem que queria ser rei asteca de acordo com as suas emoções e memórias oscilantes. Dependendo das versões apresentadas por Guigui, seu marido Agenor (Leonardo Ventura) revela distintas reações, com ausência ou não de ciúme. As narrações da amante ora desenhavam um Boca de Ouro cruel, sanguinolento (fazendo jus ao seu apelido) e impiedoso, ora o mostravam como um homem irresistivelmente conquistador, com aspirações megalômanas e extravagantes, como os desejos de ser coroado como um imperador de civilização antiga ou ser enterrado em um esquife de ouro. Nestas versões, o mesmo Boca de Ouro capaz de assassinar é o Boca de Ouro religioso, com fé, que se aconselha com uma Entidade (Cacá Toledo) e mantém um pequeno altar, ou o Boca de Ouro generoso que se dispõe a fazer uma doação para uma associação filantrópica formada por três alvoroçadas grã-finas, amparadas pelos seus guarda-chuvas (Leonardo Ventura, Cacá Toledo e Guilherme Bueno). Desta forma, constrói-se, aos poucos, o arquétipo mítico, adorado e falado, para o bem ou para o mal, acima dos meros mortais. Gabriel Villela, em sua direção, provou-nos mais uma vez o quanto é brilhante ao conjugar a exuberância visual/estética de suas peças (Gabriel na maioria das vezes assina os cenários, figurinos e adereços de suas montagens, como neste caso, nas quais percebemos diversas referências e inspirações), com a solidez estrutural dos textos que resolve encenar, resultando em perfeita e admirável sintonia cênica. Aliás, não nos custa lembrar da importância que o crítico e acadêmico Sábato Magaldi, um dos maiores especialistas em Nelson Rodrigues no país, teve para o diretor, o que provavelmente o fez compreender de forma mais ampla o pródigo universo ficcional do “Anjo Pornográfico”. Gabriel se utilizou, sempre com o primor que caracteriza o seu trabalho, das referências estilísticas que o distinguiram como grande encenador. Em “Boca de Ouro” adota-se a estética do circo-teatro (uma de suas principais marcas), do Teatro Mambembe e da Commedia Dell’Arte (visível sobremaneira nos trajes dos personagens, nos adereços e no conjunto cenográfico). Na condução dos dez atores do espetáculo, valorizou-se a essência do melodrama, buscando-se o máximo de suas expressividades, tanto em suas gesticulações corporais ou imobilidades (influências da Mímica e do Expressionismo Alemão), quanto no fraseado meticulosamente saboreado sílaba por sílaba, num acento próprio, particularíssimo, alguns tons acima, de modo proposital, como se a intenção fosse a de realçar, destacar, elevar a palavra de Nelson, e toda a carga de ironia, malícia, dramaticidade e duplo sentido que a definem. Seus famosos bordões e interjeições, como “Batata!”, ganham a distinção merecida. A peça contém um espectro carnavalesco, tipicamente carioca, com confetes e serpentinas sendo lançados ao alto, a fim de demarcar certas cenas. A tragicidade inerente ao texto está presente de maneira alegórica, simbolista e até mesmo, pode-se dizer, poética. O fio narrativo é entremeado de modo coerente por canções intrinsecamente nacionais (com exceção de dois clássicos estrangeiros), com forte apelo emotivo e nostálgico junto à plateia, entoadas pela afinadíssima Crooner, personificada por Mariana Elisabetsky, com o acompanhamento ao piano do craque Jonatan Harold. Gabriel Villela, com “Boca de Ouro”, confessa publicamente toda a sua reverência e respeito ao dramaturgo pernambucano de alma carioca. Quanto ao seu elenco, todos os seus atores estão profundamente imersos não só na linguagem e no mundo rodriguianos, como no discurso teatral específico de Gabriel Villela. Para um intérprete participar da montagem de uma peça de Nelson se faz necessário um estudo de interpretação mais intenso, pois diferentes são seus meios de comunicação, e o que se testemunhou em “Boca de Ouro” foi a adesão irrestrita desses insignes e talentosos artistas, que além de defenderem seus papéis com fulgor e garra, cantam suas músicas com amor e verdade, dançam com o entusiasmo e a sensualidade exigidos, e tocam com extrema competência (no caso, Jonatan Harold, com o seu piano). Malvino Salvador é um ator que, para se conhecer por inteiro a sua capacidade interpretativa, tem-se que obrigatoriamente lhe assistir em cima de um palco. Um sucesso reconhecido e incontestável com a sua galeria de papéis na TV, Malvino nos arrebata e nos comove em cena com a sua potência e pujança dramáticas, o seu humor desenhado na entonação que imprime às suas falas e às suas expressões faciais, e ao seu excelente trabalho de corpo com o intento de garantir ao seu personagem a maior credibilidade possível. O Boca de Ouro construído pelo ator nascido em Manaus é no mínimo memorável. Composto com minúcias e riqueza de detalhes, Malvino Salvador passeia com grande desenvoltura pela controversa personalidade e difícil psicologia deste contraventor que incita amores, paixões, curiosidade e ódio daqueles com os quais conviveu, causando no público uma irrefreável empatia com a sua performance. Espanta-nos sua aptidão em se metamorfosear de um papel para o outro (quem conferiu “Chuva Constante”, de Keith Huff, sabe o que digo). Destemido ao aceitar desafios como esse, nunca aceitando em se acomodar na “zona de conforto”, Malvino Salvador atinge um momento de glória em sua já tão bem-sucedida carreira. Lavínia Pannunzio fez de sua Guigui uma mulher sofisticada, autoconfiante, com certo ar pernóstico e soberbo. A atriz, com uma postura encantadoramente elegante, em todos os seus sentidos, evoca uma série de sentimentos em sua crucial personagem, atendendo às versões diferenciadas sobre o fato que diz respeito àquele que lhe foi importante na vida como amante. Suas reações variam, e a intérprete as cumpre com garbo. Em sua atuação, as emoções vão do amor incontido pelo contraventor até a descrição, com frieza, de sua face menos nobre. Mel Lisboa comprova indubitavelmente, ao defender Celeste, a esposa de Leleco, nas três ocasiões díspares da história contada por Guigui, a sua retumbante maturidade artística. É fato que nos acostumamos com a figura doce e angelical da atriz, mas este olhar se transforma ao nos defrontarmos com a sua visão interpretativa exponencialmente forte da mulher que, para resolver um problema que envolve diretamente seu marido no que tange a questões financeiras, assume posições antagônicas que exigem da bela artista uma exposição de diversas camadas emocionais, todas resolvidas com elogiável plenitude. Seja adotando uma atitude sensualizada, seja personificando um outro lado de Celeste, mais prático, frio e objetivo, a atriz cresce enormemente em cena. Claudio Fontana tem a missão de defender dois personagens, o Dentista que coloca a arcada de ouro em Boca, e Leleco. Esta mesma missão lhe abriu um leque de amplas viabilidades de interpretação, que o fez enveredar pelos caminhos mais certeiros e apropriados. Se para o Dentista o ator apostou em um tipo com toques de caricatura, no que concerne a Leleco, os caminhos se tornaram mais desafiadores, haja vista que os acontecimentos das três situações da peça o obrigam a ostentar características extremas de um homem acuado e pressionado por fatores adversos, como o adultério (um dos temas favoritos de Nelson), a traição em sentido amplo e irrestrito, e a sensação de se estar “sem saída” diante de um episódio. Claudio se sobressai com louvável dignidade ao acatar as exigências formadoras dos perfis de seus papéis. Já Chico Carvalho se encarrega de dar vida a dois personagens do texto de Nelson: o repórter Caveirinha e Maria Luísa, uma senhora afetadíssima possuidora de segredos irreveláveis. Dotado de imensa vocação para criar tipos, brincando de forma divertida com a sua voz, Chico delineia os traços de duas pessoas totalmente opostas. Caveirinha é um repórter que não mede esforços para realizar a sua tão almejada matéria jornalística, e Maria Luísa, com uma feminilidade excêntrica, traz consigo uma névoa de mistérios, cabendo-lhe primordial função na elucidação e esclarecimento das circunstâncias que marcaram a morte do até então “imortal” bicheiro. Leonardo Ventura encarna com brio o marido de Guigui, Agenor (além de uma das três grã-finas da associação filantrópica). Leonardo, ao compor Agenor, em certas passagens lhe empresta tons de passividade de acordo com o teor das narrações de sua esposa, e em outras se mostra firme e decidido, motivado por ciúme, ao ponto de abandonar a sua mulher. Cacá Toledo se incumbe de personificar quatro figuras na dramaturgia de Nelson: o Secretário, a Segunda grã-fina, a Entidade e o Locutor. Cacá usa sua versatilidade para oferecer verossimilhança, dentro do contexto rodriguiano, a esses personagens. A Entidade, chamada por Boca de Ouro de Preto, faz-nos ouvir aquela voz familiar dos Pretos Velhos, entidades da Umbanda e Candomblé. O Locutor reverbera a sua voz impostada e sensacionalista típica dos programas de rádio da época, e sua grã-fina se revela nada puritana em seus supostos bem-intencionados objetivos. Guilherme Bueno interpreta tanto o fotógrafo quanto a Terceira grã-fina. Guilherme usa a sua habilidade corporal a fim de se colocar em consonância com o profissional que se desdobra, a todo e qualquer custo, na procura por um flagrante. Quanto à sua grã-fina, segue com a mesma acertada frequência com que os outros dois intérpretes impingiram às mulheres em busca de doações: espevitada, indócil, despudorada e com alguma dose de histeria. Guilherme cumpre muito bem o que lhe foi demandado pela direção. Mariana Elisabetsky nos dá o prazer de ouvir a sua límpida voz cantarolando com magnificência músicas que calam fundo em nossos corações e sensibilidades. Mariana serve como porta-voz de canções que remetem ao universo carioca, abrindo, por exemplo, o espetáculo com o hino “Cidade Maravilhosa”, de André Filho. Com um tempo próprio, a atriz/cantora ainda nos embevece com “Ave Maria no Morro”, “A Noite do Meu Bem” e “Vingança”, respectivamente de Herivelto Martins, Dolores Duran e Lupicínio Rodrigues. Mariana também interpreta “Bang Bang (My Baby Shot Me Down)”, de Sonny Bono. Vale ressaltar que a atriz Lavínia Pannunzio, num instante emocionado, canta “Ne me quitte pas”, de Jacques Brel. Jonatan Harold, que vive Maestro, defronte ao seu piano do lado direito da ribalta, acompanha com segurança e destreza, pontuando cena a cena, o desenvolvimento do entrecho, realçando o clima de gafieira dos anos 50, com toda a carioquice a que se tem direito. Jonatan ficou responsável pelos ótimos arranjos musicais e colaboração musical (o pianista ainda nos celebra com uma versão de “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo). Na montagem que em muitos de seus momentos se aproxima bastante de um musical, ainda temos “Na Cadência do Samba”, de Ataulfo Alves e Paulo Gesta, “Não Deixe o Samba Morrer”, de Edson e Aluisio, e “De Frente Pro Crime”, de João Bosco e Aldir Blanc. A eclética e competentíssima direção musical e a notável preparação vocal ficaram sob os cuidados de Babaya Morais. Os cenários, figurinos e adereços, como dito antes, são de autoria de seu diretor. Quanto à parte cenográfica, retratando com charme e fidelidade o universo instigante e luxurioso de um cabaré/gafieira, Gabriel distribuiu em pontos estratégicos do palco (na frente à esquerda, e numa linha semicircular ao fundo) mesas e cadeiras de madeira (de cor preta) com respaldos vazados, sobre as quais se encontram pequenos abajures, que são mantidos acesos, quando necessários. Essas mesmas mesas servem como bases para que os atores, que usam dedais metálicos, batuquem simulando o ato de se datilografar (objetiva-se a referência a uma redação de jornal). À esquerda da ribalta, há uma escada vermelha de madeira que é usada para inúmeras cenas importantes, com os intérpretes se equilibrando sobre os seus degraus (nota-se uma passagem em particular que nos lembra a famosa “cena do balcão” de “Romeu e Julieta”, de Shakespeare). E bem no centro do tablado, o móvel mais simbólico de toda a história: um sofá/cadeira forrado com um tecido de cor mostarda invariavelmente utilizado por Boca de Ouro – um amarelo obviamente intencional. Este sofá/cadeira se encontra sobre um minipalco circular, sujeito à movimentação por força dos atores (o minipalco pode servir como um pedestal, também). Como arremate deste suntuoso cenário, taças e candelabro. Os figurinos, outra especialidade do encenador, são luxuosamente coloridos e criativos, abraçando uma infinidade de peças de vestuário que ajudam sem sombra de dúvidas no processo não só de embelezamento do espetáculo, mas como fator de melhor compreensão da história e do perfil de seus participantes, além de fazer com que a plateia mergulhe de cabeça no mundo de Nelson Rodrigues. Gabriel Villela se valeu, no caso de Boca de Ouro, de um casaco preto de mangas compridas com capuz, meias de mesma tonalidade cobrindo as pernas, bermuda escura florida, além de outras indumentárias, como gorro, chapéu e capa. O figurinista não só abusou, felizmente, das cores, mas dos brilhos. Estes dois elementos são vistos em profusão em longos transparentes com bordados, estolas, turbantes, faixas douradas, saias, golas que lembram a de um arlequim, ternos, gravatas, plumas etc. Isso nos mostra as múltiplas influências de variadas épocas de que se utiliza para dar corpo e vida aos personagens de sua peça. Rosely Fiorelli se encarregou da eminente direção de movimento. Graças ao seu “know-how” e ao seu entendimento do que pretendia o diretor, Rosely colocou os atores em um sem número de posições, algumas posadas com expressividades significativas, e outras, incluindo as danças, que demonstram o quanto de simbolismo pode haver em um simples gesto com os braços ou em um posicionamento ajoelhado, respeitando evidentemente o contexto cênico. A iluminação de Wagner Freire nos inebria e fascina pelos seus tons bruxuleantes, e por adotar assumidamente uma atmosfera que reportasse sem desvios ao ambiente peculiar a um cabaré/gafieira dos anos 50. Os pontos de luz advindos dos delicados abajures nos oferecem o clima perfeito do local de encontros, dança e música. Wagner teve como propósito diversificar o máximo que pôde as possibilidades de texturas luminosas. Em algumas ocasiões, vê-se um plano semiaberto (jamais estourado), com tonalidades próximas à sépia. Cores primárias, como o azul, também colaboram. As sombras e os focos pontuais nos atores são demasiado utilizados. Blecautes com picos de estroboscópios simulam espertamente os flashes do Fotógrafo. A interseção entre fog e luz nos transmite uma sensação etérea do mundo onde se desenrola a ação. A maquiagem de Claudinei Hidalgo é notadamente expressiva, realçando as faces do elenco com bases mais claras ou esmaecidas, valorizando as mulheres com batons de vermelho intenso, e destacando, em ambos os gêneros, as linhas de suas sobrancelhas (o sangue cenográfico merece menção pelo seu realismo e impacto). “Boca de Ouro” nos leva a crer que o teatro está mais vivo do que nunca. O resgate da obra de nosso maior dramaturgo, Nelson Rodrigues, feito por um de nossos diretores mais imaginativos e consagrados, Gabriel Villela, dois artistas genuína e essencialmente nacionais, numa era em que a autoestima do brasileiro precisa ser realimentada, resulta em uma equação infalível de sucesso. Malvino Salvador de volta aos palcos encarnando de forma absolutamente nova, refrescando óticas passadas sobre o ser mítico contraventor, outrossim se configura como mais uma razão para a realização desta montagem inesquecível. Os atores que o acompanham, sem quaisquer receios de se entregarem às almas conflituosas pensadas na mente de Nelson, também já valem a ida ao teatro. Os aplausos finais se justificam. Há uma luz dourada no fim do túnel para a cultura geral de nosso país. Tão dourada quanto o sorriso aberto e cheio de significados de Boca de Ouro.

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O modelo Andre Fellipe na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, no Parque Cândido Portinari.
Andre é carioca, sendo agenciado por várias agências: AVE Management (Singapura), The Fashion Model Management (Milão, Itália), Mega Model Brasil (São Paulo), Divo MGMT Brazil, One Management (NYC), MGM Germany e Leni’s Model Management (Londres).
Por um tempo, morou na Ásia, sendo capa da “L’Officiel” Singapura.
Fez campanha para a Calvin Klein, Brooksfield JUNIOR e Neill Katter.
Foi clicado por Ronald Luv para um ensaio em p&b, publicado no site “The Fashionisto”, e por outros profissionais, como Guille Vargas Pohl, Yeral Solis Martinez, Ítalo Gaspar (“Coitus Magazine), Jeff Segenreich, Xavier Samré, Eber Figueira, Hudson Rennan e Marcos Florentino.
Estampou a capa da 34ª edição da “FFWMAG”.
No Fashion Rio Outono Inverno 2014, circulou pelas passarelas de três grifes: Coca-Cola Jeans, R.Groove e TNG.
Possui ensaios na “Desnudo Magazine” (fotografado por Patricio Roldan), para a marca Erreà Republic (Dinamarca) e “POSH Magazine” (foto de Fernando Machado).
Fez um vídeo publicitário para a Fashion Park, no Chile.
Na edição de inverno 2016 da São Paulo Fashion Week, o modelo desfilou para João Pimenta (na mesma semana de moda, só que em outras temporadas, desfilou para marcas distintas, como Osklen e Colcci).
Atualmente, Andre Fellipe reside em Milão, Itália.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

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Foto: Sergio Zalis/Rede Globo

Ontem à noite, o público cativo das 19h certamente se embeveceu e se inebriou com o primeiro capítulo de “Deus Salve o Rei”, a nova novela do horário na Rede Globo, marcando a estreia de Daniel Adjafre como autor titular na emissora. Jamais vimos na teledramaturgia brasileira, com o auxílio bem-vindo das tecnologias da computação gráfica, cenas tão grandiloquentes e exuberantes, somente vistas nas telas de cinema, servindo a uma trama medieval com todos os requintes que ela merece, com disputas entre reinos, casamentos prometidos, lutas entre príncipe e salteadores, belas princesa e plebeia, e reis em conflito. Tanta grandiosidade visual, associada naturalmente à Sétima Arte, fez com que este primeiro capítulo fosse exibido em seis capitais do país. Com direção artística de Fabrício Mamberti, a história começa com expressivas imagens congeladas de soldados em brutais e sangrentas batalhas campais (algo como a técnica “tableau vivant”, conferida no filme de Martti Helde, “Na Ventania”). Somos apresentados aos primórdios do enredo pela voz de Rosamaria Murtinho, a Rainha Crisélia, do Reino de Montemor. Segundo ela, durante 300 anos, o Reino sempre primou pela proteção de suas fronteiras, vivendo de suas conquistas, tendo fartura e bonança graças à extração de minério de ferro, à lavoura e ao gado. No entanto, não houve a preocupação com bem tão precioso: a água. O rio que o abastecia secou. A saída fora entrar em acordo com o reino mais próximo, Artena. Em troca da água, o minério de ferro. Objetivando a sua independência, é construído em Montemor o grande aqueduto, que demandou anos, e hordas de operários. Chega o dia em que a Rainha Crisélia, ao lado de seu neto, o Príncipe Afonso (Romulo Estrela), entrega aos seus súditos a água esperada, em uma portentosa cerimônia. Para decepção geral, seu jorro minguou. O lago que servia como fonte do aqueduto também secou, anunciou um soldado. Conhecemos o outro herdeiro do trono de Montemor: o atoleimado e mulherengo Príncipe Rodolfo, personificado por Johnny Massaro. Rodolfo é notificado por sua avó sobre o fracasso de sua obra. Numa reunião familiar na Sala do Trono, fica decidido pela Rainha que a paz existente entre os Reinos de Montemor e Artena, que já dura 50 anos, será mantida, e com isso, o seu acordo. Afonso se prontifica a realizar uma expedição às colinas em busca de uma nova fonte de água. Viajamos para o Reino de Artena, e nos deparamos com a linda e doce Amália (Marina Ruy Barbosa), dona de uma barraca de caldos. Independente, Amália resiste às pressões de seu futuro marido, o comerciante de tecidos Virgílio (Ricardo Pereira), para abandonar o trabalho, e se dedicar exclusivamente a ele. Nas dependências externas do castelo do Rei Augusto (Marco Nanini), ouvimos a composição poética, ao som das cordas de um alaúde, de Istvan, o Marquês de Córdona (Vinícius Calderoni), apaixonado pela bela e soberba Princesa Catarina (Bruna Marquezine), que nos deixa clara a sua rejeição pelo inocente rapaz. Catarina é avisada por Lucíola (Carolina Ferman), sua camareira e confidente, de que o seu pai, Augusto, quer falar com ela. Em sua sala, o Rei Augusto diz a sua filha o quanto preza o seu pretendente, até que são interrompidos pelo conselheiro Demétrio (Tarcisio Filho). Leal ao Rei, informa-lhe sobre o destino malsucedido do aqueduto. Neste momento, testemunhamos a ganância e a falta de ética de Catarina, ao propor ao pai que aproveitem a situação de fragilidade do Reino de Montemor para alterarem o acordo em favor de Artena, sendo imediatamente repreendida pelo justo e honrado Augusto. A cena termina com o Rei comentando: “ É como diz o ditado, Demétrio. Se quiser fazer Deus rir, faça planos. E eu acrescentaria. E se quiser fazê-lo gargalhar, faça planos para seus filhos”. Enquanto isso, em Montemor, após o afetado e fútil Príncipe Rodolfo determinar aos seus criados o que desejaria para a sua festa, uma importante conversa entre os irmãos reais ocorre, na presença do médico Lupércio (Pascoal da Conceição), que cuida de sua avó. Lupércio lhes afirma que os lapsos de memória da Rainha Crisélia estão evoluindo, e que se trata de uma doença desconhecida, sem tratamento (o que no futuro, viria a ser conhecido como o Mal de Alzheimer). Rodolfo revela a sua face mais feia, ao demonstrar friamente o seu desinteresse pela saúde da Rainha. Num colóquio particular, ciente de seu estado clínico, Crisélia comunica a Afonso que o seu desejo é que, quando volte da expedição, assuma o trono. Amália chega à sua casa, e como de costume, seus pais Martinho (Giulio Lopes) e Constância (Debora Olivieri) estão discutindo (o casamento deles foi arranjado). Amália tem um irmão, Tiago (Vinícius Redd). Ambos discorrem sobre o amor e o casamento. Neste instante, a moça deixa transparecer a sua porção romântica e idealista. Em seus aposentos, o Rei Augusto confessa a Demétrio que está na hora de sua filha se casar, e que o Marquês de Córdona seria o seu marido ideal, por ser um homem virtuoso. Assim, Catarina poderia se tornar uma pessoa melhor, mais indulgente, segundo o próprio rei. O Príncipe Afonso se despede de sua avó, e inicia, acompanhado de Cássio (Caio Blat), o Comandante do Exército de Montemor, a expedição em busca de água para o reino. Quinze dias depois, Afonso, um pouco desiludido, diz a Cássio que se não encontrarem água no vale próximo, dará por encerrada a expedição. Constantino, o Duque de Vicenza (José Fidalgo) lhes conta que encontrou restos de comida não muito longe, o que indica a presença de ladrões. Durante a cavalgada, são surpreendidos pelo bando de salteadores. Decorre uma violenta batalha entre os dois lados, com direito a lutas bem coreografadas, e difíceis de serem executadas, vale dizer. Numa sucessão de cenas de violência estetizada, em que corpos são perfurados de forma inclemente por lanças e flechas, sobram mortos e feridos. O Príncipe se afasta de seus aliados, e acaba sendo gravemente ferido por uma flecha. Em Artena, Augusto comunica a Catarina que o Marquês pediu o seu consentimento para se casar com ela, recebendo a sua aprovação, para desgosto da princesa. Amália sai pelo campo com o seu irmão para colher laranjas, rabanetes e manjericão. Tiago vai para um lado, e sua irmã para o outro. De repente, Amália cai com o seu cesto. Próximo dela, o Príncipe desfalecido e pálido. Os olhos da Princesa o miram com paixão. Ele, mesmo desacordado, aperta com força a sua mão, não a largando mais. Em uma bonita cena final, a câmera voa alto sobre o casal, fechando com uma estonteante paisagem de montanhas ao fundo. O texto escrito por Daniel Adjafre e Cláudia Gomes, com a colaboração de Angélica Lopes, Péricles Barros e Sérgio Marques é um primor. Não é fácil engendrar uma trama passada na Idade Média, em locais fictícios, criar personagens condizentes com aquela época, e que sejam ao mesmo tempo críveis, causando empatia nos telespectadores, construir elos entre os núcleos, tornando a fantasia próxima de nós. Tudo isso foi logrado pela equipe de autores, que se esmeraram na construção dos diálogos, inteligentes, sendo alguns muito bem-humorados, e outros emocionantes. Há espaço tanto para o romance, quanto para o drama e a comédia. A direção artística de Fabrício Mamberti e geral de Luciano Sabino, tendo como colaboradores os diretores João Boltshauser, Oscar Francisco, Pedro Brenelli e Bernardo Sá merece quantos elogios forem possíveis. Imaginamos a dificuldade em conduzir e comandar certas cenas, principalmente as de batalhas, e aquelas que necessitam de um considerável número de figurantes e elenco de apoio. Não menos complexas são as cenas entre dois ou três atores, como as com Marco Nanini, Bruna Marquezine e Tarcisio Filho, ou entre Rosamaria Murtinho e Romulo Estrela, que demandaram um intimismo maior, uma delicadeza em seu tempo. O elenco é um acerto indiscutível. A escalação optou por nomes jovens, alguns bastante queridos e admirados pelo público, apostou corajosamente em Romulo Estrela para ser o protagonista masculino, convocou atores experientes, e grandes representantes da arte nacional, como Marco Nanini e Rosamaria Murtinho. Bruna Marquezine, no alto de sua esbelteza, destila a empáfia de Catarina. Marina Ruy Barbosa abusa, para o nosso agrado, de sua formosura para compor Amália. Johnny Massaro, antes de tudo, possui uma veia cômica como poucos de sua idade, mas sabe, da mesma maneira, imprimir a dramaticidade perfeita ao seu personagem, como o fez com Rodolfo. Romulo Estrela tem todos os méritos para se tornar uma das opções de sua geração para protagonizar histórias com as quais o seu perfil se encaixe. O bonito ator, que já brilhou em outras produções da emissora, como “Liberdade, Liberdade”, e mais recentemente na minissérie “Entre Irmãs”, preferiu o caminho da sobriedade e do comedimento, convencendo indubitavelmente na postura e na voz de seu Príncipe Afonso. Caio Blat, Ricardo Pereira, Tarcisio Filho, Pascoal da Conceição, Debora Olivieri, Giulio Lopes, Vinícius Redd e Carolina Ferman defenderam com garbo as exigências dramáticas de seus papéis, enriquecendo cada cena de que participaram. José Fidalgo e Vinicius Calderoni, em suas aparições, já provaram que são garantias de bons momentos no folhetim. Marco Nanini, um de nossos maiores intérpretes, colecionador de personagens inesquecíveis em telenovelas, como “Gabriela” e “Brega e Chique”, além, é claro, do seriado “A Grande Família”, sem trocadilhos, é uma presença nobre em cena, com todo o seu conhecimento interpretativo e inteligência emocional, valorizando cada palavra, cada frase emitida pelo seu Rei Augusto, que já nos conquistou. Marco emprestou ao seu papel a severidade esperada de um soberano, mas também uma sensibilidade irresistível. Rosamaria Murtinho, outra insigne atriz de nossas Artes, faz parte da História de nossa TV, com carreira prodigiosa, assim como Marco Nanini, no cenário teatral, e o convite que lhe foi feito para dar vida à honrada Rainha Crisélia não poderia ter sido mais oportuno. Rosamaria nos transmite uma beleza de interpretação que transcende as telas, não nos poupando de sua vasta emoção ao desenhar os traços delicados e necessariamente austeros de sua Rainha. A cenografia de Keller Veiga e Pedro Equi é deslumbrante em sua amplidão, no que corresponde aos espaços palacianos, e charmosa e coerente no que se refere aos ambientes mais simples, como a casa de Amália. A cidade cenográfica, com suas fachadas e logradouros, impressiona. A cenografia virtual, que nos provoca alumbramento, coube a Marcio Fontes e Glaucio Lazaro. Nininha Médicis ficou encarregada da produção de arte impecável. Cada detalhe, como taças de metal, os elementos que ornamentam a feira de Artena, os aspectos domésticos da morada plebeia, os pontos caracterizadores do banheiro de Catarina nos causam assombro pelo seu capricho e pesquisa. Mariana Sued se incumbiu da confecção dos figurinos riquíssimos. A riqueza dos costumes não se restringe ao sentido literal do termo, com todos os enfeites, ornamentos e filigranas estilísticas das vestes nobres, mas na elegância simplória das vestimentas dos plebeus, e na eloquência estética dos uniformes dos soldados reais (a equipe de figurinistas assistentes e apoio ao figurino é enorme). A direção de fotografia ficou sob a batuta de Alexandre Fructuoso. Alexandre explorou bastantes possibilidades de texturas, filtros e luminosidades. Seu trabalho é irretorquivelmente magistral. Alexandre impingiu um colorido vívido às cenas de multidão, como na inauguração do aqueduto. Escolheu as sombras e meias-luzes nas dependências do palácio, como na conversa definitiva entre o Rei Augusto e a Princesa Catarina, e tonalidades azuladas nas noites do Reino de Artena. Os efeitos especiais de Federico Farfan, e os efeitos visuais de Marcelo Nicacio e Rafael Ambrosio, em associação com a avançada tecnologia da computação gráfica, podem ser definidos, sem hesitação, como excelentes, servindo para o ótimo acabamento estético da produção. A lindíssima abertura foi imaginada por Alexandre Romano, Flavio Mac, Fabricio Duque e Felipe Lobo. Este criativo e inspirado quarteto se utilizou de tons amarelos/dourados fortes (há uma evolução para outras cores, algumas mais escuras), e uma câmera em movimentos contínuos e circundantes que testemunha fatos que aludem ao enredo, com as pessoas simbolizadas por bonecos meticulosamente artesanais (parecem feitos de cobre). Há um séquito de cidadãos plebeus carregando baldes de água em direção a um castelo no alto de uma colina, um casal apaixonado, uma moça fugitiva, rosas e seus galhos retorcidos, chuvas de flechas em uma batalha, uma ave com olhos faiscantes, uma princesa sendo coroada, terminando com um soldado de costas para uma mulher. Uma pequena obra-prima com a voz divina da jovem norueguesa de 21 anos Aurora interpretando a canção folclórica “Scarborough Fair”. As magníficas músicas originais receberam a assinatura de Alexandre de Faria e Rodrigo Marsillac, com gerência musical de Marcel Klemm. As músicas, de caráter essencialmente épico, foram gravadas na República Tcheca pela Orquestra Filarmônica de Praga, no Smecky Music Studio, durante quatro dias (a orquestra está acostumada a fazer trilhas para filmes relevantes, como a trilogia de “O Poderoso Chefão”). O resultado ficou esplêndido. “Deus Salve o Rei”, definitivamente, levando-se em conta o seu inesquecível primeiro capítulo, já entrou para a história da TV brasileira. Muitos são os motivos para prender o telespectador, e fazê-lo acompanhar esta encantadora e mágica história. Por algumas dezenas de minutos, de segunda a sábado, iremos nos sentir como nobres ou plebeus, em Montemor ou Artena, isso não importa. O importante é embarcar nesta fascinante obra teledramatúrgica, cheia de sonhos e fantasia. Se Deus salvou o Rei, também salvou a luz criativa, a ousadia e o talento de toda a equipe da nova novela das 19h, “Deus Salve o Rei”.

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Foto: Ramón Vasconcelos/Gshow

Desde a década de 70 nos acostumamos a assistir pela TV aos clássicos do cinema-catástrofe norte americano, como “O Destino do Poseidon”, de Ronald Neame (1972) e “Inferno na Torre”, de John Guilhermin (1974). Houve um interregno deste gênero, até que nos anos 90 se percebeu o surgimento de muitos longas que tinham os seus roteiros baseados em catástrofes, fossem elas naturais, como “Twister”, de Jan de Bont (1996), ou não, como “Independence Day”, de Roland Emmerich (1996) e “Titanic”, de James Cameron (1997). Com a proximidade dos anos 2000, e suas teorias sobre o fim do mundo, a indústria do cinema lançou obras pessimistas e sobrenaturais, como “Fim dos Dias”, de Peter Hyam (1999). Até hoje são distribuídos no circuito filmes de temática catastrófica, ainda mais com os avanços da computação gráfica. No Brasil, em se tratando de televisão, raros são os casos em que eventos com a magnitude de uma catástrofe foram retratados. Um dos melhores exemplos talvez seja a novela de Silvio de Abreu, “Torre de Babel” (1998), na qual a personagem de Adriana Esteves, Sandrinha, causou a explosão de um shopping. No entanto, não podemos deixar de destacar outras duas novelas exibidas no momento, “O Fim do Mundo”, de Dias Gomes (1996), reprisada no Canal Viva, e “Apocalipse”, de Vivian de Oliveira, na RecordTV. Uma das apostas da Rede Globo para este início de ano é a minissérie de Elena Soarez e Luciano Moura (com a colaboração de Sofia Maldonado), “Treze Dias Longe do Sol”, com a direção artística do próprio Luciano Moura. A minissérie, em resumo, discorre sobre os treze dias em que o engenheiro Saulo (Selton Mello), a médica Marion, filha do dono do prédio que abrigaria uma clínica, Dr. Rupp (Lima Duarte), interpretada por Carolina Dieckmann, Yasmin (Camila Márdila), a filha grávida de um dos operários, Jesuíno (Antonio Fábio), e mais alguns operários tentam sobreviver, após seu desabamento, nos escombros do edifício construído com materiais e quantidades adulterados pelo engenheiro e pela diretora financeira Gilda (Debora Bloch) da Baretti Construtora, de propriedade do inescrupuloso e corrupto Vitor Baretti (Paulo Vilhena), com o intuito de desviar recursos para a compra de parte da empresa. Impossível para nós, telespectadores, não nos lembrarmos de casos reais, como o desabamento de dezenas de apartamentos do edifício Palace II, ocorrido criminosamente em pleno domingo de Carnaval de 1998, matando 8 pessoas, e deixando 176 famílias desabrigadas, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Na cena inicial do episódio “Falha Estrutural”, vemos Saulo defronte ao mar com pensamentos suicidas. Partimos para o prédio em construção, localizado em São Paulo, com sua visão externa. Em seu interior, o engenheiro fita, angustiado, uma enorme rachadura que teima em aparecer em um dos pavimentos. Conversa rapidamente com Gilda ao telefone sobre problemas de pagamento a fornecedores. Fica-nos claro que há uma conta com fundos ilegais que não pode ser mexida. Sob uma chuva torrencial, Vitor chega ao edifício. A relação entre ele e Saulo não é das melhores. Falam acerca da pressão dos compradores do prédio com relação ao atraso de sua entrega, e das iminentes vistorias. Ocorre também um conflito sobre quem deverá ir ao encontro com o prefeito, demonstrando a colaboração deste com práticas ilícitas. Marion chega ao local para vistoriar o andamento das obras (ela representa o seu pai, que está adoentado, recuperando-se de um AVC), percebendo que há ainda muito o que se fazer, sendo sempre contrariada pelo engenheiro. O casal deixa à vista um clima de romance mal resolvido. A chuva continua a cair forte, e um alagamento suspeito irrompe do chão. Yasmin vai visitar o seu pai Jesuíno em seu local de trabalho. Desconhecendo seu estado de gravidez, Jesuíno reage mal. Existe uma relação estranha entre ambos. Na reunião em que se espera a presença do prefeito, Vitor se mostra bastante inquieto devido a negociações espúrias não fechadas. Luciano Chirolli, como Samuel Krieg, representa o prefeito, que já assentiu a negociata com o jovem empresário. Enquanto os operários Zica (Démick Lopes) e Dario (Glauber Amaral) brigam por dívidas, a água continua a brotar do chão. E não é cano estourado. Marion continua a encontrar uma série de irregularidades na obra, como cilindros de oxigênio armazenados. O que se esperava finalmente aconteceu. O prédio desabou. As cenas dirigidas por Luciano Moura e Isabel Valiante são incrivelmente realistas e impactantes, com efeitos especiais de altíssimo nível, similares aos vistos nas produções do gênero americanas. O construtor Vitor fica sabendo do sinistro pelo celular, ao mesmo tempo em que jornalistas, já cientes, fotografam-no impiedosamente. Num ambiente de total desolação, com uma montanha imensurável de concretos em pedaços, carro de Bombeiros e socorristas chegam aos montes. O diretor optou por fazer uma tomada aérea central, a fim de que tivéssemos a real noção da tragédia. A montagem e edição de imagens é rápida, tremida, nervosa, acompanhando a velocidade dos acontecimentos, não poupando o público das cenas de pessoas feridas, ensanguentadas, desacordadas. Uma reprodução fiel do que nos habituamos a assistir nos telejornais. Registros dignos de um atentado terrorista. Passamos para o Quartel de Bombeiros onde se encontra o Capitão Marco Antônio, personificado por Fabrício Boliveira. O Major, enfrentando a resistência do Capitão, que alega estar suspenso, e o Regimento não permite a sua saída, designa-o para ajudar nos resgates. Paira a dúvida sobre o que o Capitão deve ter feito ao ponto de ter sido punido. Lá chegando, toma a frente das operações de salvamento. No imenso escritório central da Baretti Construtora, Gilda, atônita, anda de um lado para o outro dando ordens, até que sabe por Vitor de que tanto Saulo quanto Marion estão soterrados. Dr. Rupp, aos prantos, debate-se em sua cama ao tomar conhecimento da situação de sua filha. Nos resgates, o Capitão Marco Antônio tem que tomar decisões difíceis, que contrariam as normas convencionais de procedimentos de salvação nestes casos. No local das buscas, Gilda, em estado de choque, procura ao máximo atrapalhar o trabalho dos assistentes sociais. Há a suspeita de que Saulo esteja entre os mortos encontrados. Entretanto, Ilana Krieg (Maria Manoella), sua ex-mulher, acompanhada de uma assistente social (Dani Nefussi), não reconhece o corpo, espantando-se ao saber que Marion está entre os soterrados. Num espaço de terror, em meio a poças d’água, jorros de água, escuridão e entulhos, o engenheiro parece catatônico. Ouvem-se gritos de toda parte. Dario, um dos operários, está gravemente ferido, e é socorrido pelo seu irmão Daréu (Rômulo Braga). Um fio desencapado próximo à água os ameaça com a eletrocussão. Entre os sobreviventes, está Bené (Arilson Lopes). Alguns gritam, entre eles Marion: – Saulo, nós temos que sair daqui!. Saulo se levanta e vai em direção aos irmãos, sendo agredido. O engenheiro pega uma pedra, golpeando Daréu na cabeça com brutalidade. A insanidade começa a imperar no universo onde a lei da sobrevivência ditará as regras. O texto de Elena Soarez e Luciano Moura obedece aos preceitos determinantes deste gênero narrativo, cumprindo a sua precípua função de imprimir à trama doses substanciais de ação, terror e suspense, em paralelo, nesta minissérie, a uma rede de intrigas que envolve corrupção, ganância e sede de poder, não abrindo mão, contudo, de conflitos de caráter afetivo. Os diálogos são fluidos, certeiros e afiados, adequando-se à objetividade deste tipo de história. Na categoria em que se insere esta espécie de roteiro não são permitidas cenas demoradas, tampouco conversações longas, atingindo-se desta forma o timing exigido em situações fictícias desta natureza. Luciano Moura e Isabel Valiante se empenharam em retratar em imagens convincentes e chocantes esta série de episódios marcados pelo horror do desabamento de um prédio com pessoas em seu interior. Como já foi dito anteriormente, amparados em efeitos especiais de potência visual inacreditável, procuraram extrair do elenco os principais aspectos definidores das personalidades de seus personagens. Há um elemento comum na quase totalidade das cenas levadas ao ar: a tensão. Uma tensão em diferentes nuances, apropriada ao contexto e à contingência dos fatos. O elenco, muito bem escalado, reúne intérpretes com carreira consolidada no cinema, como Selton Mello, e na TV, como Carolina Dieckmann. Por sinal, é o reencontro deste casal que tanto sucesso fez na novela de Walther Negrão, “Tropicaliente” (1994), como Vitor e Açucena, respectivamente. Selton construiu o engenheiro Saulo com certa frieza e distanciamento. O engenheiro, mesmo ciente de seus atos errados e condenáveis, imbui-se de uma força interna que o faz seguir em frente na prática de seus intentos criminosos. Nota-se, de modo quase imperceptível, um sentimento de culpa em sua consciência (com a exceção da cena inicial). Carolina Dieckmann, como Marion, transmitiu-nos toda a sensação de incredulidade que perpassa os seus sentimentos. Existe em sua relação com o engenheiro vestígios de ressentimento e mágoa. A atriz soube traduzir com distinta eficiência estas impressões de sua identidade. Paulo Vilhena encarna com notável pujança o arrogante herdeiro da Baretti Construtora. Paulo coloriu o jovem ambicioso e corrupto com tintas de cinismo e empáfia, transitando para outra esfera de reações emotivas quando o seu plano de enriquecimento ilícito começa a ruir. Debora Bloch abrilhantou o episódio ao criar uma mulher rude, insensível, gananciosa, que se vale de seu alto cargo para se locupletar. Gilda não se deixa atemorizar ao lançar mão de expedientes reprováveis com o propósito de burlar a lei. A atriz garantiu excelentes cenas à minissérie. Fabrício Boliveira defendeu com grande dignidade o personagem Marco Antônio, Capitão do Corpo de Bombeiros. Seu olhar fixo é sofrido por guardar na memória um fato na profissão que o traumatizou. Todavia, seu entusiasmo em salvar vidas no local do desmoronamento empolga e comove. Por sinal, a cena em que dá ordens aos demais bombeiros, contrariando os procedimentos de praxe, merece menção. Lima Duarte, como Dr. Rupp, dispensa comentários, pois sua simples aparição engrandece e enobrece qualquer produção teledramatúrgica. Luciano Chirolli, importante ator de teatro, valorizou sobremaneira o megaconstrutor Krieg, oferecendo-nos a real dimensão de sua condição como empresário avesso à ética, em conluio promíscuo com o poder político. Camila Márdila, intérprete brasiliense que se destacou no filme “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, personificou com sensibilidade a filha grávida rejeitada pelo pai. Maria Manoella, como Ilana, a ex-mulher de Saulo, expressou tanto o desespero com a possível morte do engenheiro, quanto a decepção ao saber da presença de Marion na obra, o que lhe causou evidente ciúme. Os demais atores do elenco se sobressaíram, como Dani Nefussi (atriz que se notabilizou no longa de Anna Muylaert “Mãe Só Há Uma”), Antonio Fábio, Arilson Lopes (Bené), Démick Lopes, Rômulo Braga e Glauber Amaral. A direção de fotografia de Ralph Strelow e Rodrigo Monte se mostra coerente com a temática, apostando nas tonalidades acinzentadas, frias, cruas. O cinza da obra, dos concretos, do dia chuvoso, além da impessoalidade das salas da grande construtora. A inteligente e difícil montagem coube à dupla Marcio Hashimoto e Lucas Gonzaga. Na instigante abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguelê e Renan de Moraes temos a ótima canção de PJ Harvey, “When Under Ether”, na versão de Beto Villares e Érico Theobaldo. Nela, a câmera passeia por objetos e locações diferenciadas, com suave fusão de imagens. O universo familiar, com móbiles infantis, óculos e aliança se mistura ao local da tragédia, com seus elevadores, suas lâmpadas piscando, a água invadindo o piso, capacetes, crachás e armários de operários. “Treze Dias Longe do Sol”, uma coprodução da Rede Globo com a O2 Filmes, é uma minissérie que traz uma renovação na teledramaturgia brasileira em termos de linguagem, haja vista que não estamos habituados, como dito, a este gênero narrativo. Com cada episódio possuindo um título específico, não seremos poupados de elementos que naturalmente atraem a nossa atenção e interesse, como suspense, ação, intrigas, terror e até um pouco de romance. Veremos a que ponto chega o comportamento humano diante das situações mais adversas, em que a vida e a morte estão intimamente ligadas. Valerá a pena ficarmos os próximos nove episódios em frente à TV. Bem longe do Sol.