Arquivo de fevereiro, 2018

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Foto: TV Globo

Um dos capítulos mais marcantes de “O Outro Lado do Paraíso” 

As cenas de ontem à noite de “O Outro Lado do Paraíso”, novela das 21h da Rede Globo escrita por Walcyr Carrasco, que envolveram o julgamento do delegado Vinícius (Flávio Tolezani), acusado de ter molestado diversas vezes a sua enteada Laura (Bella Piero) quando esta tinha apenas oito anos de idade definitivamente abalaram os telespectadores brasileiros por seu alto grau de impacto, emoção, choque e verossimilhança. Há muito tempo não se via em nossa teledramaturgia uma sequência dramática desta magnitude nas dependências de um tribunal, com a participação de tantos personagens importantes para o desenvolvimento de sua história, com um texto de extrema relevância para a sociedade (o crime de pedofilia), dirigida de forma absolutamente irretocável e magistral por Mauro Mendonça Filho (diretor artístico) e André Felipe Binder (diretor geral). Não só a maneira corajosa e cautelosa com a qual o seu autor tratou o tema desde o início de sua trama contribuiu para o sucesso e o interesse por este núcleo específico, mas as atuações arrebatadoras, comoventes, coerentes e sensíveis de seus atores foram essenciais para o ápice de seu enredo no capítulo passado.

O caminho percorrido até o julgamento de Vinícius 

Fazendo parte do mirabolante plano de vingança de Clara (Bianca Bin), auxiliada pelos seus pretendentes Patrick (Thiago Fragoso) e Renato (Rafael Cardoso), o desmascaramento do delegado corrupto e cínico vivido por Flávio Tolezani, que já trabalhou com Walcyr Carrasco em “Verdades Secretas” e “Êta Mundo Bom!”, deu-se de modo paulatino, com vieses investigativos regados a doses fartas de suspense. A vítima dos abusos, a doce Laura (Bella Piero), sempre foi associada a uma jovem com comportamento estranho e antissocial. Sua relação com o padrasto era invariavelmente tensa, e sua mãe, a fútil e zelosa esposa Lorena (Sandra Corveloni), não lhe dava a atenção merecida. Laura não se relacionava com rapazes, até que conheceu o médico Rafael, interpretado por Igor Angelkorte. O carinho e as sinceras intenções demonstradas por ele logo conquistaram a arredia moça. À medida que o namoro assumido avançava, com a contrariedade patente de Vinícius e a anuência da mãe, as complicações de relacionamento do casal apareciam. Laura tinha evidentes dificuldades de ser tocada, acariciada. A afetuosidade lhe parecia algo repulsivo. E o sexo lhe soava agressivo e aterrorizante. Este comportamento pouco comum da filha de Lorena deixou seu namorado confuso e desorientado. Ao contar para o seu colega Renato o que estava se passando, Rafael acabou dando as ferramentas que faltavam para Clara iniciar a sua vingança contra o delegado. Com o casamento dos jovens, o problema de Laura se acentuou, e as desconfianças sobre o seu passado com o padrasto recrudesceram. Em sua lua de mel, um bicho de brinquedo em forma de tartaruga lhe foi clandestinamente entregue (na verdade, pelo delegado), causando-lhe um surto emocional. Com a ajuda da advogada Adriana (Julia Dalavia), que domina as técnicas de “coach”, na qual se inclui a hipnose, a namorada de Rafael faz uma regressão, e se lembra de todos os abusos sexuais sofridos em uma antiga casa onde moravam. Somente com a empregada Sebastiana (Ilva Niño) na residência, a pequena Laura brincava no quintal, próxima a um tanque de tartarugas. Aproveitando-se que sua mulher trabalhava fora, Vinícius molestava a indefesa menina repetidas vezes, deixando-a quase sempre machucada, com manchas aparentes pelo corpo. Clara, Patrick e Renato, com o auxílio do delegado Bruno (Caio Paduan), empenharam-se na busca de provas materiais e testemunhais que pudessem levar à condenação do suspeito. Alzira (Bela Carrijo), mãe de mais uma vítima, esta com doze anos, foi encontrada. O laptop do delegado foi apreendido, mas nada parecia suficiente para incriminá-lo (havia em seus arquivos uma galeria de fotos de moças, mas sem conotação sexual). O julgamento ocorreu em mais de uma sessão, o que rendeu a Patrick, assistente de acusação (o papel de promotor coube a Charles Fricks), a possibilidade de achar Sebastiana, muito doente, em um asilo. Os depoimentos a favor de Laura até então foram infrutíferos, combatidos com veemência pelo advogado de defesa personificado por Ernani Moraes. Durante todo o embate jurídico, sob os olhares atônitos da audiência, Vinícius se manteve impassível, certo de sua absolvição. Até que a empregada idosa depõe, causando espanto e assombro com suas revelações escabrosas sobre as violências sofridas pela menina. O seu silêncio, motivado por medo e necessidade de sobrevivência, fora perdoado pela vítima. Nesse tempo, as reações de Lorena provavam a sua impotência e desespero diante da verdade dos fatos que se desvelava. Arrolada como testemunha de defesa de seu marido, Lorena, em depoimento comovente, sofrido e tocante, assume que nunca enxergara o que realmente estava diante de seus olhos, afirmando que o inimigo pode estar bem ao seu lado (nesta hora, numa cena bastante indicativa, Clara olha de soslaio para Renato, que está ao seu lado). O jogo vira contra Vinícius. O delegado, acuado, não deixando o seu peculiar cinismo, confessa os seus abjetos crimes. Ridiculariza a sua esposa. Diz que se casou tão somente para ter próximo de si quem de fato desejava, a sua filha Laura, uma criança. Vinícius debocha das leis e da integridade humana, nesse caso, de uma menina. Com os assistentes aturdidos com os desdobramentos surpreendentes e chocantes do caso, o juiz Gustavo (Luis Melo) sentencia o réu à condenação. Vinícius caminha indiferente no tribunal com um sorriso de escárnio no rosto, ouvindo gritos de indignação dos presentes.

O texto afiado, a direção impecável e as atuações arrebatadoras 

Este foi, sem dúvida, um dos melhores capítulos de toda a novela de Walcyr Carrasco. Com boa orientação jurídica, Walcyr conduziu esta precípua passagem do folhetim com inegáveis propriedade e excelência. A direção sensível e inteligente de Mauro Mendonça Filho e equipe não deixou escapar uma reação sequer dos personagens. Cada olhar, cada gesto, cada movimentação em cena, cada fala mereceu o seu destaque. Os atores foram brilhantes em suas atuações, com suas emoções e sensibilidades à flor da pele. Se para nós telespectadores assistir ao desfecho desta história foi difícil e penoso, o mesmo deve ter ocorrido com o elenco. Flávio Tolezani impressionou com sua postura fria e gélida. Seu olhar parado, fixo, insensível, típico dos criminosos, chocou . O seu descarado cinismo perante os seus pares nos provocou incômodo. Flávio Tolezani é um excelente ator, e esta foi uma das melhores, senão a melhor, interpretação de toda a sua bem-sucedida carreira. Sandra Corveloni, também ótima atriz, passou-nos com pungência a grandeza da dor da traição e da humilhação sofridas. Seu pranto, seus olhos perdidos, e sua fraqueza como mulher e como pessoa diante do peso da verdade cruel nos comoveram profundamente. Bella Piero, tão jovem, teve que enfrentar em seus primeiros anos de profissão um desafio assustador, e se revelou uma intérprete com enorme maturidade, defendendo com dignidade, verdade e emoção, do começo ao fim, o percurso doloroso de Laura, sem perder a ternura que a caracteriza. Igor Angelkorte, um artista possuidor de trabalhos elogiados no teatro, e que vem construindo uma bela carreira na televisão, provou-nos a sua enorme capacidade emotiva e sua fonte legítima de sensibilidade ao dar vida ao médico que acompanha o sofrimento de sua namorada desde o início, não a abandonando em nenhum momento. Igor sai fortalecido profissionamente desta novela. Thiago Fragoso dominou completamente o seu personagem Patrick, ostentando toda a firmeza, segurança, determinação e empenho que se espera de um habilidoso advogado. Thiago Fragoso defendeu com altivez e brio o seu assistente de acusação. Luis Melo, um intérprete com inúmeras e incontestes qualidades, impôs-se como o austero juiz Gustavo. Luis se vale de olhares discretos e eloquentes para nos dizer o que pretende. Somente atores de sua relevância e talento o conseguem. Ernani Moraes, com sua destreza interpretativa, criou um advogado de defesa perspicaz, agressivo e manipulador. E, por último, a presença de uma notável atriz, Ilva Niño, querida e talentosíssima, que já nos sensibilizou em novelas como “Água Viva” e nos divertiu em “Roque Santeiro”. Que escalação perfeita trazer de volta à tela esta artista que merece toda a nossa reverência. Sua atuação como Sebastiana foi contundente e inesquecível.

A mensagem do autor, e a lição que fica 

Enfim, um capítulo que vai ficar em nossas memórias, em todos os sentidos. Nunca se falou tão abertamente e com enorme mérito sobre pedofilia na ficção, em pleno horário nobre, e na TV aberta. Walcyr Carrasco e toda a sua equipe de colaboradores, diretores e elenco merecem os nossos parabéns. Um passo importante contra este crime foi dado. Usou-se um meio de comunicação poderoso como a televisão como forma de esclarecimento, informação e denúncia. Um relevante serviço social. A pedofilia não vai acabar, mas haverá muito mais pessoas conscientes, prontas e dispostas a denunciá-la. Em 20 de fevereiro de 2018 vimos em “O Outro Lado do Paraíso” a confirmação do trecho da música de abertura da novela “Boomerang Blues”, de Renato Russo: “Tudo o que você faz Um dia volta pra você E se você fizer o mal Com o mal mais tarde você vai ter de viver…”. Alguns ainda saberão disso. Na novela… e na vida.