Arquivo de maio, 2018

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Foto: Matheus José Maria

A ousadia de Maitê Proença e Amir Haddad em montarem um texto do século XV, e a tradução impecável de José Francisco Botelho indicada ao Prêmio Jabuti

O teatro é um espaço artístico democraticamente aberto para a concretização de muitas possibilidades. Possibilidades que transcendem até mesmo o conceito universal compreendido como prática teatral. Imaginemos um texto literário publicado por um inglês, Geoffrey Chaucer, na segunda metade do século XV (1475), no final da Idade Média, dividido em contos, os “Contos da Cantuária”, sendo que, em um deles, “A Mulher de Bath”, a personagem principal, Alice, é uma mulher à frente de seu tempo, libertária, viúva em cinco casamentos, à procura de um sexto marido, defensora de suas escolhas numa relação matrimonial, incluindo-se a satisfação plena e absoluta de sua sexualidade, enfrentando, por intermédio de suas inteligentes artimanhas, os mandos e desmandos de seus cônjuges, três deles poderosos e endinheirados, quando sequer se poderia aventar o surgimento de movimentos propriamente feministas, que só viriam a tomar forma no distante século XX. Este mesmo texto com vieses progressistas serviu de base à época para a sedimentação, solidificação e consolidação da literatura inglesa como a conhecemos, seja na língua do país de origem, na poesia, na ficção e na oratória. Até William Shakespeare se valeu desses escritos como referência para a criação de suas clássicas peças. A atriz e escritora Maitê Proença se interessou por um dos contos de Chaucer (justamente “A Mulher de Bath”), tornando-se a idealizadora deste aparentemente difícil projeto, e convidou para dirigi-la nos palcos ninguém menos do que um de nossos mais respeitados e eminentes diretores brasileiros, Amir Haddad, fundador do célebre grupo Tá na Rua. O primeiro passo seria o de se fazer uma tradução que aproximasse o legado do escritor e filósofo inglês o máximo possível de uma experiência teatral convincente e aprazível, com uma linguagem que conquistasse as plateias, sem ferir o cerne da literatura de seu autor. A José Francisco Botelho coube a desafiadora missão de traduzir a obra de Chaucer. Não se pode ignorar o fato de que os seus contos foram imaginados no período medieval, com modos de tratamento diferenciados e vocabulário rebuscado. José Francisco, indicado ao Prêmio Jabuti por este trabalho, transpôs com avolumada destreza e habilidade os originais para uma linha de comunicação cênica que pudesse ser absorvida com facilidade pelo público. Sua grande sacada foi a de ter se inspirado, para tal feito, no rico cancioneiro popular nacional, na saborosa musicalidade dos repentes nordestinos, na tradição da trova gaúcha, e na poesia oral do interior do país. Sua tradução dimensiona a leveza e o humor de maneira que assumam lugar de destaque na peça. Não se pode considerar a literatura de Geoffrey Chaucer como um produto dramatúrgico com todos os elementos que o caracterizam. Mas em sua essência percebemos uma legítima teatralidade, o que justifica a sua transposição para o campo cênico. O próprio Amir Haddad diz: “O apelo teatral de sua narrativa é evidente e poderoso e serve muito bem a ideia de um teatro que se quer mais, o teatro para saber o que é isso, o teatro”. Maitê, mais uma vez movida pela sua paixão em encenar um dos “Contos da Cantuária”, traz para si a tarefa hercúlea de adaptar a tradução de José Francisco para a ribalta. Seu empenho, sua devoção e sua alegria ao realizar este sonho profissional são visíveis não só em sua cuidadosa adaptação, mas em sua total entrega à personificação da mulher que intitula o espetáculo. Segue o que disse a atriz: “Nunca estive tão segura da qualidade do que ofereço ao público. Em conteúdo e diversão.”

Alice, a “Mulher de Bath”, impressiona pelas suas ideias progressistas em plena Idade Média

A história se passa em 1380 durante uma peregrinação rumo ao túmulo de São Thomas Becket, na região da Cantuária (Canterbury), e dentre os peregrinos se encontra Alice. Há entre eles uma competição de contos, que deverão abordar diversos tempos e lugares. O vencedor, ou seja, o melhor narrador, teria direito a uma noite de excessos na mais famosa taverna do local. Alice passa a narrar então as suas aventuras e desventuras por que passou durante os seus cinco casamentos, tendo saído viúva de todos eles, como fora dito antes. Trata-se de uma mulher com um discurso fervoroso, acalorado, sem pudor, no qual desvela corajosamente seus sentimentos, desejos, emoções e escolhas. Uma retórica forte em defesa de sua condição feminina. A mulher de Bath (uma cidade da Inglaterra) discorre sobre fatos íntimos com espantosa naturalidade. Muitas questões são levantadas por Alice, levando-se em conta seus cinco matrimônios. O amor, a paixão, o sentido de pecado, a liberdade sexual feminina, a religiosidade, o poder e a hierarquia no casamento, e o dinheiro como mola de interesse da relação são objetos de reflexão deste indivíduo com ideias inacreditavelmente avançadas para o seu tempo. Toda a sua eloquente fala vem acompanhada por um autêntico humor. Entretanto, a despeito de se notar em suas palavras uma conotação pró-feminismo, constatamos que esta mesma mulher não se furta de nos confidenciar seus erros, defeitos, e ardis de que se valeu para enganar os seus maridos, principalmente os mais velhos e abonados. Alice não é contra os homens, muito pelo contrário. Julga importante sua união com eles por meio da instituição do casamento. A prova desta posição se evidencia pelas suas vontades de se casar novamente (esta circunstância a conduz aos vários matizes de suas reflexões e observações). Em determinado momento da montagem, a intérprete pede permissão aos espectadores para encenar um outro conto (cuja inserção foi aprovada pelo seu diretor), fabular, ambientado no reino fantasioso e lendário do Rei Arthur. A lição deste conto, que envolve um rapaz acusado de estupro e sua busca infatigável pela descoberta dos mistérios que encobrem o real desejo das mulheres, a mando da Rainha, a fim de que a sua punição não lhe seja imputada – a pena de morte, interliga-se com os conceitos e preconceitos associados à beleza, à velhice e ao amor incondicional.

Amir Haddad impõe ao espetáculo a liberdade artística que o consagrou

A direção de Amir Haddad confere ao espetáculo uma saudável liberdade artística. Esta liberdade é perceptível em bastantes situações e opções cênicas, como por exemplo as oportunidades concedidas à atriz em se conectar francamente com o seu público, como se estivesse em meio a um diálogo ou conversação. Logo no início da peça, Maitê, num tom coloquial, deixa-nos informados sobre do que se trata a história que irá nos contar, fazendo uma comparação entre aquele tempo em que se saía das trevas para se encontrar a luz e os atuais. O resultado é uma intimidade conquistada genuinamente com os espectadores graças ao seu grande poder de sedução artística. Amir optou pelo espaço cênico amplamente aberto, imiscuindo elementos cenográficos e coxias. As marcações definidas, variadas, foram pensadas de modo a ocupar a maior extensão possível do perímetro do teatro. O encenador também procurou dinamizar o desenvolvimento narrativo com estratégicas entradas e saídas de cena da protagonista. Houve de sua parte uma atenção especial em desenhar toda a montagem com as intervenções e pontuações musicais de Alessandro Persan (também assistente de direção), presente durante todo o espetáculo, fazendo as vezes, quando necessário, de intérprete.

Maitê Proença, uma intérprete cada vez mais luminosa 

Maitê Proença, uma de nossas maiores estrelas da TV e do cinema, surgida no início da década de 80, com relevante trajetória no teatro também, possui, não há como negar, aquilo que os americanos costumam atribuir às suas atrizes com imensurável potencial de construir uma carreira de sucesso, somando a um só tempo beleza, talento e carisma, o “star quality”. Sua entrada discreta no palco, sem que a peça tivesse sequer começado, com as luzes do teatro ainda acesas e a plateia se acomodando, apenas com uma música sendo tocada por Alessandro Persan, posicionado no fundo esquerdo do palco, já causa um certo frisson nos espectadores. Ao introduzir sua conversa com o público, imediatamente nos damos conta de sua elevada capacidade de encantamento, uma avassaladora simpatia que se alia a uma irresistível naturalidade ao falar. Ou seja, Maitê consegue em poucos instantes o que já é um enorme ganho para a intérprete, dominar os que foram lhe assistir. No melhor dos sentidos. A artista pôde, com esta montagem, realizar um valioso exercício de atuação, pois muitos são os momentos em que tem que manifestar, de diferentes formas, as nuances de emoções de sua personagem, além dos que estão presentes na fábula, como a Rainha, o jovem e a idosa. Maitê, com uma postura empertigada e elegante invejável, movimenta-se com altivez por toda a ribalta, gesticula com graça, faz mesuras, deita-se, sempre com desenvoltura. Uma prova de sua elogiável expressividade corporal. Uma das características mais marcantes da performance de Maitê é a sua equilibrada frequência de humor. Sua comicidade é fina, concisa, no ponto certo. Nada do que diz nos soa ofensivo, independente do significado das palavras. Completando 40 anos de carreira, Maitê Proença não só continua belíssima, como o seu talento está cada vez mais lapidado.

Cenário baseado em símbolos da época, figurinos vivos e exuberantes, adereços delicados, iluminação objetiva, sem firulas estéticas, preparação corporal elogiável e trilha sonora coerente e fiel ao período

O cenário de Luiz Henrique Sá exerce a função de, com poucos, mais expressivos elementos, reportar-nos ao universo medieval em que decorrem os episódios do conto. Sua economicidade traduz uma escolha convicta por representar o período através de símbolos. Seus móveis de madeira possuem desenhos recortados (cadeiras, mesa com pés vazados, banqueta, uma espécie de confessionário com seu respectivo genuflexório com detalhes em azul-marinho – que terá outra missão, e um cortinado cor de areia ao fundo). O músico e ator Alessandro Persan conduz a sua trilha sonora tendo o seu instrumento de trabalho em cima de um suporte de madeira, em consonância com o que foi descrito. Há ainda como significativos complementos cálices e jarra prateados e livros com brochura antiga. Os figurinos são de Angèle Fróes, que se destacam pela vivacidade e exuberância de suas cores, e pelo respeito aos cortes usados neste tempo histórico. Maitê, na maior parte da obra, veste um bonito vestido em camadas com vermelhos distintos, no qual se veem bordados e transparências, calçando com harmonia sapatos de mesma tonalidade (assemelha-se a um escarpim), além de um cinto verde com um camafeu. A intérprete lança mão de um mantô bordeaux por vezes. Em outra ocasião, traja mais um vestido, seguindo a mesma linha de bordados e transparências, com texturas verde-água. E como arremate, numa cena imponente, apresenta-se com uma bela capa vermelha com capuz, realçada pela beleza da atriz. Alessandro Persan usa peças, camisa, calça e sapatos, pretas. Os delicados adereços são criação de Marcilio Barroco. A artista tem os seus cabelos presos por uma rede branca transparente ornada por pedras em formato de pérolas, assim como ostenta um marcante crucifixo sobre o colo do peito. Como a Rainha exibe a sua coroa cheia de brilhos ofuscantes. A iluminação de Vilmar Olos privilegia o plano aberto, com pequenas oscilações de intensidade, sempre se harmonizando com o andamento do entrecho cênico. Vilmar disponibiliza quatro refletores na reta do chão, numa geometria praticamente quadrangular, com seus feixes direcionados para a atriz no centro do tablado. Lança mão até mesmo da iluminação completa da plateia. Seu trabalho busca e consegue uma objetividade e precisão visuais, sem truques ou firulas estéticas, ofertando ao espetáculo e às suas variações narrativas o mais coerente e indispensável resultado. Marina Salomon ficou responsável pela preparação corporal da atriz. Marina realizou um ótimo trabalho, extremamente bem compreendido por Maitê. Como já mencionado anteriormente, a intérprete chama a atenção pela sua postura ereta, elegante, altiva, típica de uma fidalga. Em nenhum episódio, a artista se desgarra de sua consciência corporal. E são muitas as variantes de movimentações que lhe são exigidas. Como se trata de um solo artístico, a despeito das entradas necessárias de Alessandro Persan, este quesito é demasiado importante, pois todos os olhos estão voltados para a sua performance. A trilha sonora pertence a Alessandro Persan. O músico executa com impecável eficiência a sua incumbência de atribuir à encenação a ambiência identificável do período medieval por intermédio das melodias. Sejam elas incidentais/instrumentais, utilizando-se de instrumentos musicais da época, como a harpa, sejam com suportes vocais, como cantos gregorianos, o fato é que a sua música é praticamente um personagem do espetáculo, considerando-se a sua relevância no desenho do quadro narrativo.

Uma peça cujo tema reverbera nos tempos atuais

“A Mulher de Bath”, de Geoffrey Chaucer, possui inegáveis méritos. Trata-se de um retrato com registros históricos que carrega em si elementos conectivos com a realidade contemporânea. As ideias progressistas/feministas, avant-garde, sem ranços chauvinistas, de Alice reverberam na atualidade com os movimentos pós-feministas que grassam no final da segunda década dos anos 2000. “A Mulher de Bath” não é um espetáculo que se propõe a pôr em questão, de forma adversa, o papel do homem na sociedade. Nem desconsidera o estado de ser masculino. Longe disso. A peça tão somente abre um espaço, usando um termo presente, ao poder de fala da mulher. Não vamos cair no fácil clichê de que se trata de uma obra que faz apologia ao empoderamento feminino. Esta expressão criada recentemente serve sim ao poder da mulher. Ao poder da mulher que exige respeito e igualdade. “A Mulher de Bath” é uma peça sobre mulher, com a voz de uma mulher, dirigida por um homem, mas, prova de sua inquestionável significância, voltada para todos. Homens, mulheres… e mulheres de Bath.

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Foto: Juliana Hilal

A montagem de um texto necessário e extremamente atual 

Há cinquenta anos, no dia 4 de abril de 1968, um dos maiores e mais importantes líderes do movimento em defesa dos direitos civis dos negros, o americano nascido em Atlanta Martin Luther King Jr., era assassinado na sacada do hotel Lorraine, em Memphis, estado do Tennessee. Em 9 de outubro de 2015, um dos casais de artistas mais populares do país, admirados não só pelo seu inquestionável talento, mas pelas ideias que preconizam, seus posicionamentos sociais e artísticos, seu engajamento em causas coletivas, sua representatividade nas Artes e na sociedade como um todo, Lázaro Ramos e Taís Araújo, estreavam em São Paulo o espetáculo “O Topo da Montanha”, da jovem dramaturga Katori Hall, também americana. A encenação que se passa no quarto do hotel citado na noite anterior à morte criminosa do líder ganhador do Nobel da Paz (1964) carrega em si mesma uma fonte inesgotável de símbolos e significados que a fazem ser associada a um ato público cênico da mais alta relevância. Sua montagem se revela como uma pujante resposta aos tempos de intolerância generalizada em que vivemos, potencializados pela globalização virtual, em que vozes de ódio contra as diferenças, muitas vezes acobertadas pelo anonimato covarde, ocupam seus lugares. Essas vozes são ouvidas e replicadas, transformando-se em uma devastadora onda falso moralista, discriminatória e intransigente, com consequências preocupantes. Cabe a nós, sociedade cônscia da preservação do direito inalienável de igualdade entre os homens, resistir, sem violência, através da união pelo poder da palavra, do diálogo, da representação política isenta e justa, e das manifestações culturais e artísticas legitimadas, a esses ataques que passam ao largo da razão.

Um encontro ficcional que mudou o líder pacifista Martin Luther King Jr.

A trama se desenrola, como dito, em um quarto de hotel numa noite chuvosa de Memphis, em que se vê um Martin Luther King (Lázaro Ramos) solitário, sedento por tragadas de cigarro, fazendo rápidas anotações em um pequeno bloco, transmitindo-nos um pouco de angústia e ansiedade, a todo o momento se perguntando onde estaria o seu amigo Ralph, após o seu derradeiro discurso (“I’ve Been to the Mountaintop – “O Topo da Montanha”) na Igreja de Mason, na mesma cidade. Todo o desenho da situação começa a mudar a partir da entrada em cena da camareira do hotel, Camae, uma jovem espontânea, simples e contestadora, em seu primeiro dia de trabalho, interpretada por Taís Araújo. A construção da relação do Reverendo protestante Martin e da camareira Macae se dá de forma paulatina, em meio a conversas corriqueiras e fugazes, provocações e questionamentos de ambas as partes até se chegar a um intenso embate ideológico que leva o líder religioso a um processo profundo de revisão de seus métodos de propagação de ideias junto às massas oprimidas de sua nação. Casado, com filhos, carinhoso com sua família, o homem que pregava o amor (jamais a violência, adotada por outro grande líder defensor dos direitos dos negros, Malcom X), como forma eficaz de debelar as desigualdades e injustiças de seu povo, utilizando-se do mecanismo das marchas, como a célebre “Marcha sobre Washington”, de 1963, (onde proferiu o antológico discurso “I Have a Dream”), é confrontado sistematicamente pela bela Camae, que além de o seduzir, lembra-lhe de que os dois, a despeito de pertencerem à mesma raça, e de lutarem pelos mesmos direitos, representam classes sociais diferentes, sendo ele, em suas palavras, um “negro burguês”. Essas contendas entre o casal no espaço exíguo do hotel, entre idas e vindas de um discreto banheiro (há um certo ar claustrofóbico no quarto 306 do hotel Lorraine, como se ambos fossem obrigados a ficar ali, proibidos de sair, devido às fortes chuvas, e por conseguinte forçados a se defrontar), interrompidas pelas tosses recorrentes de Martin causadas pelo fumo, não são exclusivas no encontro da dupla, havendo manifestações de afetuosidade e companheirismo, pois afinal, efetivamente, são vítimas do mesmo regime segregacionista dos Estados Unidos que começou a se avolumar na década de 50. Com o passar das horas, Camae, com sua habilidade retórica, consegue, aos poucos, fazer com que Luther King inicie uma autoavaliação pessoal, possibilitando-lhe enxergar que, por trás do homem firme e incisivo na oratória e no enfrentamento corajoso das mazelas sociais, existe um ser humano comum, frágil, sensível, com dúvidas referentes a Deus e à sua própria fé. Um homem com medo da morte. Um homem que teme o seu fim sem dar continuidade à sua luta. Esta jornada de Macae em busca do autoconhecimento do reverendo e de sua humanização é sem dúvida uma das propostas da peça. À certa altura do espetáculo, ocorre uma reviravolta de identidades que irá modificar amiúde os contexto e sentido da narrativa, com o uso criterioso e convincente de licenças poéticas. A obra caminha para o seu final com passagens inflamadas e emocionantes, fazendo jus à trajetória marcante e indispensável do líder pacifista que mudou a História dos Estados Unidos da América e sua relação com os seus filhos negros.

Dramaturgia fluente, instigante, poética e divertida

Quando a dramaturgia de Katori Hall foi levada aos palcos ingleses em 2009, os espectadores e a crítica londrinos logo foram conquistados, resultando no Prêmio Lawrence Olivier de Melhor Peça Estreante. O sucesso atravessou o Atlântico quando, em 2011, foi a vez da Broadway apresentar a sua versão, com Samuel L. Jackson e Angela Bassett. Aqui no Brasil a tradução ficou a cargo de Silvio Albuquerque (com consultoria dramatúrgica de Angelo Flávio), que realizou um primoroso trabalho, mantendo toda a atmosfera envolvente, intimista e poética, leve e dramática (o humor sempre presente no espetáculo é um elemento que oferece à encenação uma ponte de comunicação indiscutivelmente bem-sucedida com a plateia, graças ao carisma de seus protagonistas, favorecendo o nascimento de uma empatia salutar com os personagens), com uma dinâmica crescente e progressiva imprescindível para que acompanhemos com evolutivo interesse o desenvolvimento narrativo. O texto não faz um retrato biográfico estrito do reverendo considerado por muitos um mártir. Fatos históricos e passagens da sua vida são citados, mas inseridos na contextualização dramatúrgica adotada. A concepção de se colocar uma personagem externa (Camae) com o intuito de se fazer um contraponto com Martin, a fim de que as ideias e pensamentos dos dois lados fossem colocados frente a frente impulsiona a peça, conferindo-lhe notável fluidez e agilidade cênica.

Uma direção focada na legitimidade da interpretação dos atores

A direção ficou sob o encargo do próprio Lázaro Ramos, que teve como codiretor Fernando Philbert. Conciliar direção e atuação é uma tarefa arriscada e audaciosa, no entanto o diretor, que já conduziu montagens elogiadas como “Namíbia, Não!”, sai-se brilhantemente bem nesta função. Lázaro e Fernando miraram o seu olhar com generosidade para o campo interpretativo. Apostando na força emotiva dos atores protagonistas, atingir-se-ia com mais facilidade a verdade genuína dos personagens, absolutamente necessária para o sucesso da peça. O empenho da direção foi alcançado ao se perceber um elevado grau de credibilidade na performance do elenco. O foco centrado no permanente jogo cênico travado entre Luther King e Macae demandou da dupla de diretores uma imensurável capacidade de armar movimentações cênicas, assim como as pausas e os silêncios, aproveitando da melhor maneira o espaço do palco, garantindo à obra um espectro completo e eminentemente convincente. Sob o ponto de vista estético, há uma exuberante profusão de imagens projetadas no fundo da ribalta (de arquivo, exibindo fatos simbólicos da luta dos negros pelos seus direitos civis, e de insignes personalidades negras). Este recurso quando bem utilizado (como ocorre na peça) serve como instrumento infalível de embelezamento da produção assim como meio de informação complementar do texto (preciosa, com valoroso trabalho de pesquisa, colaboração de Rico Vilarouca e Renato Vilarouca).

Um grande encontro entre Lázaro Ramos e Taís Araújo

Lázaro Ramos, como o Reverendo Martin Luther King Jr., um ator com um carisma indescritível, constrói este emblemático personagem percorrendo uma série de caminhos de interpretação que se ramificam em diversas camadas emocionais, sendo todas elas correspondidas com garbo pelo talentoso artista. Lázaro desfila com desenvoltura por variados aspectos do perfil de seu complexo papel. Primeiramente, ostenta um Martin naturalista e sóbrio, em seus pioneiros colóquios com Macae. O tom irônico, objetivo e rápido de suas reações às investidas inquisidoras da camareira define um outro segmento de sua atuação. Na TV e no cinema, o público se acostumou, ao assistir a alguns de seus populares tipos, em testemunhar um intérprete com nítido pendor para a comédia. Em alguns instantes da peça, presenciamos este resvalo humorístico de Lázaro, para o delírio do público. Em determinadas ocasiões, podemos conferir a canalização de suas emoções para um nível de potência elevado. Lázaro Ramos, pode-se afirmar com toda a certeza, personificou este mito histórico com distintas galhardia, elegância, inteligência e dignidade. Taís Araújo (indicada ao Prêmio Shell), reconhecidamente uma de nossas estrelas da televisão, possuidora de um “star quality” inquestionável (com vasta experiência nos outros dois setores, as Artes Cênicas e o cinema), resolveu mergulhar fundo na alma misteriosa de sua personagem Macae. Macae surge de repente na história, manipulando com destreza os desdobramentos dos episódios daquela noite, envolvendo Martin numa rede de revelações próprias que o faz ser levado ao seu autoconhecimento. Esta difícil missão exige de Taís um notável “tour de force” interpretativo, no qual ela mesma se impõe o desafio de manter a ambiguidade da origem de sua personagem. A atriz, do mesmo modo que Lázaro, foi conduzida por uma linha de interpretação que lhe exigiu a apresentação de diferenciadas manifestações comportamentais, em consonância com as emoções esperadas. A artista compõe com admirável compreensão de seu papel uma Macae simplória, popular, espontânea, natural e divertida. Mas Macae a obriga a expressar ainda mais a sua habilidade como intérprete, ao fazer com que identifiquemos na camareira do hotel uma mulher persuasiva, dotada de impressionante personalidade, com a capacidade de, apoiada na sua inteligência ideológica, induzir o seu companheiro de quarto, o líder Martin, a rever toda a sua vida e posição política. Enfim, Lázaro Ramos e Taís Araújo, juntos em cena, comprovam-nos o potente entrosamento artístico que existe entre eles, como se cada um conhecesse do outro as suas diversas e intrínsecas intenções no palco, correspondendo, a partir dessas impressões intuitivas, com a excelência das suas reações.

Cenografia, projeções visuais, iluminação, figurinos e trilha sonora prestam reverência à época histórica

A cenografia de André Cortez, baseada nos tons crus e neutros, como o cinza e o branco, sobressai-se pela sua notória funcionalidade somada à fidelização ao universo de um quarto simples de hotel americano do final da década de 60. André se vale de todos os elementos caracterizadores da ambiência do aposento, utilizando-se de duas camas de solteiro, com diminutas mesas de cabeceira (uma delas ao pé da cama) com seus respectivos abajures, uma mesa circular com duas cadeiras, uma espécie de pufe, e um cabideiro. O cenógrafo teve a feliz e criativa ideia de montar uma armação vazada, com possibilidades de ser deslocada, que delimita as dimensões do quarto. Em seu fundo, existe uma porta que leva ao banheiro, sempre à vista (como arremate, algo que se assemelha a um papel de parede figurativo típico desses cômodos). André Cortez possui dois grandes aliados, Rico e Renato Vilarouca (como supracitado, as instigantes projeções se conectam eficazmente com o cenário, com deslumbrantes efeitos). Foi deixado um estreito espaço à frente da armação como representação da sacada do hotel, não poucas vezes frequentada pelos atores. A bonita iluminação de Walmyr Ferreira optou por matizes distintos, mantendo-se coerente ao investir em um tom suave, sóbrio e natural na maioria das cenas cotidianas. Dependendo da intensidade do trecho da narrativa, Walmyr elevava o grau de luminosidade. Em momentos mais reflexivos, adotou um forte foco lateral, provocando belos efeitos de luz e sombras. Possivelmente numa alusão ao assassinato de Luther King, faltando pouco tempo para o fato, iluminou a área do tablado de vermelho. Na parede do banheiro, nota-se uma branda iluminação esverdeada. Blecautes e espocar de luzes, como referência aos relâmpagos, surpreende-nos. Tereza Nabuco teve a incumbência de escolher os figurinos do espetáculo. E o fez com notada competência, novamente, como o resto da equipe, respeitando os registros históricos e factuais da montagem. Lázaro trajou um conjunto preto de terno, gravata, calça e sapatos sociais, em contraste com uma camisa branca, complementado por um chapéu de época de feltro marrom (o personagem possui uma pequena mala ou bolsa escura). E Taís vestiu um uniforme de camareira amarelo mostarda com avental, mangas e golas brancas, além de calçar sapatos também de cor preta, e usar um casaco bordeaux. A trilha sonora e o desenho de som couberam, respectivamente, a Wladimir Pinheiro e Laércio Salles. A dupla teve a sensibilidade exigível para pontuar com precisão as passagens que solicitavam uma intervenção musical. Logo no início da obra, ouvimos uma melodia com acordes que nos reportam ao jazz, e em outras ocasiões há inserções de canções que nos lembram hinos religiosos de igreja, além do incremento de uma trilha incidental insinuante.

O legado de Martin Luther King Jr., e a contribuição de “O Topo da Montanha”

“O Topo da Montanha” é, antes de tudo, um manifesto pelo qual se prega o respeito pela igualdade de direitos dos homens, tendo como arma a mais implacável de todas aquelas que estão ao nosso alcance: o amor. Trata-se de um espetáculo cênico que serve como ferramenta de humanização de um líder que, independente de suas ideias e convicções ideológicas, era antes de qualquer coisa um cidadão como os demais, com suas fraquezas, medos, incertezas e vulnerabilidades, temente à morte, mas que, mesmo resistindo, deixou um bastão para ser passado adiante para os que ficaram, ou seja, que seus ideais de lutas pelos direitos civis dos negros permanecessem, jamais fossem negligenciados ou esquecidos. Após 50 anos, este bastão empunhado com tanta nobreza, perseverança e bravura por Martin Luther King Jr. continua a passar de mão em mão, pois a intolerância, o racismo, a discriminação e a segregação racial estão aí, cada vez mais presentes. Não é fácil atingirmos, todos nós, negros e brancos, a “Terra Prometida” onde se encontram a paz e a igualdade humanas defendidas por Martin. Não é fácil subir até “O Topo da Montanha”. Acalma-nos saber que por ora o bastão esteve nas mãos de dois artistas respeitáveis, corajosos e lutadores. Lázaro Ramos e Taís Araújo chegaram ao “O Topo da Montanha” com este espetáculo.