Arquivo de junho, 2018

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Foto: Daniel Chiacos/Divulgação

A conexão da diretora Carolina Jabor com uma realidade atual e preocupante

Não poucas vezes ocorre de uma obra ser lançada, seja ela literária, televisiva, e neste caso, especificamente, cinematográfica, tendo sido idealizada e desenvolvida muito antes, e o seu conteúdo principal coincidir, se este é o verbo adequado, com acontecimentos correlatos atuais e factuais que atingem em cheio os cidadãos da sociedade, tornando esta mesma obra tão ou mais atraente e apropriada do que por sua própria natureza já poderia ser. É o que acontece com uma das cineastas que mais tem se destacado nos últimos anos, representante de uma novíssima geração, Carolina Jabor (“Boa Sorte”, 2014), ao mostrar ao grande público o seu mais recente longa-metragem, intitulado com bastante coerência, “Aos Teus Olhos”, seguindo a sua linha de abordagem de temas polêmicos, como a alta capacidade destrutiva inerente às comunicações instantâneas virtuais em desmoronar a imagem pública de alguém, baseada tão somente em circunstâncias, situações, ilações e episódios que potencialmente poderiam justificar o “linchamento moral” (expressão usada pela diretora) de que sofre a pessoa alvo dos ataques. Em abril de 2018, mais de duas semanas após o seu lançamento, notícias sobre supostos casos de pedofilia grassaram nas mídias nacionais (hoje sob investigação), e as perigosas “fake news” estão cada vez mais em pauta devido à sua gravidade e rapidez de disseminação nos meios das redes sociais, na tentativa de agregar o maior número possível de usuários junto a uma causa ou ideia.

Carolina Jabor e os roteiristas Lucas Paraizo e George Moura, supervisor, deixam com o público o poder de decidir acerca da culpabilidade ou não do personagem principal 

Carolina Jabor, com extrema responsabilidade e cuidado, lança mão de um suposto caso de pedofilia praticado por um professor de natação de um clube de classe média, Rubens, interpretado por Daniel de Oliveira, junto a um de seus alunos, Alex (Luiz Felipe Mello), um menino de oito anos. Na verdade, o suposto ato pedófilo é apenas um instrumento eficaz que serve brilhantemente à proposta de Carolina, que contou com os excelentes roteiristas Lucas Paraizo e George Moura (supervisor) para fazer uma forte e pungente denúncia contra este nocivo e acessível poder que está bem ao alcance das pessoas comuns, que se sentem no direito, sem estarem alicerçadas em provas materiais legitimamente configuradas e legais, por meio da troca de mensagens privadas e públicas, de colocar em “julgamento” alguém que consideram “inadequado” ao convívio social. Escorada pelos excelentes diálogos de Lucas e George, Carolina cria uma história dramática, envolvente, que vai ganhando, com o desenrolar de seu entrecho, um suspense irresistível. Tendo como inspiração a peça do catalão Josep Maria Miró, “O Princípio de Arquimedes” (“El Principi d’Arquimedes”, 2012), e o longa-metragem espanhol “El Virus de La Por” (2015), de Ventura Pons, os roteiristas estruturaram a narrativa de modo que os espectadores se confundam no que concerne à realidade dos fatos, usando a ambiguidade da personalidade de Rubens, e as possíveis variações de impressões e interpretações de acontecimentos naturais a uma criança de 8 anos. Essas dubiedades pessoais são uma pujante arma usada por Carolina para se manter distanciada do espinhoso assunto, deixando a cargo das plateias tomar a sua própria decisão quanto à culpabilidade ou não do acusado.

Uma envolvente e perturbadora história que se vale de um suposto caso de pedofilia para denunciar o perigo do julgamento precipitado dos indivíduos nos meios virtuais  

Rubens é um rapaz bonito, carismático, atlético e popular, professor adorado pelos seus alunos, e admirado por sua competência pela diretora do clube Ana (Malu Galli). Alex, filho de pais separados que vivem às turras, Davi (Marco Ricca) e Marisa (Stella Rabello), também apresenta um comportamento que suscita questionamentos, ao se revelar amedrontado um dia antes de uma competição esportiva, o que leva o seu professor a levá-lo em separado ao vestiário, longe das câmeras, a fim de acalmá-lo. No filme, uma habilidade do roteiro, em instante algum ouvimos a versão da criança, que acaba ficando, para a sua frustração, em segundo lugar no certame. A partir daí, passa a não querer mais frequentar as aulas de natação. Segundo sua mãe, uma mulher nervosa e solitária, o menino lhe disse que o seu professor lhe deu um beijo na boca. Marisa conta ao seu ex-marido o episódio, deixando-o, assim como nós, desorientados. Há outra grande sacada em “Aos Teus Olhos”, que é a de exibir Rubens como sendo um jovem adulto realmente capaz de aliciar crianças, facilitado pelo seu constante contato com elas. Em conversas no vestiário com o seu colega, o professor Heitor (Gustavo Falcão), Rubens, de modo fanfarrão, bem diferente da forma como se comporta para os demais, revela-se desrespeitoso ao se referir às desenvolvidas formas físicas e às atitudes de algumas alunas adolescentes, pronuncia termos chulos, comenta sobre uma de suas mães de maneira desairosa, sendo repreendido pelo amigo, além de armazenar nos arquivos do seu celular fotos dessas alunas, e adicioná-las na rede social mesmo sendo menores de idade. Um fato pontual nos chama a atenção. Um menino homossexual lhe agradece os conselhos que lhe foram dados na conquista de outro garoto. Enfim, são evidências que, queiramos ou não, colocam-nos em dúvida, sempre propositadamente pelo roteiro. Outra questão demasiado relevante levantada pela diretora é a suposta homossexualidade do professor, que, por sinal, possui uma namorada, Sofia (Luisa Arraes). As perguntas, dentre tantas, que nos são feitas são as seguintes: “Se Rubens fosse comprovadamente heterossexual, haveria tanta celeuma e ódio por parte dos pais dos alunos? E se ele fosse ríspido e grosseiro com os seus filhos, ao invés de ser carinhoso, haveria tamanho levante dos pais?” O que não se pode em nenhum momento é associar naturalmente homossexualismo com pedofilia, como, devido à ignorância e ao preconceito, muitas pessoas o fazem.

Carolina Jabor se revela uma diretora com grande domínio sobre as imagens

A direção de Carolina Jabor comprova a sua imensurável destreza em conduzir uma câmera (impossível não dizer que pode se tratar de algo atávico, haja vista, como sabem, que é filha de Arnaldo Jabor, um de nossos melhores cineastas). Carolina se empenha com enorme êxito em desfilar os perfis psicológicos dos principais personagens do filme, condição impreterível para que nós mesmos, como já fora dito, desenhemos as nossas conclusões de suas ações e posicionamentos. A diretora extrai de seu formidável elenco atuações intensas, ricas, incomodamente poderosas. Ela abusa com impressionante segurança dos movimentos de câmera que acompanham os seus atores, principalmente por trás, cenas no interior dos carros, closes nos dispositivos eletrônicos (destaque para as cenas em que Marisa escreve pela primeira vez em um grupo de mensagens privadas a denúncia ao professor, apagando e corrigindo as palavras ansiosamente, e depois, em outro grupo maior, curtindo o que está em consonância com suas acusações, num processo assustador de aniquilamento da imagem de um homem; e a em que Rubens apaga as fotos de seus arquivos, além daquela em que a forte luz do seu celular reflete em seu rosto apavorado e atônito, ao ler a notícia negativa o envolvendo). Possivelmente as cenas feitas com maior maestria e simbologia foram aquelas executadas dentro da piscina, de todos os ângulos viáveis, com efeitos visualmente belos e perturbadores. Os olhares dos intérpretes nos dizem muito de suas intenções e reações.

Daniel de Oliveira, Marco Ricca, Malu Galli e Stella Rabello ostentam com excelência seu potencial interpretativo diante das complexidades psicológicas e comportamentais envolvendo os seus personagens 

Daniel de Oliveira foi uma escolha acertadíssima. Com experiência respeitável no cinema, o ator conhece com perfeição a linguagem deste veículo. Encaixando-se com exatidão no “physique du rôle” do personagem, Daniel, sem dúvida, um de nossos atores jovens com trajetória mais sólida e consistente, construiu o seu complexo personagem com uma dedicação apurada e inteligente, atendo-se a detalhes gestuais e de postura, e emissão vocal que nos fazem ter dúvidas acerca da orientação sexual de Rubens. Um trabalho que lhe exigiu sutileza e observação. Ele é ao mesmo tempo viril e delicado, forte e frágil, sedutor e repulsivo (quando ostenta o seu outro lado). Daniel de Oliveira faz um percurso difícil de seu papel, que vai da euforia como educador de crianças em um clube até o total e absoluto desalento e abandono face ao desmoronamento de sua imagem e vida. Um notável momento na carreira do ator. Marco Ricca, como sempre excelente em todos os papéis que defende, mais uma vez não nos desaponta. Marco absorve as oscilações de humor, as dúvidas e hesitações de Davi com soberba compreensão das situações vividas pelo seu personagem. Mantendo uma postura severa, impassível, mesmo extremamente abalado com o fato, Marco Ricca, convicto e resoluto, não desvia de sua admirável rota de interpretação um minuto sequer, atingindo com grandeza seus objetivos. Podemos dizer que uma de suas melhores cenas é aquela em que defronte ao delegado (Rodrigo de Jesus) toma conhecimento de que o seu filho poderá passar por um exame de corpo de delito. Malu Galli, atriz de imenso potencial dramático, ganhou para si a responsabilidade de emprestar à diretora do clube uma inicial imparcialidade e sobriedade que aos poucos vai se transmutando face à modificação dos eventos. Esta sequência de acontecimentos exige da atriz elogiável exercício de controle de suas emoções, pois está no centro da crise deflagrada. Stella Rabello realiza um honroso trabalho de composição de personagem. Cabe-lhe fornecer a Marisa uma gama de sentimentos de graus variáveis, que permeiam a emoção desvairada, a intensidade comportamental, a sede irrefreável pela sua “justiça”, e sua cegueira temerária, em nome da proteção de seu filho, que a faz se precipitar de maneira insana, tornando-se a maior representante desta espiral de irracionalidade de linchamento moral do professor. Luisa Arraes, Gustavo Falcão, Luiz Felipe Mello, Rodrigo de Jesus e Clarissa Pinheiro (a garota de programa na delegacia) se saem muito bem em seus papéis.

Direção de fotografia em consonância com a realidade, montagem calculada com precisão e trilha sonora atordoante 

O filme, que foi laureado no Festival do Rio 2017 (Melhor Ator – Daniel de Oliveira, Melhor Ator Coadjuvante – Marco Ricca, Melhor Roteiro e Melhor Filme do Júri Popular), no Prêmio Petrobras de Cinema (Melhor Ficção Mostra SP 2017), no Mix Brasil (Melhor Direção), e no Festival de Havana (Prêmio Signis 2017), teve como diretor de fotografia Azul Serra (Azul apostou em tons neutros, naturais, quase esmaecidos, que se aproximassem ao máximo da realidade), como montador Sergio Mekler (há um sequenciamento, com cortes precisos, em que se busca uma crescente atmosfera de tensão e suspense) e como titulares da trilha sonora o mesmo Sergio e Thiago Nassif (a trilha é atordoante, acompanhando com fidelidade as perturbações psicológicas dos personagens).

“Aos Teus Olhos” faz uma denúncia urgente e indispensável sobre a “Corte Sumária” em que se transformou a internet, por meio de suas comunicações virtuais instantâneas

“Aos Teus Olhos” é uma obra necessária, indispensável e obrigatória, que cumpre um papel denunciatório urgente das mazelas virtuais, que se alastram dia após dia com maior realce. Mazelas essas, reafirmo, com potencial destrutivo da imagem individual sem precedentes e irreversível. Pode-se considerar hoje a internet como uma “Corte Sumária”, por seu viés julgador e poderoso, sem a preocupação de se ter provas materiais, baseada apenas nas vontades de uma pessoa que acredita numa verdade que pode ser somente a sua, com consequências devastadoras para quem for a sua vítima. Com a internet, abriram-se, perigosamente, novos conceitos de verdade, apoiados em suas rápidas ferramentas com comunicação de largo alcance. Carolina Jabor abriu ainda mais os nossos olhos. “Aos Teus Olhos” é um filme para ser curtido, favoritado e compartilhado. Sem julgamentos precipitados. Que fique bem claro.

Fernando
Foto: Divulgação do filme

A importância do documentário no Brasil, o empenho dos diretores e roteiristas Igor Angelkorte, Paula Vilela e Julia Ariani em levar “Fernando” às telas, sua passagem por festivais e os prêmios ganhos  

Fazer cinema no Brasil sempre foi difícil. A despeito dessa contingência adversa, produtores, diretores e atores nunca se deram por vencidos, e a indústria audiovisual, mesmo que interrompida por períodos pontuais, ressurge com a força que lhe é peculiar. A “Retomada”, ocorrida na metade da década de 90 com “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, de Carla Camuratti, não me deixa mentir. Aventurar-se na realização de um gênero como o documentário é uma missão ainda mais inglória. A ficção, por carregar em si mesma um apelo natural de entretenimento, associado em não raros casos ao viés comercial, não se depara com obstáculos visíveis que possam atrapalhar o seu encontro com o público. O documentário, por sua natureza autoral, possuidor de um nicho de espectadores específicos, enfrenta reveses próprios que devem ser enfrentados com destemor pelos profissionais apreciadores deste valoroso tipo de filme. O Brasil, em sua rica filmografia, com todos os seus movimentos estéticos, invariavelmente ocupou um lugar de destaque no segmento dos documentários, sendo este representado por nomes como Silvio Tendler, Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Cada vez mais, estão sendo produzidos em nosso país filmes desta vertente com abordagens diversificadas e relevantes. Muitos documentaristas enveredaram pelos caminhos políticos, como Silvio Tendler (“Os Anos Jk” – Uma Trajetória Política” e “Jango”; atualmente está em cartaz com “Dedo na Ferida”), outros, como Eduardo Coutinho, optaram por temas religiosos (“Santo Forte”) e sociais e comportamentais (“Edifício Master”), e há aqueles como João Moreira Salles, que se debruçaram em obras bastante pessoais (“Santiago” e “Nelson Freire”). Igor Angelkorte, ator, dramaturgo e diretor teatral (Igor havia dirigido uma websérie, “Ferrugem”), Paula Vilela, atriz, produtora e idealizadora, e Julia Ariani não se intimidaram em colocar em prática uma ideia potencialmente não comercial, íntima e pessoal para os três, mas que tivesse elementos suficientes para surpreender e comover as plateias de cinema, não somente as que estimam o gênero documentário. Esta mesma ideia consistia no registro filmográfico do dia a dia de uma pessoa que lhes é demasiado cara e fundamental em suas carreiras, o ator e professor de teatro Fernando Bohrer. Igor, Paula e Julia transpuseram outra barreira ao levar adiante este projeto que durou mais de um ano para ficar pronto. Dirigir e roteirizar em conjunto. A afinidade e sintonia de pensamentos e o mesmo olhar cinematográfico deste brilhante trio resultaram em um documentário com inquestionável qualidade, “Fernando”, lançado em junho de 2017. O filme foi exibido no Festival de Málaga (Cine en Español Sessão Oficial Documentários 2018), na 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes (Seleção Oficial Mostra Olhos Livres 2018), e no Olhar de Cinema Curitiba Int’l Film Festival (Prêmio do Público 2017 e Menção Honrosa Prêmio Olhares Brasil 2017).

Fotografia crua e naturalista, direção de arte e figurinos fiéis à realidade e montagem fluida

A ótima fotografia naturalista, real, crua, quase sem filtros, ficou sob o encargo de Pedro Faerstein. No entanto, este naturalismo por vezes é coerentemente quebrado por sombras e semi-luzes. Pedro soube aproveitar com precisão as possibilidades de luz proporcionadas pelos vários ambientes em que se passa a ação, inclusive as externas. A direção de arte e os figurinos de Liza Machado trouxeram a verdade cotidiana da vida de Fernando para bem próximo de nós. A montagem de Igor Angelkorte, Julia Ariani, Marina Figueiredo e Paula Vilela respeitou o tempo narrativo da obra sem grandes rupturas, ofertando-nos agradáveis linearidade e fluidez, não permitindo que perdêssemos uma única vez o interesse pela história. O elenco tem a participação de Rubens Barbot, Carolina Virgüez, o pianista Jacob Herzog, Igor Angelkorte, Chandelly Braz, Paula Vilela, Arnaldo Marques, Claudia Mele, Damiana Guimarães e Ligia Veiga.

O humanismo de “Fernando”, e por que se deve conhecer a vida do ator e professor de teatro Fernando Bohrer

“Fernando” é uma obra poética, pungente, bela e comovente, que faz um retrato sensível de um homem cuja vida é voltada para a arte da interpretação e a de ensinar, misturando com delicadeza ficção e realidade. O filme se distancia magistralmente dos documentários convencionais, nos quais se vê a conjunção de depoimentos e imagens de arquivo, conduzindo-nos com extrema habilidade e emoção, através de suas cenas inspiradas, com locações na cidade de Niterói, onde o friburguense Fernando mora, e no Rio de Janeiro, inclusive a Casa das Artes de Laranjeiras, instituição da qual é professor. Pode-se dizer que “Fernando” é um filme para se contemplar. Com influências da cinematografia francesa, com seus takes pausados, diálogos entremeados por longos silêncios, transformação do cotidiano em algo visualmente rico e significativo, esta obra fílmica possui, dentre os seus inúmeros méritos, o de ter, como seu personagem central, um indivíduo apaixonado, intenso, generoso, humano, bravo e encantadoramente sedutor. Acompanhamos a sua rotina como se fôssemos seus amigos ou seus alunos. Aprendemos com as suas aulas de teatro, solidarizamo-nos com ele em suas idas à médica (Carolina Virgüez, firme e convincente), sofremos com ele, torcemos, ficamos com os olhos marejados, sentimos arrepios emocionados. Sua relação com seu companheiro (Rubens Barbot, excelente) é arrebatadora, tocante, com uma cumplicidade sem igual. Um papo trivial entre eles na hora de preparar uma refeição, ou no momento de dormir, ganha uma dimensão humanizada. “Fernando” é em sua natureza um filme humanista. Humanista e otimista. Certas doses de melancolia presentes em sua narrativa não destituem o seu nato otimismo. Há em suas linhas e entrelinhas sinal de esperança. Com este documentário, passamos a acreditar um pouco mais no homem, e em suas qualidades e virtudes. Vimos o homem pianista, o professor que nos ensina a respirar, e a nos conscientizar com os nossos corpos no processo de construção do personagem. Testemunhamos o artista simples que almoça na praça, e faz anotações na intimidade. Deparamo-nos com a sua humildade ao receber orientações do diretor Igor Angelkorte quando encenou a peça “Elefante”. Embarcamos na sua profusão de criatividade ao explicar à representante de uma editora como gostaria que o seu livro fosse escrito. O homem que se reúne com os amigos, que não acredita na política, e sim, na vida. Nossos corações se apertam ao olharmos a sua prosaica volta para a casa, solitário, numa rua de Niterói, parando em uma banca de frutas, escolhendo bananas e uvas. Simples, mas forte em sua mensagem. O filme desmistifica o ofício de ator quando o associam ao glamour, à fama, ao prestígio, ao dinheiro e ao poder. Sua vida não tem glamour, pois é real. Fernando não sai em capa de revista. Nem está nas redes sociais. Sua vida não é acompanhada por milhões de seguidores. Isso não o faz menos artista. Fernando é um artista imenso. Fernando é uma aula de ser humano. Igor Angelkorte, Paula Vilela e Julia Ariani perceberam isso. E souberam com grande maestria dividir Fernando conosco. Todos, atores e não atores, devem obrigatoriamente assistir a esse documentário. Ao final da sessão, prestaremos mais atenção nos detalhes do cotidiano. Não reclamaremos de sua monotonia e repetição. Basta que nos lembremos da riqueza “simplória” da rotina de Fernando. Tive o privilégio de conhecer e conversar com este homem por duas vezes. Tive o privilégio de vê-lo em cena. Senti vontade de voltar no tempo, e ser um de seus alunos. Pude lhe dar um forte abraço. Todos deveriam lhe dar um forte abraço. Conhecer Fernando deveria ser uma regra.