Arquivo de agosto, 2018

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O cantor, apresentador e repórter João Gordo na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, em sua temporada Verão 2016.
João, que nasceu em São Paulo, tornou-se conhecido em todo o país como vocalista da banda de punk Ratos de Porão, na qual entrou em 1983 (seu primeiro show foi na PUC paulista; o grupo Ratos de Porão é uma referência neste gênero musical, sendo prestigiado internacionalmente).
Em 1996, inicia uma longeva carreira de apresentador na MTV Brasil, tendo comandado um sem número de programas: “MTV No Ar” (somente como repórter), “Suor MTV”, “Garganta e Torcicolo”, “Gordo Pop Show”, “Gordo On Ice”, “Gordo a Go-Go” (durou cinco anos), “Piores Clipes do Mundo”, “Gordo à Bolonhesa”, “Gordo Freak Show”, “Gordo Visita” (esteve nesta produção por três anos), “Gordo Viaja”, “Caveirão do Gordo” e “Fundão MTV”.
No ano de 2008, torna-se um dos jurados do programa do SBT “Astros”, uma atração inspirada no antigo “Show de Calouros”, da mesma emissora.
Já em 2009, retorna ao canal onde começou, sendo convocado para a apresentação de dois programas: “Gordo Chic Show” e “Gordoshop”.
Entre 2010 e 2012, foi repórter do extinto programa apresentado por Marcos Mion, “Legendários”, exibido na RecordTV.
Na mesma RecordTV, exerce novamente a função de jurado, desta vez no “talent show” “Ídolos Kids”.
Seu último programa como apresentador, “Eletrogordo”, foi ao ar há dois anos no Canal Brasil.
Nos cinemas, dublou as vozes dos personagens Buzz no filme “Deu Zebra” (“Racing Stripes”, no original), de Frederik du Chau, e Fletch, do longa britânico “Matadores de Vampiras Lésbicas” (“Lesbian Vampire Killers”, no original), de Phil Claydon.
João Gordo segue com a sua carreira musical com a banda Ratos de Porão.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

 

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Foto: Elvis Moreira

A ousadia por trás do sonho realizado dos produtores e diretores artísticos Klebber Toledo e Rick Garcia

Se há uma palavra que possa traduzir a realização da superprodução musical “Isaura Garcia, O Musical”, a mais justa e adequada é ousadia. Uma ousadia evidente tanto por parte de seu idealizador, Rick Garcia (neto da artista homenageada), quanto de seu coprodutor e codiretor artístico Klebber Toledo (junto com Rick). Em 2009, Klebber e Rick participaram de outro importante projeto teatral sobre a trajetória de uma das mais importantes cantoras brasileiras, estrela da Era do Rádio, a paulistana do Brás Isaura Garcia, apelidada, devido ao seu jeito genuinamente autêntico e único, de a “Personalíssima”. Nesta encenação, chamada “Isaurinha – Samba, Jazz & Bossa Nova”, havia os mesmos profissionais de renome que hoje estão na montagem atual, como Rosamaria Murtinho e Sylvio Lemgruber, responsável à época pelas direção e coreografia (a atriz Flavia Magnani também atuou na primeira versão, defendendo Amélia Garcia, a mãe da intérprete, revivendo-a agora). Se naquele momento já se via uma produção relevante, que mesclava teatro, dança, show e cinema (com 16 artistas, entre atores e bailarinos), o que se testemunha por ora, com o mesmo texto de Júlio Fischer, com a direção cênica da experiente Jacqueline Laurence, é um espetáculo de grandes dimensões e qualidades, que fazem jus à representatividade artística de Isaurinha Garcia. Imagina-se que este deva ter sido um sonho antigo de Rick, Klebber e Márcia Martins, que exerce a mesma função de diretora de produção. Com “Isaura Garcia, O Musical”, pode-se dizer que a máxima “O Brasil não tem memória” não se aplica às montagens brasileiras musicais, que, não é de agora, têm se dedicado a homenagear insignes nomes do cancioneiro popular de nosso país. De “Estrela Dalva”, com Marília Pêra (há 31 anos), a “Elza” (sobre Elza Soares), “Dona Ivone Lara – O Musical” e “Lady Crooner” (a respeito de Ângela Maria) no presente, contradiz-se cenicamente esta assertiva (decerto que há uma lacuna, por parte de vários setores, na lembrança de outros nomes que deixaram seu legado nas Artes).

O texto de Júlio Fischer, dividido em três tempos cronológicos, prima pela fidelização aos fatos da vida da cantora 

O espetáculo escrito por Júlio Fischer se estruturou em uma narrativa apropriadamente dividida em três planos cronológicos, que marcam a juventude, a maturidade e seus derradeiros anos de vida, intercalados por belos números musicais (em algumas ocasiões, de forma demasiado interessante, esses planos imiscuem-se). Pretendeu-se com bastante eficácia desenhar o arco existencial da cantora sem se prender obrigatoriamente à ordem natural do tempo, tanto é que a cena de abertura nos revela a intérprete em seu esplendor (Kiara Sasso), seguida, logo depois, pela passagem em que Isaura (Rosamaria Murtinho), já idosa e insegura, dentro do camarim de uma boate, resiste a se apresentar, temendo uma performance aquém dos seus anos de glória. Por sinal, um dos inegáveis méritos da montagem é a sua isenção quanto à história deste símbolo da música nacional, não se furtando a desnudar seu comportamento por vezes intempestivo e impróprio para os costumes da sociedade conservadora vigente. Sua figura é retratada com fidelidade, sem concessões ou condescendências, mostrando seu linguajar não convencional, seu incontido desejo pelos homens, suas fraquezas sentimentais, e até mesmo sua dificuldade em se expressar corretamente em seu idioma. Não se escondeu que a grande estrela não sabia ler as partituras de suas emblemáticas músicas, tampouco seu alcoolismo e os abusos físicos que sofria de um de seus maridos. Essas características realçam o compromisso de seu dramaturgo em nos exibir nos palcos a Isaurinha Garcia como a conheceram, e não em um tom absolutamente laudatório.

O retrato de uma juventude difícil, relacionamentos afetivos tempestuosos, sucesso avassalador, sem que se perca a graça e o humor da peça 

A plateia acompanha a jovem sendo oprimida pelo seu pai Manoel Garcia (Renan Duran), que não aceitava a sua decisão de seguir a carreira artística (sua implicância preconceituosa, inclusive, referia-se aos sambas que entoava). A moça amparada por sua mãe Amélia (Flavia Magnani) temia os socos brutos do pai em sua boca que a impediam de cantar. Sempre acompanhada de sua fiel amiga Cecília (Anna Paula Borges), com seu modo espevitado, frequentava os programas de calouros. Sua voz potente, com carregado sotaque paulistano, impressionava a todos por onde quer que passasse. Sua voz particular também é aproveitada nos reclames comerciais das rádios, até conhecer Teófilo (Leonardo Brício), o diretor de criação de uma delas. Seus gênios opostos, personalidades conflitantes, mentiras e cobranças levaram ao fim do relacionamento (nunca houve um casamento oficial). A peça nos leva junto com Isaurinha pelas suas andanças pelas rádios e audições públicas (dentre elas, com o famoso cantor Vassourinha, personificado por Samuel Melo), até o momento de suas ascensão e estrelato. No auge da fama, numa viagem a Recife, ainda envolvida com Teófilo, encanta-se pelo charme de um pianista iniciante, Walter Wanderley  (Iano Salomão). Vivida nesta fase por Soraya Ravenle, a cantora sofre as experiências pessoais e profissionais mais penosas de sua vida. Walter, um dos pioneiros da Bossa Nova, questionava a maneira com que Isaura cantava, com seus “vibratos operísticos”. A paixão movida a agressões, ofensas e separações levou ao término definitivo do romance que deixou feridas abertas em ambos. A despeito de sua jornada glamourosa pontuada por dores e sofrimentos, Júlio Fischer aposta com constância no leve humor, na graça despretensiosa (este elemento do musical se deve em muito à personalidade de Isaura). O autor, com imensa habilidade, consegue, ao fim, formatar um espetáculo vibrante, alegre e emocionante, sendo as interpretações e números musicais, sejam eles exuberantes ou mais intimistas, indiscutíveis colaboradores para o efeito catártico do espetáculo.

A direção cênica de Jacqueline Laurence confere beleza e momentos únicos ao espetáculo

A direção cênica sempre inteligente de uma profissional como Jacqueline Laurence, como é de se esperar, soma diversos predicados à encenação teatral. Reverente ao escopo do texto de Júlio, a diretora, com maestria e percepção, distribuiu, entre o conjunto narrativo, os quadros cotidianos, que englobam acontecimentos do dia a dia, e da carreira da cantora, com as devidas interlocuções dos personagens. A inserção estratégica dos instantes musicais, que agregam ou não coreografias de bailarinos, imprimem à montagem um andamento lógico e atraente para o público. Jacqueline extraiu de seu numeroso elenco e ensemble atuações que se aproximassem verdadeiramente do período reproduzido, seja na postura formal e exagerada dos apresentadores dos programas de calouros e de rádio, na euforia azafamada dos fãs, na teatralização das mensagens dos cronistas, e claro, no modo como fez com que suas atrizes protagonistas, responsáveis pela incorporação de Isaura, comovessem o público com toda a carga de emoção, nivelada ao máximo, ao interpretarem as canções que tanto causaram a alegria dos ouvintes. Seu admirável olhar para a construção da obra lhe permitiu criar momentos de retumbante beleza, como ocorre quando Soraya Ravenle interpreta a sua primeira canção, vista por nós sob um deslumbrante e longo vestido, sobre um tablado escondido que a faz ficar suspensa, como se estivesse fantasiosamente levitando. E com a mágica, tocante e inesquecível passagem em que Rosamaria Murtinho se senta, bem próxima dos espectadores, na pequena escada que leva ao palco, e canta com sublimidade, coberta por pétalas de rosas jogadas.

Um elenco que mostra imenso prazer em estar em cena, e contar a história de Isaura Garcia

A direção artística de Klebber Toledo e Rick Garcia corrobora a competência e dedicação extremada desses dois homens de teatro, empreendedores, destemidos, audazes, sensíveis e parceiros no objetivo de enriquecer não só os nossos palcos, mas a nossa música, ao nos trazer de volta a nossa Isaura Garcia. O elenco liderado por Rosamaria Murtinho, Soraya Ravenle e Kiara Sasso se afina brilhantemente com a montagem musical. Rosamaria, uma de nossas maiores atrizes do teatro e da TV, representando Isaura no ocaso de suas vida e carreira, impressiona a todos não só pelo seu pujante vigor e presença cênica, mas pela intensidade emocional emprestada à personagem. Sua Isaura, em fase, condói-nos dizer, “esquecida”, dilacera os corações mais frágeis. Sua lucidez ao olhar para o passado é um rescaldo da mulher magnífica que sempre foi. Arrebata-nos outrossim a limpidez intocada da voz da  intérprete, garantindo à plateia, nos instantes em que canta, minutos do mais absoluto enlevo. Soraya Ravenle, cantora e atriz das mais respeitadas, requisitadíssima no mercado dos musicais, com sua triunfante primeira aparição em cena já no meio da peça, causa-nos assombro pelo seu total e irrestrito domínio da técnica vocal. Aliando com sabedoria humor e drama, Soraya arremata com brilho e garbo a personalidade complexa da estrela em pauta. Como Isaura, corresponde com felicidade ampla ao comportamento forte e impulsivo da cantora numa etapa realçada pela fama e pelas decepções amorosas. Kiara Sasso, outra excelsa atriz de musicais, colecionadora de um sem número de participações em superproduções do gênero, inclusive adaptações de sucessos da Broadway, encanta irremediavelmente o público de “Isaura Garcia, O Musical”. Além de sua voz estudada, lapidada, com irretocáveis afinação e extensão, sua composição para a jovem Isaurinha, impetuosa, divertida, determinada, é cheia de graça e doçura, mas que traz em si, ao mesmo tempo, uma força intrínseca irrefreável que salta aos olhos mais atentos, uma das peculiaridades marcantes da cantora. Enfim, três grandes estrelas dando vida a outra grande estrela. Todo o elenco está em consonância com o espírito proposto pela dramaturgia de Júlio. Há um prazer visível no conjunto de intérpretes (incluindo o corpo de bailarinos) em estar ali contribuindo com a sua parte ao contar a história de Isaurinha. Leonardo Brício, como Teófilo, passeia com desenvoltura pelas fases de seu papel, ostensivas de seu indomável ciúme de sua companheira, e de sua resignação pela postura omissiva adotada na relação. Iano Salomão, ao encarnar Walter Wanderley, imprime a rudeza e severidade do pianista, não se eximindo em nos transmitir o seu afeto um tanto torto ofertado à cantora (seu sotaque bem construído, em nenhum instante, escapa-lhe). Anna Paula Borges, como Cecília, reflete a fidelidade inabalável da amiga confidente da “Personalíssima”. Samuel Melo esbanja a alegria contagiante do cantor Vassourinha ao acompanhar a estrela em suas apresentações. Flavia Magnani reveste com segurança e sensibilidade a zelosa mãe Amélia Garcia. E Renan Duran, ao representar seu pai, Manuel Garcia, compõe com clareza o homem conservador, agressivo e preconceituoso, que tanto sofrimento causou à filha. Os demais atores cumprem com galhardia às funções que lhe são designadas, merecendo os nossos elogios: Lázaro Menezes (Reinaldo), Alessandro Faleiro (Otávio Gabus Mendes, Gustavo Diretor RCA e Roberto Amaral), Bibi Cavalcante (Emilinha Borba, Repórter e Cronista), Flávio Rocha (Blota Jr., Cícero Nunes e Apresentador), Juliana Rockstroh (Elza Laranjeira, Jornalista e Vizinha), Paulo Giardini (Sampaio, Aldo Cabral e Antônio Maria), Pedro Barroso (Messias Evangelino, Palhaço e Cauby Peixoto), Sidney Navarro (Jurandy e Fã) e Tay Ravelli (Dona Matilde, Neide Fraga e Cronista).

Figurinos encantadores, coreografias cativantes, iluminação valorosa, direção musical irretocável e cenário tecnológico contribuem para a excelência do musical  

Os figurinos de Fause Haten comprovam o sucesso deste profissional reconhecido no mundo da moda. Fause criou vestidos deslumbrantes, com muitos brilhos, para Isaura Garcia em suas apresentações em público (Rosamaria, Soraya e Kiara são brindadas com peças belíssimas). Da mesma forma, o figurinista/estilista se empenhou em reproduzir com bastante lealdade o vestuário que se usava no período. Os homens com seus ternos sóbrios, e as mulheres com seus vestidos com saias rodadas. O resultado de sua rica pesquisa colabora não só para o embelezamento da montagem, mas para sua credibilidade histórica. As coreografias de Sylvio Lemgruber correspondem com inteligência às cadências das músicas entoadas na encenação. Todos os ritmos musicais (sambas, canções românticas etc) exibidos são saborosamente traduzidos pelos bailarinos e atores com passos precisos e coerentes, num panorama visual bonito, aprazível e alegre de se ver (há de se notar que Sylvio, em algumas coreografias, utilizou-se dos movimentos do balé clássico). A preparação vocal interpretativa, a cargo de Rose Gonçalves, revelou-se eminentemente eficaz, em especial nos acentos/sotaques paulistanos e nordestino, imprescindíveis para a legítima identificação das figuras da narrativa. Mario Junior se responsabilizou pela fulgurante iluminação da obra cênica. Planos abertos que mostrassem a plenitude dos ambientes, fossem caseiros ou dos programas de rádio e de calouros foram utilizados. E focos que nos envolvessem com o intimismo das situações também foram sabiamente aproveitados. Uma luz em total sintonia com o espírito musical da peça. A direção e produção musical e a preparação vocal de Bibi Cavalcante, um dos pontos altos da encenação, indicaram-nos a sua absoluta capacidade em aproveitar ao máximo de seus atores/cantores a excelência de suas vozes, com os seus respectivos registros, assumindo o compromisso de obedecer com fidedignidade aos acordes melódicos característicos das canções de Isaura Garcia. Bibi exerceu o seu ofício com primor e apuro. Os arranjos originais são da própria Bibi, Marcos Romera, Leandro Nonato, Paulo Malheiros e Tércio Guimarães. O espetáculo possui uma impecável orquestra ao vivo de 18 músicos regida pela maestrina e pianista Claudia Elizeu (também assistente de direção musical). A cenografia do espetáculo contou com a contribuição ímpar, com resultados, além de eficientes, funcionais e bonitos, de projeções em 3D no fundo do palco simulando com todos os seus aparatos os universos onde se passam os episódios da trajetória da cantora. A empresa responsável pelos belos efeitos foi a Illusion Studio, formada por Claudio Inácio, Nicolas Moreira e Jefferson Raposo. A assessoria de cenografia ficou sob o encargo de Gláucia Berbari.

Uma homenagem justa a uma cantora à frente de seu tempo

“Isaura Garcia, O Musical” presta um relevante serviço às Artes por resgatar a história de uma cantora singular, com voz diferenciada, uma transgressora para os padrões de sua época. Uma mulher que sofreu, mas que soube brilhar em meio à dor. A autora de sucessos como “Sorriso de Paulinho”, “Aperto de Mão”, “De Conversa Em Conversa” e “Mensagem” não passou em vão por esta vida. Deixou a sua marca, o seu legado, a sua personalidade forte. Por este, e tantos outros motivos, “Isaura Garcia, O Musical” é um espetáculo “Personalíssimo”.

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Foto: TV Globo

Mario Teixeira mistura com inventividade romance, História, fantasia, ficção científica e humor na nova novela das 19h

Depois das intrigas palacianas e dos romances medievais de “Deus Salve o Rei”, estreou na terça-feira passada a nova novela das 19h da Rede Globo, “O Tempo Não Para”, escrita por Mario Teixeira, com direção artística de Leonardo Nogueira. Protagonizada por um casal de atores muito talentosos da nova geração com forte apelo junto ao público juvenil, Nicolas Prattes (o intérprete se sobressaiu em “Rock Story”) e Juliana Paiva (seu trabalho anterior foi conferido em “A Força do Querer”), contando ainda em seu elenco com nomes consagrados como Edson Celulari, Christiane Torloni e Eva Wilma, a trama, que mistura com grande propriedade elementos de fantasia, ficção científica, História, humor e romance, agradou em cheio aos telespectadores desta faixa que prima por sinopses mais leves e divertidas. Mario Teixeira, responsável pelo texto de uma ótima telenovela exibida em 2016 no horário das 23h, “Liberdade, Liberdade”, é um autor que transita com inegável intimidade pelo universo dos fatos históricos (esta produção se passava no Brasil na época dos movimentos de independência, como a Inconfidência Mineira), inspirou-se em Julio Verne e no livro de H.G. Wells, “O Dorminhoco” (que se tornou um filme homônimo de Woody Allen) para alinhavar os elos centrais de sua narrativa.

Uma família escravocrata do século XIX, e seus agregados, após um naufrágio, fica congelada durante 132 anos, e desperta na moderna São Paulo em plenos 2018

A história se inicia em 1886, portanto dois anos antes da Abolição da Escravatura, na região paulista de Nossa Senhora da Freguesia do Ó. Com cenas em p&b (seguidas por uma virada estratégica para um colorido vivo), ostentando visível apuro visual, acompanhamos os costumes sociais e econômicos do século XIX, com seus enfatiotados senhores de engenho, como Dom Sabino (Edson Celulari), e seus escravos, como Menelau (David Junior). Dom Sabino, um empresário empreendedor nos negócios, mas conservador quanto às mudanças do regime escravocrata vigente no período, empenha-se nas preparações da festa de apresentação de sua linda filha Marocas (Juliana Paiva), uma moça com ideais abolicionistas, à sociedade. Numa sucessão de imprevistos que deram um tom de comicidade em seu primeiro capítulo (com um timing próprio de desenho animado em algumas passagens), envolvendo o sedutor e atrapalhado poeta Bento, Bruno Montaleone, a festa não só é cancelada, mas o casamento arranjado entre o rapaz e a filha de Dom Sabino. Tantos escândalos para a família fizeram com que o personagem de Edson, defensor da imagem ilibada de seu clã, e fiel seguidor da Coroa, providenciasse uma viagem conveniente em seu vapor Albatroz, rumo ao Reino Unido, onde possui um estaleiro, com todos os seus familiares (Dona Agustina, a sempre bem-vinda Rosi Campos; suas filhas Nico, Raphaela Alvitos, e Kiki, Natthalia Gonçalves, além, é claro, de Marocas, e de alguns agregados, como Miss Celine, Maria Eduarda de Carvalho, a preceptora das jovens, e o cãozinho Pirata). Uma tragédia que lembra o naufrágio do Titanic (com takes recheados de primorosos efeitos visuais bem próximos ao filme de mesmo nome de James Cameron), muda todo o curso do entrecho. Somos transportados para 2018, com direito a uma sequência de imagens que retratam fatos relevantes desses 132 anos, como a chegada do homem à Lua e a clonagem de uma ovelha, Dolly, com o desfile de figuras indispensáveis para a transformação do mundo, como Einstein, além de políticos e esportistas que entraram para a História, como Barack Obama, e Ayrton Senna, respectivamente. Na região do Guarujá, na mesma São Paulo, o empresário bem-sucedido Samuca, Nicolas Prattes, surfa, até encontrar, presa em um pedaço de gelo, a moçoila vinda do século retrasado. Logo após, operações envolvendo militares da Marinha (a Comandante Waleska, Carol Castro, e o médico Capitão de Fragata Mateus, Raphael Vianna), com o auxílio de helicópteros, e a cobertura da imprensa, são acionadas a fim de se descobrir a respeito do imenso bloco de gelo encontrado nas águas do Guarujá com mais de uma dezena de pessoas congeladas em seu interior (as imagens com as silhuetas dos corpos congelados impactaram). O congelamento de indivíduos permite ao teledramaturgo a abordagem do instigante tema da criogenia, que será veementemente defendida pela cientista Petra (Eva Wilma, em seu retorno aos folhetins, após “Verdades Secretas”), uma médica com ética duvidosa e interesses questionáveis que se defrontará com as ideias de Samuca. Por sinal, as cenas que mostram os sobreviventes em cápsulas criogênicas, iluminadas pela fotografia com filtros azulados, são impressionantes pela sua qualidade. Samuca, filho da elegante e zelosa Carmen (Christiane Torloni), namorada de um rapaz arrivista social, Lalá (Micael; o ator teve um elogioso momento com Nicolas Prattes, depois de confundi-lo com um garçom), passa a ajudar Maria Marcolina (Marocas) em seu restabelecimento, apaixonando-se aos poucos por ela (o casal de intérpretes esbanja carisma e incrível entrosamento, devendo receber acaloradas torcidas dos telespectadores), o que causa a fúria de sua soberba e ciumenta noiva Betina (Cleo). Um dos congelados, Dom Sabino Machado, desperta, e foge da clínica de Petra, perdendo-se no caos urbano da metrópole paulista (vale mencionar as engraçadíssimas cenas em que Dom Sabino se espanta, desorientado, com este “Novo Mundo” que lhe é apresentado; ajudado por Eliseu, o catador de lixo reciclável defendido por Milton Gonçalves, e Paulina, Carol Macedo, criada por ele, Sabino nos reserva outros momentos hilários ao se deparar com as novidades da casa onde é acolhido, principalmente as do banheiro). Mais personagens nos foram apresentados, como o casal de biólogos que vive de forma simples e natural na Ilha Vermelha, Marino, Marcos Pasquim, e Monalisa, Alexandra Richter. Solange Couto personifica a fogosa dona da pensão “Coronela”, mãe de Waleska. Luiz Fernando Guimarães, como o riquíssimo Amadeu Baroni, revelará no decorrer do enredo a sua vilania (o conhecido humor do artista está presente). Rui Ricardo Diaz é o criminoso Barão, filho de Eliseu. Felipe Simas encarna o bonachão e despreocupado Elmo, melhor amigo de Samuca, e namorado de Waleska. João Baldasserini, Emílio, e Regiane Alves, Mariacarla, formam uma dupla de advogados que não prima necessariamente pela correção. Kiko Mascarenhas encarna o dedicado procurador e contador de Dom Sabino, Teófilo. Lucy Ramos dá vida à firme advogada Vanda, e Wagner Santisteban representa o sensacionalista repórter Pedro Parede. Completaram o elenco nesta primeira semana Cris Vianna (Cairu), Maicon Rodrigues (Cecílio), Olívia Araújo (Cesária), Aline Dias (Damásia), Rafaela Mandelli (Ellen), Claudio Mendes (Herberto), Bia Montez (Januza), Cyria Coentro (Marciana) e Talita Younan (Vera Lúcia).

O texto bem estruturado e criativo de Mario Teixeira garante qualidade à trama 

O texto de Mario Teixeira, com a colaboração de Bíbi da Pieve, Marcos Lazarini e Tarcísio Lara Puiati, e pesquisa de texto de Yara Eleodora, é ágil, dinâmico, com fio narrativo consistente e diálogos fluidos, além dos toques de humor elaborados. Sua estrutura dramatúrgica tem inegável material para prender o interesse do público pelos próximos meses. Ouvir o Português escorreito e rebuscado nas vozes de Edson Celulari e Juliana Paiva, com vasto vocabulário, mostrando a riqueza de nosso idioma, tão esquecida, foi maravilhoso.

Cenários e figurinos primorosos, bonita fotografia, efeitos visuais impressionantes e trilha sonora irresistível e diversificada enriquecem a história 

A cenografia de Keller Veiga, Alexis Pabliano e Gilson Santos se sobressai, entre outros aspectos, pelas minúcias e notável acabamento da casagrande de Dom Sabino, do moderno, jovem e arrojado apartamento de Samuca, e do Laboratório Criotec, no qual trabalha Dra. Petra. Os figurinos de Paula Carneiro correspondem com admirável fidelidade aos costumes usados no século XIX, sendo coerentes e de bom gosto nos tempos atuais. A direção de fotografia de Andre Horta é primorosa, apostando tanto nas cores fortes, quanto nas neutras e naturais. Os efeitos visuais de Bruno Netto são dignos de nota, com destaque, sem dúvidas, para o naufrágio. A trilha sonora da novela é impecável, com novidades e releituras (gerência musical de Marcel Klemm). Temos a lindíssima “Naked”, de James Arthur, a empolgante “Paradise”, de George Ezra, a doce e romântica “Baby Eu Queria”, de Marcella Fogaça e Nando Reis, a encantadora versão de Dan Torres para o clássico “Raindrops Keep Fallin’ On My Head”, a alto astral “No Excuses”, de Meghan Trainor, a bela releitura de Vanessa da Mata para “Impossível Acreditar Que Perdi Você”, o hit “Ice Ice Baby”, de Vanilla Ice, a deliciosa “You Sexy Thing”, de Hot Chocolate, a excelente interpretação de Ivete Sangalo para a icônica “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”, tema da abertura, e a rascante e intensa tradução de Elza Soares para a emblemática “O Tempo Não Para”.

Competentíssima direção, elenco de alto nível e abertura empolgante nos convidam a assistir à novela

A direção artística de Leonardo Nogueira e geral de Marcelo Travesso e Adriano Melo, além de Mauricio Guimarães e Felipe Louzada, exibiu incontestável inspiração e notória competência, seja nas cenas de ação, seja nas cotidianas, com bonitas tomadas aéreas. O excelente elenco, como disse, reunindo atores de gerações distintas, mostrou-se completamente entregue à irresistível história de Mario Teixeira. Um ponto fortíssimo da produção. A abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguelê, Christiano Calvet e Bruno Meira, com referências a Salvador Dalí e ao artista visual Marco Brambilla, uma mistura psicodélica com abundante uso dos recursos da computação gráfica, é profusa em cores e movimentos, pretendendo nos indicar o contraste de culturas de épocas diferentes e seus respectivos elementos, como estátuas antigas, ventiladores, harpas, escafandros, computadores, hot dogs e louças vitorianas. Até o hábito dos dias de hoje de se tirar selfies é retratado. Trata-se daquelas aberturas que não nos cansamos de ver. Ótima realização dos criadores.

A novela que deu frescor à faixa das 19h da Rede Globo 

“O Tempo Não Para” é uma novela com imensos atrativos, sendo um deles o de trazer uma saborosa história com elevado potencial criativo, oferecendo um frescor à faixa das sete horas da emissora. A obra de Mario Teixeira teve o mérito de fisgar o seu público com peças caras a um bom folhetim, como o par romântico principal, personagens empáticos, conflitos, vilões em maior ou menor grau, humor leve, associada a uma encantadora fantasia com reflexos numa visão crítica da realidade. O tempo será um fator positivo para a nova novela das 19h, que só tende a melhorar com a sua passagem. Todo o mundo ficará parado diante da TV na hora em que mais um capítulo de “O Tempo Não Para” for ao ar.