Arquivo de junho, 2019

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Foto: Rede Globo

Depois do sucesso de “O Outro Lado do Paraíso”, Walcyr Carrasco volta mais cedo ao horário nobre com uma história irresistivelmente popular, contada por um excelente elenco que junta veteranos a jovens talentos 

Com uma abertura caprichada de Alexandre Romano, ao som do empolgante clássico do pagode “Tá Escrito”, do grupo Revelação, lançado em 2009 (na voz de Xande de Pilares), entrando no meio de sua quarta semana, “A Dona do Pedaço”, escrita por Walcyr Carrasco, que foi solicitado de forma não programada para criar um folhetim, devido às realocações das tramas das 21h da Rede Globo, já conquistou o público deste horário não só pelo apelo e força popular de sua história, com núcleos tão distintos quanto adoráveis, recheada de subtramas deliciosas, mas pelo seu espetacular elenco que junta veteranos e jovens talentos.

As duas primeiras fases do folhetim se mostraram inovadoras ao retratar a rivalidade sangrenta de duas famílias justiceiras, em que não se poupou uma estética nitidamente influenciada pelo cinema de Quentin Tarantino 

Em suas primeira e segunda ótimas fases, inovadoras, tivemos uma guerra sangrenta ” à la ‘Romeu e Julieta’ “, envolvendo as famílias Matheus e Ramirez. Com dinâmica estética de Tarantino, e direção artística de Amora Mautner, vimos o nascimento do amor de Maria da Paz (Juliana Paes) e Amadeu (Marcos Palmeira), um novo e bem-vindo casal na teledramaturgia. Quem poderia imaginar famílias de justiceiros tendo de um lado Nívea Maria e de outro Jussara Freire? Quem sequer suporia que Dulce, a personagem de Fernanda Montenegro, em cena já antológica, matasse a sangue frio três rivais do outro clã? Um pacto traído com um tiro acabaria em pleno altar com o casamento de Maria e Amadeu.

Na terceira fase passada em São Paulo, Maria da Paz surge como uma rica empresária do ramo de bolos, revelando o quanto Juliana Paes é uma estrela cativante, assumindo o tom cômico de uma mulher do povo que ascendeu socialmente, sem perder a sua essência

Na terceira fase, em São Paulo, temos uma Maria da Paz diferente, rica confeiteira, mãe da ambiciosa Josiane (Agatha Moreira, precisa), que sonha em ser uma digital influencer de sucesso. Juliana Paes, divertida e cativante, traz-nos uma reinvenção maravilhosa da Maria do Carmo de “Rainha da Sucata”, com a sua própria marca de gloriosa estrela (Maria do Carmo foi interpretada pela atriz Regina Duarte na novela de Silvio de Abreu em 1990, exibida também na faixa nobre da Rede Globo).

Família de desvalidos liderada por Marco Nanini, rivalidade entre as irmãs vividas por Paolla Oliveira e Nathalia Dill, Reynaldo Gianecchini como um sedutor cafajeste, Monica Iozzi como uma espertalhona assessora de digital influencer, e Malvino Salvador como um empresário que se apaixona por Rock, o lutador interpretado por Caio Castro, são grandes ganchos da novela  

O que dizer de uma família hilária de desvalidos que reúne Marco Nanini, Betty Faria, Tonico Pereira e Rosi Campos, além de Caio Castro, formidável como o bronco aspirante a lutador Rock? Nela, há talentos promissores, como Glamour Garcia (a transexual Britney), impagável, e Bruno Bevan, seguro. Há o que se esperar da rivalidade que surgirá entre as irmãs boa e má, Vivi e Fabiana, separadas na infância por uma tragédia, defendidas respectivamente por Paolla Oliveira e Nathalia Dill, ambas inspiradas. Suely Franco, como a simples e sonhadora Marlene, Nathalia Timberg, como a pernóstica Gladys, e Ary Fontoura, como o bem-intencionado advogado Antero, estão dando um show. Reynaldo Gianecchini faz como ninguém o galã/cafajeste/bon vivant Regis. Monica Iozzi está perfeita com sua ironia sofisticada ao viver Kim, a esperta assessora de Vivi Guedes (suas cenas com Márcio, braço direito de Maria da Paz, personificado pelo ótimo Anderson Di Rizzi, prometem). Heloisa Jorge, como Gilda, tem a sua grande chance de mostrar a ótima atriz dramática que é, na fase da doença de sua personagem. Malvino Salvador, como o empresário Abno, frio em seu casamento com Lyris (Deborah Evelyn, sempre charmosa) poderá ter um dos melhores papéis de sua carreira, ao se envolver afetivamente com Rock (uma ousadia gigantesca do autor em reunir como um casal homoafetivo dois dos maiores galãs da emissora).

Walcyr Carrasco, apostando nos ingredientes infalíveis que fazem uma novela fazer sucesso, recoloca o gênero em seu devido lugar de destaque com “A Dona do Pedaço”

“A Dona do Pedaço” cumpre a nobre missão de recolocar as telenovelas em seu merecido lugar de destaque, não apostando em fórmulas milagrosas, mas em ingredientes infalíveis de um bom folhetim, com uma excelente história em que não faltam amores impossíveis, traições, humor e polêmicas, além de um elenco fabuloso e de uma direção competentíssima.