Arquivo de novembro, 2019

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Foto: Gshow

Depois de produções elogiadas pela crítica e prestigiadas pelo público, Manuela Dias estreia no horário nobre da Rede Globo com uma novela que aborda as mais diferentes e complexas nuances que permeiam o amor incondicional de uma mãe pelo seu filho

Na última segunda-feira, o público teve a chance de conferir a alvissareira estreia da celebrada autora Manuela Dias (“Ligações Perigosas” e “Justiça”) no horário nobre da Rede Globo com a aguardadíssima novela “Amor de Mãe”, reeditando a parceria com o engenhoso diretor artístico José Luiz Villamarim. Manuela se propõe a nos contar dentro de um contexto narrativo folhetinesco os múltiplos matizes dimensionais do elo afetivo maternal, e suas infinitas possibilidades de expressão, revelando comportamentos obstinados, incondicionais e até mesmo obsessivos. Representando uma trinca fabulosa de mães diametralmente distintas, foram escaladas atrizes de supremo valor, Regina Casé, Adriana Esteves e Taís Araujo, cujas vidas se entrelaçam mais cedo ou mais tarde (um recurso técnico caro a Manuela). Lurdes (uma Regina Casé fenomenal, interpretada com brilho no passado por Lucy Alves) se candidata a uma vaga de babá para cuidar de um futuro filho da bem-sucedida advogada Vitória (Taís Araujo com admirável altivez). Vitória defende com certa culpa o inescrupuloso empresário Álvaro (Irandhir Santos primorosamente cínico e frio). Thelma (Adriana Esteves com exemplar densidade), vítima de uma grave doença, é socorrida na rua por Lurdes. Thelma mantém uma relação sufocante com o seu bom filho Danilo (Chay Suede em acertada contenção). Vive em conflito com o irmão mau-caráter Sinésio (Julio Andrade em perfeita sintonia com o papel), que deseja vender o restaurante da família. Voltando a Lurdes. Dedicada a encontrar seu filho vendido, orgulha-se da filha formada professora Camila, (Jessica Ellen, uma força feminina em cena), e se preocupa com o filho Magno (Juliano Cazarré com sua verdade interpretativa cativante), envolvido em um crime não intencional. Lurdes também é mãe de Ryan e Érica (os ótimos Thiago Martins e Nanda Costa).

Com direção artística de José Luiz Villamarim, um profissional cuja marca de excelência é visível em todas as obras que conduz, e trilha sonora que exerce enorme fascínio pela sua diversidade e riqueza, “Amor de Mãe” já conquistou os telespectadores desde o seu início
A direção de Villamarim, não raro vigorosa e eficiente, explora os ângulos da câmera selando sua inteligente marca, como as tomadas de dentro dos carros, com a visão particular de seus cursos. Vale destacar a fascinante trilha sonora de Eduardo Queiroz e Bibi Cavalcante, com canções com Maria Bethânia (“Onde Estará O Meu Amor”), Gonzaguinha (“É”) e Fábio Jr. (“O Que É Que Há). “Amor de Mãe” é uma novela com viés humanista, focada nas relações interpessoais e todos os seus desdobramentos naturais, sem perder de vista os conflitos e dramas que demarcam o sucesso do gênero. “Amor de Mãe” já tem uma história de amor com o seu público, e esse amor só tende a aumentar.

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Foto: Mauricio Fidalgo/Rede Globo

Thalita Carauta, com sua excelente atuação como a professora Eliete de “Segunda Chamada”,  junta-se a três outras grandes profissionais da teledramaturgia brasileira, reforçando o poderio feminino no audiovisual contemporâneo

Muitos são os atores que se destacam na excelente (e absolutamente necessária) série da Rede Globo, “Segunda Chamada”, escrita pela afinada dupla Carla Faour e Julia Spadaccini, com direção artística primorosa de Joana Jabace (desde já, uma das melhores obras lançadas em 2019). Essa tríade de profissionais vem reforçar o poder feminino na teledramaturgia nacional. Para incrementar este front de mulheres brilhantes, entra em cena a carioca Thalita Carauta, intérprete da professora de matemática Eliete. Em meio a tantas adversidades e dramas que rondam a Escola Estadual Maria Carolina de Jesus, Eliete, numa performance esplendorosa de Thalita, calcada em uma desconcertante naturalidade nutrida por fartas doses de humanismo, serve como ponto referencial de positividade, respiro e otimismo àqueles seres vitimizados (alunos e professores) pelas contingências duras de uma instituição pública de ensino do Brasil. 

A atriz, reconhecida pelo grande público pela sua vasta habilidade com a comédia, reinventou-se a partir de sua atuação como Eliete, revelando-nos uma admirável faceta dramática que nos é extremamente bem-vinda 

A atriz, também diretora, sempre reinou com pleno domínio no império da comédia, seja na TV (como a hilária Janete do extinto “Zorra”), na ribalta (no sucesso “Os Suburbanos”) e no cinema (na popular franquia “S.O.S. Mulheres Ao Mar”). Com prêmios no currículo, egressa de O Tablado, vinda de um marco em sua carreira (a Gorete de “Segundo Sol”), Thalita, como Eliete, reinventou-se, dando uma guinada de 360º em sua história como artista. Com Eliete conhecemos uma nova Thalita, explodindo em carisma, exalando charme e sensualidade, e nos revelando um potencial de dramaticidade desconhecido do grande público.
Em um dos episódios de “Segunda Chamada”, houve uma comovente cena entre a sua personagem e o do nobre José Dumont (disponível no Globoplay), comprovando esta sua faceta que nos é tão bem-vinda. Thalita Carauta, sempre às terças, faz com que todos nós queiramos ter tido em nossas vidas uma professora de matemática como Eliete, para sabermos somar e dividir com os outros, subtrair nossas mesquinharias e multiplicar os nossos melhores valores.

 

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Foto: Divulgação

“Border”, uma premiada produção sueco/dinamarquesa, é um dos filmes mais chocantes da cinematografia fantástica mundial

O filme fantástico sempre teve o seu público cativo. A fantasia, imiscuída com a realidade, exerce um fascínio irresistível ao longo dos anos no cinema mundial. Obras como “O Labirinto do Fauno” (2006) e o vencedor do Oscar de Melhor Filme “A Forma da Água” (2017), de Guilhermo del Toro, beberam nesta inesgotável fonte. O mais atual exemplar deste segmento é o impressionante, corajoso e chocante “Border” (“Gräns”, Suécia/Dinamarca, 2018), do cineasta e roteirista sueco-iraniano Ali Abassi, que se inspirou no conto do sueco John Ajvide Lindqvist. O filme foi o vencedor da mostra “Un Certain Regard” do Festival de Cannes, além de sair vitorioso do Festival de Los Angeles, e ganhar pelos Efeitos Especiais no Festival de Cinema Europeu, sendo também indicado ao Oscar de Maquiagem.

O longa narra a história de uma agente alfandegária portadora de um dom extraordinário, seu faro apuradíssimo, que se depara com mudanças bruscas em sua vida a partir do encontro com um homem que a levará a descobertas sobre a sua origem

Com roteiro coassinado por Abassi, o longa nos conta a história de Tina (Eva Melander numa atuação ferozmente arrebatadora), uma agente alfandegária de um porto sueco com um dom especial para farejar bagagens e passageiros. Esse faro extraordinário advém de um acidente sofrido na infância quando fora atingida por um raio. Tina possui um rosto deformado não necessariamente ligado à fatalidade. Sua vida muda, com descobertas surpreendentes sobre a sua verdadeira origem, a partir do encontro com Vore (Eero Milonoff, absurdamente bestial), um homem aficionado por insetos que guarda similaridades físicas com a fiscal.

A obra de Ali Abassi é antes de tudo um manifesto a favor das diferenças entre os homens e da inclusão social, característica que lhe garante grandes méritos e respeitabilidade

O longa, no tocante à exclusão e discriminação, lembra-nos bastante o clássico de David Lynch “O Homem Elefante” (“The Elephant Man”, 1980) e o excelente “Marcas do Destino” (“Mask”, 1985), de Peter Bogdanovich. “Border” causará repulsa e estranheza em grande parte da plateia, mas sua relevância é inegável sob o ponto de vista inclusivo, ao ostentar sem pudores todo tipo de relação, até as mais íntimas, entre seres que fogem do padrão da normalidade, aproximando-os da selvageria animal. Ali Abassi cria uma poderosa alegoria da aceitação da diferença entre os indivíduos, algo impensável em muitas sociedades contemporâneas, inclusive no Brasil de hoje. 

“Border” foi lançado no Brasil em 11 de abril de 2019.

Assista ao trailer do filme:

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Foto: Divulgação

Os conceitos sobre as atuações anteriores do Coringa, cada uma delas com seus inegáveis valores, devem ser reavaliados após a performance perturbadora de Joaquin Phoenix

Desde a década de 60 há gostos para todos os Coringas, um dos vilões mais fascinantes da galeria dos que confrontaram o Homem-Morcego. Há os que preferem a icônica caricatura de Cesar Romero no seriado sessentista (série “Batman, 1966 – 1968). Existem aqueles que se embevecem com o magistral histrionismo de Jack Nicholson na versão de Tim Burton (“Batman”, 1989). Outros ficaram arrebatados com a performance devastadora de Heath Ledger no longa de Christopher Nolan (“Batman – O Cavaleiro das Trevas”, 2008). E, por último, possivelmente a atuação metamorfoseada de Jared Leto em “Esquadrão Suicida” (2016) tem os seus defensores. No entanto, a partir do lançamento recente de “Coringa” (“Joker”, EUA, Canadá, 2019), do americano Todd Phillips, os conceitos estabelecidos até então sobre a composição do temível clown devem ser reavaliados com a inacreditável e perturbadora visão de Joaquin Phoenix para o personagem, tornando-se um fortíssimo candidato para amealhar o Oscar 2020 na categoria. 

O filme mostra Coringa como um comediante com transtornos mentais em busca do sucesso que à medida que sofre os reveses que o impedem de conquistar o seu sonho entra em um espiral de autodestruição irreversível

“Coringa” se passa em uma caótica Gotham City refém da greve dos lixeiros. Na cidade infestada por ratos vive Arthur Fleck (Phoenix), um angustiado comediante que se sustenta graças a bicos, portador de um transtorno mental que o faz soltar involuntariamente sinistras gargalhadas, independente das situações. Seu sonho é ser um artista cômico famoso, e o passaporte para esta condição seria uma participação no programa de humor de Murray Franklin (Robert de Niro, soberbo), uma clara alusão ao ótimo “O Rei da Comédia” (1982), de Martin Scorsese, com o próprio De Niro. Arthur, que cuida de sua frágil mãe (Frances Conroy, digna), numa jornada insana de sobrevivência pessoal, distancia-se mais ainda da razão ao se defrontar com doloridas verdades familiares. 

Não há qualquer sentido nas críticas sofridas pelo longa de Todd Phillips de que o mesmo justificaria as vilanias perpetradas pelo personagem clownesco

Com magnífica direção de Phillips (“Se Beber, Não Case!”, 2009), coescrito com engenho por ele e Scott Silver, “Coringa”, vencedor do Leão de Ouro em Veneza (e Melhor Trilha Sonora, notável), desmente as críticas de que justificaria as vilanias de seu personagem, confirmando em definitivo o supremo valor desta obra fílmica que não nos provoca nenhuma gargalhada, espontânea ou involuntária, e sim um sério e inevitável assombro.

Assista ao trailer do filme: