Arquivo de janeiro, 2020

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Foto: Divulgação

“Dois Papas”, que marca o retorno de Fernando Meirelles à direção de filmes, junta-se à irresistível galeria de obras cinematográficas que abordaram a vida instigante e misteriosa dos Sumos Pontífices

Filmes sobre papas sempre despertam a curiosidade do público cinéfilo, provavelmente devido aos mistérios e transcendência atinentes ao cargo de Sumo Pontífice, sua potencial intangibilidade e o alcance político de suas decisões no mundo. Caso contrário, obras como “As Sandálias do Pescador” (1966), com Anthony Quinn, e “Habemus Papam” (2011), de Nanni Moretti, sendo drama ou comédia, não teriam feito tanto sucesso. Após um hiato de cinco anos, o consagrado Fernando Meirelles retoma a batuta de cineasta com louvor máximo ao conduzir com elegância, ironia refinada e profunda pesquisa histórica seu mais novo longa, “Dois Papas” (“The Two Popes”, Reino Unido, ITA, ARG e EUA, 2019), roteirizado por Anthony McCarten (Roteirista do Ano no Hollywood Film Awards 2019), que elaborou um enredo lapidar, cujo memorável jogo dinâmico de diálogos se impõe como um dos elementos fundamentais da produção da Netflix.

O longa, cuja trama compreende o período da morte do Papa João Paulo II em 2005, e a renúncia de Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, mostra-nos com humor e inteligência o encontro com rico debate de ideias entre Ratzinger e o novo eleito para assumir a liderança da Igreja Católica, o argentino Jorge Bergoglio

Baseado em fatos reais, “Dois Papas” esmiúça o período entre 2005, com a morte de João Paulo II e a controvertida eleição do alemão Joseph Ratzinger, Bento XVI, e 2013, com sua inesperada renúncia, motivada pela prisão de seu secretário especial, omissão de abusos sexuais e escândalos financeiros, e a eleição do argentino Jorge Bergoglio, o Papa Francisco. Neste lapso de tempo, Fernando explora magistralmente o encontro desses dois homens emblemáticos para a história recente do Catolicismo, marcados por ideias, posições e personalidades tão diversas. O que se vê entre a figura conservadora e elitista de Bento XVI e a simbolização da simplicidade de Bergoglio é a materialização de um embate interpessoal sem tréguas em que são discutidos com inteligência temas como a fé, Deus e os dogmas católicos, sem que o tom leve e bem-humorado seja preterido. Sir Anthony Hopkins e Jonathan Pryce , como Bento e Francisco, respectivamente, estão magníficos, atingindo o ponto da perfeição interpretativa. Titãs absolutos em cena. Como Francisco jovem, o argentino Juan Minujín.
se destaca. A fotografia do uruguaio radicado no Brasil Cesar Charlone é exuberante.

A obra de Meirelles, que nos leva à vasta reflexão, recebeu três importantes indicações ao Oscar 2020

“Dois Papas”, com três importantes indicações ao Oscar 2020 (Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator para Jonathan Pryce e Melhor Ator Coadjuvante para Anthony Hopkins) é um filme fenomenal, obrigatório e imparcial, destinado à vasta reflexão.

Assista ao trailer do filme:

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Foto: Divulgação

Karim Aïnouz foi um dos nomes do cinema nacional mais comentados em 2019, tendo sido o responsável por catapultar, e consolidar o seu talento, o ator Lázaro Ramos para o gênero ao lhe dar o papel de Madame Satã no filme homônimo  

Em 2002, o cineasta cearense Karim Aïnouz despertou as atenções para o seu trabalho com o lançamento de “Madame Satã”, filme que consolidou o talento artístico de Lázaro Ramos para o grande público. Depois de outras obras de sucesso, Karim, que também é roteirista, chegou a 2019 como um dos nomes mais comentados do cinema nacional ao ter o seu mais recente longa, “A Vida Invisível”, baseado no romance homônimo de Martha Batalha, reconhecido na Mostra Um Certo Olhar/”Un Certain Regard” do Festival de Cannes 2019, sagrando-se vencedor.

Uma história envolvente e sensível narra o desencontro entre duas irmãs quando ainda eram muito jovens, mostrando que apesar de todas as mudanças de suas vidas, jamais se esqueceram uma da outra 

Corroteirizada por Murilo Hauser, Karim Aïnouz e Inès Bortagaray, a envolvente e sensível produção é estrelada por Carol Duarte e Julia Stockler (soberbas, foram as vencedoras do APCA-SP/Associação Paulista dos Críticos de Arte de São Paulo), que interpretam, respectivamente, no Rio de Janeiro da década de 40, as irmãs Eurídice e Guida Gusmão. Bastante unidas, Eurídice, mais introvertida, sonha em crescer como pianista em Viena, Áustria, enquanto Guida, avançada no comportamento, apraz-se com os namoros. Os rumos são redesenhados quando Guida resolve fugir para a Grécia com o marinheiro Yorgos (Nikolas Antunes), deixando sua irmã desolada. Num cenário patriarcal, Eurídice casa-se com o machista e abusivo Antenor (Gregório Duvivier). As vidas dessas duas irmãs marcadas por uma separação que as corrói, são objetos de todos os tipos de opressão, humilhações, sofrimentos que sua identidade de gênero possa lhes permitir. A intransigência do pai Manuel (António Fonseca) e a submissão da mãe Ana (Flávia Gusmão) acentuam o desencontro fraternal.

“A Vida Invisível” se torna um filme necessário em um momento em que se discute com maior abrangência e profundidade a posição da mulher na sociedade contemporânea

Com a música original de Benedict Shiefer pontuando boa parte da trama, iluminada ora com sobriedade ora com vivacidade pela fotografia de Hélène Louvart, “A Vida Invisível”, sem ser panfletário, cumpre um papel importante ao nos deixar claro do quão é necessário falar da condição feminina, independente de épocas, afastando toda e qualquer ação de preservação da repressão estrutural masculina. O elenco brilha e se destaca sem exceções (inclusive Maria Manoella como Zélia), tendo a participação especial comovente de Fernanda Montenegro como Eurídice. Ao final, pressupõe-se que uma vida inteira pode ser invisível, mas as cartas jamais o serão.

Assista ao trailer do filme:

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Foto: Divulgação

Não é de hoje que o cinema oriental vem nos surpreendendo com a sua qualidade, mostrando ao mundo a inventividade de seus roteiros, a mão firme ou sensível de seus diretores e a beleza pictórica de suas imagens. Em 1954, o clássico de Akira Kurosawa, “Os Sete Samurais”, serviu de referência formal para outros cineastas. “Lanternas Vermelhas” (1991) impressionou com a sua estética inebriante. E “Oldboy” (2003) conquistou um séquito de fãs pelo seu caráter subversivo. O mais novo representante da cinematografia asiática a se destacar no circuito mundial, “Parasita” (“Parasite”/”Gisaengchung”, Coreia do Sul, 2019), de Bong Joon-ho, já se tornou o favorito absoluto para amealhar o Oscar 2020 de Melhor Filme Internacional (no último dia 5 ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro). O grande vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano, além de outros importantes prêmios estrangeiros, revela-nos uma Coreia do Sul apartada entre os miseráveis e os abastados, distante do cartão postal de nação rica e moderna que nos é vendido. O engenhoso roteiro de Joon-ho e Han Jin-won, com ácida crítica social, vale-se de um atalho narrativo que unirá os dois núcleos símbolos da chocante desigualdade econômica. Uma família depauperada, cuja moradia é um subterrâneo urbano, irá se infiltrar, um a um, de forma ardilosa, como funcionários, no seio do rico clã, protegido em sua portentosa mansão. O combate latente entre as classes díspares, a discriminação velada, as mentiras crescentes e a ambição sem freios culminarão em um cenário devastador de hiperviolência e insanidade. O elenco formado por Song Kang-ho, Lee Jung-eun, Choi Woo chik, Park So-dam, Lee Sun Gyun, Cho Yeo-jeong e Jeong Ji-so se sai uniformemente bem (Melhor Elenco no SAG Awards). “Parasita”, de modo original e extremado, partindo de seu microcosmo, denuncia com ferocidade o abismo socioeconômico sistêmico no planeta, provando-nos que toda sociedade em maior ou menor grau é parasitária de si mesma. 

Assista ao trailer do filme: