Arquivo de março, 2020

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Foto: Divulgação

Monique Gardenberg participou de debate, em maio do ano passado, em cinema universitário de Niterói, no Rio de Janeiro, após a exibição especial de seu filme “Paraíso Perdido”, uma joia cinematográfica que exalta dentro de uma família o irresistível repertório musical “brega” do país

Em 16 de maio do ano passado, o Cine Arte UFF, que integra o Centro de Artes UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, contou com a presença da cineasta, diretora teatral, produtora e roteirista Monique Gardenberg no debate após a sessão especial de seu último filme, o encantador, sensível e poético “Paraíso Perdido” (2018). Monique, celebrada no cinema com obras como “Jenipapo” (1995), “Benjamim” (2004) e “Ó, Paí Ó” (2007), mergulha fundo, com nítida paixão pessoal, no fascinante universo do cancioneiro romântico do país, com pérolas musicais tachadas por muitos, de forma pejorativa, como bregas. 

Trilha sonora fascinante de Zeca Baleiro, elenco impecável encabeçado por Erasmo Carlos, roteiro bem estruturado da própria diretora centrado em múltiplos e peculiares personagens, além da fotografia do experiente Pedro Farkas valorizam sobremaneira o longa

Gardenberg, que também assina o roteiro (rico em costuras e desdobramentos narrativos) se vale desta abundante musicalidade (trilha fantástica de Zeca Baleiro, que inclui Márcio Greick , Reginaldo Rossi e Roberto Carlos) para alinhavar as intrincadas e surpreendentes ligações entre os seus adoráveis e diversificados personagens, os quais possuem, em sua maioria, como refúgio seguro das hostilidades urbanas, o clube noturno “Paraíso Perdido”.
O clube, que apresenta shows tão pitorescos quanto memoráveis (um dos pontos altos do filme), pertence ao patriarca José (Erasmo Carlos em atuação iluminada), pai de Ângelo (Julio Andrade, irresistível) e avô de Ímã, uma talentosa drag queen (Jaloo, vibrante) e Celeste (Julia Konrad, precisa na fragilidade). Ímã é filho da detenta Eva (Hermila Guedes, uma atriz de personalidade forte), que se apaixona pela colega Milene (Marjorie Estiano explorando a sua versatilidade).
O gatilho da história ocorre a partir do encontro, numa blitz, entre o policial Odair (Lee Taylor, seu domínio em cena impressiona) e o cantor Teylor (Seu Jorge, inspiradíssimo), que o convida para ir ao clube.
Odair é filho de Nádia (Malu Galli, soberba), uma cantora que sofreu uma agressão que a deixou surda. Humberto Carrão como Pedro, o amante de Ímã, defende com nobreza o seu trabalho mais desafiador, e Felipe Abib, como Joca, o pai do filho que Celeste está esperando, realiza uma elogiável composição.
Louvado pela fotografia inebriante de Pedro Farkas, “Paraíso Perdido” é um tesouro cinematográfico atual que revela o seu despudor em afirmar que o amor pode ser diverso e honesto, ao som de todas as canções, inclusive as mais “bregas”.

Assista ao trailer do filme:

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Foto: Divulgação

O grande sucesso literário de Louisa May Alcott, “Little Women”, trouxe a diretora de “Lady Bird”, Greta Gerwig, de volta às telas, resultando na indicação do filme a seis categorias do Oscar 2020

A pergunta que se faz ao assistirmos à nova adaptação cinematográfica de “Little Women” (1868), grande sucesso literário da americana Louisa May Alcott , “Adoráveis Mulheres” (“Little Women”, EUA, 2019), da diretora Greta Gerwig (“Lady Bird”), candidata a seis categorias do Oscar 2020 (Melhor Filme; Atriz, Saoirse Ronan; Atriz Coadjuvante, Florence Pugh; Melhor Roteiro Adaptado, Greta Gerwig; Melhor Figurino, Jacqueline Durran – vencedora; e Melhor Trilha Sonora Original, Alexandre Desplat) é o que o torna tão fascinante e atemporal para leitores do mundo inteiro, a despeito de se passar em um período específico da História norte-americana, a Guerra de Secessão (1861-1865). Possivelmente a desmedida força feminina e sua indissociável união e solidariedade (a sororidade de nossos tempos) de uma família, as March, confrontada com as intempéries da guerra (como a ausência de seu patriarca), formada por quatro irmãs, a escritora liberal e feminista Jo (a belíssima Saoirse; merecida indicação), a aspirante à atriz que sonha constituir uma família Meg (Emma Watson), a pianista Beth (Eliza Scanlen), e a exigente pintora Amy (Florence Pugh), lideradas pela generosa mãe Mary (a iluminada Laura Dern; que prazer vê-la em cena).

Greta Gerwig procurou não se arriscar em inovações estéticas e formais, preferindo reproduzir a linguagem convencional de um filme de época focado nas relações familiares, mantendo, a despeito disso, a sua relevância como obra cinematográfica

O roteiro de Greta, orgânico, soube entrelaçar os conflitos particulares e coletivos dessas mulheres com notada propriedade. Sua direção (esnobada pelo Oscar, o que gerou estranheza) não buscou inovações estéticas e formais arriscadas, preferindo os padrões convencionais infalíveis de um filme de época com foco no núcleo familiar, proporcionando-nos cenas lindamente coreografadas. Greta, uma jovem com seus 36 anos, sem dúvida é uma cineasta de inegável competência, sendo um nome forte na indústria do cinema estruturalmente dominada pelos homens. Merecem destaque a direção de arte de Jess Ronchor e os figurinos de Jacqueline Durran. O filme conta com a presença majestática de Meryl Streep, como a ranzinza Tia March, e os galãs da vez Timothée Chalamet e Louis Garrel. O longa talvez peque pelo excesso de diálogos que possam confundir a plateia e a trilha sonora bonita porém intermitente de Alexandre Desplat. No entanto, “Adoráveis Mulheres” mantém sua relevância. Louisa May Alcott está bem representada.

Assista ao trailer do filme: