Arquivo de maio, 2020

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Foto: Fábio Rocha/Globo

A série “Aruanas” é lançada na Rede Globo em um momento em que autoridades do Poder Executivo Federal não escondem suas posições oficiais contrárias à preservação do meio ambiente, o que torna a obra extremamente necessária e atual

Inicialmente lançada na plataforma de streaming Globoplay em 2019, a ótima e obrigatória primeira temporada da série de Estela Renner e Marcos Nisti, com a colaboração de Pedro de Barros, “Aruanas”, chega à TV aberta (Rede Globo; em 3 de julho do ano citado a emissora exibiu o seu primeiro episódio na “Sessão Globoplay”) num momento apropriadíssimo em que o Brasil assiste estarrecido ao aumento desenfreado dos desmatamentos e queimadas na Amazônia e na Mata Atlântica, ao afrouxamento da fiscalização ambiental, ao discurso racista quanto à população indígena nativa e à declarada política oficial executiva contrária à preservação de nossos ecossistemas em prol de um suposto desenvolvimento econômico para o país.

A envolvente trama é centralizada em quatro ativistas ambientais pertencentes a ONG Aruana que se despem de todos os medos com o objetivo de desbaratar um esquema criminoso em áreas de preservação orquestrado pelo poderoso dono de uma mineradora

A instigante história, também uma produção da Maria Farinha Filmes, concentra-se nos esforços das destemidas ativistas da ONG Aruana, a imponente advogada Verônica (Taís Araújo), a jornalista Natalie, que subverte as normas do veículo onde trabalha em nome do que acredita (Débora Falabella), a impetuosa Luiza (Leandra Leal), e a autoconfiante estagiária Clara (Thainá Duarte), em uma arriscada investigação que visa a desmascarar os graves danos causados pelas atividades ilícitas da mineradora KM na região fictícia de Cari, no Amazonas, cujo dono é o inescrupuloso e dissimulado Miguel (Luiz Carlos Vasconcelos). Miguel é assessorado pelo misterioso Felipe (Gustavo Falcão) e Olga Ribeiro (Camila Pitanga em participação especial), uma advogada sensual e influente. Somam-se a este espetacular elenco artistas valorosos como Vitor Thiré (André, um rapaz prático e objetivo que cuida do setor de comunicação e relações públicas da ONG), Ravel Andrade (Pontocom, encarregado da parte tecnológica da organização), Rômulo Braga (o inconstante arquiteto Bruno, financiador da Aruana, que se vê dividido entre Verônica e Natalie), Gustavo Vaz (Gregory, um antropólogo dedicado à proteção dos povos indígenas), Bruno Goya (Falcão, incumbido de planejar as ações da Aruana) e Rafael Primot (Ramiro, ex-namorado de Clara, com quem mantinha uma relação abusiva).

Com admiráveis direção geral de Estela Renner e artística de Carlos Manga Jr., “Aruanas”, que contou com a parceria técnica do Greenpeace, transcende o campo ficcional e se conecta legitimamente com o espectro real de um Brasil negligenciado

O thriller ambiental com timing perfeito se vale da direção geral precisa e habilidosa de Estela Renner, auxiliada pelos diretores Bruno Safadi e Lucio Tavares. A beleza natural local, seu povoado, as ações do grupo e a arquitetura arrojada de Brasília são captados por uma câmera generosa e esperta. Lançada em 150 países, com a parceria técnica do Greenpeace, a série possui a chancela do tarimbado diretor artístico Carlos Manga Jr.. “Aruanas” transcende esplendidamente a esfera ficcional com sua contundência denunciatória, fazendo com que cada espectador se conscientize e se sinta um pouco ativista dessa causa que é de todos nós. Um ativismo artístico de que precisamos.

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Foto: Paulo Ruch

A artista Letícia Novaes, egressa do extinto duo Letuce, agora liderando a banda Letrux, com sua multiplicidade de talentos condensados em originais canções, acompanhadas de caráter performático, realiza um show arrebatador que estremeceu as estruturas do tradicional Teatro da UFF, em maio de 2019

O Teatro da UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, estremeceu seus pilares na noite de 31 de maio do ano passado, com a presença magnética de uma artista múltipla, dotada de uma expressividade singular, bela, sensual, divertida, que deixou sua enorme legião de fãs, em sua grande maioria jovens, extasiados, hipnotizados, fiéis absolutos com suas vozes variadas aos versos de suas irresistíveis e originais canções. A responsável por essa sinergia artística memorável com o seu público é a carioca Letícia Novaes, da banda Letrux, também atriz, compositora, escritora e instrumentista, que passou a ser conhecida na primeira década dos anos 2000 com o duo Letuce, ao lado de Lucas Vasconcellos.

Razões não faltam para tecer elogios ao Letrux, que aposta no carisma de sua intérprete, possuidora de potente voz, e no ecletismo de suas influências musicais, dentre tantos outros predicados

A partir de 2017, quando lançou seu primeiro disco solo “Letrux em Noite de Climão” (elogiadíssimo pela crítica especializada), a ótima intérprete passou a construir com solidez e inegável personalidade a sua carreira, sustentada pelo seu arrebatador carisma, presença cênica impressionante, voz potente com trânsito espantoso entre notas distintas (o que lhe confere notória versatilidade) e um setlist eclético com influências do pop eletrônico (e seus synths em profusão) e de outros gêneros, como o funk e o rap, que se manifestam no fraseado conversado de algumas de suas composições.

Tendo como aliados excelentes músicos, Letrux, não se eximindo de sua aguda verve crítica, demonstrada entre um clássico de sua autoria e uma versão deliciosa de um hit, confirma-se como uma artista com grande personalidade, escapando de qualquer rótulo que enclausure seu exponencial talento

Vestindo um lindo macacão vermelho com decotes generosos, valorizando a sua esbelteza, Letrux realizou o seu show acompanhada de músicos excepcionais: Bruno Gafanhoto (bateria, substituindo Lourenço Vasconcellos), Arthur Braganti (teclado e sintetizador), Natália Carrera (guitarra), Martha V (guitarra) e Thiago Rebello (baixo). Majestosamente performática, crítica, política, sagaz, irreverente e sexy, Letrux sacudiu a todos com os seus já clássicos “Flerte Revival”, “Ninguém Perguntou por Você” e “Que Estrago”. Não faltaram ainda, para o deleite geral, competentíssimas releituras de “Unchained Melody”, dos Righteous Brothers, e “Human Nature”, de Madonna.
Letrux é uma artista com um brilho todo especial. Suas letras falam quase sempre sobre o amor, com espaços necessários para a liberdade de ser e de estar do indivíduo. Letrux não é indie, alternativa, tampouco cult. Letrux é do mundo e para o mundo. A noite histórica na UFF traduz bem isso.

Em 13 de março de 2020, Letrux lançou o seu tão aguardado segundo álbum, “Letrux aos Prantos”, tido como mais denso e intenso, segundo a própria, com a participação especial de Liniker e os Caramelows.

Assista ao novo clipe de Letrux, “Eu Estou aos Prantos”, com direção, edição e finalização de Júlio Parente: