Arquivo de julho, 2020

xMNED-04.jpg.pagespeed.ic.WJNDzYB25U
Foto: Marcelo Santos Braga

Todas as quintas-feiras, acontece o “Cine Debate”, sessões on-line de filmes seguidas de debate.
Numa parceria entre o Centro de Artes UFF e a Olhar Distribuidora, o longa exibido no dia 16/07 foi o documentário “Meu Nome é Daniel” (2018).
A seguir, a crítica:

Daniel Gonçalves, portador de uma doença rara que limita os seus movimentos, assume as funções de diretor, corroteirista e coprodutor de “Meu Nome é Daniel”, sendo o primeiro brasileiro nesta condição a comandar um longa-metragem

“Meu Nome é Daniel”, documentário baseado na vida do cineasta do município de Barra Mansa, Rio de Janeiro, Daniel Gonçalves (diretor, corroteirista e coprodutor), portador de uma doença rara com limitações motoras, sendo o primeiro brasileiro nesta condição a comandar uma obra do gênero, é um filme que subverte. Alternando cenas de arquivo em Super 8 e VHS de suas infância e adolescência e começo da fase adulta, narrada com ritmo e pausas certeiros em primeira pessoa por Daniel, o que confere à produção uma poderosa legitimidade, tudo é contado ao público sem pudores, de forma franca e clara, como a naturalidade de sua família em lidar com a situação, algumas manifestações de preconceito da sociedade, sua iniciação sexual, as festinhas juvenis, as relações afetivas e suas escolhas profissionais.

Com o aval de Roberto Berliner, diretor de “Nise: O Coração da Loucura”, na coprodução do longa, o documentário não pretende ser, segundo o próprio Daniel Gonçalves, “um filme de coitadinho ou super-herói” ou “um filme de superação”, o que lhe denota um caráter tematicamente subversivo 

O roteiro assinado por Daniel, Débora Guimarães e Vinícius Nascimento (também montador, realiza um ótimo trabalho), eficientíssimo em sua estrutura, com pinceladas de humor contextualizado, tem como ponto de partida a busca de seu protagonista por um diagnóstico preciso para a sua condição física, mas o filme, coproduzido por Roberto Berliner e Rodrigo Letier, não se resume a isso. Evitando temas musicais com o objetivo de afastar qualquer provocação sentimentalista, “Meu Nome é Daniel” subverte no sentido de que não pretende ser, segundo o seu diretor, “um filme de coitadinho ou super-herói” tampouco “um filme de superação”.

Premiado em três importantes festivais, o documentário nos leva a uma reflexão obrigatória e necessária a respeito da conceituação do que é ser “normal”

Premiado na Mostra de Tiradentes (Melhor Longa-Metragem pelo Júri Popular), nos Festivais Internacional de Cine de Cartagena de Índias 2019 (Prêmio Documental Calificado Oscar) e do Rio (Menção Honrosa Direção de Documentário), “Meu Nome é Daniel” é uma obra imprescindível, necessária, que nos leva à reflexão obrigatória do que é ser normal, abraçando generosamente a diversidade em todas as suas camadas, sem omitir o que dela decorre. Daniel Gonçalves representa o que há de íntegro e reto no ser humano. Daniel é bem mais do que o substantivo próprio do título de um belo filme. Daniel são muitos, mas poucos são aqueles que oferecem a sua beleza de vida em imagens.

Assista ao trailer do filme:

 

bruno-mazzeo-as-curiosidades-das-gravacoes-de-diario-de-um-confinado-d01c98e3ee82
Foto: Glauco Firpo/Gshow

Muitas atrações cujos temas são voltados para o isolamento social em decorrência da pandemia surgiram em diferentes plataformas, destacando-se entres elas a estrelada e roteirizada por Bruno Mazzeo

Neste momento insólito pelo qual passamos, reféns de uma pandemia sem precedentes no país há mais de um século, com o isolamento social recomendado, e as TVs abertas, a cabo e o streaming se firmando como algumas escolhas de lazer disponíveis para os confinados, pululam nos mesmos atrações que atribuem ao tema o seu mote principal. É o caso da divertida e muito bem realizada série multiplataforma “Diário de Um Confinado”, uma criação de Bruno Mazzeo (ator e também roteirista) e Joana Jabace, sua esposa, a quem coube a função de diretora artística, na Rede Globo. Somam-se à inspirada equipe de roteiristas Rosana Ferrão, Leonardo Lanna e Verônica Debom.

A própria casa de Bruno Mazzeo serviu como única locação da série, sendo que quase tudo referente à produção fora feito de modo remoto

Com a casa do intérprete servindo de locação, sofrendo certas adaptações, quase tudo fora feito remotamente, como as avaliações de figurino e arte (houve o envio de determinados objetos), e a participação dos atores, com a exceção de Debora Bloch, que é vizinha real de Bruno. Só um profissional técnico, após isolamento no local, trabalhou presencialmente, o diretor de fotografia Glauco Firpo.

O enredo é desenvolvido em cima da figura de um homem solteiro de classe média que por contingências da pandemia se depara com uma infinitude de ações higienizantes de proteção além de ser vítima dos conflitos psicológicos ocasionados por uma rotina (ou falta de) solitária forçada

A história é focada em Murilo, um homem solteiro, de classe média, que se defronta com todos os tipos de vicissitude decorrentes do confinamento, que vão desde os inúmeros cuidados de higiene preventiva aos percalços psicológicos de uma vida solitária forçada por meses. Murilo, já paranoico, tem que enfrentar as paranoias em sua potência máxima de sua vizinha (Debora Bloch, impagável) e de sua mãe (Renata Sorrah, maravilhosamente cômica). Entre uma engraçada sessão de análise interrompida e outra por uma doutora à beira de um ataque de nervos representada por Fernanda Torres (perfeita na neurastenia), Murilo se vê às voltas com a “embalagem perigosa” de uma pizza e os ataques virtuais ninfomaníacos de uma paquera, uma hilária Luciana Paes.

Uma série com grandes qualidades técnicas, que faz jus a entusiasmados elogios

Não se pode negar a qualidade técnica da produção, como se tivesse sido feita em um estúdio. Tudo merece louvor: roteiro, direção, atuações, fotografia, som. “Diário de Um Confinado” é como aquela pizza que se pedia nos sábados pré-pandemia: saborosa, sempre queríamos mais uma fatia e cheia de bons ingredientes. E, claro, com uma embalagem que não fosse uma vilã.

 

15615002435d129a53299ad_1561500243_3x2_md
Foto: Diego Garcia/Divulgação

Conhecido por sua subversão temática, vista em sua obra anterior, “Boi Neon”, Gabriel Mascaro antevê em seu mais novo longa um Brasil distópico dominado por uma fanática corrente religiosa que prega conceituações distorcidas dos elementos sagrados e profanos, que afetam diretamente o comportamento humano e sua relação com o casamento, o amor, a fé e o sexo 

Foi lançado no dia 27 de junho do ano passado o impactante novo filme do diretor pernambucano Gabriel Mascaro, conhecido pelo público a partir do sensível e original “Boi Neon” (2015), “Divino Amor”. Neste longa estrelado por Juliano Cazarré, o cineasta subvertia o universo machista dos vaqueiros ao desenhar um de seus membros como um homem que sonhava em criar vestidos. Esta mesma subversão, que passa a ser uma marca do cineasta, é agravada em “Divino Amor”, no sentido em que se profetiza um Brasil distópico em 2027, oficialmente laico, mas dominado (e oprimido) por uma vertente religiosa intolerante de caráter evangélico que leva às últimas consequências os seus conceitos radicais e distorcidos a respeito da fé, do amor, do casamento e do sexo, misturando indiscriminadamente no mesmo cadinho o profano/”pecado” (swing de casais, valorização dos corpos nus em alguns de seus rituais) e o sagrado (tudo se faz em nome de um Deus misericordioso).

Dira Paes, em performance corajosa, representa uma funcionária de cartório que tenta convencer os casais a não se divorciarem, atendendo aos seus dogmas questionáveis, ao mesmo tempo em que frequenta raves evangélicas nas quais seu Deus popstar é idolatrado 

O roteiro inteligente, apropriado e espertíssimo de Gabriel Mascaro, Rachel Daisy Ellis, Esdras Bezerra e Lucas Paraizo nos traz uma brilhante e corajosa Dira Paes como uma funcionária pública de cartório, Joana, que com seu jeito polido e manipulador tenta convencer os casais a não efetivarem o divórcio pretendido em nome da manutenção do amor máximo traduzido no núcleo familiar convencional. Joana, adoradora da burocracia estatal, frequentadora de raves evangélicas grandiosas em que o seu Deus é popstar, é casada com o florista de funerais Danilo (o ótimo Julio Machado), que, assim como ela, frequenta o fechado grupo religioso “Divino Amor”. Uma incompatibilidade do casal desequilibrará a sua fé até então inexpugnável.

O filme de Gabriel Mascaro conta com eficientes suportes técnicos, como a fotografia onírica de Diego Garcia e a trilha de DJ Dolores, sendo sustentado ainda por outros artistas afinados em suas participações 

Com fotografia desbotada, onírica e com néons de Diego Garcia, trilha sonora instigante do DJ Dolores (dentre outros), o perturbador filme tem o seu elenco completo por Emílio de Mello (fantástico como o pastor de drive thru), Thalita Carauta (perfeita na indignação de uma cliente do cartório), Teca Pereira (convincente como a Mestra Divino Amor) e Mariana Nunes

(simboliza com fidedignidade a esposa angustiada por suas dúvidas afetivas/emocionais).

Assista ao trailer do filme: