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Lucas Oradovski caracterizado como a intrigante e sedutora figura burlesca do belo documentário de Manuh Fontes/Foto: Leandro Pagliaro/Divulgação

Responsável pelo argumento, a atriz e produtora Maytê Piragibe se lança em um delicado projeto pessoal que visa a esmiuçar o processo de criação artística, valendo-se dos depoimentos de atores de gerações diversas

“Talvez criar não seja nada mais do que se lembrar profundamente”. Com este pensamento sobre a criação do filósofo e poeta tcheco Rainer Maria Rilke se inicia o envolvente documentário com argumento de Maytê Piragibe e roteiro e direção de Manuh Fontes “Mise en Scène – A Artesania do Artista” (2021), disponível recentemente no catálogo do Globoplay. Vários atores de inegável relevância e outros talentos mais jovens foram convocados por Manuh a darem os seus esclarecedores depoimentos sobre seus processos de criação artística, entremeados com suas visões particulares acerca da infância, vida, política e morte.

Neste documentário livremente inspirado na obra do filósofo Rilke, o público descobre como surgiu a paixão de Antonio Fagundes pela leitura e como Marco Nanini se comporta atualmente com relação ao tempo

Livremente inspirada na obra de Rilke, a cineasta inseriu acertadamente belas citações na voz cristalina de Gloria Pires. Entre uma fala e outra, há as aparições idílicas de uma figura burlesca (Lucas Oradovski; excelente em sua expressão corporal; esta mesma figura se relaciona com uma menina sorridente, Violeta Piragibe, filha de Maytê). Antonio Fagundes relata que uma enfermidade na infância o levou a ficar acamado por seis meses, fazendo-o se apaixonar pela leitura (ele valoriza ainda o hábito da observação). Fagundes, em tom assertivo, diz que o teatro é a “pátria do ator”. Marco Nanini revela que precisa se despir do personagem, não levá-lo consigo. Ele confessa estar passando por uma fase mais contemplativa em sua vida, com uma perspectiva sobre o tempo distinta de quando era mais jovem. Zezé Motta afirma que ao compor uma música pensa logo em uma personagem. A atriz de filmes de sucesso como “Xica da Silva” (1976) e “Quilombo” (1984) não hesita em defender que os artistas devem assumir uma posição política, além de nos contar uma experiência pessoal de violência na época da ditadura militar. Cássia Kis não estima o termo “interpretar” e sim “estar presente, viver”. Cássia levanta ilações de que ninguém sabe como o outro nos enxerga, dizendo que nem ela mesma sabe quem é. Dira Paes discorre sobre o “deslocamento de energia” na atuação, falando também sobre a necessidade de se ter um foco. A intérprete paraense que começou a sua carreira ainda muito menina em um filme do diretor inglês John Boorman, “A Floresta das Esmeraldas” (1985), reflete que a composição de uma personagem se inicia a partir do momento em que calça os seus sapatos. Camila Pitanga assevera que a dança sempre teve um papel importante em sua vida na expressão artística (há uma cena em que Camila divide um instante espontâneo ao piano com a sua filha Antonia Pitanga). Maytê Piragibe recorre a rituais terapêuticos (cristais, aromaterapia etc) para se desprender de possíveis energias pesadas colhidas em uma cena específica. Maytê encena performances em uma praia ornada com instalações. Gabriel Leone confidencia-nos acerca de sua relação ambígua com o espelho, sem desmerecer a sua significância na criação de um papel. O ator nos apresenta um processo criativo com todas as suas etapas em que se transforma em um ser feminino. Bruno Fagundes assegura-nos que as cores ocupam uma função precípua em seu processo de criação. Em certa ocasião, o filho de Antonio Fagundes lança mão de tintas coloridas, espalha-as em uma tela em branco sobre o chão com as suas próprias mãos, deixando que aflore seu furor criativo. O colombiano Gustavo Miranda se diz encantado com a riqueza cultural de nosso país, referindo-se sobretudo à efervescência da cidade de São Paulo, na qual sempre há um lugar onde se pratica a arte. O bailarino também colombiano Mauricio Flórez se encarrega de executar plásticos e harmônicos movimentos corporais.

“Mise en Scène – A Artesania do Artista” é antes de tudo uma produção que cumpre seu papel de louvor à cultura com inegável magnitude

A direção de fotografia de Leandro Pagliaro (produtor executivo juntamente com Manuh Fontes e Maytê Piragibe) prima pelo bom gosto, com o aproveitamento de luzes naturais e indiretas, como abajures e velas, logrando um exitoso resultado. O belo documentário de Manuh Fontes, que exibe sensibilidade na direção e coerência no roteiro, apoia-se na poética e fluente trilha de Lucas Marcier e Rodrigo de Marsillac e na bem conduzida montagem de Isabel Salomon. “Mise en Scène – A Artesania do Artista”, que concorreu ao Prêmio de Melhor Documentário no Festival Independente de Toronto, no Canadá, alveja públicos que se engajam no aprimoramento das artesanias de suas criações de vida pessoais e artísticas, cumprindo seu papel de louvor à cultura com inegável magnitude.

Assista ao trailer oficial do documentário:

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