“Dias Incríveis com Maria Clara Machado.”

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Foto/Divulgação

Já havia feito uma peça de caráter experimental no teatro “O Tablado”, sob a direção de Ricardo Kosovski, no início de 1991. A emoção de pisar num palco onde já estiveram atores e atrizes do naipe de Louise Cardoso, Cláudio Corrêa e Castro, Cláudia Abreu, Diogo Vilela, Felipe Camargo, Maria Padilha, Selton Mello, Jacqueline Laurence, a hoje crítica Barbara Heliodora, Malu Mader, Andréa Beltrão, dentre tantos outros, fora-me de fato marcante. Não era raro ver nos ensaios e demais dias aquela dócil senhora, ostentando olhos claros e cabelos curtos em corpo de baixa estatura que irradiava imponência e altivez. Circulava como se em casa estivesse. Ora, mas “O Tablado” era a sua casa. Tão moço, pobre moço, sabia eu que ladeava-me a maior escritora brasileira de textos infantis para as artes cênicas. Ganhadora de láureas, homenagens, e dona de peças a rodar pelo mundo. Mãe de sucessos emblemáticos como “Pluft, o Fantasminha”, “O Cavalinho Azul”, “Maroquinhas Fru-Fru”, “Tribobó City”, “A Menina e o Vento” e o “Rapto das Cebolinhas”. Fora atriz. Teve livros editados. Seus espetáculos causavam identificação imediata com os pequenos. E os grandes também se divertiam. Sua formação cultural deveu-se muito ao pai, o escritor Aníbal Machado. Maria Clara testemunhou as reuniões literárias com notórios escribas por ele organizadas. Quanta erudição para uma criança. Só o que falei-lhes até agora já desperta-nos quanto ao grau de importância desta magna mulher. Nunca se vislumbrou em tempo algum pessoa tão dedicada a criar de forma educativa e prazerosa o hábito de se levar as crianças ao ambiente teatral. Ocorreu que, em meados do meio do ano supracitado, um amigo próximo, ator, chamou-me para substituí-lo em “O Cavalinho Azul”, em montagem no “O Tablado”. Temi por instantes, afinal tinha-se como diretora Maria Clara Machado. Mesmo com insegurança inerente aos bastante jovens, aceitei. O curioso seria o que me aguardava na proposta assentida. No elenco estavam Cadu Fávero (que veio a fazer bela carreira no teatro e no cinema) e como protagonista Luiz Carlos Tourinho (obtivera prestígio em “Sob Nova Direção”, na Rede Globo). Dois personagens a mim cabiam. Um soldadinho devidamente uniformizado, acompanhado de mais dois, que em coro e passos cadenciados exclamava: – Não temos tempo a perder!. Verdade, pequeníssimo papel. Entretanto, carregava simbolismos de enorme significância para quem começava uma carreira. Quando entrei para o “cast” não conhecia ninguém. Justificava-se assim postura receosa e tímida. Porém, ainda não contei-lhes sobre a segunda participação que me coube. Simplesmente junto a outro intérprete, éramos o próprio cavalinho azul. Para melhor compreensão: revezávamos em posições dianteira e traseira para dar vida ao cavalinho confeccionado. Uma experiência demasiado inusitada. Tão inusitada quanto rica. Quando na frente estava, guiava-me por diminuta tela à minha frente. E atrás, o que restava-me era a confiança no bom senso de direção do meu parceiro de cena. Tínhamos que galopar. E em círculos! Ora via-se a plateia, ora não via-se. Foram apenas três finais de semana. Contudo, ficaram marcados para todo o sempre em minha memória afetiva. No último dia de apresentação, um momento do qual não esquece-se: a querida Maria Clara reuniu todos os atores em corrente, e fizemos com mãos apertadas e cheias de fé espécie de prece, seguida por agradecimentos e despedidas. No final, quando os espectadores já haviam ido embora, realizamos versão alternativa da peça, sendo que cada um interpretou papel que fora do outro. Após, em outra encenação no mesmo “O Tablado”, fora-me dada cena de plateia, na qual interagia de modo direto com Maria Clara Machado. Suas receptividade e simpatia estimularam-me quanto ao intento de burilar a minha atuação, que cobrou excessivamente do meu potencial cômico/dramático. Maria Clara sempre detivera extrema e rara generosidade para os que lhe apelavam. Como ator amador que era, aglutinei todos os documentos comprobatórios de trabalhos feitos a fim de que pudesse profissionalizar-me. E com ajuda providencial de meu pai, redigi declaração de que participei de “O Cavalinho Azul”. Necessitava da preciosa assinatura de Maria Clara Machado. Não titubeei. Fui ao “O Tablado”. Subi escadas que levaram-me a pavimento diverso, no qual localizavam-se a sala de figurino e o escritório da fundadora do teatro. Com humildade, expliquei-lhe minha situação. Depois de ouvir um “sim”, acompanhei cada movimento de sua graciosa mão até que pegasse a caneta e assinasse seu ilustre nome na folha de papel. Conto-lhes esta singela história não com o objetivo somente de informar-lhes que tive o privilégio de trabalhar com esta nobre profissional das Artes do nosso Brasil varonil. Fora isso, falar-lhes também acerca do quanto esta senhora, doce, bonita, magnânima, competente na direção, era sobretudo uma companheira daqueles jovens artistas, alguns inseguros, iluminados por coloridos refletores e vestidos com mágicos figurinos. Foi uma relevante “cavalgada” em minha vida. Todavia, não com galopes quaisquer. Galopes do “O Cavalinho Azul” de Maria Clara Machado.


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