Eduardo Moscovis, em sua 5a produção teatral, encarna Antônio, um matemático pacífico que descobre um lado obscuro de sua personalidade ao ser provocado por uma situação de violência/Foto: Catarina Ribeiro
Após discutir sobre a homofobia em sua peça “3 Maneiras de Tocar no Assunto”, desta vez o dramaturgo Leonardo Netto questiona com a mesma qualidade a violência intrínseca ao homem
Em 1963, em seu livro “Eichmann em Jerusalém”, a filósofa alemã Hannah Arendt criava o conceito “a banalidade do mal”, referindo-se ao cometimento de barbáries como se fossem atos comuns por indivíduos desprovidos de crítica em resposta a ordens burocráticas.
De modo menos específico, mais amplificado, o dramaturgo Leonardo Netto (responsável pelo pungente texto de “3 Maneiras de Tocar no Assunto”) se debruça indomitamente em sua nova peça, sucesso no Rio de Janeiro e em São Paulo, “O Motociclista no Globo da Morte”, sobre a condição atávica da violência do ser humano e como isso se reflete das mais variadas formas na sociedade, seja em um ambiente simples e público, como um bar, seja nas altas esferas de poder que inventam as suas guerras.
Uma história/relato rica em detalhes que entrega à plateia diversas camadas de tensão
Dirigida por Rodrigo Portella e protagonizada por Eduardo Moscovis (a primeira parceria da dupla), a montagem nos apresenta o matemático Antônio, um homem racional e pacífico, que diante de episódios alheios à sua vontade se vê obrigado a encarar um lado de sua personalidade até então desconhecido.
A valiosa dramaturgia em tom confessional de Leonardo Netto nos impressiona pela riqueza dos detalhes, pelo empenho de sua pesquisa histórica e pelo modo pelo qual é desenvolvida, entregando à plateia uma história/relato com diversas camadas de tensão.
O diretor Rodrigo Portella aposta todas as suas fichas no primoroso texto e no fenomenal poder de interlocução de Eduardo Moscovis, um ator que respeita as pausas e reverencia a melodia das palavras
Rodrigo Portella, um diretor que se sobressai no cenário teatral pela ótica singular com que conduz suas obras, aposta com audácia todas as suas fichas no primoroso texto e no fenomenal poder de interlocução de seu intérprete.
Eduardo Moscovis, vencedor do Prêmio Shell de Teatro 2026 (RJ), assombra-nos com a sua precisão interpretativa, sua atuação matemática sem erros de cálculo e seu domínio de cena tendo que enfrentar o enorme desafio de se expressar artisticamente sentado todo o tempo (ótima direção de movimento de Toni Rodrigues). Eduardo tem vultoso respeito pelas pausas e se valendo de sua bela voz reverencia a melodia das palavras.
“O Motociclista no Globo da Morte” nos leva em sua garupa em alta velocidade bradando um discurso anti-violência que vai na contramão do mundo.
Analu Prestes interpreta a professora aposentada Maria Emília no monólogo adaptado de um conto de Lygia Fagundes Telles/Foto: Alexia Maltner
Sílvia Monte, diretora e produtora, idealizou e adaptou pela primeira vez para o teatro o conto “Senhor Diretor”, integrante da obra “Seminário dosRatos“
Estamos vivendo atualmente não só no Brasil, como em vários outros países, o recrudescimento de correntes político/ideológicas de viés reacionário as quais se balizam na defesa enfática em prol da sociedade de costumes tradicionais e de uma moral atentatória às liberdades individuais. Pensamentos como esses sempre existiram, mas a sua emergência após tantas conquistas é, de fato, um preocupante retrocesso. A grande escritora Lygia Fagundes Telles, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), vencedora do Prêmio Camões e primeira brasileira a ser indicada ao Prêmio Nobel de Literatura, já abordava com excelência este tema em seu conto “Senhor Diretor”, integrante da obra “Seminário dos Ratos”, lançada em 1977. Sílvia Monte, diretora e produtora, ciente desses movimentos e convencida da relevância dos escritos da autora de romances como “Ciranda de Pedra” (1954) e “As Meninas” (1973), idealizou e adaptou com beleza e sensibilidade pela primeira vez para o teatro o conto que discorre sobre um dia na vida, o seu aniversário, de Maria Emília, uma professora paulista aposentada com 62 anos de idade, que ao caminhar pelas ruas de São Paulo se indigna ao se defrontar com uma capa de revista em uma banca de jornal em que se encontra um casal em trajes menores abraçado, decidindo de pronto escrever uma carta de protesto para o diretor do impresso “Jornal da Tarde”.
Vê-se na peça uma valorização bem-vinda das palavras em seu infinito esplendor
A partir desta decisão de Maria Emília, a estrutura dramatúrgica do monólogo é elaborada, pois a personagem ao imaginar o que escreveria para o “senhor diretor” mergulha em um processo íntimo de reavivamento de suas memórias concomitante às suas impressões demasiado pessoais acerca de assuntos sensíveis à humanidade, como envelhecimento, sexualidade, desejos, loucura e morte. Apesar do desfile de suas posições castradoras, com as quais ela mesma se confunde vez ou outra, mostrando em alguns instantes um olhar positivamente aceitável, como a sua crítica às propagandas em massa, Maria Emília conquista a plateia com a sua sutil ironia e acachapante sinceridade. Sílvia Monte nos proporciona com a sua adaptação e direção uma montagem realçada por inúmeras qualidades, sendo uma delas a de amalgamar com precisão e destreza as linguagens literária e teatral, provando ser cada vez mais possível beber na fonte riquíssima que são as obras de nossos magnos escritores. O que se vê na peça em sua completude é uma valorização bem-vinda das palavras em todo o seu infinito esplendor. Ouvi-las de um conto de Lygia Fagundes, adoravelmente distribuídas em suas frases claras, diretas e límpidas, embevece qualquer espectador que se encante com a nossa língua pátria. Outros pontos significativos de sua direção são a diversidade de marcações pensadas com acurada visão cênica, explorando todas as possibilidades do tablado, a inserção das músicas em momentos-chaves do entrecho e a absoluta confiança depositada no reconhecido talento de Analu Prestes.
Analu Prestes atinge com sublimidade todas as camadas da complexa e difusa personalidade da professora Maria Emília
Analu Prestes, atriz santista com imenso prestígio nos palcos brasileiros, também respeitada pelas suas contribuições nas áreas das Artes Plásticas, Cenografia e Figurinos, prova-nos com a sua fineza interpretativa e a sua inteligência na condução das emoções o quanto a sua escolha para viver Maria Emília foi perfeita. Bonita, carismática, dona de uma voz canora, Analu atinge com sublimidade todos as camadas da complexa e difusa personalidade da professora que se refugiou à tarde em uma sala de cinema. A intérprete, meticulosa na composição de sua personagem, atribuindo importância aos pequenos gestos, como a colocação de um par de luvas, desliza empertigada pela ribalta usando eficazmente o seu corpo como linguagem artística (competentíssima direção de movimento de Mari Amorim). Vale destacar, outrossim, a sua espantosa aptidão em dialogar com o público em um tom, pode-se dizer, confessional, e o modo versátil como incorpora outros tipos que margeiam o seu papel.
“Senhor Diretor” é uma sincera carta de amor às letras e ao palco
O cenário e os figurinos ficaram sob a responsabilidade da própria Analu. Tendo como efeito a concentração saudável das atenções na artista e sua palavra, optou-se pela economicidade de elementos cenográficos, adotando-se tão somente uma cadeira de madeira giratória colocada no centro do palco que serve sobremaneira às exigências dramatúrgicas. Já os sóbrios e elegantes figurinos de Maria Emília obedecem ao bom corte de suas blusa e saia, com contrastes assumidos entre as tonalidades de areia, caramelo e preto, incluindo-se os acessórios. José Henrique Moreira, com a sua iluminação, cria uma atmosfera sedutora e coerente com o enredo, plena em nuances, que passam pelos sombreados, como os vistos na atriz ao fundo do espaço teatral com o apoio das projeções, focos e planos mais ou menos abertos em que se sobrepõe a suavidade visual. A alternância de matizes vermelho e azul também se estabelece em alguns episódios. A trilha musical de Sílvia Monte junto à direção e produção musical de Yahn Wagner com os seus arranjos causa-nos uma legítima satisfação em virtude de sua preciosidade e brilho configurados a partir do empenho de instrumentistas e coro vigorosos (canções como “O Último Tango em Paris”, de Gato Barbieri, e “Moteto em Ré Menor Beba Coca-Cola”, de Gilberto Mendes e Décio Pignatari, fazem parte da apresentação).
“Senhor Diretor” cumpre sua altaneira missão em unir duas das mais lindas artes escrevendo com bela caneta-tinteiro uma sincera carta de amor às letras e ao palco, casados sob a bênção de uma senhora atriz, Analu Prestes.
Parte do elenco do espetáculo “O Bem Amado”: da esquerda para a direita, Rose Abdallah, Ataíde Arcoverde, Patricia Pinho, Luiz Furlanetto, Diogo Vilela, Renata Castro Barbosa, Chris Penna e Tadeu Mello/Foto: Victor Hugo Cecatto
O legado de Dias Gomes nos serve de parâmetro para que vejamos que o Brasil tão estudado por ele continua o mesmo com as suas múltiplas mazelas e corrupções de todos os tipos
Resgatar a obra teatral valiosíssima do também autor de novelas e romancista baiano Dias Gomes já é por si só um vultoso mérito. Sua habilidade ímpar em inserir em sua dramaturgia elementos eivados de crítica social em que não são poupadas quaisquer instituições, sejam elas o Estado, o Judiciário e até mesmo a Igreja, atacando firmemente a hipocrisia moral e de costumes dos indivíduos, com doses largas de humor ácido, desconcertante e sarcástico, em um tom assumido de farsa, torna-o um intelectual diferenciado e incômodo, cujo legado nos serve de parâmetro para que vejamos que o Brasil tão estudado por ele em sua trajetória profissional continua o mesmo hoje com as suas múltiplas mazelas, injustiças e corrupções de todos os tipos. Peças teatrais como “O Pagador de Promessas” (1959) e “O Berço do Herói” (1963) são exemplos clássicos de seu pensamento contestador, cada uma com o seu diapasão. Além dessas, há uma outra tão aclamada quanto que representa com primor as ideias geniais deste escriba que se tornou membro da Academia Brasileira de Letras: “Odorico, O Bem Amado, ou Os Mistérios do Amor e da Morte”(1962). E foi justamente com a montagem de “O Bem Amado” que a dupla formada pelo ator Diogo Vilela e o diretor Marcus Alvisi voltou a se unir após muitas parcerias nos palcos. A eles se juntou também o diretor Richard Luiz.
Os diretores Marcus Alvisi e Richard Luiz nos ofertam um espetáculo vivo, alegre, lírico e com “timing” perfeito
Mantendo o espírito iconoclasta de Dias, a hilariante e visualmente bela encenação já nasceu exitosa, conquistando desde a sua estreia em janeiro deste ano uma soma de mais de 20 mil espectadores pelos teatros do Rio de Janeiro. Marcus Alvisi e Richard Luiz ofertam ao público com notáveis acerto e propriedade, a despeito da morte sempre, de uma forma ou outra, estar presente nas linhas do texto, um espetáculo vivo, alegre e lírico, atingindo um “timing” perfeito, no qual se percebe a inspiração em gêneros como a “comédia de erros” e a movimentação cênica de um “vaudeville”. Como é de conhecimento comum, Dias Gomes se utiliza em suas criações com inigualável destreza dos chamados arquétipos. Em “O Bem Amado”, por exemplo, circulam pela mesma história o “coronel”, o “capitão”, “as donzelas” e o “vigário”, só para citar alguns. Todos eles, nesta peça, são capturados pelos diretores com absoluta fidelidade e ciência de suas importâncias. Outro recurso usado com bastante sucesso pela direção é a trilha sonora a cargo do próprio Marcus Alvisi, que adota músicas com dimensões sinfônicas, marcantes e eloquentes, tocadas por instrumentos diversos, como o berimbau. “Carcará”, de João do Vale e José Cândido, ocupa um lugar especial na obra.
Diogo Vilela domina com absoluta proficiência a escancarada comicidade que Odorico Paraguaçu exige e todos os atores que o cercam emanam brilho próprio
Incorporar Odorico Paraguaçu, o coronel desprovido de ética, caráter e escrúpulos, candidato à prefeitura de Sucupira, cidade fictícia a léguas de Salvador, na Bahia, cuja principal plataforma de campanha é a inauguração de um cemitério para os seus habitantes demandaria um ator com sólidos alicerces na comédia e que fosse despudoradamente talentoso. Diogo Vilela, forte nome das artes nacionais, preenche com folga esses pré-requisitos e o que se vê é um intérprete amplamente à vontade na ribalta, arrancando risos a cada cena em que aparece, dominando com absoluta proficiência a escancarada comicidade que o polêmico personagem exige, atendendo com desvelo aos ricos pormenores que o desenham. Um legítimo e adorável Odorico em franca sintonia com o universo “deverasmente” absurdo de Sucupira. O numeroso elenco que o cerca emana brilho próprio, estando todos os atores, assim como o protagonista, em consonância com a ambiência particular do microcosmo retratado. Tadeu Mello, como Dirceu Borboleta, convence-nos sobremaneira com o seu olhar sobre o homem refém de suas ansiedades, ingênuo, com a inglória função de assessorar o vil político. Chris Penna, como Zeca Diabo, constrói com vigor o seu pistoleiro religioso, atento às pitorescas características que o tornam um divertido marginal. As Irmãs Cajazeiras Dorotéa, Judicéa e Dulcinéa, símbolos exponenciais da hipocrisia das damas citadinas travestidas de suposta retidão e decência, representadas respectivamente por Patricia Pinho, Rose Abdallah e Renata Castro Barbosa, transmitem-nos a fogosidade incontornável e a extravagância comportamental deste trio saborosamente ruidoso. Ataíde Arcoverde, como o coveiro ocioso Chico Moleza, evidencia-nos a soturnidade risível que o seu papel lhe cobra. Luiz Furlanetto, como Hilário Cajazeira, oferece-nos a severidade do homem detentor de uma verdade transformadora na trama. Gabriel Albuquerque, como o jornalista Neco Pedreira, ostenta com desembaraço o principal oposicionista de Odorico. Alê Negão (Dermeval), Ezequiel Vasconcelos (Mestre Ambrósio), Lucas Figueiredo (Primo Ernesto), Marco Áureo (Vigário) e Rollo (Zelão) mantêm suas posturas coerentes com as necessidades essenciais dos tipos que defendem.
Dias Gomes é um dos “bem amados” da ribalta brasileira
Os caprichados cenário e figurinos tiveram a assinatura de Ronald Teixeira e Pedro Stamford. Ronald e Pedro nos proporcionam espontâneo deslumbramento com a sensibilidade com que criaram o espaço onde se desenrola a história, com seus enormes panos com retalhos nas laterais e ao fundo, os galhos secos e as janelas suspensas, a cerca e o mobiliário em madeira, levando-nos para essa nova Sucupira idealizada. Já os figurinos, em sua maioria em tons terrosos e crus, sobressaem-se e nos impressionam pela riqueza dos numerosos detalhes e referências, com o uso variado de tecidos e materiais. As escolhas das peças contribuíram distintamente para a familiarização do público com o habitat desses personagens tão emblemáticos. Daniela Sanchez, iluminadora, desenvolve um belo trabalho ao privilegiar tons naturalistas/amarelados nas cenas abertas, com enfoque, dependendo das situações, nas tonalidades mais fortes, como o vermelho, ou suaves, como o lilás. Daniela faz um produtivo aproveitamento do fundo do palco, ao se utilizar dos tecidos como aliados de sua sedutora luz. O visagismo de Mona Magalhães e a direção de movimento de Juliana Medella configuram-se como potentes instrumentos de que se valem os intérpretes para a construção bem-sucedida dos papéis que lhe couberam. O elenco teve ganhos inquestionáveis com suas colaborações específicas.
“O Bem Amado” oferece às plateias teatrais aquilo que mais o define como obra dramatúrgica: a legítima diversão. Mas nos enriquece também com o pensamento avançado de um autor capaz de enxergar os lados mais obscuros do indivíduo, responsáveis pela formação de uma sociedade alimentada por vícios morais e desvios éticos. Dias Gomes é um dos “bem amados” da ribalta brasileira.
Kelzy Ecard, como a professora Norma Aparecida, uma fã apaixonada por Chico Buarque desde a infância, em “Meu Caro Amigo”/Foto: Renato Mangolin
Montado originalmente há 15 anos, o monólogo musical “Meu Caro Amigo” volta à cena com os mesmos realizadores devido ao seu caráter atual
As músicas têm o poder indissolúvel de exercer um papel fundamental em nossas vidas, sendo referências eloquentes de momentos marcantes pelos quais passamos. Há grandes artistas que nos influenciam e modificam nossas existências de uma forma mais abrangente e rica, considerando o impressionante legado construído por anos. É o caso de um dos maiores intérpretes e compositores brasileiros, Chico Buarque de Hollanda. Naturalmente, muitos indivíduos atingidos pelas criações desses ídolos desenvolvem com os mesmos uma relação apaixonada e febril durante fases importantes de suas próprias trajetórias. Torna-se imperioso afirmar que vários desses grandes artistas se misturam direta ou indiretamente com a História do país em que atuam, o que realça o seu valor para a sociedade. Partindo desta premissa, a relação fã/ídolo tendo como pano de fundo períodos históricos, o dramaturgo Felipe Barenco, a diretora Joana Lebreiro e a atriz Kelzy Ecard levaram à ribalta há 15 anos o monólogo musical “Meu Caro Amigo”. Ciente de que o espetáculo se mantinha atual, carecendo apenas de alguns alinhamentos com a época vigente, o trio responsável pela peça, a partir da idealização de Kelzy, decidiu remontá-la para que novas e antigas plateias pudessem testemunhar e reviver respectivamente a deliciosa, poética e emocionante caminhada de Norma Aparecida, uma professora de História que desde a infância nutre uma adoração imensurável por Chico Buarque, resolvendo aos 60 anos de idade se apresentar em um show interpretando as suas músicas a fim de homenageá-lo.
Dramaturgia envolvente e bem-humorada de Felipe Barenco somada à direção sensível e hábil de Joana Lebreiro
Em sua envolvente, delicada e bem-humorada dramaturgia, Felipe nos oferta a linha evolutiva do sentimento de Norma pelo cantor e compositor, pontuando com esmero passagens determinantes da vida da professora que vão de 1966 a 2016, como o seu primeiro contato com Chico pela televisão, a educação rígida do pai, as reuniões familiares regadas a discussões políticas, a formação do fã-clube, seu ingresso na faculdade, seu engajamento político/estudantil e seus relacionamentos amorosos. O autor se mostrou bastante criterioso ao não preterir episódios de nossa História recente essenciais para o entendimento do que observamos hoje, como o Golpe Militar de 1964, a Passeata dos Cem Mil, o Ato Institucional Nº 5, a Anistia, o Movimento pelas Diretas Já, as eleições presidenciais de 1989, as eleições presidenciais de 2002 e o renascimento de forças de extrema direita nos últimos anos. Mais de 30 canções de Chico, em sua maioria clássicos incontestes, foram inseridas na trama, sendo ouvidas tanto originalmente quanto na voz límpida e sedutora da protagonista acompanhada pelo notável pianista João Bittencourt. Joana Lebreiro, com a sua direção sensível e hábil, alternando-se entre o despojamento e a concisão, encarregou-se de transmitir ao público com sobeja eficiência o universo particular e encantador de Norma. Joana conduziu a sua atriz para uma vereda em que houvesse espaços para uma interação espontânea com os espectadores, próxima a um bate-papo, um colóquio saboroso, e outros em que se buscou tons mais sóbrios e intimistas, observados em falas confessionais da personagem e em alguns números musicais. A diretora permitiu em todos os aspectos que Kelzy brilhasse livremente.
Quem não conhecia os dotes de cantora da maravilhosa atriz Kelzy Ecard irá se embevecer com as suas versões para as canções de Chico
Kelzy Ecard, atriz reconhecida com larga experiência nos palcos, oferece-nos uma linda performance de Norma Aparecida, vivaz, tocante, admirável em todas as nuances que compõem a personalidade desta professora movida à paixão. A intérprete, possuidora de múltiplas ferramentas artísticas, atesta-nos o seu domínio cênico absoluto, dando voz com bastante desenvoltura aos outros personagens que margeiam os diversos núcleos formadores de sua jornada. Impressiona-nos a sua capacidade de interlocução com o público, sempre feita de modo natural e genuíno. Quem não conhecia os dotes de cantora desta maravilhosa atriz irá se embevecer com as suas versões para as canções de Chico que não raro tocam fundo o coração (excelente preparação vocal de Pedro Lima). Kelzy Ecard, pode-se afirmar, é uma artista completa, fazendo-nos rir e emocionar, cantar e vibrar, cabendo-nos com júbilo aplaudi-la ao final. A direção musical coube a Marcelo Alonso Neves, que cumpriu com devoção a sua honrosa missão carregada de responsabilidades. Marcelo selecionou, o que não deve ter sido fácil, mas de certa maneira teve a sua cota de prazer, dentre uma obra extensa repleta de clássicos, mais de três dezenas de canções de Chico Buarque que pudessem ser inseridas na montagem respeitando a sua lógica narrativa. Ademais, deveria haver uma distribuição entre aquelas que seriam tocadas originalmente e outras que seriam cantadas pela atriz. Com equilíbrio, harmonia e coerência, Marcelo permite que a plateia se deleite com músicas como “A Banda”, “Apesar de Você”, “João e Maria”, “Todo o Sentimento”, “Eu Te Amo” e “Cálice”. O pianista João Bittencourt, além de acompanhar belamente Kelzy em suas interpretações, criou com talento passagens musicais que cumpriram o seu papel de realçar determinadas cenas. A cenografia e os figurinos tiveram a assinatura da dupla Dani Vidal e Ney Madeira. Ambos conceberam um cenário formoso e aconchegante, rico em detalhes e referências, com mais de uma dezena de LPs de diferentes fases da carreira de Chico suspensos à esquerda da ribalta, abajures de tamanhos distintos também suspensos e outro de pé, uma pequena mesa de madeira e sua cadeira, um balanço infantil, um sofá antigo estampado, um cortinado, tapetes e caixas de som com funções secundárias. Também houve grande acerto ao vestir a artista com um caftã vermelho com frases bordadas em azul e um legging, dando-lhe a oportunidade de se movimentar com fluidez e liberdade. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros valoriza a elegância e o bom gosto com o uso de um spot localizado atrás de Kelzy em certos instantes (como em algumas apresentações musicais), a exploração de refletores laterais bem nas pontas do palco, a aposta em planos com gradações próximas ao amarelo e a utilização de LEDs e filtros vermelhos e lilases. O efeito geral é fascinante.
“Meu Caro Amigo” é um espetáculo cheio de encantos que não deve ser apreciado apenas por aqueles que admiram a gigantesca carreira de Chico Buarque de Hollanda, devendo ser visto por todos aqueles que admiram uma realização teatral com potentes qualidades, que vão das músicas arrebatadoras tocadas e cantadas em cena à atuação de uma artista que de tão talentosa poderia ser chamada de “cara amiga do teatro”, a nossa “cara amiga” Kelzy Ecard.
Robson Torinni vive Alex, um garoto de programa, na peça “Tráfico”, sua segunda parceria com o autor franco-uruguaio Sergio Blanco/Foto: Gabriel Nogueira
Quase quatro anos após montarem um texto do autor franco-uruguaio Sergio Blanco, o ator Robson Torinni e o diretor Victor Garcia Peralta levam aos palcos outra de suas obras, “Tráfico”
Em novembro de 2018 estreava no Rio de Janeiro a peça “Tebas Land”, sucesso de público e crítica, escrita pelo franco-uruguaio Sergio Blanco, com Robson Torinni e Otto Jr. no elenco e direção de Victor Garcia Peralta. Há quase exatos quatro anos, Robson e Victor se juntam novamente em torno de uma obra do “mestre da autoficção” Sergio Blanco no espetáculo “Tráfico”, também um sucesso de público e crítica, há mais de dois anos em cartaz. Idealizado pelo ator e seu diretor, adaptado por ambos, o rascante, afiado e perturbador monólogo põe sobre a mesa questões atuais de uma sociedade globalizada cada vez mais próxima da distopia, com desigualdades econômicas com fortes impactos no bem-estar coletivo e crescente marginalização da população jovem carente de perspectivas concretas para se alcançar a dignidade prometida pelas leis.
Sergio Blanco se vale do gênero que o consagrou, a “autoficção”, para nos contar a história de Alex, um garoto de programa que acaba se tornando um “matador de aluguel”
No texto, o dramaturgo, escritor e diretor insere em seu corpo com a expertise que o consagrou os elementos que caracterizam o gênero por ele abraçado (a autoficção mistura fatos reais com ficções) ao nos contar a história, passada em alguma cidade periférica da América Latina, mas que poderia se passar em qualquer outro lugar, atestando a sua universalidade, de Alex, um rapaz nascido em um ambiente familiar violento, com afetos apenas de sua mãe, que face à carência de oportunidades legítimas, vê-se sugado pelo universo da prostituição masculina. A narrativa, apropriadamente dividida em três atos, oferece-nos com riqueza e detalhismo o apanhado de sua jornada turbulenta, envolta em sexo sem tabus e vícios sem limites, além dos problemas de relacionamento com sua namorada, o que não o impede de cultivar os seus sonhos, como o de ter uma moto luxuosa. A partir de um desses encontros sexuais pagos, desta vez com viés emocional, sua vida descarrila de forma irreversível ao assumir para si um outro personagem, o de “matador de aluguel”.
Robson Torinni adota dosagens elevadas de densidade interpretativa no meio obscuro e soturno habitado pelo seu personagem
Victor Garcia Peralta, com quem Robson também trabalhou na peça “A Sala Laranja: No Jardim de Infância”, utilizando-se do seu amplo conhecimento sobre o intérprete, explora com proficiência todas as suas capacidades dramáticas, com diferentes gradações, deixando-o bem à vontade no palco, aproveitando o ótimo canal de comunicação estabelecido com o público por meio de arrojadas cenas de plateia e interações pontuais, construindo um painel narrativo de grande coesão. O encenador, ciente de que tem como objeto de sua direção basicamente o texto e seu artista, procura da melhor forma possível e atinge êxito ao valorizá-los em todas as suas vertentes, mantendo as camadas de tensão do início ao fim. Robson Torinni, indicado aos prêmios APTR e Cesgranrio, ao possuir total consciência de que se deparou com um papel riquíssimo, esbanjando nuances e filigranas de sua personalidade complexa e ambígua, que reúne culpa, revolta, sentimentos de abandono e sexualidade confusa, ingenuidade, fanfarronice e religiosidade, entrega-se ao mesmo, mergulhando sem rede de proteção com absoluta bravura e audácia, adotando dosagens elevadas de densidade interpretativa, no meio obscuro e soturno habitado por Alex. Talvez um de seus momentos mais desafiadores e arriscados tenha sido o de fazer a delicada transição para a outra fase do personagem, marcada por uma hiper violência sem precedentes. Não caberia meio-termo para a composição deste jovem tão atormentado, e Robson, inteligentemente, optou pelo caminho do ápice emocional/dramático.
A celebração do reencontro de três artistas que se afinam plenamente
A direção de arte de Gilberto Gawronski cumpre um eficiente papel ao buscar o caminho da economicidade sem, todavia, deixar de lado algum elemento importante que falasse de modo direto com a identidade da peça, no caso, grandes acessórios suspensos que simulam claramente os retrovisores de uma motocicleta (seus espelhos provocam efeitos assaz interessantes ao refletirem momentos da história situados em marcações bem definidas). Toni Rodrigues, diretor de movimento, indicado ao prêmio APTR, executa, com bastante compreensão das demandas corporais de Alex, um excelente trabalho. Toni, aproveitando-se da ótima forma física do intérprete, apresenta-nos movimentos bruscos, rápidos, precisos e plásticos, sendo outros, de natureza mais frágil, lânguidos, suaves, sem que se dispense em nenhum instante a sensualidade que lhe é nata e a força viril de sua postura. A iluminação de Bernardo Lorga, indicada aos prêmios APTR e Cesgranrio, sobressai-se em diversos aspectos por suas consistentes escolhas, as quais resultam em efeitos coerentes ao texto e não raro impactantes para o público. Bernardo impõe tons realistas à encenação ao adotar matizes alaranjados/amarelados tênues em boa parte da obra juntamente com focos de LED. O profissional, com vistosa sensibilidade, fez uso de forma exuberante de um conjunto de refletores postos no fundo direito do palco, fontes de luzes fortes e pontos esverdeados. O diretor musical Marcello H. sublinha meticulosamente todo o espetáculo com uma trilha que se entrelaça de modo íntimo com a narrativa, demarcando com acurácia seus momentos-chaves. Além disso, Marcello garimpa com sucesso, a pedido da montagem, canções de caráter popular nacional ao lado de um irresistível standard do rock estrangeiro.
“Tráfico” celebra o reencontro de três artistas que se afinam plenamente: Sergio Blanco, Victor Garcia Peralta e Robson Torinni. Este triunvirato, não à toa, após a estreia da peça há mais de dois anos, ainda nos manda recados importantes e potentes acerca das mazelas de uma sociedade desigual que leva o indivíduo a trilhar por veredas espinhosas, abordando temas que nos são tão sensíveis. Um “tráfico” de desejos, sonhos abortados e realismo impossível de se ignorar.
Carol Chalita leva aos palcos a corajosa obra da prestigiada escritora libanesa Joumana Haddad/Foto: Vinícius Mochizuki
Uma prestigiada escritora que contestou a visão universal que se tem sobre a famosa personagem árabe Sherazade
Há centenas de anos o mundo considera Sherazade, personagem central da série de contos árabes “As Mil e uma Noites”, como símbolo de uma mulher forte e sábia que se utilizou de artifícios, no caso a narração de histórias repletas de suspense, para retardar o seu assassinato por um sultão, então seu marido, que após ser traído por uma esposa decidiu matar diariamente todas as outras com quem viesse a se casar. No entanto, na contramão do pensamento consolidado, Joumana Haddad, uma das mais respeitadas escritoras, poetas e ativistas árabes, nascida no Líbano, contestou esta visão, atestando haver sinais de submissão na conduta da lendária personagem para salvar a própria vida. Comemorando 20 anos de carreira, Carol Chalita, 11 depois de ter tido o seu primeiro contato com a obra de Joumana, “Eu Matei Sherazade”, idealizou e levou aos palcos no ano passado a primeira adaptação deste livro autobiográfico corajoso, libertário e contestador dos olhares deturpados que se tem sobre a condição feminina árabe no que tange à sua identidade, às suas vontades, lugar na sociedade e sexualidade.
Uma narrativa pujante capaz de abalar os pilares de um sistema social patriarcal e machista
Ao lado de Miwa Yanagizawa, diretora do espetáculo, Carol, com ascendência libanesa, construiu uma narrativa pujante, denunciativa, justa e política, com potencial para abalar os pilares de um sistema social fundado no patriarcado e no machismo. Desconstruindo a incontável gama de estigmas lançados sobre a mulher árabe, logra-se, com o texto dilacerante, aproximá-la outrossim da mulher ocidental, inclusive a brasileira, vítima de amarras semelhantes, invariavelmente colocada em um papel de inferioridade em múltiplas situações pelo gênero oposto. A dramaturgia singular eleva ainda a um patamar especial a relevância da literatura para a formação e transformação da escritora.
Direção poderosa de Miwa Yanagizawa e o acertado casamento entre atuação e a música de Beto Lemos
Miwa Yanagizawa imprime uma direção poderosa, impactante e ao mesmo tempo sensível à peça, traduzindo em imagens poéticas e belas a cara dramaturgia ao seu dispor. Miwa extrai de Carol infinitas possibilidades de deslocamentos no tablado, buscando e atingindo notável êxito em soluções criativas para cenas pontuais. Um acerto determinante para o sucesso da encenação fora o casamento entre atuação e música com a presença na ribalta do músico, diretor musical e autor da trilha sonora original da montagem Beto Lemos. A obra, com essa interação, ganha peso emocional indescritível. Beto Lemos é um extraordinário instrumentista e compositor, fazendo de suas músicas e sons ferramentas indispensáveis para que se materialize o calor do discurso dramatúrgico.
Carol Chalita atua com fúria e verdades desconcertantes
Carol Chalita, indicada ao Prêmio APTR como Melhor Atriz em Papel Protagonista 2024, pode-se dizer, conquistou com a sua performance um nível artístico de excelência e maturidade que deve ser apreciado ainda por muitas plateias. Carol, percebe-se, atua com fúria e verdades desconcertantes, como se fosse a porta-voz de todas as mulheres vitimizadas e vilipendiadas em suas liberdades, sendo a representante de uma urgente e necessária catarse coletiva. A bela atriz, com primorosos trabalhos de voz e corpo (movimentos que se alternam entre a precisão e a fluidez), méritos de Sonia Dummont, preparadora vocal, e Laura Samy, interlocutora de movimento, segura as mãos e a atenção do público e não as solta mais.
Um espetáculo crucial, necessário e obrigatório que nos serve de alerta
A cenografia, a cargo de Constanza de Córdova, é plasticamente original, com resultados inebriantes em seu conjunto. Constanza, que não prescindiu de elementos que remetessem à cultura árabe, como um largo tapete, utilizou-se de quatro colunas de tecido diáfano que além de embelezarem o quadro cênico, possuem, algumas delas, funções específicas, e dois painéis pintados com letras ocidentais e ideogramas árabes que atendem a demandas essenciais, além de outros acessórios, como livros espalhados no proscênio. Tereza Fournier, figurinista, apostou em bonitas peças, vestidos em tons nude e preto, que se equilibram entre a sensualidade das transparências e fenda e a sobriedade. Todos se adequam com perfeição ao “physique” da intérprete. A iluminação de Nina Balbi e Pedro Carneiro preenche lindamente a caixa cênica, com propostas mais sutis, delicadas e insinuantes, fazendo proveitosos usos das sombras, dos matizes amarelados e dos spots individuais, tanto na atriz quanto nas colunas de tecidos. “Eu Matei Sherazade, confissões de uma árabe em fúria” é um espetáculo que se define naturalmente como crucial, necessário e obrigatório, tendo em vista a sua imensa potencialidade de nos esclarecer e nos alertar, levando a todos, em especial os homens, não importa a sua nacionalidade, a assumir uma posição contrária à opressão secular a que, mulheres árabes e do mundo, são submetidas regularmente. Tudo isso feito com uma beleza furiosa.
Em seu primeiro monólogo, Othon Bastos conquista o público com as tocantes e divertidas passagens de sua riquíssima trajetória pessoal e profissional/Foto: Beti Niemeyer
Othon Bastos, em sua primeira montagem solo, narra com entusiasmo e graça a sua linda e inacreditável história de vida
Não são todos os dias em que o público de teatro brasileiro tem a rica oportunidade de assistir a um de nossos mais celebrados intérpretes, com vitoriosa trajetória no cinema, nos palcos e na TV, narrar com entusiasmo e graça sua linda e inacreditável história de vida, que se mistura com a das Artes no país, em cerca de uma hora e meia de espetáculo. É o que faz generosamente o baiano de Tucano, figura exponencial do Cinema Novo, Othon Bastos, com os seus admiráveis 91 anos de idade e 73 de carreira, em seu primeiro monólogo, escrito e dirigido por Flávio Marinho, “Não Me Entrego, Não!”, sucesso absoluto na programação cênica atual.
Com bastante humor, emoção e poesia, tudo o que há de mais relevante na trajetória do ator está presente
A belíssima dramaturgia de Flávio Marinho, respeitado profissional com muitos êxitos em sua bagagem, foi sendo construída ao lado do ator através de longas conversas e profunda pesquisa, inclusive se utilizando de farto material escrito pelo próprio reflexo dos pensamentos que nortearam suas vivências. Só mesmo um autor experiente e habilidoso como Flávio poderia ser capaz de condensar nos limites de um texto teatral os inúmeros e importantes episódios que marcaram os caminhos do garoto que na infância lia para a sua turma de colégio um poema de Olavo Bilac. Sabiamente, o dramaturgo, indicado tanto como autor quanto como diretor ao Prêmio FITA 2024 (Festival Internacional de Teatro de Angra), a fim de abarcar todos os elementos atinentes ao percurso trilhado pelo protagonista, dividiu a peça em blocos temáticos: trabalho, amor, teatro, cinema e política. Nada escapou à sua visão acurada. Com bastante humor, emoção e poesia, tudo o que há de mais relevante na história do rapaz que almejava ser dentista está presente. No trabalho, seus primeiros parceiros artísticos foram Walter Clark (futuro produtor e executivo da Rede Globo) e Roniquito (Ronald de Chevalier). Os incentivadores Paschoal Carlos Magno e Assis Chateaubriand. Sua lendária parceria com o cineasta, também baiano, Glauber Rocha, que o elevou ao posto inamovível de ícone do Cinema Novo ao encarnar o cangaceiro Corisco no filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964). Outros longas-metragens de que participou, como “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, “Os Deuses e os Mortos” (1970), de Ruy Guerra, e “São Bernardo” (1972), de Leon Hirszman. Peças emblemáticas que encenou, como “Um Grito Parado no Ar”, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1973, que serviu como símbolo de resistência à política ditatorial militar vigente à época, e “O Jardim das Cerejeiras”, de Anton Tchekhov, montada no Teatro dos Quatro, no Rio de Janeiro, em 1989. Também é abordado o seu longevo e feliz casamento de mais de 60 anos com a atriz “de olhos verdes” Martha Overbeck.
Othon Bastos tem o frescor dos iniciantes e a majestade dos intérpretes consagrados
A direção de Flávio Marinho apostou cegamente nos vultosos carisma e comunicabilidade do ator, deixando-o bem à vontade sobre a ribalta, com as marcações distribuídas com equanimidade cumpridas, resultando em um quadro teatral sólido e legítimo. Uma de suas mais eficientes sacadas foi a escalação da atriz Juliana Medella para representar a figura da “Memória” a quem Othon recorre vez ou outra, conferindo à montagem robusta dinâmica interativa (sua participação não subverte de modo algum o formato original de monólogo). Juliana, também diretora assistente do espetáculo, indicada ao Prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no FITA 2024, causa-nos a melhor das impressões pela sua postura cênica, ótima voz e notável expressividade corporal. Othon Bastos, indicado ao Prêmio Shell pelo júri do Rio de Janeiro e grande homenageado no FITA 2024, ilumina todo o teatro a partir do momento em que dá o seu primeiro passo no tablado e emite a primeira sílaba do seu texto. Othon, com seu talento de gigantes dimensões, que transcende os limites do ponderável, não nos permite tirar o olhar de sua envolvente imagem um único segundo, reafirmando a sua condição inconteste de artista universal, moldado para ser aplaudido em qualquer plateia mundo afora. Sua voz poderosa e articulada atinge todas as camadas e etapas emotivas ambicionadas. Seus pendores para a graça e a dramaticidade são igualmente irresistíveis. Com vitalidade extraordinária, Othon Bastos tem o frescor dos iniciantes e a majestade dos intérpretes consagrados. A direção de arte de Ronald Teixeira tangencia o barroco com os seus detalhes que nos fazem viajar pelo universo habitado por Othon Bastos. Esta agradável imersão nos é proporcionada por três painéis de tecidos nos quais se veem molduras de quadros de formas e tamanhos variados com imagens de diversas fases da vida e carreira do ator, além de alguns signos (a grande foto central de Corisco encimada pelos olhos verdes de Martha Overbeck ao lado de um ramalhete de cerejeiras nos arrebata pela sua força). Ronald se vale ainda de mobiliários de madeira e acrílico que servem a contento a todas as solicitações da narrativa. A delicadíssima trilha sonora, afinada com o roteiro, coube a Liliane Secco, que não nos poupou de sua conhecida sensibilidade ao realçar momentos-chaves da produção, entregando-nos melodias baseadas nos sons de teclados, cordas e percussão, acrescidas por um ritmo regional empolgante. A iluminação de Paulo César Medeiros avoluma a qualidade técnica da encenação ao utilizar com proficiência dois tripés de pequenos spots, um de cada lado do palco ao fundo, um conjunto de refletores superiores atrás e dois outros à frente em campos opostos no nível do piso. Com focos estudados, planos abertos valorosos e texturas pontuais em azul, Paulo exerce com louvor a sua missão. O visagismo de Fernando Ocazione e a alfaiataria de Macedo Leal, com destaque para o vistoso blazer marrom de Othon, somam-se à sua elegância natural. “Não Me Entrego, Não!”, com consultoria artística de José Dias, consolida-se como uma joia recente no cenário teatral brasileiro, joia que será lembrada infinitamente por todos que lhe assistiram, testemunhas vivas da consistente e verdadeira vocação de um ator para o seu ofício, Othon Bastos, que, do sertão ao jardim das cerejeiras, nunca se entregou, mas que no palco mergulha fundo como poucos tiveram a coragem de fazê-lo. Othon Bastos, presente!
Marcéu Pierrotti e Júlio Oliveira vivem dois cowboys norte-americanos que se apaixonam no alto da montanha de Brokeback enquanto pastoreavam ovelhas/Foto: Tercianne Melo
Após assistir à montagem londrina de “Brokeback Mountain”, adaptada de um conto que originou o grande filme homônimo, o ator Marcelo Brou decide montá-la no Brasil em parceria com o respeitado diretor Moacyr Góes
Em 09 de dezembro de 2005 era lançado nos cinemas dos Estados Unidos um filme que abalaria o “establishment” da indústria de sonhos. O longa-metragem dirigido pelo taiwanês Ang Lee, “O Segredo de Brokeback Mountain” (“Brokeback Mountain”), vencedor de 3 Oscars, mas não o de “Melhor Filme” como se esperava, estrelado por Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, com roteiro adaptado do conto da jornalista e escritora americana com ascendência franco-canadense Annie Prouxl (o conto, que integra a coletânea “Close Range”, foi lançado originalmente em 1997 pela revista “New Yorker”), subverteu a sacralidade de um dos gêneros cinematográficos mais admirados pelos estadunidenses, o western, ao retratar o amor homoafetivo de dois cowboys do interior do país na década de 60. Sua trajetória pelas salas de cinema de outras nações foi marcada por polêmicas e censuras, mas a sua aura de “grande filme” nunca foi maculada. O ator Marcelo Brou, ao assistir à montagem de “Brokeback Mountain” no West End londrino, escrita pelo americano Ashley Robinson, decidido a encená-la no Brasil, contatou o prestigiado diretor Moacyr Góes e todo o processo de realização artística de seu projeto foi levado adiante.
Sem perder o ótimo apelo ficcional, a peça de Ashley Robinson aborda temas que afligem a sociedade há tempos, como a homofobia e o machismo, mas também acentua a imperiosidade do desejo e amor entre os indivíduos, não se importando com os seus gêneros
A peça “O Segredo de Brokeback Mountain”, desde agosto em cartaz no Rio de Janeiro, inédita no Brasil, com tradução exemplar de Miguel Góes, passa a ser uma parada obrigatória para o público de teatro, independente de quem assistiu ao filme ou não, por uma multiplicidade de fatores, que incluem a rica e corajosa dramaturgia, a direção experiente de Moacyr, a entrega e talento de seus protagonistas, Marcéu Pierrotti (Ennis Del Mar) e Júlio Oliveira (Jack Twist), todo o elenco que colabora gloriosamente para o êxito da obra e as lindíssimas e tocantes músicas do cantor e compositor inglês Dan Gillespie Sells. Dinâmica, envolvente, emocionante e cheia de reviravoltas, a narrativa desenvolvida por Ashley Robinson, ao nos contar a história desses dois vaqueiros de comportamentos opostos que se veem obrigados a ficarem sós no topo de uma montanha com o objetivo de pastorear ovelhas e se apaixonam, aborda, sem perder seu ótimo apelo ficcional, temas que afligem a sociedade há tempos e que merecem todo e qualquer tipo de análise que nos leve à mais ampla reflexão, como homofobia, violência infantil, machismo, desrespeito às diferenças e o patriarcalismo. O autor, ciente da importância dos assuntos levantados pelo conto de Annie Prouxl, pôs em seu texto com notável destreza a multifacetada personalidade humana com todos os seus erros, intolerâncias, preconceitos, negações e hipocrisias, mas também acentuou a imperiosidade do desejo e do amor entre os indivíduos, não se importando com os seus gêneros. Tudo muito bem capturado pelo tradutor Miguel Góes.
Moacyr Góes cria uma atmosfera bastante familiar ao tempo e espaço em que se passam os episódios do espetáculo, enriquecendo-o ao privilegiar a música ao vivo
Moacyr Góes, insigne diretor responsável por clássicos do teatro brasileiro, como “Escola de Bufões” e “Os Gigantes da Montanha”, criou uma atmosfera bastante familiar ao tempo e espaço em que se passam os episódios determinantes das vidas de Ennis e Jack, apostando em uma exponencial movimentação dos atores com diferenciadas marcações na ribalta, utilizando-se de acessórios de cenário, como toras longas e finas de madeira, para demarcarem situações e lugares específicos. Outros acertos do encenador foram cruciais para o resultado vitorioso da obra: a presença dos excelentes músicos João Pedro Moschkovic (guitarra) e Miguel Góes (violão) tocando ao vivo no palco, a também onipresença do ator Marcelo Brou, como Ennis mais velho, contemplando o desenrolar da peça com as mais sutis reações, como se estivesse reavaliando o seu passado, e as intervenções musicais da atriz Catarina Marcato com a sua bela voz em momentos estratégicos. Há que se elogiar também o cuidado com que Moacyr, sem descambar para as vias mais fáceis, dirigiu as cenas de afeto e sexo entre os personagens.
Marcéu Pierrotti e Júlio Oliveira formam uma dupla entrosadíssima, confirmando o acerto de suas escalações, sendo acompanhados por um time de atores que se empenha com notável lealdade ao texto
Marcéu Pierrotti, com o seu porte, estampa e talento, passa-nos uma pujante presença em cena, na qual são claramente observadas as suas bem-sucedidas intenções em preencher com todos os elementos à sua disposição, inclusive nas linguagens corporal e vocal, a figura do vaqueiro arredio, tosco, monossilábico e viril. O ator desenha com sucesso o seu personagem com a masculinidade padronizada que os códigos sociais exigem, transformando-se pouco a pouco, e com isso demonstrando novas camadas emotivas à medida que os acontecimentos se sucedem. Júlio Oliveira acompanha seu parceiro na mesma intensidade de força dramática, impondo-se positivamente na trama com o seu Jack Twist mais extrovertido, resoluto, questionador e afirmativo. Ao contrário de Ennis, o papel de Júlio lhe permite ostentar uma masculinidade menos normativa, abrindo-lhe espaços para ostentar emoções e sensibilidades que ao final acabam por seduzir de maneira irreversível o seu objeto de paixão. O intérprete nos garante ainda um terno instante ao entoar uma bonita e melancólica canção. Enfim, uma dupla entrosadíssima em todos os aspectos, confirmando o alto acerto de suas escalações. Os dois são acompanhados por um time de atores que se empenhou com notável lealdade à proposta do texto de Ashley Robinson. Além de Marcelo Brou e Catarina Marcato já mencionados (Catarina também interpreta Alma Beers, a esposa de Ennis, com o choque inicial, a passividade e o enfrentamento à traição com os tons exatos), destacam-se Eduardo Rieche (defendendo três personagens, revela bem-vinda versatilidade; como Aguirre, o empregador dos caubóis, mostra dureza e viés preconceituoso; como Bill, o novo marido de Alma, timidez e um certo constrangimento; e como o pai de Jack, uma mágoa avassaladora na qual se esconde uma profunda decepção); Arlete Heringer, além da garçonete, apresenta-nos com absoluta verdade a dor incontida e a generosidade da mãe de Jack) e Ana Elisa Schumacher, como a mulher de Jack, Laureen, demonstra com altivez a comoção da esposa que sofrera um enorme revés.
O grande segredo de Ennis Del Mar e Jack Twist
A encantadora iluminação de Adriana Ortiz busca uma permanente suavidade, jamais se excedendo, trilhando caminhos que se alinhem com o realismo sem no entanto preterir matizes como o azul, o azul-esverdeado e o lilás, conferindo poesia às cenas. A direção musical de Miguel Góes é magnífica, aproximando o público da história e fazendo com que as melodias e os acordes instrumentais sejam personagens relevantes da encenação. Ana Elisa Schumacher fez um belo, pesquisado e fiel trabalho com os figurinos, ambientando-nos fortemente com o universo country, simbolizados nas diversas jaquetas, camisas xadrezes, peças jeans, t-shirts, botas e chapéus. Angela de Castro executou uma admirável preparação vocal do elenco. “O Segredo de Brokeback Mountain” é um espetáculo que já começa vitorioso com a bravura de seu idealizador, Marcelo Brou, em encenar um texto que fala do amor entre iguais e todo o preconceito que o cerca em uma comunidade opressora, alcançando outras tantas vitórias a partir do momento em que foi ganhando vida no palco. Não há como sair do teatro sem se comover com a história desses dois homens que tiveram toda uma sociedade contra eles. O amor que veio do alto da montanha de Brokeback não precisou ser consertado, sendo sustentado porque foi infinitamente amado. Este é o grande segredo de Ennis Del Mar e Jack Twist.
Caio Manhente e Natália Lage interpretam filho e mãe que foram separados de forma trágica na peça idealizada por Ana Beatriz Nogueira/Foto: Guilherme Scarpa
Um espetáculo que se arrisca a abordar o que para muitos é a maior das dores humanas, a perda de um filho
Perde-se a conta de quantas são as dores possíveis do ser humano. Condição inescapável e indissociável da existência do indivíduo, a dor, em sua multiplicidade de faces e diferentes níveis de intensidade, não tem hora e dia marcados para chegar. A imprevisibilidade é uma de suas mais cruéis características. Elucubra-se, talvez de forma leviana, a respeito de qual seja a mais insuportável para o homem. Curiosamente, a humanidade parece se aproximar de uma improvável certeza ao determinar que a perda de um filho seja a mais devastadora das dores, utilizando como inconteste argumento a inversão da “ordem natural da vida”. A despeito disso, a personalidade espinhosa deste tema, evitável para muitos, um tabu para tantos outros, não inibiu o premiado dramaturgo, jornalista e escritor paulista Sérgio Roveri em formalizá-lo teatralmente no comovente, sensível e poético espetáculo “Ensaio Para Um Adeus Inesperado”, uma idealização de Ana Beatriz Nogueira, também codiretora com Lena Brito e parceira de Zélia Duncan em sua trilha sonora. Sérgio foi ainda, destemidamente, mais além, ao inserir em seu texto um elemento carregado de altíssima tragicidade, pisando em um terreno com visíveis riscos, passível de rejeição, o suicídio.
Sérgio Roveri, o autor, possui notável apreço pelas palavras e construções frasais enquanto Ana Beatriz Nogueira e Lena Brito, diretoras, logram um resultado de forte impacto cênico
O autor, com notável apreço pelas palavras e construções frasais com toda a beleza que lhes é inerente, optou pela adoção de monólogos, cujas estruturações das falas de seus personagens passeiam com desenvoltura pelos campos narrativo, descritivo (inclusive com rubricas), memorialista e confessional, tornando a sua dramaturgia clara, limpa, precisa e com grande inteligibilidade para o público. Sérgio, ciente da aspereza do assunto de que trata, uma mãe que nos relata a dor da perda de um jovem filho de 22 anos que ceifou a própria vida após um prosaico café da manhã de uma segunda-feira e como teve que lidar com imensurável luto, consegue com indiscutível habilidade torná-lo menos pesaroso, lançando mão de instrumentos que o suavizam, ornando-o com filigranas poéticas e até mesmo descontraídas e com um reservado humor. As diretoras Ana Beatriz Nogueira e Lena Brito realizaram um primoroso e afiado trabalho com os seus dois intérpretes, Natália Lage e Caio Manhente, mantendo-os no palco durante todo o tempo enquanto cada um desenvolve o seu monólogo como se fosse uma franca conversa com a plateia, um necessário desabafo, assumindo ambos, como já fora dito, vários estilos de comunicabilidade. A ausência física do filho fora severamente acentuada por não haver quaisquer tipos de interação, mesmo transcendental, entre esses dois seres tão íntimos, havendo no máximo um olhar de uma das partes. Percebe-se, também, uma nítida distinção de marcações entre os protagonistas, com Caio tendo plena liberdade de movimentos ao passo que Natália defende o seu papel em posição sentada, impávida, propositalmente “presa” em suas lembranças. Ana Beatriz e Lena logram um resultado de forte impacto cênico com sua plasticidade estética inebriante em que não faltaram reverências calculadas ao silêncio e à sílaba.
Natália Lage e Caio Manhente, que têm em comum o início de suas carreiras na infância, revelam à plateia impressionante maturidade artística ao defenderem personagens tão complexos
Natália Lage, atriz niteroiense reconhecida pelo seu talento desde que iniciou a sua bem-sucedida carreira na infância, revela uma absoluta maturidade artística ao abraçar com convicção e elevada credibilidade uma personagem com tantas nuances emocionais e existenciais, marcada indelevelmente pela mais profunda dor. Natália, com descomunal domínio de seu corpo, observado anteriormente, assim como o cuidadoso controle de sua voz, exprime as mais diversas sensações da mãe despedaçada em um equilíbrio assaz delicado no qual convivem a sobriedade e a contenção aparentes com uma ebulição de sentimentos contraditórios e confusos guardados em seu íntimo na iminência de explodir. Uma atuação admiravelmente segura e tocante. Caio Manhente, carioca, acostumado ao sucesso desde muito cedo, assim como a sua colega de cena, como o filho cujo nome não se sabe, dá um salto qualitativo em sua jornada artística de dimensões inalcançáveis, causando as mais positivas impressões em quem fora lhe assistir. Sua bela maturidade interpretativa também nos é ofertada das mais distintas formas, com ótimos usos de seus materiais de trabalho, corpo e voz, haja vista que as demandas emocionais que lhe são exigidas pela complexidade de seu papel são inegavelmente difíceis. Sua performance coroada de riquezas lhe garante um lugar especial na galeria dos mais talentosos e sensíveis atores de sua geração.
Com figurinos deslumbrantes de Analu Prestes e uma linda versão de Zélia Duncan para “Lanterna dos Afogados”, “Ensaio Para Um Adeus Inesperado” é uma peça que toca fundo nas emoções mais recônditas do público com as suas mensagens
Os figurinos de Analu Prestes, respeitada profissional da área, também atriz e artista plástica, são incrivelmente lindos, inseridos sabiamente no contexto cênico. Analu, inspiradíssima, trajou os protagonistas com casacos largos de tricô (vermelho forte para Natália e em tons mostarda para Caio), cujos efeitos estéticos são deslumbrantes (maravilhosa criação de Ticiana Passos). Para a atriz, Analu ainda reservou uma ampla saia preta que se espraia pelo tablado e para o seu companheiro de peça calça e tênis pretos. De maneira bastante criativa, para o cenário, foi buscada uma conexão com o figurino, materializada em uma extensa faixa de tricô que se inicia no casaco da mãe, atravessa o palco e é usada por Caio de diferentes modos. Encarregado pela iluminação, Paulo César Medeiros privilegiou o uso de um número reduzido de spots, em lugares pré-determinados, que garantiram focos nos intérpretes com magníficos resultados para a montagem. Paulo se esmerou em construir com as suas luzes um universo mais intimista que conversasse com propriedade com a história que nos é contada. A elegante e sedutora trilha sonora conta com a contribuição valorosa de uma aclamada intérprete da MPB, Zélia Duncan, que a divide com Ana Beatriz Nogueira. A trilha, com a bem-vinda direção musical e arranjos de Léo Brandão, é enriquecida em momentos pontuais por bonitos acordes de violoncelo e uma emocionante e linda versão de Zélia, com sua voz grave inconfundível, para o clássico dos Paralamas do Sucesso “Lanterna dos Afogados”. “Ensaio Para Um Adeus Inesperado” é uma peça emocionante, pungente, com infindas possibilidades de tocar fundo nas emoções mais recônditas do público, dentre tantas razões, pelas suas mensagens de libertação, redenção e superação humanas, mostrando-nos que a vida, apesar de ser um doloroso ensaio em muitas ocasiões, pode ser também a oportunidade para uma grande e vitoriosa estreia.
Leonardo Netto em cena no seu premiado monólogo “3 Maneiras de Tocar no Assunto”/Foto: Dalton Valerio
O tema “homofobia” é colocado sobre a mesa e discutido seriamente por Leonardo Netto em três solos curtos na peça de sua autoria “3 Maneiras de Tocar no Assunto”
Há assuntos que devem obrigatoriamente ser colocados sobre a mesa e serem discutidos com seriedade em uma coletividade organizada, como a homofobia e todas as outras formas de fobia quanto à orientação sexual e identidade de gênero de uma pessoa. Por muitos anos, essas pautas foram deixadas de lado no Brasil, pois não interessavam aos segmentos mais conservadores da sociedade, incluindo Poderes como o Executivo e o Legislativo. O resultado de tanta omissão e preconceito foi a triste posição do país em primeiro lugar entre aqueles que mais matam populações LGBT no mundo. Recentemente, alguns avanços foram observados graças à ingerência do Poder Judiciário, na figura do Supremo Tribunal Federal (STF), em prol dessas minorias carentes de quase 70 direitos previstos na Constituição Federal. Partindo desse deplorável quadro de descaso com as diferenças, em particular com os homossexuais, o ator, diretor e dramaturgo niteroiense Leonardo Netto se debruçou com absoluta propriedade e entrega na construção de uma narrativa que abordasse com legitimidade este tema tão relevante e intrínseco ao comportamento humano, no monólogo “3 Maneiras de Tocar no Assunto”, estrelado por ele próprio com a direção de Fabiano Dadado de Freitas. A avassaladora e premiadíssima montagem, vencedora dos prêmios Cesgranrio, APTR-RJ e Cenym de Teatro Nacional, que desde 2019 vem singrando uma exitosa trajetória pelos palcos brasileiros, contém um bem estruturado arco dramatúrgico dividido em três solos curtos que apontam as instâncias “A Escola”, “A Lei” e “O Estado”, nominados respectivamente “O homem de uniforme escolar”, “O homem com a pedra na mão” e “O homem no Congresso Nacional”, representados com vultosa significância, seguindo-se a ordem, por casos reais, sendo alguns fatais, de alunos que sofreram bullying escolar; pela “Revolta de Stonewall”, quando em 28 de junho de 1969, em uma boate de Nova York, “Stonewall Inn”, a comunidade LGBT resistiu bravamente aos ataques sofridos por forças policiais, o que fez com que esse dia se tornasse um marco histórico para os grupos que a compõem, transformando-se no “Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+”; e nas falas e discursos de um deputado ativista gay na tribuna da Câmara nacional, abertamente inspirados em diversas explanações do ex-deputado federal Jean Wyllys.
Leonardo Netto, em atuação verdadeira e emocionante, enfrentou com múltiplos méritos os desafios que lhe foram propostos pelo seu texto
O diretor Fabiano Dadado de Freitas soube com louvável ciência equalizar para o público, respeitando-se o nível de importância de cada um, os curtos solos ao seu dispor, imprimindo-lhes com grande adequação as camadas linguísticas solicitadas pelo autor, com um proposital didatismo no primeiro, uma carga emocional mais intensa no segundo, com alguns momentos de ludicidade e liberdade ficcional, e uma coloração com tintas mais inflamadas nas mensagens explícitas do terceiro. Fabiano se utilizou com visível sucesso de imagens projetadas em um telão, em sua maioria de arquivo, com inegável valor para a História, como os registros da “Revolta de Stonewall”, uma jovem e linda Judy Garland cantando e manchetes estarrecedoras de impressos que disseminavam o ódio e a segregação dos homossexuais, além do anúncio da introdução dos solos e suas consequências. O encenador ofertou ao seu artista uma ampla paleta de possibilidades de ocupação espacial, assegurando-lhe interações produtivas tanto com as projeções quanto com os poucos elementos do cenário, mas principalmente com os espectadores. Leonardo Netto, um intérprete com profundo conhecimento das engrenagens teatrais, admiravelmente convicto de suas responsabilidades artísticas, parece-nos um audaz soldado em um campo de batalha, esquivando-se de cada mina que lhe fora colocada pelo inimigo, entregando-se de peito aberto a uma luta aparentemente inglória, mas que, com persistência, resiliência e sabedoria pode ser vencida. Face a esta alvissareira impressão, tem-se o melhor dos corolários, ou seja, a de que Leonardo, com seu elevado talento, enfrentou com múltiplos méritos os desafios que lhe foram propostos pelo seu texto, transmitindo-nos com imensa verdade e larga emoção as mensagens denunciatórias entranhadas no cerne dramatúrgico. Seu magnífico trabalho é completo por uma direção de movimento extraordinária de Marcia Rubin que, com sensibilidade, primor e inspiração, esmiuçou as infindas potencialidades expressivas do material humano, com deslocações vigorosas, danças, saltos e desenhos dos braços no ar.
Um monólogo que toca o dedo na ferida, sendo um aviso eloquente para a sociedade do real perigo que a adoece
Mais um ponto alto da peça é a iluminação de Renato Machado, um experiente profissional que sabe, como poucos, identificar o que a cena pede em termos de ambientação. Renato generosamente orna os quadros cênicos com exemplar variedade de técnicas, seja em feixes que se “abrem” em vários outros, surtindo um belo efeito, seja na impressionante exploração de focos sobre o rosto do ator e deslumbrante fruição das sombras. Luíza Fardin, a quem coube o figurino, decidiu pela sobriedade sem prescindir da elegância, trajando o protagonista com um conjunto de terno, calça, camisa e gravata em tons de grafite mais claros ou escuros. Elsa Romero, cenógrafa, apostou no pragmatismo ao distribuir pela ribalta dois praticáveis vazados, um maior e outro menor, com uma bacia d’água sobre um deles, que servem funcionalmente muito bem às necessidades do intérprete. Rodrigo Marçal e Leonardo Netto conceberam uma trilha sonora diversificada e envolvente que se alterna entre o potente (com riffs de “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana), o pop dançante, a balada/rock e o romântico ingênuo na doce voz de Judy Garland, agradando em cheio aos que estimam o ecletismo musical. Tais escolhas se somaram valorosamente às qualidades da peça. “3 Maneiras de Tocar no Assunto” atende a um dos princípios basilares da arte teatral, que é a de ser um instrumento vivo e poderoso de transformação social e cultural. O monólogo criado e encenado por Leonardo Netto toca o dedo na ferida, brada, alerta-nos, reivindica, briga com quem deve se brigar, sendo um aviso eloquente para a sociedade do perigo real que a adoece. Tudo isso com apenas três maneiras de tocar no assunto.