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Karine Teles como Gilda, na série selecionada para o Festival de Berlim, na Mostra Berlinale Series, “Os Últimos Dias de Gilda”/Foto: Divulgação

Dando continuidade a uma bem-sucedida parceria entre a atriz e roteirista Karine Teles e o diretor, produtor e também roteirista Gustavo Pizzi, a série colocou o país pela primeira vez na disputa desta categoria no Berlinale Series deste ano

Karine Teles despertou a atenção do público cinematográfico em “Que Horas Ela Volta?” (2015), de Anna Muylaert, representando a ponta privilegiada da distensão social entre patrões e empregados. Já em “Benzinho” (2018), juntou-se ao diretor e roteirista Gustavo Pizzi, coescrevendo e protagonizando a história de uma divertida família de classe média que sofre com a iminência de um de seus filhos ir para o exterior (ambos haviam trabalhado antes no longa “Riscado”, de 2010). Essa bem-sucedida parceria rendeu o tenso “Os Últimos Dias de Gilda”, com direção e produção de Gustavo, baseado na peça homônima de Rodrigo de Roure, encenada por Karine em 2004. A ótima série, roteirizada pela dupla, logrou um feito inédito, ser a primeira produção brasileira do gênero selecionada para o Festival de Berlim deste ano, na Mostra Berlinale Series.

Lançada no Canal Brasil, “Os Últimos Dias de Gilda” envolve o público num clima de crescente tensão ao abordar a convivência de Gilda, uma mulher liberal e independente, com os moradores conservadores de sua rua, na qual se imiscuem intolerância religiosa, associação entre política e religião, violência policial/miliciana e preconceito comportamental

A trama original do Canal Brasil, com fotografia naturalista de Pedro Faerstein (onde há também momentos iluminados pictoricamente com resultados elegantes), aborda com propriedade questões relacionadas à intolerância religiosa, associação entre religião e política, violência policial/miliciana e liberdade sexual feminina. Gilda é uma criadora de porcos e galinhas, cozinheira, que vive entre seu trabalho, papos com a amiga Jandira (Ana Carbatti) e os muitos envolvimentos amorosos. No entanto, ela mora numa rua dominada por evangélicos, empenhados na eleição do pastor Ismael (Higor Campagnaro), casado com a preconceituosa e amarga Cacilda (Julia Stockler), que a persegue impiedosamente. Adepta de religião de matriz africana, Gilda é cada vez mais ameaçada. Dividida em quatro episódios, marcados pela direção precisa e sensível de Gustavo, a história prende o espectador pela sua crescente tensão com consequências imprevisíveis.

Uma obra que exalta a liberdade e o querer das mulheres, provando o tamanho da potência quando se unem contra toda e qualquer opressão

O elenco é impecável, começando por mais uma soberba atuação de Karine, desde já uma das estrelas do cinema contemporâneo. Acompanham-na com irretocáveis composições de seus personagens os citados Ana Carbatti, Higor Campagnaro e Julia Stockler, Antonio Saboia (Wallace, policial que vigia a rua), Inez Viana (Celina, mãe de Gilda), Dida Camero (Teresa, mãe de santo), João Vitor Silva (Alvinho, jovem amante de Gilda) e Erom Cordeiro (Sargento Jordão). Tecnicamente, além da fotografia, a direção de arte detalhada de Dina Salem Levy, os figurinos bastante coerentes de Diana Leste e a bem conduzida trilha sonora original de Pedro Sodré e Rudah foram inegavelmente entregues em boas mãos. “Os Últimos Dias de Gilda”, uma produção da Baleia Filmes, é em sua essência uma obra que realça o poder feminino contra toda e qualquer opressão. Um filme que exalta a liberdade e o querer das mulheres, provando o tamanho da potência quando se unem. Na verdade, são os primeiros dias de Gilda em uma longa batalha ainda a ser vencida.

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