
relação amorosa/Foto: Sabrina da Paz
A atriz, diretora e roteirista Melise Maia, ciente do poder transformador de Clarice Lispector, idealizou e fez a ótima e pioneira adaptação para os palcos do sexto romance publicado da escritora
Não há indivíduo que passe incólume ao se deparar com a riquíssima obra da escritora ucraniana que abraçou o Brasil como pátria Clarice Lispector. Seja em suas publicações (romances, contos e ensaios), seja em adaptações para o audiovisual e Artes Cênicas, os íntimos sentimentos e sensações, vividos no cotidiano, de uma das mais importantes literatas brasileiras do século XX, causam de modo não variável uma inescapável identificação em quem se propõe a ser o sujeito passivo de suas expressões pessoais, não importando o gênero a que pertença este sujeito, afinal a autora escrevia para o ser humano (o “ser” humano era uma de suas mais caras questões). A atriz, diretora e roteirista Melise Maia, ciente do poder transformador de Clarice, idealizou e fez a pioneira e ótima adaptação para os palcos de seu sexto romance publicado, “Uma Aprendizagem Ou O Livro dos Prazeres”, de 1969.
O público acompanha com robusto interesse o périplo deste bonito par rumo ao prazer tāo almejado
O espetáculo, com o título reduzido para “O Livro dos Prazeres”, apresenta-se como uma chance obrigatória de se mergulhar em um dos muitos mundos particulares da também jornalista que se declarava “brasileira e pernambucana”. A encenação nos introduz no universo da professora primária Lóri (ou Loreley, referência à sereia que encantava navegantes e pescadores na lenda alemã do início do século XIX), Melise Maia, e seu enfrentamento com os próprios desejos, medos, inseguranças, dúvidas e a vontade irredutível de vivenciar intensamente uma paixão que resulte em um verdadeiro amor. Destacando-se como eficiente recurso dramatúrgico, Lóri escreve as futuras linhas de sua história em uma máquina de datilografar (uma alusão a Clarice?). E nesta sua “ficção” encontra um belo rapaz, garboso, Ulisses (Rafael Queiroz), professor de Filosofia, enquanto tentava pegar um táxi. A partir desse primeiro encontro vão se desenrolando passo a passo as complexas etapas que configuram o ato da conquista amorosa, com dificuldades e obstáculos impostos de lado a lado. Ambos transcendem a oposição de gêneros, levando-a para lugares ainda mais remotos. Lóri, numa luta interna para não se deixar vencer pela sua ansiedade, angústia e impaciência face à iminência da realização de seus anseios afetivos, trava uma outra luta com Ulisses, que com aparente racionalidade tenta sempre frear os seus instintos e aspirações, como se colocasse regras em um jogo de sedução que não deveria ser regrado. Mérito da adaptação de Melise, que respeita a sacralidade das intenções da escritora com todas as suas alegorias, idílios e epifanias não raro associados à natureza, o público acompanha com robusto interesse o périplo deste bonito par rumo ao prazer pleno tão almejado.
Uma montagem sedutora e charmosa com direção de Ernesto Piccolo cujos protagonistas, Melise Maia e Rafael Queiroz, atuam com valiosíssima verdade
A direção geral de Ernesto Piccolo atinge uma adorável comunhão entre o texto e seus protagonistas, tornando a montagem exponencialmente sedutora e charmosa. Ernesto, ao compreender o desafiador jogo afetivo à sua frente, buscou dinamizar as marcações e movimentações, inclusive com cenas de plateia e à beira do palco (a comunicação com os espectadores nestes momentos é nítida e producente para a peça). O diretor se empenhou e logrou êxito ao colocar sempre que possível um fino e agradável humor em sua condução cênica. Melise Maia e Rafael Queiroz imprimem valiosíssima verdade aos seus personagens, ostentando-nos uma sintonia cujo alcance não é tão simples. Melise transmite com sensibilidade e força a explosão de emoções que cerca o comportamento de Lóri, tendo que atender a oscilações intermitentes dos humores que a invadem. Já Rafael Queiroz, com inquestionável presença de palco, causando um certo frisson com a sua primeira entrada em cena, buscou com louvável acerto um tom mais centralizado, questionador, inquisidor e com um leve cinismo nas entrelinhas de suas falas. Enfim, uma afinadíssima dupla. A refinada direção musical e arranjos ficaram nas excelentes māos do ilustre Edu Lobo, que contou com músicos altamente qualificados e reconhecidos, Mauro Senise (sopros), Cristóvão Bastos (piano) e Jorge Helder (contrabaixo). Rostand Albuquerque executou com beleza, inventividade e coerência o seu cenário, com móveis e objetos em estilo retrô, como uma cadeira de madeira com estofamento branco, mesa com a citada máquina de datilografar e telefone, além de um abajur e luminárias penduradas. Sobre estes elementos um longo móbile formado por diversos livros, ideia que confere maior formosura e harmonia à ambientação proposta (há ainda um extenso painel branco atrás o qual servirá para a luz de Eduardo Salino). A iluminação de Eduardo oferece à plateia uma vasta paleta de coloridos estonteantes, feéricos, com a prevalência do rosa, variações de lilás e azul. A luz aberta sobre os intérpretes e parte do teatro tem efeitos bem-sucedidos. Marcela Treiger esbanja elegância e bom gosto nos figurinos selecionados. Sāo diversas as peças que tāo bem vestem os atores, além dos acessórios, como vestidos, blazers, escarpins e mocassins e roupas de banho. Márcia Rubim, diretora de movimento, contribui com a sua farta experiência no ofício ao provocar tanto em Melise quanto em Rafael a expressividade corporal compatível com os seus personagens com resultados positivos.
“O Livro dos Prazeres” é um espetáculo pleno em maravilhas cênicas e textuais, entregando ao público a essência reveladora e honesta de uma mulher que nāo temia em dividir com os seus leitores suas dores, sonhos e prazeres. E quem escreveu este “livro teatral” com adorável paixão foram Melise Maia e Rafael Queiroz.