“Em ‘O Pior de Mim’ Maitê Proença se despe de todas as suas personagens e vive o mais difícil papel de sua carreira: ela mesma.”

Maitê Proença revela ao público suas experiências de vida, que incluem traumas familiares, viagens de autoconhecimento e os desdobramentos na carreira/Foto: Dalton Valério

Maitê Proença oferta à plateia teatral a versão definitiva de sua história, a única respeitosa à verdade

Durante décadas a atriz, escritora e apresentadora paulistana Maitê Proença foi endeusada pelo público e pela imprensa por sua beleza ímpar, alçada ao posto de símbolo sexual e admirada pela sua presença luminosa em inúmeras novelas da Rede Globo e produções de sucesso da extinta Rede Manchete, além dos filmes que estrelou. No entanto, essa mesma imprensa que a endeusava também lhe fora cruel e inclemente ao não só questionar o seu talento quando era muito jovem como escancarar para a sociedade episódios de sua vida extremamente íntimos e delicados, envolvendo tragédias familiares. Maitê, uma artista esclarecida e inteligente, resolveu com o monólogo “O Pior de Mim”, escrito pela própria e que originou um livro homônimo, colocar um ponto final nesta história cheia de interpretações alheias e ofertar à plateia teatral a sua versão não só definitiva mas a única respeitosa à verdade, o que só ela mesma poderia fazer.

A peça entrelaça o que Maitê presenciou e o que presencia com os temas abordados, como o machismo e suas consequências e o etarismo

O espetáculo que teve anteriormente a sua versão digital destacada pela mídia como um dos melhores espetáculos no formato serve de parlatório para a intérprete desfiar um rosário de assuntos a partir de suas intensas experiências pessoais, passando pelas diferentes fases da vida, como a internação em um colégio, a sua relação com os pais sendo testemunha da espiral crescente de tensão do casal que descambaria para um desfecho infeliz, sua entrada ao acaso no meio artístico por influência de grandes profissionais do teatro e da TV que acreditaram em seu potencial, os empecilhos enfrentados ao desenvolver personagens e suas cenas devido aos impactos emocionais sofridos, suas uniões e separações amorosas e suas viagens pelo mundo que lhe deram um cabedal de conhecimentos, aprendizados e insuspeitadas aventuras, afora os vários acidentes de que fora vítima. A peça cujas direção e concepção cênica couberam a Rodrigo Portella põe em debate questões atualíssimas e relevantes, entrelaçando o que Maitê presenciou e presencia com os temas a serem abordados, como o machismo estrutural entranhado na cultura brasileira tornando o país um dos cinco com maior incidência de feminicídios e o etarismo com as mulheres, especificamente com aquelas com mais de 60 anos.

Um espetáculo que seduz pela coragem e sinceridade de uma atriz

Maitê Proença, bela e possuidora de elogiável expressão corporal, tem bastantes recursos individuais ao seu favor, como carisma, credibilidade, talento, espontaneidade e domínio das palavras, para conquistar de imediato os espectadores, que se deixam levar pelo bate-papo quase informal que lhes é proposto. Honesto e não raras vezes irônico, seu texto atinge cada um daqueles que lhe assiste, impondo-lhe invariavelmente uma sequência de reflexões. A direção de Rodrigo Portella imprime, a despeito da aridez dos temas discutidos, leveza e lirismo à montagem, deixando a atriz totalmente à vontade e livre em cena, deslocando-se por todo o palco, dançando, sentando-se à beira da ribalta, num legítimo “tête-tête” com o público. O aspecto lírico/poético é visto na duplicidade de Maitê no espetáculo, pois é filmada a maior parte do tempo pelo ator Renato Krueger (seja falando diretamente com a câmera ou não). As imagens projetadas em uma cortina branca sugerem um elemento expressionista à produção. Marcello H., diretor musical, aposta em melodias com a prevalência do piano, sons instigantes e a canção de Carole King “Where You Lead”. Maitê e Rodrigo Portella dividem a idealização do cenário, composto por mesas de madeira com distintos tamanhos, cada qual num canto do palco, e ao fundo camadas de cortinas transparentes. Também coube a Rodrigo a iluminação do monólogo, realçado por um plano aberto mais suave e natural, focos na atriz e sombreados, além da valorização de alguns matizes, como o azul, o vermelho e o lilás. “O Pior de Mim” é uma obra que nos seduz pela coragem e sinceridade de uma atriz, que se atreve a se desconstruir da imagem que lhe deram à revelia. Um ato de libertação pessoal e artística pouco comum de se ver nos palcos. Um ato teatral e humano que apresenta o melhor da mulher, artista, filha e mãe Maitê Proença.


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