Como mãe e filho, Natália Lage e Caio Manhente, brilhantes em cena, vestem os mais belos e tristes tricôs em um drama familiar que não ousa dizer o seu nome.”

Caio Manhente e Natália Lage interpretam filho e mãe que foram separados de forma trágica na peça idealizada por Ana Beatriz Nogueira/Foto: Guilherme Scarpa

Um espetáculo que se arrisca a abordar o que para muitos é a maior das dores humanas, a perda de um filho

Perde-se a conta de quantas são as dores possíveis do ser humano. Condição inescapável e indissociável da existência do indivíduo, a dor, em sua multiplicidade de faces e diferentes níveis de intensidade, não tem hora e dia marcados para chegar. A imprevisibilidade é uma de suas mais cruéis características. Elucubra-se, talvez de forma leviana, a respeito de qual seja a mais insuportável para o homem. Curiosamente, a humanidade parece se aproximar de uma improvável certeza ao determinar que a perda de um filho seja a mais devastadora das dores, utilizando como inconteste argumento a inversão da “ordem natural da vida”. A despeito disso, a personalidade espinhosa deste tema, evitável para muitos, um tabu para tantos outros, não inibiu o premiado dramaturgo, jornalista e escritor paulista Sérgio Roveri em formalizá-lo teatralmente no comovente, sensível e poético espetáculo “Ensaio Para Um Adeus Inesperado”, uma idealização de Ana Beatriz Nogueira, também codiretora com Lena Brito e parceira de Zélia Duncan em sua trilha sonora. Sérgio foi ainda, destemidamente, mais além, ao inserir em seu texto um elemento carregado de altíssima tragicidade, pisando em um terreno com visíveis riscos, passível de rejeição, o suicídio.

Sérgio Roveri, o autor, possui notável apreço pelas palavras e construções frasais enquanto Ana Beatriz Nogueira e Lena Brito, diretoras, logram um resultado de forte impacto cênico

O autor, com notável apreço pelas palavras e construções frasais com toda a beleza que lhes é inerente, optou pela adoção de monólogos, cujas estruturações das falas de seus personagens passeiam com desenvoltura pelos campos narrativo, descritivo (inclusive com rubricas), memorialista e confessional, tornando a sua dramaturgia clara, limpa, precisa e com grande inteligibilidade para o público. Sérgio, ciente da aspereza do assunto de que trata, uma mãe que nos relata a dor da perda de um jovem filho de 22 anos que ceifou a própria vida após um prosaico café da manhã de uma segunda-feira e como teve que lidar com imensurável luto, consegue com indiscutível habilidade torná-lo menos pesaroso, lançando mão de instrumentos que o suavizam, ornando-o com filigranas poéticas e até mesmo descontraídas e com um reservado humor. As diretoras Ana Beatriz Nogueira e Lena Brito realizaram um primoroso e afiado trabalho com os seus dois intérpretes, Natália Lage e Caio Manhente, mantendo-os no palco durante todo o tempo enquanto cada um desenvolve o seu monólogo como se fosse uma franca conversa com a plateia, um necessário desabafo, assumindo ambos, como já fora dito, vários estilos de comunicabilidade. A ausência física do filho fora severamente acentuada por não haver quaisquer tipos de interação, mesmo transcendental, entre esses dois seres tão íntimos, havendo no máximo um olhar de uma das partes. Percebe-se, também, uma nítida distinção de marcações entre os protagonistas, com Caio tendo plena liberdade de movimentos ao passo que Natália defende o seu papel em posição sentada, impávida, propositalmente “presa” em suas lembranças. Ana Beatriz e Lena logram um resultado de forte impacto cênico com sua plasticidade estética inebriante em que não faltaram reverências calculadas ao silêncio e à sílaba.

Natália Lage e Caio Manhente, que têm em comum o início de suas carreiras na infância, revelam à plateia impressionante maturidade artística ao defenderem personagens tão complexos

Natália Lage, atriz niteroiense reconhecida pelo seu talento desde que iniciou a sua bem-sucedida carreira na infância, revela uma absoluta maturidade artística ao abraçar com convicção e elevada credibilidade uma personagem com tantas nuances emocionais e existenciais, marcada indelevelmente pela mais profunda dor. Natália, com descomunal domínio de seu corpo, observado anteriormente, assim como o cuidadoso controle de sua voz, exprime as mais diversas sensações da mãe despedaçada em um equilíbrio assaz delicado no qual convivem a sobriedade e a contenção aparentes com uma ebulição de sentimentos contraditórios e confusos guardados em seu íntimo na iminência de explodir. Uma atuação admiravelmente segura e tocante. Caio Manhente, carioca, acostumado ao sucesso desde muito cedo, assim como a sua colega de cena, como o filho cujo nome não se sabe, dá um salto qualitativo em sua jornada artística de dimensões inalcançáveis, causando as mais positivas impressões em quem fora lhe assistir. Sua bela maturidade interpretativa também nos é ofertada das mais distintas formas, com ótimos usos de seus materiais de trabalho, corpo e voz, haja vista que as demandas emocionais que lhe são exigidas pela complexidade de seu papel são inegavelmente difíceis. Sua performance coroada de riquezas lhe garante um lugar especial na galeria dos mais talentosos e sensíveis atores de sua geração.

Com figurinos deslumbrantes de Analu Prestes e uma linda versão de Zélia Duncan para “Lanterna dos Afogados”, “Ensaio Para Um Adeus Inesperado” é uma peça que toca fundo nas emoções mais recônditas do público com as suas mensagens

Os figurinos de Analu Prestes, respeitada profissional da área, também atriz e artista plástica, são incrivelmente lindos, inseridos sabiamente no contexto cênico. Analu, inspiradíssima, trajou os protagonistas com casacos largos de tricô (vermelho forte para Natália e em tons mostarda para Caio), cujos efeitos estéticos são deslumbrantes (maravilhosa criação de Ticiana Passos). Para a atriz, Analu ainda reservou uma ampla saia preta que se espraia pelo tablado e para o seu companheiro de peça calça e tênis pretos. De maneira bastante criativa, para o cenário, foi buscada uma conexão com o figurino, materializada em uma extensa faixa de tricô que se inicia no casaco da mãe, atravessa o palco e é usada por Caio de diferentes modos. Encarregado pela iluminação, Paulo César Medeiros privilegiou o uso de um número reduzido de spots, em lugares pré-determinados, que garantiram focos nos intérpretes com magníficos resultados para a montagem. Paulo se esmerou em construir com as suas luzes um universo mais intimista que conversasse com propriedade com a história que nos é contada. A elegante e sedutora trilha sonora conta com a contribuição valorosa de uma aclamada intérprete da MPB, Zélia Duncan, que a divide com Ana Beatriz Nogueira. A trilha, com a bem-vinda direção musical e arranjos de Léo Brandão, é enriquecida em momentos pontuais por bonitos acordes de violoncelo e uma emocionante e linda versão de Zélia, com sua voz grave inconfundível, para o clássico dos Paralamas do Sucesso “Lanterna dos Afogados”. “Ensaio Para Um Adeus Inesperado” é uma peça emocionante, pungente, com infindas possibilidades de tocar fundo nas emoções mais recônditas do público, dentre tantas razões, pelas suas mensagens de libertação, redenção e superação humanas, mostrando-nos que a vida, apesar de ser um doloroso ensaio em muitas ocasiões, pode ser também a oportunidade para uma grande e vitoriosa estreia.


Deixe um comentário