“Sexual, violento e perturbador, ‘Tráfico’, com Robson Torinni, atiça as emoções do público em uma noite de ‘programa’.”

Robson Torinni vive Alex, um garoto de programa, na peça “Tráfico”, sua segunda parceria com o autor franco-uruguaio Sergio Blanco/Foto: Gabriel Nogueira

Quase quatro anos após montarem um texto do autor franco-uruguaio Sergio Blanco, o ator Robson Torinni e o diretor Victor Garcia Peralta levam aos palcos outra de suas obras, “Tráfico”

Em novembro de 2018 estreava no Rio de Janeiro a peça “Tebas Land”, sucesso de público e crítica, escrita pelo franco-uruguaio Sergio Blanco, com Robson Torinni e Otto Jr. no elenco e direção de Victor Garcia Peralta. Há quase exatos quatro anos, Robson e Victor se juntam novamente em torno de uma obra do “mestre da autoficção” Sergio Blanco no espetáculo “Tráfico”, também um sucesso de público e crítica, há mais de dois anos em cartaz. Idealizado pelo ator e seu diretor, adaptado por ambos, o rascante, afiado e perturbador monólogo põe sobre a mesa questões atuais de uma sociedade globalizada cada vez mais próxima da distopia, com desigualdades econômicas com fortes impactos no bem-estar coletivo e crescente marginalização da população jovem carente de perspectivas concretas para se alcançar a dignidade prometida pelas leis.

Sergio Blanco se vale do gênero que o consagrou, a “autoficção”, para nos contar a história de Alex, um garoto de programa que acaba se tornando um “matador de aluguel”

No texto, o dramaturgo, escritor e diretor insere em seu corpo com a expertise que o consagrou os elementos que caracterizam o gênero por ele abraçado (a autoficção mistura fatos reais com ficções) ao nos contar a história, passada em alguma cidade periférica da América Latina, mas que poderia se passar em qualquer outro lugar, atestando a sua universalidade, de Alex, um rapaz nascido em um ambiente familiar violento, com afetos apenas de sua mãe, que face à carência de oportunidades legítimas, vê-se sugado pelo universo da prostituição masculina. A narrativa, apropriadamente dividida em três atos, oferece-nos com riqueza e detalhismo o apanhado de sua jornada turbulenta, envolta em sexo sem tabus e vícios sem limites, além dos problemas de relacionamento com sua namorada, o que não o impede de cultivar os seus sonhos, como o de ter uma moto luxuosa. A partir de um desses encontros sexuais pagos, desta vez com viés emocional, sua vida descarrila de forma irreversível ao assumir para si um outro personagem, o de “matador de aluguel”.

Robson Torinni adota dosagens elevadas de densidade interpretativa no meio obscuro e soturno habitado pelo seu personagem

Victor Garcia Peralta, com quem Robson também trabalhou na peça “A Sala Laranja: No Jardim de Infância”, utilizando-se do seu amplo conhecimento sobre o intérprete, explora com proficiência todas as suas capacidades dramáticas, com diferentes gradações, deixando-o bem à vontade no palco, aproveitando o ótimo canal de comunicação estabelecido com o público por meio de arrojadas cenas de plateia e interações pontuais, construindo um painel narrativo de grande coesão. O encenador, ciente de que tem como objeto de sua direção basicamente o texto e seu artista, procura da melhor forma possível e atinge êxito ao valorizá-los em todas as suas vertentes, mantendo as camadas de tensão do início ao fim. Robson Torinni, indicado aos prêmios APTR e Cesgranrio, ao possuir total consciência de que se deparou com um papel riquíssimo, esbanjando nuances e filigranas de sua personalidade complexa e ambígua, que reúne culpa, revolta, sentimentos de abandono e sexualidade confusa, ingenuidade, fanfarronice e religiosidade, entrega-se ao mesmo, mergulhando sem rede de proteção com absoluta bravura e audácia, adotando dosagens elevadas de densidade interpretativa, no meio obscuro e soturno habitado por Alex. Talvez um de seus momentos mais desafiadores e arriscados tenha sido o de fazer a delicada transição para a outra fase do personagem, marcada por uma hiper violência sem precedentes. Não caberia meio-termo para a composição deste jovem tão atormentado, e Robson, inteligentemente, optou pelo caminho do ápice emocional/dramático.

A celebração do reencontro de três artistas que se afinam plenamente

A direção de arte de Gilberto Gawronski cumpre um eficiente papel ao buscar o caminho da economicidade sem, todavia, deixar de lado algum elemento importante que falasse de modo direto com a identidade da peça, no caso, grandes acessórios suspensos que simulam claramente os retrovisores de uma motocicleta (seus espelhos provocam efeitos assaz interessantes ao refletirem momentos da história situados em marcações bem definidas). Toni Rodrigues, diretor de movimento, indicado ao prêmio APTR, executa, com bastante compreensão das demandas corporais de Alex, um excelente trabalho. Toni, aproveitando-se da ótima forma física do intérprete, apresenta-nos movimentos bruscos, rápidos, precisos e plásticos, sendo outros, de natureza mais frágil, lânguidos, suaves, sem que se dispense em nenhum instante a sensualidade que lhe é nata e a força viril de sua postura. A iluminação de Bernardo Lorga, indicada aos prêmios APTR e Cesgranrio, sobressai-se em diversos aspectos por suas consistentes escolhas, as quais resultam em efeitos coerentes ao texto e não raro impactantes para o público. Bernardo impõe tons realistas à encenação ao adotar matizes alaranjados/amarelados tênues em boa parte da obra juntamente com focos de LED. O profissional, com vistosa sensibilidade, fez uso de forma exuberante de um conjunto de refletores postos no fundo direito do palco, fontes de luzes fortes e pontos esverdeados. O diretor musical Marcello H. sublinha meticulosamente todo o espetáculo com uma trilha que se entrelaça de modo íntimo com a narrativa, demarcando com acurácia seus momentos-chaves. Além disso, Marcello garimpa com sucesso, a pedido da montagem, canções de caráter popular nacional ao lado de um irresistível standard do rock estrangeiro.

“Tráfico” celebra o reencontro de três artistas que se afinam plenamente: Sergio Blanco, Victor Garcia Peralta e Robson Torinni. Este triunvirato, não à toa, após a estreia da peça há mais de dois anos, ainda nos manda recados importantes e potentes acerca das mazelas de uma sociedade desigual que leva o indivíduo a trilhar por veredas espinhosas, abordando temas que nos são tão sensíveis. Um “tráfico” de desejos, sonhos abortados e realismo impossível de se ignorar.             


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