“Dias Gomes é revivido no teatro carioca com um de seus maiores clássicos, ‘O Bem Amado’, em que são mantidas para a alegria do público a plenitude de sua graça e a acidez de suas críticas sociais e políticas.”

Parte do elenco do espetáculo “O Bem Amado”: da esquerda para a direita, Rose Abdallah, Ataíde Arcoverde, Patricia Pinho, Luiz Furlanetto, Diogo Vilela, Renata Castro Barbosa, Chris Penna e Tadeu Mello/Foto: Victor Hugo Cecatto

O legado de Dias Gomes nos serve de parâmetro para que vejamos que o Brasil tão estudado por ele continua o mesmo com as suas múltiplas mazelas e corrupções de todos os tipos

Resgatar a obra teatral valiosíssima do também autor de novelas e romancista baiano Dias Gomes já é por si só um vultoso mérito. Sua habilidade ímpar em inserir em sua dramaturgia elementos eivados de crítica social em que não são poupadas quaisquer instituições, sejam elas o Estado, o Judiciário e até mesmo a Igreja, atacando firmemente a hipocrisia moral e de costumes dos indivíduos, com doses largas de humor ácido, desconcertante e sarcástico, em um tom assumido de farsa, torna-o um intelectual diferenciado e incômodo, cujo legado nos serve de parâmetro para que vejamos que o Brasil tão estudado por ele em sua trajetória profissional continua o mesmo hoje com as suas múltiplas mazelas, injustiças e corrupções de todos os tipos. Peças teatrais como “O Pagador de Promessas” (1959) e “O Berço do Herói” (1963) são exemplos clássicos de seu pensamento contestador, cada uma com o seu diapasão. Além dessas, há uma outra tão aclamada quanto que representa com primor as ideias geniais deste escriba que se tornou membro da Academia Brasileira de Letras: “Odorico, O Bem Amado, ou Os Mistérios do Amor e da Morte”(1962). E foi justamente com a montagem de “O Bem Amado” que a dupla formada pelo ator Diogo Vilela e o diretor Marcus Alvisi voltou a se unir após muitas parcerias nos palcos. A eles se juntou também o diretor Richard Luiz.

Os diretores Marcus Alvisi e Richard Luiz nos ofertam um espetáculo vivo, alegre, lírico e com “timing” perfeito

Mantendo o espírito iconoclasta de Dias, a hilariante e visualmente bela encenação já nasceu exitosa, conquistando desde a sua estreia em janeiro deste ano uma soma de mais de 20 mil espectadores pelos teatros do Rio de Janeiro. Marcus Alvisi e Richard Luiz ofertam ao público com notáveis acerto e propriedade, a despeito da morte sempre, de uma forma ou outra, estar presente nas linhas do texto, um espetáculo vivo, alegre e lírico, atingindo um “timing” perfeito, no qual se percebe a inspiração em gêneros como a “comédia de erros” e a movimentação cênica de um “vaudeville”. Como é de conhecimento comum, Dias Gomes se utiliza em suas criações com inigualável destreza dos chamados arquétipos. Em “O Bem Amado”, por exemplo, circulam pela mesma história o “coronel”, o “capitão”, “as donzelas” e o “vigário”, só para citar alguns. Todos eles, nesta peça, são capturados pelos diretores com absoluta fidelidade e ciência de suas importâncias. Outro recurso usado com bastante sucesso pela direção é a trilha sonora a cargo do próprio Marcus Alvisi, que adota músicas com dimensões sinfônicas, marcantes e eloquentes, tocadas por instrumentos diversos, como o berimbau. “Carcará”, de João do Vale e José Cândido, ocupa um lugar especial na obra.

Diogo Vilela domina com absoluta proficiência a escancarada comicidade que Odorico Paraguaçu exige e todos os atores que o cercam emanam brilho próprio

Incorporar Odorico Paraguaçu, o coronel desprovido de ética, caráter e escrúpulos, candidato à prefeitura de Sucupira, cidade fictícia a léguas de Salvador, na Bahia, cuja principal plataforma de campanha é a inauguração de um cemitério para os seus habitantes demandaria um ator com sólidos alicerces na comédia e que fosse despudoradamente talentoso. Diogo Vilela, forte nome das artes nacionais, preenche com folga esses pré-requisitos e o que se vê é um intérprete amplamente à vontade na ribalta, arrancando risos a cada cena em que aparece, dominando com absoluta proficiência a escancarada comicidade que o polêmico personagem exige, atendendo com desvelo aos ricos pormenores que o desenham. Um legítimo e adorável Odorico em franca sintonia com o universo “deverasmente” absurdo de Sucupira. O numeroso elenco que o cerca emana brilho próprio, estando todos os atores, assim como o protagonista, em consonância com a ambiência particular do microcosmo retratado. Tadeu Mello, como Dirceu Borboleta, convence-nos sobremaneira com o seu olhar sobre o homem refém de suas ansiedades, ingênuo, com a inglória função de assessorar o vil político. Chris Penna, como Zeca Diabo, constrói com vigor o seu pistoleiro religioso, atento às pitorescas características que o tornam um divertido marginal. As Irmãs Cajazeiras Dorotéa, Judicéa e Dulcinéa, símbolos exponenciais da hipocrisia das damas citadinas travestidas de suposta retidão e decência, representadas respectivamente por Patricia Pinho, Rose Abdallah e Renata Castro Barbosa, transmitem-nos a fogosidade incontornável e a extravagância comportamental deste trio saborosamente ruidoso. Ataíde Arcoverde, como o coveiro ocioso Chico Moleza, evidencia-nos a soturnidade risível que o seu papel lhe cobra. Luiz Furlanetto, como Hilário Cajazeira, oferece-nos a severidade do homem detentor de uma verdade transformadora na trama. Gabriel Albuquerque, como o jornalista Neco Pedreira, ostenta com desembaraço o principal oposicionista de Odorico. Alê Negão (Dermeval), Ezequiel Vasconcelos (Mestre Ambrósio), Lucas Figueiredo (Primo Ernesto), Marco Áureo (Vigário) e Rollo (Zelão) mantêm suas posturas coerentes com as necessidades essenciais dos tipos que defendem.

Dias Gomes é um dos “bem amados” da ribalta brasileira

Os caprichados cenário e figurinos tiveram a assinatura de Ronald Teixeira e Pedro Stamford. Ronald e Pedro nos proporcionam espontâneo deslumbramento com a sensibilidade com que criaram o espaço onde se desenrola a história, com seus enormes panos com retalhos nas laterais e ao fundo, os galhos secos e as janelas suspensas, a cerca e o mobiliário em madeira, levando-nos para essa nova Sucupira idealizada. Já os figurinos, em sua maioria em tons terrosos e crus, sobressaem-se e nos impressionam pela riqueza dos numerosos detalhes e referências, com o uso variado de tecidos e materiais. As escolhas das peças contribuíram distintamente para a familiarização do público com o habitat desses personagens tão emblemáticos. Daniela Sanchez, iluminadora, desenvolve um belo trabalho ao privilegiar tons naturalistas/amarelados nas cenas abertas, com enfoque, dependendo das situações, nas tonalidades mais fortes, como o vermelho, ou suaves, como o lilás. Daniela faz um produtivo aproveitamento do fundo do palco, ao se utilizar dos tecidos como aliados de sua sedutora luz. O visagismo de Mona Magalhães e a direção de movimento de Juliana Medella configuram-se como potentes instrumentos de que se valem os intérpretes para a construção bem-sucedida dos papéis que lhe couberam. O elenco teve ganhos inquestionáveis com suas colaborações específicas.

“O Bem Amado” oferece às plateias teatrais aquilo que mais o define como obra dramatúrgica: a legítima diversão. Mas nos enriquece também com o pensamento avançado de um autor capaz de enxergar os lados mais obscuros do indivíduo, responsáveis pela formação de uma sociedade alimentada por vícios morais e desvios éticos. Dias Gomes é um dos “bem amados” da ribalta brasileira.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       


Deixe um comentário