“Mergulhando novamente em um cenário distópico no filme ‘O Último Azul’, com Denise Weinberg e Rodrigo Santoro, o diretor Gabriel Mascaro lança uma valiosa ofensiva contra o etarismo.”

Rodrigo Santoro interpreta um simplório barqueiro que auxilia Tereza, Denise Weinberg, a realizar um sonho antes de ser confinada compulsoriamente em um local exclusivo para idosos por determinação do Estado/Foto: Guillermo Garza/Divulgação

Premiado com o Urso de Prata em Berlim, o filme mostra um Estado autoritário que obriga os idosos a se afastarem da sociedade em prol de uma economia mais producente

O diretor recifense Gabriel Mascaro tem um reconhecido pendor para abordar com excelência temas distópicos em seus filmes.
Em “Divino Amor” (2019), o alerta aos riscos do extremismo religioso em um futuro obscuro nos foi dado.
Agora, em “O Último Azul” (Brasil, Chile, México, Países Baixos, 2025), vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim (Grande Prêmio do Júri), Gabriel, também roteirista ao lado de Tibério Azul, não se furtou a colocar o avesso da utopia como pano de fundo para nos narrar a história de Tereza (Denise Weinberg), uma operária septuagenária de uma fábrica situada nos rincões da Amazônia que vê o seu mundo ruir após a decisão segregacionista de um governo autoritário e corrupto de isolar pessoas idosas em áreas determinadas a fim de robustecer a economia local somente com a força de trabalho jovem.
A pujante denúncia que o criativo e bem alinhavado roteiro da dupla levanta sobre práticas etaristas na sociedade encontra respaldo no que vivenciamos de forma mais ou menos explícita nos tempos atuais em que se agrega exacerbado valor à juventude.

“O Último Azul” reforça o momento glorioso do cinema brasileiro tanto aqui quanto no exterior

O longa-metragem, com inebriante fotografia de Guillermo Garza (além dos filtros, imagens de locais amazônicos que embasbacam), reuniu um elenco de peso, com Denise Weinberg estupenda como a mulher que deseja realizar o sonho de voar de avião antes de perder a liberdade e Rodrigo Santoro fantástico como Cadu, um simplório barqueiro que surge em seu caminho. Ambos estão muitíssimo bem acompanhados por intérpretes que abrilhantam a obra de Mascaro: a atriz cubana Miriam Socarrás, Clarissa Pinheiro, Adanilo e Rosa Malagueta.

“O Último Azul”, que nos faz rir da tragicidade dos absurdos cada vez mais possíveis da existência coletiva, reforça o glorioso momento do cinema brasileiro tanto aqui quanto no exterior, provando que não nos falta capital artístico de qualidade (ideias, atores, técnicos) que nos faça querer voar tão alto quanto Tereza.


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