Arquivo da categoria ‘Cinema’

Se a Rua Beale Falasse 2
Foto: Divulgação

Regina King, como a mãe da protagonista Tish, interpretada por Kiki Laine, consagra-se no Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante, além de ter levado outros importantes prêmios

Em 2017, o cineasta Barry Jenkins sensibilizou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas com o seu drama humanista “Moonlight – Sob a Luz do Luar” (“Moonlight”, 2016), abocanhando o Oscar de Melhor Filme, desbancando fortes favoritos como “La La Land”. Neste ano, Barry novamente compareceu à cerimônia, levando consigo um drama romântico policial, não menos humanista, “Se A Rua Beale Falasse” (“If Beale Street Could Talk”, 2018), concorrendo em três importantes categorias: Melhor Atriz Coadjuvante (Regina King), Melhor Trilha Sonora (Nicholas Brittel) e Melhor Roteiro Adaptado (Barry Jenkins). A despeito da trilha de Nicholas ser brilhante (ela perpassa quase todo o filme, com músicas incidentais bem orquestradas, com direito a canções jazzísticas e blueseiras) e do roteiro impecável de Jenkins, baseado na aclamada obra de James Baldwin (1974), a grande agraciada da noite foi Regina King, como Mrs. Rivers, a mãe da protagonista Tish (Kiki Laine). Entretanto, “Se a Rua…” recebeu os prêmios máximos no Independent Spirit Awards (Melhor Filme, Direção, além de Melhor Atriz Coadjuvante). Regina, numa atuação marcante e interiorizada, ganhou outras láureas, como o Globo de Ouro.

O filme narra a história de um casal de jovens que vê os seus sonhos serem abruptamente interrompidos após uma injusta acusação motivada por racismo

A trama é centrada na história de dois jovens apaixonados do Harlem, NY, Fonny, (Stephan James, um ótimo ator para se ficar de olho) e Tish (a graciosa Kiki Laine), que veem seus projetos serem destruídos por uma conspiração policial racista que leva Fonny para a cadeia acusado de estuprar uma portorriquenha. O diretor manuseia a sua câmera delicadamente, valorizando os rostos dos intérpretes, evitando sempre que possível os cortes na edição dos diálogos. “Se a Rua Beale Falasse” é um filme sobre a iniquidade do racismo em contraste com a inexorabilidade do amor, numa guerra desigual e injusta, onde o conceito de vencedor se perde.

Assista ao trailer do filme:

95892
Foto: Divulgação do filme

Nadine Labaki aborda com pungência questões atuais e urgentes do mundo contemporâneo, tendo merecido levar o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, que, ao final, foi entregue a “Roma”

Sem dúvida, um dos filmes mais impactantes e pungentes já lançados nos últimos anos foi “Cafarnaum” (“Capharnaün”, “Capernaum”, Líbano, França e Estados Unidos, 2018), da diretora, atriz e roteirista libanesa Nadine Labaki (“Rio, Eu Te Amo”).  Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes, ganhou mais 21 prêmios internacionais. Uma das cinco indicações ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, a obra de Labaki merecia ganhar, mas o franco favoritismo e a enorme campanha de publicidade em torno de “Roma”, de Alfonso Cuarón, sobrepuseram-se a importância deste longa-metragem, que aborda questões cruciais da atualidade, como o drama dos refugiados no mundo, o tráfico internacional de crianças, a exploração do trabalho infantil, os maus-tratos a menores, a miserabilidade pandêmica etc.

Uma história comovente, cujo roteiro também foi escrito por Labaki, em que o ator Zain Al Rafeea se destaca como o garoto condenado a cinco anos de cadeia pelo assassinato de seu cunhado, vindo, posteriormente, a processar os seus pais por um motivo nada convencional

A história, cuja uma das roteiristas é a própria Nadine Labaki, gira em torno do menino libanês Zain (o excepcional e cativante Zain Al Rafeea), de apenas 12 anos, condenado a 5 anos de cadeia por ter ferido a faca o assassino de sua irmã, com quem ela fora obrigada a se casar. Utilizando-se de flashbacks, a excelente diretora, que também atua no filme, mostra todo o périplo assustadoramente sofrido do garoto, como a convivência com os pais violentos, sua parceria com uma refugiada etíope, Rahil (Yordanos Shifera, intensa) e seu filho bebê Younas (Boluwatife Treasure Bankole), até o presente, em que Zain processa os seus pais por ter nascido, exigindo que não tenham mais filhos.

“Cafarnaum” é uma obra-prima da safra cinematográfica atual 

Com fotografia exuberante (por vezes crua) de Christopher Aoun, trilha sonora sensível de Khaled Mouzanar, montagem picotada de Konstantin Bok, e direção com pegada pessoal, com câmera na mão, de Labaki, “Cafarnaum” é um filme urgente, necessário, obrigatório, desconfortável e emocionante, podendo ser considerado uma obra-prima da safra cinematográfica atual.

Assista ao trailer:

Guerra Fria
Foto: Divulgação do filme

Indicado em 2015 ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, Pawel Pawlikowski repete a façanha em 2019, indo, no entanto, mais além, sendo reconhecido também nas indicações como Melhor Diretor e Fotografia

O cineasta polonês Pawel Pawlikowski já havia sido indicado e ganhado em 2015 o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira por “Ida”. Em 2019, o diretor, com sua nova obra, “Guerra Fria” (“Zima Wojna”, “Cold War”, Polônia, França e Rússia, 2018), foi muito mais além, sendo indicado em três importantes categorias: Melhor Filme em Língua Estrangeira, Melhor Diretor e Melhor Fotografia. A despeito de não ser agraciado em nenhuma delas, o longa carrega em sua lista imponentes prêmios: Melhor Diretor no Festival de Cannes 2018, Melhor Filme, Diretor, Atriz (Joanna Kulig), Roteiro e Montagem no European Film Awards.

Os desencontros de um casal com divergências políticas e confrontos emocionais entre uma Polônia gelada e uma Paris festiva atravessam a narrativa do filme de Pawlikowski

A trama, interessante, desenrola-se nos tempos conflituosos geopolíticos que a intitulam, compreendendo os anos de 1949 e 1964. A história se inicia na Polônia stalinista (o endeusamento a ditadores como Josef Stalin e o patriotismo exacerbado da época podem ser ainda identificados nos dias de hoje com outros déspotas em diferentes nações) com o encontro de um sedutor regente e músico Wiktor (Tomasz Kot, sóbrio) e uma bela e imprevisível cantora, Zula (a inebriante Joanna Kulig) numa instituição de música e dança. Os estremecimentos do casal se dão por omissões da verdade, instabilidades emocionais e convicções políticas dissonantes (Wiktor não se afina com as diretrizes do sistema socialista). Vindo de uma gelada e triste Polônia, o par se reencontra em uma festiva e dançante Paris.

Direção de fotografia devastadora, realçada pelo magnetismo da atriz Joanna Kulig 

O filme em vários instantes nos reporta à atmosfera da Nouvelle Vague. De fato, a fotografia de Lucasz Zal, em p&b, impressiona pelo apuro visual, sendo devastadoramente sofisticada. A direção de Pawel Pawlikowski é conduzida com delicadeza e precisão. O elenco, competente, destaca o magnetismo de Joanna Kulig. “Guerra Fria” é um filme para quem gosta de visões autorais de seu criador, sem ritmos narrativos empolgantes.

Assista ao trailer:

glass-vidro.png
Foto: Divulgação do filme

M. Night Shyamalan encerra a sua trilogia iniciada com “Corpo Fechado”, e seguida por “Fragmentado”, com o ótimo “Vidro”, cujo um de seus méritos é o seu engenhoso roteiro

Encerrando a trilogia “Eastrail 177”, iniciada com “Corpo Fechado” (“Unbreakable”, 2000), que dividiu opiniões, e seguida pelo sucesso de público e crítica “Fragmentado” (“Split”, 2016), o cineasta indiano naturalizado americano M. Night Shyamalan (“Sexto Sentido”, Sinais”, “A Vila”) surpreende com o ótimo “Vidro” (“Glass”, 2019). O roteiro incrivelmente engenhoso foi escrito por Shyamalan, sendo uma espécie de spin-off dos dois longas anteriores, misturando com coerência personagens de ambos.

O filme reúne astros dos longas anteriores, como Bruce Willis e Samuel L. Jackson, e James MacAvoy

Também coprodutor, M. Night traz de volta David Dunn (o sempre carismático e convincente Bruce Willis) e o Senhor Vidro (o instigante Samuel L. Jackson), de “Corpo…”, e Kevin Wendell (o arrebatador ator escocês James McAvoy, a jovem Casey Cooke (Anya Taylor-Joy), e a psiquiatra Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson), firme), de “Fragmentado”. Completam o elenco Spencer Treat Clark, Charlayne Woodard, Luke Kirby, Adam David Thompson e Serge Didenko.

Assumidamente inspirada nas HQs, “Vidro” é uma obra que equilibra com inteligência diversos gêneros cinematográficos, não sendo necessário para o seu entendimento ter assistido aos dois primeiros longas da trilogia

O filme, empolgante e envolvente, aborda a procura do “Vigilante” David e seu filho Joseph (Spencer Treat Clark) pelo perigosíssimo assassino Kevin e suas 23 outras personalidades (impressiona a versatilidade de McAvoy). Nessa busca, surge a figura intimidadora da psiquiatra e a presença sinistra de Mr. Glass. Assumidamente inspirado nos enredos mirabolantes das HQs, com seus conceitos pétreos de super-heróis e vilões, “Vidro” se consagra como um excelente representante da diversidade de gêneros cinematográficos, equilibrando com inteligência fantasia, suspense, drama e terror psicológico. Ao contrário do que se diz, não é necessário assistir aos dois primeiros longas para se entender “Vidro”, bastando tão somente uma concentração a mais. Um filme com boa e intrincada trama que diverte e assusta, garantindo sem receios a sua ida ao cinema.

Assista ao trailer:

Still7
Foto: Globo Filmes

Tendo como premissa o desfile campeão da Mangueira em 2016, que homenageou a grande intérprete Maria Bethânia, “Fevereiros”, ao retratar também a diversidade religiosa da cantora, encaixa-se com pertinência nesses tempos de obscurantismo e intolerâncias que estamos vivendo 

Sábado passado, dia 2 de fevereiro, Festa da Purificação de Nossa Senhora (santa de devoção de Maria Bethânia), coincidentemente ou não, vi, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, o lindo, comovente, elucidativo e pertinente (levando-se em conta as névoas de obscurantismo e intolerância, inclusive religiosa, que pairam sobre as nossas cabeças) documentário “Fevereiros” (2017), de Marcio Debellian, Melhor Filme no 10º In Edit Brasil. O doc, lançado em 31 de janeiro, parte da premissa do desfile campeão da Mangueira, “Maria Bethânia: As Meninas dos Olhos de Oyá”, em homenagem à grande intérprete da música brasileira, em 2016.

Com depoimentos espontâneos, e até divertidos de Caetano Veloso e Chico Buarque, o documentário de Marcio Debellian nos revela uma Maria Bethânia iluminada e bela, contando-nos com um sorriso sempre aberto as suas vivências religiosas em Santo Amaro da Purificação, município onde nasceu, no Recôncavo Baiano 

A obra, plena em materiais preciosos de arquivo (como o encontro de Jorge Amado e Mãe Menininha do Gantois), com depoimentos espontâneos, esclarecedores, e até divertidos de Caetano Veloso (sua história sobre Julio Cortázar é ótima), Chico Buarque, a irmã e poeta Mabel Velloso, o historiador Luiz Antonio Simas, o carnavalesco Leandro Vieira e a porta-bandeira Squel Jorgea, com roteiro sensivelmente estruturado pelo próprio Debellian (também produtor) e Diana Vasconcellos, traz uma Maria Bethânia iluminada, fascinante, bela, sorridente confessando ao público suas saborosas vivências em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano (e as festas sagradas da qual participa), sua inabalável religiosidade sincrética (a cantora é filha de Oxum), e seu incontido amor à verde e rosa desde 1965, quando veio para o Rio de Janeiro. Vibrantemente musical, com direito a shows solo e com Chico e Caetano, fotografado com apuro por Miguel Vassy e Pedro Von Kruger, “Fevereiros” nos mostra uma artista brilhante e humilde, admirada nos quatro cantos do Brasil, em constante processo de evolução pessoal e espiritual , sendo uma prova vívida de que há espaço para todas as diferenças, não só no mês de fevereiro, mas nos onze meses restantes do ano.

Assista ao trailer:

spiderman_into_the_spiderverse_5
Foto: Divulgação do filme

“Homem-Aranha: No Aranhaverso” é uma obra subversiva, por colocar como o seu principal Homem-Aranha, dentre os muitos que aparecem no filme, um garoto negro do Brooklyn, grafiteiro, filho de um policial também negro e de uma mãe de origem latina 

Finalista ao Oscar 2019 de Melhor Animação, vencedor do Globo de Ouro, “Homem-Aranha: No Aranhaverso” (“Spider-Man: Into the Spider-Verse”, 2018), de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, um dos filmes do gênero mais comentados dos últimos anos, é, pode-se dizer, uma obra subversiva. Subversiva no sentido de colocar em sua trama um garoto negro do Brooklyn, Nova York, Miles Morales, grafiteiro, que não se adapta, segundo o próprio, a uma escola elitista, filho de um policial negro com uma latina, como o principal Homem-Aranha, dentre os muitos que aparecem no longa. Miles, como o super-herói aracnídeo, tem que enfrentar o Rei do Crime, aliado a outros vilões, a fim de impedi-lo de destruir o mundo (a dimensão em que vivem), acionando um colisor que criaria um buraco negro sob o distrito nova-iorquino.

O filme possui muitos méritos, como montagem alucinante, computação gráfica excepcional e trilha sonora com ritmos empolgantes, no entanto seu intrincado roteiro não é indicado aos pequenos, que deverão se deslumbrar com a sua estética 

Com montagem alucinante e frenética de tirar o fôlego, computação gráfica excepcional, trilha sonora melódica e empolgante (notadamente marcada por ritmos americanos, como o rap), cores vibrantes e psicodelismo em suas imagens, permeado de tiradas sarcásticas (há uma alusão ao artista britânico Banksy), “Homem-Aranha…” possui um roteiro intrincado, com menções a universos paralelos, outras dimensões e física quântica, não sendo um filme direcionado aos pequenos, a não ser pela sua estética deslumbrante e atraente.

Contando com um time de peso de dubladores, que inclui Nicolas Cage e Mahershala Ali, “Homem-Aranha: No Aranhaverso” merece a sua ida aos cinemas

Atores como Nicolas Cage, Lily Tomlin e Mahershala Ali são os dubladores dos personagens, inclusive Stan Lee, o célebre criador do Homem-Aranha. “Homem-Aranha: No Aranhaverso” é uma animação de altíssima qualidade, forte candidata ao Oscar, que deve ser assistida não somente por aqueles que adoram super-heróis, mas por todos que se interessam por um entretenimento deste gênero com uma história bem elaborada e crítica.

Assista ao trailer:

roma-filme-da-netflix-dirigido-por-alfonso-cuaron-e-forte-candidato-ao-oscar
Foto: Divulgação do filme

Lançado originalmente na Netflix, “Roma” é um dos filmes mais aclamados do momento, tendo recebido 10 indicações ao Oscar, incluindo “Melhor Filme”, “Melhor Diretor” e “Melhor Filme Estrangeiro”

Houve no último dia 24, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, uma sessão exclusiva em película de um dos mais aclamados filmes do momento, “Roma”, de Alfonso Cuarón, vencedor do Leão de Ouro em Veneza, dois Globos de Ouro (filme e diretor), sendo indicado ainda a 10 Oscars, incluindo Melhor Filme, Diretor, Atriz (Yalitza Aparicio), Melhor Atriz Coadjuvante (Marina de Tavira), Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia (ambos de Alfonso Cuarón), e Melhor Filme Estrangeiro. A obra, originalmente lançada e disponível na Netflix, possui grandes chances de levar estatuetas para casa, inclusive Filme e Diretor.

Alfonso Cuarón, que já recebeu um Oscar pela superprodução espacial “Gravidade”, faz um drama humanista e realista, com impactante fotografia em p & b que nos remete ao neorrealismo de Vittorio de Sica 

O respeitado cineasta mexicano Cuarón, que já recebeu um Oscar por sua direção da superprodução espacial “Gravidade” (2013), resolveu, dessa vez, mergulhar fundo em suas raízes, sendo o responsável absoluto pela criação de um drama humanista, realista e contundente sobre a relação de afeto (sem preterir as regras de hierarquia social) entre a empregada doméstica Cleo (Yalitza Aparicio) e a família de classe média branca para quem trabalha (como a patroa Sofia, Marina de Tavira) e seus quatro filhos pequenos), no bairro Roma, na Cidade do México, no início da década de 70. Alfonso não deixa de retratar, escorado em sua belíssima e impactante fotografia em p & b, que nos remete ao neorrealismo de Vittorio De Sica, a miserabilidade e o caos urbano de um México remexido por questões políticas e manifestações estudantis violentas.

Yalitza Aparicio, a primeira indígena indicada ao Oscar, é um dos destaques de “Roma”, cujo roteiro coloca uma lente de aumento na vida de pessoas diferentes, que se veem unidas, através do afeto, pelos sofrimento, solidão e abandono que lhe são comuns

O roteiro nos mostra uma narrativa própria, com ritmo desacelerado, preocupado em colocar uma lente de aumento na vida cotidiana daquelas pessoas tão diferentes e próximas entre si, unidas pelo sofrimento, solidão e abandono. Yalitza Aparicio (em sua estreia nas telas), a primeira indígena indicada ao Oscar, comove com a sua doçura, seu olhar triste e seu sorriso desencorajado. Roma integra um seleto grupo de filmes que busca a investigação da alma humana, elevando o afeto como emoção máxima de união entre os seres.

Assista ao trailer: