Arquivo da categoria ‘Cinema’

cena-do-filme-aquarius-de-kleber-mendonca-filho-1462817527820_956x500
Foto: Divulgação

Desde “O Som Ao Redor” (2013), longa-metragem anterior do cineasta recifense Kleber Mendonça Filho, premiado nacional e internacionalmente, que tanto o público quanto a crítica especializada tem ficado atenta a este profissional do audiovisual que mostrou com a sua obra uma abordagem da sociedade e seus conflitos do cotidiano sublimemente particular, visivelmente pujante em suas imagens, com um roteiro marcado por notável elaboração. Se em “O Som Ao Redor”, Kleber traçava com bastante impacto a mudança de rotina dos moradores de uma pacata rua de Recife após a chegada de milicianos, em “Aquarius” ocorre também a mudança de rotina de uma pacata jornalista, Clara, vivida por Sonia Braga, que vê a sua tranquilidade ir embora quando uma construtora liderada pelo jovem engenheiro civil Diego (Humberto Carrão) decide comprar todos os apartamentos do antigo prédio onde mora sito em frente à bela Praia da Boa Viagem, para a construção de um novo e sofisticado projeto residencial, o “Aquarius”, nome que, na verdade, já era o do imóvel. Só que a bem-sucedida jornalista e escritora, amante da música em discos de vinil, como os de Maria Bethânia e Roberto Carlos, repele a gananciosa proposta da empreiteira, resistindo ao poder do dinheiro, ao lobby, às sabotagens, às ameaças veladas ou declaradas dos interessados na venda da propriedade e à pressão de sua própria família e dos seus até então vizinhos. Esta sinopse, que à princípio nos parece simples, ao contrário disso não possui nenhuma simplicidade. A sinopse (ótimo e extremamente bem costurado roteiro de Kleber Mendonça Filho) serve como estopim de uma série de altercações interpessoais nas quais se percebe assustadoramente até que ponto vai a ambição humana, e com ela uma intrínseca maldade, uma patente falta de caráter e ausência absoluta de ética, inclusive no que se refere à mocidade, porém exibe com equânime vigor a capacidade de luta de uma bela mulher madura que enfrenta tudo e todos na defesa dos seus direitos legítimos, uma espécie de “Uma Contra Todos” (parafraseando uma recente série de TV). Estes dois filmes de Kleber apresentam uma direção que foge ao padrão estabelecido por bastantes produções cinematográficas nacionais exibidas no circuito, não se enquadrando com exatidão num gênero específico. A sua obra mescla em um só conjunto altas doses de drama, aterrorizante clima de suspense e tensão, retrato e denúncias sociais com um estudo minucioso do comportamento do homem, com direito a alguns instantes de corriqueira comédia. Em suma, Kleber radiografa nossas próprias vidas. Sua câmera não é mirabolante e nem nos oferta ângulos espertos, inovadores tampouco revolucionários. Isto fica para os blockbusters norte-americanos, e para os congêneres brasileiros que tentam emulá-los. Suas lentes buscam o real, o cotidiano, o simples, o cru, os objetos que decoram uma casa, o close sem pretensões estilísticas, os relacionamentos comuns entre as pessoas e as suas consequências, as tomadas necessárias, e não com o propósito de se burlar o establishment estético ao qual nos habituamos a assistir em períodos atuais. Por estas mesmas razões, e por um hiperrealismo que nos assombra, é que provavelmente os longas de Kleber perturbam o espectador e a crítica, lançando um novo caminho para o cinema que se faz no Brasil. “Aquarius”, que foi cercado de polêmica desde que foi exibido como concorrente à Palma de Ouro em sessão de gala no Festival de Cannes (houve um protesto político por parte do elenco e diretor), e se estende até hoje pela reivindicação para que a classificação indicativa da produção baixe de 18 para 16 anos (o que foi conseguido no último dia 1º de setembro). O cineasta realiza com este filme uma eloquente homenagem à época dos anos 80, utilizando-se do recurso do flashback (claro, a fotografia, nesta etapa, evidencia uma textura que remete, pode-se afirmar, às polaroides). Já na atualidade, a meritosa direção de fotografia de Pedro Sotero e Fabricio Tadeu opta por tonalidades naturalistas. Há cenas emblemáticas na criação fílmica de Kleber, como a inicial, quando Clara, muito jovem, interpretada pela atriz Barbara Cohen (uma bonita artista que deve despertar o seu interesse) dentro de um carro “oitentista” com seus amigos numa praia deserta (vale asseverar que a direção de arte de Juliano Dornelles e Thales Junqueira reproduz com precisão detalhes desta icônica fase), ouvem num potente som um dos maiores clássicos da banda britânica Queen, “Another One Bites The Dust”. Em outra passagem, Queen também é escutado em outro de seus standards, “Fat Bottomed Girls”. O diretor também se valeu de sua obra para denunciar o triste preconceito vigente não só por parte dos homens, mas de um modo geral, contra as mulheres que se viram obrigadas a serem submetidas a uma mastectomia (esta cena nos revolta e nos comove). Em apenas uma frase revela o preconceito racial incrustado no Brasil (“sua pele mais morena”). O elenco de “Aquarius” é um dos pontos máximos do filme. Primeiro, porque traz de volta para as grandes telas de cinema aquela que foi e sempre será uma de nossas eternas musas do cinema nacional, Sonia Braga, recolocando-a em seu posto conquistado com performances memoráveis em “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e “O Beijo da Mulher-Aranha”. Sonia, que também possui atuações antológicas na televisão, como nas novelas “Gabriela” e “Dancin’Days”, certamente com a Clara de “Aquarius” nos ostentou uma de suas mais consistentes, maduras, intensas e tocantes interpretações. Sonia construiu a sua Clara com impressionante estoicismo. As suas paixões são interiorizadas, exceto em suas expressões sexuais. Clara desvela um humor desconcertante face às adversidades por que passa. A sua bravura diante da soberba e inescrupulosidade dos detentores do poder econômico, representantes da especulação imobiliária, serve-nos de exemplo e referência. A mulher que tem em seu apartamento um pôster de “Barry Lyndon”, de Kubrick, e pilhas de vinis é personificada por Sonia Braga em um dos auges não só de sua beleza física madura, mas também interpretativa. Humberto Carrão, famoso e admirado ator de novelas, pertencente a uma promissora geração de artistas jovens, numa interpretação pontuada por sutilezas, convence-nos brilhantemente como o moço que estudou nas melhores escolas estrangeiras, formando-se em Business, como diz, o que o faz voltar ao Brasil cheio de “sangue nos olhos” para vencer na profissão, nem que para isso tenha que se utilizar dos meios mais escusos e corruptos. O espectador e os personagens ficam confusos ao se depararem com a sua beleza, simpatia e carisma, amparada por voz mansa, com a potência de sua vilania. O próprio diretor Kleber Mendonça Filho definiu o ator desta maneira em entrevista ao jornal O GLOBO: “Humberto tem cara de pessoa boa, menino brasileiro rico, mas que esconde uma falta de caráter formidável”. E continua: “E agora que eu conheço Humberto e lembro de Diego, dá para ver como Carrão é um ótimo ator. Ele e Diego não têm nada em comum”. Maeve Jinkinks, bela atriz brasiliense, com importante galeria de filmes em seu currículo, e que ficou bastante conhecida como a Domingas de “A Regra do Jogo”, na Rede Globo, interpreta a filha de Clara. Maeve é daquelas artistas que disseminam a sua adorável doçura por onde quer que passem, fotografando muito bem nas telas. Mas se engana quem pensa que esta doçura está presente em todas as suas performances. É preciso que vejam a atriz em longas-metragens como “Boi Neon” e “Amor, Plástico e Barulho”. Inclusive, a premiada Maeve está em seu segundo trabalho com Kleber, pois participou de “Um Som Ao Redor”. E o que dizer do premiadíssimo Irandhir Santos? Irandhir é, para mim, sem quaisquer sombras de dúvidas, um dos mais talentosos e versáteis atores surgidos nos últimos tempos no Brasil. Fez uma infinidade de bons e elogiados filmes, e já está construindo uma carreira de sucesso na TV (atualmente, destaca-se como Bento em “Velho Chico”, na TV Globo). Irandhir Santos (também repetindo a parceria com Kleber) vai do homem simples, chucro, ao indivíduo subserviente, até chegar ao charmoso guarda-vidas Roberval de “Aquarius”. O excelente ator cumpre com a nobreza de sempre a missão de dar vida a um dos poucos amigos de Clara que a ajudam. Temos ainda a presença do jovem ator pernambucano Allan Souza Lima, como Paulo, um sedutor garoto de programa que sacia ardentemente os urgentes desejos sexuais de Clara. Destaque na novela “A Regra do Jogo”, Allan mostrou que sabe fazer comédia. No filme em questão, o intérprete tem poucos momentos na tela, mas estes são o bastante para que Allan deixe transbordar toda a sua sensualidade viril de modo absolutamente natural. Outros atores que merecem as nossas merecidas considerações são Carla Ribas, Julia Bernat e Thaia Perez, dentro de um elenco muitíssimo bem escalado. “Aquarius”, que entrou na concorrida lista de filmes candidatos a lutarem por uma vaga na indicação brasileira para a disputa pelo Oscar de Filme Estrangeiro (tendo consideráveis chances de consegui-la, a despeito de novas polêmicas), é um filme que deve obrigatoriamente ser visto por aqueles que amam o cinema, que apreciam a diferença de sua linguagem, que são devotos de uma reflexão após uma obra cinematográfica, que não buscam somente o entretenimento, e que estão abertos a discussões relevantes sobre o ser humano, seu comportamento e relações, que são levantadas em cima de fatos do dia a dia, que consuetudinariamente acontecem bem ao nosso lado. Em determinado momento do longa de Kleber Mendonça Filho, a praga “cupins de demolição” tem a sua representação. A destrutividade ancestral do homem comum também nos é escancarada sem meios-termos. Uma das lições que aprendemos com esta excelente obra em cartaz nos cinemas é a de que se pode combater sem medo os “cupins de demolição”, espalhados por toda a parte, próximos ou distantes, sempre prontos e dedicados em nos aniquilar em sua totalidade. Mas sempre existirá uma Clara em seus caminhos. As “Claras” da vida nos parecem inofensivas, vulneráveis. Apenas nos parecem. Basta que se juntem a um só tempo um edifício antigo de Recife chamado “Aquarius” e uma das musas do nosso cinema nacional cujo nome é Sonia Braga, conduzidos pela batuta de um cineasta de nome Kleber, para que vocês, espectadores, não temam nenhuma praga. Seja ela social, humana ou literal. Esta é a mensagem de “Aquarius”. Nada mais a dizer.

 

Amigos, leiam a entrevista reveladora que concedi ao jornalista Igor Martim. Nela, falo sobre os atores inexperientes que só buscam a fama, como e por que desisti da minha carreira de ator, o que fiz para que as minhas críticas teatrais se tornassem reconhecidas, digo quais são os prazeres e dissabores de se ter um blog, como eu conheci o trabalho do ator Renato Góes, como eu lidei com o meu ego ao ser admirado por parte da classe artística, se eu já feri alguém com uma crítica, como eu rebato os que consideram a moda como algo fútil, o que é tirar a foto de um ator ou modelo para mim, como eu recebo uma reação negativa a algo que escrevi, e na minha opinião, digo quando um ator “suicida” a sua arte. Espero que gostem. É uma entrevista por vezes forte e comovente. Acredito que não se arrependerão ao lê-la. Abraços. Paulo Ruch

Amigos, leiam a entrevista reveladora que concedi ao jornalista Igor Martim. Nela, falo sobre os atores inexperientes que só buscam a fama, como e por que desisti da minha carreira de ator, o que fiz para que as minhas críticas teatrais se tornassem reconhecidas, digo quais são os prazeres e dissabores de se ter um blog, como eu conheci o trabalho do ator Renato Góes, como eu lidei com o meu ego ao ser admirado por parte da classe artística, se eu já feri alguém com uma crítica, como eu rebato os que consideram a moda como algo fútil, o que é tirar a foto de um ator ou modelo para mim, como eu recebo uma reação negativa a algo que escrevi, e na minha opinião, digo quando um ator “suicida” a sua arte. Espero que gostem. É uma entrevista por vezes forte e comovente. Acredito que não se arrependerão ao lê-la. Abraços. Paulo Ruch

Blog Cj Martim

Paulo Ruch é jornalista, fotógrafo e teve um passado como ator. Possui um blog que aborda vários assuntos ligados ao entretenimento e, claro, suas significativas críticas teatrais, que não economizam nas palavras e no respeito às equipes dos espetáculos. Nesta entrevista, o jornalista revela que não gosta do termo “blogueiro”, que existe péssimo ator a olhos vistos e, ainda, revela seu respeito à classe artística.

Paulo, me desculpe, mas não vou colocar perfil em sua foto. Os mais sensíveis vão identificar que se trata de um homem apaixonado pela cultura, pelo conhecimento e que respeita o artista como se deve respeitar uma música clássica: em silêncio e sentindo a emoção tomar forma. Quanto aos mais insensíveis, não se preocupe! Depois dessa entrevista, vão olhar para sua foto e terem a percepção que existe algo mágico e transformador nos seus olhos.

13403772_1082084571881444_4475007451743219893_o Paulo Ruch…

Ver o post original 3.903 mais palavras

reynaldo-giannecchini-no-programa-do-jo-1309821422788_615x300
Foto: Divulgação/TV Globo

Ao som de um tango, Reynaldo Gianecchini é chamado por Jô Soares. O ator trajava bonito casaco de couro preto que se sobrepunha a uma camisa em tons claros. Calça escura e tênis moderno completavam o visual. A conversa se inicia com a abordagem de sua ascendência. Por parte de pai, italiana. Por parte de mãe, espanhola e alemã. Após, o assunto ruma para a peça que Reynaldo está fazendo, ao lado de Erik Marmo e Maria Manoella, sob a direção de Elias Andreato, “Cruel”, de August Strindberg. Dissera que a vontade de montar o texto surgiu de uma “ação entre amigos”, “de ser feliz na coxia”, “de fazer um processo que fosse de grande aprendizagem para eles”. A ideia lançada foi a de que o espetáculo fosse apresentado em dias alternativos (e assim ocorre, pois está em cartaz na FAAP, SP, às segundas e terças), a fim de que o elenco pudesse tocar outros projetos. Jô pergunta sobre as crueldades que dão título à encenação. E Reynaldo Gianecchini afirma que o seu personagem é o mais cruel, sendo vingativo e desejoso de destruir aqueles que o prejudicaram. A violência não é física, e sim, interna. Materializa-se nas palavras. O que na sua opinião, torna o trabalho mais difícil. Destaca a contribuição da preparadora corporal Vivian Buckup, porquanto a contenção de gestos com concentração nos olhar e verbo se configura como uma proposta cênica. Informa-nos que o diretor Elias lhes pediu que mostrassem a violência de cada um. Fala-se agora de Fred, seu último papel na TV, da novela “Passione”, de Silvio de Abreu. O artista revela que tanto ele quanto sua colega Mariana Ximenes, apesar das maldades que perpetravam, contavam com a torcida de uma fatia específica do público pela regeneração de ambos (provavelmente por terem feito papéis bondosos na carreira). A estreia do ator nos palcos aconteceu com “Cacilda!”, de José Celso Martinez Corrêa. A seguir, “Boca de Ouro”, de Nelson Rodrigues, dirigido também por José Celso. Fotos são exibidas no telão contando a sua trajetória na ribalta, com imagens da citada produção “Boca de Ouro”; “Peça Sobre o Bebê”, de Edward Albee, com Fúlvio Stefanini, cujo diretor fora Aderbal Freire-Filho; “Doce Deleite” (direção de Marília Pêra, com Camila Morgado); e “O Príncipe de Copacabana”, de Gerald Thomas. Cenas de “O Primo Basílio”, filme baseado na obra homônima de Eça de Queiroz, realizado por Daniel Filho, no qual contracenou com Débora Falabella, são exibidas da mesma forma no telão. Reynaldo cita ainda “Entre Lençóis”, de Gustavo Nieto Roa, em que atuou junto com Paola Oliveira. E asseverou que sempre estivera ladeado por atrizes bonitas. E a entrevista termina com a certeza de que além de bom ator, Reynaldo Gianecchini é bom de papo. Sem contar que dera seu famoso sorriso ao final.

Obs: A entrevista do ator Reynaldo Gianecchini ao “Programa do Jô”, na Rede Globo, foi exibida em julho de 2011, e à época o intérprete estava encenando, ao lado de Erik Marmo e Maria Manoella, a peça escrita por August Strindberg “Cruel” (a direção coube a Elias Andreato, e a temporada alternativa ocorreu no Teatro FAAP, em São Paulo).

Fabio_01_okf11-580x320
Foto: Karina Tavares/Revista ISTOÉ Gente

Eram meados de 1990. Abro o jornal. E vejo uma foto. Nela estava um jovem ator. Jovem ator de impressionantes olhos azuis. Com um violão debaixo do braço. Sim, Fabio também é músico. Já teve banda, e toca outros instrumentos. Fabio Assunção era uma das promessas da Rede Globo para a novela de Cassiano Gabus Mendes que iria estrear no horário nobre: “Meu Bem, Meu Mal”. A promessa deixou de ser promessa para se tornar realidade. E hoje Fabio é considerado um dos mais relevantes e talentosos intérpretes que possuímos. A despeito de sua juventude, a trajetória profissional é tão extensa quanto preciosa. Após a estreia bem-sucedida na TV, muitos e importantes papéis ficaram marcados em nossas lembranças. Foi Felipe no mundo criativo engendrado por Antonio Calmon em “Vamp”. Experimenta a vilania na faixa das 18h, em “Sonho Meu”, de Marcílio Moraes. Inicia gloriosa parceria com Gilberto Braga em “Pátria Minha”, como Rodrigo Laport. Com cabelos e barba crescidos, “encontra” Benedito Ruy Barbosa em “O Rei do Gado” (a cena na qual fica perdido em uma selva por dias é memorável). É disputado por Gabriela Duarte e Vivianne Pasmanter no folhetim do “Menestrel do Leblon” Manoel Carlos, “Por Amor”. Repete a dose com Gilberto Braga em uma minissérie cheia de ação e suspense, “Labirinto”. Veste roupa de época na caprichada “Força de um Desejo”, do mesmo Gilberto. Recebe convite irrecusável para integrar uma obra de Eça de Queiroz, “Os Maias”, adaptada por Maria Adelaide Amaral, e dirigida por Luiz Fernando Carvalho. E honra o convite com garbo. Depois de passar por “Coração de Estudante”, de Emanuel Jacobina, em que fora o professor de Biologia Edu, torna-se ainda mais célebre por seu notável desempenho em “Celebridade”, de Gilberto Braga, como Renato Mendes, editor da revista “Fama” (Fabio ganhara distintos prêmios). Contribuiu com excelência para a minissérie de Benedito Ruy Barbosa, “Mad Maria”. Seriados, demais novelas, e minissérie pontuam sua história. Volta em grande estilo em meio às gêmeas de Alessandra Negrini na ótima trama de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, “Paraíso Tropical”, como Daniel. Surpreende o Brasil com sua incrível personificação de Herivelto Martins em “Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor”, de Maria Adelaide Amaral. Participações especiais sobrevieram. Esteve em um episódio de “As Brasileiras”, de Daniel Filho, e hoje faz parte do elenco fixo de “Tapas & Beijos”, como Jorge. No cinema, filmes como “Duas Vezes com Helena”, de Mauro Farias; o Bellini dos enredos detetivescos de Tony Bellotto, com direito à láurea em Los Angeles; a comédia “Sexo, Amor & Traição”, de Jorge Fernando; “Primo Basílio”, de Daniel Filho (reencontro com Eça de Queiroz); o belíssimo “Do Começo ao Fim”, de Aluizio Abranches; e no longa de Paulo Caldas, “O País do Desejo”. No teatro, a plateia ouviu de sua voz textos de Plínio Marcos, Nelson Rodrigues, Sam Shepard e Edward Albee. Isto sem contar “A Paixão de Cristo”. Fabio alcançou sucesso de público e crítica com a peça “Adultérios”, de Woody Allen (tradução de Rachel Ripani), e direção de Alexandre Reinecke. Interpretou Fred, um típico sem-teto, com aguçada inteligência, que ao se deparar com um afamado roteirista de cinema (Norival Rizzo) à beira do rio Hudson, em Nova York, enquanto aguarda a amante (Carol Mariottini) para dar fim ao relacionamento, reclama para si a autoria de recente roteiro de um filme de enorme êxito creditado ao homem que encontrara. O espetáculo se desenrola com intensos e divertidos diálogos. Como podemos ver, ouve-se o dedilhar das cordas do violão do nobre Fabio Assunção, seja no teatro, no cinema, ou na televisão.

Selton-Mello05
Foto: gshow

No começo do programa, ao anunciar Selton Mello, Jô brinca que se trata de um ator "que está começando agora a sua carreira brilhantemente", e finge se esquecer do nome dele, indagando ao garçom Alex como se chama. Alex, com o sotaque espanhol que lhe é característico, diz: "Selton Mello". Jô Soares brinca dizendo que Selton é conhecido até no Chile. Foi a "deixa" para uma entrevista promissora. Selton, vestido de forma casual e clássica (blazer, camisa de botão azul anil, calça com bainha dobrada e tênis preto com detalhe em branco), com suas simpatia e simplicidade habituais, é perguntado sobre o longa "O Palhaço", no qual, além de ter dirigido, e escrito o roteiro junto com Marcelo Vindicatto, atua. Foi-nos dito que a estreia acontecerá no dia 28 de outubro, que a produção já fora apresentada nos Festivais de Paulínia, Gramado, do Rio, e após na Mostra de São Paulo. Foram aproximadamente dois anos entre o momento de Selton e Marcelo iniciarem o roteiro até a exibição. A produtora é Vânia Catani. O entrevistado passa a nos contar sobre a história do filme: um palhaço chamado Benjamim (Selton Mello) que julga estar perdendo a graça, e que no decorrer da trama redescobre o deleite da sua profissão. Cita Paulo José, e discorre sobre o prazer que fora trabalhar com ele. Há ainda no elenco, Álamo Facó, que interpreta João Lorota. O artista afirma que é de Passos, Minas Gerais, mas que fora criado no Rio de Janeiro, e que frequentava sim circos quando era criança. Afirmara que a ideia de se contar este enredo de modo cinematográfico surgiu como uma maneira de se discutir acerca da vocação, da escolha de cada um para as suas vidas, só que sob os olhos de um palhaço. Explica o porquê do nome Benjamim para o personagem que interpreta. Surgiu de um livro intitulado "Circo-Teatro – Benjamim de Oliveira", de Erminia Silva. Benjamim, segundo Selton, foi um escravo negro, menino, que fugiu com um circo, por volta de 1860, nele crescido, e que depois veio a fundar o próprio. E há detalhe curioso: o nome completo do papel é Benjamim Savalla Gomes. Savalla Gomes foi dado em homenagem ao palhaço Carequinha, que tinha este sobrenome. E Valdemar (Paulo José) serviu para homenagear outro grande artista circence, o Arrelia. Jô pergunta se há circo-teatro no filme. Selton assevera que há "uma espécie de auto". São mostradas então cenas do longa-metragem, que por sinal tem bela fotografia de Adrian Teijido e caprichados figurinos de Kika Lopes. Aliás, o circo retratado é o circo de pau fincado (o mais antigo). O entrevistador compara a estética circense a "felliniana". O enredo é atemporal. Há personagens como Meio Quilo, interpretado por Tony Tonelada (artista de circo de fato), e Dona Zaira, defendida por Teuda Bara, do Grupo Galpão. O ator comentou sobre a troca de experiências que houve entre ele, Selton, diretor, e Paulo José, diretor. Pergunta interessante é feita: se fora a primeira vez que Selton Mello e Paulo José interpretaram palhaços em suas carreiras. O intérprete responde que no caso dele seria a microssérie "O Auto da Compadecida", de Guel Arraes, Adriana Falcão e João Falcão, baseada na peça homônima de Ariano Suassuna, e com relação a Paulo, teria sido "Shazam, Xerife & Cia", seriado de Walther Negrão. Para Selton, "eram palhaços, mas não oficialmente, não com nariz vermelho". Fala-se sobre os diversos tipos de palhaço, como o augusto, o esperto e o estúpido. Benjamim ora é esperto ora é ingênuo. Quanto ao gênero, é uma comédia que comove, e que aborda a identidade. Chega-se ao fim. Então, alô criançada, o circo chegou. E o circo chegou com "O Palhaço".

Obs: A entrevista do ator e diretor Selton Mello fora concedida a Jô Soares em seu programa, exibido pela Rede Globo, no ano de 2011.

“Respeitinho!”

Publicado: 16/02/2014 em Cinema, Moda, Teatro, TV

tpm127_ensaio_002_1
Foto: Christian Gaul/Revista TPM

O ator português Paulo Rocha, nascido na cidade do Porto, foi pessoalmente convidado pelo autor Aguinaldo Silva da novela das 21h da Rede Globo, “Fina Estampa”, para interpretar Guaracy Martins, lusitano com nome de índio, proprietário de padaria bastante procurada pelos moradores do Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Guaracy é um personagem pitoresco. Torcemos por ele. Transita bem tanto no campo das situações cômicas quanto no das românticas. É um homem que orgulha-se das raízes. Aprecia contar a todos sua história de vida, e o porquê do nome possuir origem indígena. A generosidade, a amizade, a enorme disposição para a labuta sem dispensar rigor por vezes necessário para manter o bom funcionamento do seu negócio são características para nós evidentes. Porém, o que talvez mais chame a atenção no perfil do rapaz de cabelos encaracolados, barba aparada, e olhos azuis seja a intensa vontade de amar uma mulher. Por sinal, desde o início do folhetim, a eleita para as suas fantasias afetivas fora Griselda (Lilia Cabral), ou seja, desde o tempo no qual era o Pereirão, “o marido de aluguel”, a “faz-tudo” sem vaidade ainda assim bonita, que vestia macacão manchado de graxa, e empunhava chave de grifo. Entretanto, após reiteradas investidas que beiraram o fracasso de conquistar a mãe de Quinzé (Malvino Salvador), Guaracy, por conselho da funcionária Dagmar (Cris Vianna), decidiu cuidar melhor do visual. Calças de bainha curta, camisas pouco vistosas e sandálias foram substituídos por roupas sociais. Não adiantou. Griselda não demonstrou entusiasmo. A questão é que ela parecia ter se “fechado” para o amor. O português, meio confuso, em ocasiões diversas, chegou até a gracejar para o lado da moça que lhe prepara as famosas empadas. O ponto máximo da decepção com a agora milionária Griselda deu-se com o anúncio feito por ela mesma de que estava noiva dele. Era apenas um ardil para afugentar Pereirinha (José Mayer). Guaracy passou então a tratá-la com desprezo. E este de alguma forma provocou desconforto na ganhadora da loteria. E de uns capítulos para cá, tem-se notado crescente interesse do comerciante por Esther (Julia Lemmertz), em crise no casamento, e que viciou-se nas suas empadas. O carinho mútuo é notório, e o ciúme de Paulo (Dan Stulbach) e Griselda, também. Tudo leva a crer que haverá romance ou algo próximo. Já quanto ao intérprete Paulo Rocha, estudou na Escola Profissional de Teatro de Cascais. Integrou o Teatro Experimental de Cascais, tendo encenado Alexandre Dumas e Tennessee Williams, por exemplo. No currículo, há inúmeras participações na televisão, e incursões no cinema. Paulo Rocha merece respeito. Ou como Guaracy diz: “Respeitinho.”