Arquivo da categoria ‘Cinema’

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Foto: Marcelo Santos Braga

Todas as quintas-feiras, acontece o “Cine Debate”, sessões on-line de filmes seguidas de debate.
Numa parceria entre o Centro de Artes UFF e a Olhar Distribuidora, o longa exibido no dia 16/07 foi o documentário “Meu Nome é Daniel” (2018).
A seguir, a crítica:

Daniel Gonçalves, portador de uma doença rara que limita os seus movimentos, assume as funções de diretor, corroteirista e coprodutor de “Meu Nome é Daniel”, sendo o primeiro brasileiro nesta condição a comandar um longa-metragem

“Meu Nome é Daniel”, documentário baseado na vida do cineasta do município de Barra Mansa, Rio de Janeiro, Daniel Gonçalves (diretor, corroteirista e coprodutor), portador de uma doença rara com limitações motoras, sendo o primeiro brasileiro nesta condição a comandar uma obra do gênero, é um filme que subverte. Alternando cenas de arquivo em Super 8 e VHS de suas infância e adolescência e começo da fase adulta, narrada com ritmo e pausas certeiros em primeira pessoa por Daniel, o que confere à produção uma poderosa legitimidade, tudo é contado ao público sem pudores, de forma franca e clara, como a naturalidade de sua família em lidar com a situação, algumas manifestações de preconceito da sociedade, sua iniciação sexual, as festinhas juvenis, as relações afetivas e suas escolhas profissionais.

Com o aval de Roberto Berliner, diretor de “Nise: O Coração da Loucura”, na coprodução do longa, o documentário não pretende ser, segundo o próprio Daniel Gonçalves, “um filme de coitadinho ou super-herói” ou “um filme de superação”, o que lhe denota um caráter tematicamente subversivo 

O roteiro assinado por Daniel, Débora Guimarães e Vinícius Nascimento (também montador, realiza um ótimo trabalho), eficientíssimo em sua estrutura, com pinceladas de humor contextualizado, tem como ponto de partida a busca de seu protagonista por um diagnóstico preciso para a sua condição física, mas o filme, coproduzido por Roberto Berliner e Rodrigo Letier, não se resume a isso. Evitando temas musicais com o objetivo de afastar qualquer provocação sentimentalista, “Meu Nome é Daniel” subverte no sentido de que não pretende ser, segundo o seu diretor, “um filme de coitadinho ou super-herói” tampouco “um filme de superação”.

Premiado em três importantes festivais, o documentário nos leva a uma reflexão obrigatória e necessária a respeito da conceituação do que é ser “normal”

Premiado na Mostra de Tiradentes (Melhor Longa-Metragem pelo Júri Popular), nos Festivais Internacional de Cine de Cartagena de Índias 2019 (Prêmio Documental Calificado Oscar) e do Rio (Menção Honrosa Direção de Documentário), “Meu Nome é Daniel” é uma obra imprescindível, necessária, que nos leva à reflexão obrigatória do que é ser normal, abraçando generosamente a diversidade em todas as suas camadas, sem omitir o que dela decorre. Daniel Gonçalves representa o que há de íntegro e reto no ser humano. Daniel é bem mais do que o substantivo próprio do título de um belo filme. Daniel são muitos, mas poucos são aqueles que oferecem a sua beleza de vida em imagens.

Assista ao trailer do filme:

 

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Foto: Diego Garcia/Divulgação

Conhecido por sua subversão temática, vista em sua obra anterior, “Boi Neon”, Gabriel Mascaro antevê em seu mais novo longa um Brasil distópico dominado por uma fanática corrente religiosa que prega conceituações distorcidas dos elementos sagrados e profanos, que afetam diretamente o comportamento humano e sua relação com o casamento, o amor, a fé e o sexo 

Foi lançado no dia 27 de junho do ano passado o impactante novo filme do diretor pernambucano Gabriel Mascaro, conhecido pelo público a partir do sensível e original “Boi Neon” (2015), “Divino Amor”. Neste longa estrelado por Juliano Cazarré, o cineasta subvertia o universo machista dos vaqueiros ao desenhar um de seus membros como um homem que sonhava em criar vestidos. Esta mesma subversão, que passa a ser uma marca do cineasta, é agravada em “Divino Amor”, no sentido em que se profetiza um Brasil distópico em 2027, oficialmente laico, mas dominado (e oprimido) por uma vertente religiosa intolerante de caráter evangélico que leva às últimas consequências os seus conceitos radicais e distorcidos a respeito da fé, do amor, do casamento e do sexo, misturando indiscriminadamente no mesmo cadinho o profano/”pecado” (swing de casais, valorização dos corpos nus em alguns de seus rituais) e o sagrado (tudo se faz em nome de um Deus misericordioso).

Dira Paes, em performance corajosa, representa uma funcionária de cartório que tenta convencer os casais a não se divorciarem, atendendo aos seus dogmas questionáveis, ao mesmo tempo em que frequenta raves evangélicas nas quais seu Deus popstar é idolatrado 

O roteiro inteligente, apropriado e espertíssimo de Gabriel Mascaro, Rachel Daisy Ellis, Esdras Bezerra e Lucas Paraizo nos traz uma brilhante e corajosa Dira Paes como uma funcionária pública de cartório, Joana, que com seu jeito polido e manipulador tenta convencer os casais a não efetivarem o divórcio pretendido em nome da manutenção do amor máximo traduzido no núcleo familiar convencional. Joana, adoradora da burocracia estatal, frequentadora de raves evangélicas grandiosas em que o seu Deus é popstar, é casada com o florista de funerais Danilo (o ótimo Julio Machado), que, assim como ela, frequenta o fechado grupo religioso “Divino Amor”. Uma incompatibilidade do casal desequilibrará a sua fé até então inexpugnável.

O filme de Gabriel Mascaro conta com eficientes suportes técnicos, como a fotografia onírica de Diego Garcia e a trilha de DJ Dolores, sendo sustentado ainda por outros artistas afinados em suas participações 

Com fotografia desbotada, onírica e com néons de Diego Garcia, trilha sonora instigante do DJ Dolores (dentre outros), o perturbador filme tem o seu elenco completo por Emílio de Mello (fantástico como o pastor de drive thru), Thalita Carauta (perfeita na indignação de uma cliente do cartório), Teca Pereira (convincente como a Mestra Divino Amor) e Mariana Nunes

(simboliza com fidedignidade a esposa angustiada por suas dúvidas afetivas/emocionais).

Assista ao trailer do filme:

 

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Foto: Divulgação

Monique Gardenberg participou de debate, em maio do ano passado, em cinema universitário de Niterói, no Rio de Janeiro, após a exibição especial de seu filme “Paraíso Perdido”, uma joia cinematográfica que exalta dentro de uma família o irresistível repertório musical “brega” do país

Em 16 de maio do ano passado, o Cine Arte UFF, que integra o Centro de Artes UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, contou com a presença da cineasta, diretora teatral, produtora e roteirista Monique Gardenberg no debate após a sessão especial de seu último filme, o encantador, sensível e poético “Paraíso Perdido” (2018). Monique, celebrada no cinema com obras como “Jenipapo” (1995), “Benjamim” (2004) e “Ó, Paí Ó” (2007), mergulha fundo, com nítida paixão pessoal, no fascinante universo do cancioneiro romântico do país, com pérolas musicais tachadas por muitos, de forma pejorativa, como bregas. 

Trilha sonora fascinante de Zeca Baleiro, elenco impecável encabeçado por Erasmo Carlos, roteiro bem estruturado da própria diretora centrado em múltiplos e peculiares personagens, além da fotografia do experiente Pedro Farkas valorizam sobremaneira o longa

Gardenberg, que também assina o roteiro (rico em costuras e desdobramentos narrativos) se vale desta abundante musicalidade (trilha fantástica de Zeca Baleiro, que inclui Márcio Greick , Reginaldo Rossi e Roberto Carlos) para alinhavar as intrincadas e surpreendentes ligações entre os seus adoráveis e diversificados personagens, os quais possuem, em sua maioria, como refúgio seguro das hostilidades urbanas, o clube noturno “Paraíso Perdido”.
O clube, que apresenta shows tão pitorescos quanto memoráveis (um dos pontos altos do filme), pertence ao patriarca José (Erasmo Carlos em atuação iluminada), pai de Ângelo (Julio Andrade, irresistível) e avô de Ímã, uma talentosa drag queen (Jaloo, vibrante) e Celeste (Julia Konrad, precisa na fragilidade). Ímã é filho da detenta Eva (Hermila Guedes, uma atriz de personalidade forte), que se apaixona pela colega Milene (Marjorie Estiano explorando a sua versatilidade).
O gatilho da história ocorre a partir do encontro, numa blitz, entre o policial Odair (Lee Taylor, seu domínio em cena impressiona) e o cantor Teylor (Seu Jorge, inspiradíssimo), que o convida para ir ao clube.
Odair é filho de Nádia (Malu Galli, soberba), uma cantora que sofreu uma agressão que a deixou surda. Humberto Carrão como Pedro, o amante de Ímã, defende com nobreza o seu trabalho mais desafiador, e Felipe Abib, como Joca, o pai do filho que Celeste está esperando, realiza uma elogiável composição.
Louvado pela fotografia inebriante de Pedro Farkas, “Paraíso Perdido” é um tesouro cinematográfico atual que revela o seu despudor em afirmar que o amor pode ser diverso e honesto, ao som de todas as canções, inclusive as mais “bregas”.

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Foto: Divulgação

O grande sucesso literário de Louisa May Alcott, “Little Women”, trouxe a diretora de “Lady Bird”, Greta Gerwig, de volta às telas, resultando na indicação do filme a seis categorias do Oscar 2020

A pergunta que se faz ao assistirmos à nova adaptação cinematográfica de “Little Women” (1868), grande sucesso literário da americana Louisa May Alcott , “Adoráveis Mulheres” (“Little Women”, EUA, 2019), da diretora Greta Gerwig (“Lady Bird”), candidata a seis categorias do Oscar 2020 (Melhor Filme; Atriz, Saoirse Ronan; Atriz Coadjuvante, Florence Pugh; Melhor Roteiro Adaptado, Greta Gerwig; Melhor Figurino, Jacqueline Durran – vencedora; e Melhor Trilha Sonora Original, Alexandre Desplat) é o que o torna tão fascinante e atemporal para leitores do mundo inteiro, a despeito de se passar em um período específico da História norte-americana, a Guerra de Secessão (1861-1865). Possivelmente a desmedida força feminina e sua indissociável união e solidariedade (a sororidade de nossos tempos) de uma família, as March, confrontada com as intempéries da guerra (como a ausência de seu patriarca), formada por quatro irmãs, a escritora liberal e feminista Jo (a belíssima Saoirse; merecida indicação), a aspirante à atriz que sonha constituir uma família Meg (Emma Watson), a pianista Beth (Eliza Scanlen), e a exigente pintora Amy (Florence Pugh), lideradas pela generosa mãe Mary (a iluminada Laura Dern; que prazer vê-la em cena).

Greta Gerwig procurou não se arriscar em inovações estéticas e formais, preferindo reproduzir a linguagem convencional de um filme de época focado nas relações familiares, mantendo, a despeito disso, a sua relevância como obra cinematográfica

O roteiro de Greta, orgânico, soube entrelaçar os conflitos particulares e coletivos dessas mulheres com notada propriedade. Sua direção (esnobada pelo Oscar, o que gerou estranheza) não buscou inovações estéticas e formais arriscadas, preferindo os padrões convencionais infalíveis de um filme de época com foco no núcleo familiar, proporcionando-nos cenas lindamente coreografadas. Greta, uma jovem com seus 36 anos, sem dúvida é uma cineasta de inegável competência, sendo um nome forte na indústria do cinema estruturalmente dominada pelos homens. Merecem destaque a direção de arte de Jess Ronchor e os figurinos de Jacqueline Durran. O filme conta com a presença majestática de Meryl Streep, como a ranzinza Tia March, e os galãs da vez Timothée Chalamet e Louis Garrel. O longa talvez peque pelo excesso de diálogos que possam confundir a plateia e a trilha sonora bonita porém intermitente de Alexandre Desplat. No entanto, “Adoráveis Mulheres” mantém sua relevância. Louisa May Alcott está bem representada.

Assista ao trailer do filme:

 

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Foto: Divulgação

“O Farol” emula com outros filmes famosos que tiveram como mote a solidão e o confinamento experimentado por dois indivíduos, trazendo como “vítimas” dessa situação atores com trajetórias bem opostas, Willem Dafoe e Robert Pattinson 

A solidão compartilhada involuntária, experimentada por dois indivíduos, sempre foi nobremente explorada na cinematografia mundial. Seja numa ilha deserta com Lee Marvin e Toshiro Mifune durante a 2a Guerra Mundial (“Inferno no Pacífico, 1968), ou no interior de uma cela de prisão brasileira com William Hurt e Raul Julia (“O Beijo da Mulher Aranha”, 1985), numa chave dramática distinta. No caso do vencedor da Crítica Internacional da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2019, “O Farol” (“The Lighthouse”, EUA, Canadá, 2019), do americano Robert Eggers (“A Bruxa”), trata-se da convivência movida a tensão máxima entre o irascível e tirânico zelador de farol Thomas Wake (William Dafoe) e o novato faroleiro Ephraim Winslow (Robert Pattinson) confinados numa longínqua ilha no início do século XX. Enfrentando todas as espécies de revés, incluindo as intempéries naturais, esses dois homens, vítimas da situação opressora que lhes foi imposta, ficam sempre no perigoso limite entre a sanidade e a loucura. 

O formato em tela quadrada aumenta a sensação de claustrofobia, valorizada pela bela fotografia expressionista em p&b de Jarin Blaschke, indicada ao Oscar deste ano

Filmado com arrojo e apuro visual por Eggers, que preferiu lançá-lo em tela quadrada, aumentando a sensação de claustrofobia, o longa, cujo roteiro com diálogos afiados lhe pertence e ao irmão Max Eggers, reserva ao público uma espiral crescente de suspense e terror com pitadas de delírio psíquico. O veterano Dafoe e Pattinson (galã revelado na saga “Crepúsculo”) travam um inexorável duelo de titãs (ambos impressionam, mas Robert Pattinson nos surpreende como grande ator) na produção em preto e branco expressionista fotografada em instigantes locações por Jarin Blaschke (indicado ao Oscar deste ano) e musicada de modo perturbador por Mark Korven. 

O produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, emplaca mais um longa de qualidade no mercado externo, firmando o seu empenho em se engajar em obras com grande potencial artístico

“O Farol”, coproduzido pela RT Features de Rodrigo Teixeira, é um belo e pungente filme de arte (sem reducionismos) que faz com que nos defrontemos com a psiquê humana quando é levada aos extremos da sobrevivência e do convívio forçado. O que Wake e Ephraim não sabem é que não estão sós com o farol e as gaivotas. Nós estamos o tempo inteiro com eles.

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Foto: Divulgação

Em 1992, Quentin Tarantino se revelava ao mundo com “Cães de Aluguel”. Após muitos anos e vários sucessos, hoje o diretor é considerado um dos mais inventivos do cinema, concorrendo com o seu filme atual a 10 categorias do Oscar, incluindo as principais, como Melhor Filme e Direção

Em 1992 era lançado um filme, “Cães de Aluguel”, de um jovem diretor norte-americano, Quentin Tarantino, que entraria de vez para a galeria dos cineastas mais inventivos da atualidade, criador de uma linguagem e estética particulares, que de tão pessoais se tornaram um adjetivo: um filme “tarantinesco”. Dois anos depois, Quentin se sagraria o grande vencedor do Festival de Cannes com “Pulp Fiction”. De lá para cá, vieram muitos prêmios para o também roteirista e produtor. Conhecido por sua narrativa iconoclasta, profusão de diálogos afiados e sarcásticos, montagem acelerada, hiperviolência, além de um bocado de referências pop, incluindo a música, cada novo filme de Tarantino é cercado de expectativas. E não foi diferente com “Era Uma Vez Em… Hollywood” (“Once Upon a Time in Hollywood”, EUA, 2019), vencedor do Palm Dog do Festival de Cannes (recentemente, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou os indicados ao Oscar, sendo que “Era Uma Vez Em… Hollywood” concorre em 10 categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator – Leonardo DiCaprio, Melhor Ator Coadjuvante – Brad Pitt, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Design de Produção, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e Melhor Roteiro Original – Quentin Tarantino).

O longa, que reúne dois dos maiores astros surgidos no início dos anos 90, Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, é passado no final da década de 60 em uma Los Angeles imersa no glamour e no desbunde, onde um ator em declínio e o seu dublê enfrentam os reveses dos bastidores de uma filmagem, enquanto se prenuncia um fato trágico que marcaria o cinema para sempre

Tendo como pano de fundo uma Los Angeles de 1969 tomada pela cultura hippie, pelo desbunde do glamour hollywoodiano e pelos momentos antecedentes à tragédia envolvendo a atriz Sharon Tate (a belíssima Margot Robbie, esfuziante), “Era Uma Vez…” nos conta a jornada de um astro em direção ao ostracismo, o angustiado e conflituoso Rick Dalton (Leonardo DiCaprio dono de seu papel) e seu fiel dublê, o bonachão e charmoso Cliff Booth (Brad Pitt esbanja talento com sua beleza madura), pelos bastidores das filmagens de uma produção em que não é mais o centro das atenções. Com as presenças ilustres de Al Pacino, Bruce Dern e Kurt Russel, esta obra escrita por Tarantino, que poderia ser um pouco menor do que as suas 2h40min, ganha com a sintonia perfeita de dois dos maiores intérpretes/galãs surgidos no início da década de 90 e com a trilha sonora recheada de bons rocks e baladas da época. Um filme valoroso. Talvez um pouco mais do que isso para os fãs do autor de “Pulp Fiction”.

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Foto: Divulgação

“Dois Papas”, que marca o retorno de Fernando Meirelles à direção de filmes, junta-se à irresistível galeria de obras cinematográficas que abordaram a vida instigante e misteriosa dos Sumos Pontífices

Filmes sobre papas sempre despertam a curiosidade do público cinéfilo, provavelmente devido aos mistérios e transcendência atinentes ao cargo de Sumo Pontífice, sua potencial intangibilidade e o alcance político de suas decisões no mundo. Caso contrário, obras como “As Sandálias do Pescador” (1966), com Anthony Quinn, e “Habemus Papam” (2011), de Nanni Moretti, sendo drama ou comédia, não teriam feito tanto sucesso. Após um hiato de cinco anos, o consagrado Fernando Meirelles retoma a batuta de cineasta com louvor máximo ao conduzir com elegância, ironia refinada e profunda pesquisa histórica seu mais novo longa, “Dois Papas” (“The Two Popes”, Reino Unido, ITA, ARG e EUA, 2019), roteirizado por Anthony McCarten (Roteirista do Ano no Hollywood Film Awards 2019), que elaborou um enredo lapidar, cujo memorável jogo dinâmico de diálogos se impõe como um dos elementos fundamentais da produção da Netflix.

O longa, cuja trama compreende o período da morte do Papa João Paulo II em 2005, e a renúncia de Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, mostra-nos com humor e inteligência o encontro com rico debate de ideias entre Ratzinger e o novo eleito para assumir a liderança da Igreja Católica, o argentino Jorge Bergoglio

Baseado em fatos reais, “Dois Papas” esmiúça o período entre 2005, com a morte de João Paulo II e a controvertida eleição do alemão Joseph Ratzinger, Bento XVI, e 2013, com sua inesperada renúncia, motivada pela prisão de seu secretário especial, omissão de abusos sexuais e escândalos financeiros, e a eleição do argentino Jorge Bergoglio, o Papa Francisco. Neste lapso de tempo, Fernando explora magistralmente o encontro desses dois homens emblemáticos para a história recente do Catolicismo, marcados por ideias, posições e personalidades tão diversas. O que se vê entre a figura conservadora e elitista de Bento XVI e a simbolização da simplicidade de Bergoglio é a materialização de um embate interpessoal sem tréguas em que são discutidos com inteligência temas como a fé, Deus e os dogmas católicos, sem que o tom leve e bem-humorado seja preterido. Sir Anthony Hopkins e Jonathan Pryce , como Bento e Francisco, respectivamente, estão magníficos, atingindo o ponto da perfeição interpretativa. Titãs absolutos em cena. Como Francisco jovem, o argentino Juan Minujín.
se destaca. A fotografia do uruguaio radicado no Brasil Cesar Charlone é exuberante.

A obra de Meirelles, que nos leva à vasta reflexão, recebeu três importantes indicações ao Oscar 2020

“Dois Papas”, com três importantes indicações ao Oscar 2020 (Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator para Jonathan Pryce e Melhor Ator Coadjuvante para Anthony Hopkins) é um filme fenomenal, obrigatório e imparcial, destinado à vasta reflexão.

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Foto: Divulgação

Karim Aïnouz foi um dos nomes do cinema nacional mais comentados em 2019, tendo sido o responsável por catapultar, e consolidar o seu talento, o ator Lázaro Ramos para o gênero ao lhe dar o papel de Madame Satã no filme homônimo  

Em 2002, o cineasta cearense Karim Aïnouz despertou as atenções para o seu trabalho com o lançamento de “Madame Satã”, filme que consolidou o talento artístico de Lázaro Ramos para o grande público. Depois de outras obras de sucesso, Karim, que também é roteirista, chegou a 2019 como um dos nomes mais comentados do cinema nacional ao ter o seu mais recente longa, “A Vida Invisível”, baseado no romance homônimo de Martha Batalha, reconhecido na Mostra Um Certo Olhar/”Un Certain Regard” do Festival de Cannes 2019, sagrando-se vencedor.

Uma história envolvente e sensível narra o desencontro entre duas irmãs quando ainda eram muito jovens, mostrando que apesar de todas as mudanças de suas vidas, jamais se esqueceram uma da outra 

Corroteirizada por Murilo Hauser, Karim Aïnouz e Inès Bortagaray, a envolvente e sensível produção é estrelada por Carol Duarte e Julia Stockler (soberbas, foram as vencedoras do APCA-SP/Associação Paulista dos Críticos de Arte de São Paulo), que interpretam, respectivamente, no Rio de Janeiro da década de 40, as irmãs Eurídice e Guida Gusmão. Bastante unidas, Eurídice, mais introvertida, sonha em crescer como pianista em Viena, Áustria, enquanto Guida, avançada no comportamento, apraz-se com os namoros. Os rumos são redesenhados quando Guida resolve fugir para a Grécia com o marinheiro Yorgos (Nikolas Antunes), deixando sua irmã desolada. Num cenário patriarcal, Eurídice casa-se com o machista e abusivo Antenor (Gregório Duvivier). As vidas dessas duas irmãs marcadas por uma separação que as corrói, são objetos de todos os tipos de opressão, humilhações, sofrimentos que sua identidade de gênero possa lhes permitir. A intransigência do pai Manuel (António Fonseca) e a submissão da mãe Ana (Flávia Gusmão) acentuam o desencontro fraternal.

“A Vida Invisível” se torna um filme necessário em um momento em que se discute com maior abrangência e profundidade a posição da mulher na sociedade contemporânea

Com a música original de Benedict Shiefer pontuando boa parte da trama, iluminada ora com sobriedade ora com vivacidade pela fotografia de Hélène Louvart, “A Vida Invisível”, sem ser panfletário, cumpre um papel importante ao nos deixar claro do quão é necessário falar da condição feminina, independente de épocas, afastando toda e qualquer ação de preservação da repressão estrutural masculina. O elenco brilha e se destaca sem exceções (inclusive Maria Manoella como Zélia), tendo a participação especial comovente de Fernanda Montenegro como Eurídice. Ao final, pressupõe-se que uma vida inteira pode ser invisível, mas as cartas jamais o serão.

Assista ao trailer do filme:

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Foto: Divulgação

Não é de hoje que o cinema oriental vem nos surpreendendo com a sua qualidade, mostrando ao mundo a inventividade de seus roteiros, a mão firme ou sensível de seus diretores e a beleza pictórica de suas imagens. Em 1954, o clássico de Akira Kurosawa, “Os Sete Samurais”, serviu de referência formal para outros cineastas. “Lanternas Vermelhas” (1991) impressionou com a sua estética inebriante. E “Oldboy” (2003) conquistou um séquito de fãs pelo seu caráter subversivo. O mais novo representante da cinematografia asiática a se destacar no circuito mundial, “Parasita” (“Parasite”/”Gisaengchung”, Coreia do Sul, 2019), de Bong Joon-ho, já se tornou o favorito absoluto para amealhar o Oscar 2020 de Melhor Filme Internacional (no último dia 5 ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro). O grande vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano, além de outros importantes prêmios estrangeiros, revela-nos uma Coreia do Sul apartada entre os miseráveis e os abastados, distante do cartão postal de nação rica e moderna que nos é vendido. O engenhoso roteiro de Joon-ho e Han Jin-won, com ácida crítica social, vale-se de um atalho narrativo que unirá os dois núcleos símbolos da chocante desigualdade econômica. Uma família depauperada, cuja moradia é um subterrâneo urbano, irá se infiltrar, um a um, de forma ardilosa, como funcionários, no seio do rico clã, protegido em sua portentosa mansão. O combate latente entre as classes díspares, a discriminação velada, as mentiras crescentes e a ambição sem freios culminarão em um cenário devastador de hiperviolência e insanidade. O elenco formado por Song Kang-ho, Lee Jung-eun, Choi Woo chik, Park So-dam, Lee Sun Gyun, Cho Yeo-jeong e Jeong Ji-so se sai uniformemente bem (Melhor Elenco no SAG Awards). “Parasita”, de modo original e extremado, partindo de seu microcosmo, denuncia com ferocidade o abismo socioeconômico sistêmico no planeta, provando-nos que toda sociedade em maior ou menor grau é parasitária de si mesma. 

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Foto: Divulgação

“Border”, uma premiada produção sueco/dinamarquesa, é um dos filmes mais chocantes da cinematografia fantástica mundial

O filme fantástico sempre teve o seu público cativo. A fantasia, imiscuída com a realidade, exerce um fascínio irresistível ao longo dos anos no cinema mundial. Obras como “O Labirinto do Fauno” (2006) e o vencedor do Oscar de Melhor Filme “A Forma da Água” (2017), de Guilhermo del Toro, beberam nesta inesgotável fonte. O mais atual exemplar deste segmento é o impressionante, corajoso e chocante “Border” (“Gräns”, Suécia/Dinamarca, 2018), do cineasta e roteirista sueco-iraniano Ali Abassi, que se inspirou no conto do sueco John Ajvide Lindqvist. O filme foi o vencedor da mostra “Un Certain Regard” do Festival de Cannes, além de sair vitorioso do Festival de Los Angeles, e ganhar pelos Efeitos Especiais no Festival de Cinema Europeu, sendo também indicado ao Oscar de Maquiagem.

O longa narra a história de uma agente alfandegária portadora de um dom extraordinário, seu faro apuradíssimo, que se depara com mudanças bruscas em sua vida a partir do encontro com um homem que a levará a descobertas sobre a sua origem

Com roteiro coassinado por Abassi, o longa nos conta a história de Tina (Eva Melander numa atuação ferozmente arrebatadora), uma agente alfandegária de um porto sueco com um dom especial para farejar bagagens e passageiros. Esse faro extraordinário advém de um acidente sofrido na infância quando fora atingida por um raio. Tina possui um rosto deformado não necessariamente ligado à fatalidade. Sua vida muda, com descobertas surpreendentes sobre a sua verdadeira origem, a partir do encontro com Vore (Eero Milonoff, absurdamente bestial), um homem aficionado por insetos que guarda similaridades físicas com a fiscal.

A obra de Ali Abassi é antes de tudo um manifesto a favor das diferenças entre os homens e da inclusão social, característica que lhe garante grandes méritos e respeitabilidade

O longa, no tocante à exclusão e discriminação, lembra-nos bastante o clássico de David Lynch “O Homem Elefante” (“The Elephant Man”, 1980) e o excelente “Marcas do Destino” (“Mask”, 1985), de Peter Bogdanovich. “Border” causará repulsa e estranheza em grande parte da plateia, mas sua relevância é inegável sob o ponto de vista inclusivo, ao ostentar sem pudores todo tipo de relação, até as mais íntimas, entre seres que fogem do padrão da normalidade, aproximando-os da selvageria animal. Ali Abassi cria uma poderosa alegoria da aceitação da diferença entre os indivíduos, algo impensável em muitas sociedades contemporâneas, inclusive no Brasil de hoje. 

“Border” foi lançado no Brasil em 11 de abril de 2019.

Assista ao trailer do filme: