Arquivo da categoria ‘Cinema’

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Foto: Divulgação do filme

Spike Lee, autor de obras emblemáticas, sendo um dos principais e mais engajados diretores norte-americanos, em “Infiltrado na Klan” não foge aos seus sólidos ideais anti-racistas 

Conferi, no dia 14 de janeiro, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, em uma sessão superlotada, a um dos filmes mais comentados da atual safra cinematográfica, “Infiltrado na Klan” (“BlacKkKansman”, 2018), dirigido por Spike Lee, um dos mais importantes e engajados diretores americanos. Spike Lee, autor de emblemáticas produções, como “Faça a Coisa Certa” (longa que o mostrou ao mundo), “Febre da Selva” e “Malcolm X”, cujos enredos são retratos genuínos da situação do negro norte-americano, dentro de contextos sociais, comportamentais e históricos, não fugiu com “Infiltrado…” aos seus conhecidos e elogiáveis ideais defensores de uma América justa e igualitária, denunciando corajosamente os ranços racistas de caráter ancestral, que infelizmente permanecem fortes até hoje.

Baseado em uma história real, com ótimo e bem-humorado roteiro coassinado por Spike Lee, o filme traz uma dupla de policiais, interpretados por John David Washington e Adam Driver, que, usando a mesma identidade, numa missão arriscada, infiltra-se em uma seção da Ku Klux Klan 

Baseado em uma história real de Ron Stallworth, publicada em livro (“Black Klansman”, 1966), com ágil e bem-humorado roteiro de Spike Lee, David Rabinowitz, Charlie Wachtel e Kevin Willmott, a trama gira em torno de um jovem negro, Ron Stallworth (o ótimo John David Washington), inteligente e divertido que, ao ingressar, em 1978, em um Departamento de Polícia de Colorado Springs, Colorado, Estados Unidos, acaba se envolvendo em uma arriscada missão, dividindo a identidade com outro policial, o judeu Flip Zimermann (Adam Driver, impecável), cujo objetivo é a infiltração de ambos, de formas diferentes, em uma seção da organização racista Ku Klux Klan.

A despeito do humor presente em quase todo o filme, “Infiltrado na Klan” é uma obra seríssima, atual, relevante em suas denúncias contra o preconceito racial, incluindo-se o antissemitismo

O elenco, que conta ainda com Laura Harrier, Ryan Eggold, Topher Grace e Jasper Paakkonen é magnífico. A despeito de sua leveza trazida pelo humor, “Infiltrado na Klan” é um filme seríssimo, de uma importância incontestável, atual, que por debaixo de sua capa de entretenimento, é uma denúncia feroz e poderosa contra o preconceito racial, incluindo-se o antissemitismo, presentes nas mais diversas camadas da sociedade norte-americana.

Hoje, 22 de janeiro, saiu a tão aguardada lista dos indicados ao Oscar 2019, contemplando “Infiltrado na Klan” em seis categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Trilha Sonora Original (Terence Blanchard), Melhor Ator Coadjuvante (Adam Driver), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição (Barry Alexander Brown).

Assista ao trailer:

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Foto: Divulgação do filme

“A Casa Que Jack Construiu” já é considerado um dos melhores filmes de 2018 

No dia 5 de janeiro, assisti, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, a um dos filmes mais chocantes do polêmico, e um dos mais importantes cineastas da atualidade, o dinamarquês Lars Von Trier, já considerado um dos melhores filmes de 2018, “A Casa Que Jack Construiu” (“The House That Jack Built”).

Com cenas hiperviolentas, o mais novo longa de Trier traz Matt Dillon como um serial killer com TOC, e Bruno Ganz como o poeta romano Virgílio 

Antes de discorrer sobre esta obra com roteiro inteligentíssimo, recheado de referências literárias e artísticas que demonstram a vasta cultura de seu diretor/autor, aviso-lhes que há inúmeras cenas de hiperviolência, demasiado fortes e aterrorizantes, mas que se encaixam na proposta de Trier, reverberando sua afamada ousadia estética. O filme, com Vivaldi e Wagner em sua trilha sonora, tem como protagonista o galã dos anos 80 (em ótima forma física) Matt Dillon, como o serial killer com TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), o que já é uma ironia em si mesma, Jack, naquele que é possivelmente o melhor papel de sua carreira. Narrando para o poeta romano Virgílio (o célebre ator suíço Bruno Ganz), numa sacada genial do longa, sua trajetória de 12 horripilantes anos de crimes, com direito a interpretações filosóficas do segundo, divididos em “incidentes”, o engenheiro Jack, que sonha construir uma casa imaginada por ele, traça, na verdade, o seu inevitável rumo a um Inferno idealizado.

Com Uma Thurman interpretando uma das vítimas do serial killer, a polêmica obra do cineasta dinamarquês faz um incômodo paralelo entre Arte e horror, não sendo indicado a pessoas sensíveis 

Com a participação bem-vinda de Uma Thurman, como uma de suas vítimas, “A Casa Que Jack Construiu” se firma também como uma lancinante denúncia contra o fato da arte ser associada, em alguns episódios históricos, ao terror perpetrado pelos líderes mundiais. Um excelente filme, mas não indicado a pessoas sensíveis.

 

Assista ao trailer (contém cenas de violência explícita):

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Foto: Divulgação do filme

“Tinta Bruta”, um dos mais relevantes filmes independentes gaúchos dos últimos anos, estreia no Cine Arte UFF, com direito à debate com a presença de seus diretores e dos atores principais 

Em 8 de dezembro do ano passado, assisti, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de janeiro, a um filme bem interessante, e relevante para os tempos atuais, pertencente à atual cena cinematográfica independente gaúcha, “Tinta Bruta”, dirigido e roteirizado por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. No dia 7, após a exibição de estreia do longa-metragem, houve um debate, no mesmo local, com a participação de Filipe e Marcio, e dos atores Shico Menegat e Bruno Fernandes.

“Tinta Bruta”, corajosamente e sem ser panfletário, toca em temas importantíssimos e atuais, como o bullying e a homofobia, tornando-se um pujante instrumento artístico denunciatório contra a prática de uma série de preconceitos e intolerâncias

A produção, que se passa em um centro da cidade nada glamouroso de Porto Alegre, toca, com notável propriedade, em temas contemporâneos delicados, como voyeurismo virtual, bullying, homoafetividade e homofobia, firmando-se assim como uma obra fílmica denunciatória das práticas da intolerância e do preconceito. Sem ser, o que é um grande mérito, panfletário, “Tinta Bruta” conta a história do solitário Pedro (Shico Menegat), um jovem homossexual que ganha a vida fazendo performances sensuais na internet, cujo maior atrativo é o fato de pintar o próprio corpo com tintas coloridas que, sob uma luz especial, ganham aspectos fluorescentes, como o neón (seu nick é Garoto Neon). Pedro, durante a sua via-crúcis numa terra onde a lei é a não aceitação, envolve-se com o bailarino Leo (Bruno Fernandes), enquanto aguarda a sentença de um processo de agressão da qual é acusado.

Premiado e elogiado no Brasil e mundo afora, “Tinta Bruta” serve como arma legítima contrária ao retrocesso cultural e comportamental que estamos vivendo

O filme levou importantes prêmios: Melhor Filme Teddy Award Berlim 2018, Grande Prêmio do Festival do Rio 2018, Melhor Filme CICAE Art Cinema Award Berlim 2018, dentre outros, além de ter recebido efusivos elogios do “Exberliner”, “Hollywood Reporter” e “Variety”. Com elenco afinado (e premiado), bela fotografia de Glauco Firpo e desenho de som dançante de Tiago Bello e Marcos Lopes, “Tinta Bruta” é essencial como arma legítima contra o retrocesso cultural/comportamental do país.

 

Assista ao trailer:

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Foto: Divulgação do filme

“O Beijo no Asfalto” tem sessão especial no Cine Arte UFF 

No dia 29 de novembro de 2018, o Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, teve o privilégio de sediar a pré-estreia especial do primeiro filme dirigido pelo ator Murilo Benício, “O Beijo no Asfalto”, sua versão para um dos maiores clássicos do dramaturgo Nelson Rodrigues (a peça foi publicada em 1960).

O diretor Murilo Benício esteve presente, e participou de um debate com o público 

Após a exibição do longa-metragem houve um esclarecedor debate com o próprio Murilo Benício e uma interessada plateia, bastante motivada e feliz com o que acabara de assistir. Fiz duas perguntas ao diretor. Disse-lhe que havia percebido influências e/ou referências em sua narrativa cinematográfica, como uma estética cinemanovista urbana (como as obras de Nelson Pereira dos Santos), além dos recursos de metalinguagem e melodrama. Perguntei-lhe se as mesmas foram intencionais. Murilo, generoso e franco todo o tempo, afirmou que o resultado foi fruto de muitos filmes aos quais assistiu na vida, e que suas imagens ficaram em seu inconsciente. Indaguei-lhe como exerceu a sua função de diretor, sendo que esta demanda uma certa autoridade, e como fora a sua relação com os atores mais experientes, como Fernanda Montenegro, Stênio Garcia e Otávio Müller. O cineasta asseverou que sempre esteve aberto às melhores ideias.

Fotografia de Walter Carvalho, roteiro do próprio Benício, e elenco com Lázaro Ramos como protagonista 

O “O Beijo no Asfalto” é uma preciosidade do cinema nacional, fotografada com a elegância em “p & b” do esteta Walter Carvalho (como não nos lembrarmos do cinema noir?), com roteiro brilhantemente estruturado por Benício, tendo em seu excelente elenco nomes, além dos já citados, como Amir Haddad, Lázaro Ramos, Débora Falabella, Augusto Madeira, Marcelo Flores, Luiza Tiso e Arlindo Lopes. A trilha sonora calcada em um suspense crescente, composta com refinamento é de Berna Ceppas. O filme, que estreou oficialmente nos cinemas em 6 de dezembro do ano passado, não só lança Murilo Benício como diretor , como corrobora mais um de seus inegáveis talentos.

Assista ao trailer:

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Foto: Daniel Chiacos/Divulgação

A conexão da diretora Carolina Jabor com uma realidade atual e preocupante

Não poucas vezes ocorre de uma obra ser lançada, seja ela literária, televisiva, e neste caso, especificamente, cinematográfica, tendo sido idealizada e desenvolvida muito antes, e o seu conteúdo principal coincidir, se este é o verbo adequado, com acontecimentos correlatos atuais e factuais que atingem em cheio os cidadãos da sociedade, tornando esta mesma obra tão ou mais atraente e apropriada do que por sua própria natureza já poderia ser. É o que acontece com uma das cineastas que mais tem se destacado nos últimos anos, representante de uma novíssima geração, Carolina Jabor (“Boa Sorte”, 2014), ao mostrar ao grande público o seu mais recente longa-metragem, intitulado com bastante coerência, “Aos Teus Olhos”, seguindo a sua linha de abordagem de temas polêmicos, como a alta capacidade destrutiva inerente às comunicações instantâneas virtuais em desmoronar a imagem pública de alguém, baseada tão somente em circunstâncias, situações, ilações e episódios que potencialmente poderiam justificar o “linchamento moral” (expressão usada pela diretora) de que sofre a pessoa alvo dos ataques. Em abril de 2018, mais de duas semanas após o seu lançamento, notícias sobre supostos casos de pedofilia grassaram nas mídias nacionais (hoje sob investigação), e as perigosas “fake news” estão cada vez mais em pauta devido à sua gravidade e rapidez de disseminação nos meios das redes sociais, na tentativa de agregar o maior número possível de usuários junto a uma causa ou ideia.

Carolina Jabor e os roteiristas Lucas Paraizo e George Moura, supervisor, deixam com o público o poder de decidir acerca da culpabilidade ou não do personagem principal 

Carolina Jabor, com extrema responsabilidade e cuidado, lança mão de um suposto caso de pedofilia praticado por um professor de natação de um clube de classe média, Rubens, interpretado por Daniel de Oliveira, junto a um de seus alunos, Alex (Luiz Felipe Mello), um menino de oito anos. Na verdade, o suposto ato pedófilo é apenas um instrumento eficaz que serve brilhantemente à proposta de Carolina, que contou com os excelentes roteiristas Lucas Paraizo e George Moura (supervisor) para fazer uma forte e pungente denúncia contra este nocivo e acessível poder que está bem ao alcance das pessoas comuns, que se sentem no direito, sem estarem alicerçadas em provas materiais legitimamente configuradas e legais, por meio da troca de mensagens privadas e públicas, de colocar em “julgamento” alguém que consideram “inadequado” ao convívio social. Escorada pelos excelentes diálogos de Lucas e George, Carolina cria uma história dramática, envolvente, que vai ganhando, com o desenrolar de seu entrecho, um suspense irresistível. Tendo como inspiração a peça do catalão Josep Maria Miró, “O Princípio de Arquimedes” (“El Principi d’Arquimedes”, 2012), e o longa-metragem espanhol “El Virus de La Por” (2015), de Ventura Pons, os roteiristas estruturaram a narrativa de modo que os espectadores se confundam no que concerne à realidade dos fatos, usando a ambiguidade da personalidade de Rubens, e as possíveis variações de impressões e interpretações de acontecimentos naturais a uma criança de 8 anos. Essas dubiedades pessoais são uma pujante arma usada por Carolina para se manter distanciada do espinhoso assunto, deixando a cargo das plateias tomar a sua própria decisão quanto à culpabilidade ou não do acusado.

Uma envolvente e perturbadora história que se vale de um suposto caso de pedofilia para denunciar o perigo do julgamento precipitado dos indivíduos nos meios virtuais  

Rubens é um rapaz bonito, carismático, atlético e popular, professor adorado pelos seus alunos, e admirado por sua competência pela diretora do clube Ana (Malu Galli). Alex, filho de pais separados que vivem às turras, Davi (Marco Ricca) e Marisa (Stella Rabello), também apresenta um comportamento que suscita questionamentos, ao se revelar amedrontado um dia antes de uma competição esportiva, o que leva o seu professor a levá-lo em separado ao vestiário, longe das câmeras, a fim de acalmá-lo. No filme, uma habilidade do roteiro, em instante algum ouvimos a versão da criança, que acaba ficando, para a sua frustração, em segundo lugar no certame. A partir daí, passa a não querer mais frequentar as aulas de natação. Segundo sua mãe, uma mulher nervosa e solitária, o menino lhe disse que o seu professor lhe deu um beijo na boca. Marisa conta ao seu ex-marido o episódio, deixando-o, assim como nós, desorientados. Há outra grande sacada em “Aos Teus Olhos”, que é a de exibir Rubens como sendo um jovem adulto realmente capaz de aliciar crianças, facilitado pelo seu constante contato com elas. Em conversas no vestiário com o seu colega, o professor Heitor (Gustavo Falcão), Rubens, de modo fanfarrão, bem diferente da forma como se comporta para os demais, revela-se desrespeitoso ao se referir às desenvolvidas formas físicas e às atitudes de algumas alunas adolescentes, pronuncia termos chulos, comenta sobre uma de suas mães de maneira desairosa, sendo repreendido pelo amigo, além de armazenar nos arquivos do seu celular fotos dessas alunas, e adicioná-las na rede social mesmo sendo menores de idade. Um fato pontual nos chama a atenção. Um menino homossexual lhe agradece os conselhos que lhe foram dados na conquista de outro garoto. Enfim, são evidências que, queiramos ou não, colocam-nos em dúvida, sempre propositadamente pelo roteiro. Outra questão demasiado relevante levantada pela diretora é a suposta homossexualidade do professor, que, por sinal, possui uma namorada, Sofia (Luisa Arraes). As perguntas, dentre tantas, que nos são feitas são as seguintes: “Se Rubens fosse comprovadamente heterossexual, haveria tanta celeuma e ódio por parte dos pais dos alunos? E se ele fosse ríspido e grosseiro com os seus filhos, ao invés de ser carinhoso, haveria tamanho levante dos pais?” O que não se pode em nenhum momento é associar naturalmente homossexualismo com pedofilia, como, devido à ignorância e ao preconceito, muitas pessoas o fazem.

Carolina Jabor se revela uma diretora com grande domínio sobre as imagens

A direção de Carolina Jabor comprova a sua imensurável destreza em conduzir uma câmera (impossível não dizer que pode se tratar de algo atávico, haja vista, como sabem, que é filha de Arnaldo Jabor, um de nossos melhores cineastas). Carolina se empenha com enorme êxito em desfilar os perfis psicológicos dos principais personagens do filme, condição impreterível para que nós mesmos, como já fora dito, desenhemos as nossas conclusões de suas ações e posicionamentos. A diretora extrai de seu formidável elenco atuações intensas, ricas, incomodamente poderosas. Ela abusa com impressionante segurança dos movimentos de câmera que acompanham os seus atores, principalmente por trás, cenas no interior dos carros, closes nos dispositivos eletrônicos (destaque para as cenas em que Marisa escreve pela primeira vez em um grupo de mensagens privadas a denúncia ao professor, apagando e corrigindo as palavras ansiosamente, e depois, em outro grupo maior, curtindo o que está em consonância com suas acusações, num processo assustador de aniquilamento da imagem de um homem; e a em que Rubens apaga as fotos de seus arquivos, além daquela em que a forte luz do seu celular reflete em seu rosto apavorado e atônito, ao ler a notícia negativa o envolvendo). Possivelmente as cenas feitas com maior maestria e simbologia foram aquelas executadas dentro da piscina, de todos os ângulos viáveis, com efeitos visualmente belos e perturbadores. Os olhares dos intérpretes nos dizem muito de suas intenções e reações.

Daniel de Oliveira, Marco Ricca, Malu Galli e Stella Rabello ostentam com excelência seu potencial interpretativo diante das complexidades psicológicas e comportamentais envolvendo os seus personagens 

Daniel de Oliveira foi uma escolha acertadíssima. Com experiência respeitável no cinema, o ator conhece com perfeição a linguagem deste veículo. Encaixando-se com exatidão no “physique du rôle” do personagem, Daniel, sem dúvida, um de nossos atores jovens com trajetória mais sólida e consistente, construiu o seu complexo personagem com uma dedicação apurada e inteligente, atendo-se a detalhes gestuais e de postura, e emissão vocal que nos fazem ter dúvidas acerca da orientação sexual de Rubens. Um trabalho que lhe exigiu sutileza e observação. Ele é ao mesmo tempo viril e delicado, forte e frágil, sedutor e repulsivo (quando ostenta o seu outro lado). Daniel de Oliveira faz um percurso difícil de seu papel, que vai da euforia como educador de crianças em um clube até o total e absoluto desalento e abandono face ao desmoronamento de sua imagem e vida. Um notável momento na carreira do ator. Marco Ricca, como sempre excelente em todos os papéis que defende, mais uma vez não nos desaponta. Marco absorve as oscilações de humor, as dúvidas e hesitações de Davi com soberba compreensão das situações vividas pelo seu personagem. Mantendo uma postura severa, impassível, mesmo extremamente abalado com o fato, Marco Ricca, convicto e resoluto, não desvia de sua admirável rota de interpretação um minuto sequer, atingindo com grandeza seus objetivos. Podemos dizer que uma de suas melhores cenas é aquela em que defronte ao delegado (Rodrigo de Jesus) toma conhecimento de que o seu filho poderá passar por um exame de corpo de delito. Malu Galli, atriz de imenso potencial dramático, ganhou para si a responsabilidade de emprestar à diretora do clube uma inicial imparcialidade e sobriedade que aos poucos vai se transmutando face à modificação dos eventos. Esta sequência de acontecimentos exige da atriz elogiável exercício de controle de suas emoções, pois está no centro da crise deflagrada. Stella Rabello realiza um honroso trabalho de composição de personagem. Cabe-lhe fornecer a Marisa uma gama de sentimentos de graus variáveis, que permeiam a emoção desvairada, a intensidade comportamental, a sede irrefreável pela sua “justiça”, e sua cegueira temerária, em nome da proteção de seu filho, que a faz se precipitar de maneira insana, tornando-se a maior representante desta espiral de irracionalidade de linchamento moral do professor. Luisa Arraes, Gustavo Falcão, Luiz Felipe Mello, Rodrigo de Jesus e Clarissa Pinheiro (a garota de programa na delegacia) se saem muito bem em seus papéis.

Direção de fotografia em consonância com a realidade, montagem calculada com precisão e trilha sonora atordoante 

O filme, que foi laureado no Festival do Rio 2017 (Melhor Ator – Daniel de Oliveira, Melhor Ator Coadjuvante – Marco Ricca, Melhor Roteiro e Melhor Filme do Júri Popular), no Prêmio Petrobras de Cinema (Melhor Ficção Mostra SP 2017), no Mix Brasil (Melhor Direção), e no Festival de Havana (Prêmio Signis 2017), teve como diretor de fotografia Azul Serra (Azul apostou em tons neutros, naturais, quase esmaecidos, que se aproximassem ao máximo da realidade), como montador Sergio Mekler (há um sequenciamento, com cortes precisos, em que se busca uma crescente atmosfera de tensão e suspense) e como titulares da trilha sonora o mesmo Sergio e Thiago Nassif (a trilha é atordoante, acompanhando com fidelidade as perturbações psicológicas dos personagens).

“Aos Teus Olhos” faz uma denúncia urgente e indispensável sobre a “Corte Sumária” em que se transformou a internet, por meio de suas comunicações virtuais instantâneas

“Aos Teus Olhos” é uma obra necessária, indispensável e obrigatória, que cumpre um papel denunciatório urgente das mazelas virtuais, que se alastram dia após dia com maior realce. Mazelas essas, reafirmo, com potencial destrutivo da imagem individual sem precedentes e irreversível. Pode-se considerar hoje a internet como uma “Corte Sumária”, por seu viés julgador e poderoso, sem a preocupação de se ter provas materiais, baseada apenas nas vontades de uma pessoa que acredita numa verdade que pode ser somente a sua, com consequências devastadoras para quem for a sua vítima. Com a internet, abriram-se, perigosamente, novos conceitos de verdade, apoiados em suas rápidas ferramentas com comunicação de largo alcance. Carolina Jabor abriu ainda mais os nossos olhos. “Aos Teus Olhos” é um filme para ser curtido, favoritado e compartilhado. Sem julgamentos precipitados. Que fique bem claro.

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Foto: Divulgação do filme

A importância do documentário no Brasil, o empenho dos diretores e roteiristas Igor Angelkorte, Paula Vilela e Julia Ariani em levar “Fernando” às telas, sua passagem por festivais e os prêmios ganhos  

Fazer cinema no Brasil sempre foi difícil. A despeito dessa contingência adversa, produtores, diretores e atores nunca se deram por vencidos, e a indústria audiovisual, mesmo que interrompida por períodos pontuais, ressurge com a força que lhe é peculiar. A “Retomada”, ocorrida na metade da década de 90 com “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, de Carla Camuratti, não me deixa mentir. Aventurar-se na realização de um gênero como o documentário é uma missão ainda mais inglória. A ficção, por carregar em si mesma um apelo natural de entretenimento, associado em não raros casos ao viés comercial, não se depara com obstáculos visíveis que possam atrapalhar o seu encontro com o público. O documentário, por sua natureza autoral, possuidor de um nicho de espectadores específicos, enfrenta reveses próprios que devem ser enfrentados com destemor pelos profissionais apreciadores deste valoroso tipo de filme. O Brasil, em sua rica filmografia, com todos os seus movimentos estéticos, invariavelmente ocupou um lugar de destaque no segmento dos documentários, sendo este representado por nomes como Silvio Tendler, Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Cada vez mais, estão sendo produzidos em nosso país filmes desta vertente com abordagens diversificadas e relevantes. Muitos documentaristas enveredaram pelos caminhos políticos, como Silvio Tendler (“Os Anos Jk” – Uma Trajetória Política” e “Jango”; atualmente está em cartaz com “Dedo na Ferida”), outros, como Eduardo Coutinho, optaram por temas religiosos (“Santo Forte”) e sociais e comportamentais (“Edifício Master”), e há aqueles como João Moreira Salles, que se debruçaram em obras bastante pessoais (“Santiago” e “Nelson Freire”). Igor Angelkorte, ator, dramaturgo e diretor teatral (Igor havia dirigido uma websérie, “Ferrugem”), Paula Vilela, atriz, produtora e idealizadora, e Julia Ariani não se intimidaram em colocar em prática uma ideia potencialmente não comercial, íntima e pessoal para os três, mas que tivesse elementos suficientes para surpreender e comover as plateias de cinema, não somente as que estimam o gênero documentário. Esta mesma ideia consistia no registro filmográfico do dia a dia de uma pessoa que lhes é demasiado cara e fundamental em suas carreiras, o ator e professor de teatro Fernando Bohrer. Igor, Paula e Julia transpuseram outra barreira ao levar adiante este projeto que durou mais de um ano para ficar pronto. Dirigir e roteirizar em conjunto. A afinidade e sintonia de pensamentos e o mesmo olhar cinematográfico deste brilhante trio resultaram em um documentário com inquestionável qualidade, “Fernando”, lançado em junho de 2017. O filme foi exibido no Festival de Málaga (Cine en Español Sessão Oficial Documentários 2018), na 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes (Seleção Oficial Mostra Olhos Livres 2018), e no Olhar de Cinema Curitiba Int’l Film Festival (Prêmio do Público 2017 e Menção Honrosa Prêmio Olhares Brasil 2017).

Fotografia crua e naturalista, direção de arte e figurinos fiéis à realidade e montagem fluida

A ótima fotografia naturalista, real, crua, quase sem filtros, ficou sob o encargo de Pedro Faerstein. No entanto, este naturalismo por vezes é coerentemente quebrado por sombras e semi-luzes. Pedro soube aproveitar com precisão as possibilidades de luz proporcionadas pelos vários ambientes em que se passa a ação, inclusive as externas. A direção de arte e os figurinos de Liza Machado trouxeram a verdade cotidiana da vida de Fernando para bem próximo de nós. A montagem de Igor Angelkorte, Julia Ariani, Marina Figueiredo e Paula Vilela respeitou o tempo narrativo da obra sem grandes rupturas, ofertando-nos agradáveis linearidade e fluidez, não permitindo que perdêssemos uma única vez o interesse pela história. O elenco tem a participação de Rubens Barbot, Carolina Virgüez, o pianista Jacob Herzog, Igor Angelkorte, Chandelly Braz, Paula Vilela, Arnaldo Marques, Claudia Mele, Damiana Guimarães e Ligia Veiga.

O humanismo de “Fernando”, e por que se deve conhecer a vida do ator e professor de teatro Fernando Bohrer

“Fernando” é uma obra poética, pungente, bela e comovente, que faz um retrato sensível de um homem cuja vida é voltada para a arte da interpretação e a de ensinar, misturando com delicadeza ficção e realidade. O filme se distancia magistralmente dos documentários convencionais, nos quais se vê a conjunção de depoimentos e imagens de arquivo, conduzindo-nos com extrema habilidade e emoção, através de suas cenas inspiradas, com locações na cidade de Niterói, onde o friburguense Fernando mora, e no Rio de Janeiro, inclusive a Casa das Artes de Laranjeiras, instituição da qual é professor. Pode-se dizer que “Fernando” é um filme para se contemplar. Com influências da cinematografia francesa, com seus takes pausados, diálogos entremeados por longos silêncios, transformação do cotidiano em algo visualmente rico e significativo, esta obra fílmica possui, dentre os seus inúmeros méritos, o de ter, como seu personagem central, um indivíduo apaixonado, intenso, generoso, humano, bravo e encantadoramente sedutor. Acompanhamos a sua rotina como se fôssemos seus amigos ou seus alunos. Aprendemos com as suas aulas de teatro, solidarizamo-nos com ele em suas idas à médica (Carolina Virgüez, firme e convincente), sofremos com ele, torcemos, ficamos com os olhos marejados, sentimos arrepios emocionados. Sua relação com seu companheiro (Rubens Barbot, excelente) é arrebatadora, tocante, com uma cumplicidade sem igual. Um papo trivial entre eles na hora de preparar uma refeição, ou no momento de dormir, ganha uma dimensão humanizada. “Fernando” é em sua natureza um filme humanista. Humanista e otimista. Certas doses de melancolia presentes em sua narrativa não destituem o seu nato otimismo. Há em suas linhas e entrelinhas sinal de esperança. Com este documentário, passamos a acreditar um pouco mais no homem, e em suas qualidades e virtudes. Vimos o homem pianista, o professor que nos ensina a respirar, e a nos conscientizar com os nossos corpos no processo de construção do personagem. Testemunhamos o artista simples que almoça na praça, e faz anotações na intimidade. Deparamo-nos com a sua humildade ao receber orientações do diretor Igor Angelkorte quando encenou a peça “Elefante”. Embarcamos na sua profusão de criatividade ao explicar à representante de uma editora como gostaria que o seu livro fosse escrito. O homem que se reúne com os amigos, que não acredita na política, e sim, na vida. Nossos corações se apertam ao olharmos a sua prosaica volta para a casa, solitário, numa rua de Niterói, parando em uma banca de frutas, escolhendo bananas e uvas. Simples, mas forte em sua mensagem. O filme desmistifica o ofício de ator quando o associam ao glamour, à fama, ao prestígio, ao dinheiro e ao poder. Sua vida não tem glamour, pois é real. Fernando não sai em capa de revista. Nem está nas redes sociais. Sua vida não é acompanhada por milhões de seguidores. Isso não o faz menos artista. Fernando é um artista imenso. Fernando é uma aula de ser humano. Igor Angelkorte, Paula Vilela e Julia Ariani perceberam isso. E souberam com grande maestria dividir Fernando conosco. Todos, atores e não atores, devem obrigatoriamente assistir a esse documentário. Ao final da sessão, prestaremos mais atenção nos detalhes do cotidiano. Não reclamaremos de sua monotonia e repetição. Basta que nos lembremos da riqueza “simplória” da rotina de Fernando. Tive o privilégio de conhecer e conversar com este homem por duas vezes. Tive o privilégio de vê-lo em cena. Senti vontade de voltar no tempo, e ser um de seus alunos. Pude lhe dar um forte abraço. Todos deveriam lhe dar um forte abraço. Conhecer Fernando deveria ser uma regra.

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Foto: Divulgação

Desde “O Som Ao Redor” (2013), longa-metragem anterior do cineasta recifense Kleber Mendonça Filho, premiado nacional e internacionalmente, que tanto o público quanto a crítica especializada tem ficado atenta a este profissional do audiovisual que mostrou com a sua obra uma abordagem da sociedade e seus conflitos do cotidiano sublimemente particular, visivelmente pujante em suas imagens, com um roteiro marcado por notável elaboração. Se em “O Som Ao Redor”, Kleber traçava com bastante impacto a mudança de rotina dos moradores de uma pacata rua de Recife após a chegada de milicianos, em “Aquarius” ocorre também a mudança de rotina de uma pacata jornalista, Clara, vivida por Sonia Braga, que vê a sua tranquilidade ir embora quando uma construtora liderada pelo jovem engenheiro civil Diego (Humberto Carrão) decide comprar todos os apartamentos do antigo prédio onde mora sito em frente à bela Praia da Boa Viagem, para a construção de um novo e sofisticado projeto residencial, o “Aquarius”, nome que, na verdade, já era o do imóvel. Só que a bem-sucedida jornalista e escritora, amante da música em discos de vinil, como os de Maria Bethânia e Roberto Carlos, repele a gananciosa proposta da empreiteira, resistindo ao poder do dinheiro, ao lobby, às sabotagens, às ameaças veladas ou declaradas dos interessados na venda da propriedade e à pressão de sua própria família e dos seus até então vizinhos. Esta sinopse, que à princípio nos parece simples, ao contrário disso não possui nenhuma simplicidade. A sinopse (ótimo e extremamente bem costurado roteiro de Kleber Mendonça Filho) serve como estopim de uma série de altercações interpessoais nas quais se percebe assustadoramente até que ponto vai a ambição humana, e com ela uma intrínseca maldade, uma patente falta de caráter e ausência absoluta de ética, inclusive no que se refere à mocidade, porém exibe com equânime vigor a capacidade de luta de uma bela mulher madura que enfrenta tudo e todos na defesa dos seus direitos legítimos, uma espécie de “Uma Contra Todos” (parafraseando uma recente série de TV). Estes dois filmes de Kleber apresentam uma direção que foge ao padrão estabelecido por bastantes produções cinematográficas nacionais exibidas no circuito, não se enquadrando com exatidão num gênero específico. A sua obra mescla em um só conjunto altas doses de drama, aterrorizante clima de suspense e tensão, retrato e denúncias sociais com um estudo minucioso do comportamento do homem, com direito a alguns instantes de corriqueira comédia. Em suma, Kleber radiografa nossas próprias vidas. Sua câmera não é mirabolante e nem nos oferta ângulos espertos, inovadores tampouco revolucionários. Isto fica para os blockbusters norte-americanos, e para os congêneres brasileiros que tentam emulá-los. Suas lentes buscam o real, o cotidiano, o simples, o cru, os objetos que decoram uma casa, o close sem pretensões estilísticas, os relacionamentos comuns entre as pessoas e as suas consequências, as tomadas necessárias, e não com o propósito de se burlar o establishment estético ao qual nos habituamos a assistir em períodos atuais. Por estas mesmas razões, e por um hiperrealismo que nos assombra, é que provavelmente os longas de Kleber perturbam o espectador e a crítica, lançando um novo caminho para o cinema que se faz no Brasil. “Aquarius”, que foi cercado de polêmica desde que foi exibido como concorrente à Palma de Ouro em sessão de gala no Festival de Cannes (houve um protesto político por parte do elenco e diretor), e se estende até hoje pela reivindicação para que a classificação indicativa da produção baixe de 18 para 16 anos (o que foi conseguido no último dia 1º de setembro). O cineasta realiza com este filme uma eloquente homenagem à época dos anos 80, utilizando-se do recurso do flashback (claro, a fotografia, nesta etapa, evidencia uma textura que remete, pode-se afirmar, às polaroides). Já na atualidade, a meritosa direção de fotografia de Pedro Sotero e Fabricio Tadeu opta por tonalidades naturalistas. Há cenas emblemáticas na criação fílmica de Kleber, como a inicial, quando Clara, muito jovem, interpretada pela atriz Barbara Cohen (uma bonita artista que deve despertar o seu interesse) dentro de um carro “oitentista” com seus amigos numa praia deserta (vale asseverar que a direção de arte de Juliano Dornelles e Thales Junqueira reproduz com precisão detalhes desta icônica fase), ouvem num potente som um dos maiores clássicos da banda britânica Queen, “Another One Bites The Dust”. Em outra passagem, Queen também é escutado em outro de seus standards, “Fat Bottomed Girls”. O diretor também se valeu de sua obra para denunciar o triste preconceito vigente não só por parte dos homens, mas de um modo geral, contra as mulheres que se viram obrigadas a serem submetidas a uma mastectomia (esta cena nos revolta e nos comove). Em apenas uma frase revela o preconceito racial incrustado no Brasil (“sua pele mais morena”). O elenco de “Aquarius” é um dos pontos máximos do filme. Primeiro, porque traz de volta para as grandes telas de cinema aquela que foi e sempre será uma de nossas eternas musas do cinema nacional, Sonia Braga, recolocando-a em seu posto conquistado com performances memoráveis em “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e “O Beijo da Mulher-Aranha”. Sonia, que também possui atuações antológicas na televisão, como nas novelas “Gabriela” e “Dancin’Days”, certamente com a Clara de “Aquarius” nos ostentou uma de suas mais consistentes, maduras, intensas e tocantes interpretações. Sonia construiu a sua Clara com impressionante estoicismo. As suas paixões são interiorizadas, exceto em suas expressões sexuais. Clara desvela um humor desconcertante face às adversidades por que passa. A sua bravura diante da soberba e inescrupulosidade dos detentores do poder econômico, representantes da especulação imobiliária, serve-nos de exemplo e referência. A mulher que tem em seu apartamento um pôster de “Barry Lyndon”, de Kubrick, e pilhas de vinis é personificada por Sonia Braga em um dos auges não só de sua beleza física madura, mas também interpretativa. Humberto Carrão, famoso e admirado ator de novelas, pertencente a uma promissora geração de artistas jovens, numa interpretação pontuada por sutilezas, convence-nos brilhantemente como o moço que estudou nas melhores escolas estrangeiras, formando-se em Business, como diz, o que o faz voltar ao Brasil cheio de “sangue nos olhos” para vencer na profissão, nem que para isso tenha que se utilizar dos meios mais escusos e corruptos. O espectador e os personagens ficam confusos ao se depararem com a sua beleza, simpatia e carisma, amparada por voz mansa, com a potência de sua vilania. O próprio diretor Kleber Mendonça Filho definiu o ator desta maneira em entrevista ao jornal O GLOBO: “Humberto tem cara de pessoa boa, menino brasileiro rico, mas que esconde uma falta de caráter formidável”. E continua: “E agora que eu conheço Humberto e lembro de Diego, dá para ver como Carrão é um ótimo ator. Ele e Diego não têm nada em comum”. Maeve Jinkinks, bela atriz brasiliense, com importante galeria de filmes em seu currículo, e que ficou bastante conhecida como a Domingas de “A Regra do Jogo”, na Rede Globo, interpreta a filha de Clara. Maeve é daquelas artistas que disseminam a sua adorável doçura por onde quer que passem, fotografando muito bem nas telas. Mas se engana quem pensa que esta doçura está presente em todas as suas performances. É preciso que vejam a atriz em longas-metragens como “Boi Neon” e “Amor, Plástico e Barulho”. Inclusive, a premiada Maeve está em seu segundo trabalho com Kleber, pois participou de “Um Som Ao Redor”. E o que dizer do premiadíssimo Irandhir Santos? Irandhir é, para mim, sem quaisquer sombras de dúvidas, um dos mais talentosos e versáteis atores surgidos nos últimos tempos no Brasil. Fez uma infinidade de bons e elogiados filmes, e já está construindo uma carreira de sucesso na TV (atualmente, destaca-se como Bento em “Velho Chico”, na TV Globo). Irandhir Santos (também repetindo a parceria com Kleber) vai do homem simples, chucro, ao indivíduo subserviente, até chegar ao charmoso guarda-vidas Roberval de “Aquarius”. O excelente ator cumpre com a nobreza de sempre a missão de dar vida a um dos poucos amigos de Clara que a ajudam. Temos ainda a presença do jovem ator pernambucano Allan Souza Lima, como Paulo, um sedutor garoto de programa que sacia ardentemente os urgentes desejos sexuais de Clara. Destaque na novela “A Regra do Jogo”, Allan mostrou que sabe fazer comédia. No filme em questão, o intérprete tem poucos momentos na tela, mas estes são o bastante para que Allan deixe transbordar toda a sua sensualidade viril de modo absolutamente natural. Outros atores que merecem as nossas merecidas considerações são Carla Ribas, Julia Bernat e Thaia Perez, dentro de um elenco muitíssimo bem escalado. “Aquarius”, que entrou na concorrida lista de filmes candidatos a lutarem por uma vaga na indicação brasileira para a disputa pelo Oscar de Filme Estrangeiro (tendo consideráveis chances de consegui-la, a despeito de novas polêmicas), é um filme que deve obrigatoriamente ser visto por aqueles que amam o cinema, que apreciam a diferença de sua linguagem, que são devotos de uma reflexão após uma obra cinematográfica, que não buscam somente o entretenimento, e que estão abertos a discussões relevantes sobre o ser humano, seu comportamento e relações, que são levantadas em cima de fatos do dia a dia, que consuetudinariamente acontecem bem ao nosso lado. Em determinado momento do longa de Kleber Mendonça Filho, a praga “cupins de demolição” tem a sua representação. A destrutividade ancestral do homem comum também nos é escancarada sem meios-termos. Uma das lições que aprendemos com esta excelente obra em cartaz nos cinemas é a de que se pode combater sem medo os “cupins de demolição”, espalhados por toda a parte, próximos ou distantes, sempre prontos e dedicados em nos aniquilar em sua totalidade. Mas sempre existirá uma Clara em seus caminhos. As “Claras” da vida nos parecem inofensivas, vulneráveis. Apenas nos parecem. Basta que se juntem a um só tempo um edifício antigo de Recife chamado “Aquarius” e uma das musas do nosso cinema nacional cujo nome é Sonia Braga, conduzidos pela batuta de um cineasta de nome Kleber, para que vocês, espectadores, não temam nenhuma praga. Seja ela social, humana ou literal. Esta é a mensagem de “Aquarius”. Nada mais a dizer.