O ator australiano Jacob Elordi encarna a criatura que ganhou vida pelas mãos do Dr. Victor Frankenstein, interpretado por Oscar Isaac/Divulgação/Netflix
Nada mais natural que o diretor de obras como o “O Labirinto do Fauno” e “A Forma da Água” desejasse imprimir a sua visão sobre o célebre livro de Mary Shelley
Guillermo Del Toro, cineasta, roteirista e produtor mexicano, consagrou-se mundialmente por levar às telas de cinema obras abertamente fantasiosas que se alinhavam com o terror. Nada mais natural então que o diretor de filmes como “O Labirinto do Fauno” (2006) e “A Forma da Água” (2017, vencedor do Oscar de “Melhor Filme” e “Melhor Direção”), desejasse imprimir o seu olhar sobre uma das histórias fantásticas mais apreciadas ao longo dos tempos, a do cientista Victor Frankenstein e sua criatura, originalmente publicada pela escritora britânica Mary Shelley em 1818 com o título “Frankenstein ou o Prometeu Moderno” (já são conhecidas representações clássicas na Sétima Arte do livro de Mary, como a do diretor James Whale, “Frankenstein”, 1931, com Boris Karloff).
A escalação de Jacob Elordi, bonito ator australiano, causa-nos uma dualidade de impressões, já que a criatura não transmite como de costume uma imagem assustadora
A produção de Guillermo disponível na Netflix, a qual não aboliu a estética gótica do romance em que se baseia, veio se somar com êxito à seleta lista dos que se atreveram a reproduzir os episódios que levaram o homem da ciência a desafiar Deus e a morte. Responsável também pelo roteiro, Del Toro se esmerou nos detalhes e não preteriu os diálogos fartos e a narração em off, fazendo com que o espectador obtivesse todo o esclarecimento de sua narrativa. Ainda quanto à sua recriação cinematográfica, algo que a diferencia de outras versões é a escalação do bonito ator australiano Jacob Elordi para personificar a criatura, geralmente assustadora, e neste caso não, causando-nos uma dualidade de impressões. Ademais, seu perfil comportamental em que há nobreza de espírito e altruísmo nos gera maior empatia com a sua penosa condição. A direção conduz com eficiência de sobra a grandiloquência do longa, que possui belíssimos design de produção (Tamara Deverell e Sean Bailey) e fotografia (Dan Laustsen).
Um filme que nos garante legítimo alumbramento
O elenco, talentoso, contribui para o bom resultado da empreitada, contando com, além de Jacob, Oscar Isaac como Victor Frankenstein, Mia Goth (neta da atriz Maria Gladys), Christoph Waltz e Felix Kammerer. Guillermo Del Toro, um esteta por natureza, garante-nos legítimo alumbramento.
Rafael Vitti interpreta Pedro, um chef de cozinha que tem a sua vida virada de cabeça para baixo após o diagnóstico de uma grave doença enquanto cuida de seu cão Caramelo/Divulgação/Netflix
Assim como “Beethoven, O Magnífico” e “Marley & Eu”, filmes do mesmo filão, “Caramelo” atinge espectadores distintos em busca de emoçõese diversão
Filmes que abordam a relação entre humanos e cachorros já saem na frente pelo histórico milenar de afetuosidade entre ambos. Longas-metragens de sucesso como “Beethoven, O Magnífico” (1992) e “Marley & Eu” (2008) servem como atestado desse apelo junto ao público. “Caramelo” (2025), dirigido por Diego Freitas, roteirizado por ele, Rod Azevedo e Vitor Brandt, lançado recentemente pela Netflix, abraça com inegável êxito este atraente filão capaz de reunir distintos espectadores em frente à TV ou outro meio em busca de emoção, entretenimento e reflexões.
A despeito do tema inevitavelmente espinhoso, direção e roteiro conferem à produção várias camadas positivas
A obra protagonizada por Rafael Vitti, em uma atuação dramática sobeja em qualidades jamais vista em sua bem-sucedida carreira, e pelo cãozinho travesso Caramelo (Amendoim), atende fartamente aos predicados elencados acima ao abordar a comovente história do sous chef Pedro que, após ser promovido a chef de um refinado restaurante, descobre ser portador de uma gravíssima doença, o que o faz rever todos os seus planos, tendo ao mesmo tempo que lidar com os cuidados do animal que o elegeu como tutor. A despeito do tema inevitavelmente espinhoso, Diego Freitas, com a sua direção e o roteiro, garante ao público muitos momentos belos, divertidos, leves, de ação e romance, conferindo à produção várias camadas positivas, sendo amparado por uma fotografia luminosa, viva, de Kauê Zilli. O cast, bem escalado, reúne uma trupe de ótimos atores engajada com a proposta fílmica: Carolina Ferraz, Kelzy Ecard, Arianne Botelho, Olívia Araújo, Cristina Pereira, Roger Gobeth , Noemia Oliveira, Bruno Vinícius, Ademara e Paola Carosella.
“Caramelo” é um filme honesto com suas próprias belezas, devendo ser assistido por todas as famílias, incluindo seus melhores amigos de quatro patas, isso, claro, se eles deixarem.
Jesuita Barbosa caracterizado como Ney Matogrosso na época em que o cantor integrava o grupo Secos & Molhados/Foto: Divulgação/Netflix
“Homem Com H” acerta ao escalar Jesuita Barbosa para viver Ney Matogrosso, um artista único com personalidade forte e contestadora
Talvez um dos maiores desafios para um diretor que queira fazer uma cinebiografia de um grande artista, no caso um dos mais respeitados do país, Ney Matogrosso, marcado não só pelo seu talento único mas também por sua personalidade forte e contestadora, seja garimpar e encontrar o nome certo para interpretá-lo de forma que se evite a imitação, o mimetismo, e sim que se construa a sua persona com emoção, senso de observação aguçado e profundos estudo e pesquisa, oferecendo-nos a sua versão mais verdadeira e crível do retratado. Esta missão nada fácil foi cumprida com infinito esplendor, deslumbramento, por Jesuita Barbosa, um ator que distribui sensibilidades por onde quer que passe, no adorável, sensível e bem cuidado longa de Esmir Filho, “Homem Com H” (2025), também roteirista da obra, baseada no livro de Julio Maria, “Ney Matogrosso: A Biografia”.
Esmir Filho, diretor e roteirista, dentre tantos méritos, açambarca toda a trajetória do artista, na medida exata, passando pela infância e culminando na consagração absoluta
Dentre os tantos méritos de Esmir está a sua larga capacidade, respeitando-se a lógica cronológica, de açambarcar na medida exata toda a trajetória riquíssima do ídolo nascido em Bela Vista (MS), passando pela infância com a educação severa do pai (Rômulo Braga), o serviço militar, o início da carreira com suas discordâncias no Secos & Molhados, a censura que sofreu na ditadura militar, sua virada na profissão como cantor solo, sua relação difícil com a imprensa, seus romances com mulheres e homens, como o cantor e compositor Cazuza (Jullio Reis) e o médico Marco de Maria (Bruno Montaleone), com quem se casou, a perda de amores e amigos pela epidemia de Aids, a consagração absoluta e os sucessos que se eternizaram, como “Rosa de Hiroshima” e “Bandido Corazon”.
Um elenco talentoso e comprometido com a responsabilidade que lhe foi dada
O elenco conta com atores talentosos assaz comprometidos com a responsabilidade que lhes foi dada, brilhando com fulgor, como Rômulo Braga, Hermila Guedes, Davi Malizia, Jullio Reis, Bruno Montaleone, Augusto Trainotti, Carol Abras e Lara Tremoroux.
“Homem com H”, com edição inspirada de Germano de Oliveira (notem a cena em que Jesuita canta “Homem Com H”), deve ser visto pelas suas qualidades artísticas e por nos revelar parte valiosa da nossa cultura por meio da história de uma revolução chamada Ney Matogrosso.
Seu Jorge é o protagonista do filme de estreia de Wagner Moura na direção/Foto: Divulgação
Após ser recebido com sucesso há dois anos no Festival de Berlim, excelente filme de estreia de Wagner Moura como diretor finalmente é lançadono país
Dois anos se passaram até que o público brasileiro tivesse o privilégio de assistir à estreia espetacular de Wagner Moura como diretor de filmes. Seu auspicioso début não poderia ter sido mais apropriado aos tempos sombrios em que vivemos, com a democracia sendo ameaçada frequentemente pelas altas esferas do poder. “Marighella” (2019), inspirado no livro “Marighella: O Guerrilheiro Que Incendiou O Mundo” (2012), do jornalista Mário Magalhães, exibido e aclamado no Festival de Berlim, resgata com brilhantismo parte da trajetória marcante do poeta e deputado baiano que decidiu aderir à luta armada para enfrentar a truculência da ditadura militar no Brasil (1964-1985).
O pujante roteiro de Felipe Braga e Wagner Moura oferece ao público uma espiral crescente de tensão mostrando explicitamente muitos dos horrores praticados pelo regime militar brasileiro
Desde a doída separação de seu filho Carlinhos (Renato Assunção e Francisco Matheus Bacelar de Araújo em diferentes fases; os dois jovens intérpretes se saem bem), deixado em Salvador, e de sua mulher Clara (Adriana Esteves) em São Paulo, até as confabulações logísticas de Carlos Marighella, o “Preto” (Seu Jorge, magistral), com o seu grupo político, no período de 1964 a 1969, quando é brutalmente executado, o longa, sustentado pelo pujante roteiro de Felipe Braga e Wagner Moura (alguns de seus diálogos contêm fina ironia), fisga os espectadores com sua espiral crescente de tensão e cenas dos horrores reais perpetrados pelo regime autoritário, representados por um visceral e assustador Bruno Gagliasso (Delegado Lúcio).
TendoChico Science & Nação Zumbi em sua trilha, “Marighella” é a prova de que o seu diretor estreante não só é hábil e talentoso como também é um filho que não foge à luta
Com um plano-sequência inicial que já se tornou histórico, flashbacks e cenas de ação de se tirar o fôlego, “Marighella” possui parcela significativa de takes registrados por steadycam, o que lhe confere extremo dinamismo e realismo. Merecem destaque a montagem vertiginosa de Lucas Gonzaga, a impecável direção de arte de Frederico Pinto, a estudada, por vezes crua e seca, fotografia de Adrian Teijido e a valiosa música de Antonio Pinto (a impactante canção de Chico Science & Nação Zumbi “Monólogo ao Pé do Ouvido” está na trilha). O elenco formidável é composto por um time engajado: Herson Capri (o jornalista Jorge Salles), Luiz Carlos Vasconcelos (Almir), Humberto Carrão (Humberto), Ana Paula Bouzas (Maria), Bella Camero (Bella), Adanilo (Danilo), Jorge Paz (Jorge), Charles Paraventi (Bob), Rafael Lozano (Rafael), Brian Townes (Wilson Chandler), Henrique Vieira (Frei Henrique) e Guilherme Ferraz (Guilherme). A irrepreensível preparação de elenco ficou a cargo de Fátima Toledo, responsável por produções como “Cidade de Deus” e “Cidade Baixa”. “Marighella”, em cartaz nos cinemas e lançado no último dia 4 no Globoplay, é uma obra devastadoramente urgente e patriota que nos prova que Wagner Moura não só é um hábil e talentoso cineasta como também é um filho que não foge à luta.
Camila Queiroz (Angel) entre Romulo Estrela (Cristiano) e Agatha Moreira (Giovanna), o explosivo trio de “Verdades Secretas II”/Foto: Pedro Pinho
“Verdades Secretas”, exibida em 2015, impactou o público ao abordar temas tabus na televisão brasileira, como prostituição de luxo e dependência química em crack, tendo como um de seus principais cenários uma agência de modelos
Em 2015 Walcyr Carrasco impactou o público com um conjunto de personagens amorais numa sedutora trama das 23h exibida pela Rede Globo que continha prostituição de luxo (promovida por meio do chamado “book rosa”), tráfico de drogas (entorpecentes sintéticos), dependência química (em específico o crack) e toda a sorte de traições, tendo como um de seus principais cenários uma agência de modelos, a Fanny Models (Marieta Severo interpretava Fanny Richard, a proprietária da agência). A novela ganhadora do Emmy Internacional “Verdades Secretas”, reprisada atualmente em edição especial na emissora, deixou em aberto no seu final a possibilidade de uma sequência. A mente produtiva e inquieta do autor criou assim “Verdades Secretas II”, lançada no último dia 20 de outubro ao vivo no Globoplay para assinantes e não assinantes (para estes, somente o primeiro episódio), tornando-se a primeira novela original da plataforma de streaming.
A trama de Walcyr Carrasco traz de volta as atrizes Camila Queiroz e Agatha Moreira, que brilharam na novela original como Angel e Giovanna respectivamente, e um dos atores mais disputados do momento, Romulo Estrela
A história, escrita com Marcio Haiduck, Nelson Nadotti e Vinicius Vianna, inicia-se com a ex-modelo Angel (Camila Queiroz adotando o novo tom de arrogância do papel) em apuros financeiros após o fatal e nebuloso acidente automobilístico que vitimou o seu marido Guilherme (Gabriel Leone). Atolada em dívidas e com um filho pequeno para cuidar, Fabrício (Bernardo Lessa; a criança sofre de uma grave doença), a outrora inocente Arlete decide retomar a carreira na moda com a ajuda de seu amigo, o booker Visky (Rainer Cadete mantém a fórmula do sucesso de seu personagem), agora trabalhando em outra agência de São Paulo, capitaneada por Blanche (a luxuosa presença da atriz portuguesa Maria de Medeiros; Maria ganhou o mundo com a sua participação no filme de Quentin Tarantino “Pulp Fiction”, de 1994). O que Angel não supunha é que o lado sombrio do qual fez parte um dia continua vigente, desta vez na empresa de Blanche. Já Giovanna (Agatha Moreira selvagem e sensual; a atriz ostenta cabelos curtos e loiros), egressa de Paris, onde trabalhou como modelo, é movida pela sanha de provar que Angel matou o seu pai, o empresário Alexandre Ticiano (Rodrigo Lombardi). Para isso, contrata os serviços de Cristiano (Romulo Estrela com forte presença cênica; o intérprete, que vem colecionando protagonistas desde a novela “Deus Salve o Rei”, está em ótima forma física), um misterioso ex-policial com quem acaba se envolvendo.
Amora Mautner, a quem cabe a direção artística da produção do Globoplay, imprimiu à obra uma sofisticação visual impressionante, fazendo inclusive alusão ao clássico hitchcockiano “Janela Indiscreta”, com cenas que desnudam o cotidiano dos personagens por meio de suas janelas
Neste primeiro capítulo, vimos bons embates entre Angel e Giovanna e um promissor jogo sexual entre esta e o investigador (há uma deliciosa cena de dança entre ambos muito bem coreografada; mérito da coreógrafa e professora de dança Grazzy Brugner). Amora Mautner, diretora artística, coloca suas fichas com arrojo na sofisticação visual dos takes, imprimindo a “Verdades Secretas II” um timing qualitativo próprio do cinema e das séries do streaming. A diretora abraçou com notável propriedade o legado hitchcockiano do clássico de 1954 “Janela Indiscreta” (“Rear Window”) ao desvelar o cotidiano dos personagens Angel, Giovanna e Cristiano através das janelas de seus prédios. O efeito é fantástico. Por sinal, a maneira como retrata em imagens a fileira de edifícios paulistanos é um primor. A direção também incorporou à narrativa grafismos coloridos que indicam nomes e horários, o que lhe confere um caráter moderno. Amora conta com a valiosa direção dos cineastas Bruno Safadi (“Love Film Festival”), Gabriela Amaral Almeida (“O Animal Cordial) e Fellipe Barbosa (“Gabriel e a Montanha”). A estonteante fotografia de Andre Horta explora os muitos néons e ambientes esverdeados de uma São Paulo com tintas futuristas, como o edifício-garagem onde ocorre o encontro de Cristiano e Giovanna. O primeiro capítulo nos trouxe de volta bons atores de “Verdades Secretas”, como Guilhermina Guinle (Pia), Dida Camero (Lurdeca), Gláucio Gomes (Robério), João Vitor Silva (Bruno) e Adriano Toloza (Igor). Na trama, também estão os excelentes Maria Luisa Mendonça (em participação especial, defende a angustiada Araídes, uma antiga amante do pai de Guilherme, com quem teve uma filha, Lara, Julia Byrro), Sérgio Guizé (Ariel, dono de uma boate, a Radar Club) e Gabriel Braga Nunes (Percy, o milionário sócio de Ariel que se interessará por Angel). Ícaro Silva e Erika Januza são mais dois nomes da história que prometem. Ícaro representa o modelo Joseph, amante de Blanche, com quem Visky terá um affair. E Erika vive a modelo Laila, casada com Ariel, a qual será obrigada pela dona da agência Blanche Models a consumir remédios para emagrecer. Com uma selecionadíssima produção musical de Eduardo Queiroz, que inclui “Flerte Revival” na voz de Letrux, e “Two Weeks” (tema de abertura), de FKA Twigs, “Verdades Secretas II” se consagra como um ótimo thriller erótico/policial, não sendo segredo para ninguém que o público está preso com a técnica do “shibari” aos seus próximos capítulos.
Assista ao trailer oficial de “Verdades Secretas II”:
Lucas Oradovski caracterizado como a intrigante e sedutora figura burlesca do belo documentário de Manuh Fontes/Foto: Leandro Pagliaro/Divulgação
Responsável pelo argumento, a atriz e produtora Maytê Piragibe se lança em um delicado projeto pessoal que visa a esmiuçar o processo de criação artística, valendo-se dos depoimentos de atores de gerações diversas
“Talvez criar não seja nada mais do que se lembrar profundamente”. Com este pensamento sobre a criação do filósofo e poeta tcheco Rainer Maria Rilke se inicia o envolvente documentário com argumento de Maytê Piragibe e roteiro e direção de Manuh Fontes “Mise en Scène – A Artesania do Artista” (2021), disponível recentemente no catálogo do Globoplay. Vários atores de inegável relevância e outros talentos mais jovens foram convocados por Manuh a darem os seus esclarecedores depoimentos sobre seus processos de criação artística, entremeados com suas visões particulares acerca da infância, vida, política e morte.
Neste documentário livremente inspirado na obra do filósofo Rilke, o público descobre como surgiu a paixão de Antonio Fagundes pela leitura e como Marco Nanini se comporta atualmente com relação ao tempo
Livremente inspirada na obra de Rilke, a cineasta inseriu acertadamente belas citações na voz cristalina de Gloria Pires. Entre uma fala e outra, há as aparições idílicas de uma figura burlesca (Lucas Oradovski; excelente em sua expressão corporal; esta mesma figura se relaciona com uma menina sorridente, Violeta Piragibe, filha de Maytê). Antonio Fagundes relata que uma enfermidade na infância o levou a ficar acamado por seis meses, fazendo-o se apaixonar pela leitura (ele valoriza ainda o hábito da observação). Fagundes, em tom assertivo, diz que o teatro é a “pátria do ator”. Marco Nanini revela que precisa se despir do personagem, não levá-lo consigo. Ele confessa estar passando por uma fase mais contemplativa em sua vida, com uma perspectiva sobre o tempo distinta de quando era mais jovem. Zezé Motta afirma que ao compor uma música pensa logo em uma personagem. A atriz de filmes de sucesso como “Xica da Silva” (1976) e “Quilombo” (1984) não hesita em defender que os artistas devem assumir uma posição política, além de nos contar uma experiência pessoal de violência na época da ditadura militar. Cássia Kis não estima o termo “interpretar” e sim “estar presente, viver”. Cássia levanta ilações de que ninguém sabe como o outro nos enxerga, dizendo que nem ela mesma sabe quem é. Dira Paes discorre sobre o “deslocamento de energia” na atuação, falando também sobre a necessidade de se ter um foco. A intérprete paraense que começou a sua carreira ainda muito menina em um filme do diretor inglês John Boorman, “A Floresta das Esmeraldas” (1985), reflete que a composição de uma personagem se inicia a partir do momento em que calça os seus sapatos. Camila Pitanga assevera que a dança sempre teve um papel importante em sua vida na expressão artística (há uma cena em que Camila divide um instante espontâneo ao piano com a sua filha Antonia Pitanga). Maytê Piragibe recorre a rituais terapêuticos (cristais, aromaterapia etc) para se desprender de possíveis energias pesadas colhidas em uma cena específica. Maytê encena performances em uma praia ornada com instalações. Gabriel Leone confidencia-nos acerca de sua relação ambígua com o espelho, sem desmerecer a sua significância na criação de um papel. O ator nos apresenta um processo criativo com todas as suas etapas em que se transforma em um ser feminino. Bruno Fagundes assegura-nos que as cores ocupam uma função precípua em seu processo de criação. Em certa ocasião, o filho de Antonio Fagundes lança mão de tintas coloridas, espalha-as em uma tela em branco sobre o chão com as suas próprias mãos, deixando que aflore seu furor criativo. O colombiano Gustavo Miranda se diz encantado com a riqueza cultural de nosso país, referindo-se sobretudo à efervescência da cidade de São Paulo, na qual sempre há um lugar onde se pratica a arte. O bailarino também colombiano Mauricio Flórez se encarrega de executar plásticos e harmônicos movimentos corporais.
“Mise en Scène – A Artesania do Artista” é antes de tudo uma produção que cumpre seu papel de louvor à cultura com inegável magnitude
A direção de fotografia de Leandro Pagliaro (produtor executivo juntamente com Manuh Fontes e Maytê Piragibe) prima pelo bom gosto, com o aproveitamento de luzes naturais e indiretas, como abajures e velas, logrando um exitoso resultado. O belo documentário de Manuh Fontes, que exibe sensibilidade na direção e coerência no roteiro, apoia-se na poética e fluente trilha de Lucas Marcier e Rodrigo de Marsillac e na bem conduzida montagem de Isabel Salomon. “Mise en Scène – A Artesania do Artista”, que concorreu ao Prêmio de Melhor Documentário no Festival Independente de Toronto, no Canadá, alveja públicos que se engajam no aprimoramento das artesanias de suas criações de vida pessoais e artísticas, cumprindo seu papel de louvor à cultura com inegável magnitude.
Leticia Colin como a estilista Manu em “Sessão de Terapia”, série dirigida por Selton Mello disponível no Globoplay/Foto: Helena Barreto/Globoplay
Leticia Colin vive Manu, uma estilista bem-sucedida mãe de uma filha pequena que recorre ao terapeuta Caio, Selton Mello, objetivando entender suas angústias e perturbações emocionais decorrentes da maternidade
Na sexta-feira passada, o Globoplay disponibilizou a 5ª temporada da bem-sucedida e longeva (estreou em outubro de 2012) série “Sessão de Terapia”, tendo à frente de seu elenco mais uma vez Selton Mello como o terapeuta Caio Barone (Selton passou a interpretá-lo a partir da 4ª temporada; nas três primeiras quem defendeu o papel foi Zécarlos Machado). No primeiro episódio desta nova leva, já inserida no contexto da pandemia de Covid-19, Caio, aturdido com o término de seu relacionamento com sua ex-supervisora Sofia (Morena Baccarin em participação especial) e a perda de sua mãe, recebe a visita em seu consultório de sua potencial paciente, a estilista Manu (Leticia Colin). Realizada em sua profissão, Manu, visivelmente abalada, aflige-se com sua atual condição materna, após inúmeras tentativas de gerar um filho. Percebendo o conflito fantasia/realidade do qual Manu é vítima, Caio se empenha em fazê-la enxergar o desejo idealizado que a frustrou.
Selton Mello conduz com elegância e sofisticação a série, impressionando também com a sua atuaçãodistanciada, além de extrair de Leticia Colin toda a sua inteligência interpretativa evidenciada em uma paleta múltipla de emoções
Produzida por Roberto D’Ávila, a série é dirigida pela quinta vez por Selton, que esbanja elegância e sofisticação na composição das cenas (o diretor, vindo do cinema com obras elogiadas como “Feliz Natal” e “O Palhaço”, não se furta a explorar imagens distorcidas através dos vidros, por vezes caleidoscópicas, num equilíbrio bem estudado dos planos e contraplanos, closes e planos abertos). Como ator, Selton logra um impressionante distanciamento, no entanto vislumbramos nos detalhes suas reações emocionais. Leticia Colin trilha com inteligência uma gradação dificultosa de sentimentos e posturas, como autoconfiança, dúvidas, dilemas morais, ansiedade e fraqueza. Os dois duelam com brilho.
A série marca o encontro dos irmãos Selton e Danton Mello e coloca frente a frente o ator/diretor com o amigo de longa data Rodrigo Santoro
Escrita com riqueza narrativa e coesão dramática por Jaqueline Vargas (além de escrever a série, também é responsável pelo roteiro final) e Ana Reber, a série é embalada a todo o tempo pela instigante trilha sonora original de Plínio Profeta. A bonita fotografia de Rodrigo Monte e Fabio Burtin se vale das luzes de abajures e luminárias, alcançando um harmonioso painel de cores. Também uma realização do canal GNT e da Moonshot Pictures, “Sessão de Terapia” possui 10 episódios disponíveis no Globoplay (serão no total 35, sendo que 5 serão lançados semanalmente às sextas-feiras). A série contará com outros intérpretes que darão vida aos pacientes, além de Rodrigo Santoro, a quem caberá representar o supervisor de Caio Davi Greco (Christian Malheiros como o motoboy Tony; Luana Xavier como Giovana, que sofre de compulsão alimentar; e Miwa Yanagizawa, como a enfermeira Lidia, portadora de estresse pós-traumático após atuar na linha de frente no combate à pandemia do coronavírus). Danton Mello, irmão de Selton na vida real, fará uma participação especial como Miguel, irmão até então desconhecido do terapeuta. Neste momento de tantas angústias, medos e incertezas pandêmicas o espectador só tem a ganhar em “marcar uma consulta” com Caio em “Sessão de Terapia”. Devido à procura, melhor marcar com antecedência.
Assista ao teaser oficial de “Sessão de Terapia”:
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Tiago Leifert, apresentador do “Big Brother Brasil” desde 2017/Foto: TV Globo
Vindo do esporte, já com experiências na área do entretenimento, Tiago Leifert é convidado para assumir o comando do “BBB” após Pedro Bial apresentá-lo por 16 anos
Após 16 anos, em substituição ao respeitado apresentador Pedro Bial, com seus poéticos discursos de eliminação, um rapaz com curtos cabelos loiros e espertos olhos azuis, que havia se consagrado na área do esporte, já com algumas experiências no entretenimento, fora convidado pelo diretor Boninho a assumir o comando do reality show mais assistido do país, o “Big Brother Brasil”, na Rede Globo. Como se sairia este paulistano amante dos games no comando da atração que paralisa o Brasil nos primeiros meses do ano? A incógnita sobre a sua atuação se transmutaria em certeza ao percebermos que Tiago Leifert abraçou com gigante profissionalismo e tocante sensibilidade o programa que atiça torcidas na nação quase como as de futebol.
Em março de 2020, o apresentador, assim como a população mundial, foi pego de surpresa com a eclosão da Covid-19, tendo que se submeter aos riscos de uma doença muito pouco conhecida, e se adaptar aos mais rígidos protocolos de segurança impostos pela emissora onde trabalha, a partir da decisão pela continuação do reality
O moço que traja jaquetas bonitas desejadas a cada noite começou a encarar desafios assustadoramente reais, mais imaginativos do que qualquer ficção, a partir de março de 2020, quando eclodiu a pandemia de Covid-19 no planeta. Numa experiência jamais vivida pela televisão mundial, o apresentador se submeteu a todos os riscos imagináveis decorrentes de uma doença muito pouco conhecida, obedecendo aos rígidos protocolos de segurança impostos pela emissora, assim que se decidiu pela continuação do programa. Transgredindo uma das normas pétreas do reality, Tiago teve que informar com bastante delicadeza e cuidado aos confinados o que um vírus gripal estava fazendo com a população mundial. Na final da edição, sem festa tampouco plateia, depois de anunciar a vencedora Thelma Assis, o jornalista com formação em Psicologia deixou que a sua emoção represada por semanas seguidas aflorasse ao vivo. Difícil não dividir este choro com ele.
Na edição deste ano, o “Big dos Bigs”, Tiago teve que enfrentar, além da pandemia que havia se agravado, acontecimentos importantes na Casa, como a incompreensão de alguns participantes com relação ao ator Lucas Penteado e questões raciais envolvendo outros dois, o que o levou a ter uma conversa histórica com os confinados sobre a simbologia do “black power”
Em 2021, já com vacinas sendo aplicadas em um sem número de países, mas com a pandemia sem controle em nosso território, o também apresentador do “The Voice Brasil” dá início ao “Big dos Bigs”, com cem dias de duração. Seus desafios seriam possivelmente maiores face aos acontecimentos intensos da Casa. Com a saída do ator Lucas Penteado, não compreendido por parte dos participantes, Tiago lhes disse que faltou “fair play”. Em outro episódio envolvendo dois confinados em que um comentário levantou questões raciais, o apresentador, sem texto pronto, não fez um discurso tradicional, mas conversou de forma impactante sobre a simbologia do “black power” para a comunidade preta, num momento histórico da produção. No dia da final do “BBB21”, um dia de festa, falece há pouco mais de uma hora antes de iniciar o programa o ator e humorista Paulo Gustavo, deixando o Brasil consternado. Além de comunicar aos finalistas Juliette, Camilla e Fiuk o ocorrido no intervalo da edição, o apresentador teve que dar andamento à atração com o país ainda em choque. Tarefa para grandes profissionais. Durante o show do rapper Projota com a participação de Lucas Penteado, Tiago deixou as formalidades de lado, saltou do tablado onde estava, e se juntou aos finalistas para cantar e vibrar com emoção explosiva. Minutos depois, a câmera o flagrou em um momento de distinta humanidade, com seus olhos mais azulados com o choro, ao agradecer em silêncio solitário a difícil missão cumprida. Essa grande e complexa orquestra chamada televisão precisa cada vez mais de maestros sensíveis e profissionais como Tiago Leifert. Tiago Leifert é o verdadeiro “Big dos Bigs”.
Letícia Colin, como a dependente química Amanda, em uma das cenas mais dramáticas da série “Onde Está Meu Coração”/Foto: Fábio Rocha/Globo
O imbatível quarteto George Moura e Sergio Goldenberg, roteiristas, e José Luiz Villamarim e Luisa Lima, supervisor e diretora artísticos respectivamente, reúnem suas notórias potencialidades profissionais para contar ao público a trajetória dolorosa de uma médica de classe média alta vítima dos estragos causados pela dependência química em crack
O tema da dependência química não raro atinge a sensibilidade do público pelo grau de sofrimento em sua vítima e naqueles que a cercam, sejam eles familiares, amigos ou colegas de trabalho. E é sobre este assunto espinhoso, muitas vezes evitado pela sociedade, que a afinada dupla de roteiristas George Moura e Sergio Goldenberg (“O Rebu”, “Onde Nascem Os Fortes”) resolveu se debruçar dessa vez na série original do Globoplay, com exibição na última segunda-feira de seu primeiro episódio na Rede Globo, “Onde Está Meu Coração” (a produção foi mostrada com sucesso no Berlin Series Market & Conference do 70º Festival Internacional de Berlim, Berlinale, do ano passado). Tendo outra dupla notável por trás, a diretora artística Luisa Lima e o supervisor artístico José Luiz Villamarim, a história se concentra na dolorosa trajetória de Amanda (Letícia Colin), uma jovem médica filha de um casal de classe média alta, o também médico David (Fábio Assunção) e a executiva do setor de portos Sofia (Mariana Lima), que vê a sua vida ser seriamente comprometida pelo vício em crack. Casada com o bem-sucedido e apaixonado arquiteto Miguel (Daniel de Oliveira), um usuário casual da droga, Amanda, já sofrendo com os efeitos devastadores da adicção, não evita que os mesmos interfiram no relacionamento sexual de ambos e na eficiência de seu ofício, a despeito de ser uma boa médica. Seus pais, que já possuem um passado com as drogas (a dependência e internação de David e a morte ainda não explicada de outro filho), são alertados pela filha Julia (Manu Morelli) sobre o vício da irmã. Entre a rotina pesada do hospital e recaídas na dependência, a atormentada moça se percebe cada vez mais acuada, fugindo do fantasma da internação que a leva a repensar a própria existência.
Luisa Lima merece atenção pela sua direção elegante na qual é realçada a rica arquitetura urbana de São Paulo com o respaldo das belas locações das casas dos personagens, valendo ainda ressaltar a brilhante trilha sonora de Daniel Roland que conta com Elvis Presley e Nick Cave
A elegante direção de Luisa Lima se apoia na exploração inteligente da bela paisagem urbana de São Paulo (uma ode à arquitetura), incluindo lindas locações das casas dos personagens. A diretora apostou nos grandes planos, imagens desfocadas, closes bem fechados, além da valorização dos corredores, que podem ser brancos e amplos, ou escuros e claustrofóbicos. Letícia Colin assume o protagonismo com delirante intensidade. Fábio Assunção e Mariana Lima transmitem com excelência a nítida sensação de dor e impotência dos pais. Daniel de Oliveira reflete com a mesma qualidade este sentimento. Manu Morelli revelou-se promissora em suas cenas e Rodrigo García se destacou como o traficante Edu. O elenco é completo por talentos como Camila Márdila (como Vivian, uma cliente sedutora e abastada que se interessa por Miguel), Ana Flávia Cavalcanti (Inês, enfermeira do hospital), Magali Biff (uma das pacientes de Amanda) e Démick Lopes (o motorista do carro que conduz a médica). Embalada pela brilhante e diversa trilha sonora de Dany Roland (Elvis Presley com “My Way”, Nick Cave com “Into My Arms” e Depeche Mode com “Enjoy The Silence”), a nova série do Globoplay propõe uma discussão séria sobre o flagelo do crack em nossa realidade, que dilacera pessoas inclementemente, fazendo-as perder a dignidade e a identidade, tratado com políticas equivocadas do Estado. “Onde Está Meu Coração” nos ajuda a encontrar os corações perdidos dos reféns das pedras que ardem.
Giovanna Antonelli, Renata Sorrah e Vanessa Giácomo interpretam respectivamente Lívia, Stella e Cléo na nova série original do Globoplay “Filhas de Eva”/Estevam Avellar/Globo
Na série escrita por Adriana Falcão, Jô Abdu, Martha Mendonça e Nelito Fernandes, Stella, vivida por Renata Sorrah, uma das protagonistas, noticia, em plena festa pelos seus 50 anos de casamento, a sua decisão de se divorciar
No Dia Internacional da Mulher o Globoplay nos apresentou em sua nova série original, “Filhas de Eva”, três mulheres com vivências diferenciadas que possuem em comum o desejo de fazer as suas próprias escolhas em busca da liberdade pessoal. A bem alinhavada obra, cujos escopos são os dramas natos às relações humanas/afetivas sem se afastar das pinceladas de um leve humor, foi criada e escrita por Adriana Falcão, Jô Abdu, Martha Mendonça e Nelito Fernandes, com redação final de Martha Mendonça, tendo o seu prólogo na luxuosa festa de bodas de ouro de Stella (Renata Sorrah, majestosa) com o influente advogado Ademar (Cacau Amaral). Após assistir aos vídeos que traçam um painel de sua vida, Stella surpreende a todos com um pedido público de divórcio. No mesmo evento, encontra-se sua filha Lívia (Giovanna Antonelli, vigorosa), uma badalada e metódica psicóloga casada com o também psicólogo Kleber (Dan Stulbach, certeiro no tom), um homem ressentido com o sucesso da esposa. Eles têm uma filha, a questionadora Dora (Debora Ozório, talentosa revelação). Em outra ponta da história nos deparamos com Cléo (Vanessa Giácomo, lindamente à vontade), uma moça despachada envolta com as agruras do desemprego, filha de Zezé, Analu Prestes (uma atriz bem-vinda). No primeiro episódio, as circunstâncias a levam a entrar no universo conflituoso de Lívia. Fecha-se assim o conjunto onde as trajetórias dessas três mulheres, fortes à sua maneira, entrelaçam-se.
Com direção elegante de Leonardo Nogueira, Felipe Louzada e Nathalia Ribas, “Filhas de Eva” contribui para a dramaturgia no sentido de reafirmar as lutas legítimas de mulheres de gerações distintas
Na trama, que já em seu introito ostentou traições e chantagem, as elegantes direção artística de Leonardo Nogueira e direção de Felipe Louzada e Nathalia Ribas apostaram em takes em que espelhos se tornam “personagens” e posicionamentos de câmera incomuns, com a captura das cenas através de frestas. Sobressaíram-se a fotografia de André Horta, que explorou bastante as luzes naturais, as estudadas direção de arte de Daniel Flaksman, cenografia de Keller Veiga e produção de arte de Carolina Pierazzo, os figurinos sofisticados de Marília Carneiro, e a bela produção musical de Nani Palmeira e Rafael Langoni, com regravações de “You Are My Sunshine” e “Can’t Help Falling in Love”, além de “Fever”. Na nostálgica e lírica abertura, que reproduz vários momentos do casal Stella e Ademar em filmagens e fotos, estão os atores Marcella Rica e Yuri Ribeiro, que defendem os personagens mais jovens. “Filhas de Eva” colabora com a dramaturgia no sentido de colocar em posições destacadas as lutas legítimas de mulheres de gerações distintas que visam a mudar suas vidas, independente das consequências, estimuladas pelo valor da liberdade. Afinal, são todas filhas de Eva.