” ‘Alucinadas’ é comédia na qual o absurdo em grau superlativo das relações humanas é representado por duas atrizes que sabem muito bem conjugar o verbo ‘divertir.’ “

Publicado: 20/05/2012 em Teatro


Foto: André Arruda/Divulgação

A Luciana Fregolente e Renata Castro Barbosa cabem esta missão descrita no título acima. Ambas se desdobram em vários papéis, cada um mais tresloucado que o outro (sim, a proposta é esta). E para dar vida a todos eles, tanto Luciana quanto Renata usam e abusam de seus recursos cômicos indiscutíveis, apoiando-se em gestuais, esgares, e modulações de voz diversas. Logra-se êxito, comprovado pela efusiva resposta da plateia. As atrizes se firmam como legítimas integrantes da nova geração que se dedica ao humor no Brasil. O diretor Victor Garcia Peralta, ciente das ferramentas que à sua disposição estavam, compôs de modo admirável um espetáculo leve, divertido e ágil. Victor, que tem em mãos bastantes elementos para organizar, como esquetes e respectivos personagens, atinge a qualidade ao montar um arranjo condizente com as intenções do texto. Há claros dinamismo, “timing”, e uso coerente do espaço cênico. Com isso, o público em nenhum momento se entedia. Mérito que se perfaz. A encenação fora escrita por dramaturgos que ultimamente conquistaram justo lugar no nicho da visão própria de quem se pretende a provocar o riso. Bruno Mazzeo, Luciana Fregolente, Fábio Porchat, Elisa Palatnik, Maurício Rizzo e Rosana Ferrão desenharam um painel de situações que tangem o absurdo já citado. Um exagero permitido para que se pudesse alcançar a graça, baseado em experiências cotidianas do ser humano. Há variedade das mesmas. O stress ao qual ninguém está livre; a violência urbana associada aos serviços de “delivery”; a insistência descabida aliada à inconveniência das operadoras de telemarketing, que levam o potencial cliente/vítima à impaciência próxima ao surto (entende-se por irritação); a esperta adaptação das instruções de aeromoça como se em ônibus estivesse, tendo por inspiração a realidade em que vivemos; a abordagem quase “sacrílega” da finitude do homem; o quanto linhas cruzadas telefônicas podem acometer as pessoas de aborrecimento e perturbação psicológica; o bizarro encontro entre profetisa e consulente; as frustrações, recalques, e ressentimentos revelados por antigos ícones, como a Mulher Maravilha e a boneca Susie; e a Mãe Natureza rebelada face ao desrespeito dos que na Terra habitam. Tudo regado a pinceladas cáusticas, porém nunca fora de contexto. O cenário de Adriana Milhomem é de uma elegância frugal, dando oportunidade para que o palco em si fique disponível para as performances das intérpretes. Há dois cubos que servem de assentos deveras aproveitados por Luciana e Renata. Ao fundo, belos cubos dependurados por meio de fios que ora se acendem, ora se apagam. Uma visão deslumbrante. Sem contar que no início da peça, há um telão com clipe animado e música dançante composta por Leoni e Luciana Fregolente. Assim, o começo se dá em clima de alto astral. A parte musical criativa pertence a Leoni e Pedro Mamede. No tocante aos figurinos à cargo de Domingos Alcântara e Luciana Cardoso, uma contribuição primorosa. As atrizes estão bonitas, trajando calças pantalonas de cintura alta em tons acizentados, “bustiers” aveludados e/ou acamurçados negros sobre segunda pele “nude” de mangas longas. O visagismo procura a discrição. Funciona. As artistas estão com cabelos presos por coques, e maquiagem suave, realçando-se os olhos com lápis preto. A iluminação de Djalma Amaral impõe agradável sensação ao público, utilizando-se de focos, luzes gerais, além de oscilar conforme se exige. A principal atração neste segmento técnico são o acender e o apagar dos cubos já mencionados sitos no “background” da ribalta. A preparação corporal de Mariana Donner explora com eficiência as possibilidades indicadas nas histórias exibidas. Concluímos que “Alucinadas” é um entretenimento inteligente, e pensado com adequação ao risível. Ademais, “Alucinadas” corrobora os talento e intimidade com o tablado de Luciana Fregolente e Renata Castro Barbosa.

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