Blog do Paulo Ruch

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Foto: Jorge Bispo/Divulgação

Na teoria, uma “amizade”. Na prática, repete-se a “amizade”. Entretanto, este substantivo de indiscutível importância para o glossário universal serve apenas para esconder o grande amor que existe entre João Pedro, o JP (Daniel Rocha) e Catarina (Julia Faria). Cada um ao seu modo acovarda-se em assumir de fato o sentimento recíproco. Catarina até verbaliza o que sente. O que já não ocorre com João Pedro. Confusões, dúvidas, contradições de ideias, angústia e insegurança permeiam suas mentes de forma implacável. Como se não bastasse toda essa ebulição afetiva, surgem mais dois personagens em cena: Juliano (Fernando Roncato) e Ana (Mariana Molina). Ambos foram “roommates” em Nova York, e mantiveram uma “amizade colorida”. Por coincidência, Juliano recebe um convite e começa a trabalhar na mesma redação de um tabloide esportivo da jornalista Catarina. A diferença notória é que Juliano demonstra absoluta satisfação profissional, e Catarina está infeliz com o ofício, ou melhor, sobre o que escreve. Os quatro são envolvidos numa intricada teia de encontros, desencontros, mal-entendidos, e precipuamente o ciúme. Enfim, a vida como ela é. O amor em toda a sua amplitude de significações tratado pelos autores Anna Carolina Nogueira e Junior de Paula com o respaldo da modernidade que assolou o pesado e caótico cotidiano do homem como indivíduo. A era digital entra sem pedir licença na vida de todos os que interagem, por meio da comunicação em que são utilizados e-mails, conversas pelo computador e celulares. Discute-se a relação, a famosa “DR”, tirando-se proveito da invasora e hoje indispensável tecnologia. Anna Carolina Nogueira e Junior de Paula alinhavam com bastante inteligência o conjunto desses elementos num texto leve, sem no entanto jamais perder a seriedade do tema central abordado. Os atores Daniel Rocha, Julia Faria, Mariana Molina e Fernando Roncato “entraram fundo” em seus respectivos papéis, tornando-os em sua essência críveis aos olhos do público. A interpretação do quarteto merece aplausos nada tímidos. Suas vozes foram preparadas com eficácia por Rose Gonçalves. A direção de Michel Bercovitch (com a assistência de Flávio Pardal) atingiu o alvo exato para se lograr um espetáculo ágil, que se configura na movimentação quase permanente do elenco. Há instantes de monólogo bem-vindos. O resultato se desenha no interesse contínuo dos espectadores e sua resposta imediata à ação pretendida. Criou-se com aqueles desejável empatia. Destaco a preparação corporal dos intérpretes a cargo de Duda Maia, em especial no tocante à sincronia de gestos. Soa bonito como imagem. Um balé de corpos. A cenografia de Cristina Novaes atende com funcionalidade e charme o que lhe é proposto pela história. Dois apartamentos, um no Rio de Janeiro e outro em Manhattan ganham vida em cadeiras, mesas, luminárias, abajur, cabides e uma cama comum às duas moradias (solução engenhosa). A iluminação de Renato Machado encanta-nos com seus focos individuais, sombreados e prevalência das cores azul e laranja nos painéis que se localizam no fundo do palco. Painéis nos quais há lindíssimas projeções das cidades do Rio e Nova York, não preterindo o dia a dia turbulento a que somos inexoravelmente submetidos. Mérito de Mauro Ventura. Os figurinos de Bruno Perlatto entram na vasta lista de pontos altos da peça. Estilos “fashion”, “casual chic”, “hipster, “yuppie”, despojado e esportivo enriquecem com inegáveis elegância e coerência a encenação, e ajudam a traçar o perfil dos personagens. A trilha sonora montada por Anna Carolina Nogueira, Junior de Paula e Michel Bercovitch é atraente, passando pelo blues, jazz, “Empire State of Mind” ao piano, e pela MPB de Chico Buarque, Caetano Veloso e Roberto Carlos. Porém, temos que reconhecer que a pérola melódica cujo som inebria-nos e comove-nos vem do grupo Beirut, com sua emocionante e bela canção “Elephant Gun”. Como podem perceber, há para os que gostam de teatro um espetáculo com muitas qualidades e potencial dramatúrgico. O amor é discutido. É debatido. É mostrado. Confirma-se o quanto é complicado. É complicado amar e ser amado. Contudo, não seríamos humanos sem esta amável complicação.

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