“Vejam ‘Minimanual de Qualidade de Vida’, e levem para casa o ‘Minimanual para ser Boa Atriz’.”

Publicado: 16/06/2013 em Teatro

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Foto: Dalton Valério

Ao despertarmos, concomitante ao abrir dos olhos nos deparamos figurativamente com algo similar a slogan escrito em letras garrafais que enuncia: STRESS. Partindo desta premissa surge obrigatória pergunta: “Como lidar com esta condição emocional e comportamental contemporânea?” “Stress”, um vocábulo inglês cujo significado é: pressão, demanda, ficar tenso, nervoso… E aquele adentrou de tal maneira em nossa rotina que houve aportuguesamento espontâneo com direito a conjugação de verbo: Eu estresso, tu estressas, ele estressa… O divertido e inteligente texto de Ana Paula Botelho e Daniela Ocampo esmiúça tema vigente, e todo indivíduo inserido na sociedade urbana não logra dele escapar. Seleta compilação de tópicos com intuito de ajudar potenciais “vítimas” deste revés globalizado nos é visível por meio de personagem construída com requintes realísticos e alegóricos: a palestrante Angelina Pimenta (Alexandra Richter), ex-passeadora de cachorros, contratada por editora de livros provavelmente fã do quarteto sueco ABBA que atende pelo nome “The Winner Takes It All”. Cabe então a Angelina popularizar os ditames estabelecidos com viés discricionário resolutivos dos descaminhos humanos. Sem deixar escapulir o bom humor, assuntos como “aquecimento (não o global)”, “pele”, “academia”, “feng shui”, “consumismo”, “Butão”, “homem”, “trabalho”, “sustentabilidade”, “alimentação orgânica e hidratação”, seguidos por tantos outros inerentes ao cotidiano de cada um são perfilados em formato de palestra imbuída de comicidade dilacerante e prodigiosa interação com o público. A missão de tornar concreto esta abrangente teia de questionamentos é entregue a atriz reconhecida por imensurável aptidão para reunir em si mesma qualidades irretorquíveis que lhe permitem livre trânsito no drama e comédia. Alexandra Richter é intérprete dotada de avassalador carisma, beleza inconteste e domínio surpreendente das linguagens de corpo e voz (preparação de Márcio Cunha e Rose Gonçalves respectivamente) que se delicia e delicia a plateia com jogo interpretativo repleto de nuances, filigranas e entrelinhas. Uma atuação artesanal e por conseguinte inesquecível. Somos de modo inevitável sem exceção “laçados” por aquela, e como resultado nos tornamos cúmplices da artista “dona do palco”. A diretora Daniela Ocampo com argúcia e sabedoria cênicas explora o potente conteúdo que tem em mãos o materializando num dinâmico, ágil, espirituoso, crítico, niilista e devastador espetáculo cômico permeado por aspectos sedutores e representativos do alto poder de comunicação teatral. No que diz respeito aos elementos técnicos restantes se percebe inequívoca funcionalidade. O cenário de Clívia Cohen aposta na elegância “clean” e concisão visual, sendo constituído por dois painéis sanfonados brancos em ambas as laterais com biombos menores revestidos de película transparente que os antecede, um suporte utilitário à esquerda do proscênio e ao fundo gigante tela de projeções (vídeo de abertura de Eduardo Chamom e videografismo de Rico e Renato Vilarouca) e três bancadas retangulares móveis também transparentes. Aliás, a transparência é usada com lirismo e nos remete a “Teatro de Sombras”. As mencionadas projeções cumprem relevante papel de aliança com a história a transformando em produto mais palatável e jovial do que já é. Os atores Leandro Hassum e Marcius Melhem colaboram virtualmente em participações luxuosas. A iluminação de Orlando Schaider opta pela sofisticação precisa que se nota em harmoniosa alternância do branco e do vermelho. O azul e o colorido se fazem presentes em oportunos instantes. O belo rosto de Alexandra é valorizado por focos, e a luz aberta exerce protagonismo em muitas passagens da trama. O figurino de Patrícia Muniz denota inventividade e tendência criativa ao vestir Richter com “tailleur” de textura avermelhada e relevos florais, lenço com geometria de linhas, “scarpin”, bolsa “croco” e “top” cavado que compreende sensualidade e doçura estéticas. O visagismo a cargo de Fernanda Santoro é simbolizado por “make” vivo e atraente além de bem-feito coque em Angelina Pimenta. A trilha sonora de Paulo Mendes “nasce” no ABBA, “desenvolve-se” em Elza Soares, sinaliza amadurecimento na antológica cena regada a laser e famosa música incidental de Danny Elfman do filme estrelado por Tom Cruise “Missão Impossível”, e se “despede” com a icônica “Dancin’Days” de As Frenéticas. E ressaltemos que a interação de Alexandra com os espectadores é suprema em seu sentido mais literal. Saímos do teatro leves com sorriso permanente prontos para enxergar a vida sob alternativo ponto de vista, municiados com “minimanual” para termos melhor qualidade de vida. E jubilosos por testemunharmos de que existe generosa defensora das Artes brasileiras carinhosamente chamada Alexandra Richter, que nos dá sem pedir retribuição o “Minimanual para ser Boa Atriz”.

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