” Elis nos recomendou ‘Pequeno Dicionário Amoroso’, e ainda ganhamos de presente a ‘licença-felicidade’. “

Publicado: 24/06/2013 em Teatro

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Foto: Divulgação

Corajosa é o adjetivo no gênero feminino que melhor se adequa à cineasta Sandra Werneck que chamou para si a iniciativa de abordar assunto temerário, delicado e complexo ao qual todo e qualquer indivíduo provido de emoções não logra escapar: o amor. Não somente este, mas infinda gama de envolventes ramificações que lhe são originárias foram objeto de estudo na adaptação do êxito de público e crítica da Retomada do Cinema Brasileiro, “Pequeno Dicionário Amoroso” (o roteiro é de Paulo Halm e José Roberto Torero), dirigido pela própria Sandra para os palcos. E aquelas resultam em inevitáveis consequências no comportamento humano afetivo. A narrativa cênica tem por meta orientar, decifrar, tirar conclusões, elucubrar por meio de seleto conjunto de vocábulos de modo que se mire em alvo analítico do intrincado “jogo do amor”, no qual impreterivelmente os “participantes” ora são ganhadores ora são vencedores. Para que o contexto optado alcance a plateia com limpidez e convencimento literais, utilizam-se as figuras representadas pelos personagens Gabriel (Eri Johnson), um biólogo/entomologista, e Luiza (Juliana Knust), uma fotógrafa, que em primeiro momento se esbarram de maneira casual em lugar cercado de anjos de mármore. E a partir deste primeiro encontro, sucedem-se espécies variadas de questionamentos distribuídos nas fases padrões das relações amorosas. Ainda na trama, coexistem Márcia (Camila Rodrigues), amiga de Luiza, “expert” em estatísticas que faria inveja a qualquer funcionário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e o biólogo Barata (Rafael Zulu), confidente e conselheiro do especialista em insetos no tocante aos seus conflitos existenciais. Sendo assim, Sandra Werneck, como autora, atinge precípua intenção: esmiuçar e debater com coerência, sabedoria, bom senso e veracidade a troca de afetos e intimidades entre um homem e uma mulher. Jorge Fernando, o diretor, conhecido por ricos atributos que se perfazem ao impor dinamismo, agilidade e vieses cômicos a quaisquer produções em que impõe sua marca, delineia o espetáculo com contornos vivazes, sedutores, atraentes, irresistíveis e compactos, priorizando como lhe é característico a configuração com elementares nuances de cada “character” inserido na história. Jorge busca a plena exploração do perímetro da ribalta que a ele se mostra, e se sai vitorioso. A peça obtém harmonia plástica. As atuações “dialogam” sem interferências pelo que se entende como pródigas, consistentes, maduras e profusas em propriedades qualitativas. Os intérpretes com acerto foram conduzidos para que transitassem com devida cautela por estreita ponte que separa o naturalismo da linguagem típica teatral. Veem-se drama, comédia e romance mergulhados em contemporaneidade que moldam quadro da obra. Eri Johnson se utiliza de potente manancial de recursos de comunicação dos quais é inequívoco detentor para fazer de Gabriel homem sensível, espirituoso e possuidor de convicções empedernidas. Sua interação com os espectadores é majestática. Juliana Knust “esculpe” com ornamentos milimétricos de docilidade e sutileza, sem abrir mão de desabafos individuais compreensíveis, evoluindo para personificação que conquista simpatia dos que lhe assistem. Camila Rodrigues se divide em duas personagens, o que se torna brado comprovante de sua versatilidade acompanhada de domínios absolutos de corpo e voz, e que se fazem perceber na enxuta constituição das “personas” que a ela lhe couberam. Rafael Zulu se apropria com mérito e elegância de suas pujantes entoações vocais, expressões de corpo e face que elaboram crível e carismático desempenho. A iluminação de Gabriel Lagoas envereda pela diversidade atendendo aos pedidos da eficiência, obedecendo portanto às súplicas do texto. Luzes de cores lilases, isoladas ou em coletividade com outras, direcionamento pela lateral, planos abertos e sombreados líricos culminando em paleta colorida que funciona como vivificação do painel dramatúrgico. Os figurinos arrebanham um sem número de tendências, incluindo roupas e acessórios, fato desencadeador de procedimento generoso estilístico. Moletons, jeans, saias longas e fluidas, blusas soltas e assimétricas, jalecos, tubinho franjado, brilhos, “écharpes”, colete, mocassim, tênis, “espadrille” e sandálias trançadas açambarcam o visual que auxilia amiúde na identificação pessoal de Gabriel, Luiza, Márcia e Barata. O cenário se limita com objetividade à espaço vazio contendo apenas no seu fundo grande anteparo em que se projetam imagens informativas e colaborantes da consolidação do enredo. Utensílios como escada, colchão, cadeiras e pequena mesa são servidores na diligência de se edificar unidade pertinente. A trilha sonora é bela, “viajando” nos sons das canções de Elis Regina, Ana Carolina, Zélia Duncan e Leila Pinheiro. Elis exerce função protagonista em instantes pedintes de suas clássicas músicas. Trilha que suaviza e afaga ouvidos desavisados. Não à toa mencionei no título que a estrela da MPB nos “recomendou” “Pequeno Dicionário Amoroso”. A magnífica Elis Regina transcendentalmente é cúmplice fidedigna do que se vê. Num trecho de cena é mencionada palavra composta bonita em sua natureza: “licença-felicidade”. A chave do sucesso de “Pequeno Dicionário Amoroso” é dar aos diletantes do teatro o direito de tirar licença mesmo que breve para serem felizes.

comentários
  1. Rafael Zulu disse:

    Paulo, feliz por saber que todo nosso esforço apresentado ali naquele santuário chamado teatro foi reconhecido por vc de maneira tão sensível… Obrigado pelo carinho e pelas palavras… Sabemos que o teatro tem uma interpretação muito pessoal, mas afirmo aqui que muito do q vc falou foi dito e pensado pelo nosso diretor! Desejo a vc muito sucesso na vida e no trabalho e espero te conhecer em breve meu irmão!!!

    Abs

    Rafael Zulu o “Barata”!rs

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    • pauloruch disse:

      Meu querido Rafael, o esforço por vocês empreendido só me fez me imbuir de esforço movido a carinho, respeito e admiração pelo que vi. Alegro-me ao saber que definiu o que escrevera como sensível. Isto soa mais do que elogio e mérito. E o que de forma avassaladora me impressionou foi o que dissera no tocante ao fato de que “muito do que eu falei foi dito e pensado pelo seu diretor!”. O sucesso que me deseja é o mesmo que lhe desejo, tanto na vida quanto no trabalho, e sim, quero lhe conhecer em breve meu irmão Rafael Zulu.
      Abraços!
      Paulo Ruch

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  2. dja marthins disse:

    Rafael Zulu, meu querido te amo… saudades.
    Eri Johnson, Julian knust e Camila Rodrigues vcs são 10.000 bjs

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