Blog do Paulo Ruch

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Foto: Divulgação/TV Globo

O voo rasante e lépido de imponente gavião deixa rastros no céu sobre exuberantes paisagens. O bater de asas com interregnos de placidez simbolizam o estado etéreo da liberdade, que norteará a nova novela das 23h da Rede Globo inspirada na obra de Dias Gomes, “Saramandaia”, escrita por Ricardo Linhares e dirigida por Denise Saraceni e Fabrício Mamberti (Direção de Núcleo de Denise Saraceni). O folhetim original foi ao ar na mesma emissora no ano de 1976, e se tornou um marco da teledramaturgia brasileira. Já nos primeiros capítulos percebemos a transposição para os tempos atuais de reinventada contextualização da história sem que haja esbarros no anacronismo, preservando a essência do precípuo objetivo do autor pioneiro. Tópicos centrais servirão de suporte para propagação de diretrizes desencadeadoras da trama, como a política e seus extravios, a ética, a defesa de direitos dos cidadãos (fato que se coaduna com os recentes acontecimentos no País), preconceito, rixas entre tradicionais famílias e amores mal resolvidos. Todavia, elemento importante que se diferenciou na produção em pauta nos idos do século passado, e que permanece no “remake” é a exploração ampla do movimento Surrealismo, fonte do Realismo Mágico ou Fantástico. Dias “bebeu na fonte” de André Breton, Salvador Dalí, Luis Buñuel e Gabriel García Marquez, tendo “experimentado” essa escola em outra de suas realizações, “O Bem-Amado” (1973), a primeira telenovela exibida a cores no Brasil. A inserção do mencionado movimento absorvido pelas linguagens literárias, pictóricas e cinematográficas se personificou no papel de Milton Gonçalves, o pescador Zelão, que mantinha como sonho renitente “voar com as próprias asas”, logrando êxito no desfecho. Na presente “Saramandaia”, deparamo-nos logo de início com miríade de galinhas que se pulverizam sob as ordens de Candinha (Fernanda Montenegro). As formigas ordeiras e impertinentes que habitam as narinas de Zico Rosado (José Mayer), e que decidem ver a luz do sol a partir do enraivecimento do oligarca. O coração de Cazuza (Marcos Palmeira) que insiste em infringir as “leis do organismo” ao levar ao pé da letra o dito popular “o coração saiu pela boca”. Sua morte e posterior ressurreição. A obesidade mórbida e gula desenfreada de Dona Redonda (Vera Holtz) que faz estremecer pisos e pisantes com sua “espaçosa” locomoção (a caracterização de Vera que demanda horas é um dos méritos a se destacar). As previsões de João Gibão (Sergio Guizé; a despeito de trabalhos anteriores uma boa revelação), que não se conforma com a situação de carregar corcunda junto a asas que invariavelmente são aparadas por sua mãe Leocádia (Renata Sorrah). Por sinal, houve poética e desconcertante cena atinente a esta costumeira ação. O “serviço metereológico” que acompanha Seu Encolheu (Matheus Nachtergaele), quando este sente sinais em seus ossos. As quentura e ardência que perpassam o corpo da bela Marcina (a recifense Chandelly Braz, ótima descoberta de “Clandestinos – O Sonho Começou”), que se evidenciaram ao encostar sua pele com a pele do prefeito Lua Viana (Fernando Belo em bela estreia). As manifestações e protestos magistralmente dirigidos em cena de exuberância visual, utilizando-se do recurso “slow motion”, e que de forma sutil tangenciou ambiência teatral/circense com suas profusões de fumaças coloridas dispersas em “guerra idílica” protagonizadas por Pedro, interpretado por Andre Bankoff, um ator que desperta a nossa atenção não somente pela sua inefável beleza mas também por talento e intensidade dramática indiscutíveis, além de possuir canora voz em que se ouve cada palavra dita com intuito calculado, e Zélia (Leandra Leal). Tarcísio Meira com entoação marcante e pausada em aliança com expressividade ímpar representou o “enraizado” Tibério com o brilhantismo de sempre. A chegada de Lilia Cabral (Vitória Vilar) já insinua excelência no porvir dos momentos conflituosos de que fará parte. Gabriel Braga Nunes entendeu com lógica o perfil sombrio, misterioso, lúgubre e sedutor do Professor Aristóbulo, que de quinta para a sexta-feira se transmuta em lobisomem. As imagens panorâmicas aéreas, a direção de arte, os figurinos, a fotografia e maquiagem mostraram valor. A abertura é inebriante com seus desenhos figurativos e surrealistas, e de certa forma com alusão a Botero ao retratar Dona Redonda. A trilha sonora apresentou o clássico “Pavão Misterioso”, de Ednardo, e Ney Matogrosso. Os diálogos foram construídos por Ricardo Linhares com vocábulos eruditos e neologismos que em muito lembram os antológicos discursos de Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo em “O Bem-Amado”). Houve ainda as luxuosas aparições de Ana Beatriz Nogueira, Débora Bloch e Ilva Niño. “Saramandaia” contém ingredientes para receita de sucesso infalível com o propósito de manter os olhos do público bem abertos às 23h, e fazê-lo dormir após o seu término “sonhando” sonhos mágicos e fantásticos, e depois acordar para realidade que também aspira ser mágica sob as bênçãos de Santo Dias.

Categorias: TV

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