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Foto: Ramón Vasconcelos/TV Globo

O caso que aterrou o país, sua adaptação literária, e o retorno de Maria Camargo à dramaturgia da Rede Globo

A nova série da Rede Globo, disponível na plataforma de streaming Globoplay, estreou na última sexta-feira, marcando a volta da autora Maria Camargo, após “Dois Irmãos”, em 2017, à dramaturgia da emissora. Com “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum, ficou-nos bastante evidente a destreza com que Maria logra adaptar obras literárias para o segmento audiovisual. Desta vez, a escritora, ao lado de Bianca Ramoneda, Fernando Rebello e Pedro de Barros, valeu-se de um dos casos mais assombrosos da história da medicina brasileira, narrado no livro “A Clínica: A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih”, de Vicente Vilardaga, para contar aos espectadores, com os ingredientes de livre inspiração cabíveis, os fatos que culminaram na execração pública e condenação criminal de um dos profissionais da área de reprodução assistida mais respeitados no país. A partir de 2009, a imprensa iniciou um processo de revelação dos crimes seriados cometidos pelo médico paulista por meio da denúncia de dezenas de pacientes que deixaram para trás o medo e a vergonha, e resolveram trazer à baila as violências que sofreram. Roger Abdelmassih foi condenado a 278 anos de prisão por 52 estupros e 4 tentativas de estupro contra 52 mulheres.

A história de um casal que quer apenas ter um filho, cuja mulher vê o seu mundo desmoronar de uma hora para a outra 

No primeiro episódio “Stela”, protagonizado por Adriana Esteves, testemunhamos o angustiante périplo da professora e de seu marido, o piloto Homero (Leonardo Netto), no ano de 1994, ao consultório do simpático, educado e sedutor Dr. Roger Sadala (Antonio Calloni) que, muito habilmente, e se utilizando de frases de cunho religioso, como “Eu só sou um instrumento Dele (Deus)”, convence-os e lhes dá a esperança de ter um filho ou mais, depois de tantas tentativas frustradas, ou seja, promete-lhes o que realmente querem ouvir. Como recurso dramatúrgico, Maria dividiu a narrativa em dois tempos, o antes e o depois de o médico ser denunciado por suas práticas delituosas. Em 2007, vimos Dr. Sadala, ou Dr. Vida (como ficara conhecido por suas proezas médicas), discursando em uma festa comemorativa, a “Festa da Fertilidade”, pelos 30 anos de sucesso da reprodução assistida no mundo. Lá estava a sua família, como a esposa adoentada e melancólica Glória (Mariana Lima), sua mãe que o bajula sempre que possível Olímpia (Juliana Carneiro da Cunha, como atriz convidada), e seus filhos Clarice (Silvia Lourenço), Henrique (Gabriel Muglia), também médico, Tamires (Bianca Müller) e Leila (Sabrina Greve). Assim como conhecemos a jornalista Mira, Elisa Volpatto, dedicada ao desmascaramento do médico já alvo de denúncias, e Pedro Henrique (Pedro Nercessian), responsável ferrenho pela manutenção da boa imagem de Roger. Somos informados sobre as desconfianças de Glória quanto à fidelidade de seu marido (nada que um bonito anel de presente não resolva), enquanto Stela sonha com a sua tão aguardada gravidez. Nos exames em sua paciente, percebemos o quanto o médico é carinhoso e solícito. Um médico que ao se despedir não dispensa um beijo no rosto. As cenas em torno da reprodução dos óvulos de Stela são cercadas de imensa expectativa. Na confortável casa de Roger Sadala são vistos muitos objetos religiosos. A religiosidade exacerbada está clara na personalidade do médico, que não economiza a quantidade de vezes em que emite a palavra “fé”. Num jantar em família dos Sadala, a autoridade do patriarca é nítida, e sua agressividade ao ser contestado, mesmo que seja com um gracejo, também. Retornando à festa comemorativa, notamos as trocas de olhares insinuantes entre Roger e uma de suas pacientes, a linda advogada Carolina (Paolla Oliveira). Mira fica atenta a todos os passos do médico, da mesma forma observado pela secretária Daiane (Jéssica Ellen), a mando de Glória. Uma pessoa não esperada se aproxima da festa. Esta pessoa é Stela, uma mulher desnorteada, que ao se ver diante de seu algoz desfalece. De volta ao ano de 1994, Stela, já no hospital, é sedada para que sejam realizados os procedimentos clínicos da fertilização. No quarto vazio e desolador, completamente inerte, a professora que apenas queria realizar o sonho de ser mãe é vilipendiada pelas mãos grossas do médico a quem entregara a sua confiança. Numa cena dirigida com extremo cuidado e prudência, mas nem por isso menos impactante, Stela é estuprada pelo Dr. Roger Sadala. Não só o seu sonho de ser mãe acabou. Tudo acabou. Segundo ela mesma diz em depoimento gravado, estratégia adotada pela direção logo nos primeiros e últimos minutos do episódio: “Perdi tudo”.

Amora Mautner lidera a direção sofisticada e elegante, apesar da aridez e peso dramático do texto 

A direção artística de Amora Mautner (com direção da própria com Joana Jabace e Guto Botelho, e geral de Joana) se coloca em um patamar de excelência, primor e bom acabamento indiscutível. A câmera explora takes que possam sair do lugar comum, com tomadas vistas de cima e de baixo, focos em objetos, e registros espertos de movimentações de personagens. Houve grande domínio no que se refere às passagens alternadas de tempo, obedecendo a não linearidade imposta pelo texto. A direção, a despeito de um assunto tão espinhoso, conseguiu imprimir elegância e sofisticação às cenas. Uma das sacadas da série que merece a nossa observação acurada são os depoimentos gravados em vídeo das vítimas, que ofertam à produção ares de documentário (Roger Sadala também fala para a câmera, mas em outro contexto).

Num elenco com Antonio Calloni, Adriana Esteves e Mariana Lima, todos se destacam 

O elenco está afiadíssimo, plenamente investido na atmosfera sufocante e tensa desta trama que carrega em si mesma um apelo dramático nato. Antonio Calloni, um ator com reconhecidas qualidades, desponta mais uma vez com este papel difícil para qualquer intérprete. Antonio compõe Roger com fineza, carisma e força, não deixando de lado uma faceta ameaçadora intrínseca ao seu caráter criminoso. Com toda a certeza, este deverá ser um dos melhores trabalhos deste artista tão admirado pelo seu talento e versatilidade. Adriana Esteves, uma atriz lembrada por suas notórias vilãs, sendo também ótima em comédias, mostra-nos com imensurável verdade a fragilidade e a insegurança de uma mulher que não pode ter filhos, a sua incontida vontade de realizar o seu sonho, e depois nos comove com a sua dor irreparável após tanta violência contra a sua dignidade. Mariana Lima, que vem de uma excelente performance na supersérie “Os Dias Eram Assim”, revela-nos um certo estoicismo, uma acomodação diante dos reveses sofridos, como a doença que a abate e o casamento infeliz com o seu adúltero e tirano marido. A Glória de Mariana se mantém empertigada, mesmo que o seu rosto nos transmita profunda tristeza. Leonardo Netto cumpre com louvor o papel do marido resignado, mas disposto a oferecer à sua esposa o desejo que ela mais cultiva. A sua desesperança depois de tantos infortúnios, como dívidas e interrupções de gravidez de Stela, é sugerida pelo seu olhar perdido e incrédulo. O capítulo, contou, enfim, com estrelas como Vera Fischer, Juliana Carneiro da Cunha e Paolla Oliveira, atrizes conceituadas do cinema, como Denise Weinberg e Sabrina Greve, e outros talentos de gerações diferentes, como Noemi Marinho, Elisa Volpatto, Pedro Nercessian, Jéssica Ellen, Silvia Lourenço, Bianca Müller e Gabriel Muglia.

Direção de fotografia com texturas cinematográficas, direção e produção de arte, além dos cenários, reconhecidamente competentes, figurinos em consonância com os personagens, edição eficiente e abertura que valoriza a forma feminina como vítima 

A direção de fotografia de Marcello Trotta nos remete a uma textura cinematográfica com tons levemente esverdeados que se aproximam de um cenário hospitalar. Mesmo fora deste universo, Marcello procurou filtros mais sóbrios, sem exageros, o que, certamente, conferiu uma crueza necessária à obra, além de sombras e luzes artificiais da cena. O resultado é coerente, realista e fiel à abordagem da produção. Os competentes trabalhos de direção de arte, cenografia e produção de arte couberam, respectivamente, a Valdy Lopes, Renata Rugai e Avelino Los Reis, e Camila Galhardo. Do mesmo modo que o figurinista Cassio Brasil vestiu com absoluta propriedade os personagens, independente de suas condições sociais. A edição de Vicente Kubrusly, Leo Domingues e Pablo Ribeiro é a consequência de uma parceria eficiente que soube lidar, usando-se uma dinâmica exigível, com uma narrativa segmentada em dois períodos, de maneira que o público não se confundisse com o desenrolar do entrecho. Marcel Klemm (gerência musical) e Eduardo Queiroz (música original) pontuaram com vultoso acerto os desenhos melódicos das cenas, acatando os climas das situações dramáticas. A abertura de Alexandre Romano e Valericka Rizzo nos introduz, com o requinte e a plasticidade de suas imagens em velocidade lenta, a um mundo feminino, através das formas, posições e situações angustiantes e solitárias materializadas em seus corpos, desrespeitados e usurpados pela violência física e moral irreparáveis perpetradas por um homem insuspeito, ao som da triste e bonita canção natalina “Silent Night”, na voz inacreditável de Loro Bardot (a música, traduzida para o português como “Noite Feliz”, foi composta por Franz Gruber e Joseph Mohr; provavelmente esta canção foi escolhida pelo contraponto pureza X violência).

A relevância de “Assédio” ser exibida nos momentos sombrios em que vivemos 

“Assédio”, em seu primeiro episódio, provou-nos e nos promete ser mais um produto dramatúrgico de irrestrita qualidade e apuro, seja em termos narrativos, seja na perspicaz direção, ou na escalação perfeita de seu elenco, que ainda trará nomes como Felipe Camargo, João Miguel, Hermila Guedes, Susana Ribeiro e Monica Iozzi. “Assédio” é uma história que tem a obrigação de ser contada e esmiuçada, para os que já a conhecem e os que não. A sua coincidente apresentação em uma época delicada e assustadora em que se incita o ódio contra as minorias, inclusive as mulheres, que mais uma vez se uniram nas redes sociais como sinal vital de defesa, é mais do que apropriada e urgente. Esta série não deveria se restringir tão somente a um canal de streaming, e sim veiculada abertamente para toda uma nação, a fim de que possamos esclarecer pelo menos algumas mentes obscurecidas por supostas verdades morais. Basta de assédio. Basta de assédio de todos os tipos. Que o único assédio que sobreviva seja aquele baseado única e exclusivamente no amor. Mas no mundo distópico em que vivemos isso não passa de uma quimera.

 

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Foto: TV Globo

Mario Teixeira mistura com inventividade romance, História, fantasia, ficção científica e humor na nova novela das 19h

Depois das intrigas palacianas e dos romances medievais de “Deus Salve o Rei”, estreou na terça-feira passada a nova novela das 19h da Rede Globo, “O Tempo Não Para”, escrita por Mario Teixeira, com direção artística de Leonardo Nogueira. Protagonizada por um casal de atores muito talentosos da nova geração com forte apelo junto ao público juvenil, Nicolas Prattes (o intérprete se sobressaiu em “Rock Story”) e Juliana Paiva (seu trabalho anterior foi conferido em “A Força do Querer”), contando ainda em seu elenco com nomes consagrados como Edson Celulari, Christiane Torloni e Eva Wilma, a trama, que mistura com grande propriedade elementos de fantasia, ficção científica, História, humor e romance, agradou em cheio aos telespectadores desta faixa que prima por sinopses mais leves e divertidas. Mario Teixeira, responsável pelo texto de uma ótima telenovela exibida em 2016 no horário das 23h, “Liberdade, Liberdade”, é um autor que transita com inegável intimidade pelo universo dos fatos históricos (esta produção se passava no Brasil na época dos movimentos de independência, como a Inconfidência Mineira), inspirou-se em Julio Verne e no livro de H.G. Wells, “O Dorminhoco” (que se tornou um filme homônimo de Woody Allen) para alinhavar os elos centrais de sua narrativa.

Uma família escravocrata do século XIX, e seus agregados, após um naufrágio, fica congelada durante 132 anos, e desperta na moderna São Paulo em plenos 2018

A história se inicia em 1886, portanto dois anos antes da Abolição da Escravatura, na região paulista de Nossa Senhora da Freguesia do Ó. Com cenas em p&b (seguidas por uma virada estratégica para um colorido vivo), ostentando visível apuro visual, acompanhamos os costumes sociais e econômicos do século XIX, com seus enfatiotados senhores de engenho, como Dom Sabino (Edson Celulari), e seus escravos, como Menelau (David Junior). Dom Sabino, um empresário empreendedor nos negócios, mas conservador quanto às mudanças do regime escravocrata vigente no período, empenha-se nas preparações da festa de apresentação de sua linda filha Marocas (Juliana Paiva), uma moça com ideais abolicionistas, à sociedade. Numa sucessão de imprevistos que deram um tom de comicidade em seu primeiro capítulo (com um timing próprio de desenho animado em algumas passagens), envolvendo o sedutor e atrapalhado poeta Bento, Bruno Montaleone, a festa não só é cancelada, mas o casamento arranjado entre o rapaz e a filha de Dom Sabino. Tantos escândalos para a família fizeram com que o personagem de Edson, defensor da imagem ilibada de seu clã, e fiel seguidor da Coroa, providenciasse uma viagem conveniente em seu vapor Albatroz, rumo ao Reino Unido, onde possui um estaleiro, com todos os seus familiares (Dona Agustina, a sempre bem-vinda Rosi Campos; suas filhas Nico, Raphaela Alvitos, e Kiki, Natthalia Gonçalves, além, é claro, de Marocas, e de alguns agregados, como Miss Celine, Maria Eduarda de Carvalho, a preceptora das jovens, e o cãozinho Pirata). Uma tragédia que lembra o naufrágio do Titanic (com takes recheados de primorosos efeitos visuais bem próximos ao filme de mesmo nome de James Cameron), muda todo o curso do entrecho. Somos transportados para 2018, com direito a uma sequência de imagens que retratam fatos relevantes desses 132 anos, como a chegada do homem à Lua e a clonagem de uma ovelha, Dolly, com o desfile de figuras indispensáveis para a transformação do mundo, como Einstein, além de políticos e esportistas que entraram para a História, como Barack Obama, e Ayrton Senna, respectivamente. Na região do Guarujá, na mesma São Paulo, o empresário bem-sucedido Samuca, Nicolas Prattes, surfa, até encontrar, presa em um pedaço de gelo, a moçoila vinda do século retrasado. Logo após, operações envolvendo militares da Marinha (a Comandante Waleska, Carol Castro, e o médico Capitão de Fragata Mateus, Raphael Vianna), com o auxílio de helicópteros, e a cobertura da imprensa, são acionadas a fim de se descobrir a respeito do imenso bloco de gelo encontrado nas águas do Guarujá com mais de uma dezena de pessoas congeladas em seu interior (as imagens com as silhuetas dos corpos congelados impactaram). O congelamento de indivíduos permite ao teledramaturgo a abordagem do instigante tema da criogenia, que será veementemente defendida pela cientista Petra (Eva Wilma, em seu retorno aos folhetins, após “Verdades Secretas”), uma médica com ética duvidosa e interesses questionáveis que se defrontará com as ideias de Samuca. Por sinal, as cenas que mostram os sobreviventes em cápsulas criogênicas, iluminadas pela fotografia com filtros azulados, são impressionantes pela sua qualidade. Samuca, filho da elegante e zelosa Carmen (Christiane Torloni), namorada de um rapaz arrivista social, Lalá (Micael; o ator teve um elogioso momento com Nicolas Prattes, depois de confundi-lo com um garçom), passa a ajudar Maria Marcolina (Marocas) em seu restabelecimento, apaixonando-se aos poucos por ela (o casal de intérpretes esbanja carisma e incrível entrosamento, devendo receber acaloradas torcidas dos telespectadores), o que causa a fúria de sua soberba e ciumenta noiva Betina (Cleo). Um dos congelados, Dom Sabino Machado, desperta, e foge da clínica de Petra, perdendo-se no caos urbano da metrópole paulista (vale mencionar as engraçadíssimas cenas em que Dom Sabino se espanta, desorientado, com este “Novo Mundo” que lhe é apresentado; ajudado por Eliseu, o catador de lixo reciclável defendido por Milton Gonçalves, e Paulina, Carol Macedo, criada por ele, Sabino nos reserva outros momentos hilários ao se deparar com as novidades da casa onde é acolhido, principalmente as do banheiro). Mais personagens nos foram apresentados, como o casal de biólogos que vive de forma simples e natural na Ilha Vermelha, Marino, Marcos Pasquim, e Monalisa, Alexandra Richter. Solange Couto personifica a fogosa dona da pensão “Coronela”, mãe de Waleska. Luiz Fernando Guimarães, como o riquíssimo Amadeu Baroni, revelará no decorrer do enredo a sua vilania (o conhecido humor do artista está presente). Rui Ricardo Diaz é o criminoso Barão, filho de Eliseu. Felipe Simas encarna o bonachão e despreocupado Elmo, melhor amigo de Samuca, e namorado de Waleska. João Baldasserini, Emílio, e Regiane Alves, Mariacarla, formam uma dupla de advogados que não prima necessariamente pela correção. Kiko Mascarenhas encarna o dedicado procurador e contador de Dom Sabino, Teófilo. Lucy Ramos dá vida à firme advogada Vanda, e Wagner Santisteban representa o sensacionalista repórter Pedro Parede. Completaram o elenco nesta primeira semana Cris Vianna (Cairu), Maicon Rodrigues (Cecílio), Olívia Araújo (Cesária), Aline Dias (Damásia), Rafaela Mandelli (Ellen), Claudio Mendes (Herberto), Bia Montez (Januza), Cyria Coentro (Marciana) e Talita Younan (Vera Lúcia).

O texto bem estruturado e criativo de Mario Teixeira garante qualidade à trama 

O texto de Mario Teixeira, com a colaboração de Bíbi da Pieve, Marcos Lazarini e Tarcísio Lara Puiati, e pesquisa de texto de Yara Eleodora, é ágil, dinâmico, com fio narrativo consistente e diálogos fluidos, além dos toques de humor elaborados. Sua estrutura dramatúrgica tem inegável material para prender o interesse do público pelos próximos meses. Ouvir o Português escorreito e rebuscado nas vozes de Edson Celulari e Juliana Paiva, com vasto vocabulário, mostrando a riqueza de nosso idioma, tão esquecida, foi maravilhoso.

Cenários e figurinos primorosos, bonita fotografia, efeitos visuais impressionantes e trilha sonora irresistível e diversificada enriquecem a história 

A cenografia de Keller Veiga, Alexis Pabliano e Gilson Santos se sobressai, entre outros aspectos, pelas minúcias e notável acabamento da casagrande de Dom Sabino, do moderno, jovem e arrojado apartamento de Samuca, e do Laboratório Criotec, no qual trabalha Dra. Petra. Os figurinos de Paula Carneiro correspondem com admirável fidelidade aos costumes usados no século XIX, sendo coerentes e de bom gosto nos tempos atuais. A direção de fotografia de Andre Horta é primorosa, apostando tanto nas cores fortes, quanto nas neutras e naturais. Os efeitos visuais de Bruno Netto são dignos de nota, com destaque, sem dúvidas, para o naufrágio. A trilha sonora da novela é impecável, com novidades e releituras (gerência musical de Marcel Klemm). Temos a lindíssima “Naked”, de James Arthur, a empolgante “Paradise”, de George Ezra, a doce e romântica “Baby Eu Queria”, de Marcella Fogaça e Nando Reis, a encantadora versão de Dan Torres para o clássico “Raindrops Keep Fallin’ On My Head”, a alto astral “No Excuses”, de Meghan Trainor, a bela releitura de Vanessa da Mata para “Impossível Acreditar Que Perdi Você”, o hit “Ice Ice Baby”, de Vanilla Ice, a deliciosa “You Sexy Thing”, de Hot Chocolate, a excelente interpretação de Ivete Sangalo para a icônica “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”, tema da abertura, e a rascante e intensa tradução de Elza Soares para a emblemática “O Tempo Não Para”.

Competentíssima direção, elenco de alto nível e abertura empolgante nos convidam a assistir à novela

A direção artística de Leonardo Nogueira e geral de Marcelo Travesso e Adriano Melo, além de Mauricio Guimarães e Felipe Louzada, exibiu incontestável inspiração e notória competência, seja nas cenas de ação, seja nas cotidianas, com bonitas tomadas aéreas. O excelente elenco, como disse, reunindo atores de gerações distintas, mostrou-se completamente entregue à irresistível história de Mario Teixeira. Um ponto fortíssimo da produção. A abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguelê, Christiano Calvet e Bruno Meira, com referências a Salvador Dalí e ao artista visual Marco Brambilla, uma mistura psicodélica com abundante uso dos recursos da computação gráfica, é profusa em cores e movimentos, pretendendo nos indicar o contraste de culturas de épocas diferentes e seus respectivos elementos, como estátuas antigas, ventiladores, harpas, escafandros, computadores, hot dogs e louças vitorianas. Até o hábito dos dias de hoje de se tirar selfies é retratado. Trata-se daquelas aberturas que não nos cansamos de ver. Ótima realização dos criadores.

A novela que deu frescor à faixa das 19h da Rede Globo 

“O Tempo Não Para” é uma novela com imensos atrativos, sendo um deles o de trazer uma saborosa história com elevado potencial criativo, oferecendo um frescor à faixa das sete horas da emissora. A obra de Mario Teixeira teve o mérito de fisgar o seu público com peças caras a um bom folhetim, como o par romântico principal, personagens empáticos, conflitos, vilões em maior ou menor grau, humor leve, associada a uma encantadora fantasia com reflexos numa visão crítica da realidade. O tempo será um fator positivo para a nova novela das 19h, que só tende a melhorar com a sua passagem. Todo o mundo ficará parado diante da TV na hora em que mais um capítulo de “O Tempo Não Para” for ao ar.

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Foto: Estevam Avellar/Gshow

Estreia a aguardada supersérie de George Moura e Sergio Goldenberg 

Ao se ter a notícia de que haveria uma supersérie escrita pela dupla de autores George Moura e Sergio Goldenberg, que escreveram tanto a minissérie “Amores Roubados” (que será regravada em espanhol com outros intérpretes) e o remake da novela “O Rebu”, tendo como o seu diretor artístico José Luiz Villamarim (diretor de ambas as produções citadas), o público assíduo destes dois gêneros teledramatúrgicos imediatamente cria auspiciosas expectativas. Ademais, este trio competentíssimo de profissionais costuma reunir em seu elenco atores do mais alto calibre com quem já trabalhou, além de apostar em nomes já estabelecidos no mercado, mas com os quais não teve ainda uma parceria. Na noite de ontem, finalmente estreou na Rede Globo “Onde Nascem Os Fortes”, protagonizada por um time de artistas de distintas gerações, todos com reconhecimento pelos seus talento e trajetória, como Patricia Pillar, Alexandre Nero, Fabio Assunção, Debora Bloch, Marco Pigossi, Gabriel Leone, Alice Wegmann, Jesuíta Barbosa e Maeve Jinkings. A história, com ares de western contemporâneo, é passada na cidade fictícia de Sertão (as impressionantes locações, que mostram o semiárido brasileiro, situam-se nos estados do Piauí, no Parque Nacional Serra da Capivara, e Paraíba – na cidade de Cabaceiras, no Cariri paraibano), no interior nordestino.

Uma história com amores intensos e ódios acirrados

O primeiro capítulo, logo em sua cena inicial, já nos revela o jeito particular de Villamarim dirigir. Com uma câmera acoplada a uma bicicleta de trilhas, fazemos o mesmo percurso inóspito realizado pela jovem destemida Maria (Alice Wegmann com os cabelos curtos e desconstruídos), nos confins desérticos de Sertão. Enquanto isso, outro jovem, tão aventureiro quanto, o paleontólogo Hermano (Gabriel Leone com um visual bem oposto ao mostrado em “Os Dias Eram Assim”), acompanhado da motorista de seu pai, Gil (Clarissa Pinheiro), numa caminhonete, regozija-se de suas recentes descobertas científicas locais. Após ter a sua bicicleta quebrada, Maria é abordada por rapazes mal-intencionados, sendo salva por Hermano. A partir deste casual encontro começará um romance com tintas shakespearianas, com bastantes conflitos entre as famílias do casal, impedindo a consumação de seu amor. Hermano é filho de Pedro Gouveia, um empresário poderoso e temido, dono de uma fábrica de bentonita, vivido por Alexandre Nero, e Rosinete, Debora Bloch, uma sofrida e abnegada mulher que se dedica a cuidar de sua filha enferma, Aurora, Lara Tremouroux. Maria é irmã gêmea do irresponsável e mulherengo Nonato, Marco Pigossi. O paleontólogo dá uma carona à bonita moça de Recife até o famoso Bar do Chico. Lá chegando, vê que seu irmão está envolvido em um jogo perigoso com armas e bebidas, e o repreende. Fica-nos clara a relação forte e simbiótica que há entre os irmãos, tão unidos quanto distantes no comportamento. Hermano e Maria combinam de se encontrar no show de Shakira do Sertão (Jesuíta Barbosa) na boate Bodão. A mãe dos gêmeos, Cássia (Patricia Pillar), uma empenhada engenheira química, não consegue qualquer contato com os seus filhos. Cássia esconde um segredo de seu passado que envolve a sua passagem por Sertão. Voltando à personagem de Debora Bloch. Rosinete, traída pelo seu marido com Joana (Maeve Jinkings), funcionária da empresa, como já dito, devota a sua vida à filha (há uma cena com grande sensibilidade e beleza em que Rosinete banha cada parte do corpo de Aurora com delicadeza). Católica fervorosa, a mãe zelosa, descrente dos médicos, agarrada ao seu terço, exercita-se correndo na escuridão da noite do deserto, sob a luz só de uma lanterna e o som companheiro de seu fone (a direção captou inspiradas e belas imagens noturnas de Debora correndo, com angulações de câmera inventivas). Enquanto corre, faz as suas preces. Apesar de não ser tão presente, Pedro demonstra carinho pelos filhos. Na boate Bodão, em uma das melhores cenas do capítulo, Shakira do Sertão se apresenta cantando o clássico de Rosana, “O Amor e o Poder” (incrivelmente produzido, exalando sensualidade e sedução, Jesuíta nos conquista com a sua performance estudada; seu personagem, na verdade Ramirinho, filho do juiz Ramiro, Fabio Assunção, que desconhece a sua vida dupla, promete ótimos momentos). A dança luxuriosa de Shakira encanta os irmãos. Contudo, Nonato decide ir para outras paragens, enquanto Maria espera por Hermano. Não muito longe, pessoas do local se reúnem, bebem, e se exibem com suas motos barulhentas. Pedro Gouveia, fugindo da solidão de casa, chega ao lugar, sendo bajulado por todos. Neste instante, Nonato já havia conhecido Joana em um bar. Pedro se aproxima, e espanta o rapaz galanteador. Embriagado, o filho de Cássia deixa um recado para a sua irmã no celular, sem sucesso. Desnorteado, retorna ao bar, e provoca o empresário, sendo enxotado pelos seus capangas. Nesse mesmo tempo, Maria e Hermano visitam as deslumbrantes cavernas com pinturas rupestres de Sertão (as gravações foram feitas no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, com suas pinturas reais). Após Hermano lhe ensinar sobre a história das pinturas, em meio ao cenário fascinante de pedras, os jovens trocam carícias e beijos. Em um descampado, com ventos de poeira iluminados pelos faróis do carro parado, Nonato é brutalmente espancado pelos capangas de Gouveia. Em outro lugar sinistro, Gouveia ameaça o rapaz ensanguentado, mas decide lhe dar uma chance. O moço “louco”, quase desfalecido, enfrenta seu oponente, que, furioso, encosta a arma em seu rosto, ameaçando atirar. Não sabemos o que de fato ocorreu com Nonato, o mote da sinopse da supersérie. Em seguida, surge a figura imponente do juiz Ramiro treinando caça, ao lado de seu guarda-costas Damião, Pedro Wagner. O tiro de seu rifle faz a ponte com a cena de Nonato que ficou em aberto. O capítulo de estreia de “Onde Nascem Os Fortes”, que tem a colaboração de Flavio Araújo, Mariana Mesquita e Claudia Jouvin, termina com Damião colocando em Ramiro o seu impecável terno branco, que ao final diz: – Todos os dias são do caçador”.

Texto bem estruturado e envolvente e direção habilidosa e inventiva 

O texto de George Moura e Sergio Goldenberg é bem estruturado, envolvente, com bons personagens construídos, em que se veem elementos com capacidade para segurar o interesse dos telespectadores pelos seus próximos episódios. Em seu entrecho, há fartas doses de amor (seja ele romântico ou familiar), ódio, sede de justiça, espalhadas sobre um terreno árido e sem lei (ou com leis próprias), no qual se impõem o coronelismo e toda a sua implacabilidade, algo recorrente até nos dias atuais. A direção de José Luiz Villamarim, neste primeiro capítulo, ostentou a sua qualidade genuína com influências nitidamente cinematográficas. José Luiz valoriza os movimentos, a ação, os closes, as panorâmicas, as distâncias e os olhares inusitados vistos pela lente de sua câmera (a supersérie tem ainda como diretores Walter Carvalho e Isabella Teixeira, com direção geral de Luisa Lima).

Um elenco primoroso formado por atores de gerações distintas

O elenco é um dos pontos altos da atração, transmitindo com enorme credibilidade as nuances do perfil de seus personagens. Patricia Pillar, como Cássia, segura e cativante, esbanjou o apego que sente pelos filhos, enquanto Debora Bloch nos convenceu com o seu brilho nato como a mãe infeliz e incrédula com a doença de sua filha e o casamento falido. Alexandre Nero compôs com notável precisão os traços que definem Pedro Gouveia, seja ao nos passar a sua aura de poder, mando e desmando, seja ao revelar o seu lado amoroso como pai. Fabio Assunção, em uma única cena, prometeu-nos uma sublime interpretação, num papel totalmente diferente daqueles que já fez em sua prodigiosa carreira. Marco Pigossi, em participação especial, construiu Nonato com acertadas camadas de rebeldia, carência, insolência e irracionalidade. Gabriel Leone e Alice Wegmann, excelentes escalações, possuem potente química como casal, provando-nos o porquê de serem considerados uns dos melhores atores jovens surgidos em sua geração, assim como Jesuíta Barbosa, um intérprete de cinema que se supera a cada trabalho em televisão (Jesuíta tem um carisma, uma docilidade pessoal que o distingue sobremaneira). Maeve Jinkings, respeitável atriz, uniu com equilíbrio a sensualidade e o carinho de Joana com relação ao seu amante, sem abrir mão da firmeza de seu papel nas sequências de tensão. Lara Tremouroux imprimiu com emoção à sua personagem Aurora as cargas exigíveis de fragilidade, vulnerabilidade e ternura. Clarissa Pinheiro, como Gil, em suas rápidas aparições, indica-nos uma boa participação.

A direção de fotografia de Walter Carvalho, a produção musical irresistível e a abertura com Zeca Veloso 

A irretocável, como de costume, direção de fotografia de Walter Carvalho aposta na luminosidade pujante, clara e ensolarada do universo desértico do sertão do Nordeste, na crueza realista sem tons fortes das cenas cotidianas, nas cores das luzes que alumiam a festiva noite da cidade, e na exploração de contrastes noturnos nos locais abertos e vazios (como na cena de Rosinete correndo). A fotografia usada nas cenas do casal de jovens no interior da caverna também merecem destaque. A produção musical de Eduardo Queiroz se sobressaiu pela coerência e adequação das músicas selecionadas, como a belíssima “Vapor Barato”, na voz de Gal Costa. A música original de Marcell Klemm também cumpriu com congruência sua missão de emoldurar melodicamente os quadros cênicos. A abertura de Alexandre Romano, Flavio Mac e Christiano Calvet, composta por recortes de imagens de cenas da supersérie em variados matizes, é embalada pela voz aguda e afinadíssima de Zeca Veloso, com Caetano Veloso, Moreno Veloso e Tom Veloso, na encantadora “Todo Homem” (há um refrão que se encaixa na busca infatigável de Cássia pelo filho desaparecido: “Todo homem precisa de uma mãe”).

Por que “Onde Nascem Os Fortes” merece ser vista

“Onde Nascem Os Fortes” corrobora o investimento da emissora em produzir com cada vez mais qualidade, excelência e apuro estético as superséries, valorizadas por dramaturgias elaboradas, elenco exponencialmente capacitado e diversificado, e direção não raro primorosa. Não à toa muitos intérpretes demonstram a sua vontade de atuar nessas obras. Não faltam motivos para se acompanhar esta história com personagens tão ricos e ao mesmo tempo brasileiros, em terras não menos brasileiras. Os sentimentos e conflitos são universais, mas o olhar do espectador de nosso país se identificará com uma de suas raízes nas plagas do interior esquecido do Nordeste, com todas as suas contradições, disputas de poder, e ausência de leis, com a exceção da “Lei do Mais Forte”. Nos torrões onde nasceram os fortes Pedro Gouveia e Ramiro, nos quais “Todos os dias são do caçador”, “caças” como os “Nonatos da vida” poderão ganhar a sua voz na força de mulheres como Cássia e Maria. E tudo poderá se transformar em “Onde Nascem As Mulheres Fortes”.

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Foto: TV Globo

Um dos capítulos mais marcantes de “O Outro Lado do Paraíso” 

As cenas de ontem à noite de “O Outro Lado do Paraíso”, novela das 21h da Rede Globo escrita por Walcyr Carrasco, que envolveram o julgamento do delegado Vinícius (Flávio Tolezani), acusado de ter molestado diversas vezes a sua enteada Laura (Bella Piero) quando esta tinha apenas oito anos de idade definitivamente abalaram os telespectadores brasileiros por seu alto grau de impacto, emoção, choque e verossimilhança. Há muito tempo não se via em nossa teledramaturgia uma sequência dramática desta magnitude nas dependências de um tribunal, com a participação de tantos personagens importantes para o desenvolvimento de sua história, com um texto de extrema relevância para a sociedade (o crime de pedofilia), dirigida de forma absolutamente irretocável e magistral por Mauro Mendonça Filho (diretor artístico) e André Felipe Binder (diretor geral). Não só a maneira corajosa e cautelosa com a qual o seu autor tratou o tema desde o início de sua trama contribuiu para o sucesso e o interesse por este núcleo específico, mas as atuações arrebatadoras, comoventes, coerentes e sensíveis de seus atores foram essenciais para o ápice de seu enredo no capítulo passado.

O caminho percorrido até o julgamento de Vinícius 

Fazendo parte do mirabolante plano de vingança de Clara (Bianca Bin), auxiliada pelos seus pretendentes Patrick (Thiago Fragoso) e Renato (Rafael Cardoso), o desmascaramento do delegado corrupto e cínico vivido por Flávio Tolezani, que já trabalhou com Walcyr Carrasco em “Verdades Secretas” e “Êta Mundo Bom!”, deu-se de modo paulatino, com vieses investigativos regados a doses fartas de suspense. A vítima dos abusos, a doce Laura (Bella Piero), sempre foi associada a uma jovem com comportamento estranho e antissocial. Sua relação com o padrasto era invariavelmente tensa, e sua mãe, a fútil e zelosa esposa Lorena (Sandra Corveloni), não lhe dava a atenção merecida. Laura não se relacionava com rapazes, até que conheceu o médico Rafael, interpretado por Igor Angelkorte. O carinho e as sinceras intenções demonstradas por ele logo conquistaram a arredia moça. À medida que o namoro assumido avançava, com a contrariedade patente de Vinícius e a anuência da mãe, as complicações de relacionamento do casal apareciam. Laura tinha evidentes dificuldades de ser tocada, acariciada. A afetuosidade lhe parecia algo repulsivo. E o sexo lhe soava agressivo e aterrorizante. Este comportamento pouco comum da filha de Lorena deixou seu namorado confuso e desorientado. Ao contar para o seu colega Renato o que estava se passando, Rafael acabou dando as ferramentas que faltavam para Clara iniciar a sua vingança contra o delegado. Com o casamento dos jovens, o problema de Laura se acentuou, e as desconfianças sobre o seu passado com o padrasto recrudesceram. Em sua lua de mel, um bicho de brinquedo em forma de tartaruga lhe foi clandestinamente entregue (na verdade, pelo delegado), causando-lhe um surto emocional. Com a ajuda da advogada Adriana (Julia Dalavia), que domina as técnicas de “coach”, na qual se inclui a hipnose, a namorada de Rafael faz uma regressão, e se lembra de todos os abusos sexuais sofridos em uma antiga casa onde moravam. Somente com a empregada Sebastiana (Ilva Niño) na residência, a pequena Laura brincava no quintal, próxima a um tanque de tartarugas. Aproveitando-se que sua mulher trabalhava fora, Vinícius molestava a indefesa menina repetidas vezes, deixando-a quase sempre machucada, com manchas aparentes pelo corpo. Clara, Patrick e Renato, com o auxílio do delegado Bruno (Caio Paduan), empenharam-se na busca de provas materiais e testemunhais que pudessem levar à condenação do suspeito. Alzira (Bela Carrijo), mãe de mais uma vítima, esta com doze anos, foi encontrada. O laptop do delegado foi apreendido, mas nada parecia suficiente para incriminá-lo (havia em seus arquivos uma galeria de fotos de moças, mas sem conotação sexual). O julgamento ocorreu em mais de uma sessão, o que rendeu a Patrick, assistente de acusação (o papel de promotor coube a Charles Fricks), a possibilidade de achar Sebastiana, muito doente, em um asilo. Os depoimentos a favor de Laura até então foram infrutíferos, combatidos com veemência pelo advogado de defesa personificado por Ernani Moraes. Durante todo o embate jurídico, sob os olhares atônitos da audiência, Vinícius se manteve impassível, certo de sua absolvição. Até que a empregada idosa depõe, causando espanto e assombro com suas revelações escabrosas sobre as violências sofridas pela menina. O seu silêncio, motivado por medo e necessidade de sobrevivência, fora perdoado pela vítima. Nesse tempo, as reações de Lorena provavam a sua impotência e desespero diante da verdade dos fatos que se desvelava. Arrolada como testemunha de defesa de seu marido, Lorena, em depoimento comovente, sofrido e tocante, assume que nunca enxergara o que realmente estava diante de seus olhos, afirmando que o inimigo pode estar bem ao seu lado (nesta hora, numa cena bastante indicativa, Clara olha de soslaio para Renato, que está ao seu lado). O jogo vira contra Vinícius. O delegado, acuado, não deixando o seu peculiar cinismo, confessa os seus abjetos crimes. Ridiculariza a sua esposa. Diz que se casou tão somente para ter próximo de si quem de fato desejava, a sua filha Laura, uma criança. Vinícius debocha das leis e da integridade humana, nesse caso, de uma menina. Com os assistentes aturdidos com os desdobramentos surpreendentes e chocantes do caso, o juiz Gustavo (Luis Melo) sentencia o réu à condenação. Vinícius caminha indiferente no tribunal com um sorriso de escárnio no rosto, ouvindo gritos de indignação dos presentes.

O texto afiado, a direção impecável e as atuações arrebatadoras 

Este foi, sem dúvida, um dos melhores capítulos de toda a novela de Walcyr Carrasco. Com boa orientação jurídica, Walcyr conduziu esta precípua passagem do folhetim com inegáveis propriedade e excelência. A direção sensível e inteligente de Mauro Mendonça Filho e equipe não deixou escapar uma reação sequer dos personagens. Cada olhar, cada gesto, cada movimentação em cena, cada fala mereceu o seu destaque. Os atores foram brilhantes em suas atuações, com suas emoções e sensibilidades à flor da pele. Se para nós telespectadores assistir ao desfecho desta história foi difícil e penoso, o mesmo deve ter ocorrido com o elenco. Flávio Tolezani impressionou com sua postura fria e gélida. Seu olhar parado, fixo, insensível, típico dos criminosos, chocou . O seu descarado cinismo perante os seus pares nos provocou incômodo. Flávio Tolezani é um excelente ator, e esta foi uma das melhores, senão a melhor, interpretação de toda a sua bem-sucedida carreira. Sandra Corveloni, também ótima atriz, passou-nos com pungência a grandeza da dor da traição e da humilhação sofridas. Seu pranto, seus olhos perdidos, e sua fraqueza como mulher e como pessoa diante do peso da verdade cruel nos comoveram profundamente. Bella Piero, tão jovem, teve que enfrentar em seus primeiros anos de profissão um desafio assustador, e se revelou uma intérprete com enorme maturidade, defendendo com dignidade, verdade e emoção, do começo ao fim, o percurso doloroso de Laura, sem perder a ternura que a caracteriza. Igor Angelkorte, um artista possuidor de trabalhos elogiados no teatro, e que vem construindo uma bela carreira na televisão, provou-nos a sua enorme capacidade emotiva e sua fonte legítima de sensibilidade ao dar vida ao médico que acompanha o sofrimento de sua namorada desde o início, não a abandonando em nenhum momento. Igor sai fortalecido profissionamente desta novela. Thiago Fragoso dominou completamente o seu personagem Patrick, ostentando toda a firmeza, segurança, determinação e empenho que se espera de um habilidoso advogado. Thiago Fragoso defendeu com altivez e brio o seu assistente de acusação. Luis Melo, um intérprete com inúmeras e incontestes qualidades, impôs-se como o austero juiz Gustavo. Luis se vale de olhares discretos e eloquentes para nos dizer o que pretende. Somente atores de sua relevância e talento o conseguem. Ernani Moraes, com sua destreza interpretativa, criou um advogado de defesa perspicaz, agressivo e manipulador. E, por último, a presença de uma notável atriz, Ilva Niño, querida e talentosíssima, que já nos sensibilizou em novelas como “Água Viva” e nos divertiu em “Roque Santeiro”. Que escalação perfeita trazer de volta à tela esta artista que merece toda a nossa reverência. Sua atuação como Sebastiana foi contundente e inesquecível.

A mensagem do autor, e a lição que fica 

Enfim, um capítulo que vai ficar em nossas memórias, em todos os sentidos. Nunca se falou tão abertamente e com enorme mérito sobre pedofilia na ficção, em pleno horário nobre, e na TV aberta. Walcyr Carrasco e toda a sua equipe de colaboradores, diretores e elenco merecem os nossos parabéns. Um passo importante contra este crime foi dado. Usou-se um meio de comunicação poderoso como a televisão como forma de esclarecimento, informação e denúncia. Um relevante serviço social. A pedofilia não vai acabar, mas haverá muito mais pessoas conscientes, prontas e dispostas a denunciá-la. Em 20 de fevereiro de 2018 vimos em “O Outro Lado do Paraíso” a confirmação do trecho da música de abertura da novela “Boomerang Blues”, de Renato Russo: “Tudo o que você faz Um dia volta pra você E se você fizer o mal Com o mal mais tarde você vai ter de viver…”. Alguns ainda saberão disso. Na novela… e na vida.

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Foto: Sergio Zalis/Rede Globo

Ontem à noite, o público cativo das 19h certamente se embeveceu e se inebriou com o primeiro capítulo de “Deus Salve o Rei”, a nova novela do horário na Rede Globo, marcando a estreia de Daniel Adjafre como autor titular na emissora. Jamais vimos na teledramaturgia brasileira, com o auxílio bem-vindo das tecnologias da computação gráfica, cenas tão grandiloquentes e exuberantes, somente vistas nas telas de cinema, servindo a uma trama medieval com todos os requintes que ela merece, com disputas entre reinos, casamentos prometidos, lutas entre príncipe e salteadores, belas princesa e plebeia, e reis em conflito. Tanta grandiosidade visual, associada naturalmente à Sétima Arte, fez com que este primeiro capítulo fosse exibido em seis capitais do país. Com direção artística de Fabrício Mamberti, a história começa com expressivas imagens congeladas de soldados em brutais e sangrentas batalhas campais (algo como a técnica “tableau vivant”, conferida no filme de Martti Helde, “Na Ventania”). Somos apresentados aos primórdios do enredo pela voz de Rosamaria Murtinho, a Rainha Crisélia, do Reino de Montemor. Segundo ela, durante 300 anos, o Reino sempre primou pela proteção de suas fronteiras, vivendo de suas conquistas, tendo fartura e bonança graças à extração de minério de ferro, à lavoura e ao gado. No entanto, não houve a preocupação com bem tão precioso: a água. O rio que o abastecia secou. A saída fora entrar em acordo com o reino mais próximo, Artena. Em troca da água, o minério de ferro. Objetivando a sua independência, é construído em Montemor o grande aqueduto, que demandou anos, e hordas de operários. Chega o dia em que a Rainha Crisélia, ao lado de seu neto, o Príncipe Afonso (Romulo Estrela), entrega aos seus súditos a água esperada, em uma portentosa cerimônia. Para decepção geral, seu jorro minguou. O lago que servia como fonte do aqueduto também secou, anunciou um soldado. Conhecemos o outro herdeiro do trono de Montemor: o atoleimado e mulherengo Príncipe Rodolfo, personificado por Johnny Massaro. Rodolfo é notificado por sua avó sobre o fracasso de sua obra. Numa reunião familiar na Sala do Trono, fica decidido pela Rainha que a paz existente entre os Reinos de Montemor e Artena, que já dura 50 anos, será mantida, e com isso, o seu acordo. Afonso se prontifica a realizar uma expedição às colinas em busca de uma nova fonte de água. Viajamos para o Reino de Artena, e nos deparamos com a linda e doce Amália (Marina Ruy Barbosa), dona de uma barraca de caldos. Independente, Amália resiste às pressões de seu futuro marido, o comerciante de tecidos Virgílio (Ricardo Pereira), para abandonar o trabalho, e se dedicar exclusivamente a ele. Nas dependências externas do castelo do Rei Augusto (Marco Nanini), ouvimos a composição poética, ao som das cordas de um alaúde, de Istvan, o Marquês de Córdona (Vinícius Calderoni), apaixonado pela bela e soberba Princesa Catarina (Bruna Marquezine), que nos deixa clara a sua rejeição pelo inocente rapaz. Catarina é avisada por Lucíola (Carolina Ferman), sua camareira e confidente, de que o seu pai, Augusto, quer falar com ela. Em sua sala, o Rei Augusto diz a sua filha o quanto preza o seu pretendente, até que são interrompidos pelo conselheiro Demétrio (Tarcisio Filho). Leal ao Rei, informa-lhe sobre o destino malsucedido do aqueduto. Neste momento, testemunhamos a ganância e a falta de ética de Catarina, ao propor ao pai que aproveitem a situação de fragilidade do Reino de Montemor para alterarem o acordo em favor de Artena, sendo imediatamente repreendida pelo justo e honrado Augusto. A cena termina com o Rei comentando: “ É como diz o ditado, Demétrio. Se quiser fazer Deus rir, faça planos. E eu acrescentaria. E se quiser fazê-lo gargalhar, faça planos para seus filhos”. Enquanto isso, em Montemor, após o afetado e fútil Príncipe Rodolfo determinar aos seus criados o que desejaria para a sua festa, uma importante conversa entre os irmãos reais ocorre, na presença do médico Lupércio (Pascoal da Conceição), que cuida de sua avó. Lupércio lhes afirma que os lapsos de memória da Rainha Crisélia estão evoluindo, e que se trata de uma doença desconhecida, sem tratamento (o que no futuro, viria a ser conhecido como o Mal de Alzheimer). Rodolfo revela a sua face mais feia, ao demonstrar friamente o seu desinteresse pela saúde da Rainha. Num colóquio particular, ciente de seu estado clínico, Crisélia comunica a Afonso que o seu desejo é que, quando volte da expedição, assuma o trono. Amália chega à sua casa, e como de costume, seus pais Martinho (Giulio Lopes) e Constância (Debora Olivieri) estão discutindo (o casamento deles foi arranjado). Amália tem um irmão, Tiago (Vinícius Redd). Ambos discorrem sobre o amor e o casamento. Neste instante, a moça deixa transparecer a sua porção romântica e idealista. Em seus aposentos, o Rei Augusto confessa a Demétrio que está na hora de sua filha se casar, e que o Marquês de Córdona seria o seu marido ideal, por ser um homem virtuoso. Assim, Catarina poderia se tornar uma pessoa melhor, mais indulgente, segundo o próprio rei. O Príncipe Afonso se despede de sua avó, e inicia, acompanhado de Cássio (Caio Blat), o Comandante do Exército de Montemor, a expedição em busca de água para o reino. Quinze dias depois, Afonso, um pouco desiludido, diz a Cássio que se não encontrarem água no vale próximo, dará por encerrada a expedição. Constantino, o Duque de Vicenza (José Fidalgo) lhes conta que encontrou restos de comida não muito longe, o que indica a presença de ladrões. Durante a cavalgada, são surpreendidos pelo bando de salteadores. Decorre uma violenta batalha entre os dois lados, com direito a lutas bem coreografadas, e difíceis de serem executadas, vale dizer. Numa sucessão de cenas de violência estetizada, em que corpos são perfurados de forma inclemente por lanças e flechas, sobram mortos e feridos. O Príncipe se afasta de seus aliados, e acaba sendo gravemente ferido por uma flecha. Em Artena, Augusto comunica a Catarina que o Marquês pediu o seu consentimento para se casar com ela, recebendo a sua aprovação, para desgosto da princesa. Amália sai pelo campo com o seu irmão para colher laranjas, rabanetes e manjericão. Tiago vai para um lado, e sua irmã para o outro. De repente, Amália cai com o seu cesto. Próximo dela, o Príncipe desfalecido e pálido. Os olhos da Princesa o miram com paixão. Ele, mesmo desacordado, aperta com força a sua mão, não a largando mais. Em uma bonita cena final, a câmera voa alto sobre o casal, fechando com uma estonteante paisagem de montanhas ao fundo. O texto escrito por Daniel Adjafre e Cláudia Gomes, com a colaboração de Angélica Lopes, Péricles Barros e Sérgio Marques é um primor. Não é fácil engendrar uma trama passada na Idade Média, em locais fictícios, criar personagens condizentes com aquela época, e que sejam ao mesmo tempo críveis, causando empatia nos telespectadores, construir elos entre os núcleos, tornando a fantasia próxima de nós. Tudo isso foi logrado pela equipe de autores, que se esmeraram na construção dos diálogos, inteligentes, sendo alguns muito bem-humorados, e outros emocionantes. Há espaço tanto para o romance, quanto para o drama e a comédia. A direção artística de Fabrício Mamberti e geral de Luciano Sabino, tendo como colaboradores os diretores João Boltshauser, Oscar Francisco, Pedro Brenelli e Bernardo Sá merece quantos elogios forem possíveis. Imaginamos a dificuldade em conduzir e comandar certas cenas, principalmente as de batalhas, e aquelas que necessitam de um considerável número de figurantes e elenco de apoio. Não menos complexas são as cenas entre dois ou três atores, como as com Marco Nanini, Bruna Marquezine e Tarcisio Filho, ou entre Rosamaria Murtinho e Romulo Estrela, que demandaram um intimismo maior, uma delicadeza em seu tempo. O elenco é um acerto indiscutível. A escalação optou por nomes jovens, alguns bastante queridos e admirados pelo público, apostou corajosamente em Romulo Estrela para ser o protagonista masculino, convocou atores experientes, e grandes representantes da arte nacional, como Marco Nanini e Rosamaria Murtinho. Bruna Marquezine, no alto de sua esbelteza, destila a empáfia de Catarina. Marina Ruy Barbosa abusa, para o nosso agrado, de sua formosura para compor Amália. Johnny Massaro, antes de tudo, possui uma veia cômica como poucos de sua idade, mas sabe, da mesma maneira, imprimir a dramaticidade perfeita ao seu personagem, como o fez com Rodolfo. Romulo Estrela tem todos os méritos para se tornar uma das opções de sua geração para protagonizar histórias com as quais o seu perfil se encaixe. O bonito ator, que já brilhou em outras produções da emissora, como “Liberdade, Liberdade”, e mais recentemente na minissérie “Entre Irmãs”, preferiu o caminho da sobriedade e do comedimento, convencendo indubitavelmente na postura e na voz de seu Príncipe Afonso. Caio Blat, Ricardo Pereira, Tarcisio Filho, Pascoal da Conceição, Debora Olivieri, Giulio Lopes, Vinícius Redd e Carolina Ferman defenderam com garbo as exigências dramáticas de seus papéis, enriquecendo cada cena de que participaram. José Fidalgo e Vinicius Calderoni, em suas aparições, já provaram que são garantias de bons momentos no folhetim. Marco Nanini, um de nossos maiores intérpretes, colecionador de personagens inesquecíveis em telenovelas, como “Gabriela” e “Brega e Chique”, além, é claro, do seriado “A Grande Família”, sem trocadilhos, é uma presença nobre em cena, com todo o seu conhecimento interpretativo e inteligência emocional, valorizando cada palavra, cada frase emitida pelo seu Rei Augusto, que já nos conquistou. Marco emprestou ao seu papel a severidade esperada de um soberano, mas também uma sensibilidade irresistível. Rosamaria Murtinho, outra insigne atriz de nossas Artes, faz parte da História de nossa TV, com carreira prodigiosa, assim como Marco Nanini, no cenário teatral, e o convite que lhe foi feito para dar vida à honrada Rainha Crisélia não poderia ter sido mais oportuno. Rosamaria nos transmite uma beleza de interpretação que transcende as telas, não nos poupando de sua vasta emoção ao desenhar os traços delicados e necessariamente austeros de sua Rainha. A cenografia de Keller Veiga e Pedro Equi é deslumbrante em sua amplidão, no que corresponde aos espaços palacianos, e charmosa e coerente no que se refere aos ambientes mais simples, como a casa de Amália. A cidade cenográfica, com suas fachadas e logradouros, impressiona. A cenografia virtual, que nos provoca alumbramento, coube a Marcio Fontes e Glaucio Lazaro. Nininha Médicis ficou encarregada da produção de arte impecável. Cada detalhe, como taças de metal, os elementos que ornamentam a feira de Artena, os aspectos domésticos da morada plebeia, os pontos caracterizadores do banheiro de Catarina nos causam assombro pelo seu capricho e pesquisa. Mariana Sued se incumbiu da confecção dos figurinos riquíssimos. A riqueza dos costumes não se restringe ao sentido literal do termo, com todos os enfeites, ornamentos e filigranas estilísticas das vestes nobres, mas na elegância simplória das vestimentas dos plebeus, e na eloquência estética dos uniformes dos soldados reais (a equipe de figurinistas assistentes e apoio ao figurino é enorme). A direção de fotografia ficou sob a batuta de Alexandre Fructuoso. Alexandre explorou bastantes possibilidades de texturas, filtros e luminosidades. Seu trabalho é irretorquivelmente magistral. Alexandre impingiu um colorido vívido às cenas de multidão, como na inauguração do aqueduto. Escolheu as sombras e meias-luzes nas dependências do palácio, como na conversa definitiva entre o Rei Augusto e a Princesa Catarina, e tonalidades azuladas nas noites do Reino de Artena. Os efeitos especiais de Federico Farfan, e os efeitos visuais de Marcelo Nicacio e Rafael Ambrosio, em associação com a avançada tecnologia da computação gráfica, podem ser definidos, sem hesitação, como excelentes, servindo para o ótimo acabamento estético da produção. A lindíssima abertura foi imaginada por Alexandre Romano, Flavio Mac, Fabricio Duque e Felipe Lobo. Este criativo e inspirado quarteto se utilizou de tons amarelos/dourados fortes (há uma evolução para outras cores, algumas mais escuras), e uma câmera em movimentos contínuos e circundantes que testemunha fatos que aludem ao enredo, com as pessoas simbolizadas por bonecos meticulosamente artesanais (parecem feitos de cobre). Há um séquito de cidadãos plebeus carregando baldes de água em direção a um castelo no alto de uma colina, um casal apaixonado, uma moça fugitiva, rosas e seus galhos retorcidos, chuvas de flechas em uma batalha, uma ave com olhos faiscantes, uma princesa sendo coroada, terminando com um soldado de costas para uma mulher. Uma pequena obra-prima com a voz divina da jovem norueguesa de 21 anos Aurora interpretando a canção folclórica “Scarborough Fair”. As magníficas músicas originais receberam a assinatura de Alexandre de Faria e Rodrigo Marsillac, com gerência musical de Marcel Klemm. As músicas, de caráter essencialmente épico, foram gravadas na República Tcheca pela Orquestra Filarmônica de Praga, no Smecky Music Studio, durante quatro dias (a orquestra está acostumada a fazer trilhas para filmes relevantes, como a trilogia de “O Poderoso Chefão”). O resultado ficou esplêndido. “Deus Salve o Rei”, definitivamente, levando-se em conta o seu inesquecível primeiro capítulo, já entrou para a história da TV brasileira. Muitos são os motivos para prender o telespectador, e fazê-lo acompanhar esta encantadora e mágica história. Por algumas dezenas de minutos, de segunda a sábado, iremos nos sentir como nobres ou plebeus, em Montemor ou Artena, isso não importa. O importante é embarcar nesta fascinante obra teledramatúrgica, cheia de sonhos e fantasia. Se Deus salvou o Rei, também salvou a luz criativa, a ousadia e o talento de toda a equipe da nova novela das 19h, “Deus Salve o Rei”.

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Foto: Ramón Vasconcelos/Gshow

Desde a década de 70 nos acostumamos a assistir pela TV aos clássicos do cinema-catástrofe norte americano, como “O Destino do Poseidon”, de Ronald Neame (1972) e “Inferno na Torre”, de John Guilhermin (1974). Houve um interregno deste gênero, até que nos anos 90 se percebeu o surgimento de muitos longas que tinham os seus roteiros baseados em catástrofes, fossem elas naturais, como “Twister”, de Jan de Bont (1996), ou não, como “Independence Day”, de Roland Emmerich (1996) e “Titanic”, de James Cameron (1997). Com a proximidade dos anos 2000, e suas teorias sobre o fim do mundo, a indústria do cinema lançou obras pessimistas e sobrenaturais, como “Fim dos Dias”, de Peter Hyam (1999). Até hoje são distribuídos no circuito filmes de temática catastrófica, ainda mais com os avanços da computação gráfica. No Brasil, em se tratando de televisão, raros são os casos em que eventos com a magnitude de uma catástrofe foram retratados. Um dos melhores exemplos talvez seja a novela de Silvio de Abreu, “Torre de Babel” (1998), na qual a personagem de Adriana Esteves, Sandrinha, causou a explosão de um shopping. No entanto, não podemos deixar de destacar outras duas novelas exibidas no momento, “O Fim do Mundo”, de Dias Gomes (1996), reprisada no Canal Viva, e “Apocalipse”, de Vivian de Oliveira, na RecordTV. Uma das apostas da Rede Globo para este início de ano é a minissérie de Elena Soarez e Luciano Moura (com a colaboração de Sofia Maldonado), “Treze Dias Longe do Sol”, com a direção artística do próprio Luciano Moura. A minissérie, em resumo, discorre sobre os treze dias em que o engenheiro Saulo (Selton Mello), a médica Marion, filha do dono do prédio que abrigaria uma clínica, Dr. Rupp (Lima Duarte), interpretada por Carolina Dieckmann, Yasmin (Camila Márdila), a filha grávida de um dos operários, Jesuíno (Antonio Fábio), e mais alguns operários tentam sobreviver, após seu desabamento, nos escombros do edifício construído com materiais e quantidades adulterados pelo engenheiro e pela diretora financeira Gilda (Debora Bloch) da Baretti Construtora, de propriedade do inescrupuloso e corrupto Vitor Baretti (Paulo Vilhena), com o intuito de desviar recursos para a compra de parte da empresa. Impossível para nós, telespectadores, não nos lembrarmos de casos reais, como o desabamento de dezenas de apartamentos do edifício Palace II, ocorrido criminosamente em pleno domingo de Carnaval de 1998, matando 8 pessoas, e deixando 176 famílias desabrigadas, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Na cena inicial do episódio “Falha Estrutural”, vemos Saulo defronte ao mar com pensamentos suicidas. Partimos para o prédio em construção, localizado em São Paulo, com sua visão externa. Em seu interior, o engenheiro fita, angustiado, uma enorme rachadura que teima em aparecer em um dos pavimentos. Conversa rapidamente com Gilda ao telefone sobre problemas de pagamento a fornecedores. Fica-nos claro que há uma conta com fundos ilegais que não pode ser mexida. Sob uma chuva torrencial, Vitor chega ao edifício. A relação entre ele e Saulo não é das melhores. Falam acerca da pressão dos compradores do prédio com relação ao atraso de sua entrega, e das iminentes vistorias. Ocorre também um conflito sobre quem deverá ir ao encontro com o prefeito, demonstrando a colaboração deste com práticas ilícitas. Marion chega ao local para vistoriar o andamento das obras (ela representa o seu pai, que está adoentado, recuperando-se de um AVC), percebendo que há ainda muito o que se fazer, sendo sempre contrariada pelo engenheiro. O casal deixa à vista um clima de romance mal resolvido. A chuva continua a cair forte, e um alagamento suspeito irrompe do chão. Yasmin vai visitar o seu pai Jesuíno em seu local de trabalho. Desconhecendo seu estado de gravidez, Jesuíno reage mal. Existe uma relação estranha entre ambos. Na reunião em que se espera a presença do prefeito, Vitor se mostra bastante inquieto devido a negociações espúrias não fechadas. Luciano Chirolli, como Samuel Krieg, representa o prefeito, que já assentiu a negociata com o jovem empresário. Enquanto os operários Zica (Démick Lopes) e Dario (Glauber Amaral) brigam por dívidas, a água continua a brotar do chão. E não é cano estourado. Marion continua a encontrar uma série de irregularidades na obra, como cilindros de oxigênio armazenados. O que se esperava finalmente aconteceu. O prédio desabou. As cenas dirigidas por Luciano Moura e Isabel Valiante são incrivelmente realistas e impactantes, com efeitos especiais de altíssimo nível, similares aos vistos nas produções do gênero americanas. O construtor Vitor fica sabendo do sinistro pelo celular, ao mesmo tempo em que jornalistas, já cientes, fotografam-no impiedosamente. Num ambiente de total desolação, com uma montanha imensurável de concretos em pedaços, carro de Bombeiros e socorristas chegam aos montes. O diretor optou por fazer uma tomada aérea central, a fim de que tivéssemos a real noção da tragédia. A montagem e edição de imagens é rápida, tremida, nervosa, acompanhando a velocidade dos acontecimentos, não poupando o público das cenas de pessoas feridas, ensanguentadas, desacordadas. Uma reprodução fiel do que nos habituamos a assistir nos telejornais. Registros dignos de um atentado terrorista. Passamos para o Quartel de Bombeiros onde se encontra o Capitão Marco Antônio, personificado por Fabrício Boliveira. O Major, enfrentando a resistência do Capitão, que alega estar suspenso, e o Regimento não permite a sua saída, designa-o para ajudar nos resgates. Paira a dúvida sobre o que o Capitão deve ter feito ao ponto de ter sido punido. Lá chegando, toma a frente das operações de salvamento. No imenso escritório central da Baretti Construtora, Gilda, atônita, anda de um lado para o outro dando ordens, até que sabe por Vitor de que tanto Saulo quanto Marion estão soterrados. Dr. Rupp, aos prantos, debate-se em sua cama ao tomar conhecimento da situação de sua filha. Nos resgates, o Capitão Marco Antônio tem que tomar decisões difíceis, que contrariam as normas convencionais de procedimentos de salvação nestes casos. No local das buscas, Gilda, em estado de choque, procura ao máximo atrapalhar o trabalho dos assistentes sociais. Há a suspeita de que Saulo esteja entre os mortos encontrados. Entretanto, Ilana Krieg (Maria Manoella), sua ex-mulher, acompanhada de uma assistente social (Dani Nefussi), não reconhece o corpo, espantando-se ao saber que Marion está entre os soterrados. Num espaço de terror, em meio a poças d’água, jorros de água, escuridão e entulhos, o engenheiro parece catatônico. Ouvem-se gritos de toda parte. Dario, um dos operários, está gravemente ferido, e é socorrido pelo seu irmão Daréu (Rômulo Braga). Um fio desencapado próximo à água os ameaça com a eletrocussão. Entre os sobreviventes, está Bené (Arilson Lopes). Alguns gritam, entre eles Marion: – Saulo, nós temos que sair daqui!. Saulo se levanta e vai em direção aos irmãos, sendo agredido. O engenheiro pega uma pedra, golpeando Daréu na cabeça com brutalidade. A insanidade começa a imperar no universo onde a lei da sobrevivência ditará as regras. O texto de Elena Soarez e Luciano Moura obedece aos preceitos determinantes deste gênero narrativo, cumprindo a sua precípua função de imprimir à trama doses substanciais de ação, terror e suspense, em paralelo, nesta minissérie, a uma rede de intrigas que envolve corrupção, ganância e sede de poder, não abrindo mão, contudo, de conflitos de caráter afetivo. Os diálogos são fluidos, certeiros e afiados, adequando-se à objetividade deste tipo de história. Na categoria em que se insere esta espécie de roteiro não são permitidas cenas demoradas, tampouco conversações longas, atingindo-se desta forma o timing exigido em situações fictícias desta natureza. Luciano Moura e Isabel Valiante se empenharam em retratar em imagens convincentes e chocantes esta série de episódios marcados pelo horror do desabamento de um prédio com pessoas em seu interior. Como já foi dito anteriormente, amparados em efeitos especiais de potência visual inacreditável, procuraram extrair do elenco os principais aspectos definidores das personalidades de seus personagens. Há um elemento comum na quase totalidade das cenas levadas ao ar: a tensão. Uma tensão em diferentes nuances, apropriada ao contexto e à contingência dos fatos. O elenco, muito bem escalado, reúne intérpretes com carreira consolidada no cinema, como Selton Mello, e na TV, como Carolina Dieckmann. Por sinal, é o reencontro deste casal que tanto sucesso fez na novela de Walther Negrão, “Tropicaliente” (1994), como Vitor e Açucena, respectivamente. Selton construiu o engenheiro Saulo com certa frieza e distanciamento. O engenheiro, mesmo ciente de seus atos errados e condenáveis, imbui-se de uma força interna que o faz seguir em frente na prática de seus intentos criminosos. Nota-se, de modo quase imperceptível, um sentimento de culpa em sua consciência (com a exceção da cena inicial). Carolina Dieckmann, como Marion, transmitiu-nos toda a sensação de incredulidade que perpassa os seus sentimentos. Existe em sua relação com o engenheiro vestígios de ressentimento e mágoa. A atriz soube traduzir com distinta eficiência estas impressões de sua identidade. Paulo Vilhena encarna com notável pujança o arrogante herdeiro da Baretti Construtora. Paulo coloriu o jovem ambicioso e corrupto com tintas de cinismo e empáfia, transitando para outra esfera de reações emotivas quando o seu plano de enriquecimento ilícito começa a ruir. Debora Bloch abrilhantou o episódio ao criar uma mulher rude, insensível, gananciosa, que se vale de seu alto cargo para se locupletar. Gilda não se deixa atemorizar ao lançar mão de expedientes reprováveis com o propósito de burlar a lei. A atriz garantiu excelentes cenas à minissérie. Fabrício Boliveira defendeu com grande dignidade o personagem Marco Antônio, Capitão do Corpo de Bombeiros. Seu olhar fixo é sofrido por guardar na memória um fato na profissão que o traumatizou. Todavia, seu entusiasmo em salvar vidas no local do desmoronamento empolga e comove. Por sinal, a cena em que dá ordens aos demais bombeiros, contrariando os procedimentos de praxe, merece menção. Lima Duarte, como Dr. Rupp, dispensa comentários, pois sua simples aparição engrandece e enobrece qualquer produção teledramatúrgica. Luciano Chirolli, importante ator de teatro, valorizou sobremaneira o megaconstrutor Krieg, oferecendo-nos a real dimensão de sua condição como empresário avesso à ética, em conluio promíscuo com o poder político. Camila Márdila, intérprete brasiliense que se destacou no filme “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, personificou com sensibilidade a filha grávida rejeitada pelo pai. Maria Manoella, como Ilana, a ex-mulher de Saulo, expressou tanto o desespero com a possível morte do engenheiro, quanto a decepção ao saber da presença de Marion na obra, o que lhe causou evidente ciúme. Os demais atores do elenco se sobressaíram, como Dani Nefussi (atriz que se notabilizou no longa de Anna Muylaert “Mãe Só Há Uma”), Antonio Fábio, Arilson Lopes (Bené), Démick Lopes, Rômulo Braga e Glauber Amaral. A direção de fotografia de Ralph Strelow e Rodrigo Monte se mostra coerente com a temática, apostando nas tonalidades acinzentadas, frias, cruas. O cinza da obra, dos concretos, do dia chuvoso, além da impessoalidade das salas da grande construtora. A inteligente e difícil montagem coube à dupla Marcio Hashimoto e Lucas Gonzaga. Na instigante abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguelê e Renan de Moraes temos a ótima canção de PJ Harvey, “When Under Ether”, na versão de Beto Villares e Érico Theobaldo. Nela, a câmera passeia por objetos e locações diferenciadas, com suave fusão de imagens. O universo familiar, com móbiles infantis, óculos e aliança se mistura ao local da tragédia, com seus elevadores, suas lâmpadas piscando, a água invadindo o piso, capacetes, crachás e armários de operários. “Treze Dias Longe do Sol”, uma coprodução da Rede Globo com a O2 Filmes, é uma minissérie que traz uma renovação na teledramaturgia brasileira em termos de linguagem, haja vista que não estamos habituados, como dito, a este gênero narrativo. Com cada episódio possuindo um título específico, não seremos poupados de elementos que naturalmente atraem a nossa atenção e interesse, como suspense, ação, intrigas, terror e até um pouco de romance. Veremos a que ponto chega o comportamento humano diante das situações mais adversas, em que a vida e a morte estão intimamente ligadas. Valerá a pena ficarmos os próximos nove episódios em frente à TV. Bem longe do Sol.

 

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Foto: Raquel Cunha/Gshow

Já se viu nas primeiras imagens de “O Outro Lado do Paraíso”, a nova novela das 21h da Rede Globo, com direção artística de Mauro Mendonça Filho e geral de André Felipe Binder, que o seu autor, Walcyr Carrasco, com a colaboração de Nelson Nadotti, Vinicius Vianna e Márcio Haiduck, optou por uma renovação, em alguns aspectos, pois seus elementos basilares não foram preteridos, da narrativa folhetinesca. O seu início, sem as tradicionais aberturas, foi semelhante a um filme, com os créditos (nomes dos atores, diretores etc…) surgindo com o desenrolar de uma cena cotidiana da jovem protagonista da história, Clara, interpretada por Bianca Bin, preparando um café na chaleira, somente com os sons ambientes (ao final, apreciamos o lindo resultado do trabalho de abertura dos craques Alexandre Romano, Alexandre Calvet, Roberto Stein e Cristiano Calvet, que será visto nos demais capítulos). Clara, seu pai Jonas (Eucir de Souza) e seu avô Josafá (Lima Duarte) moram juntos num simples casebre numa região imensa e inóspita de um lugar fictício chamado Pedra Santa, no Estado do Tocantins. Eles sobrevivem graças a uma pequena venda gerenciada pelo patriarca. Nesta mesma região quente e agreste, há dez anos, houve um garimpo no qual se procuravam esmeraldas. Segundo Josafá, eram apenas biritas, sem nenhum valor. Mas Jonas está decidido a retomar o garimpo, e com isso, enriquecer, contrariando a sua filha e o seu pai, já que usará explosivos. Um acidente com estes explosivos tira a vida do garimpeiro. A família tem que se reorganizar. Clara é convidada por Mercedes (Fernanda Montenegro), mesmo sem ter muitos estudos, para ser a professora de crianças de um quilombo próximo, o Quilombo da Formiga. Mercedes é uma senhora misteriosa, mística e solitária, capaz de ouvir vozes, canções, gritos e ecos soturnos. A também benzedeira acredita piamente que o mundo irá acabar, e que só Tocantins se salvará, guardando em sua casa provisões de subsistência, como sementes, água e roupas. E livros (a Humanidade precisará deles). Ela crê que os seus objetos em forma de animais ganharão vida, e que seres invisíveis, “eles”, mandam-lhe mensagens. Sensitiva, diz à moça que entrará em uma nova fase. Prevê o aparecimento de uma mulher, e o seu desconhecimento a aflige. No Quilombo da Formiga, Clara conhece Raquel (Érika Januza), que faz artesanato com capim dourado, e reencontra Dr. Renato (Rafael Cardoso), médico de Palmas, capital, que realiza um trabalho de voluntariado com a população carente do local (Renato costumava frequentar a venda de seu avô, e seus olhos azuis demonstraram interesse pelos olhos azuis da neta de Josafá). Enquanto Clara e Renato se entrosam, chega à localidade, vindo de Palmas, pilotando uma moto, o rebelde Gael (Sergio Guizé). Gael quer conhecer um ponto turístico interessante destas paragens. Com a voz doce de Elis Regina cantando “Morro Velho” ao fundo, o motoqueiro cioso por novidades chega ao Campo do Capim Dourado, onde se faz a colheita desta vegetação, e se encanta ao ver Clara brincando com as crianças. A moça que lê “Marcelo Marmelo Martelo” para os seus alunos percebe o olhar encantado do rapaz que usa dois brincos de argolas, sentindo também um certo encanto. Indo para um outro núcleo da trama, na cobertura palaciana no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, conhecemos Elizabeth (Glória Pires), e sua família. Casada com o diplomata Henrique (Emílio de Melo), ambos têm uma filha, Adriana (Lara Cariello). De origem pobre, nascida no Tocantins, Elizabeth é uma mulher extremamente carente e sozinha. Ressente-se de seu marido se dedicar mais à profissão do que ao lar. Seu sogro, o preconceituoso advogado Natanael (Juca de Oliveira), nunca se conformou com o casamento de seu filho com alguém de um nível social inferior. Após convidar Henrique para ir com ela e a filha para Angra dos Reis, decepciona-se, pois a intenção de seu esposo é ir para Londres a fim de disputar o posto de embaixador que está vago. Natanael se mostra amigo de Beth, mas na verdade está planejando a destruição de seu matrimônio, e para isso contará com uma aliada, a ex-namorada de Henrique, agora amiga, Jô (Bárbara Paz), que está falida financeiramente. Em uma festa típica da região do Jalapão, Clara deixa de conversar com Renato para dar um passeio de moto com Gael, despertando o ciúme do médico, que conhece o seu oponente de Palmas. Com o sol alaranjado e a linda versão de Fernanda Takai para “I Don’t Want To Talk About It” como testemunhas, em meio às dunas deslumbrantes do Jalapão, Clara e Gael parecem estar cada vez mais apaixonados. O amor do novo casal vai do fundo das águas límpidas de um rio até a Pedra Furada. No alto de um grande rochedo, Clara e Gael se encontram com Renato e Raquel. Gael observa com ódio os pequenos gestos de intimidade no reencontro do médico com a professora. O motoqueiro de Palmas ameaça Renato, revelando sua temível agressividade até então ignorada. O clímax da cena ocorre quando Gael ameaça deixar cair o rapaz em um penhasco, segurando-o somente por uma mão (nesta benfeita tomada, percebe-se que a direção tomou como referência clássicos do western, inclusive os de Sergio Leone, tanto no que diz respeito aos closes quanto no que se refere à trilha incidental de João Paulo Mendonça). O pedido de perdão pelo incidente, o pedido de perdão pela desconfiança da amada, o beijo da redenção e o pedido de casamento acontecem sucessivamente. No meio das suas faces um raio fulgurante do sol sempre presente, e a voz apaixonada de Paulo Miklos cantando a bela música composta por Nando Reis, “Vou Te Encontrar”. Gael volta para a sua casa em Palmas. Chega na hora do café da manhã em que estão sentados à mesa a sua mãe, a ambiciosa Sophia (Marieta Severo) e a sua irmã, a sarcástica Lívia (Grazi Massafera). Ao anunciar a Sophia que irá se casar, e que a sua noiva é professora de um quilombo, e filha de um dono de venda, ela se enfurece, e confessa aos filhos a péssima situação financeira em que se encontram. Gael é divorciado, e há um mistério nessa separação, causada por ele. Uma outra filha, Estela (Juliana Caldas), é mantida no exterior por ser uma pessoa com nanismo, e esta condição envergonha Sophia. Disposta a subornar o avô de Clara para que ela se afaste de seu filho, Sophia muda de ideia ao avistar uma pedra com um veio de esmeralda sobre um dos móveis da casa do senhor. Clara lhe dá de presente. Após consultar um especialista, e enxergar a possibilidade de explorar a possível mina de esmeraldas localizada nas terras de Clara, a gananciosa mãe de Gael passa a apoiar o casamento do filho. Numa confraternização de família, Sophia brinda ao amor, a Gael, e principalmente a Clara. Desta forma, iniciou-se o primeiro capítulo de “O Outro Lado do Paraíso”, uma história que nos exibiu, através de apenas alguns personagens, traços dos comportamentos do ser humano, como ambição, individualismo, frieza, manipulação, ciúme, preconceito e cobiça, mas também privilegiou o amor, o desejo, a paixão e a amizade. O elenco deste começo de trama provou o seu brilho, talento, solidez e sobeja consistência na composição de seus papéis, transmitindo-nos a sensação positiva de que aqueles foram estudados e elaborados com a dedicação necessária, respeitando-se as características do lugar específico, no caso o Estado do Tocantins, em que se desenvolve a narrativa, além do Rio de Janeiro. Bianca Bin trilhou a legitimidade de uma moça simples, ingênua e romântica, traumatizada pela morte trágica do pai, que se apaixona pelo rapaz sedutor da cidade grande que lhe diz palavras bonitas. Sergio Guizé, com bastante personalidade, construiu o seu papel na medida certa, passando-nos a noção de ambiguidade de Gael, que alterna doçura e agressividade. Rafael Cardoso esbanjou elogiável desempenho ao moldar o perfil de Renato, convencendo-nos de seu verdadeiro amor por Clara, e de sua dedicação incansável ao voluntariado como médico. Um triângulo amoroso, estreante no horário nobre e em teledramaturgia, cativante em suas atuações, que promete torcidas variadas e emoção de sobra. Há química tanto entre Bianca e Sergio quanto entre ela e Rafael. Um acerto indiscutível na escalação, sem contar o seu caráter inovador. O frescor deste trio foi acompanhado por talentos consagrados, como o de Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Marieta Severo e Juca de Oliveira. Fernanda, como sempre, magistral na sua entrega às personagens que abraça, e no caso de Mercedes, toda a sua força natural e intensidade mística foram lapidadas com a maestria interpretativa que lhe é peculiar. Lima Duarte usa a sua notável experiência ao criar o tipo interiorano, simplório, que nos conquista de pronto com a sua potência cênica. Marieta Severo, como esperamos de uma atriz de sua grandeza, impressiona-nos com a sua ilimitada aptidão em transitar com liberdade pelos meandros mais íntimos de seu papel ao desenhar os contornos precisos de Sophia. Vemos o nascimento de uma vilã que não mede esforços para atingir os seus objetivos, garantindo-nos no futuro momentos que prometem ser marcantes, em que a sua vocação preconceituosa, gananciosa e manipuladora ganhará voz. O mesmo se pode dizer de outro ator maravilhoso como Juca de Oliveira. Sabedores de seu incrível domínio como artista, não nos espantaremos com as artimanhas que seu personagem, Dr. Natanael, será capaz de fazer, utilizando-se de toda a dissimulação e frieza que lhe são natas. Sua perseguição a Elizabeth também promete ótimos conflitos. Glória Pires, uma atriz com inteligência emocional rara, mestre em usar a entonação vocal, os olhares e gestual perfeitos, conquista invariavelmente um nível máximo de qualidade e excelência. Como Elizabeth, vê-se claramente uma mulher infeliz, só, carente e frágil que, no entanto, poderá nos surpreender com as reviravoltas que o autor lhe reserva. Grazi Massafera, a cada personagem que defende, galga degraus elevados em suas composições (não podemos nos esquecer que foi em uma novela de Walcyr Carrasco, “Verdades Secretas”, que Grazi mostrou ao país todo o seu potencial, chegando a ser reconhecida no exterior com a indicação ao Emmy Internacional). Grazi Massafera tem se destacado ao interpretar jovens que misturam malícia e humor. A novela terminou com um olhar insinuante de Lívia ao testemunhar o golpe de sua mãe. Érika Januza, revelada na série “Suburbia”, desfilou desenvoltura, espontaneidade e genuinidade ao personificar a amiga alegre e trabalhadora de Clara. Entretanto, esta alegria vai embora quando terá que enfrentar a ira racista de Nádia (Eliane Giardini), sua patroa, ao se envolver com o seu filho Bruno (Caio Paduan). Emílio de Melo, como o diplomata Henrique, indicou-nos com distinta propriedade a indiferença prevalente de seu papel com relação à sua família, colocando a profissão em primeiro lugar. Emílio, um ótimo ator, terá excelentes chances na novela ao se ver vítima das armações espúrias de seu pai. Eucir de Souza, como ator convidado, teve uma participação digna e comovente ao encarnar o homem ávido em enriquecer, e que acaba morrendo por esta desmedida ganância e irresponsabilidade. Bárbara Paz, como a sofisticada Jô, mostrou-se inteiramente à vontade como a futura aliada de Natanael. E pelo que conhecemos de sua capacidade, e também versatilidade como intérprete, esperamos cenas interessantíssimas em que esteja presente, formando uma parceria promissora com Juca de Oliveira. Vera Mancini, como a empregada de Sophia, distribuiu graça com os seus ditos picantes, demonstrando intimidade com a família. Terá Estela, a outra filha, enjeitada pela mãe, como confidente. Aguardemos diálogos emocionantes. A direção artística de Mauro Mendonça Filho (grande colaborador de Wacyr Carrasco) e geral de André Felipe Binder (também trabalhou com o autor), com a sua equipe constituída por André Barros, Henrique Sauer, Pedro Peregrino, Mariana Richard e Caio Campos, merecem incontáveis elogios por conduzirem com sensibilidade o enorme manancial de talentos que têm em mãos, e explorarem com competência única, adotando uma generosa linguagem cinematográfica, as belezas estonteantes das terras do Tocantins. A inspirada direção de fotografia de Mauro Pinheiro Jr., Pablo Baião e Fabrício Tadeu aproveitou com suprema felicidade a luz forte natural da região, além de usar com sabedoria visual, com filtros e lentes certeiros, as cores inebriantes dos espaços em que se passa a ação. A cenografia de Tiago Marques Teixeira, Mauricio Rohlfs e Danielly Ramos foi bastante coerente, retratando com fidelidade a pobreza da casa de Clara, o ambiente kitsch onde mora Sophia e a sofisticação de alguns detalhes da cobertura de Elizabeth. O mesmo, claro, pode-se dizer da produção de arte de Guga Feijó e Renata Otomura. Ellen Millet, conceituada figurinista, cumpriu a sua missão com garbo, seja nos vestidos bem modestos de Clara, nas roupas modernas com ar transgressor de Gael, e nas vestes com tintas mais carregadas de Sophia. A gerência musical de Marcel Klemm se esmerou na diversificação, utilizando-se, como já fora dito, das vozes de Elis Regina, Fernanda Takai e Paulo Miklos, além da clássica banda Lynyrd Skynyrd (“That Smell”), e dos grupos The Band (“The Weight”) e The XX (“Crystalised). “O Outro Lado do Paraíso” vem com uma função árdua, que é a de suceder o sucesso alcançado por Gloria Perez em “A Força do Querer”, mas em se tratando de Walcyr Carrasco, que coleciona um sem número de êxitos de audiência e público, como foram as suas três últimas novelas (“Amor à Vida”, “Verdades Secretas” e “Êta Mundo Bom!), isto não será obstáculo para o teledramaturgo. Walcyr, além de manter as bases de um bom folhetim, como romance, traição e vingança, irá abordar questões importantes, como a violência doméstica, o nanismo (e o preconceito envolvido), a discriminação racial, o homossexualismo não assumido, com direito à vida dupla, e a homofobia. Já conhecemos em seu primeiro capítulo o paraíso do Tocantins, e em parte o seu outro lado. Precisamos conhecer a saga de Clara, Gael, Renato, Josafá, Sophia e Mercedes para vermos até onde irá este outro lado. E se, segundo Mercedes, ele sobreviverá ao fim do mundo.