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Foto: Gshow

Depois de produções elogiadas pela crítica e prestigiadas pelo público, Manuela Dias estreia no horário nobre da Rede Globo com uma novela que aborda as mais diferentes e complexas nuances que permeiam o amor incondicional de uma mãe pelo seu filho

Na última segunda-feira, o público teve a chance de conferir a alvissareira estreia da celebrada autora Manuela Dias (“Ligações Perigosas” e “Justiça”) no horário nobre da Rede Globo com a aguardadíssima novela “Amor de Mãe”, reeditando a parceria com o engenhoso diretor artístico José Luiz Villamarim. Manuela se propõe a nos contar dentro de um contexto narrativo folhetinesco os múltiplos matizes dimensionais do elo afetivo maternal, e suas infinitas possibilidades de expressão, revelando comportamentos obstinados, incondicionais e até mesmo obsessivos. Representando uma trinca fabulosa de mães diametralmente distintas, foram escaladas atrizes de supremo valor, Regina Casé, Adriana Esteves e Taís Araujo, cujas vidas se entrelaçam mais cedo ou mais tarde (um recurso técnico caro a Manuela). Lurdes (uma Regina Casé fenomenal, interpretada com brilho no passado por Lucy Alves) se candidata a uma vaga de babá para cuidar de um futuro filho da bem-sucedida advogada Vitória (Taís Araujo com admirável altivez). Vitória defende com certa culpa o inescrupuloso empresário Álvaro (Irandhir Santos primorosamente cínico e frio). Thelma (Adriana Esteves com exemplar densidade), vítima de uma grave doença, é socorrida na rua por Lurdes. Thelma mantém uma relação sufocante com o seu bom filho Danilo (Chay Suede em acertada contenção). Vive em conflito com o irmão mau-caráter Sinésio (Julio Andrade em perfeita sintonia com o papel), que deseja vender o restaurante da família. Voltando a Lurdes. Dedicada a encontrar seu filho vendido, orgulha-se da filha formada professora Camila, (Jessica Ellen, uma força feminina em cena), e se preocupa com o filho Magno (Juliano Cazarré com sua verdade interpretativa cativante), envolvido em um crime não intencional. Lurdes também é mãe de Ryan e Érica (os ótimos Thiago Martins e Nanda Costa).

Com direção artística de José Luiz Villamarim, um profissional cuja marca de excelência é visível em todas as obras que conduz, e trilha sonora que exerce enorme fascínio pela sua diversidade e riqueza, “Amor de Mãe” já conquistou os telespectadores desde o seu início
A direção de Villamarim, não raro vigorosa e eficiente, explora os ângulos da câmera selando sua inteligente marca, como as tomadas de dentro dos carros, com a visão particular de seus cursos. Vale destacar a fascinante trilha sonora de Eduardo Queiroz e Bibi Cavalcante, com canções com Maria Bethânia (“Onde Estará O Meu Amor”), Gonzaguinha (“É”) e Fábio Jr. (“O Que É Que Há). “Amor de Mãe” é uma novela com viés humanista, focada nas relações interpessoais e todos os seus desdobramentos naturais, sem perder de vista os conflitos e dramas que demarcam o sucesso do gênero. “Amor de Mãe” já tem uma história de amor com o seu público, e esse amor só tende a aumentar.

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Foto: Mauricio Fidalgo/Rede Globo

Thalita Carauta, com sua excelente atuação como a professora Eliete de “Segunda Chamada”,  junta-se a três outras grandes profissionais da teledramaturgia brasileira, reforçando o poderio feminino no audiovisual contemporâneo

Muitos são os atores que se destacam na excelente (e absolutamente necessária) série da Rede Globo, “Segunda Chamada”, escrita pela afinada dupla Carla Faour e Julia Spadaccini, com direção artística primorosa de Joana Jabace (desde já, uma das melhores obras lançadas em 2019). Essa tríade de profissionais vem reforçar o poder feminino na teledramaturgia nacional. Para incrementar este front de mulheres brilhantes, entra em cena a carioca Thalita Carauta, intérprete da professora de matemática Eliete. Em meio a tantas adversidades e dramas que rondam a Escola Estadual Maria Carolina de Jesus, Eliete, numa performance esplendorosa de Thalita, calcada em uma desconcertante naturalidade nutrida por fartas doses de humanismo, serve como ponto referencial de positividade, respiro e otimismo àqueles seres vitimizados (alunos e professores) pelas contingências duras de uma instituição pública de ensino do Brasil. 

A atriz, reconhecida pelo grande público pela sua vasta habilidade com a comédia, reinventou-se a partir de sua atuação como Eliete, revelando-nos uma admirável faceta dramática que nos é extremamente bem-vinda 

A atriz, também diretora, sempre reinou com pleno domínio no império da comédia, seja na TV (como a hilária Janete do extinto “Zorra”), na ribalta (no sucesso “Os Suburbanos”) e no cinema (na popular franquia “S.O.S. Mulheres Ao Mar”). Com prêmios no currículo, egressa de O Tablado, vinda de um marco em sua carreira (a Gorete de “Segundo Sol”), Thalita, como Eliete, reinventou-se, dando uma guinada de 360º em sua história como artista. Com Eliete conhecemos uma nova Thalita, explodindo em carisma, exalando charme e sensualidade, e nos revelando um potencial de dramaticidade desconhecido do grande público.
Em um dos episódios de “Segunda Chamada”, houve uma comovente cena entre a sua personagem e o do nobre José Dumont (disponível no Globoplay), comprovando esta sua faceta que nos é tão bem-vinda. Thalita Carauta, sempre às terças, faz com que todos nós queiramos ter tido em nossas vidas uma professora de matemática como Eliete, para sabermos somar e dividir com os outros, subtrair nossas mesquinharias e multiplicar os nossos melhores valores.

 

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Foto: Mauricio Fidalgo/Globo

“Segunda Chamada” é uma importante série que se apresenta em um momento delicado do país, em que se discute com a veemência necessária a relevância da educação em uma sociedade que se propõe a se desenvolver, usando como ferramenta narrativa de comunicação os dramas e conflitos atinentes a professores e alunos do turno da noite de uma escola pública de São Paulo

Na terça-feira passada, o público teve a chance de acompanhar o segundo episódio de um dos melhores produtos televisivos teledramatúrgicos do momento, a série da dupla Carla Faour e Julia Spadaccini, com direção artística de Joana Jabace, “Segunda Chamada”, na Rede Globo. Esta obra profundamente humanista chega nos lares brasileiros numa era oportuna, em que se discute com maior veemência a relevância da educação no país e o seu papel dentro da sociedade. Sem caracteres políticos, a excelente série pretende com notada sensibilidade, sem abdicar do realismo que o tema pede, colocar uma lente de aumento generosa nos dramas e conflitos individuais e coletivos de professores e alunos do turno da noite voltado para jovens e adultos de uma instituição pública de São Paulo, a Escola Estadual Carolina de Jesus. Com as inegáveis qualidades técnicas já consolidadas neste gênero, “Segunda…” açambarca um leque amplo de situações envolvendo os personagens deste instigante universo. Os professores são muito mais do que instrumentos de transmissão de conhecimento, cumprindo, cada qual ao seu jeito, a função de intermediar, contemporizar ou remediar os dilemas nascidos neste núcleo. O valoroso elenco reúne talentos de vivências e formações diversas, resultando em uma equipe de peso que brilha a cada cena.

Com um elenco de inegável valor capitaneado por Debora Bloch, a série certamente nos oferecerá em seus próximos episódios lições de cidadania e dignidade humana, cada vez mais em falta no Brasil

No time dos professores temos a idealista e determinada Júlia (Debora Bloch), a conciliadora e divertida Eliete (Thalita Carauta), o bem-intencionado Marco André (Silvio Guindane) e a dedicada, porém um pouco arredia Sônia (Hermila Guedes). Jaci, o diretor racional e exigente, ficou a cargo de Paulo Gorgulho. Na turma de alunos há a jovem Solange (Carol Duarte), despreparada para ser mãe; o travesti que convive com o medo, Natasha (Linn da Quebrada); o motoboy castigado pela dura rotina (Felipe Simas) e a senhora que abandona o preconceito de gênero Dona Jurema (Teca Pereira). Completam este admirável cast José Dumont, Nanda Costa e Mariana Nunes. Com “Segunda Chamada”, nós, telespectadores, também seremos alunos dessa escola com nome de escritora, aprendendo com cada episódio as lições de cidadania e dignidade humana que somente uma sala de aula pode dar.

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Foto: João Miguel Jr./TV Globo

Walcyr Carrasco dá a sua valiosa contribuição na desconstrução de mais um preconceito, dentre tantos em nossa sociedade, o machismo, ao apresentar ao público a relação afetiva entre um homem mais moço e uma mulher madura

Numa cultura na qual o machismo sempre teve um papel preponderante, sendo que esta condição desigual e injusta entre os gêneros felizmente passa por um processo de reavaliação alimentado por diversos grupos civis, o lindo e tocante romance entre o jovem Zé Hélio (a revelação Bruno Bevan) e a recém divorciada Beatriz (a consagrada Natalia do Vale) na novela de Walcyr Carrasco com direção artística de Amora Mautner “A Dona do Pedaço”, na Rede Globo, como obra audiovisual de alcance infinito na coletividade, cumpre uma função social de desconstrução de preconceito (a relação entre um homem mais moço e uma mulher mais madura) de inegável relevância. 

Natalia do Vale, consagrada atriz, e Bruno Bevan, jovem revelação, com seus respectivos talentos, são responsáveis diretos pela química e consequente sucesso do casal

O casal Zé Hélio/Beatriz tem encantado os telespectadores desde as suas primeiras cenas na academia de ginástica, e não são poucas as razões para o sucesso deste par.
Um dos maiores acertos foi a aposta no niteroiense formado em Publicidade, com carreira bem-sucedida de modelo, e passagens por vários cursos importantes de teatro (CAL, Tablado e Escola de Atores Wolf Maya), Bruno Bevan. Bruno, além de sua beleza inconteste, possui postura elegante, tempo perfeito das falas e controle das emoções.
Natalia do Vale, uma de nossas atrizes mais queridas, talentosíssima, bela, doce, com uma trajetória brilhante na teledramaturgia, torna a personagem ainda mais crível. 

Texto e direção compartilham sensibilidade e delicadeza na concepção das lindas cenas de Zé Hélio e Beatriz

O texto de Walcyr é meticuloso, prudente, delicado e sensível.
Sem atropelos ou pressa, o autor sabiamente criou a ambiência de aproximação de ambos respeitando as fases basilares de uma conquista romântica, ciente da vulnerabilidade de Beatriz, e do cuidado exigido pelo tema.
A direção de Amora e Luciano Sabino (diretor geral) compreende a real dimensão emotiva deste envolvimento e as barreiras sociais que o cercam, imprimindo às suas cenas ternura sem em nenhum instante resvalar no clichê do sentimentalismo ou pieguice, fácil armadilha.
A cena recente que culminou no beijo entre Zé Hélio e Beatriz é desde já uma das mais bonitas, difíceis e bem dirigidas do folhetim das 21h.
Termino a análise com a frase de Hélio para sua namorada: “Meu coração tem a idade do teu”. 

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Foto: Chico Couto/Gshow

Caio Castro repete a parceria com Walcyr Carrasco e faz sucesso como o boxeador de boa índole Rock

Há alguns personagens virtuosos em “A Dona do Pedaço”, novela das 21h da Rede Globo criada e escrita por Walcyr Carrasco, com direção artística de Amora Mautner. Esses personagens do bem, liderados pela irresistível Maria da Paz, Juliana Paes, têm feito um pujante contrapeso ao número nada pequeno daqueles que se dedicam às pequenas e grandes vilanias. Um deles é defendido pelo paulista de Praia Grande Caio Castro, vencedor em 2007 de um quadro do programa de Luciano Huck que o catapultaria direto para o protagonismo de “Malhação” e suas duas temporadas seguintes. Caio, que já havia trabalhado com Walcyr em “Amor à Vida” (2013), como o sedutor Michel, repete a dobradinha com brutal sucesso como o boxeador de boa índole Rock, que deseja incansavelmente ser o campeão dos octógonos.

O ator se livrou do rótulo de galã a partir de “I Love Paraisópolis”, o que lhe rendeu posteriormente interpretar o complexo D. Pedro I em “Novo Mundo”

Se antes ao intérprete lhe cabiam os papéis de mocinhos e galãs, não desmerecendo as suas atuações (“Ti Ti Ti”, 2010; “Fina Estampa”, 2011; e a própria “Amor à Vida”), tudo começa a mudar a partir de “I Love Paraisópolis” (2015), de Alcides Nogueira e Mário Teixeira, ao encarnar um rapaz tosco, líder de comunidade com fraseado “paulistês”, o antagonista Grego. Caio se despe, assim, dos rótulos inevitáveis. A credibilidade alcançada lhe serviu para personificar com elogios a complexidade do homem histórico D. Pedro I em “Novo Mundo” (2017), de Thereza Falcão e Alessandro Marson.

Caio Castro contracena com estrelas como Betty Faria, Marco Nanini e Suely Franco, destacando-se no folhetim do horário nobre com sua composição que une doses de brutalidade com genuína delicadeza humana

No folhetim do horário nobre, Caio, ao compor Rock, impôs-lhe uma postura bronca, porém cercada de uma humanidade comovente. Sua fala, outrossim, é dominada por gírias e expressões da São Paulo periférica, mas a gentileza com a qual as profere não ofende o bom Português. O ator conseguiu seu lugar em um núcleo cômico tresloucado onde há estrelas como Betty Faria e Marco Nanini. O Rock de Caio Castro nunca discriminou a sexualidade de Agno, Malvino Salvador. Rock, que odeia mentiras e injustiças, quer namorar sério e ter filhos (inicia-se a torcida para que fique com a doce Joana, Bruna Hamú). Caio Castro, que formou uma linda contracena com a dama Suely Franco, garantiu a sua fatia de bolo mágico, sendo para o público um dos “donos do pedaço”.

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Foto: Rede Globo

Depois do sucesso de “O Outro Lado do Paraíso”, Walcyr Carrasco volta mais cedo ao horário nobre com uma história irresistivelmente popular, contada por um excelente elenco que junta veteranos a jovens talentos 

Com uma abertura caprichada de Alexandre Romano, ao som do empolgante clássico do pagode “Tá Escrito”, do grupo Revelação, lançado em 2009 (na voz de Xande de Pilares), entrando no meio de sua quarta semana, “A Dona do Pedaço”, escrita por Walcyr Carrasco, que foi solicitado de forma não programada para criar um folhetim, devido às realocações das tramas das 21h da Rede Globo, já conquistou o público deste horário não só pelo apelo e força popular de sua história, com núcleos tão distintos quanto adoráveis, recheada de subtramas deliciosas, mas pelo seu espetacular elenco que junta veteranos e jovens talentos.

As duas primeiras fases do folhetim se mostraram inovadoras ao retratar a rivalidade sangrenta de duas famílias justiceiras, em que não se poupou uma estética nitidamente influenciada pelo cinema de Quentin Tarantino 

Em suas primeira e segunda ótimas fases, inovadoras, tivemos uma guerra sangrenta ” à la ‘Romeu e Julieta’ “, envolvendo as famílias Matheus e Ramirez. Com dinâmica estética de Tarantino, e direção artística de Amora Mautner, vimos o nascimento do amor de Maria da Paz (Juliana Paes) e Amadeu (Marcos Palmeira), um novo e bem-vindo casal na teledramaturgia. Quem poderia imaginar famílias de justiceiros tendo de um lado Nívea Maria e de outro Jussara Freire? Quem sequer suporia que Dulce, a personagem de Fernanda Montenegro, em cena já antológica, matasse a sangue frio três rivais do outro clã? Um pacto traído com um tiro acabaria em pleno altar com o casamento de Maria e Amadeu.

Na terceira fase passada em São Paulo, Maria da Paz surge como uma rica empresária do ramo de bolos, revelando o quanto Juliana Paes é uma estrela cativante, assumindo o tom cômico de uma mulher do povo que ascendeu socialmente, sem perder a sua essência

Na terceira fase, em São Paulo, temos uma Maria da Paz diferente, rica confeiteira, mãe da ambiciosa Josiane (Agatha Moreira, precisa), que sonha em ser uma digital influencer de sucesso. Juliana Paes, divertida e cativante, traz-nos uma reinvenção maravilhosa da Maria do Carmo de “Rainha da Sucata”, com a sua própria marca de gloriosa estrela (Maria do Carmo foi interpretada pela atriz Regina Duarte na novela de Silvio de Abreu em 1990, exibida também na faixa nobre da Rede Globo).

Família de desvalidos liderada por Marco Nanini, rivalidade entre as irmãs vividas por Paolla Oliveira e Nathalia Dill, Reynaldo Gianecchini como um sedutor cafajeste, Monica Iozzi como uma espertalhona assessora de digital influencer, e Malvino Salvador como um empresário que se apaixona por Rock, o lutador interpretado por Caio Castro, são grandes ganchos da novela  

O que dizer de uma família hilária de desvalidos que reúne Marco Nanini, Betty Faria, Tonico Pereira e Rosi Campos, além de Caio Castro, formidável como o bronco aspirante a lutador Rock? Nela, há talentos promissores, como Glamour Garcia (a transexual Britney), impagável, e Bruno Bevan, seguro. Há o que se esperar da rivalidade que surgirá entre as irmãs boa e má, Vivi e Fabiana, separadas na infância por uma tragédia, defendidas respectivamente por Paolla Oliveira e Nathalia Dill, ambas inspiradas. Suely Franco, como a simples e sonhadora Marlene, Nathalia Timberg, como a pernóstica Gladys, e Ary Fontoura, como o bem-intencionado advogado Antero, estão dando um show. Reynaldo Gianecchini faz como ninguém o galã/cafajeste/bon vivant Regis. Monica Iozzi está perfeita com sua ironia sofisticada ao viver Kim, a esperta assessora de Vivi Guedes (suas cenas com Márcio, braço direito de Maria da Paz, personificado pelo ótimo Anderson Di Rizzi, prometem). Heloisa Jorge, como Gilda, tem a sua grande chance de mostrar a ótima atriz dramática que é, na fase da doença de sua personagem. Malvino Salvador, como o empresário Agno, frio em seu casamento com Lyris (Deborah Evelyn, sempre charmosa) poderá ter um dos melhores papéis de sua carreira, ao se envolver afetivamente com Rock (uma ousadia gigantesca do autor em reunir como um casal homoafetivo dois dos maiores galãs da emissora).

Walcyr Carrasco, apostando nos ingredientes infalíveis que fazem uma novela fazer sucesso, recoloca o gênero em seu devido lugar de destaque com “A Dona do Pedaço”

“A Dona do Pedaço” cumpre a nobre missão de recolocar as telenovelas em seu merecido lugar de destaque, não apostando em fórmulas milagrosas, mas em ingredientes infalíveis de um bom folhetim, com uma excelente história em que não faltam amores impossíveis, traições, humor e polêmicas, além de um elenco fabuloso e de uma direção competentíssima.

 

 

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Foto: João Cota/TV Globo

O bem-vindo retorno de Aguinaldo Silva ao realismo fantástico, gênero que o consagrou 

Depois de uma trama com elementos realistas no horário nobre da Rede Globo (“Segundo Sol”, de João Emanuel Carneiro), Aguinaldo Silva, um dos mais respeitados e consagrados teledramaturgos do país, resolveu retomar um gênero que lhe é bastante caro, o realismo fantástico (visto nas obras literárias de Gabriel García Marquez e cinematográficas de Luis Buñuel), em sua nova história para a faixa das 21h, “O Sétimo Guardião”. Aguinaldo não se celebrizou somente com este gênero, associado a novelas como “Pedra sobre Pedra”, “Fera Ferida” e “A Indomada” (no ar no canal Viva), haja vista que grandes e indiscutíveis sucessos da televisão, que fugiam deste viés, tiveram a sua assinatura ou coassinatura, como “Império” (reconhecida com o Emmy Internacional) e “Vale Tudo” (também reprisado no Viva, este marco da TV foi coescrito por Gilberto Braga e Leonor Bassères), respectivamente.

Um casamento desfeito em cima da hora, a guerra declarada dos vilões, um gato misterioso e onipresente, e guardiões que mantêm um segredo sobre a maior riqueza da Humanidade 

O autor, nascido em Carpina, Pernambuco, reeditando a parceria exitosa com Rogério Gomes, diretor artístico (“Império”), transferiu os acontecimentos do seu enredo para a fictícia cidade, situada em meio a um vale, sem qualquer sinal de internet, de Serro Azul. Esta localidade é vizinha de outras regiões conhecidas pelo público de alguns folhetins de Aguinaldo, como Tubiacanga (“Fera Ferida”) e Greenville (“A Indomada”). Mas, em seu primeiro capítulo, a sinopse se inicia em São Paulo, na sofisticada e moderna mansão de Valentina Marsalla (Lilia Cabral, atriz que esteve presente em muitas telenovelas do escritor), nos momentos que antecedem o casamento de seu filho Gabriel (Bruno Gagliasso) e Laura (Yanna Lavigne), filha do poderoso empresário Olavo (Tony Ramos). O enlace, a despeito dos jovens se gostarem, faz parte de um vultoso acordo financeiro firmado entre os pais dos nubentes. Deste acordo depende a sobrevivência dos negócios de Valentina. Ansiosa, trajando um belo vestido vermelho, destratando a sua secretária Louise (Fernanda de Freitas), a prepotente mulher se comunica com o seu filho, que já está a caminho. No trânsito caótico da metrópole paulistana, Gabriel se depara com o enigmático gato León. Horas antes, acompanhamos Padre Ramiro (Ailton Graça) indo de bicicleta a Serro Azul. Em sua trilha, encontra o onipresente felino. Já na cidade, conhecemos um rapaz rebelde e folgazão, Júnior (José Loreto). Júnior e León, o gato, estranham-se. León, visto também pelo índio mendigo Feliciano (Leopoldo Pacheco; Feliciano se disfarça de morador de rua), pertence a Egídio, Antonio Calloni. O gato, na verdade, segundo Judith (Isabela Garcia), sua empregada, sumiu. Ficamos sabendo pelo próprio Egídio que León não lhe pertence, não é um gato, e que não pode desaparecer. O sumiço do animal significa que fora atrás de alguém para substituí-lo em uma importante função. O personagem de Calloni, um guardião-mor, percorre um salão, o “Salão dos Retratos”, onde estão as pinturas dos homens que o antecederam no cargo (são rostos de nomes notórios da televisão, como Carlos Manga, Gonzaga Blota, Herval Rossano, Roberto Talma e Roberto Farias, numa bonita homenagem). Aparece em cena o severo Prefeito de Serro Azul, Eurico, papel de Dan Stulbach (um dos guardiões, junto com Feliciano). O prefeito insinua que se o gato sumiu isso indica que Egídio está para morrer. Mais duas guardiãs se encontram: a esotérica Milu, Zezé Polessa, e a dona de uma pousada/cabaré Ondina, Ana Beatriz Nogueira. Um homem estranho, Robério (Heitor Martinez), observa a dupla e outros guardiões, como o delegado Joubert (Milhem Cortaz; a autoridade policial possui uma suspeita relação com peças íntimas femininas) e o médico José Aranha (Paulo Rocha), caminhando em direção a uma reunião. Após opiniões de lado a lado, Milu avisa aos seus companheiros de irmandade que, segundo a sua coruja empalhada Minerva, o sétimo guardião não será nenhum deles, e sim um forasteiro. Voltando à mansão dos Marsalla, Gabriel, depois de falar com a sua mãe, sempre em um tom tenso, dirige-se ao seu banheiro para tomar banho. Do box, avista León mais uma vez (impressionante a troca de olhares entre ambos). Em seguida, descobre-o no fundo de uma de suas fotos com Laura. Múltiplas imagens desconexas se misturam à sua frente em uma perturbadora visão, fazendo com que se decida a não se casar, e cumprir o seu destino. Mesmo diante do desespero e ira de sua mãe, vai embora. Ela ordena a Sampaio, Marcello Novaes (bom rever esta dupla, no ar em “Vale Tudo”), uma espécie de capanga, a trazê-lo de qualquer jeito, ainda que “morto”. Olavo chega, e interpela Sampaio sobre a ausência de Gabriel. Em uma das melhores cenas da noite, Lilia Cabral e Tony Ramos travam um embate memorável. Ali, naquele instante, ficou selada a guerra declarada do casal (num lance bem sacado da direção, após as ameaças coléricas de Olavo, recebidas com silêncio devastador de Valentina, Tony caminha em “slow motion” em direção à câmera, enquanto a imagem de Lilia fica desfocada). Ao saber de toda a verdade, Laura resolve viajar. Em Serro Azul, surgem outros personagens, como o comerciante Nicolau (Marcelo Serrado), um sujeito grosseirão e divertido que tenta a todo o custo ter mais um filho (para ser um jogador de futebol) com a sua esposa Afrodite (Carolina Dieckmann); Bebeto, Eduardo Speroni, único homem de seus quatro filhos, que adora dançar, para o desgosto de seu pai; e Marilda (Letícia Spiller, com um sotaque particular), a primeira-dama da cidade que guarda um segredo quanto à sua juventude (Marilda é irmã de Marlene/Valentina, que a despreza, e mãe de Júnior). Marina Ruy Barbosa é a professora Luz, moça com poderes sobrenaturais, por quem Júnior é apaixonado. Tem como melhor amiga Elisa (Giullia Buscacio). Bruna Linzmeyer interpreta Lourdes Maria, uma jovem ambiciosa que será a principal rival de Luz (Lourdes se interessa pelo personagem de José Loreto, que não lhe dá a mínima). Larissa Ayres encarna Diana, uma das filhas de Nicolau (mais uma decepção para esse pai que sempre quis um menino para ser um craque dos gramados). Adriana Lessa defende a dona de um salão de beleza, Clotilde, amiga de Marilda. Uma revelação desconcertante é feita: Egídio abandonou Marlene/Valentina anos atrás no altar, em Serro Azul, sendo talvez este o motivo que a tenha deixado tão amarga e infeliz (em cenas de flashback, a atriz Giulia Figueiredo personifica a noiva abandonada aos prantos). O que houve de fato é que Egídio recebeu um chamado do gato León (um enorme mistério o envolve) para ser o guardião-mor do segredo da fonte da gruta da cidade, tendo que abrir mão de toda a sua vida. Lucci Ferreira representa o radialista Patrício Nasser. Houve passagens de “gore movie”, subgênero dos filmes de terror, no primeiro capítulo: após uma conversa com o seu avô zeloso, Sóstenes, Marcos Caruso, a bela Luz vê a sua xícara tremer, e sair de seu interior uma mão assustadora. Caio Blat vive Geandro, o filho mais velho do prefeito e de Marilda, que está num processo de reabilitação de sua dependência das drogas. No casarão em que deve ficar o guardião-mor, Egídio abre uma porta, e chega ao esconderijo que vigiou por tanto tempo, a fonte em cujo fundo de suas águas se encontra a maior riqueza da Humanidade. Lá, encontra o gato León, e a impressão que temos é a de que as suas palavras para o felino foram derradeiras (vale ressaltar a excelente cena com Antonio Calloni, e a beleza deslumbrante do lugar com suas águas azuis hipnotizantes, com um trabalho primoroso de fotografia e cenografia). Enquanto isso, ocorre uma perseguição implacável de carros envolvendo Gabriel e Sampaio, até que o carro do primeiro, em uma sequência de takes cinematográficos, despenca de uma ribanceira. Luz, em seu quarto, passa a ter visões aterrorizantes, como a do rapaz ensanguentado escorado na guarda de sua cama lhe pedindo para que o salve. Sabendo da existência da maior riqueza do mundo em Serro Azul, e certo que Gabriel está morto, Sampaio revela sua imensa crueldade e ganância ao enterrar o jovem em uma cova rasa (uma cena digna dos mais sombrios filmes de horror). O que Sampaio não sabe é que Luz fora avisada por León sobre algo errado que está acontecendo, e que a moça se encaminha para o local, sem saber verdadeiramente o que houve (a aparição de Luz trajada de branco nos remeteu às lendárias e fantasmagóricas mulheres que andam sós pelas estradas, e assustam os motoristas). Sempre em dúvida se está sonhando ou acordada, Luz vê a mão de Gabriel emergir da terra, sob as vistas do gato. Ao vê-la se mexer, socorre o rapaz, que ao acordar, pergunta-lhe: – Você é um anjo? E finaliza: – Eu tô no céu.

O equilíbrio alcançado por Aguinaldo Silva com os múltiplos elementos de um folhetim, e a direção arrojada que traduz com excelência as intenções do autor  

Aguinaldo Silva, com a colaboração de Joana Jorge, Mauricio Gyboski e Zé Dassilva (a sinopse foi desenvolvida pelo autor com os seus alunos do curso Master Class) engendrou uma história com elevado potencial de entreter e prender a atenção dos telespectadores. O equilíbrio minuciosamente calculado em suas tramas e subtramas entre os elementos de fantasia e misticismo, doses de horror, suspense, romance, humor e ação confere à novela atual qualidades incontestes, confirmando a relevância deste produto teledramatúrgico. A retomada, por parte de Aguinaldo, de um dos gêneros que o consagrou (o realismo fantástico), e que estava em falta na TV, não só refresca a linguagem televisiva deste horário, como serve de estímulo àqueles que se cansaram de assistir a entrechos exclusivamente urbanos com tintas demasiado reais.  A direção artística de Rogério Gomes e geral de Allan Fiterman, e a direção de Luciana de Oliveira, Fabio Strazzer, Davi Lacerda, Guto Arruda Botelho, Pedro Brenelli e Caio Campos expuseram ampla excelência neste primeiro episódio, no qual se perceberam fluidez das cenas, tomadas ousadas que aproveitaram as locações internas (como as mansões de Valentina e Olavo), e externas, como o casarão dos guardiões, belas panorâmicas, takes áereos, cortes rápidos e sobreposição dinâmica e veloz das imagens. Não podemos deixar de mencionar as ótimas cenas das quais fez parte o gato León (são na verdade três “gatos”, um real da raça americana bombaim, que se assemelha a uma minipantera, outro “animatronic”, um gato mecanizado, e outro criado por computação gráfica).

Um elenco espetacular que marca o primeiro encontro real de Lilia Cabral e Tony Ramos em novelas 

O elenco de “O Sétimo Guardião” prima pela diversificação de talentos. Lilia Cabral e Tony Ramos, contracenando incrivelmente pela primeira vez, arrebataram-nos com a sua promissora dupla de vilões (por sinal, também é a primeira vez que Tony faz uma novela de Aguinaldo com um personagem). Bruno Gagliasso e Marina Ruy Barbosa formarão um par romântico que, ao que parece, irá movimentar as torcidas nas redes sociais. Os intérpretes que defendem os guardiões são artistas dignos de merecidos elogios, como Antonio Calloni, Ana Beatriz Nogueira, Zezé Polessa, Dan Stulbach, Leopoldo Pacheco, Milhem Cortaz e Paulo Rocha. Há também os ótimos atores que voltaram a trabalhar com o autor, como Letícia Spiller, Marcello Novaes, Marcelo Serrado, Carolina Dieckmann, Caio Blat, Ailton Graça, Heitor Martinez, Adriana Lessa e Lucci Ferreira. Atores de outras gerações deram a sua valiosa contribuição, como José Loreto, Bruna Linzmeyer, Fernanda de Freitas, Yanna Lavigne, Giullia Buscacio, Eduardo Speroni e Larissa Ayres. E para completar, as presenças ilustres de atores como Marcos Caruso e Isabela Garcia.

Elogiáveis abertura, direção de fotografia, figurinos, produção de arte e trilha sonora com Fleetwood Mac 

A bonita e vertiginosa abertura coube a Alexandre Romano, Christiano Calvet, Daniel Tumati e Caramurú Baumgartner. Com efeitos de computação gráfica e animação, calcada em imagens caleidoscópicas, com o colorido que lhe é inerente, a abertura começa com o abrir estilizado dos olhos do gato/personagem. Em seguida, a câmera nervosa faz movimentos rápidos e acrobáticos pela cidade grande (São Paulo) e por Serro Azul. Lugares emblemáticos da região fictícia, como a gruta, a igreja e a pousada são retratados, sendo que em alguns deles objetos característicos são aumentados de modo irreal. O ritmo da abertura segue com fidelidade aos acordes da maravilhosa música “The Chain”, do grupo anglo-americano Fleetwood Mac. A caprichada direção de fotografia ficou a cargo de Sergio Tortori. A figurinista Natalia Duran Stepanenko cumpriu com esmero e coerência a sua missão. Mirica Vianna realizou uma impecável produção de arte. Com a gerência musical de Marcel Klemm e as músicas originais de Rodolpho Rebuzzi e Rafael Langoni, a produção ganhou em qualidade (a trilha original desenhou com perfeição as cenas). Canções como “Melatonin” (Phoria), “These Boots Are Made For Walkin'” (Lewonda), “Truth” (Alexander Bert), e “Pra Swingar” (Som Nosso de Cada Dia) nos embalaram, e nos fizeram “sentir” com muito mais prazer a história.

A quem caberá o papel do oitavo guardião? 

“O Sétimo Guardião” estreou com a força necessária para nos transportar para um mundo mágico, livrando-nos um pouco da dura realidade que nos cerca, sem no entanto abrir mão das peças que montam o quebra-cabeças de um verdadeiro folhetim. Uma trama instigante e bem urdida, personagens atraentes interpretados por um elenco de primeira, e uma direção competentíssima que sabe traduzir em fascinantes imagens a riqueza de uma boa ficção nos garantem a diversão de se assistir à nova obra de Aguinaldo Silva. Enquanto Léon sai em busca do “Sétimo Guardião”, nós, o público, já somos o oitavo. Afinal, sabemos guardar na memória o segredo de uma ótima novela.