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Foto: Estevam Avellar/Gshow

Estreia a aguardada supersérie de George Moura e Sergio Goldenberg 

Ao se ter a notícia de que haveria uma supersérie escrita pela dupla de autores George Moura e Sergio Goldenberg, que escreveram tanto a minissérie “Amores Roubados” (que será regravada em espanhol com outros intérpretes) e o remake da novela “O Rebu”, tendo como o seu diretor artístico José Luiz Villamarim (diretor de ambas as produções citadas), o público assíduo destes dois gêneros teledramatúrgicos imediatamente cria auspiciosas expectativas. Ademais, este trio competentíssimo de profissionais costuma reunir em seu elenco atores do mais alto calibre com quem já trabalhou, além de apostar em nomes já estabelecidos no mercado, mas com os quais não teve ainda uma parceria. Na noite de ontem, finalmente estreou na Rede Globo “Onde Nascem Os Fortes”, protagonizada por um time de artistas de distintas gerações, todos com reconhecimento pelos seus talento e trajetória, como Patricia Pillar, Alexandre Nero, Fabio Assunção, Debora Bloch, Marco Pigossi, Gabriel Leone, Alice Wegmann, Jesuíta Barbosa e Maeve Jinkings. A história, com ares de western contemporâneo, é passada na cidade fictícia de Sertão (as impressionantes locações, que mostram o semiárido brasileiro, situam-se nos estados do Piauí, no Parque Nacional Serra da Capivara, e Paraíba – na cidade de Cabaceiras, no Cariri paraibano), no interior nordestino.

Uma história com amores intensos e ódios acirrados

O primeiro capítulo, logo em sua cena inicial, já nos revela o jeito particular de Villamarim dirigir. Com uma câmera acoplada a uma bicicleta de trilhas, fazemos o mesmo percurso inóspito realizado pela jovem destemida Maria (Alice Wegmann com os cabelos curtos e desconstruídos), nos confins desérticos de Sertão. Enquanto isso, outro jovem, tão aventureiro quanto, o paleontólogo Hermano (Gabriel Leone com um visual bem oposto ao mostrado em “Os Dias Eram Assim”), acompanhado da motorista de seu pai, Gil (Clarissa Pinheiro), numa caminhonete, regozija-se de suas recentes descobertas científicas locais. Após ter a sua bicicleta quebrada, Maria é abordada por rapazes mal-intencionados, sendo salva por Hermano. A partir deste casual encontro começará um romance com tintas shakespearianas, com bastantes conflitos entre as famílias do casal, impedindo a consumação de seu amor. Hermano é filho de Pedro Gouveia, um empresário poderoso e temido, dono de uma fábrica de bentonita, vivido por Alexandre Nero, e Rosinete, Debora Bloch, uma sofrida e abnegada mulher que se dedica a cuidar de sua filha enferma, Aurora, Lara Tremouroux. Maria é irmã gêmea do irresponsável e mulherengo Nonato, Marco Pigossi. O paleontólogo dá uma carona à bonita moça de Recife até o famoso Bar do Chico. Lá chegando, vê que seu irmão está envolvido em um jogo perigoso com armas e bebidas, e o repreende. Fica-nos clara a relação forte e simbiótica que há entre os irmãos, tão unidos quanto distantes no comportamento. Hermano e Maria combinam de se encontrar no show de Shakira do Sertão (Jesuíta Barbosa) na boate Bodão. A mãe dos gêmeos, Cássia (Patricia Pillar), uma empenhada engenheira química, não consegue qualquer contato com os seus filhos. Cássia esconde um segredo de seu passado que envolve a sua passagem por Sertão. Voltando à personagem de Debora Bloch. Rosinete, traída pelo seu marido com Joana (Maeve Jinkings), funcionária da empresa, como já dito, devota a sua vida à filha (há uma cena com grande sensibilidade e beleza em que Rosinete banha cada parte do corpo de Aurora com delicadeza). Católica fervorosa, a mãe zelosa, descrente dos médicos, agarrada ao seu terço, exercita-se correndo na escuridão da noite do deserto, sob a luz só de uma lanterna e o som companheiro de seu fone (a direção captou inspiradas e belas imagens noturnas de Debora correndo, com angulações de câmera inventivas). Enquanto corre, faz as suas preces. Apesar de não ser tão presente, Pedro demonstra carinho pelos filhos. Na boate Bodão, em uma das melhores cenas do capítulo, Shakira do Sertão se apresenta cantando o clássico de Rosana, “O Amor e o Poder” (incrivelmente produzido, exalando sensualidade e sedução, Jesuíta nos conquista com a sua performance estudada; seu personagem, na verdade Ramirinho, filho do juiz Ramiro, Fabio Assunção, que desconhece a sua vida dupla, promete ótimos momentos). A dança luxuriosa de Shakira encanta os irmãos. Contudo, Nonato decide ir para outras paragens, enquanto Maria espera por Hermano. Não muito longe, pessoas do local se reúnem, bebem, e se exibem com suas motos barulhentas. Pedro Gouveia, fugindo da solidão de casa, chega ao lugar, sendo bajulado por todos. Neste instante, Nonato já havia conhecido Joana em um bar. Pedro se aproxima, e espanta o rapaz galanteador. Embriagado, o filho de Cássia deixa um recado para a sua irmã no celular, sem sucesso. Desnorteado, retorna ao bar, e provoca o empresário, sendo enxotado pelos seus capangas. Nesse mesmo tempo, Maria e Hermano visitam as deslumbrantes cavernas com pinturas rupestres de Sertão (as gravações foram feitas no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, com suas pinturas reais). Após Hermano lhe ensinar sobre a história das pinturas, em meio ao cenário fascinante de pedras, os jovens trocam carícias e beijos. Em um descampado, com ventos de poeira iluminados pelos faróis do carro parado, Nonato é brutalmente espancado pelos capangas de Gouveia. Em outro lugar sinistro, Gouveia ameaça o rapaz ensanguentado, mas decide lhe dar uma chance. O moço “louco”, quase desfalecido, enfrenta seu oponente, que, furioso, encosta a arma em seu rosto, ameaçando atirar. Não sabemos o que de fato ocorreu com Nonato, o mote da sinopse da supersérie. Em seguida, surge a figura imponente do juiz Ramiro treinando caça, ao lado de seu guarda-costas Damião, Pedro Wagner. O tiro de seu rifle faz a ponte com a cena de Nonato que ficou em aberto. O capítulo de estreia de “Onde Nascem Os Fortes”, que tem a colaboração de Flavio Araújo, Mariana Mesquita e Claudia Jouvin, termina com Damião colocando em Ramiro o seu impecável terno branco, que ao final diz: – Todos os dias são do caçador”.

Texto bem estruturado e envolvente e direção habilidosa e inventiva 

O texto de George Moura e Sergio Goldenberg é bem estruturado, envolvente, com bons personagens construídos, em que se veem elementos com capacidade para segurar o interesse dos telespectadores pelos seus próximos episódios. Em seu entrecho, há fartas doses de amor (seja ele romântico ou familiar), ódio, sede de justiça, espalhadas sobre um terreno árido e sem lei (ou com leis próprias), no qual se impõem o coronelismo e toda a sua implacabilidade, algo recorrente até nos dias atuais. A direção de José Luiz Villamarim, neste primeiro capítulo, ostentou a sua qualidade genuína com influências nitidamente cinematográficas. José Luiz valoriza os movimentos, a ação, os closes, as panorâmicas, as distâncias e os olhares inusitados vistos pela lente de sua câmera (a supersérie tem ainda como diretores Walter Carvalho e Isabella Teixeira, com direção geral de Luisa Lima).

Um elenco primoroso formado por atores de gerações distintas

O elenco é um dos pontos altos da atração, transmitindo com enorme credibilidade as nuances do perfil de seus personagens. Patricia Pillar, como Cássia, segura e cativante, esbanjou o apego que sente pelos filhos, enquanto Debora Bloch nos convenceu com o seu brilho nato como a mãe infeliz e incrédula com a doença de sua filha e o casamento falido. Alexandre Nero compôs com notável precisão os traços que definem Pedro Gouveia, seja ao nos passar a sua aura de poder, mando e desmando, seja ao revelar o seu lado amoroso como pai. Fabio Assunção, em uma única cena, prometeu-nos uma sublime interpretação, num papel totalmente diferente daqueles que já fez em sua prodigiosa carreira. Marco Pigossi, em participação especial, construiu Nonato com acertadas camadas de rebeldia, carência, insolência e irracionalidade. Gabriel Leone e Alice Wegmann, excelentes escalações, possuem potente química como casal, provando-nos o porquê de serem considerados uns dos melhores atores jovens surgidos em sua geração, assim como Jesuíta Barbosa, um intérprete de cinema que se supera a cada trabalho em televisão (Jesuíta tem um carisma, uma docilidade pessoal que o distingue sobremaneira). Maeve Jinkings, respeitável atriz, uniu com equilíbrio a sensualidade e o carinho de Joana com relação ao seu amante, sem abrir mão da firmeza de seu papel nas sequências de tensão. Lara Tremouroux imprimiu com emoção à sua personagem Aurora as cargas exigíveis de fragilidade, vulnerabilidade e ternura. Clarissa Pinheiro, como Gil, em suas rápidas aparições, indica-nos uma boa participação.

A direção de fotografia de Walter Carvalho, a produção musical irresistível e a abertura com Zeca Veloso 

A irretocável, como de costume, direção de fotografia de Walter Carvalho aposta na luminosidade pujante, clara e ensolarada do universo desértico do sertão do Nordeste, na crueza realista sem tons fortes das cenas cotidianas, nas cores das luzes que alumiam a festiva noite da cidade, e na exploração de contrastes noturnos nos locais abertos e vazios (como na cena de Rosinete correndo). A fotografia usada nas cenas do casal de jovens no interior da caverna também merecem destaque. A produção musical de Eduardo Queiroz se sobressaiu pela coerência e adequação das músicas selecionadas, como a belíssima “Vapor Barato”, na voz de Gal Costa. A música original de Marcell Klemm também cumpriu com congruência sua missão de emoldurar melodicamente os quadros cênicos. A abertura de Alexandre Romano, Flavio Mac e Christiano Calvet, composta por recortes de imagens de cenas da supersérie em variados matizes, é embalada pela voz aguda e afinadíssima de Zeca Veloso, com Caetano Veloso, Moreno Veloso e Tom Veloso, na encantadora “Todo Homem” (há um refrão que se encaixa na busca infatigável de Cássia pelo filho desaparecido: “Todo homem precisa de uma mãe”).

Por que “Onde Nascem Os Fortes” merece ser vista

“Onde Nascem Os Fortes” corrobora o investimento da emissora em produzir com cada vez mais qualidade, excelência e apuro estético as superséries, valorizadas por dramaturgias elaboradas, elenco exponencialmente capacitado e diversificado, e direção não raro primorosa. Não à toa muitos intérpretes demonstram a sua vontade de atuar nessas obras. Não faltam motivos para se acompanhar esta história com personagens tão ricos e ao mesmo tempo brasileiros, em terras não menos brasileiras. Os sentimentos e conflitos são universais, mas o olhar do espectador de nosso país se identificará com uma de suas raízes nas plagas do interior esquecido do Nordeste, com todas as suas contradições, disputas de poder, e ausência de leis, com a exceção da “Lei do Mais Forte”. Nos torrões onde nasceram os fortes Pedro Gouveia e Ramiro, nos quais “Todos os dias são do caçador”, “caças” como os “Nonatos da vida” poderão ganhar a sua voz na força de mulheres como Cássia e Maria. E tudo poderá se transformar em “Onde Nascem As Mulheres Fortes”.

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Foto: TV Globo

Um dos capítulos mais marcantes de “O Outro Lado do Paraíso” 

As cenas de ontem à noite de “O Outro Lado do Paraíso”, novela das 21h da Rede Globo escrita por Walcyr Carrasco, que envolveram o julgamento do delegado Vinícius (Flávio Tolezani), acusado de ter molestado diversas vezes a sua enteada Laura (Bella Piero) quando esta tinha apenas oito anos de idade definitivamente abalaram os telespectadores brasileiros por seu alto grau de impacto, emoção, choque e verossimilhança. Há muito tempo não se via em nossa teledramaturgia uma sequência dramática desta magnitude nas dependências de um tribunal, com a participação de tantos personagens importantes para o desenvolvimento de sua história, com um texto de extrema relevância para a sociedade (o crime de pedofilia), dirigida de forma absolutamente irretocável e magistral por Mauro Mendonça Filho (diretor artístico) e André Felipe Binder (diretor geral). Não só a maneira corajosa e cautelosa com a qual o seu autor tratou o tema desde o início de sua trama contribuiu para o sucesso e o interesse por este núcleo específico, mas as atuações arrebatadoras, comoventes, coerentes e sensíveis de seus atores foram essenciais para o ápice de seu enredo no capítulo passado.

O caminho percorrido até o julgamento de Vinícius 

Fazendo parte do mirabolante plano de vingança de Clara (Bianca Bin), auxiliada pelos seus pretendentes Patrick (Thiago Fragoso) e Renato (Rafael Cardoso), o desmascaramento do delegado corrupto e cínico vivido por Flávio Tolezani, que já trabalhou com Walcyr Carrasco em “Verdades Secretas” e “Êta Mundo Bom!”, deu-se de modo paulatino, com vieses investigativos regados a doses fartas de suspense. A vítima dos abusos, a doce Laura (Bella Piero), sempre foi associada a uma jovem com comportamento estranho e antissocial. Sua relação com o padrasto era invariavelmente tensa, e sua mãe, a fútil e zelosa esposa Lorena (Sandra Corveloni), não lhe dava a atenção merecida. Laura não se relacionava com rapazes, até que conheceu o médico Rafael, interpretado por Igor Angelkorte. O carinho e as sinceras intenções demonstradas por ele logo conquistaram a arredia moça. À medida que o namoro assumido avançava, com a contrariedade patente de Vinícius e a anuência da mãe, as complicações de relacionamento do casal apareciam. Laura tinha evidentes dificuldades de ser tocada, acariciada. A afetuosidade lhe parecia algo repulsivo. E o sexo lhe soava agressivo e aterrorizante. Este comportamento pouco comum da filha de Lorena deixou seu namorado confuso e desorientado. Ao contar para o seu colega Renato o que estava se passando, Rafael acabou dando as ferramentas que faltavam para Clara iniciar a sua vingança contra o delegado. Com o casamento dos jovens, o problema de Laura se acentuou, e as desconfianças sobre o seu passado com o padrasto recrudesceram. Em sua lua de mel, um bicho de brinquedo em forma de tartaruga lhe foi clandestinamente entregue (na verdade, pelo delegado), causando-lhe um surto emocional. Com a ajuda da advogada Adriana (Julia Dalavia), que domina as técnicas de “coach”, na qual se inclui a hipnose, a namorada de Rafael faz uma regressão, e se lembra de todos os abusos sexuais sofridos em uma antiga casa onde moravam. Somente com a empregada Sebastiana (Ilva Niño) na residência, a pequena Laura brincava no quintal, próxima a um tanque de tartarugas. Aproveitando-se que sua mulher trabalhava fora, Vinícius molestava a indefesa menina repetidas vezes, deixando-a quase sempre machucada, com manchas aparentes pelo corpo. Clara, Patrick e Renato, com o auxílio do delegado Bruno (Caio Paduan), empenharam-se na busca de provas materiais e testemunhais que pudessem levar à condenação do suspeito. Alzira (Bela Carrijo), mãe de mais uma vítima, esta com doze anos, foi encontrada. O laptop do delegado foi apreendido, mas nada parecia suficiente para incriminá-lo (havia em seus arquivos uma galeria de fotos de moças, mas sem conotação sexual). O julgamento ocorreu em mais de uma sessão, o que rendeu a Patrick, assistente de acusação (o papel de promotor coube a Charles Fricks), a possibilidade de achar Sebastiana, muito doente, em um asilo. Os depoimentos a favor de Laura até então foram infrutíferos, combatidos com veemência pelo advogado de defesa personificado por Ernani Moraes. Durante todo o embate jurídico, sob os olhares atônitos da audiência, Vinícius se manteve impassível, certo de sua absolvição. Até que a empregada idosa depõe, causando espanto e assombro com suas revelações escabrosas sobre as violências sofridas pela menina. O seu silêncio, motivado por medo e necessidade de sobrevivência, fora perdoado pela vítima. Nesse tempo, as reações de Lorena provavam a sua impotência e desespero diante da verdade dos fatos que se desvelava. Arrolada como testemunha de defesa de seu marido, Lorena, em depoimento comovente, sofrido e tocante, assume que nunca enxergara o que realmente estava diante de seus olhos, afirmando que o inimigo pode estar bem ao seu lado (nesta hora, numa cena bastante indicativa, Clara olha de soslaio para Renato, que está ao seu lado). O jogo vira contra Vinícius. O delegado, acuado, não deixando o seu peculiar cinismo, confessa os seus abjetos crimes. Ridiculariza a sua esposa. Diz que se casou tão somente para ter próximo de si quem de fato desejava, a sua filha Laura, uma criança. Vinícius debocha das leis e da integridade humana, nesse caso, de uma menina. Com os assistentes aturdidos com os desdobramentos surpreendentes e chocantes do caso, o juiz Gustavo (Luis Melo) sentencia o réu à condenação. Vinícius caminha indiferente no tribunal com um sorriso de escárnio no rosto, ouvindo gritos de indignação dos presentes.

O texto afiado, a direção impecável e as atuações arrebatadoras 

Este foi, sem dúvida, um dos melhores capítulos de toda a novela de Walcyr Carrasco. Com boa orientação jurídica, Walcyr conduziu esta precípua passagem do folhetim com inegáveis propriedade e excelência. A direção sensível e inteligente de Mauro Mendonça Filho e equipe não deixou escapar uma reação sequer dos personagens. Cada olhar, cada gesto, cada movimentação em cena, cada fala mereceu o seu destaque. Os atores foram brilhantes em suas atuações, com suas emoções e sensibilidades à flor da pele. Se para nós telespectadores assistir ao desfecho desta história foi difícil e penoso, o mesmo deve ter ocorrido com o elenco. Flávio Tolezani impressionou com sua postura fria e gélida. Seu olhar parado, fixo, insensível, típico dos criminosos, chocou . O seu descarado cinismo perante os seus pares nos provocou incômodo. Flávio Tolezani é um excelente ator, e esta foi uma das melhores, senão a melhor, interpretação de toda a sua bem-sucedida carreira. Sandra Corveloni, também ótima atriz, passou-nos com pungência a grandeza da dor da traição e da humilhação sofridas. Seu pranto, seus olhos perdidos, e sua fraqueza como mulher e como pessoa diante do peso da verdade cruel nos comoveram profundamente. Bella Piero, tão jovem, teve que enfrentar em seus primeiros anos de profissão um desafio assustador, e se revelou uma intérprete com enorme maturidade, defendendo com dignidade, verdade e emoção, do começo ao fim, o percurso doloroso de Laura, sem perder a ternura que a caracteriza. Igor Angelkorte, um artista possuidor de trabalhos elogiados no teatro, e que vem construindo uma bela carreira na televisão, provou-nos a sua enorme capacidade emotiva e sua fonte legítima de sensibilidade ao dar vida ao médico que acompanha o sofrimento de sua namorada desde o início, não a abandonando em nenhum momento. Igor sai fortalecido profissionamente desta novela. Thiago Fragoso dominou completamente o seu personagem Patrick, ostentando toda a firmeza, segurança, determinação e empenho que se espera de um habilidoso advogado. Thiago Fragoso defendeu com altivez e brio o seu assistente de acusação. Luis Melo, um intérprete com inúmeras e incontestes qualidades, impôs-se como o austero juiz Gustavo. Luis se vale de olhares discretos e eloquentes para nos dizer o que pretende. Somente atores de sua relevância e talento o conseguem. Ernani Moraes, com sua destreza interpretativa, criou um advogado de defesa perspicaz, agressivo e manipulador. E, por último, a presença de uma notável atriz, Ilva Niño, querida e talentosíssima, que já nos sensibilizou em novelas como “Água Viva” e nos divertiu em “Roque Santeiro”. Que escalação perfeita trazer de volta à tela esta artista que merece toda a nossa reverência. Sua atuação como Sebastiana foi contundente e inesquecível.

A mensagem do autor, e a lição que fica 

Enfim, um capítulo que vai ficar em nossas memórias, em todos os sentidos. Nunca se falou tão abertamente e com enorme mérito sobre pedofilia na ficção, em pleno horário nobre, e na TV aberta. Walcyr Carrasco e toda a sua equipe de colaboradores, diretores e elenco merecem os nossos parabéns. Um passo importante contra este crime foi dado. Usou-se um meio de comunicação poderoso como a televisão como forma de esclarecimento, informação e denúncia. Um relevante serviço social. A pedofilia não vai acabar, mas haverá muito mais pessoas conscientes, prontas e dispostas a denunciá-la. Em 20 de fevereiro de 2018 vimos em “O Outro Lado do Paraíso” a confirmação do trecho da música de abertura da novela “Boomerang Blues”, de Renato Russo: “Tudo o que você faz Um dia volta pra você E se você fizer o mal Com o mal mais tarde você vai ter de viver…”. Alguns ainda saberão disso. Na novela… e na vida.

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Foto: Sergio Zalis/Rede Globo

Ontem à noite, o público cativo das 19h certamente se embeveceu e se inebriou com o primeiro capítulo de “Deus Salve o Rei”, a nova novela do horário na Rede Globo, marcando a estreia de Daniel Adjafre como autor titular na emissora. Jamais vimos na teledramaturgia brasileira, com o auxílio bem-vindo das tecnologias da computação gráfica, cenas tão grandiloquentes e exuberantes, somente vistas nas telas de cinema, servindo a uma trama medieval com todos os requintes que ela merece, com disputas entre reinos, casamentos prometidos, lutas entre príncipe e salteadores, belas princesa e plebeia, e reis em conflito. Tanta grandiosidade visual, associada naturalmente à Sétima Arte, fez com que este primeiro capítulo fosse exibido em seis capitais do país. Com direção artística de Fabrício Mamberti, a história começa com expressivas imagens congeladas de soldados em brutais e sangrentas batalhas campais (algo como a técnica “tableau vivant”, conferida no filme de Martti Helde, “Na Ventania”). Somos apresentados aos primórdios do enredo pela voz de Rosamaria Murtinho, a Rainha Crisélia, do Reino de Montemor. Segundo ela, durante 300 anos, o Reino sempre primou pela proteção de suas fronteiras, vivendo de suas conquistas, tendo fartura e bonança graças à extração de minério de ferro, à lavoura e ao gado. No entanto, não houve a preocupação com bem tão precioso: a água. O rio que o abastecia secou. A saída fora entrar em acordo com o reino mais próximo, Artena. Em troca da água, o minério de ferro. Objetivando a sua independência, é construído em Montemor o grande aqueduto, que demandou anos, e hordas de operários. Chega o dia em que a Rainha Crisélia, ao lado de seu neto, o Príncipe Afonso (Romulo Estrela), entrega aos seus súditos a água esperada, em uma portentosa cerimônia. Para decepção geral, seu jorro minguou. O lago que servia como fonte do aqueduto também secou, anunciou um soldado. Conhecemos o outro herdeiro do trono de Montemor: o atoleimado e mulherengo Príncipe Rodolfo, personificado por Johnny Massaro. Rodolfo é notificado por sua avó sobre o fracasso de sua obra. Numa reunião familiar na Sala do Trono, fica decidido pela Rainha que a paz existente entre os Reinos de Montemor e Artena, que já dura 50 anos, será mantida, e com isso, o seu acordo. Afonso se prontifica a realizar uma expedição às colinas em busca de uma nova fonte de água. Viajamos para o Reino de Artena, e nos deparamos com a linda e doce Amália (Marina Ruy Barbosa), dona de uma barraca de caldos. Independente, Amália resiste às pressões de seu futuro marido, o comerciante de tecidos Virgílio (Ricardo Pereira), para abandonar o trabalho, e se dedicar exclusivamente a ele. Nas dependências externas do castelo do Rei Augusto (Marco Nanini), ouvimos a composição poética, ao som das cordas de um alaúde, de Istvan, o Marquês de Córdona (Vinícius Calderoni), apaixonado pela bela e soberba Princesa Catarina (Bruna Marquezine), que nos deixa clara a sua rejeição pelo inocente rapaz. Catarina é avisada por Lucíola (Carolina Ferman), sua camareira e confidente, de que o seu pai, Augusto, quer falar com ela. Em sua sala, o Rei Augusto diz a sua filha o quanto preza o seu pretendente, até que são interrompidos pelo conselheiro Demétrio (Tarcisio Filho). Leal ao Rei, informa-lhe sobre o destino malsucedido do aqueduto. Neste momento, testemunhamos a ganância e a falta de ética de Catarina, ao propor ao pai que aproveitem a situação de fragilidade do Reino de Montemor para alterarem o acordo em favor de Artena, sendo imediatamente repreendida pelo justo e honrado Augusto. A cena termina com o Rei comentando: “ É como diz o ditado, Demétrio. Se quiser fazer Deus rir, faça planos. E eu acrescentaria. E se quiser fazê-lo gargalhar, faça planos para seus filhos”. Enquanto isso, em Montemor, após o afetado e fútil Príncipe Rodolfo determinar aos seus criados o que desejaria para a sua festa, uma importante conversa entre os irmãos reais ocorre, na presença do médico Lupércio (Pascoal da Conceição), que cuida de sua avó. Lupércio lhes afirma que os lapsos de memória da Rainha Crisélia estão evoluindo, e que se trata de uma doença desconhecida, sem tratamento (o que no futuro, viria a ser conhecido como o Mal de Alzheimer). Rodolfo revela a sua face mais feia, ao demonstrar friamente o seu desinteresse pela saúde da Rainha. Num colóquio particular, ciente de seu estado clínico, Crisélia comunica a Afonso que o seu desejo é que, quando volte da expedição, assuma o trono. Amália chega à sua casa, e como de costume, seus pais Martinho (Giulio Lopes) e Constância (Debora Olivieri) estão discutindo (o casamento deles foi arranjado). Amália tem um irmão, Tiago (Vinícius Redd). Ambos discorrem sobre o amor e o casamento. Neste instante, a moça deixa transparecer a sua porção romântica e idealista. Em seus aposentos, o Rei Augusto confessa a Demétrio que está na hora de sua filha se casar, e que o Marquês de Córdona seria o seu marido ideal, por ser um homem virtuoso. Assim, Catarina poderia se tornar uma pessoa melhor, mais indulgente, segundo o próprio rei. O Príncipe Afonso se despede de sua avó, e inicia, acompanhado de Cássio (Caio Blat), o Comandante do Exército de Montemor, a expedição em busca de água para o reino. Quinze dias depois, Afonso, um pouco desiludido, diz a Cássio que se não encontrarem água no vale próximo, dará por encerrada a expedição. Constantino, o Duque de Vicenza (José Fidalgo) lhes conta que encontrou restos de comida não muito longe, o que indica a presença de ladrões. Durante a cavalgada, são surpreendidos pelo bando de salteadores. Decorre uma violenta batalha entre os dois lados, com direito a lutas bem coreografadas, e difíceis de serem executadas, vale dizer. Numa sucessão de cenas de violência estetizada, em que corpos são perfurados de forma inclemente por lanças e flechas, sobram mortos e feridos. O Príncipe se afasta de seus aliados, e acaba sendo gravemente ferido por uma flecha. Em Artena, Augusto comunica a Catarina que o Marquês pediu o seu consentimento para se casar com ela, recebendo a sua aprovação, para desgosto da princesa. Amália sai pelo campo com o seu irmão para colher laranjas, rabanetes e manjericão. Tiago vai para um lado, e sua irmã para o outro. De repente, Amália cai com o seu cesto. Próximo dela, o Príncipe desfalecido e pálido. Os olhos da Princesa o miram com paixão. Ele, mesmo desacordado, aperta com força a sua mão, não a largando mais. Em uma bonita cena final, a câmera voa alto sobre o casal, fechando com uma estonteante paisagem de montanhas ao fundo. O texto escrito por Daniel Adjafre e Cláudia Gomes, com a colaboração de Angélica Lopes, Péricles Barros e Sérgio Marques é um primor. Não é fácil engendrar uma trama passada na Idade Média, em locais fictícios, criar personagens condizentes com aquela época, e que sejam ao mesmo tempo críveis, causando empatia nos telespectadores, construir elos entre os núcleos, tornando a fantasia próxima de nós. Tudo isso foi logrado pela equipe de autores, que se esmeraram na construção dos diálogos, inteligentes, sendo alguns muito bem-humorados, e outros emocionantes. Há espaço tanto para o romance, quanto para o drama e a comédia. A direção artística de Fabrício Mamberti e geral de Luciano Sabino, tendo como colaboradores os diretores João Boltshauser, Oscar Francisco, Pedro Brenelli e Bernardo Sá merece quantos elogios forem possíveis. Imaginamos a dificuldade em conduzir e comandar certas cenas, principalmente as de batalhas, e aquelas que necessitam de um considerável número de figurantes e elenco de apoio. Não menos complexas são as cenas entre dois ou três atores, como as com Marco Nanini, Bruna Marquezine e Tarcisio Filho, ou entre Rosamaria Murtinho e Romulo Estrela, que demandaram um intimismo maior, uma delicadeza em seu tempo. O elenco é um acerto indiscutível. A escalação optou por nomes jovens, alguns bastante queridos e admirados pelo público, apostou corajosamente em Romulo Estrela para ser o protagonista masculino, convocou atores experientes, e grandes representantes da arte nacional, como Marco Nanini e Rosamaria Murtinho. Bruna Marquezine, no alto de sua esbelteza, destila a empáfia de Catarina. Marina Ruy Barbosa abusa, para o nosso agrado, de sua formosura para compor Amália. Johnny Massaro, antes de tudo, possui uma veia cômica como poucos de sua idade, mas sabe, da mesma maneira, imprimir a dramaticidade perfeita ao seu personagem, como o fez com Rodolfo. Romulo Estrela tem todos os méritos para se tornar uma das opções de sua geração para protagonizar histórias com as quais o seu perfil se encaixe. O bonito ator, que já brilhou em outras produções da emissora, como “Liberdade, Liberdade”, e mais recentemente na minissérie “Entre Irmãs”, preferiu o caminho da sobriedade e do comedimento, convencendo indubitavelmente na postura e na voz de seu Príncipe Afonso. Caio Blat, Ricardo Pereira, Tarcisio Filho, Pascoal da Conceição, Debora Olivieri, Giulio Lopes, Vinícius Redd e Carolina Ferman defenderam com garbo as exigências dramáticas de seus papéis, enriquecendo cada cena de que participaram. José Fidalgo e Vinicius Calderoni, em suas aparições, já provaram que são garantias de bons momentos no folhetim. Marco Nanini, um de nossos maiores intérpretes, colecionador de personagens inesquecíveis em telenovelas, como “Gabriela” e “Brega e Chique”, além, é claro, do seriado “A Grande Família”, sem trocadilhos, é uma presença nobre em cena, com todo o seu conhecimento interpretativo e inteligência emocional, valorizando cada palavra, cada frase emitida pelo seu Rei Augusto, que já nos conquistou. Marco emprestou ao seu papel a severidade esperada de um soberano, mas também uma sensibilidade irresistível. Rosamaria Murtinho, outra insigne atriz de nossas Artes, faz parte da História de nossa TV, com carreira prodigiosa, assim como Marco Nanini, no cenário teatral, e o convite que lhe foi feito para dar vida à honrada Rainha Crisélia não poderia ter sido mais oportuno. Rosamaria nos transmite uma beleza de interpretação que transcende as telas, não nos poupando de sua vasta emoção ao desenhar os traços delicados e necessariamente austeros de sua Rainha. A cenografia de Keller Veiga e Pedro Equi é deslumbrante em sua amplidão, no que corresponde aos espaços palacianos, e charmosa e coerente no que se refere aos ambientes mais simples, como a casa de Amália. A cidade cenográfica, com suas fachadas e logradouros, impressiona. A cenografia virtual, que nos provoca alumbramento, coube a Marcio Fontes e Glaucio Lazaro. Nininha Médicis ficou encarregada da produção de arte impecável. Cada detalhe, como taças de metal, os elementos que ornamentam a feira de Artena, os aspectos domésticos da morada plebeia, os pontos caracterizadores do banheiro de Catarina nos causam assombro pelo seu capricho e pesquisa. Mariana Sued se incumbiu da confecção dos figurinos riquíssimos. A riqueza dos costumes não se restringe ao sentido literal do termo, com todos os enfeites, ornamentos e filigranas estilísticas das vestes nobres, mas na elegância simplória das vestimentas dos plebeus, e na eloquência estética dos uniformes dos soldados reais (a equipe de figurinistas assistentes e apoio ao figurino é enorme). A direção de fotografia ficou sob a batuta de Alexandre Fructuoso. Alexandre explorou bastantes possibilidades de texturas, filtros e luminosidades. Seu trabalho é irretorquivelmente magistral. Alexandre impingiu um colorido vívido às cenas de multidão, como na inauguração do aqueduto. Escolheu as sombras e meias-luzes nas dependências do palácio, como na conversa definitiva entre o Rei Augusto e a Princesa Catarina, e tonalidades azuladas nas noites do Reino de Artena. Os efeitos especiais de Federico Farfan, e os efeitos visuais de Marcelo Nicacio e Rafael Ambrosio, em associação com a avançada tecnologia da computação gráfica, podem ser definidos, sem hesitação, como excelentes, servindo para o ótimo acabamento estético da produção. A lindíssima abertura foi imaginada por Alexandre Romano, Flavio Mac, Fabricio Duque e Felipe Lobo. Este criativo e inspirado quarteto se utilizou de tons amarelos/dourados fortes (há uma evolução para outras cores, algumas mais escuras), e uma câmera em movimentos contínuos e circundantes que testemunha fatos que aludem ao enredo, com as pessoas simbolizadas por bonecos meticulosamente artesanais (parecem feitos de cobre). Há um séquito de cidadãos plebeus carregando baldes de água em direção a um castelo no alto de uma colina, um casal apaixonado, uma moça fugitiva, rosas e seus galhos retorcidos, chuvas de flechas em uma batalha, uma ave com olhos faiscantes, uma princesa sendo coroada, terminando com um soldado de costas para uma mulher. Uma pequena obra-prima com a voz divina da jovem norueguesa de 21 anos Aurora interpretando a canção folclórica “Scarborough Fair”. As magníficas músicas originais receberam a assinatura de Alexandre de Faria e Rodrigo Marsillac, com gerência musical de Marcel Klemm. As músicas, de caráter essencialmente épico, foram gravadas na República Tcheca pela Orquestra Filarmônica de Praga, no Smecky Music Studio, durante quatro dias (a orquestra está acostumada a fazer trilhas para filmes relevantes, como a trilogia de “O Poderoso Chefão”). O resultado ficou esplêndido. “Deus Salve o Rei”, definitivamente, levando-se em conta o seu inesquecível primeiro capítulo, já entrou para a história da TV brasileira. Muitos são os motivos para prender o telespectador, e fazê-lo acompanhar esta encantadora e mágica história. Por algumas dezenas de minutos, de segunda a sábado, iremos nos sentir como nobres ou plebeus, em Montemor ou Artena, isso não importa. O importante é embarcar nesta fascinante obra teledramatúrgica, cheia de sonhos e fantasia. Se Deus salvou o Rei, também salvou a luz criativa, a ousadia e o talento de toda a equipe da nova novela das 19h, “Deus Salve o Rei”.

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Foto: Ramón Vasconcelos/Gshow

Desde a década de 70 nos acostumamos a assistir pela TV aos clássicos do cinema-catástrofe norte americano, como “O Destino do Poseidon”, de Ronald Neame (1972) e “Inferno na Torre”, de John Guilhermin (1974). Houve um interregno deste gênero, até que nos anos 90 se percebeu o surgimento de muitos longas que tinham os seus roteiros baseados em catástrofes, fossem elas naturais, como “Twister”, de Jan de Bont (1996), ou não, como “Independence Day”, de Roland Emmerich (1996) e “Titanic”, de James Cameron (1997). Com a proximidade dos anos 2000, e suas teorias sobre o fim do mundo, a indústria do cinema lançou obras pessimistas e sobrenaturais, como “Fim dos Dias”, de Peter Hyam (1999). Até hoje são distribuídos no circuito filmes de temática catastrófica, ainda mais com os avanços da computação gráfica. No Brasil, em se tratando de televisão, raros são os casos em que eventos com a magnitude de uma catástrofe foram retratados. Um dos melhores exemplos talvez seja a novela de Silvio de Abreu, “Torre de Babel” (1998), na qual a personagem de Adriana Esteves, Sandrinha, causou a explosão de um shopping. No entanto, não podemos deixar de destacar outras duas novelas exibidas no momento, “O Fim do Mundo”, de Dias Gomes (1996), reprisada no Canal Viva, e “Apocalipse”, de Vivian de Oliveira, na RecordTV. Uma das apostas da Rede Globo para este início de ano é a minissérie de Elena Soarez e Luciano Moura (com a colaboração de Sofia Maldonado), “Treze Dias Longe do Sol”, com a direção artística do próprio Luciano Moura. A minissérie, em resumo, discorre sobre os treze dias em que o engenheiro Saulo (Selton Mello), a médica Marion, filha do dono do prédio que abrigaria uma clínica, Dr. Rupp (Lima Duarte), interpretada por Carolina Dieckmann, Yasmin (Camila Márdila), a filha grávida de um dos operários, Jesuíno (Antonio Fábio), e mais alguns operários tentam sobreviver, após seu desabamento, nos escombros do edifício construído com materiais e quantidades adulterados pelo engenheiro e pela diretora financeira Gilda (Debora Bloch) da Baretti Construtora, de propriedade do inescrupuloso e corrupto Vitor Baretti (Paulo Vilhena), com o intuito de desviar recursos para a compra de parte da empresa. Impossível para nós, telespectadores, não nos lembrarmos de casos reais, como o desabamento de dezenas de apartamentos do edifício Palace II, ocorrido criminosamente em pleno domingo de Carnaval de 1998, matando 8 pessoas, e deixando 176 famílias desabrigadas, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Na cena inicial do episódio “Falha Estrutural”, vemos Saulo defronte ao mar com pensamentos suicidas. Partimos para o prédio em construção, localizado em São Paulo, com sua visão externa. Em seu interior, o engenheiro fita, angustiado, uma enorme rachadura que teima em aparecer em um dos pavimentos. Conversa rapidamente com Gilda ao telefone sobre problemas de pagamento a fornecedores. Fica-nos claro que há uma conta com fundos ilegais que não pode ser mexida. Sob uma chuva torrencial, Vitor chega ao edifício. A relação entre ele e Saulo não é das melhores. Falam acerca da pressão dos compradores do prédio com relação ao atraso de sua entrega, e das iminentes vistorias. Ocorre também um conflito sobre quem deverá ir ao encontro com o prefeito, demonstrando a colaboração deste com práticas ilícitas. Marion chega ao local para vistoriar o andamento das obras (ela representa o seu pai, que está adoentado, recuperando-se de um AVC), percebendo que há ainda muito o que se fazer, sendo sempre contrariada pelo engenheiro. O casal deixa à vista um clima de romance mal resolvido. A chuva continua a cair forte, e um alagamento suspeito irrompe do chão. Yasmin vai visitar o seu pai Jesuíno em seu local de trabalho. Desconhecendo seu estado de gravidez, Jesuíno reage mal. Existe uma relação estranha entre ambos. Na reunião em que se espera a presença do prefeito, Vitor se mostra bastante inquieto devido a negociações espúrias não fechadas. Luciano Chirolli, como Samuel Krieg, representa o prefeito, que já assentiu a negociata com o jovem empresário. Enquanto os operários Zica (Démick Lopes) e Dario (Glauber Amaral) brigam por dívidas, a água continua a brotar do chão. E não é cano estourado. Marion continua a encontrar uma série de irregularidades na obra, como cilindros de oxigênio armazenados. O que se esperava finalmente aconteceu. O prédio desabou. As cenas dirigidas por Luciano Moura e Isabel Valiante são incrivelmente realistas e impactantes, com efeitos especiais de altíssimo nível, similares aos vistos nas produções do gênero americanas. O construtor Vitor fica sabendo do sinistro pelo celular, ao mesmo tempo em que jornalistas, já cientes, fotografam-no impiedosamente. Num ambiente de total desolação, com uma montanha imensurável de concretos em pedaços, carro de Bombeiros e socorristas chegam aos montes. O diretor optou por fazer uma tomada aérea central, a fim de que tivéssemos a real noção da tragédia. A montagem e edição de imagens é rápida, tremida, nervosa, acompanhando a velocidade dos acontecimentos, não poupando o público das cenas de pessoas feridas, ensanguentadas, desacordadas. Uma reprodução fiel do que nos habituamos a assistir nos telejornais. Registros dignos de um atentado terrorista. Passamos para o Quartel de Bombeiros onde se encontra o Capitão Marco Antônio, personificado por Fabrício Boliveira. O Major, enfrentando a resistência do Capitão, que alega estar suspenso, e o Regimento não permite a sua saída, designa-o para ajudar nos resgates. Paira a dúvida sobre o que o Capitão deve ter feito ao ponto de ter sido punido. Lá chegando, toma a frente das operações de salvamento. No imenso escritório central da Baretti Construtora, Gilda, atônita, anda de um lado para o outro dando ordens, até que sabe por Vitor de que tanto Saulo quanto Marion estão soterrados. Dr. Rupp, aos prantos, debate-se em sua cama ao tomar conhecimento da situação de sua filha. Nos resgates, o Capitão Marco Antônio tem que tomar decisões difíceis, que contrariam as normas convencionais de procedimentos de salvação nestes casos. No local das buscas, Gilda, em estado de choque, procura ao máximo atrapalhar o trabalho dos assistentes sociais. Há a suspeita de que Saulo esteja entre os mortos encontrados. Entretanto, Ilana Krieg (Maria Manoella), sua ex-mulher, acompanhada de uma assistente social (Dani Nefussi), não reconhece o corpo, espantando-se ao saber que Marion está entre os soterrados. Num espaço de terror, em meio a poças d’água, jorros de água, escuridão e entulhos, o engenheiro parece catatônico. Ouvem-se gritos de toda parte. Dario, um dos operários, está gravemente ferido, e é socorrido pelo seu irmão Daréu (Rômulo Braga). Um fio desencapado próximo à água os ameaça com a eletrocussão. Entre os sobreviventes, está Bené (Arilson Lopes). Alguns gritam, entre eles Marion: – Saulo, nós temos que sair daqui!. Saulo se levanta e vai em direção aos irmãos, sendo agredido. O engenheiro pega uma pedra, golpeando Daréu na cabeça com brutalidade. A insanidade começa a imperar no universo onde a lei da sobrevivência ditará as regras. O texto de Elena Soarez e Luciano Moura obedece aos preceitos determinantes deste gênero narrativo, cumprindo a sua precípua função de imprimir à trama doses substanciais de ação, terror e suspense, em paralelo, nesta minissérie, a uma rede de intrigas que envolve corrupção, ganância e sede de poder, não abrindo mão, contudo, de conflitos de caráter afetivo. Os diálogos são fluidos, certeiros e afiados, adequando-se à objetividade deste tipo de história. Na categoria em que se insere esta espécie de roteiro não são permitidas cenas demoradas, tampouco conversações longas, atingindo-se desta forma o timing exigido em situações fictícias desta natureza. Luciano Moura e Isabel Valiante se empenharam em retratar em imagens convincentes e chocantes esta série de episódios marcados pelo horror do desabamento de um prédio com pessoas em seu interior. Como já foi dito anteriormente, amparados em efeitos especiais de potência visual inacreditável, procuraram extrair do elenco os principais aspectos definidores das personalidades de seus personagens. Há um elemento comum na quase totalidade das cenas levadas ao ar: a tensão. Uma tensão em diferentes nuances, apropriada ao contexto e à contingência dos fatos. O elenco, muito bem escalado, reúne intérpretes com carreira consolidada no cinema, como Selton Mello, e na TV, como Carolina Dieckmann. Por sinal, é o reencontro deste casal que tanto sucesso fez na novela de Walther Negrão, “Tropicaliente” (1994), como Vitor e Açucena, respectivamente. Selton construiu o engenheiro Saulo com certa frieza e distanciamento. O engenheiro, mesmo ciente de seus atos errados e condenáveis, imbui-se de uma força interna que o faz seguir em frente na prática de seus intentos criminosos. Nota-se, de modo quase imperceptível, um sentimento de culpa em sua consciência (com a exceção da cena inicial). Carolina Dieckmann, como Marion, transmitiu-nos toda a sensação de incredulidade que perpassa os seus sentimentos. Existe em sua relação com o engenheiro vestígios de ressentimento e mágoa. A atriz soube traduzir com distinta eficiência estas impressões de sua identidade. Paulo Vilhena encarna com notável pujança o arrogante herdeiro da Baretti Construtora. Paulo coloriu o jovem ambicioso e corrupto com tintas de cinismo e empáfia, transitando para outra esfera de reações emotivas quando o seu plano de enriquecimento ilícito começa a ruir. Debora Bloch abrilhantou o episódio ao criar uma mulher rude, insensível, gananciosa, que se vale de seu alto cargo para se locupletar. Gilda não se deixa atemorizar ao lançar mão de expedientes reprováveis com o propósito de burlar a lei. A atriz garantiu excelentes cenas à minissérie. Fabrício Boliveira defendeu com grande dignidade o personagem Marco Antônio, Capitão do Corpo de Bombeiros. Seu olhar fixo é sofrido por guardar na memória um fato na profissão que o traumatizou. Todavia, seu entusiasmo em salvar vidas no local do desmoronamento empolga e comove. Por sinal, a cena em que dá ordens aos demais bombeiros, contrariando os procedimentos de praxe, merece menção. Lima Duarte, como Dr. Rupp, dispensa comentários, pois sua simples aparição engrandece e enobrece qualquer produção teledramatúrgica. Luciano Chirolli, importante ator de teatro, valorizou sobremaneira o megaconstrutor Krieg, oferecendo-nos a real dimensão de sua condição como empresário avesso à ética, em conluio promíscuo com o poder político. Camila Márdila, intérprete brasiliense que se destacou no filme “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, personificou com sensibilidade a filha grávida rejeitada pelo pai. Maria Manoella, como Ilana, a ex-mulher de Saulo, expressou tanto o desespero com a possível morte do engenheiro, quanto a decepção ao saber da presença de Marion na obra, o que lhe causou evidente ciúme. Os demais atores do elenco se sobressaíram, como Dani Nefussi (atriz que se notabilizou no longa de Anna Muylaert “Mãe Só Há Uma”), Antonio Fábio, Arilson Lopes (Bené), Démick Lopes, Rômulo Braga e Glauber Amaral. A direção de fotografia de Ralph Strelow e Rodrigo Monte se mostra coerente com a temática, apostando nas tonalidades acinzentadas, frias, cruas. O cinza da obra, dos concretos, do dia chuvoso, além da impessoalidade das salas da grande construtora. A inteligente e difícil montagem coube à dupla Marcio Hashimoto e Lucas Gonzaga. Na instigante abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguelê e Renan de Moraes temos a ótima canção de PJ Harvey, “When Under Ether”, na versão de Beto Villares e Érico Theobaldo. Nela, a câmera passeia por objetos e locações diferenciadas, com suave fusão de imagens. O universo familiar, com móbiles infantis, óculos e aliança se mistura ao local da tragédia, com seus elevadores, suas lâmpadas piscando, a água invadindo o piso, capacetes, crachás e armários de operários. “Treze Dias Longe do Sol”, uma coprodução da Rede Globo com a O2 Filmes, é uma minissérie que traz uma renovação na teledramaturgia brasileira em termos de linguagem, haja vista que não estamos habituados, como dito, a este gênero narrativo. Com cada episódio possuindo um título específico, não seremos poupados de elementos que naturalmente atraem a nossa atenção e interesse, como suspense, ação, intrigas, terror e até um pouco de romance. Veremos a que ponto chega o comportamento humano diante das situações mais adversas, em que a vida e a morte estão intimamente ligadas. Valerá a pena ficarmos os próximos nove episódios em frente à TV. Bem longe do Sol.

 

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Foto: Raquel Cunha/Gshow

Já se viu nas primeiras imagens de “O Outro Lado do Paraíso”, a nova novela das 21h da Rede Globo, com direção artística de Mauro Mendonça Filho e geral de André Felipe Binder, que o seu autor, Walcyr Carrasco, com a colaboração de Nelson Nadotti, Vinicius Vianna e Márcio Haiduck, optou por uma renovação, em alguns aspectos, pois seus elementos basilares não foram preteridos, da narrativa folhetinesca. O seu início, sem as tradicionais aberturas, foi semelhante a um filme, com os créditos (nomes dos atores, diretores etc…) surgindo com o desenrolar de uma cena cotidiana da jovem protagonista da história, Clara, interpretada por Bianca Bin, preparando um café na chaleira, somente com os sons ambientes (ao final, apreciamos o lindo resultado do trabalho de abertura dos craques Alexandre Romano, Alexandre Calvet, Roberto Stein e Cristiano Calvet, que será visto nos demais capítulos). Clara, seu pai Jonas (Eucir de Souza) e seu avô Josafá (Lima Duarte) moram juntos num simples casebre numa região imensa e inóspita de um lugar fictício chamado Pedra Santa, no Estado do Tocantins. Eles sobrevivem graças a uma pequena venda gerenciada pelo patriarca. Nesta mesma região quente e agreste, há dez anos, houve um garimpo no qual se procuravam esmeraldas. Segundo Josafá, eram apenas biritas, sem nenhum valor. Mas Jonas está decidido a retomar o garimpo, e com isso, enriquecer, contrariando a sua filha e o seu pai, já que usará explosivos. Um acidente com estes explosivos tira a vida do garimpeiro. A família tem que se reorganizar. Clara é convidada por Mercedes (Fernanda Montenegro), mesmo sem ter muitos estudos, para ser a professora de crianças de um quilombo próximo, o Quilombo da Formiga. Mercedes é uma senhora misteriosa, mística e solitária, capaz de ouvir vozes, canções, gritos e ecos soturnos. A também benzedeira acredita piamente que o mundo irá acabar, e que só Tocantins se salvará, guardando em sua casa provisões de subsistência, como sementes, água e roupas. E livros (a Humanidade precisará deles). Ela crê que os seus objetos em forma de animais ganharão vida, e que seres invisíveis, “eles”, mandam-lhe mensagens. Sensitiva, diz à moça que entrará em uma nova fase. Prevê o aparecimento de uma mulher, e o seu desconhecimento a aflige. No Quilombo da Formiga, Clara conhece Raquel (Érika Januza), que faz artesanato com capim dourado, e reencontra Dr. Renato (Rafael Cardoso), médico de Palmas, capital, que realiza um trabalho de voluntariado com a população carente do local (Renato costumava frequentar a venda de seu avô, e seus olhos azuis demonstraram interesse pelos olhos azuis da neta de Josafá). Enquanto Clara e Renato se entrosam, chega à localidade, vindo de Palmas, pilotando uma moto, o rebelde Gael (Sergio Guizé). Gael quer conhecer um ponto turístico interessante destas paragens. Com a voz doce de Elis Regina cantando “Morro Velho” ao fundo, o motoqueiro cioso por novidades chega ao Campo do Capim Dourado, onde se faz a colheita desta vegetação, e se encanta ao ver Clara brincando com as crianças. A moça que lê “Marcelo Marmelo Martelo” para os seus alunos percebe o olhar encantado do rapaz que usa dois brincos de argolas, sentindo também um certo encanto. Indo para um outro núcleo da trama, na cobertura palaciana no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, conhecemos Elizabeth (Glória Pires), e sua família. Casada com o diplomata Henrique (Emílio de Melo), ambos têm uma filha, Adriana (Lara Cariello). De origem pobre, nascida no Tocantins, Elizabeth é uma mulher extremamente carente e sozinha. Ressente-se de seu marido se dedicar mais à profissão do que ao lar. Seu sogro, o preconceituoso advogado Natanael (Juca de Oliveira), nunca se conformou com o casamento de seu filho com alguém de um nível social inferior. Após convidar Henrique para ir com ela e a filha para Angra dos Reis, decepciona-se, pois a intenção de seu esposo é ir para Londres a fim de disputar o posto de embaixador que está vago. Natanael se mostra amigo de Beth, mas na verdade está planejando a destruição de seu matrimônio, e para isso contará com uma aliada, a ex-namorada de Henrique, agora amiga, Jô (Bárbara Paz), que está falida financeiramente. Em uma festa típica da região do Jalapão, Clara deixa de conversar com Renato para dar um passeio de moto com Gael, despertando o ciúme do médico, que conhece o seu oponente de Palmas. Com o sol alaranjado e a linda versão de Fernanda Takai para “I Don’t Want To Talk About It” como testemunhas, em meio às dunas deslumbrantes do Jalapão, Clara e Gael parecem estar cada vez mais apaixonados. O amor do novo casal vai do fundo das águas límpidas de um rio até a Pedra Furada. No alto de um grande rochedo, Clara e Gael se encontram com Renato e Raquel. Gael observa com ódio os pequenos gestos de intimidade no reencontro do médico com a professora. O motoqueiro de Palmas ameaça Renato, revelando sua temível agressividade até então ignorada. O clímax da cena ocorre quando Gael ameaça deixar cair o rapaz em um penhasco, segurando-o somente por uma mão (nesta benfeita tomada, percebe-se que a direção tomou como referência clássicos do western, inclusive os de Sergio Leone, tanto no que diz respeito aos closes quanto no que se refere à trilha incidental de João Paulo Mendonça). O pedido de perdão pelo incidente, o pedido de perdão pela desconfiança da amada, o beijo da redenção e o pedido de casamento acontecem sucessivamente. No meio das suas faces um raio fulgurante do sol sempre presente, e a voz apaixonada de Paulo Miklos cantando a bela música composta por Nando Reis, “Vou Te Encontrar”. Gael volta para a sua casa em Palmas. Chega na hora do café da manhã em que estão sentados à mesa a sua mãe, a ambiciosa Sophia (Marieta Severo) e a sua irmã, a sarcástica Lívia (Grazi Massafera). Ao anunciar a Sophia que irá se casar, e que a sua noiva é professora de um quilombo, e filha de um dono de venda, ela se enfurece, e confessa aos filhos a péssima situação financeira em que se encontram. Gael é divorciado, e há um mistério nessa separação, causada por ele. Uma outra filha, Estela (Juliana Caldas), é mantida no exterior por ser uma pessoa com nanismo, e esta condição envergonha Sophia. Disposta a subornar o avô de Clara para que ela se afaste de seu filho, Sophia muda de ideia ao avistar uma pedra com um veio de esmeralda sobre um dos móveis da casa do senhor. Clara lhe dá de presente. Após consultar um especialista, e enxergar a possibilidade de explorar a possível mina de esmeraldas localizada nas terras de Clara, a gananciosa mãe de Gael passa a apoiar o casamento do filho. Numa confraternização de família, Sophia brinda ao amor, a Gael, e principalmente a Clara. Desta forma, iniciou-se o primeiro capítulo de “O Outro Lado do Paraíso”, uma história que nos exibiu, através de apenas alguns personagens, traços dos comportamentos do ser humano, como ambição, individualismo, frieza, manipulação, ciúme, preconceito e cobiça, mas também privilegiou o amor, o desejo, a paixão e a amizade. O elenco deste começo de trama provou o seu brilho, talento, solidez e sobeja consistência na composição de seus papéis, transmitindo-nos a sensação positiva de que aqueles foram estudados e elaborados com a dedicação necessária, respeitando-se as características do lugar específico, no caso o Estado do Tocantins, em que se desenvolve a narrativa, além do Rio de Janeiro. Bianca Bin trilhou a legitimidade de uma moça simples, ingênua e romântica, traumatizada pela morte trágica do pai, que se apaixona pelo rapaz sedutor da cidade grande que lhe diz palavras bonitas. Sergio Guizé, com bastante personalidade, construiu o seu papel na medida certa, passando-nos a noção de ambiguidade de Gael, que alterna doçura e agressividade. Rafael Cardoso esbanjou elogiável desempenho ao moldar o perfil de Renato, convencendo-nos de seu verdadeiro amor por Clara, e de sua dedicação incansável ao voluntariado como médico. Um triângulo amoroso, estreante no horário nobre e em teledramaturgia, cativante em suas atuações, que promete torcidas variadas e emoção de sobra. Há química tanto entre Bianca e Sergio quanto entre ela e Rafael. Um acerto indiscutível na escalação, sem contar o seu caráter inovador. O frescor deste trio foi acompanhado por talentos consagrados, como o de Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Marieta Severo e Juca de Oliveira. Fernanda, como sempre, magistral na sua entrega às personagens que abraça, e no caso de Mercedes, toda a sua força natural e intensidade mística foram lapidadas com a maestria interpretativa que lhe é peculiar. Lima Duarte usa a sua notável experiência ao criar o tipo interiorano, simplório, que nos conquista de pronto com a sua potência cênica. Marieta Severo, como esperamos de uma atriz de sua grandeza, impressiona-nos com a sua ilimitada aptidão em transitar com liberdade pelos meandros mais íntimos de seu papel ao desenhar os contornos precisos de Sophia. Vemos o nascimento de uma vilã que não mede esforços para atingir os seus objetivos, garantindo-nos no futuro momentos que prometem ser marcantes, em que a sua vocação preconceituosa, gananciosa e manipuladora ganhará voz. O mesmo se pode dizer de outro ator maravilhoso como Juca de Oliveira. Sabedores de seu incrível domínio como artista, não nos espantaremos com as artimanhas que seu personagem, Dr. Natanael, será capaz de fazer, utilizando-se de toda a dissimulação e frieza que lhe são natas. Sua perseguição a Elizabeth também promete ótimos conflitos. Glória Pires, uma atriz com inteligência emocional rara, mestre em usar a entonação vocal, os olhares e gestual perfeitos, conquista invariavelmente um nível máximo de qualidade e excelência. Como Elizabeth, vê-se claramente uma mulher infeliz, só, carente e frágil que, no entanto, poderá nos surpreender com as reviravoltas que o autor lhe reserva. Grazi Massafera, a cada personagem que defende, galga degraus elevados em suas composições (não podemos nos esquecer que foi em uma novela de Walcyr Carrasco, “Verdades Secretas”, que Grazi mostrou ao país todo o seu potencial, chegando a ser reconhecida no exterior com a indicação ao Emmy Internacional). Grazi Massafera tem se destacado ao interpretar jovens que misturam malícia e humor. A novela terminou com um olhar insinuante de Lívia ao testemunhar o golpe de sua mãe. Érika Januza, revelada na série “Suburbia”, desfilou desenvoltura, espontaneidade e genuinidade ao personificar a amiga alegre e trabalhadora de Clara. Entretanto, esta alegria vai embora quando terá que enfrentar a ira racista de Nádia (Eliane Giardini), sua patroa, ao se envolver com o seu filho Bruno (Caio Paduan). Emílio de Melo, como o diplomata Henrique, indicou-nos com distinta propriedade a indiferença prevalente de seu papel com relação à sua família, colocando a profissão em primeiro lugar. Emílio, um ótimo ator, terá excelentes chances na novela ao se ver vítima das armações espúrias de seu pai. Eucir de Souza, como ator convidado, teve uma participação digna e comovente ao encarnar o homem ávido em enriquecer, e que acaba morrendo por esta desmedida ganância e irresponsabilidade. Bárbara Paz, como a sofisticada Jô, mostrou-se inteiramente à vontade como a futura aliada de Natanael. E pelo que conhecemos de sua capacidade, e também versatilidade como intérprete, esperamos cenas interessantíssimas em que esteja presente, formando uma parceria promissora com Juca de Oliveira. Vera Mancini, como a empregada de Sophia, distribuiu graça com os seus ditos picantes, demonstrando intimidade com a família. Terá Estela, a outra filha, enjeitada pela mãe, como confidente. Aguardemos diálogos emocionantes. A direção artística de Mauro Mendonça Filho (grande colaborador de Wacyr Carrasco) e geral de André Felipe Binder (também trabalhou com o autor), com a sua equipe constituída por André Barros, Henrique Sauer, Pedro Peregrino, Mariana Richard e Caio Campos, merecem incontáveis elogios por conduzirem com sensibilidade o enorme manancial de talentos que têm em mãos, e explorarem com competência única, adotando uma generosa linguagem cinematográfica, as belezas estonteantes das terras do Tocantins. A inspirada direção de fotografia de Mauro Pinheiro Jr., Pablo Baião e Fabrício Tadeu aproveitou com suprema felicidade a luz forte natural da região, além de usar com sabedoria visual, com filtros e lentes certeiros, as cores inebriantes dos espaços em que se passa a ação. A cenografia de Tiago Marques Teixeira, Mauricio Rohlfs e Danielly Ramos foi bastante coerente, retratando com fidelidade a pobreza da casa de Clara, o ambiente kitsch onde mora Sophia e a sofisticação de alguns detalhes da cobertura de Elizabeth. O mesmo, claro, pode-se dizer da produção de arte de Guga Feijó e Renata Otomura. Ellen Millet, conceituada figurinista, cumpriu a sua missão com garbo, seja nos vestidos bem modestos de Clara, nas roupas modernas com ar transgressor de Gael, e nas vestes com tintas mais carregadas de Sophia. A gerência musical de Marcel Klemm se esmerou na diversificação, utilizando-se, como já fora dito, das vozes de Elis Regina, Fernanda Takai e Paulo Miklos, além da clássica banda Lynyrd Skynyrd (“That Smell”), e dos grupos The Band (“The Weight”) e The XX (“Crystalised). “O Outro Lado do Paraíso” vem com uma função árdua, que é a de suceder o sucesso alcançado por Gloria Perez em “A Força do Querer”, mas em se tratando de Walcyr Carrasco, que coleciona um sem número de êxitos de audiência e público, como foram as suas três últimas novelas (“Amor à Vida”, “Verdades Secretas” e “Êta Mundo Bom!), isto não será obstáculo para o teledramaturgo. Walcyr, além de manter as bases de um bom folhetim, como romance, traição e vingança, irá abordar questões importantes, como a violência doméstica, o nanismo (e o preconceito envolvido), a discriminação racial, o homossexualismo não assumido, com direito à vida dupla, e a homofobia. Já conhecemos em seu primeiro capítulo o paraíso do Tocantins, e em parte o seu outro lado. Precisamos conhecer a saga de Clara, Gael, Renato, Josafá, Sophia e Mercedes para vermos até onde irá este outro lado. E se, segundo Mercedes, ele sobreviverá ao fim do mundo.

 

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Foto: Divulgação/Gshow

As histórias de detetive sempre habitaram e instigaram o imaginário das pessoas, seja no cinema, na TV ou na literatura. O primeiro e a segunda se inspiraram ou se basearam amiúde nos livros. Grandes escritores, como Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e Dashiell Hammett criaram detetives antológicos que prendiam o leitor da primeira à última página, como Hercule Poirot, Sherlock Holmes e Sam Spade, respectivamente. Nas telas de cinema, tivemos, por exemplo, “Assassinato no Orient Express” (1974), de Sidney Lumet, que se baseou no romance policial homônimo de Agatha Christie. Na esfera nacional cinematográfica, “Ed Mort” (1997), com direção de Alain Fresnot, e Paulo Betti como o próprio (trata-se de um personagem idealizado por Luis Fernando Verissimo). Na literatura brasileira, o escritor Tony Bellotto se dedicou à sua trilogia protagonizada pelo detetive Remo Bellini, com adaptações para o cinema. Quanto à TV, podemos buscar um personagem divertidíssimo construído por Luis Gustavo para uma novela escrita por Cassiano Gabus Mendes, e que foi ao ar pela Rede Globo em 1982, “Elas por Elas”. Mário Fofoca entrou para a galeria de tipos inesquecíveis da televisão com seu jeito atrapalhado para elucidar crimes. Em “Cidade Proibida”, uma série de Mauro Wilson e Mauricio Farias inspirada livremente no álbum de quadrinhos de Wander Antunes, “O Corno Que Sabia Demais e Outras Aventuras de Zózimo Barbosa” (a produção é escrita por Angela Chaves com a colaboração de Emanuel Jacobina, roteiro final de Mauro Wilson, e direção artística de Mauricio Farias), conhecemos logo em sua primeira cena o detetive Zózimo Barbosa (Wladimir Brichta) em seu característico escritório esclarecendo um caso de traição extraconjugal, sua especialidade, para a sua cliente Irene, rica e bela mulher frequentadora de um clube de grã-finos (Débora Nascimento). Para a desilusão e o espanto da moça, seu marido a trai não com uma amante, mas com um amante. Os pensamentos lascivos de Zózimo são ouvidos em off, o que confere à dramaturgia um viés notadamente rodriguiano. O desfecho de sua relação profissional com Irene, a primeira mulher fatal a surgir, foi malsucedido. O próximo caso do detetive a ser desvendado envolve o advogado Gouveia (Danilo Grangueia), que trabalha para uma importante empresa, cujo dono se chama Lourenço (João Vitti em participação especial). Ele é recebido pela voluptuosa secretária Gladys (Ariela Massotti). A princípio, Gouveia contatou Zózimo a pedido do empresário por desconfiar do comportamento de sua esposa. A questão é que a suposta mulher infiel é Lídia (Claudia Abreu com longos e ondulados cabelos louros). Ao ver a foto de Lídia, sua companheira no passado, a série lança mão de flashbacks a fim de que o telespectador entenda como se conheceram, e se familiarize com o histórico do detetive e com os demais personagens fixos, seus amigos, o policial Paranhos (Ailton Graça) e o sedutor rapaz que presta serviços amorosos a damas carentes, Bonitão (José Loreto). Zózimo também era policial, e fazia dupla com Paranhos. Lídia era a garota mais cobiçada do “dancing” que frequentavam. Um recurso bem sacado pela direção (Daniela Braga e Maria Clara Abreu, juntamente com Mauricio Farias) foi a ideia de que as cenas estavam sendo “fotografadas” em “p&b”, com o propósito de realçá-las. Com um apropriado e insinuante som incidental jazzístico, com sopros, cordas e teclados (afiada e sofisticada trilha sonora de Branco Mello e Emerson Villani), perpassando quase a totalidade da atração, os autores prosseguem em sua interessante, envolvente e detalhista narrativa. Lídia era a protegida de um poderoso argentino de nome Pablo (Pablo é um típico gângster). Com sua saída forçada, Zózimo se amasia com a ambiciosa Lídia, dando-lhe uma loja de roupas em uma galeria de Copacabana. Sem satisfações, Lídia some no mundo. Voltamos aos tempos atuais da série, onde Zózimo conversa com os seus amigos no bar no qual costumam se reunir. Com elegante fotografia de Uli Burtin que se multiplica em diversas texturas, dependendo da situação, podendo ser mais esmaecida, luminosa, sombria, esverdeada ou amarelada (a luz também se ampara nos feixes de faróis dos automóveis, abajures, luminárias e lustres dos cenários e locações), o personagem de Wladimir, que vez ou outra solta uma pérola de humor, decide aceitar o caso, talvez muito mais para saber o porquê de ter sido abandonado pela loura fatal de Claudia Abreu. Após perseguir Lídia em seu carro (os veículos são um charme extra da série, sendo extremamente fiéis aos anos 50), ocorre o esperado reencontro após sete anos de separação. A agora milionária Lídia conta ao ex-amante a versão de uma história rocambolesca como explicação de seu sumiço. Retornando ao bar, irrompe a personagem de Regiane Alves, a garota de programa Marli. Marli é apaixonada por Zózimo, sendo obsessiva e ciumenta, além de acreditar “ser a mulher de sua vida”. A ferramenta dramatúrgica dos pensamentos e reflexões do detetive em off, e que funcionaram a contento, são mantidos. Entre uma cena e outra, são mostradas imagens de arquivo do Rio de Janeiro da época retratada. Com reviravoltas em sua trama (Lourenço decide se separar de Lídia, e se casar com a secretária Gladys), a câmera da direção se revela ligeira, e acompanha o ritmo ditado pela emoção da ação. Um dos maiores méritos desta obra de ficção, que se equilibra entre o tom de farsa e o de realidade, é o seu perfeito timing. As cenas se sucedem com admirável fluidez, entremeadas por diálogos estruturalmente bem amarrados e espertos. A inspiração nos filmes noir americanos da década de 40 é evidente, com seus closes, olhares, modo de falar e algum silêncio. Mortes em meio a mentiras e cumplicidades espúrias decorrem, aumentando a complexidade e o caráter intricado do entrecho. Há beijos cinematográficos, bastantes tragadas de cigarro e bebidas alcoólicas ingeridas pelos personagens enquanto os fatos se desenrolam, e tiradas engraçadas de Bonitão. A desconfiança começa a rondar a mente do detetive que crê que as pessoas matam por três motivos: dinheiro, ódio e amor. Nada é o que parece ser. Este é o mote da série. Em questão de segundos, tudo muda. Algo acontece. Uma morte ocorre, e outra vida é ameaçada. O epílogo atende às reviravoltas de costume, às frases marcantes dos personagens, como “Essa é a minha natureza”, e à ironia sempre posta em seu devido e oportuno lugar. A cenografia de Luciane Nicolino e Claudio Duque e a produção de arte de Angela Melman são demasiadamente fidedignas ao tempo da ação, e se mostram frutos de uma intensa e profunda pesquisa. Os figurinos de Antônio Medeiros são irretocáveis, elegantes e coerentes. São ternos e coletes bem cortados, chapéus tanto femininos quanto masculinos, e longos justos “tomara-que-caia”, só para citar alguns modelos. A abertura de Alexandre Romano, Flavio Mac e Bruno Meira aposta na profusão de imagens coloridas e em preto e branco, como da “cidade proibida”, o Rio de Janeiro, e seus hábitos, mulheres fatais, o cotidiano de suas ruas, carros no trânsito, letreiros em néon etc. O elenco brilhou neste primeiro episódio, correspondendo plenamente à proposta e ao perfil da obra. Wladimir Brichta soube compor um irresistível detetive Zózimo Barbosa. Wladimir, um ator que transita com igual distinção tanto pelo drama quanto pela comédia imprimiu ao seu papel doses com sobriedade precisa. O cinismo, o sarcasmo e a ironia inerentes ao investigador particular estão visíveis na sua entonação de voz, no seu olhar e nos meios sorrisos. Uma escolha altamente acertada para um tipo nada fácil de se interpretar, pois os desvios para uma caricatura ou arquétipo são bastante próximos. Wladimir está muitíssimo bem acompanhado por Regiane Alves, Ailton Graça e José Loreto. Regiane, ostentando um bonito visual com suas madeixas curtas, desenhou os contornos da personalidade de Marli com sensualidade e as características de uma garota de programa da época, convencendo-nos de seu amor incontido pelo detetive, com todas as suas nuances de ciúme e uma certa frustração pessoal pela paixão não correspondida como desejaria. Regiane também aproveitou com sapiência os seus momentos de humor. Ailton Graça desfilou com absolutas segurança e desenvoltura como o policial Paranhos. O intérprete absorveu a aura do tira experiente, calejado, perspicaz, que sente de longe o “faro” quando algo lhe parece errado. Ailton possui a capacidade de ser durão e irreverente com a mesma dignidade, se assim exigir a ocasião. José Loreto defende o gigolô Bonitão com sobejas graça e leveza, alvejando com sucesso as medidas de malandragem associadas a um grau de sedução e charme que homens com a sua função entre as mulheres na sociedade deste período possuem. O jovem ator saboreia com prazer as falas de seu personagem, e nos diverte. Tivemos bem-vindas participações especiais neste primeiro episódio. Claudia Abreu, sempre uma excelente atriz, exerceu pleno domínio sobre a mulher fatal, manipuladora, calculista, gananciosa e surpreendentemente fria, sendo capaz de tudo para atingir os seus objetivos. Claudia pôde mostrar várias faces de Lídia, seja como potencial vítima enganada, seja como uma esposa furiosa, vingativa e mentirosa. Danilo Grangueia trilhou com inegável êxito o caminho para a composição do inescrupuloso advogado Gouveia. Com seu porte solene e tom de voz diferenciado, Danilo nos provocou com o seu causídico escroque, traiçoeiro e perigoso. Débora Nascimento, como Irene, encheu a tela com a sua voluptuosidade implícita, demonstrando com legitimidade a sua decepção ao saber da homossexualidade de seu esposo. João Vitti, mesmo que em rápida aparição, porém com um papel importante para a história, passou-nos a intensidade emotiva do marido insatisfeito com a sua esposa, decidido a se separar. Ariella Massotti cumpriu com eficiência a missão de dar vida à estonteante secretária que se transforma no pivô de um dos principais conflitos da sinopse. “Cidade Proibida” é uma série, gênero merecidamente cada vez mais prestigiado na TV brasileira, que nos desperta irrefutável interesse em acompanhar os seus próximos episódios, que contarão com muitas participações especiais. Dentre as razões, destacam-se o seu elenco talentoso e carismático, a diversidade de seus enredos repletos de suspense, ação, romance e humor, a impecável reconstituição histórica e a direção sensível e hábil de Mauricio Farias e equipe. Vale a pena fazer uma visita nesta cidade proibida que esconde por trás de suas belezas o que há de obscuro e condenável em sua sociedade. Zózimo Barbosa está à sua espera. E não é proibido acompanhá-lo em suas arriscadas mas deliciosas peripécias. Está desconfiada de alguma coisa? Se o seu namorado, seu noivo, seu marido está te traindo, ele descobre. Já pegou o seu cartão? Zózimo Barbosa, detetive particular.

 

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Foto: Divulgação/Gshow

No início deste ano, Juliana Paes, uma das maiores estrelas da televisão brasileira, detentora de uma popularidade impressionante, já havia nos impactado com a personagem Zana, na primeira fase da minissérie de Maria Camargo adaptada do livro de Milton Hatoum, “Dois Irmãos”, na Rede Globo (na fase seguinte, com o mesmo brilho, Zana foi interpretada por Eliane Giardini). Neste papel, Juliana, que é natural de Rio Bonito, interior do Estado do Rio de Janeiro, demonstrou uma potência dramática de elevadíssimo nível, como a mãe sofredora de dois filhos gêmeos homens que nutriam um pelo outro sentimentos intensos de ódio, ciúme e inveja (Omar e Yaqub foram defendidos por Cauã Reymond). Esta composição de Juliana, a despeito da produção ter sido gravada em 2015, já poderia ser eleita como uma das melhores do ano na TV. Entretanto, no começo de abril, estreava “A Força do Querer”, a nova novela de Gloria Perez após cinco anos, que viria a nos mostrar mais uma notável atuação de Juliana Paes. Alguns de seus grandes chamarizes seriam a reunião de atores (muitos deles comumente escalados como protagonistas de outras obras) em distintos núcleos, e a abordagem de temas com vieses polêmicos (como Gloria está habituada a fazer), sem preterir os elementos clássicos que definem uma atração deste gênero. Em um desses núcleos, está Juliana, que despontou para o Brasil ao viver Ritinha, a empregada doméstica que encantava o seu patrão Danilo, Alexandre Borges, em “Laços de Família”, de Manoel Carlos (2000). Um enorme desafio em sua bem-sucedida carreira lhe caberia nesta trama do horário nobre que tem atingido ótimos índices de audiência e repercussão como há muito não se via: personificar Bibi, uma mulher que acaba se envolvendo com o crime a fim de não abandonar o seu marido Rubinho (Emílio Dantas em atuação arrebatadora), acusado e preso por tráfico de entorpecentes. Baseada em fatos reais extraídos do livro “Perigosa”, de Fabiana Escobar, a história de Fabiana se desenvolveu aos poucos na telenovela, revelando-nos todas as etapas de sua vida comum até chegar à fase de seu envolvimento com a ilegalidade. A belíssima Bibi, filha de Aurora (a excelente Elizangela), nos primeiros capítulos de “A Força do Querer”, era noiva de Caio (Rodrigo Lombardi), um sério e dedicado rapaz com um futuro promissor como advogado, que havia conhecido nos tempos acadêmicos. Bibi é passional e ciumenta, e se ressente de não ter a atenção devida de seu parceiro, mais preocupado com suas aspirações profissionais (vale destacar o inspirado e convincente desempenho de Rodrigo Lombardi, repetindo o par com a atriz depois do sucesso de “Caminho das Índias”, da mesma Gloria Perez). O término do compromisso ocorre após o irmão de Heleninha (Totia Meireles) descobrir que está sendo traído por sua companheira, “a mulher que ama grande”, com o garçom Rubinho. Desiludido, Caio abandona seu importante cargo nas empresas Garcia, e viaja, decidido a refazer a sua vida. Neste ínterim, Bibi também segue outros rumos. Sem nunca ter terminado seus estudos de Direito, para desgosto de sua mãe, casa-se com Rubinho, tendo um filho, Dedé (o adorável João Bravo). Trabalhando como cabeleireira e manicure, enquanto seu marido, estudante de Química, faz “bicos”, leva uma vida modesta. A situação econômica dos dois piora, ao ponto de dividirem um colchão num depósito de bar. Até que Caio retorna ao Brasil, e muda todo o contexto da situação. Penalizado com o estado de necessidade em que se encontra a sua ex-noiva, ajuda-a, com a cumplicidade de Aurora, de diferentes maneiras. Oferece-lhe, sem que saiba, em nome de sua mãe, por um módico valor de aluguel, uma boa casa para morar com o seu marido e filho, e pede ao amigo Dantas (Edson Celulari), que empregue Rubinho em seu sofisticado restaurante. A vida do casal parecia finalmente ter entrado nos eixos. Bonito, educado e comunicativo, Rubinho, alçado ao posto de maître, indica-nos que se estabeleceu social e financeiramente, voltando, inclusive, a frequentar a faculdade. Todavia, telefonemas repetidos e fora de hora, além das entradas mal justificadas de dinheiro em casa, levantam as suspeitas de sua sogra. Alegando ser intermediário em transações de corretagem com os clientes do restaurante, Rubinho, na verdade, estava traficando drogas não só em seu local de trabalho, mas na rua onde morava. Bibi procura acreditar nas desculpas do marido, sempre acompanhadas de promessas de uma vida melhor, ao se ausentar de casa, do restaurante e da faculdade, apesar de intuir que possui uma amante. Presentes variados e caros dados à família, a aquisição de um carro moderno e a rápida mudança em seu padrão de vida aumentam as desconfianças não só de Aurora, mas dos vizinhos também (Yuri, representado por Drico Alves, um jovem ator bastante seguro em cena, flagra, com o seu celular, as visitas estranhas recebidas por Rubinho em sua residência). Em outro núcleo, a major Jeiza (Paolla Oliveira em significativo momento de sua trajetória artística) se prepara para comandar uma megaoperação de apreensão de drogas transportadas em caminhões. Na blitz policial, com direito a troca de tiros entre os representantes das leis e os criminosos, Jeiza “teve a impressão” de ter visto Rubinho no bando de delinquentes. Inicia-se aí a jornada implacável da major para provar a culpabilidade do maître como integrante de uma sólida facção criminosa, o que gera, inevitavelmente, a ira de Bibi (as cenas de confronto, que não foram poucas, entre Juliana Paes e Paolla Oliveira, foram invariavelmente marcadas por crescente tensão, exibindo o vultoso talento de ambas). Com o vazamento das fotos tiradas por Yuri, e consequente denúncia de Heleninha, a situação do genro de Aurora se complica. Preso, ameaçado pelos seus colegas de cela, passa a pedir favores à mulher para “levantar a sua moral” junto aos presos. O passo crucial que delimitou a entrada de Bibi no mundo do crime se deu quando incendiou o escritório do restaurante de Dantas com o propósito de destruir os dados comprometedores de Rubens no computador (sua culpa até hoje não foi provada, a despeito da ciência de Caio, promovido ao cargo de assessor da Secretaria de Segurança). Desobedecendo aos conselhos de sua progenitora, que sempre cita os “sinais” que ela recebe para sair a tempo da criminalidade, a personagem de Juliana Paes resolve subir o fictício Morro do Beco (a comunidade de Tavares Bastos, no Catete, no Rio de Janeiro, serve de locação) para falar diretamente com o chefe do tráfico, Sabiá (Jonathan Azevedo). Consegue a sua confiança e admiração pela coragem, garantindo a sobrevivência de seu esposo. Aos poucos, Fabiana vai cometendo uma série de pequenos delitos, como entrar às escondidas na penitenciária para encontros íntimos. E grandes, como servir de mensageira de informações entre os membros da facção (o que já configura o seu indiciamento no crime “associação ao tráfico”). Parece não haver freios para a ex-noiva de Caio, que volta e meia se convence de que tudo seria diferente em sua vida se não tivesse se separado dele, e se tivesse aceitado a sua proposta de uma nova tentativa de relacionamento amoroso. Bibi auxilia na primeira e frustrada fuga de Rubinho da cadeia. Em sua segunda tentativa, desta vez com êxito, o detento, auxiliado por comparsas, escapa por uma tubulação de esgoto. Com o rapaz de barba e cabelos curtos ruivos morando na favela, e ganhando cada vez mais prestígio entre os seus pares, devido às suas ideias e conhecimentos de Química, usados para alavancar e organizar o negócio ilícito, as visitas de Bibi ao morro são cada vez mais frequentes, enquanto o filho do casal sofre bullying na escola, na rua, sendo discriminado por seus coleguinhas até no dia de seu aniversário. Trilhando um caminho sem volta, como ela mesma diz (“Não tem volta”), a ex-estudante de Direito, aplicada e defensora dos preceitos legais, agora faz entrega de carregamento de armas pesadas no porta-malas de seu carro. Cada vez mais seduzida pelo universo do crime, com seus bailes grandiosos e camarotes vip, sua forma particular de hierarquia e poder, fartura de bebidas e cordões pesados de ouro, Bibi passa a dividir um quarto com o seu marido, que lhe promete saírem de lá, e recomeçarem uma nova vida. Leva consigo o seu filho, que fica decepcionado com o que vê. Nas festas da comunidade às quais vai, a amiga de Ritinha (Isis Valverde) nos deixa patente que o seu ciúme doentio permanece inalterado. Um dos ápices deste ciúme, e que lhe garantiu o epíteto de “Perigosa” pelos integrantes da quadrilha, decorreu quando uma mulher se aproximou de Rubens com outras intenções, e Bibi lhe arrancou, como se a tivesse escalpelado, uma espessa parte dos apliques de seu cabelo, suspendendo-a, com um dos braços, tal como um troféu, para o delírio dos presentes. Notamos no papel de Juliana uma confluência de duas personalidades que se colidem: a original, a Bibi alegre, amorosa, amiga, carinhosa com a mãe e capaz de ajudar o outro, como na ocasião em que salvou Silvana (Lilia Cabral) de uma enrascada num cassino clandestino de subúrbio, e a contingencial, que se expõe pela sua conquistada autoridade lograda por meio de seu comportamento ameaçador, agressivo e vingativo. Também salvou a vida de Caio, ao esbarrar propositadamente em um criminoso, quando o mesmo alvejava a autoridade. Houve uma passagem interessante em que vimos a Bibi de antes ao chamar a atenção de seu marido quanto à sua mudança de perfil (o jovem ostentou uma faceta cruel que lhe era desconhecida). A personagem também vivencia conflitos no que concerne aos seus sentimentos. Ao que parece, ainda sente amor ou afeto por Caio, e por Rubinho, o que sente é uma avassaladora paixão, o que naturalmente a cega, movida por doses excessivas de adrenalina. Uma mulher sem limites, capaz de tudo pelo homem pelo qual se apaixona. Assim poderíamos definir Fabiana. Merece destaque a inacreditável habilidade da moça em construir enredos inventivos com o intento de encobrir algum malfeito, seja quem for o seu interlocutor, que pode ser tanto Caio quanto um delegado de polícia. Se bem que, recentemente, a vizinha de Heleninha capitulou diante do assessor de Segurança Pública, quando este a interpelou acerca do incêndio no restaurante do pai de Cibele (Bruna Linzmeyer). No capítulo de ontem, houve cenas definitivas na novela de Gloria Perez. O traficante Sabiá (a atuação de Jonathan Azevedo é de um realismo incontestável) é atingido por um tiro durante uma batida policial no morro, tendo Bibi como testemunha. Imediatamente, Rubinho assume o seu posto de chefe da facção, dando ordens furiosas aos seus agora subordinados. Antes disso, já havia saído uma matéria nas páginas policiais se referindo ao rapaz como o “Barão do Pó”, e a Bibi, como a “Baronesa do Pó”. Percebe-se na expressão de Bibi uma preocupação e insegurança com este novo status. Juliana Paes, que criou personagens marcantes em novelas como “Celebridade”, “América”, “Gabriela” (como a própria) e “Meu Pedacinho de Chão” (seu penúltimo trabalho neste gênero de produção foi em “Totalmente Demais”, como a vilã Carolina) tem exibido o seu enorme amadurecimento artístico ao interpretar um tipo de personagem dificílimo, complexo, contraditório, e que poderia facilmente obter a rejeição do público. Mas isto, graças ao seu extenso talento, não aconteceu. Bibi é uma das personagens mais populares da trama, e tem sido responsável por algumas das melhores cenas da telenovela. Juliana usa com bastante expressividade os seus olhos para traduzir as suas emoções. Fixos, penetrantes, eles nos dizem o que querem. Impressiona-nos do mesmo modo a forma como a intérprete impôs à sua voz e ao texto da autora um tom espontâneo, natural e popular, recheado de gírias e linguajar típicos do ambiente novo ao qual se adapta. Suas beleza e sensualidade, com roupas justas e chamativas, que delineiam a sua forma física perfeita, são tão exuberantes que não sobra um único espaço para um mínimo de vulgaridade (levando-se em consideração o contexto da dramaturgia). O jeito como Juliana caminha, seja pelas ruas da vizinhança, seja pelas vielas da comunidade, impõem o respeito e a personalidade que o papel exige. Não podemos deixar de mencionar o impecável trabalho de direção de Rogério Gomes, Pedro Vasconcelos e equipe pelas cenas (a equipe de diretores da novela é complementada por Claudio Boeckel, Luciana Oliveira, Roberta Richard, Fábio Strazzer e Allan Fiterman), muitas delas de ação, com fortes inspirações cinematográficas. As tomadas aéreas da Favela do Beco (inclusive quando há o baile), de suas labirínticas ruas, com subidas e descidas, escadas estreitas e íngremes, e centenas de casas chocam pela grandiosidade visual. A trilha sonora incidental (música original de Rodolpho Rebuzzi e Mú Carvalho; gerência musical de Marcel Klemm) que acompanha as cenas de Fabiana nos causa uma indomável apreensão (há uma batida lenta de um tamborim, além de um som perturbador insistente que nos indica a gravidade da situação). Obra impecável. Cinema de altíssima qualidade na TV. Alguns alegam que Gloria Perez tem feito uma “glamourização” do crime ao relatar esta verídica história, com as devidas licenças. Mas o que posso dizer é que Gloria nos afirma mais uma vez ser uma escritora de ilimitada bravura, sempre conectada com os fatos do mundo contemporâneo. Coincidentemente ou não, o Rio de Janeiro, basta ler as manchetes dos jornais, há muito tempo não reportava índices de violência tão altos ligados a esta atividade criminosa. Nada do que se vê na novela é inventado, fantasiado, portanto a abordagem deste assunto é válida e importante. Bibi Perigosa é um divisor de águas na carreira de Juliana Paes. Provou-nos de que é uma excelente atriz. Com Elizangela e Emílio Dantas, igualmente fantásticos em suas atuações, “A Força do Querer” tem se firmado como uma das novelas mais atraentes dos últimos anos, e sem dúvida uma das melhores de Gloria Perez. Resta-nos saber quando Bibi Perigosa fará o caminho de volta. Se é que o fará. Para isso, terá que deixar para trás a adrenalina de que tanto gosta, e principalmente deixar de ser… “perigosa”.