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Foto: TV Globo

Dentre tantos assuntos tratados em sua novela, Gloria Perez tem despertado a nossa atenção para um problema de saúde pública que acomete uma parcela de nossa população: a compulsão pelo jogo. E para representá-lo, a autora escalou uma de nossas atrizes mais talentosas e populares, Lilia Cabral. Não se sabe ao certo quantos jogadores patológicos existem atualmente no Brasil, o que muito se deve à clandestinidade de certas práticas proibidas no país. A também chamada ludomania já é reconhecida como uma doença por especialistas na área, semelhante ao alcoolismo, tabagismo, e ao consumo de drogas. Segundo informações colhidas na área de Coordenação do Programa Ambulatorial do Jogo Patológico (PRO – AMJO), do Hospital das Clínicas de São Paulo, “o jogo compulsivo estimula as mesmas áreas cerebrais (do jogador), sendo o seu comportamento bem semelhante ao do viciado em drogas. Um comportamento compulsivo impulsivo, cuja única diferença que há é o não consumo de uma substância. Mas existe um comportamento que se repete várias vezes na prática de uma atividade”. Felizmente, há tratamentos disponíveis para esse distúrbio psíquico e comportamental, como, inclusive, os “Jogadores Anônimos”. No caso da personagem interpretada por Lilia Cabral, a bem-sucedida arquiteta Silvana, temos uma mulher bonita, madura, casada com um rico empresário (Eurico, Humberto Martins) e mãe de uma filha, Simone (Juliana Paiva). Silvana assume uma dupla postura. Por um lado, é extremamente racional, generosa e sociável (empenha-se com denodo para que Irene, Débora Falabella, sua colega de profissão, não prejudique o casamento de seu cunhado Eugênio, Dan Stulbach). Participa de eventos sociais exibindo elegância, simpatia, bom humor, desenvoltura e naturalidade. E por outro, mostra-se alguém totalmente vítima de sua compulsão pelos jogos, capaz de cometer as maiores insanidades para acobertar o seu vício e mantê-lo. Os principais conflitos, como era de se esperar, ocorrem dentro de sua própria casa, com o marido e a filha. Umas das evidências mais significativas deste distúrbio é a não aceitação do problema pelo jogador compulsivo, além da reiteração de mentiras. Eurico crê que Silvana se livrou desta compulsão, uma ideia alimentada pelas constantes invenções da esposa. Um dos atos mais graves cometidos pela arquiteta envolveu a sua amiga Joyce, Maria Fernanda Cândido. A fim de encobrir uma avolumada perda financeira, R$50.000,00 em um único dia em poucas rodadas de jogos, a mãe de Simone pegou emprestada uma bolsa de grife da concunhada com o intuito de explicar ao irascível marido o porquê do montante sacado em sua conta bancária (a suposta compra da bolsa). Desculpas esdrúxulas se sucedem. Depois de recuperar parte da quantia (R$15.000,00) no jogo, claro, cada vez mais se perdendo em ardis, convence o marido a lhe comprar um carro novo num consórcio, o que acaba não dando muito certo (aproveitar-se-ia de suas prestações). Outra característica que percebemos na personagem de Lilia (que visitou o grupo “Jogadores Anônimos” para se preparar para o papel) é uma acentuada alienação. Silvana não se dá conta da gravidade de sua situação. Diversas vezes ri e se vangloria de suas “vitórias”. Sai do estado de desespero e agonia para o de contentamento assim que atinge os seus objetivos com bastante assiduidade. Sua empregada doméstica Dita (Karla Karenina) lhe serve como confidente de seus desvios. Não lhe resta o que fazer senão preservar a patroa, ajudando-a no mascaramento de sua conduta reprovável, a despeito de sua real preocupação. Ao notar que as suas apostas estão lhe causando visíveis prejuízos conjugais, Silvana, que foi chantageada pela perigosa Irene, decide saciar sua compulsão em games na internet. Mas sempre valendo dinheiro. Sua filha descobre, e bloqueia os sites. Para a jogadora, centenas de reais não são nada, são “merrecas”. Simone se impõe perante a mãe, e lhe aconselha a procurar auxílio psicológico. Jamais passa pela sua cabeça de que esteja doente. A elegante mulher ainda não atentou para o fato de que está se dirigindo para o fundo do poço. Seu trabalho como arquiteta, até então valorizado, começa a ser afetado. Silvana não atende às ligações dos clientes, não entrega projetos, não comparece às reuniões. Quando Eurico descobrir a verdade escondida por sua esposa, o casamento poderá ruir. A falência financeira da apostadora é uma questão de tempo. Em uma cena recente, Silvana furta uma quantia de dinheiro de seu marido. Acha que não fará falta. Vendo que os funcionários, o motorista Nonato (Silvero Pereira) e a secretária da empresa Biga (Mariana Xavier) foram considerados suspeitos, salva-os… contando uma mentira. Dos pequenos delitos nascem os grandes. Empenhou suas joias. Pediu dinheiro emprestado a Caio, Rodrigo Lombardi, mentindo sobre a razão de lhe pedir (disse que seria para o conserto do seu carro; Caio, sabedor de seu vício, tão logo descobriu). Silvana, pouco a pouco, perde-se em um emaranhado de erros, em que noções de valores de ética e moral são ignorados. No tocante a outro elemento que distingue a personalidade de um jogador patológico, e que facilmente é reconhecido em Silvana, é o tipo de conduta que a leva a jogar sempre mais: se numa mesa de pôquer perde, joga de novo para recuperar o que perdeu; se ganha, julga estar com sorte, e que esta lhe proporcionará mais ganhos. É um círculo literalmente vicioso e temerário. Há entre os jogadores um código tácito de respeito às “regras do jogo”. Não há leniência para o jogador que perde. Se perdeu, não importa o valor, tem que pagar. Não sabemos até que ponto pode ir uma cobrança. Silvana mesma foi cobrada na porta de casa por não ter respeitado estas “leis”. O último de seus excessos cometidos foi o furto de um relógio valioso do pai de Eurico. Age realmente como uma viciada em drogas. A novela “A Força do Querer” nos mostra que a compulsão por jogos é democrática. Ela pode atingir uma mulher culta e educada, com nível superior, bem casada e sofisticada. A escolha de Lilia Cabral para dar vida a esta mulher cheia de angústias, aflições e ansiedades infiltradas em uma rotina aparentemente normal aos olhos dos outros foi acertadíssima. Lilia, uma de nossas mais prestigiadas atrizes, com um currículo respeitável na televisão (“Vale Tudo”, “Tieta”, “A Favorita”, “Viver a Vida”, “Fina Estampa” e “Império”), no teatro (“Solteira, Casada, Viúva, Divorciada”, “Divã” e “Maria do Caritó”) e cinema (“Divã”) possui uma admirável qualidade de fazer com que o público conduza a sua atenção para os contornos interpretativos que desenha para o seu papel. Ela pode ser tanto uma secretária fofoqueira e uma carola, quanto uma esposa maltratada pelo marido, uma mãe que se sacrifica pela filha, uma mulher do povo, ou alguém com poder, força e sofisticação, não importa, Lilia Cabral consegue abrilhantar cada um desses tipos tão distantes um do outro. A atriz, que ostenta belíssimos sorriso e olhos, cativa-nos com as suas emoção, verdade e presença cênica. Não nos parece que se utilize de técnicas. A sua ferramenta de atuação é a sua legítima vocação para orná-la com o máximo de nuances que lhe conferem indiscutível credibilidade e empatia. O seu trânsito com incrível desembaraço pelo drama e comédia é um de seus inquestionáveis méritos como artista. Costumo dizer que há certas atrizes que nos emocionam, e Lilia Cabral é uma delas. A abordagem deste tema por Gloria Perez em “A Força do Querer”, valendo-se de uma atriz do porte de Lilia Cabral, é demasiado válida. Que sirva de alerta para os telespectadores acerca dos riscos que são intrínsecos às compulsões, que são muitos. Que sirva de incentivo para aqueles que padecem deste transtorno em pedir socorro médico. Que convença que o jogo só justifica a sua existência quando o seu alvo é a diversão. Que as apostas de Silvana, assim que reconhecer o seu complexo drama, não sejam mais em uma mesa de pôquer, e sim na reconquista das suas perdidas felicidade e paz. Basta que Silvana tenha força. Basta que ela queira. Basta que interrompa este “jogo da vida” perigoso que criara para si mesma. Apostas encerradas.

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Foto: Divulgação/TV Globo

Não é a primeira vez que a teledramaturga Gloria Perez aborda as questões de gênero em suas novelas. Em “Explode Coração”, de 1995, na mesma Rede Globo, o personagem do ator Floriano Peixoto se chamava Sarita, era considerado um travesti, e se apresentava na noite em shows característicos. A maneira natural com que o assunto fora tratado, e a forma digna com que o papel fora defendido por Floriano não proporcionaram a rejeição do público. A figura de um travesti levando a vida como artista, não se entregando à prostituição, como a maioria faz por falta de oportunidades no mercado de trabalho e pela oposição familiar, no horário nobre de uma emissora de grande alcance no Brasil já poderia ser interpretado como um importante avanço. Mais de duas décadas se passaram, algumas coisas mudaram e outras se mantiveram. As discussões sobre as identidades de gênero entraram na pauta de relevantes debates, sendo o tema retratado em filmes, peças teatrais e produções televisivas. Podemos pegar um exemplo da época do folhetim. No longa-metragem de Stephan Elliott, “Priscilla, A Rainha do Deserto”, lançado um ano antes, o respeitado ator britânico Terence Stamp personificou um travesti que trazia consigo tanto a graça quanto a sensibilidade. Recentemente, uma das atrizes brasileiras mais belas e femininas, Carolina Ferraz, a despeito, segundo a própria, de não ter sido incentivada a fazê-lo, interpretou um travesti no filme “A Glória e a Graça”, de Flávio Ramos Tambellini. No teatro, o projeto da dramaturga Marcia Zanelatto, “Ocupação Rio Diversidade”, faz sucesso desde 2016, mantendo-se em cartaz até hoje. O ator Luis Lobianco transpôs para os palcos, com a montagem “Gisberta”, a trágica história de um transexual brasileiro que foi cruelmente assassinado em Portugal. O autor Aguinaldo Silva ofereceu ao ator Ailton Graça, acostumado a papéis viris, a chance de vivenciar com brilho o travesti Xana Summer, na novela “Império”. Gloria Perez, sempre preocupada com as questões sociais e de comportamento, abriu mais uma porta para os transgêneros ao entregar uma personagem a Thammy Miranda em seu penúltimo folhetim, “Salve Jorge”. Os dados negativos nesses 20 anos apontam que o Brasil é o país no mundo que mais mata travestis e transexuais. Criou-se o termo “transfobia”. E a legislação brasileira ainda é bastante permissiva e omissa com os crimes motivados pela homofobia em nosso território. Quando foi anunciada a próxima novela de Gloria Perez, soubemos que haveria uma personagem com dificuldades de identidade de gênero. A curiosidade sobre como este assunto, que demanda sutilezas em seu trato e amplo entendimento, seria abordado gerou expectativas. Contrariando alguns segmentos que defendiam a escalação de uma atriz trans, Gloria preferiu que fosse convidada uma intérprete cisgênero, ou seja, uma mulher que se identificasse com o seu gênero. Gloria Perez foi mais além ao ofertar o papel a uma atriz desconhecida que tinha somente experiências no teatro. Passamos a conhecer Carol Duarte, estudante da Escola de Arte Dramática (EAD) da USP (Universidade de São Paulo). Já nos primeiros capítulos de “A Força do Querer”, percebemos que a intérprete de Ivana, filha da socialite fútil e preconceituosa Joyce (Maria Fernanda Cândido) e do ponderado e generoso advogado Eugênio (Dan Stulbach) teria tudo para honrar a enorme responsabilidade que lhe fora dada pela teledramaturga e pela emissora. Carol Duarte, extremamente bem dirigida pela equipe comandada pelo diretor artístico Rogério Gomes, que conta com a direção geral de Pedro Vasconcelos, criou com impressionante grau de veracidade, legitimidade e emoção uma personagem fascinante e encantadora pela riqueza de seus múltiplos detalhes, imiscuídos na complexidade de sua personalidade. Ivana é uma moça de classe alta que se realiza jogando vôlei na praia, e seu sonho é se tornar profissional neste esporte. Tem como sua melhor amiga a prima Simone, vivida por Juliana Paiva. Além de se dar muito bem com o pai, possui uma boa relação com a governanta da casa, Zu (Cláudia Mello). Para entendermos melhor Ivana é preciso que voltemos à sua infância. Sua mãe Joyce, uma referência de beleza, resolve transformar a sua filha na “menina mais estilosa do Brasil”. Ivana, às vezes com a mesma roupa de sua mãe, estampava as capas das principais revistas de moda. Porém, a menina cresceu, e trocou as roupas femininas e fashion que lhe foram impostas pelas camisas largas de seu irmão Ruy (Fiuk). Ivana não manifesta quaisquer sinais de vaidade. Não se maquia, não solta o cabelo, não usa salto alto. Sua postura é curvada, e seu andar é desengonçado (prova do ótimo trabalho de corpo de Carol). Até a sua maneira de falar, por instantes, é um pouco masculinizada. Tudo isso vai de encontro ao que Joyce imaginou para a sua filha, o que, obviamente, gera um conflito entre ambas. Já se sentindo incompreendida pelos que a cercam, após conversas frustradas com o seu pai, com a sua prima e com a governanta, os problemas que a atormentam só se avolumam, e sua relação com a autoestima, tendo o espelho como reflexo literal disso, piora. A jogadora de vôlei conhece na praia um rapaz, colega de esporte, Cláudio (Gabriel Stauffer). Mesmo se distanciando do padrão de beleza das moças modernas da Zona Sul do Rio de Janeiro (Carol Duarte é uma mulher bonita, com um sorriso cativante e cabelos exuberantes), conquista as atenções do jovem, que é retribuído. A partir deste momento, a aproximação dos dois faz com que a “ex-menina mais estilosa do Brasil” comece a se defrontar abertamente com a sua sexualidade. Ivana possui dificuldades não só em aceitar elementos femininos em sua vida, mas também em dar e receber afetos de um homem. Ela não entende as lisonjas de cavalheiro de Cláudio, como puxar a cadeira de um restaurante, ou ajudá-la a escolher um prato. Sente atração por ele, no entanto vê impeditivos, que lhe são desconhecidos, para a concretização de seus desejos. Rejeita os toques físicos do moço. Um final de semana numa pousada em Angra acabou de vez com as esperanças de que houvesse um relacionamento mais íntimo entre o par. Dúvidas quanto à sua orientação sexual surgem com incontida força. Trava uma batalha silenciosa com o espelho. Ela se olha, e não se vê refletida. O corpo que habita não lhe é confortável. Os seus seios lhe são indesejáveis. Ela os soca. Uma faixa os oprime. A prima Simone resolve marcar uma consulta com uma psicóloga. Ivana está disposta a se ajudar, e recorre aos seus auxílios. Entretanto, acaba mais confusa. Tentando ir em busca de sua feminilidade, afasta-a ainda mais. A lingerie sensual em seu belo corpo lhe soa despropositada e esquisita. Ivana começa a entrar em um processo de depressão, como se estivesse gritando o seu último pedido de socorro. A autora Gloria Perez faz um coerente paralelo entre a situação mal resolvida de Ivana quanto à sua identidade e o comportamento de Nonato, o motorista do empresário Eurico (Humberto Martins). Nonato, interpretado pelo ator cearense Silvero Pereira (Silvero, que também é dramaturgo, destacou-se no teatro com o monólogo “BR-Trans”, que narrava histórias baseadas em fatos reais de travestis, transexuais e transformistas de diferentes estados brasileiros), apesar de ser um travesti que se apresenta em shows, em nenhuma passagem sente repulsa pelo seu corpo, muito pelo contrário, aceita-o pacificamente, querendo tão somente explorar a sua porção feminina. Algumas questões são levantadas nesta fase da novela “A Força do Querer”. Em que momento Ivana irá se dar conta de sua condição de transgênero? Qual será o ponto de partida? Será que a personagem aceitará facilmente a sua transformação? Irá até as últimas consequências para se aproximar o máximo possível do gênero masculino? Quem a apoiará? Será que haverá a redenção de sua mãe, que diz amá-la incondicionalmente? Como serão as reações de seu pai, irmão, prima, e de sua amiga, a governanta? Qual será o papel da psicóloga neste processo? Ela mudará o seu nome social? A autora promoverá um encontro entre Nonato e Ivana a fim de que o primeiro possa auxiliá-la? E o seu tio Eurico, que não esconde seu caráter preconceituoso e homofóbico? São bastantes perguntas que se fazem. Ivana será um homem, transgênero, que sente atração por outro homem. Ivana será então homossexual (homem trans gay). E Cláudio? Como o rapaz da Zona Sul carioca encarará a nova realidade de sua antiga ou presente paixão? Muitos desafios são impostos. Para a autora Gloria Perez, para a atriz Carol Duarte e para os telespectadores. Como estes reagirão, os principais “juízes” de uma novela? “A Força do Querer” é uma única e preciosa oportunidade que se tem, utilizando-se o alto poder de comunicação da televisão, inclusive o das telenovelas, de se discutir esta questão real em nossa coletividade, perante a qual são se pode vendar os olhos. Será um indiscutível progresso para a luta dos transgêneros na sociedade civil pelos seus direitos se houver uma receptividade positiva aos desdobramentos da vida da personagem Ivana. Já temos o talento e a sensibilidade de Carol Duarte. Já temos a habilidade, a percepção e a delicadeza de Gloria Perez para lidar com temas áridos. Resta-nos torcer pela tolerância do público, demonstrando que sabe conviver com a diferença. Resta-nos ter a esperança de que o telespectador respeite a força do querer de Ivana, a “ex-menina mais estilosa do Brasil”.

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Foto: Raphael Dias/Gshow

Os anos de chumbo já foram retratados na televisão, na própria Rede Globo, em 1992, na excelente minissérie de Gilberto Braga, “Anos Rebeldes”. Desde aquela época, muitos fatos políticos relevantes decorreram em nosso país. Hoje, o Brasil assiste estupefato ao desmantelamento de toda uma estrutura política e governamental. Soa no mínimo oportuna e pertinente a exibição da nova supersérie da emissora, escrita em conjunto por Angela Chaves e Alessandra Poggi (com a colaboração de Guilherme Vasconcelos e Mariana Torres), “Os Dias Eram Assim”, com a direção artística e geral de Carlos Araújo, direção geral de Gustavo Fernandez (e direção de Walter Carvalho, Isabella Teixeira e Cadu França), que tem como pano de fundo parte do período histórico marcado pela truculência de uma ditadura militar até ao emblemático movimento popular e político das Diretas Já, nos anos 80. Em seu ótimo primeiro capítulo, no qual já pudemos conhecer importantes figuras da trama, fomos conduzidos para o ano de 1970, em pleno jogo da final da Copa do Mundo, em que se enfrentaram Brasil e Itália. O país está em festa, na expectativa de se sagrar campeão. No entanto, antes do jogo, testemunhamos as relações promíscuas entre o severo e perigoso empresário Arnaldo Sampaio, vivido por Antonio Calloni (Antonio brilhou ao ostentar em suas cenas o grau de complexidade deste personagem, sob várias óticas), e a cúpula militar governante. Autoritário e sem escrúpulos, Arnaldo, dono da Construtora Amianto, é casado com Kiki (Natália do Vale; sempre compensador conferir o talento desta atriz), uma mulher conservadora, moralista e submissa ao marido. A filha, a bela Alice (Sophie Charlotte, exibindo longos apliques, fez jus à qualidade de estrela de sua geração), possui uma personalidade libertária e transgressora. Está prestes a ficar noiva do ambicioso Vitor Dumonte (Daniel de Oliveira; Daniel, em seus recentes trabalhos, tem defendido bons papéis, como na minissérie “Nada Será Como Antes”). Vitor trabalha para Arnaldo, revelando uma conduta bastante subserviente. Sua mãe Cora, Susana Vieira, é uma pessoa dura, preconceituosa e objetiva (Susana deixou impressa sua forte postura cênica). Na festa promovida para selar o acordo comercial do empresário, acompanhar o jogo da seleção brasileira e anunciar o noivado de Vitor e Alice, com a presença luxuosa do mordomo composto por Ricardo Blat, a potencial noiva surge, para a fúria silenciosa de seus pais, sensualmente trajada com peças de influência hippie. Os lados opostos, sobretudo no que tange à moral e ao comportamento, geradores de sequenciais conflitos num mesmo núcleo familiar, evidenciam-se. Fomos deslocados para o universo de uma outra família da história, em que vive o sensível, porém firme, médico Renato Reis, personificado por uma das recentes revelações da TV, Renato Góes. O público, que se encantou de modo unânime com sua intensa e emocionante interpretação de Santo em “Velho Chico”, terá a chance de conhecer uma faceta completamente diferente de Renato. Deixando a rusticidade de seu personagem anterior, o ator nascido em Recife ganha ares de herói romântico, o que não deixa de ser um enorme desafio. Com os cabelos curtos, lisos e sem barba, o intérprete dignificou a responsabilidade que lhe conferiram ao lhe oferecerem um dos protagonistas da obra. Sua atuação contida, segura e meticulosa em algumas cenas, utilizando-se sobremaneira da linguagem de seu olhar, promete conquistar mais uma vez a torcida dos telespectadores. Renato é irmão do jovem militante político Gustavo, papel que coube a outra bem-vinda revelação da nova geração de atores, Gabriel Leone. Gabriel já possuía passagens na televisão, mas foi somente em “Verdades Secretas” que o talento deste jovem artista começou de fato a ser percebido, consolidando-se em definitivo na novela “Velho Chico”. O viés politizado de seu último personagem, sob outro contexto, é claro, foi mantido, mas agora Gabriel vivencia uma experiência interpretativa substancialmente distinta (no primeiro capítulo, Gabriel Leone, experiente ator de musicais, a despeito de sua juventude, presenteou o público com sua doce e afinada voz, cantarolando, e dedilhando o seu violão, o clássico de Chico Buarque, “Deus lhe Pague”). Gustavo, além de ser irmão de Renato, é irmão de Maria (Carla Salle). Todos são filhos de Vera, Cássia Kis, dedicada mãe que já demonstrou elevada preocupação com o rapaz inconformado com o “status quo”, namorado de Cátia (Barbara Reis), filha de Josias (Bukassa Kabengele), o contador da construtora, e de Natália (Mariana Lima), uma professora. Esta família inter-racial provavelmente será vítima de discriminação por parte da ala conservadora do enredo (basta nos lembrarmos do comentário com inclinação racista de Cora). Voltando a Cássia Kis, esta intérprete com longa carreira, recheada de tipos inesquecíveis na teledramaturgia, invariavelmente constrói suas personagens com uma carga emotiva que é a sua marca pessoal. Gustavo é amigo de Túlio (Caio Blat), representante de um setor mais radical da oposição ao regime totalitário. A cena em que Túlio, indignado com a faixa afixada na frente da empresa de Arnaldo com a exortação “Brasil, ame-o ou deixe-o”, decidiu lançar uma bomba caseira na área interna do prédio, foi muito bem dirigida, com mérito também para os efeitos especiais de Federico Farfan. Patrulhinhas e guardas chegam à região, e iniciam uma caçada aos militantes, onde se nota uma avolumada agilidade da direção em conduzir cenas de contínua ação. Gravadas em ruas estreitas do Centro do Rio de Janeiro, foram um dos pontos altos da supersérie (a direção de Carlos Araújo verdadeiramente nos surpreendeu, não só pelo uso inventivo de sua câmera, utilizando-se de ângulos diferenciados e closes diretos, além daqueles em que os rostos dos atores vão sendo alcançados aos poucos). Gustavo consegue escapar, mas Túlio não, sendo alvejado por um covarde tiro pelas costas em uma de suas pernas. Isto serve para nos mostrar o bárbaro e desumano processo de tortura da ditadura militar, observado impavidamente por Arnaldo, a que os opositores, muitos deles estudantes, eram cruelmente submetidos. Arnaldo, colérico com o fato de sua empresa ter sido atingida por uma bomba, conclama o delegado Amaral (Marco Ricca transmitindo com legitimidade a rudeza e subordinação de seu personagem), para quem “o pau canta, a boca abre”, a achar de qualquer jeito o segundo homem que participou do ataque, no caso, Gustavo. Retornemos à casa de Alice. Em seu quarto, desnuda-se para o seu futuro noivo, que se recusa a ceder aos seus apelos, classificando-a de vulgar. Vitor revela um comportamento moralista e eivado de machismo. A moça que gosta de ler “O Pasquim” e admira a atriz Leila Diniz é repreendida por sua mãe, na frente de sua pequenina irmã Nanda (Letícia Braga; depois, na fase adulta, será interpretada por Julia Dalavia). Alice resolve fugir pela janela, com o intuito de ir à casa da amiga Cátia, descendo pelos andaimes de uma obra em seu edifício. Renato, parado em seu Fusca branco, vê pela primeira vez aquela que balançará o seu coração pelos próximos capítulos. Com a vitória do Brasil, tricampeão mundial, papéis picados colorem as ruas da cidade. Gustavo refugia-se em um bar. Encontra-se com Cátia e Alice. Logo depois, chega Renato, e reconhece a indômita menina dos andaimes. O interesse do médico profissional pela fotógrafa amadora com sua máquina analógica Nikon só aumenta. Por sinal, só para não nos esquecermos, há uma excelente cena com Renato Góes no hospital em que trabalha, no qual, após comemorar um gol, tem que atender a uma paciente na emergência. Trata-se de Monique (Letícia Spiller), que está à espera de seu terceiro filho com Toni (Marcos Palmeira), simplesmente irmão de Arnaldo. O bebê nasce, e Monique sofre de atonia uterina pós-parto, o que a deixa à beira da morte, sendo salva por Renato. Arnaldo chega ao hospital, e exige a remoção de Monique, deparando-se com a resistência do médico (nesta hora, temos um elogiável embate entre Antonio Calloni e Renato Góes). Toni prefere que sua esposa permaneça na casa de saúde. Em agradecimento a Renato, o casal oferece a criança, uma menina chamada Esperança, para o doutor batizá-la. Marcos Palmeira e Letícia Spiller valorizam qualquer produção de que participam. Ainda na cena do bar, inicia-se nas ruas próximas uma batalha entre soldados e guardas e o povo. Os papéis picados deixam de cair para darem lugar a flagrantes de covardia explícita. Os diretores, a fim de realçar estes momentos de tensão da trama, usaram um recurso fílmico em que as imagens parecem borradas, numa velocidade mais lenta (recurso também usado na fuga de Gustavo e Túlio). Cenas de arquivo são misturadas às de ficção. Acuados, com medo, Renato e Alice nunca estiveram tão juntos. Sozinhos em um lugar inóspito, com seus azulejos quebrados, ao som de “Nossa Canção”, interpretada por Roberto Carlos, resta-lhes um ardente beijo, nascendo o grande romance de “Os Dias Eram Assim”. Ainda participarão da supersérie Maria Casadevall (Rimena), o ator chileno Alfredo Castro (Hernando), Felipe Simas (Caíque), Cyria Coentro (Laura), Maurício Destri (Leon), Nando Rodrigues (Hugo) e Julio Machado (Marcos), e tantos outros. A abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguelê e Flavio Mac, cuja música “Os Dias Eram Assim” fora composta por Ivan Lins e Vitor Martins, e cantada belamente pelos atores Sophie Charlotte, Gabriel Leone, Daniel de Oliveira, Renato Góes e Maria Casadevall, enfileira uma série de imagens do período focado (tanques nas ruas, manifestações de protestos de estudantes, jogadores da seleção brasileira comemorando o título…), misturadas a recortes de documentos oficiais ou não, estes escritos a mão. Percebam que a cor vermelha se contrapõe ao p&b, como signo representativo do sangue derramado nas torturas, nas execuções e nos embates diretos entre governo e oposição. A cenografia de Alexandre Gomes e Flavio Rangel se destacou pela fiel reprodução dos apartamentos sofisticado e simples, respectivamente, das famílias Sampaio e Reis (além dos interiores da construtora). O figurino coube à tarimbada Marília Carneiro e Renaldo Machado, que se debruçaram na pesquisa histórica para realçar os perfis típicos de cada personagem, seja nas peças coloridas hippies de Alice, nas roupas despojadas de Gustavo, no jaleco de médico de Renato, e nos ternos com gravata borboleta do empresário Arnaldo. A direção de fotografia ficou a cargo do prestigiado Walter Carvalho, que se valeu de acertados filtros para oferecer o máximo de credibilidade à atração. A produção de arte de Moa Batsow é incrível, atendo-se a todos os detalhes, sejam eles na decoração do quarto de Alice, ou no desfile dos memoráveis Fuscas e demais veículos, que nos fazem viajar na memória e na salutar nostalgia. A gerência musical ficou por conta de Marcel Klemm, que tem em mãos um rico material a ser explorado oriundo daqueles períodos. Tivemos na estreia “Deus lhe Pague”, cantada por Elis Regina, “A Lua Girou”, de Milton Nascimento, e “Sangue Latino”, dos Secos & Molhados. Haverá ainda músicas de Os Mutantes, Vanusa, Gal Costa, outras dos Secos & Molhados, Chico Buarque, Novos Baianos, Walter Franco, Toni Tornado e Raul Seixas. Representando os Anos 80, Fábio Jr. e Marina Lima. Com esta supersérie de Angela Chaves e Alessandra Poggi, “Os Dias Eram Assim”, teremos a oportunidade de revisitar um passado obscuro do nosso Brasil, em que grassava a intolerância, o autoritarismo, a ignorância, o cerceamento da liberdade de expressão, o derramamento de sangue, o medo, a covardia, a luta armada e a divisão no país. No entanto, também teremos a oportunidade de relembrar a riqueza da cultura e da contracultura daquela época, com suas poderosas manifestações artísticas, várias delas nascidas como um grito de resistência. Da mesma forma, testemunharemos o limiar dos sopros dos ventos da democracia, por meio dos movimentos populares. E no meio desse torvelinho de acontecimentos, o amor de Renato por Alice. O amor de Alice por Renato nesses dias… Dias de luta, dias de glória, dias de guerra e dias de paz. Os dias eram assim, acreditem, para Renato e Alice. De lá para cá, muita coisa mudou. Mas alguns dias ainda são… assim.

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Foto: Estevam Avellar/TV Globo

Ao vermos uma novela de Gloria Perez infalivelmente identificamos a sua marca. E não foi diferente ao assistirmos ao primeiro capítulo de “A Força do Querer”, o novo folhetim das 21h da Rede Globo, exibido ontem à noite. Com direção artística de Rogério Gomes e direção geral de Pedro Vasconcelos, a trama nos apresentou a gênese dos principais conflitos que a nortearão pelos próximos meses. Contando com um elenco estelar, formado em grande parte por atores que costumam ser protagonistas em outras produções do gênero, raro de se testemunhar, “A Força do Querer” não fugirá da abordagem de assuntos polêmicos, alguns extremamente atuais, como os que dizem respeito aos transgêneros e sua aceitação pelas família e sociedade, compulsão pelo jogo, busca da beleza perfeita, sereismo, e os potenciais poder e glamour associados ao tráfico de drogas. Além disso, teremos uma policial, Jeiza, com aspirações de ser uma lutadora de MMA, livremente inspirada em Ronda Rousey (papel que caberá a Paolla Oliveira). Ademais, Gloria não se furtará de inserir em sua obra elementos clássicos das telenovelas, como a disputa de dois homens que se conheceram na infância por uma mesma mulher. Suas primeiras cenas ocorreram no Pará com o personagem de Eugênio (Dan Stulbach, um bem-vindo retorno à teledramaturgia da emissora, após um período de experiências como apresentador em outros canais), sócio de uma empresa que comercializa alimentos, ao lado de seu filho Ruy (João Gabriel Bolshaw; Fiuk o representará na fase jovem), marcando a sua ida ao Acre a fim de negociar com um fornecedor local. A região é inóspita, e só se chega de barco. O tempo está ruim. A embarcação tomba, e o menino desaparece em águas turvas. Dan se saiu muito bem ao revelar o desespero do pai. Na verdade, Eugênio estava cumprindo a sua última missão como diretor da empresa, já que pensa em “começar do zero”, realizando o sonho de sua vida, montar o seu próprio escritório de advocacia, o que contrariará seus familiares. Quem assumirá o seu lugar é Caio (Rodrigo Lombardi, um intérprete associado a outras novelas de Gloria, como “Caminho das Índias” e “Salve Jorge”). Caio é um homem honesto, porém bastante ambicioso no que tange ao aspecto profissional, o que atrapalha o seu relacionamento com a passional Bibi (Juliana Paes; uma reedição do casal, como podem lembrar, de “Caminho das Índias”). As cobranças de Bibi são tão intensas que levam ao rompimento do compromisso. O que Caio não esperava é que estava sendo traído por ela com o garçom Rubinho (Emílio Dantas, o ator que se sobressaiu nos palcos ao encarnar o cantor e compositor Cazuza; uma boa escalação, já que se trata de um rosto novo no horário nobre). Rubinho introduzirá Bibi no mundo do crime, no qual a moça assumirá um posto que lhe conferirá irrestrito poder, assumindo a identidade de Bibi Poderosa. Caio, desiludido, desiste da nomeação na empresa, e viaja para os Estados Unidos, onde estudou. Um dos principais sócios desta mesma empresa se chama Eurico, austero e rígido nos negócios. Eurico, irmão de Eugênio, é defendido por Humberto Martins, um artista que sempre imprime dignidade aos seus papéis (também integrou o elenco de algumas novelas da autora, como “Barriga de Aluguel”, na pele de um caminhoneiro). O empresário é casado com a sofisticada e reconhecida arquiteta Silvana (a ótima Lilia Cabral, representando com a elegância de costume). Só que Silvana lhe traz um enorme problema: o seu vício em mesas de pôquer. Esta falha compromete, óbvio, a estabilidade do casamento e a sua situação financeira. Neste mesmo núcleo, temos a bela Maria Fernanda Cândido (brilhou em suas primeiras cenas), cuja personagem Joyce, casada com Eugênio, é uma mulher fútil e exageradamente vaidosa, que direciona essas características para a sua filha pequena Ivana (na outra fase, será personificada pela estreante Caroline Duarte). A criação desta personagem é uma crítica oportuna às mães que se utilizam de seus filhos para se promoverem, e até mesmo ganharem dinheiro, ainda mais em tempos de redes sociais. São mães que não conseguiram almejar os seus sonhos, transferindo-os para os seus filhos, mesmo que muitos não os queiram. O que Joyce não imaginava é que Ivana ao crescer não possuiria quaisquer resquícios de vaidade feminina, aproximando-se cada vez mais do mundo transgênero. Este tema promete aquecer a história, promovendo opiniões contrárias ou favoráveis, tanto dos personagens quanto dos telespectadores. Todos estes episódios relatados se passam no Rio de Janeiro. Voltemos ao rio em que Ruy caíra em viagem com o pai. Já não há esperanças quanto à sua sobrevivência, até que um outro garoto, natural da região, Zeca, filho de Abel (Tonico Pereira), vivido por Xande Valois (personagem de Marco Pigossi na etapa seguinte), tenta salvá-lo, mas também acaba caindo nas correntezas do rio. Desacordados na sua margem, os meninos são encontrados por um índio ashaninka (Benki Piyãko), que lhes dá um chá curativo alucinógeno. Os meninos que veem a Lua se misturar ao rio, ouvem a seguinte profecia do indígena: “Vocês tenham medo do que vier das águas. O rio que juntou vocês vai separar de novo”. O índio lhes ofereceu como proteção um colar, metade para cada um. O tempo passou. Bibi, agora cabeleireira, está casada com Rubinho, desempregado, o que causa um desconforto em sua mãe Aurora (Elizangela). Durante o noivado de Ruy (Fiuk; outra renovação no horário das 21h, é prazeroso ver este jovem ator ostentando maturidade) e Cibele (Bruna Linzmeyer), com a presença de toda a família, incluindo o amigo Dantas (Edson Celulari), pai da noiva, Eugênio anuncia o seu novo sucessor na empresa: Ruy, o seu filho, para o assombro geral. Deslocamo-nos para Parazinho, a fictícia cidade do Pará. Zeca agora tem como intérprete Marco Pigossi (depois de “A Regra do Jogo”, em que deu vida a um policial, Marco tem a possibilidade de defender um tipo bem oposto àquele, haja vista que Zeca é um sujeito simples, rústico, trabalhador – reparem em seu bem construído sotaque, um caminhoneiro apaixonado por Ritinha, Isis Valverde, a fogosa, brejeira e sensual moça que acredita ser filha de um boto, adepta do sereismo, prática das mulheres que se trajam de sereias, tentam ao máximo se assemelhar a elas, sendo que muitas ganham a vida com isso, como é o caso de Ritinha, que faz apresentações públicas como o ser mitológico). O romance dos dois é desaprovado por Abel, que se desabafa com sua irmã Nazaré (Luci Pereira). Zeca está à procura de Ritinha. Ruy está com o seu pai na localidade para se encontrar com um fornecedor. Ritinha, a “sereia”, surge fulgurante de dentro das águas vermelhas do rio de Parazinho, tendo ao seu lado lépidos botos. Os dois rapazes, atônitos, admiram-na. A profecia do índio começa a se concretizar. Começou desta forma a nova novela de Gloria Perez, enriquecida por uma bonita direção de fotografia de Sérgio Tortori, em tons de azul para a noite, verdes em outra passagem, e naturais nas áreas urbanas, valorizando o colorido do mercado de alimentos. A abertura de Alexandre Romano e Cristiano Calvet é embalada pela canção de Caetano Veloso, “O Quereres”, em que há a fusão de imagens de pessoas e paisagens e situações do cotidiano, realçadas por distintas cores. “A Força do Querer” se compromete a seguir o que dita o seu título. Os seus personagens se moverão pelos seus desejos, seus quereres, que não virão facilmente. As suas metas só serão atingidas se forem empreendidas as suas forças, claro. No entanto, onde há mais de uma força, aquelas que intentam o mesmo objetivo, haverá pelejas. Assim como haverá a força individual, tão difícil por ser solitária, por ser contra a maioria do pensamento. A novela de Gloria Perez se baseia nisso. E é nesta conflagração de conflitos que desencadeiam debates, discussões e reflexões que se encontra a tal marca da teledramaturga. Para se assistir às suas novelas, é necessário que se tenha força, força para se aceitar a diferença, para se aceitar o novo, para se enfrentar o tabu. Olhos para se descobrir a tolerância que há dentro de nós, mesmo que a desconheçamos. Basta que para isso, despertemos a nossa força do querer.

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Foto: Divulgação/TV Globo

“A casa foi vendida com todas as lembranças/todos os móveis/todos os pesadelos/todos os pecados cometidos ou em vias de cometer/a casa foi vendida em seu bater de portas/com seu vento encanado/sua vista do mundo…”. Com o poema de Carlos Drummond de Andrade, “Liquidação”, sendo datilografado, e narrado pelo personagem Nael (Irandhir Santos), fomos levados ao futuro de “Dois Irmãos”, a prestigiada e premiada obra homônima de Milton Hatoum, vencedor do Prêmio Jabuti de 2011, agora em formato de minissérie de Maria Camargo, com direção artística de Luiz Fernando Carvalho. Vimos Zana (Eliane Giardini) em prantos sobre a cama, despedindo-se de sua casa, mas levando consigo todas as dolorosas lembranças que corroeram a sua vida. A trama, gravada em Manaus, em locações como as praias do Rio Negro, compreendida entre as décadas de 20 e 80, narra a trágica e sofrida relação de ódio entre dois irmãos gêmeos, filhos de imigrantes libaneses, Omar e Yaqub (Lorenzo e Enrico Rocha, na infância; Matheus Abreu, na adolescência, e Cauã Reymond na fase adulta). Em uma de suas primeiras cenas, percebemos a preferência explícita da matriarca Zana (Juliana Paes, linda num papel totalmente diferente aos quais estamos acostumados a vê-la) pelo menino Omar, diante do olhar desolado de seu marido Halim (Antonio Calloni, sempre uma acertada escalação). Singrando as águas do Rio Negro, o excelente Antonio Fagundes vive Halim já avançado em idade, recordando o seu passado, e nos afirmando que “depois, tem certas coisas que a gente não deve contar para ninguém”. Zana e Halim possuem uma outra filha, Rânia (Letícia Almeida). Os pais estão ansiosos à espera de Yaqub (Matheus Abreu, que se assemelha a Cauã Reymond), que vem do Líbano, cuja guerra chegou ao fim. Enquanto os jubilosos pais levam o introspectivo Yaqub para a casa, imagens do cotidiano de Manaus (incluindo as de arquivo) mostram as mudanças da cidade durante os cinco anos em que o moço ficou fora. A única coisa que não mudou foi a constante chuva que se abate sobre a capital (“Só em Manaus, chove assim”, segundo Halim). A chuva faz com que Halim reavive a sua memória, recorde-se como foi a sua chegada à cidade, como um simples mascate (nesta fase, é interpretado pelo ator e cantor Bruno Anacleto, extremamente carismático, tendo se saído muito bem em sua atuação). No restaurante de Galib (Mounir Maasri, também responsável pela crível prosódia do elenco), encanta-se por sua filha, Zana (a doce, bonita e graciosa Gabriella Mustafá), que não lhe dá a mínima (ou apenas finge). Halim teria que vencer a sua própria timidez e o preconceito por ser muçulmano para conquistar a sua adorada. Em uma das melhores cenas da minissérie, com notável interpretação de Bruno Anacleto, Salim recita em público, no restaurante de Galib, um inflamado poema em árabe, dedicado ao seu amor, traduzido pelo seu amigo na rua sob a chuva, Abbas (Munir Kanaan). Após o festivo casamento, o pai viaja para o Líbano, e falece. Zana, por um tempo, cultiva o seu luto. Mas Nael não nos deixa esquecer de que “os mortos um dia acabam morrendo de verdade”. Tudo começa a mudar quando Zana manifesta o seu desejo de ter filhos, três filhos, o que contraria Halim. O casal resolve abrir uma loja, e oferece os móveis do antigo restaurante para um orfanato, representado pela rígida e inescrupulosa freira vivida pela ótima Viviane Pasmanter, que lhe entrega a indígena Domingas (Sandra Paramirim) para lhe servir como criada. Segundo a corruptível irmã, Domingas “tem bons dentes”. Domingas na verdade simboliza a catequização cristã imposta aos índios desde priscas eras. Uma “escravização” do povo indígena em pleno século XX. Aparece em cena, como refresco cômico, o excêntrico casal formado por Estelita (Maria Fernanda Cândido, divertida) e Abelardo (Emilio Orciollo Netto, com uma boa composição), vizinhos de Halim e Zana. A pequena Domingas sacia a sua curiosidade com uma certa obsessão ao observar a troca de carícias entre o jovem par. Zana engravida. Na noite do parto, chove e venta. Primeiro, nasce Yaqub. Após, com dificuldades, Omar, o Caçula, com problemas nos pulmões. Um vaso quebra, como se fosse um prenúncio. A partir daí, não se sabe se pelo seu nascimento arriscado, Zana passa a se dedicar de modo exagerado a apenas um filho. Uma espécie de Sofia que escolheu por vontade própria um único para cuidar. Inicia-se o desmoronamento familiar, e a crônica de um drama anunciado. Halim parecia estar com a razão ao não querer ter filhos. E a rivalidade dos gêmeos já era por ele pressentida. É Carnaval, e toda a família comparece a uma festa onde está Estelita. Ambos os gêmeos (Lorenzo e Enrico Rocha) se interessam pela mesma menina, Lívia (Monique Bourscheid). No instante em que Yaqub fora deixar a sua irmã em casa, Omar conquista a garota fantasiada. Nos dias que se seguem, a tensão entre os meninos cresce. Lívia provoca os dois. Ao som de “Claire de Lune”, de Chopin, “O Garoto”, clássico de Chaplin, chega à cidade, o que deixa as crianças animadas. O filme será exibido na residência extravagante de Estelita, sempre preocupada com os seus macaquinhos. A cabeça de uma boneca sorridente que remexe os seus olhos, observada por Omar, parece anunciar o pior. Entre uma gargalhada de Estelita e uma gag de Chaplin, diante dos olhares trocados entre Lívia e Yaqub, a fúria de Omar só aumenta. Um beijo se consuma entre os dois. Nem a falta de luz o interrompe. Somente um caco de vidro usado por Omar para marcar para sempre no rosto de seu irmão o ódio sentido. A guerra fraterna está apenas em seu começo. A direção de Luiz Fernando Carvalho, como de costume, para quem acompanha seus trabalhos, esmerou-se em todos os detalhes, trazendo à tona com capricho, precisão e cuidado estético uma história dramática consagrada na literatura brasileira. Luiz Fernando é, como sabemos, um “diretor de atores”. Ele não só descobre novos talentos, e os lapida, como potencializa os recursos interpretativos de quem está há mais tempo no ofício. Percebemos que o diretor, cada vez mais delicado em sua visão do panorama narrativo, procurou realçar, com a sua câmera, os pequenos gestos, os movimentos fugidios, o quadro, o móvel, a rede, a escada, enfim, elementos que poderiam passar despercebidos, mas que em suas mãos ganham vida. Valorizaram-se sobremaneira a preparação e o close nos pratos típicos árabes, com a sua miríade de cores (inevitável não nos lembrarmos do longa-metragem dinamarquês “A Festa de Babette”, de Gabriel Axel, de 1987). A direção de Luiz Fernando é humanizada. Ele faz com que acreditemos naqueles personagens que se põem à nossa frente, com todas as suas emoções, sentimentos, dores e alegrias. O elenco deste primeiro capítulo se destacou com atuações potentes de Antonio Fagundes (seu Halim possui uma melancolia, uma nostalgia associada à ironia), Antonio Calloni (soberbo e intenso como Halim, também), Juliana Paes (uma legítima e passional matriarca, transbordando a sua beleza), Maria Fernanda Cândido (jovial, encarregou-se de imprimir leveza a Estelita) e Emilio Orciollo Netto (hábil na composição de Abelardo). O ator e cantor Bruno Anacleto, natural de Rondônia, foi uma excelente escolha. O rapaz nos cativou em todas as cenas. Torcemos pela sua vitória na conquista do amor de Zana. É um jovem artista que merece outras oportunidades na teledramaturgia. Também merecem os nossos elogios a atriz Gabriella Mustafá. Todos os intérpretes cumpriram com incontestável brilho a incumbência que lhes foi dada, defendendo com dignidade os seus papéis. A cenografia de Juliana Carneiro e Claudio Duque, e a produção de arte de Marco Cortez corresponderam com fidelidade máxima e inconteste encanto à época retratada (os anos 20, e os que se seguiram). Destaque para um avião da Panair do Brasil no hangar do aeroporto. O figurino de Thanara Schonardie seguiu o mesmo caminho de fidelização dos costumes das diferentes fases. A direção de fotografia ficou a cargo de Alexandre Fructuoso, que soube explorar com inteligência as camadas de luminosidade diversas. Há momentos vivazes, com luz natural, outros mais sombrios, num tom azulado, e outros que se aproximam da sépia. A música original de Tim Rescala é indescritivelmente sublime, com distintos acordes de inúmeros instrumentos. Suas melodias possuem o inefável poder de desenhar com emoção todos os quadros que emolduram determinada cena. Tim, a cada produção, supera-se. A abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguele e do pintor Carlos Araújo é deslumbrante, como há muito não se via. Acompanhada de uma imponente música, testemunhamos pinturas de rostos e corpos expressivos que parecem registrados em pedras de diferentes matizes. “Dois Irmãos” é uma minissérie que tem por desafio transportar para uma outra seara uma obra que já se estabeleceu com sucesso em outro veículo, no caso o editorial. Mas pelo que assistimos em seu primeiro capítulo, esta nova atração da Rede Globo detém todas as ferramentas para se tornar mais uma produção inesquecível da emissora. O telespectador deseja ver, acompanhar, espiar esta jornada dolorosa e emocionante de uma família, marcada por amor, ódio, paixão e ciúme. Queremos ver até que ponto vai a ira entre os irmãos Omar e Yaqub. Se não há algo que possa reverter este laço despedaçado entre eles desde a tenra infância. Se a chuva de Manaus continuará. Quando o pranto de Zana cessará. Se não existe entre esses dois irmãos um resquício sequer de sentimento que não seja tão somente o ódio. Difícil dizer. Nem Zana sabe. Nem os dois irmãos sabem.

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Foto: Ramon Vasconcelos/Gshow

Estrear no horário nobre de uma emissora de TV não é nada fácil. Estrear neste mesmo horário com uma telenovela em uma emissora reconhecida nacional e internacionalmente por este gênero se torna uma tarefa ainda mais difícil. Maria Adelaide Amaral é uma escritora, dramaturga e teledramaturga prestigiada por público e crítica, com obras como a antológica minissérie “Os Maias” e o remake de “Anjo Mau”, dentre tantas outras produções de similar valor. Iniciou uma bem-sucedida parceria com o autor Vincent Villari em 2013, na Rede Globo, com “Sangue Bom”, na faixa das 19h. E esta profícua colaboração se repete agora com “A Lei do Amor”, um enorme desafio para ambos, levando-se em consideração o fato de que estão sucedendo um sucesso como “Velho Chico”. A nova novela em questão será dividida em duas fases, tendo a direção artística de Denise Saraceni e a direção geral de Denise e Natália Grimberg. A história começa em 1995 na fictícia cidade São Dimas, uma bucólica e campestre região do interior de São Paulo na qual o principal polo de trabalho é a Tecelagem Leitão, comandada com mãos de ferro pelo empresário Fausto (Tarcísio Meira, uma presença sempre bem-vinda na TV brasileira), também dono de uma fábrica de tintas. Casado com Magnólia ou Mág, uma mulher manipuladora e perigosa vivida por Vera Holtz, ostentando a sua familiar potência interpretativa, o patriarca possui pretensões políticas bastante conservadoras e reacionárias. Pai de Pedro (Chay Suede, um dos jovens atores mais queridos de sua geração, desde “Rebelde” até chegar a ser protagonista de “Império”), um rapaz forte, decidido, justo, cheio de ideias próprias, que “bate de frente” com sua madrasta Mág. O arquiteto foi criado pela babá, hoje copeira, Zuza (a cativante Ana Rosa), a quem considera a sua segunda mãe, pois Stela, sua verdadeira progenitora, falecera cedo. Pedro é meio-irmão do rebelde, aproveitador e maldoso Hércules (João Vitor Silva em acertada escalação após o seu impressionante desempenho como Bruno em “Verdades Secretas”), que por sua vez é casado com a doce porém infeliz Carmem (Bianca Salgueiro). Ela tivera um filho precocemente com ele, e se viu obrigada a se casar para não perder a guarda da criança, temerosa do poder econômico do clã. O folhetim também marca o retorno de Sophia Abrahão ao horário das 21h após “Amor à Vida”, na mesma emissora. Sophia defende a outra meia-irmã de Pedro, Vitória, uma moça alegre, de boa índole e romântica. Vitória se apaixona por Augusto (Hugo Bonemer, excelente ator de teatro, principalmente de musicais, que volta à televisão em um papel de destaque para a alegria de seus fãs). Augusto, filho de um fiscal do trabalho já falecido, crê que o seu pai fora morto por saber que Fausto mantinha um caso extraconjugal com Mág enquanto sua esposa Stela era viva. Deduz-se que Mág agirá com intensidade para interromper o namoro dos dois que mal começara. Maurício Destri está quase irreconhecível com uma barba espessa, e seu personagem se chama Ciro, o amigo misterioso, calado e sisudo de Hércules. Frequentador da mansão dos Leitão, faz as provas escolares de seu colega sem qualquer resistência. Logo em suas primeiras cenas, com bonitas imagens captadas do alto, vimos Isabelle Drummond, como Helô, em seu barco rústico praticando a pesca nas águas da represa de São Dimas para a sobrevivência de seus familiares, um pai alcoólatra, Jorge (Daniel Ribeiro) e uma mãe adoentada, Cândida (Denise Fraga; prazeroso ver esta atriz que se sobressaiu em bastantes trabalhos de comédia, voltar às novelas personificando uma mulher triste e castigada pela vida). De repente, seu barco é ameaçado por rapazes inconsequentes, Hércules e Ciro, que com a velocidade de seus jet skis derrubam a sua embarcação. Por sorte, Helô é salva por Pedro, que estava por perto com o seu veleiro. Começa aí uma grande paixão que transcenderá as fases da novela, mas que, como num bom folhetim, terá que superar muitos obstáculos, inclusive uma armação urdida por Mág para separá-los. Helô e Pedro, que serão interpretados no futuro por Claudia Abreu (curiosamente chamada Helô, e com um corte de cabelo semelhante, na minissérie “Anos Rebeldes”, que lhe deu projeção nacional) e Reynaldo Gianecchini na outra fase, entendem-se cada vez mais, da mesma maneira que Vitória e Augusto, o que desperta o enorme e temível ciúme de Ciro. O clima tenso do primeiro capítulo do entrecho ficou por conta de Jorge que, não conformado de ter sido demitido por faltar sucessivas vezes ao emprego, decide defrontar o casal Leitão, piorando a sua situação. A aproximação de sua desgraça se efetiva quando ganha de presente em uma quermesse uma arma de brinquedo, que o faz tentar assaltar o caixa da tecelagem onde trabalhava, tomando uma funcionária como refém. Jorge é preso em uma cela comum, para o desespero de sua filha. O generoso arquiteto Pedro até tentou ajudá-lo, providenciando um habeas corpus. Helô suplica a Mág o seu perdão, sem sucesso. Ocorre um motim, e Jorge é morto. Enquanto isso, acontece um luxuoso jantar na casa dos donos da empresa para homenagear um político corrupto, César Venturini (Otávio Augusto). O clímax para o próximo capítulo se efetuou quando Helô impulsivamente invadiu a mansão dos Leitão e ameaçou Fausto de ter assassinado o seu pai. E assim começou a nova novela das 21h da Rede Globo, uma produção sempre aguardada pelos telespectadores. A trama pensada por Maria Adelaide e Vincent Villari engloba os elementos básicos que sempre caracterizaram o folhetim clássico, como descrito brevemente no título deste texto. Heróis e mocinhas românticos, grandes e pequenos vilões, a luta do bem contra o mal, dos fortes contra os mais fracos etc. As direções artística e geral de Denise Saraceni e geral de Natália Grimberg optaram por uma linguagem mais convencional, tradicionalista, sem maiores e desnecessários malabarismos estéticos. Houve uma alternância entre as cenas românticas (bonitos e ternos momentos de Chay Suede e Isabelle Drummond em um rio com takes filmados do alto, e Hugo Bonemer e Sophia Abrahão em uma colorida e iluminada quermesse), e os instantes de tensão e apreensão que permearam o desenrolar do enredo, envolvendo as leves altercações entre Pedro e Mág, as provocações de Hércules e o cume, protagonizado pelo ator Daniel Ribeiro e os intérpretes diretamente envolvidos com o seu drama, como Tarcísio Meira, Vera Holtz, Denise Fraga, Chay Suede e Isabelle Drummond. O que percebemos também neste primeiro capítulo foi o ótimo aproveitamento de um time de jovens atores, alguns com inegável experiência, que deram um frescor à novela, independente de seus personagens tenderem para o bem ou para o mal. Foi agradável conferir Chay Suede com Isabelle Drummond, Hugo Bonemer com Sophia Abrahão, Maurício Destri, João Vitor Silva e Bianca Salgueiro. E, claro, juntaram-se a eles nomes de respeito da classe artística, como Tarcísio Meira, Vera Holtz, Denise Fraga e Ana Rosa. Ainda com relação a este início de “A Lei do Amor”, que mostra em sua abertura a voz de Ney Matogrosso cantando “Trenzinho do Caipira” (criação de Alexandre Romano, Christiano Calvet e Roberto Stein), podemos destacar a direção de fotografia de Roberto Amadeo e Jean Benoit Crepon, que valorizaram em muitos momentos a luz natural de belas paisagens, e a produção de arte de Guga Feijó e Flavia Cristófaro, que souberam ser fiéis na reprodução de um cenário coletivo que reportasse à segunda metade da década de 90. Aguardemos a segunda fase, que trará um cast digno de atenção, com Regina Duarte, José Mayer, Claudia Raia, Thiago Lacerda e tantos outros, além de marcar a volta de Renato Góes e Grazi Massafera ao vídeo, após seus retumbantes êxitos como o Santo de “Velho Chico” e a Larissa de “Verdades Secretas”, respectivamente. “A Lei do Amor” tem potencial para despertar o interesse do público das 21h por falar sobre algo que nos é intrínseco, regente de nossas vidas, complexo, fugaz ou longo, prazeroso ou doído: o amor. Resta-nos saber se saberemos respeitar as suas leis ou não. “A Lei do Amor” fará a sua parte.

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Foto: Estevam Avellar/Gshow

Saulo (Murilo Benício), um visionário vendedor de rádios, passeia de carro pelas estradas do interior de São Paulo ao lado de seu melhor amigo, Aristides (Bruno Garcia). O ano é 1946, e o rádio toca. Por debaixo das longas linhas de transmissão, ouve-se a doce voz da rádio atriz Verônica Maia (Débora Falabella). Saulo se embevece, e vai ao seu encontro na Rádio Difusora Entre Rios. Ao chegar lá, depara-se com uma recepcionista (Débora Falabella), e após um breve desentendimento, escuta da moça a seguinte frase: – O senhor é muito mal-educado. Ele então reconhece a dona da linda voz que ouvira no carro. Com ideias arrojadas e ambiciosas, Saulo procura convencer Verônica a irem para o Rio de Janeiro tentar a sorte. O primeiro beijo de ambos é embalado por “Fly Me To The Moon”, música cantada por Iza. Dez anos depois, no mágico e fascinante Rio de Janeiro desta época, em um prestigiado night club (vem-nos à lembrança a ambiência de um dos mais elegantes e nostálgicos filmes de Woody Allen, “A Era do Rádio”, de 1987), somos seduzidos por uma bela e voluptuosa dançarina interpretada por Bruna Marquezine, Beatriz. Saulo agora é o proprietário da Rádio Guanabara, e Verônica, então sua esposa, a principal atriz da emissora. Fabrício Boliveira é Péricles, seu colega de elenco na radionovela “Cyrano de Bergerac”. Daniel de Oliveira é o rico, playboy e mulherengo Otaviano, para quem “sexo pago não é traição”. Saulo, decidido e envolvente, tenta convencer o rapaz que não gosta de trabalhar a investir em seu mais novo projeto: a televisão. Saulo é uma clara referência a Assis Chateaubriand, o maior responsável pela introdução e popularização da TV no Brasil com os seus Diários Associados. Saulo e Verônica formam um casal perfeito, pleno em felicidade e realizações, mas lhes falta algo importante: um filho. O casamento começa a dar sinais de desmoronamento quando por cerca de três anos tentativas de se ter um filho são infrutíferas. Na verdade, o problema é a infertilidade de Saulo. Desiludido e frágil, é provocado no night club pela lasciva e cobiçosa Beatriz (Bruna Marquezine impressiona na interpretação da canção “The Man I Love”, eternizada por Billie Holiday), que num jogo de quiromancia, busca adivinhar o motivo de seu abatimento. Beatriz, no entanto, preocupa-se com a sua mãe, Odete (Cassia Kiss), uma ingênua empregada doméstica que pensa que a sua filha está no teatro personificando uma “mocinha francesa”. Por covardia e vaidade masculinas, o mentor da Rádio Guanabara resolve friamente mentir para a sua mulher, dizendo que não a ama mais, e que quer se separar. Verônica, ao interpretar Roxane, de “Cyrano de Bergerac, na encenação radiofônica, face à morte de seu admirador (Cyrano), derrama as lágrimas de sua real dor pessoal, o que foi percebido por Péricles. Usando Beatriz, a atriz, como “isca”, Saulo finalmente logra convencer Otaviano a investir a sua fortuna na fundação de uma estação de TV. Numa emblemática e recorrente cena de separação, em que o casal divide os livros e discos, Murilo e Débora emocionam com “Só Louco”, de Dorival Caymmi, ao fundo. Diante de um incrédulo Aristides, que afirma que a televisão irá acabar com o cinema, o rádio e o teatro, Saulo lhe mostra o seu portentoso estúdio de TV, o qual, para ele, profeticamente, “se tornará a praça onde se discutirá a vida do país.” Chega o dia da inauguração da TV Guanabara. Coristas se movimentam de um lado para o outro. Verônica fará a apresentação da efeméride. Ainda sentida com a separação, Verônica, na última hora, desiste de se apresentar. “5, 4, 3, 2, 1… No ar”. Saulo, citando Dom Quixote, apresenta a primeira transmissão ao vivo da TV brasileira. O primeiro episódio da série “Nada Será Como Antes”, que será exibida todas as terças-feiras, em 12 partes, já ganha o telespectador por abordar, misturando o factual com o ficcional, os primórdios da televisão do Brasil, seus bastidores regados a romances, intrigas e polêmicas, revelando-nos à sua maneira como este veículo até então desacreditado se tornou uma das paixões nacionais, e um dos principais conglomerados do setor audiovisual em nossa nação. Guel Arraes, Jorge Furtado e João Falcão, o segundo com notória experiência no cinema, o terceiro no teatro, e todos indiscutivelmente com insigne legado na televisão, somaram seus ímpares talentos, e por meio de precisos e interessantes diálogos, sempre oportunos e necessários em seu contexto, contando com a primorosa direção artística de José Luiz Villamarim, e com as eficientíssimas direção de Isabella Mesquita e direção geral de Luisa Lima, construíram um primeiro episódio que nos causou uma ótima impressão, com vontade inarredável de se esperar por sua continuação. A ideia de se adotar o formato de série semanal é, de fato, um considerável risco, cabendo aos autores e à direção de se encarregarem de nos oferecer invariavelmente irresistíveis desfechos. A direção da produção se apoderou de um estilo que em muito nos lembra filmes que nos são caros na memória afetiva provenientes da indústria de cinema dos Estados Unidos, e isto não é um demérito, sendo tão somente uma inspiração, uma referência. Imprimiu-se um tom naturalista à interpretação dos atores, uma objetividade dos diálogos, mas também as pausas pertinentes para os momentos de maior emoção e dramaticidade, não se esquecendo, é óbvio, da postura melodramática das performances nas rádios e seus gêneros. Usaram-se todos os tipos de angulações de câmeras, como planos fechados, planos e contraplanos, planos americanos, e muita movimentação, com a leve tremulação das suas imagens, com o acompanhamento dos personagens circulando por diferentes cenários. O elenco, pelo que vimos em seu pioneiro episódio, é um total acerto. O reencontro de Débora Falabella e Murilo Benício, após o sucesso de “Avenida Brasil”, formando pela primeira vez um casal na teledramaturgia, rendeu elogiosos resultados, comprovando a química existente entre eles. Murilo compôs Saulo de forma que crêssemos em seu caráter visionário e empreendedor, alternando passagens em que se evidencia mais sóbrio, em outras mais emocional e sensível, e nas demais resoluto e inabalável em suas deliberações. Já Débora Falabella desenhou com excelência o perfil de Verônica com os traços de uma jovem romântica e por vezes fragilizada tanto na sua condição de artista quanto na de mulher. Pode ser que haja uma reviravolta em sua personagem, o que com toda a certeza será bem desenvolvida pela atriz. Daniel de Oliveira se saiu perfeitamente convincente, como de costume, ao defender o doidivanas Otaviano. Daniel, com sua experiência, reconhece de longe as características natas dos papéis que habitualmente costumam lhe oferecer. Bruna Marquezine ostentou evidente processo de amadurecimento e evolução interpretativa ao viver uma jovem com sensualidade e formosura à flor da pele, além de nos provar que sua disciplina como intérprete se confirmou outrossim nas cenas, como dito, em que cantara. Bruno Garcia, cujo papel esconde uma homossexualidade, impingiu nítida credibilidade ao amigo prático e objetivo de Saulo (suas cenas seguintes com o também homossexual Rodolfo, de Alejandro Claveaux, poderão causar alguma polêmica; o fato de atores galãs, principalmente no cinema americano das décadas de 40 e 50, esconderem sua verdadeira orientação sexual para preservarem as suas carreiras era bastante comum). Cassia Kiss em sua rápida aparição como a mãe de Beatriz já indicou que a sua participação será valorosa. Fabrício Boliveira dignificou o seu papel, cabendo a ele uma oportuna denúncia na indústria da TV, ou seja, a questão de atores negros serem relegados a personagens de menos significância. Péricles é um bem-sucedido ator de radionovelas, e com o advento da televisão se tornará um mero figurante. Aguardemos ainda as atuações de Osmar Prado, Jesuíta Barbosa, Daniel Boaventura (que já apareceu no primeiro episódio fugazmente) e Letícia Colin (cujas cenas com Bruna Marquezine prometem incomodar os mais conservadores). Os figurinos de Cao Albuquerque correspondem com exatidão às décadas de 40 e 50, denotando o seu trabalho minucioso e caprichado. A direção de fotografia de Walter Carvalho buscou um tom, uma intensidade que se estabelecesse entre o atual e o pretérito, ofertando-nos um grau de nostalgia, sem que no entanto nos afastássemos da história narrada. Vimos tonalidades e filtros suaves, brandos, por vezes quase diáfanos, mas em nenhum instante se configurou a contextualização da presença de sua luz com a realidade. A produção de arte de Nena Alvarenga é um primor, respeitando todo e qualquer detalhe que nos reporte àquelas eras. Desde pequenos objetos de mobília, passando pelos automóveis e câmeras pioneiras da televisão. A produção musical de Eduardo Queiroz e a direção musical de Marcel Klemm falam por si só, devido à alta meticulosidade e bom gosto na seleção das canções, nacionais e internacionais, que perpassam a trama, além da trilha incidental. A abertura de Alexandre Romano e Flavio Mac é curta, bonita e potente, começando com a incrível versão de Cássia Eller para “Try a Little Tenderness”, de Otis Redding. Alexandre e Flavio, com demasiadas proficiência e inspiração, recortaram cenas do cotidiano dos principais personagens (algumas marcantes) e as pincelaram com tintas de cor forte imiscuídas ao preto e branco, proporcionando-nos um excelente produto final, com visualidade irretorquivelmente eloquente. “Nada Será Como Antes” é uma série que instiga o telespectador brasileiro (o que não a impede de ser universal) por não só contar a história do pioneirismo de nossa televisão, fato que por ele mesmo já nos desperta interesse, mas, por meio da figura da metalinguagem, transformar com requintes tanto em sua dramaturgia quanto em sua produção os acontecimentos inerentes a este mundo fantástico que a todos encanta em uma espécie de biografia do veículo e pessoas que direta ou indiretamente estiveram ligadas a ele. Tudo em forma de entretenimento, amparado em cuidadosa pesquisa histórica de Julia Schnoor. Parafraseando Saulo Ribeiro na noite de inauguração de sua TV Guanabara: “Está no ar, no seu lar, e no coração de todos vocês, ‘Nada Será Como Antes’! “.