“Com coragem e precisão textual, Walcyr Carrasco mostra as feridas abertas da pedofilia nas cenas de julgamento do delegado Vinícius, em ‘O Outro Lado do Paraíso’, tendo ao seu favor as atuações impactantes de Flávio Tolezani, Sandra Corveloni, Bella Piero e Igor Angelkorte”.

Publicado: 21/02/2018 em TV

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Foto: TV Globo

Um dos capítulos mais marcantes de “O Outro Lado do Paraíso” 

As cenas de ontem à noite de “O Outro Lado do Paraíso”, novela das 21h da Rede Globo escrita por Walcyr Carrasco, que envolveram o julgamento do delegado Vinícius (Flávio Tolezani), acusado de ter molestado diversas vezes a sua enteada Laura (Bella Piero) quando esta tinha apenas oito anos de idade definitivamente abalaram os telespectadores brasileiros por seu alto grau de impacto, emoção, choque e verossimilhança. Há muito tempo não se via em nossa teledramaturgia uma sequência dramática desta magnitude nas dependências de um tribunal, com a participação de tantos personagens importantes para o desenvolvimento de sua história, com um texto de extrema relevância para a sociedade (o crime de pedofilia), dirigida de forma absolutamente irretocável e magistral por Mauro Mendonça Filho (diretor artístico) e André Felipe Binder (diretor geral). Não só a maneira corajosa e cautelosa com a qual o seu autor tratou o tema desde o início de sua trama contribuiu para o sucesso e o interesse por este núcleo específico, mas as atuações arrebatadoras, comoventes, coerentes e sensíveis de seus atores foram essenciais para o ápice de seu enredo no capítulo passado.

O caminho percorrido até o julgamento de Vinícius 

Fazendo parte do mirabolante plano de vingança de Clara (Bianca Bin), auxiliada pelos seus pretendentes Patrick (Thiago Fragoso) e Renato (Rafael Cardoso), o desmascaramento do delegado corrupto e cínico vivido por Flávio Tolezani, que já trabalhou com Walcyr Carrasco em “Verdades Secretas” e “Êta Mundo Bom!”, deu-se de modo paulatino, com vieses investigativos regados a doses fartas de suspense. A vítima dos abusos, a doce Laura (Bella Piero), sempre foi associada a uma jovem com comportamento estranho e antissocial. Sua relação com o padrasto era invariavelmente tensa, e sua mãe, a fútil e zelosa esposa Lorena (Sandra Corveloni), não lhe dava a atenção merecida. Laura não se relacionava com rapazes, até que conheceu o médico Rafael, interpretado por Igor Angelkorte. O carinho e as sinceras intenções demonstradas por ele logo conquistaram a arredia moça. À medida que o namoro assumido avançava, com a contrariedade patente de Vinícius e a anuência da mãe, as complicações de relacionamento do casal apareciam. Laura tinha evidentes dificuldades de ser tocada, acariciada. A afetuosidade lhe parecia algo repulsivo. E o sexo lhe soava agressivo e aterrorizante. Este comportamento pouco comum da filha de Lorena deixou seu namorado confuso e desorientado. Ao contar para o seu colega Renato o que estava se passando, Rafael acabou dando as ferramentas que faltavam para Clara iniciar a sua vingança contra o delegado. Com o casamento dos jovens, o problema de Laura se acentuou, e as desconfianças sobre o seu passado com o padrasto recrudesceram. Em sua lua de mel, um bicho de brinquedo em forma de tartaruga lhe foi clandestinamente entregue (na verdade, pelo delegado), causando-lhe um surto emocional. Com a ajuda da advogada Adriana (Julia Dalavia), que domina as técnicas de “coach”, na qual se inclui a hipnose, a namorada de Rafael faz uma regressão, e se lembra de todos os abusos sexuais sofridos em uma antiga casa onde moravam. Somente com a empregada Sebastiana (Ilva Niño) na residência, a pequena Laura brincava no quintal, próxima a um tanque de tartarugas. Aproveitando-se que sua mulher trabalhava fora, Vinícius molestava a indefesa menina repetidas vezes, deixando-a quase sempre machucada, com manchas aparentes pelo corpo. Clara, Patrick e Renato, com o auxílio do delegado Bruno (Caio Paduan), empenharam-se na busca de provas materiais e testemunhais que pudessem levar à condenação do suspeito. Alzira (Bela Carrijo), mãe de mais uma vítima, esta com doze anos, foi encontrada. O laptop do delegado foi apreendido, mas nada parecia suficiente para incriminá-lo (havia em seus arquivos uma galeria de fotos de moças, mas sem conotação sexual). O julgamento ocorreu em mais de uma sessão, o que rendeu a Patrick, assistente de acusação (o papel de promotor coube a Charles Fricks), a possibilidade de achar Sebastiana, muito doente, em um asilo. Os depoimentos a favor de Laura até então foram infrutíferos, combatidos com veemência pelo advogado de defesa personificado por Ernani Moraes. Durante todo o embate jurídico, sob os olhares atônitos da audiência, Vinícius se manteve impassível, certo de sua absolvição. Até que a empregada idosa depõe, causando espanto e assombro com suas revelações escabrosas sobre as violências sofridas pela menina. O seu silêncio, motivado por medo e necessidade de sobrevivência, fora perdoado pela vítima. Nesse tempo, as reações de Lorena provavam a sua impotência e desespero diante da verdade dos fatos que se desvelava. Arrolada como testemunha de defesa de seu marido, Lorena, em depoimento comovente, sofrido e tocante, assume que nunca enxergara o que realmente estava diante de seus olhos, afirmando que o inimigo pode estar bem ao seu lado (nesta hora, numa cena bastante indicativa, Clara olha de soslaio para Renato, que está ao seu lado). O jogo vira contra Vinícius. O delegado, acuado, não deixando o seu peculiar cinismo, confessa os seus abjetos crimes. Ridiculariza a sua esposa. Diz que se casou tão somente para ter próximo de si quem de fato desejava, a sua filha Laura, uma criança. Vinícius debocha das leis e da integridade humana, nesse caso, de uma menina. Com os assistentes aturdidos com os desdobramentos surpreendentes e chocantes do caso, o juiz Gustavo (Luis Melo) sentencia o réu à condenação. Vinícius caminha indiferente no tribunal com um sorriso de escárnio no rosto, ouvindo gritos de indignação dos presentes.

O texto afiado, a direção impecável e as atuações arrebatadoras 

Este foi, sem dúvida, um dos melhores capítulos de toda a novela de Walcyr Carrasco. Com boa orientação jurídica, Walcyr conduziu esta precípua passagem do folhetim com inegáveis propriedade e excelência. A direção sensível e inteligente de Mauro Mendonça Filho e equipe não deixou escapar uma reação sequer dos personagens. Cada olhar, cada gesto, cada movimentação em cena, cada fala mereceu o seu destaque. Os atores foram brilhantes em suas atuações, com suas emoções e sensibilidades à flor da pele. Se para nós telespectadores assistir ao desfecho desta história foi difícil e penoso, o mesmo deve ter ocorrido com o elenco. Flávio Tolezani impressionou com sua postura fria e gélida. Seu olhar parado, fixo, insensível, típico dos criminosos, chocou . O seu descarado cinismo perante os seus pares nos provocou incômodo. Flávio Tolezani é um excelente ator, e esta foi uma das melhores, senão a melhor, interpretação de toda a sua bem-sucedida carreira. Sandra Corveloni, também ótima atriz, passou-nos com pungência a grandeza da dor da traição e da humilhação sofridas. Seu pranto, seus olhos perdidos, e sua fraqueza como mulher e como pessoa diante do peso da verdade cruel nos comoveram profundamente. Bella Piero, tão jovem, teve que enfrentar em seus primeiros anos de profissão um desafio assustador, e se revelou uma intérprete com enorme maturidade, defendendo com dignidade, verdade e emoção, do começo ao fim, o percurso doloroso de Laura, sem perder a ternura que a caracteriza. Igor Angelkorte, um artista possuidor de trabalhos elogiados no teatro, e que vem construindo uma bela carreira na televisão, provou-nos a sua enorme capacidade emotiva e sua fonte legítima de sensibilidade ao dar vida ao médico que acompanha o sofrimento de sua namorada desde o início, não a abandonando em nenhum momento. Igor sai fortalecido profissionamente desta novela. Thiago Fragoso dominou completamente o seu personagem Patrick, ostentando toda a firmeza, segurança, determinação e empenho que se espera de um habilidoso advogado. Thiago Fragoso defendeu com altivez e brio o seu assistente de acusação. Luis Melo, um intérprete com inúmeras e incontestes qualidades, impôs-se como o austero juiz Gustavo. Luis se vale de olhares discretos e eloquentes para nos dizer o que pretende. Somente atores de sua relevância e talento o conseguem. Ernani Moraes, com sua destreza interpretativa, criou um advogado de defesa perspicaz, agressivo e manipulador. E, por último, a presença de uma notável atriz, Ilva Niño, querida e talentosíssima, que já nos sensibilizou em novelas como “Água Viva” e nos divertiu em “Roque Santeiro”. Que escalação perfeita trazer de volta à tela esta artista que merece toda a nossa reverência. Sua atuação como Sebastiana foi contundente e inesquecível.

A mensagem do autor, e a lição que fica 

Enfim, um capítulo que vai ficar em nossas memórias, em todos os sentidos. Nunca se falou tão abertamente e com enorme mérito sobre pedofilia na ficção, em pleno horário nobre, e na TV aberta. Walcyr Carrasco e toda a sua equipe de colaboradores, diretores e elenco merecem os nossos parabéns. Um passo importante contra este crime foi dado. Usou-se um meio de comunicação poderoso como a televisão como forma de esclarecimento, informação e denúncia. Um relevante serviço social. A pedofilia não vai acabar, mas haverá muito mais pessoas conscientes, prontas e dispostas a denunciá-la. Em 20 de fevereiro de 2018 vimos em “O Outro Lado do Paraíso” a confirmação do trecho da música de abertura da novela “Boomerang Blues”, de Renato Russo: “Tudo o que você faz Um dia volta pra você E se você fizer o mal Com o mal mais tarde você vai ter de viver…”. Alguns ainda saberão disso. Na novela… e na vida.

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