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Foto: Rede Globo

Depois do sucesso de “O Outro Lado do Paraíso”, Walcyr Carrasco volta mais cedo ao horário nobre com uma história irresistivelmente popular, contada por um excelente elenco que junta veteranos a jovens talentos 

Com uma abertura caprichada de Alexandre Romano, ao som do empolgante clássico do pagode “Tá Escrito”, do grupo Revelação, lançado em 2009 (na voz de Xande de Pilares), entrando no meio de sua quarta semana, “A Dona do Pedaço”, escrita por Walcyr Carrasco, que foi solicitado de forma não programada para criar um folhetim, devido às realocações das tramas das 21h da Rede Globo, já conquistou o público deste horário não só pelo apelo e força popular de sua história, com núcleos tão distintos quanto adoráveis, recheada de subtramas deliciosas, mas pelo seu espetacular elenco que junta veteranos e jovens talentos.

As duas primeiras fases do folhetim se mostraram inovadoras ao retratar a rivalidade sangrenta de duas famílias justiceiras, em que não se poupou uma estética nitidamente influenciada pelo cinema de Quentin Tarantino 

Em suas primeira e segunda ótimas fases, inovadoras, tivemos uma guerra sangrenta ” à la ‘Romeu e Julieta’ “, envolvendo as famílias Matheus e Ramirez. Com dinâmica estética de Tarantino, e direção artística de Amora Mautner, vimos o nascimento do amor de Maria da Paz (Juliana Paes) e Amadeu (Marcos Palmeira), um novo e bem-vindo casal na teledramaturgia. Quem poderia imaginar famílias de justiceiros tendo de um lado Nívea Maria e de outro Jussara Freire? Quem sequer suporia que Dulce, a personagem de Fernanda Montenegro, em cena já antológica, matasse a sangue frio três rivais do outro clã? Um pacto traído com um tiro acabaria em pleno altar com o casamento de Maria e Amadeu.

Na terceira fase passada em São Paulo, Maria da Paz surge como uma rica empresária do ramo de bolos, revelando o quanto Juliana Paes é uma estrela cativante, assumindo o tom cômico de uma mulher do povo que ascendeu socialmente, sem perder a sua essência

Na terceira fase, em São Paulo, temos uma Maria da Paz diferente, rica confeiteira, mãe da ambiciosa Josiane (Agatha Moreira, precisa), que sonha em ser uma digital influencer de sucesso. Juliana Paes, divertida e cativante, traz-nos uma reinvenção maravilhosa da Maria do Carmo de “Rainha da Sucata”, com a sua própria marca de gloriosa estrela (Maria do Carmo foi interpretada pela atriz Regina Duarte na novela de Silvio de Abreu em 1990, exibida também na faixa nobre da Rede Globo).

Família de desvalidos liderada por Marco Nanini, rivalidade entre as irmãs vividas por Paolla Oliveira e Nathalia Dill, Reynaldo Gianecchini como um sedutor cafajeste, Monica Iozzi como uma espertalhona assessora de digital influencer, e Malvino Salvador como um empresário que se apaixona por Rock, o lutador interpretado por Caio Castro, são grandes ganchos da novela  

O que dizer de uma família hilária de desvalidos que reúne Marco Nanini, Betty Faria, Tonico Pereira e Rosi Campos, além de Caio Castro, formidável como o bronco aspirante a lutador Rock? Nela, há talentos promissores, como Glamour Garcia (a transexual Britney), impagável, e Bruno Bevan, seguro. Há o que se esperar da rivalidade que surgirá entre as irmãs boa e má, Vivi e Fabiana, separadas na infância por uma tragédia, defendidas respectivamente por Paolla Oliveira e Nathalia Dill, ambas inspiradas. Suely Franco, como a simples e sonhadora Marlene, Nathalia Timberg, como a pernóstica Gladys, e Ary Fontoura, como o bem-intencionado advogado Antero, estão dando um show. Reynaldo Gianecchini faz como ninguém o galã/cafajeste/bon vivant Regis. Monica Iozzi está perfeita com sua ironia sofisticada ao viver Kim, a esperta assessora de Vivi Guedes (suas cenas com Márcio, braço direito de Maria da Paz, personificado pelo ótimo Anderson Di Rizzi, prometem). Heloisa Jorge, como Gilda, tem a sua grande chance de mostrar a ótima atriz dramática que é, na fase da doença de sua personagem. Malvino Salvador, como o empresário Abno, frio em seu casamento com Lyris (Deborah Evelyn, sempre charmosa) poderá ter um dos melhores papéis de sua carreira, ao se envolver afetivamente com Rock (uma ousadia gigantesca do autor em reunir como um casal homoafetivo dois dos maiores galãs da emissora).

Walcyr Carrasco, apostando nos ingredientes infalíveis que fazem uma novela fazer sucesso, recoloca o gênero em seu devido lugar de destaque com “A Dona do Pedaço”

“A Dona do Pedaço” cumpre a nobre missão de recolocar as telenovelas em seu merecido lugar de destaque, não apostando em fórmulas milagrosas, mas em ingredientes infalíveis de um bom folhetim, com uma excelente história em que não faltam amores impossíveis, traições, humor e polêmicas, além de um elenco fabuloso e de uma direção competentíssima.

 

 

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A cantora, compositora e empresária Caroline Celico na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week.
Paulistana, filha do empresário Celso Celico e de Rosângela Lyra, ex-presidente da Dior no Brasil, foi casada com o ex-jogador de futebol Kaká.
Caroline estudou na infância e adolescência no Colégio Américo e no Saint’s Paul School (Escola Britânica de São Paulo).
Decidiu aperfeiçoar o seu inglês em Londres, e o seu francês em Paris, onde também se dedicou à culinária, uma de suas predileções, frequentando as aulas de instituições prestigiadas da área, como o Le Cordon Bleu e o Ritz.
Conheceu o jogador Kaká (importante atleta que passou pelos times São Paulo e Milan, além de ser titular da Seleção Brasileira) em 2002, vindo a se casar em dezembro de 2005 (a vida do casal sempre foi incessantemente acompanhada pela imprensa).
Em nove anos de casamento, Caroline e Kaká tiveram dois filhos.
Seu interesse pela música começou quando cantava no grupo “Renascer Praise”, pertencente à Igreja Renascer em Cristo (exerceu esta atividade no período de 2003 a 2009).
Em 2010, lançou os CD e DVD “Carol Celico”, os quais continham várias faixas compostas por ela, tendo contado com as participações especiais de Claudia Leitte, Kaká e cantores gospel (antes a cantora já havia lançado três CDs com seus respectivos DVDs).
Preside a Fundação Amor Horizontal (criada pela própria Caroline), que tem por objetivo estimular a prática da doação, oferecendo ajuda a diversas instituições de caridade, escolas e creches públicas.
No ano passado, Caroline Celico firmou uma parceria com Chris Ayrosa na empresa de assessoria e design de eventos de luxo no Brasil Party Design (com esta sociedade, voltou à função de assessora de eventos e design exercida em Milão, na Itália, em 2007).

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

 

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A apresentadora e repórter Fernanda Keulla na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, no Parque Cândido Portinari.
Fernanda nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais.
A advogada entrou para a 13ª edição do reality exibido pela Rede Globo “Big Brother Brasil”, e se sagrou a grande vencedora.
Fernanda foi contratada pela emissora para ser repórter do hoje extinto programa de variedades “Vídeo Show”, tornando-se, tempos depois, uma de suas apresentadoras.
Na edição deste ano do “BBB”, Fernanda Keulla atuou como apresentadora e mediadora das mesas-redondas com os eliminados da atração, que iam ao ar na internet pelo Gshow.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

 

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Foto: Divulgação do filme

Nadine Labaki aborda com pungência questões atuais e urgentes do mundo contemporâneo, tendo merecido levar o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, que, ao final, foi entregue a “Roma”

Sem dúvida, um dos filmes mais impactantes e pungentes já lançados nos últimos anos foi “Cafarnaum” (“Capharnaün”, “Capernaum”, Líbano, França e Estados Unidos, 2018), da diretora, atriz e roteirista libanesa Nadine Labaki (“Rio, Eu Te Amo”).  Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes, ganhou mais 21 prêmios internacionais. Uma das cinco indicações ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, a obra de Labaki merecia ganhar, mas o franco favoritismo e a enorme campanha de publicidade em torno de “Roma”, de Alfonso Cuarón, sobrepuseram-se a importância deste longa-metragem, que aborda questões cruciais da atualidade, como o drama dos refugiados no mundo, o tráfico internacional de crianças, a exploração do trabalho infantil, os maus-tratos a menores, a miserabilidade pandêmica etc.

Uma história comovente, cujo roteiro também foi escrito por Labaki, em que o ator Zain Al Rafeea se destaca como o garoto condenado a cinco anos de cadeia pelo assassinato de seu cunhado, vindo, posteriormente, a processar os seus pais por um motivo nada convencional

A história, cuja uma das roteiristas é a própria Nadine Labaki, gira em torno do menino libanês Zain (o excepcional e cativante Zain Al Rafeea), de apenas 12 anos, condenado a 5 anos de cadeia por ter ferido a faca o assassino de sua irmã, com quem ela fora obrigada a se casar. Utilizando-se de flashbacks, a excelente diretora, que também atua no filme, mostra todo o périplo assustadoramente sofrido do garoto, como a convivência com os pais violentos, sua parceria com uma refugiada etíope, Rahil (Yordanos Shifera, intensa) e seu filho bebê Younas (Boluwatife Treasure Bankole), até o presente, em que Zain processa os seus pais por ter nascido, exigindo que não tenham mais filhos.

“Cafarnaum” é uma obra-prima da safra cinematográfica atual 

Com fotografia exuberante (por vezes crua) de Christopher Aoun, trilha sonora sensível de Khaled Mouzanar, montagem picotada de Konstantin Bok, e direção com pegada pessoal, com câmera na mão, de Labaki, “Cafarnaum” é um filme urgente, necessário, obrigatório, desconfortável e emocionante, podendo ser considerado uma obra-prima da safra cinematográfica atual.

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Guerra Fria
Foto: Divulgação do filme

Indicado em 2015 ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, Pawel Pawlikowski repete a façanha em 2019, indo, no entanto, mais além, sendo reconhecido também nas indicações como Melhor Diretor e Fotografia

O cineasta polonês Pawel Pawlikowski já havia sido indicado e ganhado em 2015 o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira por “Ida”. Em 2019, o diretor, com sua nova obra, “Guerra Fria” (“Zima Wojna”, “Cold War”, Polônia, França e Rússia, 2018), foi muito mais além, sendo indicado em três importantes categorias: Melhor Filme em Língua Estrangeira, Melhor Diretor e Melhor Fotografia. A despeito de não ser agraciado em nenhuma delas, o longa carrega em sua lista imponentes prêmios: Melhor Diretor no Festival de Cannes 2018, Melhor Filme, Diretor, Atriz (Joanna Kulig), Roteiro e Montagem no European Film Awards.

Os desencontros de um casal com divergências políticas e confrontos emocionais entre uma Polônia gelada e uma Paris festiva atravessam a narrativa do filme de Pawlikowski

A trama, interessante, desenrola-se nos tempos conflituosos geopolíticos que a intitulam, compreendendo os anos de 1949 e 1964. A história se inicia na Polônia stalinista (o endeusamento a ditadores como Josef Stalin e o patriotismo exacerbado da época podem ser ainda identificados nos dias de hoje com outros déspotas em diferentes nações) com o encontro de um sedutor regente e músico Wiktor (Tomasz Kot, sóbrio) e uma bela e imprevisível cantora, Zula (a inebriante Joanna Kulig) numa instituição de música e dança. Os estremecimentos do casal se dão por omissões da verdade, instabilidades emocionais e convicções políticas dissonantes (Wiktor não se afina com as diretrizes do sistema socialista). Vindo de uma gelada e triste Polônia, o par se reencontra em uma festiva e dançante Paris.

Direção de fotografia devastadora, realçada pelo magnetismo da atriz Joanna Kulig 

O filme em vários instantes nos reporta à atmosfera da Nouvelle Vague. De fato, a fotografia de Lucasz Zal, em p&b, impressiona pelo apuro visual, sendo devastadoramente sofisticada. A direção de Pawel Pawlikowski é conduzida com delicadeza e precisão. O elenco, competente, destaca o magnetismo de Joanna Kulig. “Guerra Fria” é um filme para quem gosta de visões autorais de seu criador, sem ritmos narrativos empolgantes.

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Foto: Divulgação do filme

M. Night Shyamalan encerra a sua trilogia iniciada com “Corpo Fechado”, e seguida por “Fragmentado”, com o ótimo “Vidro”, cujo um de seus méritos é o seu engenhoso roteiro

Encerrando a trilogia “Eastrail 177”, iniciada com “Corpo Fechado” (“Unbreakable”, 2000), que dividiu opiniões, e seguida pelo sucesso de público e crítica “Fragmentado” (“Split”, 2016), o cineasta indiano naturalizado americano M. Night Shyamalan (“Sexto Sentido”, Sinais”, “A Vila”) surpreende com o ótimo “Vidro” (“Glass”, 2019). O roteiro incrivelmente engenhoso foi escrito por Shyamalan, sendo uma espécie de spin-off dos dois longas anteriores, misturando com coerência personagens de ambos.

O filme reúne astros dos longas anteriores, como Bruce Willis e Samuel L. Jackson, e James MacAvoy

Também coprodutor, M. Night traz de volta David Dunn (o sempre carismático e convincente Bruce Willis) e o Senhor Vidro (o instigante Samuel L. Jackson), de “Corpo…”, e Kevin Wendell (o arrebatador ator escocês James McAvoy, a jovem Casey Cooke (Anya Taylor-Joy), e a psiquiatra Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson), firme), de “Fragmentado”. Completam o elenco Spencer Treat Clark, Charlayne Woodard, Luke Kirby, Adam David Thompson e Serge Didenko.

Assumidamente inspirada nas HQs, “Vidro” é uma obra que equilibra com inteligência diversos gêneros cinematográficos, não sendo necessário para o seu entendimento ter assistido aos dois primeiros longas da trilogia

O filme, empolgante e envolvente, aborda a procura do “Vigilante” David e seu filho Joseph (Spencer Treat Clark) pelo perigosíssimo assassino Kevin e suas 23 outras personalidades (impressiona a versatilidade de McAvoy). Nessa busca, surge a figura intimidadora da psiquiatra e a presença sinistra de Mr. Glass. Assumidamente inspirado nos enredos mirabolantes das HQs, com seus conceitos pétreos de super-heróis e vilões, “Vidro” se consagra como um excelente representante da diversidade de gêneros cinematográficos, equilibrando com inteligência fantasia, suspense, drama e terror psicológico. Ao contrário do que se diz, não é necessário assistir aos dois primeiros longas para se entender “Vidro”, bastando tão somente uma concentração a mais. Um filme com boa e intrincada trama que diverte e assusta, garantindo sem receios a sua ida ao cinema.

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Foto: Jr. Marins

Victor Garcia Peralta, um encenador que transita com a mesma excelência tanto no drama quanto na comédia, retoma a parceria com o ator Robson Torinni, apostando em outro dramaturgo latino-americano, o uruguaio Sergio Blanco

Ir ao teatro se compara a um ritual, com todas as sacralidades que lhe são inerentes. O ato de se assistir a um espetáculo carrega em si mesmo não um simples desejo de entretenimento. Assim como os artistas que estão no palco buscam os seus mais íntimos e verdadeiros sentimento e emoção a fim de dar vida aos seus personagens, almejando outrossim um crescimento pessoal e consequente evolução profissional, nós, espectadores, esperamos, com a experiência incomparável de testemunhar a reprodução cênica de uma dramaturgia, sair do espaço teatral diferentes, modificados, pensativos e reflexivos com o que acabamos de ver. Respeitando-se os conceitos brechtianos de distanciamento, de fato o que objetivamos é que sejamos tocados, mexidos, que nossas sensibilidades fiquem aguçadas. Todo este introito me serve para descrever as impressões que tive ao conferir a mais nova peça do diretor Victor Garcia Peralta, um dos mais respeitados e produtivos encenadores do cenário atual de produções teatrais. Victor está longe de ser um profissional que foge dos riscos e temeridades. Nunca se prendeu a um gênero específico. Suas vivências artísticas ultrapassam fronteiras, confirmadas com suas passagens por montagens calcadas em um humor desvairado e crítico, visto em “Alucinadas”, ou na densidade dramática e profunda de “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?. Em 2017, Victor Garcia iniciou uma parceria com o ator Robson Torinni, resultando na encenação de “A Sala Laranja: No Jardim de Infância”, da argentina Victoria Hladilo, um sucesso de público e crítica. Esta obra contribuiu para a valorização da boa dramaturgia latino-americana. No final do ano passado, Robson e Victor se juntaram novamente, e resolveram apostar numa proposta, pode-se dizer, mais ousada, prestigiando, uma vez mais, um texto sul-americano, “Tebas Land”, do uruguaio Sergio Blanco. A peça de Sergio, premiada com o Award Off West End de Londres, tendo recebido cinco indicações ao Prêmio Max espanhol, já foi montada em doze países (esta é a sua primeira vez no Brasil).

A fascinante e comovente história é pautada no encontro, e seus reveladores diálogos, entre um autor teatral e um detento acusado de parricídio, cuja trajetória servirá de tema para um futuro espetáculo

A trama de “Tebas Land” é centrada nos encontros entre um autor/diretor O. (Otto Jr.) e um jovem presidiário, Martin (Robson Torinni), condenado pelo crime de parricídio. O. pretende montar uma peça teatral baseada na trajetória trágica desse rapaz, enfrentando, para isso, uma série de obstáculos burocráticos, que servem como retrato de um sistema prisional voltado única e exclusivamente para a punibilidade do preso, sem quaisquer chances de uma possível ressocialização. Entre idas e vindas à cela de Martin, exímio jogador de basquete, o autor lhe faz várias perguntas a fim de desnudar aquela alma sofrida e amargurada, levando-o, desta forma, a rever as razões que o motivaram a praticar um crime tão bárbaro. Em paralelo, o diretor inicia o processo de montagem de seu espetáculo, começando com o teste que escolherá o intérprete que irá defender o personagem Martin. O ator selecionado é justamente personificado por Robson Torinni, cujo nome artístico é usado para o papel. “Tebas Land” se divide, com extrema sabedoria artística e cênica, entre os colóquios elucidativos e surpreendentes travados entre o autor e o detento, e o autor e o ator.

A sólida e inteligente dramaturgia de Sergio Blanco, escorada em referências literárias, metalinguagem e em sua conhecida utilização da autoficção, associada ao brilho da interpretação de Robson Torinni e Otto Jr., chega com impacto ao público

A dramaturgia de Sergio Blanco (traduzida impecavelmente por Esteban Campanela), com referências muito bem inseridas das obras de Sófocles, “Édipo Rei” e “Édipo em Colono”, impressiona pela sua sólida e inteligente construção textual, permeada por diálogos fortes, precisos e esclarecedores, sendo os mesmos de uma sensibilidade avassaladora (há momentos em que parece que estamos assistindo a um legítimo embate de pensamentos e palavras entre os personagens, como se fosse um “game” verbal/oral, tamanha a agilidade com que são feitos, um certame de opiniões, contestações, argumentos, ensinamentos e aprendizagens). Sergio, com máxima destreza, consegue o louvável feito de “manipular” o público, com o propósito de acionarmos a nossa capacidade, bastantes vezes latente, de praticar o exercício da empatia. O dramaturgo logra o prodígio de nós mesmos nos colocarmos no lugar de Martin, com o intento de melhor compreendermos as suas ações, sem que isso, claro, seja uma defesa destas, sendo tão somente um outro ponto de vista, talvez mais humanista, justo e compassivo. O escopo narrativo do autor, que são os complexos relacionamentos interpessoais dos indivíduos, não importando o quão diferentes sejam, nos níveis sociais, intelectuais e comportamentais, é magistralmente alcançado. As diferenças existentes entre o autor/detento e o autor/ator não são impeditivos para que haja a composição de um diálogo razoável, em que ambos cheguem a um lugar comum. A linguagem cartesiana, lógica e rasa semanticamente de Martin encontra acolhida na fala objetiva, clara e determinada do autor O.. Da mesma forma, percebem-se não poucas vezes conflitos de interpretação da montagem da obra cênica entre os personagens do ator e do diretor. Há uma tensão, em maior ou menor grau, entre os tipos, que, dependendo da condução do entendimento, é logo dirimida. Sergio, com habilidades, sem cair no didatismo fácil, incumbe a O. a função de ensinar (principalmente com relação a Martin) os significados de nomes/palavras e o resumo de histórias mitológicas, como as de Édipo, o que é um deleite para a plateia. Apenas a título de curiosidade, o nome do personagem de Otto Jr., resumido à sua letra inicial, é uma confessa homenagem a Franz Kafka e suas criações (aliás, o texto prima pelas referências literárias, como por exemplo, “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski). Reconhecido por ser um seguidor do estilo autoficcional, Sergio se utiliza com distinta propriedade dos recursos da metalinguagem. Na montagem brasileira há alusões bem familiares ao público (locais, instituições, cargos etc), traduzidas na voz de O. com ampla espontaneidade, misturando realidade e ficção, o que nos leva naturalmente a acreditar em seu entrecho. A direção de Victor Garcia Peralta exalta todas as ótimas possibilidades cênicas ofertadas pela dramaturgia de Blanco. Victor se vale com inegável sucesso do processo interativo de comunicação ator/público. O encenador conduziu a peça com uma destreza espantosa, aproveitando com equilíbrio os espaços de ação propostos pelo texto, como a cela e uma espécie de sala de ensaios da futura montagem, cujo título é “Tebas Land”. O uso dos flancos da plateia, com diálogos à distância, rompe o formalismo teatral. O encenador cuidou da interpretação de seus atores com ampla sensibilidade, realçando todos os detalhes perceptíveis das personalidades dos três tipos apresentados, resultando em um trabalho altamente digno e louvável. Fica-nos visível o quanto as emoções dos intérpretes foram exploradas e esmiuçadas, em diferentes graus e camadas. Victor Garcia Peralta direcionou com exponencial precisão e sabedoria cênica tanto os momentos com tintas mais tensas e dramáticas quanto aqueles em que as pausas assumem uma atmosfera idílica/poética. O elenco, que junta pela primeira vez dois jovens atores com origens e trajetórias diferentes, é excepcional. Numa peça em que há apenas dois intérpretes em cena, faz-se obrigatória, para o seu caminho para o êxito, que haja entre ambos um mínimo de sintonia. O que vemos, entretanto, está bem acima disso. O que se vê é um perfeito e indissociável entendimento entre eles, com uma troca (essencial na arte da atuação) apaixonante. Robson Torinni revela com absurda sensibilidade ao público uma inacreditável capacidade de composição e construção de personagem (sua voz e respectivas gradações devem ser observadas). Martin é um rapaz simplório, iletrado, por vezes infantilizado, alternando instantes de agressividade e ternura. Com todos esses elementos definidores de seu caráter, Robson simplesmente carrega os espectadores nas mãos, sendo impossível não se comover com a dramática e trágica história de seu papel. Espantosamente, com sua performance meticulosa, atenta a todos os pormenores, o artista nascido em Pernambuco consegue com que não julguemos Martin pelo seu crime bárbaro (o que, óbvio, também são méritos da dramaturgia e da direção). Quanto à sua atuação como o “ator Robson Torinni” (uma enorme ousadia do texto), percebemos um grau de naturalidade extremamente adequado e condizente com as circunstâncias “reais”. Trabalhando com a sua espontaneidade, Robson encontra o ponto exato do personagem/ator que serve como peça contestatória e inquisidora das ideias do autor/diretor O.. Otto Jr. é um intérprete com um domínio cênico extraordinário. Sua natural e determinante vocação para se comunicar com o público com a mais admirável legitimidade, e principalmente credibilidade, indispensável para que possamos nos envolver com a sua narrativa, é um fator crucial para o sucesso de sua personificação. Otto se vale de um carisma próprio irresistível para que acompanhemos generosos sua jornada árida em busca da montagem de seu espetáculo. O autor/diretor ao qual dá vida é um homem, ao contrário de Martin, esclarecido, resoluto, convicto de seus objetivos, nem por isso menos sensível. Todavia, todas essas certezas são colocadas à prova, sendo esta mudança de perfil muito bem transmitida pelo artista. Há uma cena em particular em que Otto explode em emoção, deixando o público atônito, confuso, sem saber ao certo o que fazer, graças à desconcertante veracidade da mesma.

A cenografia impactante de José Baltazar se casa muito bem com a luz sempre elegante e inteligente de Maneco Quinderé 

A cenografia de José Baltazar, impactante e bonita em seu conjunto, reveste-se de uma grande cela quadrada (assemelha-se a uma gaiola), com gradeados de aparência metálica, tendo ao seu fundo uma tabela de basquete (vale mencionar a intimidade com que Robson Torinni manuseia a bola). No alto, doze luminárias semicirculares, além de possuir em seu interior um banco com aspecto também metálico, em consonância com as grades. O lado direito da ribalta, segundo ambiente do cenário, constitui-se de uma lousa retangular, mesa e cadeira que seguem a textura metalizada, e uma filmadora sobre o seu tripé (as transmissões ao vivo de cenas da peça são interessantíssimas, funcionais, contribuindo amiúde para a vivacidade da composição estético/narrativa). A iluminação coube a um dos mais prestigiados e requisitados profissionais da área, Maneco Quinderé. Ao sabermos que a luz terá a sua assinatura, naturalmente já nos preparamos para um painel visual com o uso belo, elegante e inteligente de todas as possibilidades práticas que este recurso técnico/artístico oferece. Maneco esbanja criatividade ao se utilizar das luminárias citadas da cela, alternando as luminosidades e suas intensidades, ou apostando na iluminação coletiva de suas doze peças (há uma associação desta luz com outras ideias paralelas do iluminador). Maneco também aproveita os spots dispostos estrategicamente no piso da lateral direita do palco. Em sua quase totalidade, há uma atmosfera tênue luminosa, que nos parece fugir do realismo, com a exceção de alguns momentos nos quais se vê uma luz aberta, principalmente no proscênio. Com a sua já conhecida capacidade de imprimir beleza ao que faz, Maneco Quinderé não pretere a poesia que um foco no rosto pode causar, tampouco o ar fascinante e etéreo provocado por uma sombra.

Direção de movimento minuciosa de Cris Amadeo, trilha inspirada, com direito a pérolas musicais, de Marcello H., e figurinos adequados que se aproximam da universalidade

Cris Amadeo, com quem Victor Garcia e Robson haviam trabalhado em “A Sala Laranja…”, foi responsável pela direção de movimento. Cris demonstrou louváveis empenho, dedicação e pesquisa de detalhes nesta importante função. Com Robson, como Martin, Cris valorizou gestuais contorcidos, curvados, nervosos, que simbolizam bem a angústia e a insegurança existencial do rapaz detento. No que tange ao personagem “ator Robson Torinni”, parece-nos que sua orientação foi a de deixá-lo o mais natural e espontâneo possível. No que diz respeito a Otto Jr. e seu autor/diretor O., conduziu-o numa direção do mesmo modo próxima ao naturalismo, mas com uma postura levemente superior (devido à sua ocupação), persuasiva e autoconfiante. Marcello H., exímio conhecedor de várias vertentes musicais, incumbiu-se da trilha sonora. Marcello criou com elevada inspiração uma série de sons, ruídos e sequências de sonoridades (algumas delas percussivas) que cumprem um relevante e precípuo papel de idealizar um universo em que se imiscuem opressão, dualidades emocionais e um perceptível suspense. Houve escolhas de canções que calam fundo em nossas memórias e suscetibilidades musicais, como o célebre clássico sentimental de Agnaldo Timóteo, “Quem É?”, um arrepiante concerto para piano de Mozart, e o belo hino de Cat Stevens, “Father and Son”. Os figurinos são fruto de uma criação coletiva. De modo a não se fixar em uma localidade ou região específica, o que garante a universalidade de seu texto, os uniformes padrões dos detentos foram dispensados. Sendo assim, Martin nos é mostrado usando uma regata larga, um moletom com capuz, calça de ginástica e tênis esportivo (um acessório fundamental para a narrativa, sem dúvida, é o terço pendurado em seu pescoço). Já o personagem de Otto Jr. é vestido com sobriedade e elegância, com peças como uma blusa arroxeada e uma calça em tons mostarda.

“Tebas Land” é um espetáculo cheio de trunfos, sendo imprescindível sua conferência

“Tebas Land” possui uma série de trunfos para ser vista pelo público que, com certeza, sairá impressionado e tocado pela encenação. O fato do diretor Victor Garcia Peralta valorizar mais uma vez a rica, e às vezes pouco explorada no Brasil dramaturgia latino-americana, já é por si só um grande mérito. Victor também é um convite natural para se ir ao teatro. A dupla de atores Robson Torinni e Otto Jr. conquista a plateia irremediavelmente com sua intensa entrega aos papéis. A universalidade de seu enredo, a abordagem e análise sensível e meticulosa dos intricados labirintos da alma humana, suas emoções e contradições, além de um panorama bem construído dos complexos relacionamentos interssociais fazem com que a montagem se diferencie de tantas outras. “Tebas Land” é um terreno árido e poético transitado pelos seus “habitantes” Martin e O.. Muitas vezes, nós, para atingirmos um mínimo de evolução individual, necessitamos experimentar a aridez e a poesia dessa “Terra de Tebas”, preferivelmente com as faces iluminadas pela luz redentora de um tablet inesperado.