Blog do Paulo Ruch

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Onze atores de um total de vinte e dois que participaram do especial da Rede Globo “Falas Negras”: no alto, da esquerda para a direita, Bárbara Reis, Babu Santana, Taís Araújo e Izak Dahora; no meio, Mariana Nunes, Guilherme Silva e Tatiana Tibúrcio; e abaixo, Bukassa Kabengele, Aline Deluna, Reinaldo Junior e Olívia Araújo/Fotos: Victor Pollak e João Cotta/Globo

O especial “Falas Negras”, um misto de linguagem cinematográfica documental com monólogos teatrais, coincide com o espancamento e morte brutais de um homem negro por agentes de segurança brancos de uma rede de supermercados em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, na noite anterior ao Dia Nacional da Consciência Negra

Quinta-feira passada, 19 de novembro de 2020. João Alberto Figueira Freitas, negro, 40 anos, é brutalmente espancado até a morte por dois agentes de segurança brancos de uma rede de supermercados em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Sexta-feira, 20 de novembro de 2020, Dia Nacional da Consciência Negra, a Rede Globo exibe o especial “Falas Negras”. Obra idealizada e escrita pela talentosa Manuela Dias (“Justiça” e “Amor de Mãe”), com o respaldo da ótima pesquisa de texto de Thaís Fragozo e a sublime direção artística de Lázaro Ramos, que explora com olhar sensível infinitas possibilidades, “Falas Negras”, um impactante misto de linguagem cinematográfica documental com os monólogos teatrais, presta-se oportunamente a dar voz, de 1600 aos dias atuais, a figuras históricas e pessoas comuns negras vitimadas pelo racismo institucionalizado universal e atemporal.

Valorizado por excelentes fotografia, figurinos, trilha sonora e cenário, “Falas Negras” reúne 22 depoimentos reais de grandes figuras históricas e pessoas comuns vítimas do racismo, como Martin Luther King, Nelson Mandela, Marielle Franco e Mirtes Souza, mãe do menino Miguel

Com fotografia deslumbrante de Pablo Baião, figurinos caprichados de Tereza Nabuco, trilha sonora instigante de Wilson Simoninha e lindo cenário (com destaque para o baobá) de Mauro Vicente, o especial enfileira em ordem cronológica 22 depoimentos reais emocionados, intensos e esclarecedores de símbolos negros representativos, como Martin Luther King, Luiz Gama, Malcolm X, Rosa Parks, Angela Davis, Muhammad Ali, Nelson Mandela, Marielle Franco, além de vítimas recentes como Neilton Matos Pinto (pai do adolescente João Pedro, assassinado em sua própria casa por forças policiais) e Mirtes Souza (empregada doméstica mãe de Miguel, menino morto ao cair do prédio após ações e omissões de sua patroa branca).

Com elenco irretocável composto por Taís Araújo, Babu Santana e Fabrício Boliveira, o especial da Rede Globo disponível no Globoplay ocupa legitimamente o seu lugar de fala, fazendo ecoar e incomodando com o seu grito de “Basta!”

O elenco é fabuloso, sendo que todos se esmeraram em suas composições (gestual, prosódia), elevando ao máximo sua carga emotiva. Abrilhantaram o especial Heloisa Jorge (Nzinga Mbandi, Rainha do Reino do Dongo e Matamba), Izak Dahora (Toussaint Louverture, líder da Revolução do Haiti), Olívia Araújo (Harriet Tubman, ex-escrava que se tornou cozinheira e enfermeira na Guerra Civil Americana a fim de obter informações secretas, ajudando na fuga de centenas de escravos do sul do país para o norte), Fabrício Boliveira (Olaudah Equiano, ex-escravo nigeriano que se tornou escritor), Reinaldo Junior (Mahommah G Baquaqua, escravo da África Ocidental que viveu no Brasil e nos Estados Unidos, onde publicou a sua biografia em que relata a terrível experiência brasileira), Aline Deluna (Virgínia Leone Bicudo, socióloga e primeira profissional brasileira não médica a se tornar psicanalista), Flávio Bauraqui (Luiz Gama, líder abolicionista, jornalista e poeta brasileiro), Bárbara Reis (Rosa Parks, ativista americana dos direitos civis), Bukassa Kabengele (Nelson Mandela, advogado, ex-presidente da África do Sul, líder do movimento contra o Apartheid, que segregava os negros no país), Angelo Flavio (James Baldwin, escritor, dramaturgo, poeta e crítico social americano), Samuel Melo (Malcolm X, ativista dos direitos civis americano), Aílton Graça (Milton Santos, geógrafo, jornalista, advogado e professor universitário brasileiro), Guilherme Silva (Martin Luther King, pastor batista e ativista dos direitos civis americano), Ivy Souza (Nina Simone, cantora, compositora e ativista dos direitos civis americana), Mariana Nunes (Lélia Gonzalez, historiadora, antropóloga e professora brasileira), Babu Santana (Muhammad Ali, maior pugilista de todos os tempos), Naruna Costa (Angela Davis, filósofa, ativista e professora americana), Valdinéia Soriano (Luiza Bairros, administradora e cientista social brasileira), Taís Araújo (Marielle Franco, vereadora, socióloga e ativista de direitos humanos brasileira), Tatiana Tibúrcio (Mirtes Souza, mãe do menino Miguel), Silvio Guindane (Neilton Matos Pinto, pai do adolescente João Pedro) e Tulanih Pereira (manifestante que representa os protestos raciais, como o caso de George Floyd nos Estados Unidos). O especial “Falas Negras” ocupa o seu lugar de fala, fazendo o grito “Basta!” ecoar e incomodar. As “Falas Negras” de Manuela e Lázaro importam, tanto quanto as vidas.

Assista à apresentação especial de “Falas Negras”:

Haia, a bruxa vivida por Cássia Kis, pratica um ritual em Roman, Nikolas Antunes, em “Desalma”, série do Globoplay/Foto: Estevam Avellar

A premiada autora Ana Paula Maia decide abraçar um gênero pouco explorado no Brasil, mas bastante difundido em outros países, o thriller/drama sobrenatural, na recém-lançada série do Globoplay “Desalma”, com direção artística de Carlos Manga Jr.

O audiovisual brasileiro não visitou com frequência o gênero thriller/drama sobrenatural como outros países o fizeram, seja em obras de Kubrick, “O Iluminado” (1980), ou Alejandro Amenábar, “Os Outros” (2001). No Brasil, João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein foram bem-sucedidos com a série “A Cura” (2009), na Rede Globo. A premiada autora Ana Paula Maia resolveu romper esta barreira com “Desalma”, série criada e escrita por ela, lançada no Globoplay no último dia 22. Com direção artística de Carlos Manga Jr. (“Se Eu Fechar Os Olhos Agora”) e direção de João Paulo Jabur e Pablo Müller, a produção se destaca por pujante apuro visual, exuberância das locações e marcação precisa das cenas, sendo ambientada numa cidade fictícia do sul do país, Brígida, cujos habitantes descendem de ucranianos e buscam manter intactas suas tradições.

A história estrelada por Cássia Kis, Cláudia Abreu e Maria Ribeiro começa em 2018 com uma tragédia, trinta anos depois de outro episódio cercado de mistério ter assombrado a fictícia cidade de Brígida, no sul do Brasil

Em 2018, após um fato trágico e misterioso envolvendo Roman (Nikolas Antunes), que, doente, retorna à sua cidade natal 30 anos depois, época na qual outros episódios traumáticos ocorreram, sua mulher Giovana (Maria Ribeiro) e suas duas filhas Melissa (Camila Botelho) e Emily (Juliah Mello) vão morar na casa onde ele crescera. A família é auxiliada por Ignes (Cláudia Abreu), prima de Roman, angustiada e assombrada por fantasmas do passado. Ignes é casada com Boris (Ismael Caneppele). O casal possui um filho, Anatoli (João Pedro Azevedo), que passa a ostentar comportamentos estranhos. Seu falecido irmão Aleksey (Nicolas Vargas) foi acusado de assassinar Halyna, (Anna Melo), filha de uma das figuras mais conhecidas e temidas da cidade, a bruxa Haia (Cássia Kis), que além de carregar essa dor brutal diz ser capaz de trazer os mortos de volta à vida. Há ainda o clã formado pelo fazendeiro Ivan (Bruce Gomlewsky), sua esposa Anele (Isabel Teixeira) e o casal de filhos gêmeos Iryna (Nathália Falcão) e Maksym (Giovanni di Lorenzo).

Bela fotografia com filtros azulados sombrios e um elenco que reúne veteranos a um time de talentos de uma novíssima geração, associados ao tino de Ana Paula Maia para desenvolver narrativas sobrenaturais fazem de “Desalma” uma ótima série

Com um elenco poderoso de veteranos e atores de uma nova geração prontos para despontar, “Desalma” é uma série que mergulha fundo na dor da alma humana, suscitando no espectador o sentimento caro que um bom thriller propõe, a expectativa, sendo também um tabuleiro soturno cujas peças/personagens se interconectam de modo engenhosamente coeso. Entre um susto aqui e outro mais adiante, valorizados pela inebriante fotografia com filtros azulados sombrios que permeia a narrativa, a nova obra brasileira disponível no canal de streaming Globoplay mostra que Ana Paula Maia conhece sobremaneira a “alma do negócio” para se fazer uma ótima série.

Assista ao trailer da série:

Nathalia Timberg, na época da apresentação do espetáculo “Através da Iris”, estava perto de completar 90 anos/Foto: Rodrigo Lopes

Em “Através da Iris”, uma das maiores damas do teatro e da TV brasileiros, Nathalia Timberg, dá vida à icônica designer de interiores, Iris Apfel, um símbolo fashionista de Nova York, cujo tema é “More is more, less is bore”

Na época em que estava prestes a completar 90 anos, no final de julho de 2019, uma das maiores damas do teatro e da TV brasileiros, Nathalia Timberg, decidiu comemorar a data em grande estilo, naquele lugar que, sem dúvida, é a sua segunda casa, o palco. Dessa celebração se originou um lindo, inteligente e bem-humorado espetáculo, “Através da Iris”, com dramaturgia de Cacau Higino e direção de Maria Maya. Nathalia dá vida à icônica designer de interiores, transformada em símbolo absoluto da moda mundial, a nova-iorquina criada nos arredores de Manhattan, Iris Apfel. Iris, no alto de seus 97 anos, caracteriza-se por ser uma mulher sempre à frente do seu tempo. Alcunhada como a “estrela geriátrica”, formada em História da Arte, defensora do lema “More is more, less is bore”, a involuntária fashionista se encontra em sua multicolorida casa, onde todos os elementos se imiscuem, do pop ao barroco, passando pelo clássico, concedendo uma entrevista reveladora para uma equipe de televisão. Neste testemunho, do qual a plateia se torna cúmplice fiel, a distinta senhora que decorou a Casa Branca 9 vezes, destila sua verve sarcástica, com sua autenticidade desconcertante, sobre vários temas que lhe foram e lhe são caros, como família, casamento, solidão, costumes e moda, é claro.

Com dramaturgia fluida assinada por Cacau Hygino e direção de Maria Maya focada no carisma de sua intérprete, Nathalia Timberg, sem surpresas para o público, revela-se fulgurante no palco, em que se destacam, entre outros méritos, a sua estudada e imbatível maneira de falar o texto

Cacau Hygino constrói uma narrativa fluida, com costuras bem definidas, tendo como um de seus maiores atrativos a potente comunicação com o público. Maria Maya, em inteira consonância com o texto de Cacau, foca explicitamente, com notável acerto, na figura carismática de sua intérprete.
Nathalia Timberg incorpora Iris Apfel com o brilho soberano que incondicionalmente a acompanha. Apostando com louvor na geometria delicada dos gestos, na naturalidade sofisticada de sua atuação, e em seu estudado falar, imbatível, Nathalia fulgura na ribalta. “Através da Iris” é uma peça que encanta, que nos ensina a conhecer o tempo e o ser humano feminino sem temer as liberdades. Um espetáculo que eleva a expressão em todas as suas correntes. E isso só seria possível através da íris de Nathalia Timberg. 

A atriz Lupita Nyong’o em cena do filme “Nós”/Foto: Divulgação

Jordan Peele, cineasta que conquistou o público e a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas com o cult de terror “Corra!”, aposta neste mesmo filão em “Nós”, trazendo em sua trama uma família de classe média americana aterrorizada ao se deparar em uma viagem de férias com o seu “duplo”

Em 2018, o mundo do cinema descobriu o talento criativo do diretor e roteirista americano Jordan Peele, que foi agraciado com o Oscar de Melhor Roteiro Original por “Corra!” (“Get Out”, 2017). O também ator Jordan surpreende o público mais uma vez ao lançar em março do ano seguinte o assustador e inventivo “Nós” (“Us”, EUA), obedecendo à mesma linha de terror cult que o consagrou com o longa anterior. Agora, Peele se concentra em uma típica família classe média estadunidense que decide passar as suas férias em uma praia turística chamada Santa Cruz. A esposa Adelaide (a oscarizada atriz queniano-mexicana Lupita Nyong’o) possui lembranças nada agradáveis desta mesma região praiana no longínquo 1986, em um brinquedo de parque de diversões com espelhos, no qual se deparou em um deles não com o seu reflexo, mas com o seu duplo com vida própria. Casada com Gabe (Winston Duke), e mãe do casal de adolescentes Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex), Addy/Adelaide vê tudo se transformar, com consequências aterrorizantes, a partir da aparição no jardim da casa de veraneio de uma misteriosa família.

Quem for assistir a “Nós” se fartará com boas doses de sustos e cenas carregadas de violência num cenário que reporta em certas ocasiões aos filmes de terror B com ingredientes apocalípticos de sci-fi

A direção de Jordan Peele faz o espectador perder o seu fôlego, com os sustos de praxe, a hiperviolência e as viradas surpreendentes.
Seu roteiro é uma recriação engenhosa e sofisticada com toques apocalípticos de sci-fi dos filmes de terror B. E não há demérito nisso.
A bonita Lupita Nyong’o é uma intérprete visivelmente madura, sabendo com mestria ofertar a ambiguidade de suas personagens, com expressões de medo e pavor e fúria animalesca. Por sinal, todo o elenco tem o seu valor, juntando-se a ele o casal Elisabeth Moss (Kitty) e Tim Heidecker (Josh).

Além de contribuir com a sua criatividade, “Nós” assume um papel ainda mais importante na indústria do cinema dos Estados Unidos ao colocar como protagonista uma família afrodescendente liderada pela estrela Lupita Nyong’o

“Nós” é mais uma obra de Jordan Peele que serve para dar uma lufada de criatividade à cinematografia dos Estados Unidos por vezes repetitiva e voltada para as bilheterias fáceis dos blockbusters.
Além disso, ao ceder o protagonismo a uma família negra como símbolo legítimo da classe média americana cumpre o papel primordial de contribuir para a diversidade e representatividade cinematográficas. 

Assista ao trailer do filme:

O diretor Caco Ciocler, que aparece em algumas cenas de seu filme, dentro do ônibus que é usado para a viagem ao Uruguai/Foto: Divulgação

Em comemoração aos 52 anos do Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, que são completados hoje, houve na última quinta-feira a exibição on-line do filme dirigido por Caco Ciocler, “Partida”, seguida de debate com a sua presença. A seguir, a crítica:

O diretor Caco Ciocler aproveita um acontecimento da História recente do Brasil, a ascensão da extrema direita ao poder em outubro de 2018, para realizar um road movie documental que se sustenta nas aspirações político/sociais frustradas de um grupo diverso de pessoas

Dentre os inúmeros gêneros existentes no universo cinematográfico o “road movie” é um dos mais estimados. Qualquer cinéfilo que se preze cita um exemplar de sua preferência à primeira inquirição. O “road movie” documental, a despeito de sua menor frequência nas telas, possui inegável valor. Apostando nesta premissa, o diretor Caco Ciocler realiza uma joia recente do cinema brasileiro com o premiado doc “Partida” (2019), um recorte tocante das aspirações político/sociais frustradas de um grupo de pessoas após a temerária ascensão da extrema direita ao poder no país no cerrar das portas de 2018.

A ideia do filme surge a partir do momento em que Caco Ciocler ouve da atriz e também diretora Georgette Fadel que ela se candidataria à Presidência da República em 2022, o que o leva a pensar em uma viagem de ônibus com destino ao Uruguai reunindo um determinado grupo com o objetivo de se encontrar com o ex-Presidente do país platino Pepe Mujica

Depois de ouvir a atriz e diretora Georgette Fadel se declarar candidata à Presidente da República em 2022, o também produtor Caco (junto com Beto Amaral) decide convocá-la, e mais alguns, a uma viagem de ônibus rumo ao Uruguai com pretensões de encontrar o ex-Presidente Pepe Mujica, sem nenhum aviso prévio. Sem se enquadrar nos cinemas direto e verdade (visto que o grupo técnico aparece em boa parte da projeção como se fosse um “personagem”), a obra flui brilhantemente sob a égide do generoso acaso e das improvisações dos membros da equipe de filmagem, uma trupe quase mambembe. Em meio a altercações políticas entre uma intensa Georgette e seu principal “oponente” Léo (Léo Steinbruch), criamos empatia por esses seres aventureiros, sonhadores, contraditórios e frágeis, porém fortes em suas determinações estrada afora.

Extremamente sensível em seu olhar para a realidade próxima que o cerca, Caco Ciocler faz de “Partida” um filme sobre buscas e sonhos sem medidas, no qual o futuro pode sim ser o presente desejado, ainda que demorado

Caco Ciocler demonstra enorme sensibilidade com o seu olhar para a realidade que o cinge tão proximamente. Acredita na coletividade e no afeto humanos. Crê às cegas no improvável, sendo desperto pela magia do benevolente destino. “Partida” é um filme sobre buscas, jamais despedidas. Um filme de sonhos sem medidas. No ônibus antigo, do passado, todos ainda vislumbram no futuro o presente desejado por ora adiado. “Partida” não é para se dizer “adeus”. No máximo, um “até breve”, mesmo que dure um pouco mais.

Assista ao trailer do filme:

Foto: Divulgação

Nanni Moretti realiza um documentário sobre um dos períodos mais sangrentos da história chilena, quando em 1973 o governo legítimo de Salvador Allende é deposto com o apoio dos Estados Unidos, representados pela figura do Secretário de Estado, Henry Kissinger, levando o país a uma ditadura comandada pelo General Augusto Pinochet

Esteve em cartaz nos cinemas brasileiros em 2019 uma obra do aclamado cineasta italiano Nanni Moretti, o oportuno documentário “Santiago, Itália” (“Santiago”, 2018), vencedor do David di Donatello 2019 de Melhor Documentário (sua mais recente produção, um drama, chama-se “Tre Piani”, 2020). O doc relata os episódios que marcaram uma das ditaduras militares mais implacáveis e cruéis da América Latina, a chilena, que tomou o poder em setembro de 1973, depondo o presidente eleito democraticamente Salvador Allende. Porém, o grande mote do filme do também ator e roteirista, autor dos elogiados longas “Caro Diário” (1994), “O Quarto do Filho” (2000) e “Habemus Papam” (2011) foi a primordial ajuda da embaixada italiana, oferecendo asilo e vistos para a Itália, aos perseguidos políticos do governo de Augusto Pinochet. Nanni, mesmo afirmando não ser imparcial, procurou ouvir os dois lados da história numa série numerosa de depoimentos, utilizando-se outrossim de preciosas imagens de arquivo, como as que mostram o Estádio Nacional do Chile, que serviu de enorme centro de detenção para os opositores do regime totalitário. No filme fica evidente o financiamento norte-americano ao golpe, com o apoio da imprensa chilena, justificado por Henry Kissinger, Secretário de Estado à época, como uma forma de não estimular os governos italiano e francês, com seus partidos socialistas, suscetíveis às políticas sociais de Allende. Moretti oferece a cineastas, como Patricio Guzmán, empresários, professora, artesão e muralista a oportunidade de dar o seu testemunho (seja em espanhol ou italiano), assim como a militares condenados por seus crimes. O único senão do documentário de Nanni Moretti foi seguir os padrões mais convencionais deste gênero cinematográfico, com depoimentos de personagens da História entremeados por imagens de arquivo, como foi dito antes. No entanto, a força deste período histórico que jamais deve ser esquecido não tira o interesse do espectador. Nanni Moretti merece o nosso respeito por revolver as lembranças desta triste passagem de nosso país vizinho. “Santiago, Itália” se torna ainda mais relevante quando vemos no Brasil a defesa aberta da volta de um regime tão desumano quanto ilegal, como o é a ditadura.

Assista ao trailer do filme:

Uma das formações originais da Blitz, com Evandro Mesquita à frente, no posto até hoje, e Lobão ao fundo, na bateria/Foto: Divulgação

Em sessão on-line (“Cine Debate”) promovida pelo Centro de Artes UFF no dia 06 de agosto, em Niterói, no Rio de Janeiro, os internautas puderam assistir ao abrangente documentário de Paulo Fontenelle, experiente no gênero, “Blitz, O Filme”, e depois conversar com ele sobre esta obra que retrata uma das bandas mais populares do BRock, pioneira não só neste movimento, mas em muitos aspectos, como o visual e o musical, incluindo letras e melodias. 

A seguir, a crítica: 

Pensem numa banda surgida no início dos anos 80, cujos integrantes formularam uma nova linguagem de comunicação musical, inclusive dialogada e cotidiana, fundamentada na criatividade visual e performática, com influências teatrais (como o lendário Asdrúbal Trouxe o Trombone, de onde vieram o vocalista Evandro Mesquita e a diretora de palco, a atriz Patrycia Travassos), com a presença de duas lindas moças, Fernanda Abreu e Márcia Bulcão, que não só cantavam mas criavam suas próprias coreografias, e um time de excelentes músicos de fazer inveja a qualquer grupo, como Ricardo Barreto, Juba, Billy Forguieri e Antônio Pedro, todos filhos legítimos da “cara do Rio de Janeiro” daquela época, em que a praia das dunas do Posto 9 e o Arpoador simbolizavam seus “lares”. Quem pensou Blitz (nome dado pelo cantor e compositor Lobão devido às recorrentes paradas policiais antes dos ensaios em seu estúdio no Joá, no Rio de Janeiro, sofridas por Evandro e outros), acertou. E Paulo Fontenelle, experiente em docs como “Sobreviventes – Os Filhos da Guerra de Canudos” e “Evandro Teixeira – Instantâneos da Realidade”, acertou em cheio na realização de “Blitz, o Filme” (2019). Paulo não se esquivou em adotar a narrativa clássica deste gênero cinematográfico, como o respeito à cronologia dos fatos, o bom número de imagens de arquivo e os depoimentos dos envolvidos no curso da banda, apostando no potencial de seu conteúdo, com um ritmo fluente e empolgante que faz com que embarquemos nessa viagem movida a muitas cores fluorescentes. Paulo, também o roteirista, mantém-se imparcial do começo ao fim, sem colocar o conjunto num pedestal. Estão lá as incompatibilidades pessoais, os ciúmes e disputas egoicas, o erro da superexposição, a censura às canções e as seguidas rupturas e retornos da banda, em atividade até hoje, atraindo novos e antigos fãs. Paulo Fontenelle se firma como um admirável contador de histórias reais, avalizando o devido lugar que a Blitz deve ter como pioneira do BRock. “Blitz, o Filme” já nasceu “estourado”. Você saberá amá-lo. 

Assista ao trailer do filme: 
 
Andrea Beltrão caracterizada como a apresentadora Hebe Camargo na série “Hebe”/Foto: Divulgação

Uma das maiores comunicadoras do país, Hebe Camargo reunia carisma, credibilidade e clareza discursiva, sendo mais do que justificável a realização de uma série sobre a sua trajetória 

A televisão só é eficaz se cumprir o seu precípuo papel de se comunicar diretamente com o público. Para que isso seja factível é indispensável que haja profissionais no veículo que reúnam atributos como credibilidade, carisma e clareza no discurso. A apresentadora Hebe Camargo reunia tudo isso e talvez um pouco mais, tornando-se assim uma das maiores comunicadoras do país. Justifica-se deste modo a realização de uma série dedicada a esta fulgurante mulher de Taubaté, interior de São Paulo, que também se sobressaiu como cantora.

Carolina Kotscho não poupou o público de nada que pudesse nublar a verdadeira personalidade de Hebe, contraditória, exuberante ou exagerada, feliz ou triste, e acima de tudo humana e corajosa, mostrando-nos além disso os seus excessos com o álcool e a sua defesa da transexualidade e da homossexualidade 

“Hebe”, criada e escrita com extraordinário brilho por Carolina Kotscho (com diálogos excepcionais), reestreou seu primeiro episódio na Rede Globo na quinta-feira passada, trazendo-nos à lembrança recortes cruciais que definem com estrita precisão traços que identificam a personalidade contraditória, humana, exuberante ou exagerada, feliz ou entristecida, e corajosa desta artista que faz parte da história da TV brasileira. Carolina não nos deixou escapar nada em seu introito, que mostra a apresentadora já em tratamento contra um câncer, e 25 anos antes, defendendo a transexualidade de Roberta Close e o travestismo artístico de Patrício Bisso, a homossexualidade, combatendo as sobras da censura de uma democracia nascente (na pele do censor Guimarães, Fernando Eiras, magnífico), insurgindo-se contra a intolerância de seu diretor Walter Clark (Danilo Grangueia, vigoroso). Seus excessos no álcool não ficaram de fora nem sua relação inconstante com o ciumento marido Lélio (Marco Ricca com seu sotaque paulistês carregado está irrepreensível). Assim como o seu amor incondicional pelo filho Marcelo (Caio Horowicz, acertadamente introspectivo). O fiel sobrinho Cláudio coube ao ótimo Danton Mello.

A personificação de Andrea Beltrão da apresentadora Hebe é um marco em sua carreira 

Andrea Beltrão, numa devastadora personificação de Hebe, impressiona nos detalhes de sua riquíssima composição (voz, olhar, trejeitos, postura). Um marco em sua carreira. Mauricio Farias, diretor artístico, e Maria Clara Abreu, diretora, exploram lindamente a câmera em suas distintas possibilidades. Com direção de arte de Luciane Nicolino, figurino de Antônio Medeiros e caracterização de Simone Batata irretocáveis, “Hebe” consagra-se como um sublime retrato de uma admirável estrela que tinha “peninha” de morrer.

O diretor, corroteirista e coprodutor do filme “Meu Nome é Daniel” Daniel Gonçalves/Foto: Marcelo Santos Braga

 

Todas as quintas-feiras, acontece o “Cine Debate”, sessões on-line de filmes seguidas de debate.
Numa parceria entre o Centro de Artes UFF e a Olhar Distribuidora, o longa exibido no dia 16/07 foi o documentário “Meu Nome é Daniel” (2018).
A seguir, a crítica:

Daniel Gonçalves, portador de uma doença rara que limita os seus movimentos, assume as funções de diretor, corroteirista e coprodutor de “Meu Nome é Daniel”, sendo o primeiro brasileiro nesta condição a comandar um longa-metragem

“Meu Nome é Daniel”, documentário baseado na vida do cineasta do município de Barra Mansa, Rio de Janeiro, Daniel Gonçalves (diretor, corroteirista e coprodutor), portador de uma doença rara com limitações motoras, sendo o primeiro brasileiro nesta condição a comandar uma obra do gênero, é um filme que subverte. Alternando cenas de arquivo em Super 8 e VHS de suas infância e adolescência e começo da fase adulta, narrada com ritmo e pausas certeiros em primeira pessoa por Daniel, o que confere à produção uma poderosa legitimidade, tudo é contado ao público sem pudores, de forma franca e clara, como a naturalidade de sua família em lidar com a situação, algumas manifestações de preconceito da sociedade, sua iniciação sexual, as festinhas juvenis, as relações afetivas e suas escolhas profissionais.

Com o aval de Roberto Berliner, diretor de “Nise: O Coração da Loucura”, na coprodução do longa, o documentário não pretende ser, segundo o próprio Daniel Gonçalves, “um filme de coitadinho ou super-herói” ou “um filme de superação”, o que lhe denota um caráter tematicamente subversivo

O roteiro assinado por Daniel, Débora Guimarães e Vinícius Nascimento (também montador, realiza um ótimo trabalho), eficientíssimo em sua estrutura, com pinceladas de humor contextualizado, tem como ponto de partida a busca de seu protagonista por um diagnóstico preciso para a sua condição física, mas o filme, coproduzido por Roberto Berliner e Rodrigo Letier, não se resume a isso. Evitando temas musicais com o objetivo de afastar qualquer provocação sentimentalista, “Meu Nome é Daniel” subverte no sentido de que não pretende ser, segundo o seu diretor, “um filme de coitadinho ou super-herói” tampouco “um filme de superação”.

Premiado em três importantes festivais, o documentário nos leva a uma reflexão obrigatória e necessária a respeito da conceituação do que é ser “normal”

Premiado na Mostra de Tiradentes (Melhor Longa-Metragem pelo Júri Popular), nos Festivais Internacional de Cine de Cartagena de Índias 2019 (Prêmio Documental Calificado Oscar) e do Rio (Menção Honrosa Direção de Documentário), “Meu Nome é Daniel” é uma obra imprescindível, necessária, que nos leva à reflexão obrigatória do que é ser normal, abraçando generosamente a diversidade em todas as suas camadas, sem omitir o que dela decorre. Daniel Gonçalves representa o que há de íntegro e reto no ser humano. Daniel é bem mais do que o substantivo próprio do título de um belo filme. Daniel são muitos, mas poucos são aqueles que oferecem a sua beleza de vida em imagens.

Assista ao trailer do filme: 

Bruno Mazzeo interpreta o publicitário Murilo na série “Diário de Um Confinado”/Foto: Glauco Firpo/Gshow

 

Muitas atrações cujos temas são voltados para o isolamento social em decorrência da pandemia surgiram em diferentes plataformas, destacando-se entre elas a estrelada e roteirizada por Bruno Mazzeo

Neste momento insólito pelo qual passamos, reféns de uma pandemia sem precedentes no país há mais de um século, com o isolamento social recomendado, e as TVs abertas, a cabo e o streaming se firmando como algumas escolhas de lazer disponíveis para os confinados, pululam nos mesmos atrações que atribuem ao tema o seu mote principal. É o caso da divertida e muito bem realizada série multiplataforma “Diário de Um Confinado”, uma criação de Bruno Mazzeo (ator e também roteirista) e Joana Jabace, sua esposa, a quem coube a função de diretora artística, na Rede Globo. Somam-se à inspirada equipe de roteiristas Rosana Ferrão, Leonardo Lanna e Verônica Debom.

 

A própria casa de Bruno Mazzeo serviu como única locação da série, sendo que quase tudo referente à produção fora feito de modo remoto

 

Com a casa do intérprete servindo de locação, sofrendo certas adaptações, quase tudo fora feito remotamente, como as avaliações de figurino e arte (houve o envio de determinados objetos), e a participação dos atores, com a exceção de Debora Bloch, que é vizinha real de Bruno. Só um profissional técnico, após isolamento no local, trabalhou presencialmente, o diretor de fotografia Glauco Firpo.

 

O enredo é desenvolvido em cima da figura de um homem solteiro de classe média que por contingências da pandemia se depara com uma infinidade de ações higienizantes de proteção, além de ser vítima dos conflitos psicológicos ocasionados por uma rotina (ou falta de) solitária forçada

 

A história é focada em Murilo, um homem solteiro, de classe média, que se defronta com todos os tipos de vicissitude decorrentes do confinamento, que vão desde os inúmeros cuidados de higiene preventiva aos percalços psicológicos de uma vida solitária forçada por meses. Murilo, já paranoico, tem que enfrentar as paranoias em sua potência máxima de sua vizinha (Debora Bloch, impagável) e de sua mãe (Renata Sorrah, maravilhosamente cômica). Entre uma engraçada sessão de análise interrompida e outra por uma doutora à beira de um ataque de nervos representada por Fernanda Torres (perfeita na neurastenia), Murilo se vê às voltas com a “embalagem perigosa” de uma pizza e os ataques virtuais ninfomaníacos de uma paquera, uma hilária Luciana Paes.

 
Uma série com grandes qualidades técnicas, que faz jus a entusiasmados elogios

 

Não se pode negar a qualidade técnica da produção, como se tivesse sido feita em um estúdio. Tudo merece louvor: roteiro, direção, atuações, fotografia, som. “Diário de Um Confinado” é como aquela pizza que se pedia nos sábados pré-pandemia: saborosa, sempre queríamos mais uma fatia e cheia de bons ingredientes. E, claro, com uma embalagem que não fosse uma vilã.

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