Blog do Paulo Ruch

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O ator Christian Malheiros é o protagonista do filme “Sócrates”/Foto: Divulgação

Premiadíssimo em importantes festivais, como o Independent Spirit Awards e o Festival do Rio, “Sócrates”, que teve o aval do celebrado diretor e produtor Fernando Meirelles, narra de forma contundente a história de um jovem negro homossexual que só deseja obter as cinzas de sua mãe falecida, enfrentando durante este périplo todos os tipos de preconceito

Há filmes ditos independentes que não podem passar despercebidos aos olhos do público no circuito cinematográfico. Um exemplo é o premiadíssimo longa de estreia de Alexandre Moratto, com a chancela valorosa de Fernando Meirelles como produtor executivo (O2 Play), “Sócrates” (Brasil, 2018). Vitorioso no Independent Spirit Awards 2019 com o prêmio Someone to Watch, no Festival do Rio 2018 com o Prêmio Félix de Melhor Filme de Ficção, no Festival Mix Brasil com as láureas de Melhor Filme, Diretor e Ator (Christian Malheiros, também indicado ao Independent Spirit Awards), além de outros prêmios internacionais e Menção Honrosa na Mostra Internacional de São Paulo,
a obra, uma produção do Instituto Querô e Querô Filmes, montada e corroteirizada por Alexandre e Thainá Mantesso, narra a pungente e dolorida trajetória do jovem Sócrates (Christian Malheiros, excepcional, um ator que se expressa com potência máxima em seu triste olhar), de 15 anos, que após perder a sua mãe, vê-se sozinho numa Baixada Santista periférica com miséria dominante, retrato do Brasil real, em busca inglória por um emprego qualquer para sobreviver. Fugindo do pai opressor e da prostituição e tendo que lidar com a sua homossexualidade (consumada com Maicon, o brutalmente ótimo Tales Ordakji), Sócrates, que deseja lançar as cinzas maternas em um lugar digno, é a prova viva do abismo social brasileiro, onde milhões de jovens foram usurpados de seu futuro.

O filme, que revela as promessas Alexandre Moratto, diretor, e Christian Malheiros, ator, descende das linguagens cinematográficas do Cinema Novo, vistas em filmes dos expoentes Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos

Com pegada de câmera glauberiana, esta peça fílmica neorrealista contemporânea, que se conecta com a linguagem crua cinemanovista de Nelson Pereira dos Santos, além de lançar as promessas Alexandre Moratto e Christian Malheiros, serve como sinal de alerta urgente para o establishment desigual e injusto vigente na nação da “ordem”, do “progresso” e das castas cada vez mais privilegiadas.

Assista ao trailer do filme:

Karine Teles como Gilda, na série selecionada para o Festival de Berlim, na Mostra Berlinale Series, “Os Últimos Dias de Gilda”/Foto: Divulgação

Dando continuidade a uma bem-sucedida parceria entre a atriz e roteirista Karine Teles e o diretor, produtor e também roteirista Gustavo Pizzi, a série colocou o país pela primeira vez na disputa desta categoria no Berlinale Series deste ano

Karine Teles despertou a atenção do público cinematográfico em “Que Horas Ela Volta?” (2015), de Anna Muylaert, representando a ponta privilegiada da distensão social entre patrões e empregados. Já em “Benzinho” (2018), juntou-se ao diretor e roteirista Gustavo Pizzi, coescrevendo e protagonizando a história de uma divertida família de classe média que sofre com a iminência de um de seus filhos ir para o exterior (ambos haviam trabalhado antes no longa “Riscado”, de 2010). Essa bem-sucedida parceria rendeu o tenso “Os Últimos Dias de Gilda”, com direção e produção de Gustavo, baseado na peça homônima de Rodrigo de Roure, encenada por Karine em 2004. A ótima série, roteirizada pela dupla, logrou um feito inédito, ser a primeira produção brasileira do gênero selecionada para o Festival de Berlim deste ano, na Mostra Berlinale Series.

Lançada no Canal Brasil, “Os Últimos Dias de Gilda” envolve o público num clima de crescente tensão ao abordar a convivência de Gilda, uma mulher liberal e independente, com os moradores conservadores de sua rua, na qual se imiscuem intolerância religiosa, associação entre política e religião, violência policial/miliciana e preconceito comportamental

A trama original do Canal Brasil, com fotografia naturalista de Pedro Faerstein (onde há também momentos iluminados pictoricamente com resultados elegantes), aborda com propriedade questões relacionadas à intolerância religiosa, associação entre religião e política, violência policial/miliciana e liberdade sexual feminina. Gilda é uma criadora de porcos e galinhas, cozinheira, que vive entre seu trabalho, papos com a amiga Jandira (Ana Carbatti) e os muitos envolvimentos amorosos. No entanto, ela mora numa rua dominada por evangélicos, empenhados na eleição do pastor Ismael (Higor Campagnaro), casado com a preconceituosa e amarga Cacilda (Julia Stockler), que a persegue impiedosamente. Adepta de religião de matriz africana, Gilda é cada vez mais ameaçada. Dividida em quatro episódios, marcados pela direção precisa e sensível de Gustavo, a história prende o espectador pela sua crescente tensão com consequências imprevisíveis.

Uma obra que exalta a liberdade e o querer das mulheres, provando o tamanho da potência quando se unem contra toda e qualquer opressão

O elenco é impecável, começando por mais uma soberba atuação de Karine, desde já uma das estrelas do cinema contemporâneo. Acompanham-na com irretocáveis composições de seus personagens os citados Ana Carbatti, Higor Campagnaro e Julia Stockler, Antonio Saboia (Wallace, policial que vigia a rua), Inez Viana (Celina, mãe de Gilda), Dida Camero (Teresa, mãe de santo), João Vitor Silva (Alvinho, jovem amante de Gilda) e Erom Cordeiro (Sargento Jordão). Tecnicamente, além da fotografia, a direção de arte detalhada de Dina Salem Levy, os figurinos bastante coerentes de Diana Leste e a bem conduzida trilha sonora original de Pedro Sodré e Rudah foram inegavelmente entregues em boas mãos. “Os Últimos Dias de Gilda”, uma produção da Baleia Filmes, é em sua essência uma obra que realça o poder feminino contra toda e qualquer opressão. Um filme que exalta a liberdade e o querer das mulheres, provando o tamanho da potência quando se unem. Na verdade, são os primeiros dias de Gilda em uma longa batalha ainda a ser vencida.

Maria Bethânia foi a grande estrela do sábado de Carnaval deste ano com a sua primeira live/Foto: Globoplay/Reprodução

13 de fevereiro, uma data que deve ser comemorada por Maria Bethânia, como todas as datas importantes, segundo sua mãe, Dona Canô

Num 13 de fevereiro de 1965 Maria Bethânia se apresentava no emblemático show “Opinião”. Em 13 de fevereiro de 2016 uma de nossas mais grandiosas cantoras desfilava pela Mangueira campeã que a homenageava. Sábado de Carnaval, 13 de fevereiro de 2021, Maria protagoniza a sua primeira live, com exibição aberta no Globoplay. Segundo a intérprete, sua mãe lhe aconselhou que datas importantes devem ser celebradas. A filha de Dona Canô abre o show cantando lindamente à capela a romântica “Explode Coração”, de Gonzaguinha.

A cantora, completando 56 anos de carreira, com a sua voz única e brilhante, presenteou o público com clássicos como “Cálice” e “O Que É, O Que É?, além de inéditas de seu novo álbum “Noturno”, pedindo, no início de seu show, “Vacina, Respeito, Verdade e Misericórdia

Acompanhada de músicos extraordinários (Paulo Dafilin, violão; João Camarero, violão; Jorge Helder, baixo; e Marcelo Costa, percussão), a ilustre artista de Santo Amaro da Purificação, Bahia, com 56 anos de carreira, fez um show arrebatador, forte, emocionante e necessário neste momento em que precisamos tanto de algo que nos acarinhe, como a grande arte de Bethânia. Com roteiro da própria, houve citações literárias de insignes escritores, como Fernando Pessoa e Clarice Lispector, que antecederam as canções, elemento que passou a incorporar em suas apresentações desde o show “Rosa dos Ventos”, em 1971. No setlist estiveram músicas inéditas de seu novo disco “Noturno”, como “Lapa Santa” e “De Onde Eu Vim”. Os clássicos, na voz única e brilhante da irmã de Caetano Veloso, tornam-se mais clássicos, como “Onde Estará o Meu Amor?”, “Reconvexo”, “Olhos nos Olhos”, “Cálice”, “Volta por Cima”, “O Que É, O Que É? e “Evidências”. No palco da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, com cenografia minimalista de Fernando Schmidt (havia uma original cadeira estilizada que remetia a um tronco de árvore usada pela cantora), fotografia admirável de Césio Lima e Willian Andrade e design de luz deslumbrante de Ana Luzia de Simone (a designer se utilizou de vasta e encantadora paleta), a Maria descalça e de branco nos comoveu com sua bela versão da dilacerante “2 de Junho”, de Adriana Calcanhotto, sobre a trágica morte do menino Miguel, em 2020. Com direção artística do tarimbado LP Simonetti, produção de Juliana Silleman e Valéria Amaral (uma produção Quitanda Produções) e coprodução de Márcio Debellian (diretor do ótimo documentário “Fevereiros”, 2017), Maria Bethânia nos ofertou um Carnaval diferente, sem os desfiles das escolas de samba e os blocos de rua, no entanto mais bonito e catártico, dando-nos a certeza de que temos uma das maiores artistas da música mundial, que lá no início de seu show disse com voz firme o que mais desejava: “Vacina, Respeito, Verdade e Misericórdia”. Essa é a nossa “Menina dos Olhos de Oyá”.

Marcello Melo Jr. interpreta o primeiro-sargento do BOPE Mikhael na série original do Globoplay exibida atualmente pela Rede Globo/Foto: Carlos Fofinho/Divulgação

A figura anti-heroica de oficial do BOPE é retomada na série original do Globoplay, em exibição na Rede Globo, “Arcanjo Renegado”, uma criação de José Junior, do Grupo Afroreggae

Desde o sucesso do filme “Tropa de Elite” (2007), de José Padilha, a figura anti-heroica de oficial do BOPE (Batalhão de Operações Especiais), segmento da Polícia Militar do Rio de Janeiro, tornou-se atraente para o desenvolvimento de narrativas audiovisuais, como é o caso da série original do Globoplay “Arcanjo Renegado”, de José Junior, do Grupo AfroReggae, estreia do último dia 4 na Rede Globo. O eletrizante thriller policial produzido pelo AfroReggae Audiovisual, com coprodução da Hungry Man, conta com as impecáveis direções de Heitor Dhalia (“O Cheiro do Ralo” e “À Deriva”), direção geral, e André Godói, direção (junto com Heitor).

A eletrizante história dirigida por Heitor Dhalia e André Godói centra-se na trajetória de Mikhael, Marcello Melo Jr., que, quando criança, vê o seu pai policial morto por criminosos, e já adulto, como primeiro-sargento do BOPE, revela-se um oficial implacável com o banditismo

A envolvente trama de Rafael Spínola (roteirista-chefe), Débora Guimarães, Gabriel Maria (texto final), José Junior (texto final) e José Luiz Magalhães aborda a trajetória do primeiro-sargento do BOPE Mickael (Marcello Melo Jr.), do prestigiado grupo Arcanjo, um rapaz que desde a infância convive com a violência das comunidades. Mikhael, criança, cujo sonho é ser policial como o pai, acaba vendo a sua referência ser morta por bandidos. Já como primeiro-sargento, tendo como principal parceiro o sargento Rafael (Alex Nader), é duro e implacável com o crime, como se quisesse honrar a memória do pai. Com sequências de se tirar o fôlego da guerra de facções com a intervenção do BOPE, além do resgate do filho da deputada estadual presidente da Alerj, Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Manuela Berenguer (Rita Guedes), que mantém um segredo com Gabriel, o coronel da corporação, (Leonardo Brício), a série busca também humanizar o tipo policial, revelando o drama de Rafael com sua esposa Sarah, (Erika Januza), e seu filho doente. No rastro das operações truculentas do BOPE está o destemido jornalista Ronaldo Leitão, (Álamo Facó), dedicado a denunciar abusos contra os direitos humanos em tempo real. Ronaldo se relaciona com Barata, (Flávio Bauraqui), chefe de gabinete do corrupto Governador Custódio Marques (Bruno Padilha), que visa à reeleição.

“Arcanjo Renegado” é uma série pulsante cujo um de seus maiores méritos é ter adotado um viés extremamente realista, mostrando tanto o abismo social que leva ao crime quanto a equivocada política de enfrentamento do crime por parte de forças de segurança do Estado

Um dos muitos méritos da obra é assumir um viés extremamente realista. Nada do que vemos nos soa estranho, o que lhe confere enorme credibilidade (a corrupção sistêmica das instituições, a política combativa ao crime fundada na violência ostensiva etc). Valorizada pelo bom elenco (que contou ainda com Guti Fraga – Vice-Governador Luís Eustáquio, Ademir Emboava – financiador da campanha do Governador e intermediador das propinas, e Renata Tavares – mãe de um rapaz supostamente assassinado pelo BOPE) e acertada fotografia crua de Pepe Mandes, “Arcanjo Renegado” é uma série pulsante que desvela as feridas abertas do abismo social que leva ao crime e a contínua ineficiência do Estado no seu enfrentamento, agravada pela corrupção. Uma verdade nada angelical que jamais pode ser renegada.

Assistam ao trailer da série:

O arquiteto Paulo (Emilio Dantas) e a bailarina Maria Alice (Sophie Charlotte) vivem uma relação com reviravoltas no primeiro episódio de “Todas As Mulheres do Mundo”/Foto: Victor Pollack/Globo

Escrita por Jorge Furtado e Janaína Fischer, com ideia original de Domingos Oliveira e Maria Ribeiro, a série da Rede Globo “Todas As Mulheres do Mundo” fala essencialmente sobre o amor, suas relações e desfechos, tendo como fonte inspiradora vários textos do dramaturgo e roteirista, como o filme homônimo de 1966

Se os apreciadores do tema “amor” quiserem se aprofundar sobre este sentimento que move o mundo não irão se desapontar se forem buscar suas causas e efeitos na insuspeita fonte contida na rica obra de Domingos Oliveira, ator, dramaturgo, roteirista e diretor. E é a partir desta fonte, incluindo o filme homônimo de 1966, estrelado por Paulo José e Leila Diniz, que Jorge Furtado e Janaína Fischer escreveram a bela série da Rede Globo (também disponível no Globoplay) que estreou na última terça, “Todas As Mulheres do Mundo”, uma ideia original do próprio Domingos e de Maria Ribeiro. As outras obras que serviram de referência aos autores foram os textos de “Edu, Coração de Ouro”, “Amores”, “Separações”, “Os Inseparáveis”, “A Primeira Valsa”, “BR 716” e “Largando o Escritório”.

A mesma trinca bem-sucedida de diretores da série “Shippados”, Patrícia Pedrosa (direção artística), Ricardo Spencer e Renata Porto D’Ave (diretores) são responsáveis pela condução da história de Paulo, um sedutor arquiteto que se encanta pela beleza da bailarina Maria Alice em uma noite de Natal, representados respectivamente por Emilio Dantas e Sophie Charlotte

Com as primorosas direção artística de Patrícia Pedrosa e direção de Ricardo Spencer e Renata Porto D’Ave (trinca bem-sucedida de “Shippados”), o primeiro episódio, “Maria Alice”, apresenta-nos o protagonista Paulo, Emilio Dantas (ator que reafirma o seu grande talento a cada trabalho), um arquiteto/artista/poeta sedutor incorrigível que, numa alegre noite de Natal em sua casa, onde festeja sua animada amiga Laura (a ótima Martha Nowill), uma divertida mulher que deseja engravidar antes dos 40, conhece “o grande amor da sua vida”, a linda bailarina Maria Alice (Sophie Charlotte, iluminada). Nesta mesma noite natalina, Paulo recebe de seu amigo, o desiludido Cabral (Matheus Nachtergaele, sempre bom), a missão de cuidar temporariamente de seu adorável cão Oliveira. Maria Alice decide acabar com o seu noivado e mergulhar de cabeça nessa aventura poético/romântica com Paulo, com direito a idas à praia, passeios noturnos cariocas e horas intensas de amor.

Um dos maiores atrativos da série é a luxuosa produção musical de Rafael Langoni Smith e Iuri Cunha, que traz na abertura de cada episódio uma celebrada cantora, como Marisa Monte no primeiro, dando a sua versão para o clássico romântico de Pixinguinha “Carinhoso”

Os diretores imprimem fluidez e dinamismo às cenas, sem perder o lirismo. Dante Belluti, diretor de fotografia (também de “Shippados”), usa matizes solares e se esmera nas externas noturnas. A edição final de Cris Carneiro nos leva para uma montanha-russa de emoções. A produção musical maravilhosa de Rafael Langoni Smith e Iuri Cunha com clássicos na voz de Marisa Monte, como o tema de abertura “Carinhoso”, de Pixinguinha (haverá outras cantoras o interpretando a cada episódio, ao todo são 12, como Rita Lee, Maria Bethânia e Céu), enlaça qualquer espectador. Além da abertura, Marisa nos enterneceu com alguns de seus sucessos, como “Depois” e “O Que Se Quer”. Completam o inspirado elenco deste capítulo Ricardo Gelli (Leopoldo, o noivo de Maria Alice), Paula Possani (a veterinária Dra. Tânia) e Pedro Henrique Cassiano (Vitor, bailarino amigo de Maria Alice). “Todas As Mulheres do Mundo” traz ao público no momento certo a glorificação do amor, tão defendida por Domingos Oliveira. Todos os amores de Domingos, inclusive à vida, estão nesta apaixonante série.

Assistam ao trailer da série:

Eduardo Sterblitch e Tatá Werneck formam um divertido e singular casal em “Shippados”/Foto: Divulgação/Globoplay

“Shippados”, série da Rede Globo, também disponível no Globoplay, prova com inteligência que a comédia romântica é um gênero que pode atingir todos os nichos de público

As comédias românticas, segundo alguns, agradam unicamente ao público feminino. De acordo com outros, trata-se de entretenimento meramente escapista. Na verdade, ambas as óticas são reducionistas e preconceituosas. Se o produto audiovisual (TV, streaming, cinema) se fundamentar em uma estrutura narrativa inteligente, sem abdicar de seus elementos cômicos e românticos característicos, o assunto se encerra, pois se tem uma obra universal disponível a todos os espectadores. É o caso da deliciosa série “Shippados” (2019), estreia da Rede Globo no último dia 12, com a assinatura de Alexandre Machado e Fernanda Young (último trabalho da autora).

A divertida história de Alexandre Machado e Fernanda Young é centralizada em dois jovens “diferentões”, Enzo e Rita, que procuram a sua “cara metade” em aplicativos de encontro, sendo invariavelmente malsucedidos. Tudo muda quando esse casal tão fora dos padrões se esbarra

Nos primeiros episódios conhecemos os jovens “diferentões” Enzo (Eduardo Sterblitch) e Rita (Tatá Werneck), ambos carentes, sem uma base familiar sólida e uma profissão estabelecida. Adeptos dos aplicativos de encontros, eles são vítimas do estranhamento de seus possíveis pares às suas personalidades não convencionais e arrebatadoramente francas. Na volta de um desses “matches” malsucedidos, a vlogger Rita e Enzo, que divide o apartamento com um casal nudista tresloucado (Luis Lobianco e Clarice Falcão), aproximam-se. Em cenários urbanos, como o interior dos metrôs, esses jovens irresistíveis travam diálogos divertidos e inspirados sobre a vida, comportamentos, esquisitices, relações, passado e família, sempre num tom puro e espontâneo. Conforme a história se desenrola, ficamos cada vez mais fascinados por esses dois tipos tão fora dos padrões. Mérito não só do ótimo texto, mas dos protagonistas, dois dos maiores nomes da nova geração do humor. Mérito também da esperta e elegante direção de Ricardo Spencer e Renata Porto D’Ave, com direção artística de Patrícia Pedrosa. Atentem para a trilha sonora sensacional da série, que lista talentos independentes brasileiros, como Vanguart (com o tema de abertura “Estive”), O Terno e Los Hermanos. Brilham com Tatá e Eduardo os atores Luis Lobianco, Clarice Falcão e Yara de Novaes, impagáveis. A fotografia de Dante Belluti, a produção de arte de Eugenia Maakaroun e os figurinos de Tatiana Rodrigues e Cao Albuquerque são caprichados. Há quem duvide que “deu match” entre “Shippados” e o público?

Assista ao trailer de “Shippados”:

Antonio Banderas protagoniza mais um filme com origens autobiográficas de Pedro Almodóvar/Foto: Divulgação

O último filme de Pedro Almodóvar, que levou os prêmios de Melhor Ator e Melhor Trilha Sonora no Festival de Cannes, não foge à regra de ser para os seus espectadores uma experiência sempre indescritível e renovada

Assistir a uma obra de Pedro Almodóvar sempre será uma experiência indescritível e renovada, no sentido de que somos revolvidos em sensações e emoções íntimas que só mesmo este grande cineasta e roteirista espanhol é capaz de fazê-lo. Este conjunto de percepções não poderia inexistir ao se ver o mais novo filme do autor de “A Lei do Desejo” e “Tudo Sobre Minha Mãe”, “Dor e Glória” (“Dolor y Gloria”, Espanha, 2019), vencedor dos Prêmios de Melhor Ator para Antonio Banderas e Trilha Sonora para Alberto Iglesias no Festival de Cannes.

Todos os elementos que são muito pessoais para o cineasta e roteirista já agraciado com o Oscar estão presentes em “Dor e Glória”, como a religiosidade na infância, sua forte ligação com a mãe e o despertar para a sua homossexualidade

Representando seu país na disputa por uma vaga no Oscar 2020, o já premiado com esta láurea Almodóvar escreveu e dirigiu um de seus longas mais pessoais e delicados, trazendo à tona a religiosidade presente em sua infância (não tão bem vista na figura dos padres), seu forte elo com a mãe (na ficção, temos a sempre bela e talentosa Penélope Cruz e a cativante Julieta Serrano) e o despertar da homossexualidade quando menino (o encantador Asier Flores). Sendo um filme musicado para realçar as emoções, finamente irônico, sem preterir algumas vezes das cores vibrantes que o identificam, Pedro narra a história de Salvador Mallo (Banderas, em estupenda contenção dramática), um cineasta afastado de seu ofício, deprimido e solitário, acompanhado somente de suas dores físicas, que necessita viajar ao passado para se entender melhor no angustiante tempo atual. Nesta jornada unilateral sofrida, alimentado por remédios e drogas, Salvador se depara com o ator de um de seus filmes, antigo desafeto, Alberto (o excelente Asier Etxeandia) e um amor do passado, Federico (o também ótimo Leonardo Sbaraglia). Lutando contra as doenças da alma e do corpo, o protagonista busca encontrar o sentido equilibrado de sua essência para poder apenas continuar. Um filme comovente com a chancela almodovariana.

Assista ao trailer do filme:

O ator galês Taron Egerton caracterizado como o cantor e compositor Elton John na cinebiografia musical dirigida por Dexter Fletcher/Foto: Divulgação

“Rocketman” se soma a muitas outras cinebiografias musicais que fizeram sucesso ao retratar os seus astros, sendo a mais recente delas “Bohemian Rhapsody”, sobre a banda também inglesa Queen

Muitas cinebiografias musicais já foram feitas em diferentes épocas e obtiveram boas acolhidas pelo público, como “A Fera do Rock” (1989; sobre Jerry Lee Lewis), “Tina” (1993; sobre Tina Turner) e “Ray” (2004; sobre Ray Charles). A mais recente delas foi o estrondoso sucesso “Bohemian Rhapsody” (2018), que mostrava a trajetória impressionante da banda inglesa Queen. Faltava contar a história de um popstar também inglês, Sir Elton John, e sua trajetória de altos e baixos.

Com escalações acertadíssimas, como Taron Egerton como Elton John, e Jamie Bell como o compositor Bernie Taupin, o filme de Dexter Fletcher se vale da busca de acontecimentos na vida do intérprete de inúmeros hits para justificar a sua personalidade autodestrutiva, regada a altas doses de álcool, drogas e barbitúricos

“Rocketman”, dirigido pelo ator e cineasta britânico Dexter Fletcher, foi lançado no Festival de Cannes do ano passado. Dexter, que se mostrou um virtuose neste tipo de filme, não poderia ter sido mais feliz na escalação do intérprete de Elton, o galês Taron Egerton, excepcional em sua composição, não deixando escapar nenhum dos maneirismos do cantor. Outra acertada escolha do diretor foi convidar o ótimo Jamie Bell (“Billy Elliot”), um deleite para os saudosistas, para viver o inseparável amigo compositor Bernie Taupin. O diretor, que lança mão de inúmeras licenças poéticas, foi buscar na difícil infância do astro, marcada pela severidade do pai (Steven Mackintosh) e leviandade da mãe, Bryce Dallas Howard, as possíveis causas para a sua autodestruição pessoal com álcool, drogas e barbitúricos, além da baixa autoestima e vício em sexo. Dexter se vale em muitos momentos de delírios/sonhos para simbolizar comportamentos de John, como a prática de orgias e a gênese de canções.

“Rocketman” agrada não só aos fãs de Elton John, mas a maioria de seus espectadores, devido à evidente empatia criada entre estes e o retratado, provando-nos o quão frágil pode ser a fronteira entre a glória e o abismo, tendo o talento extraordinário do cantor e compositor como entremeio

Para os fãs, a maioria de seus hits está presente, em contextos bem distintos. Tem desde a comovente “Your Song” à frenética “Crocodile Rock”. Com “Rocketman” é impossível não criar uma forte empatia com o retratado, com todos os seus dramas, excentricidades e genial talento. “Rocketman” é um filme feérico como Elton John, mas que não deixa de ser obscuro quando deve ser. A obra de Dexter Fletcher prova o quão frágil pode ser a fronteira entre a glória e o abismo, tendo o talento extraordinário em seu entremeio. Só mesmo um “rocketman” como Elton John para sair ileso disso tudo.

Assista ao trailer do filme:

O jornalista da “Folha de São Paulo” Ricardo Della Coletta fazendo a cobertura em Brasília no documentário “Cercados: A Imprensa Contra o Negacionismo na Pandemia”/Foto: Globoplay/Divulgação

No último dia 3 de dezembro, data em que o Brasil contabilizou mais de 175.000 mortes causadas pela pandemia de Covid-19, a plataforma de streaming Globoplay lança o impactante documentário “Cercados – A Imprensa Contra o Negacionismo na Pandemia”, dirigido pelo jornalista e documentarista Caio Cavechini, com roteiro do próprio Caio e da também jornalista Eliane Scardovelli, ambos do “Profissão: Repórter”, da Rede Globo. O título, muito apropriado, faz referência ao “cercadinho” no qual jornalistas profissionais ficavam na entrada do Palácio da Alvorada (residência oficial da Presidência da República), em Brasília, à espera da chegada do Presidente da República Jair Bolsonaro em busca de suas declarações, não raro polêmicas e furiosas, acerca da situação pandêmica no país. Constantemente agredidos por seus apoiadores exaltados, os veículos de imprensa, por razões de segurança, viram-se obrigados a se retirarem do local em definitivo. “Cercados…”, com gravações também em São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus e Fortaleza, traça um painel riquíssimo dos principais fatos, e não foram poucos, que desenharam o quadro trágico enfrentado pela sociedade face ao negacionismo declarado da principal autoridade executiva da nação. Fatos como o pedido de demissão do Ministro da Saúde Nelson Teich, que não se sustentou no meio do confronto “ciência x anti-ciência”, assim como o seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta. O doc nos traz momentos comoventes, como os dolorosos trabalhos dos fotógrafos Raphael Alves (Agência EFE) e Edmar Barros (Associated Press) em uma Manaus devastada pelo vírus. Da mesma forma nos toca a peregrinação incansável de uma esposa na porta de um hospital em São Paulo acompanhando o estado de saúde de seu marido por mais de 40 dias, tendo como testemunha a repórter Danielle Zampollo. O modo como o jornalismo foi arrebatado por uma torrente de informações e notícias relevantes a cada hora e o combate ferrenho às fake news são esmiuçados com precisão. O documentário mostra a tensão dos bastidores do “Jornal Nacional”, principal jornalístico da Rede Globo, e de outros órgãos de informação (como G1, O Estado de São Paulo, CNN Brasil etc), não se eximindo de revelar a exaustão de alguns de seus profissionais. Uma das cenas mais marcantes da produção exibe o momento em que o Presidente da República é interpelado pelo jornalista da “Folha de São Paulo” Ricardo Della Coletta acerca de sua suposta ingerência na Polícia Federal. Também foi vital ressaltar a união desses mesmos veículos de imprensa na divulgação do número de casos e óbitos causados pelo coronavírus, quando o Ministério da Saúde criou obstáculos em fazê-lo. Com montagem coerente e bem estruturada de Caio Cavechini, Eliane Scardovelli e João Rocha, e envolvente trilha original de Pedro Penna, “Cercados: A Imprensa Contra o Negacionismo na Pandemia” é um registro crucial e histórico que nos cerca das mais pungentes verdades.

Assista ao trailer do documentário:

Onze atores de um total de vinte e dois que participaram do especial da Rede Globo “Falas Negras”: no alto, da esquerda para a direita, Bárbara Reis, Babu Santana, Taís Araújo e Izak Dahora; no meio, Mariana Nunes, Guilherme Silva e Tatiana Tibúrcio; e abaixo, Bukassa Kabengele, Aline Deluna, Reinaldo Junior e Olívia Araújo/Fotos: Victor Pollak e João Cotta/Globo

O especial “Falas Negras”, um misto de linguagem cinematográfica documental com monólogos teatrais, coincide com o espancamento e morte brutais de um homem negro por agentes de segurança brancos de uma rede de supermercados em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, na noite anterior ao Dia Nacional da Consciência Negra

Quinta-feira passada, 19 de novembro de 2020. João Alberto Figueira Freitas, negro, 40 anos, é brutalmente espancado até a morte por dois agentes de segurança brancos de uma rede de supermercados em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Sexta-feira, 20 de novembro de 2020, Dia Nacional da Consciência Negra, a Rede Globo exibe o especial “Falas Negras”. Obra idealizada e escrita pela talentosa Manuela Dias (“Justiça” e “Amor de Mãe”), com o respaldo da ótima pesquisa de texto de Thaís Fragozo e a sublime direção artística de Lázaro Ramos, que explora com olhar sensível infinitas possibilidades, “Falas Negras”, um impactante misto de linguagem cinematográfica documental com os monólogos teatrais, presta-se oportunamente a dar voz, de 1600 aos dias atuais, a figuras históricas e pessoas comuns negras vitimadas pelo racismo institucionalizado universal e atemporal.

Valorizado por excelentes fotografia, figurinos, trilha sonora e cenário, “Falas Negras” reúne 22 depoimentos reais de grandes figuras históricas e pessoas comuns vítimas do racismo, como Martin Luther King, Nelson Mandela, Marielle Franco e Mirtes Souza, mãe do menino Miguel

Com fotografia deslumbrante de Pablo Baião, figurinos caprichados de Tereza Nabuco, trilha sonora instigante de Wilson Simoninha e lindo cenário (com destaque para o baobá) de Mauro Vicente, o especial enfileira em ordem cronológica 22 depoimentos reais emocionados, intensos e esclarecedores de símbolos negros representativos, como Martin Luther King, Luiz Gama, Malcolm X, Rosa Parks, Angela Davis, Muhammad Ali, Nelson Mandela, Marielle Franco, além de vítimas recentes como Neilton Matos Pinto (pai do adolescente João Pedro, assassinado em sua própria casa por forças policiais) e Mirtes Souza (empregada doméstica mãe de Miguel, menino morto ao cair do prédio após ações e omissões de sua patroa branca).

Com elenco irretocável composto por Taís Araújo, Babu Santana e Fabrício Boliveira, o especial da Rede Globo disponível no Globoplay ocupa legitimamente o seu lugar de fala, fazendo ecoar e incomodando com o seu grito de “Basta!”

O elenco é fabuloso, sendo que todos se esmeraram em suas composições (gestual, prosódia), elevando ao máximo sua carga emotiva. Abrilhantaram o especial Heloisa Jorge (Nzinga Mbandi, Rainha do Reino do Dongo e Matamba), Izak Dahora (Toussaint Louverture, líder da Revolução do Haiti), Olívia Araújo (Harriet Tubman, ex-escrava que se tornou cozinheira e enfermeira na Guerra Civil Americana a fim de obter informações secretas, ajudando na fuga de centenas de escravos do sul do país para o norte), Fabrício Boliveira (Olaudah Equiano, ex-escravo nigeriano que se tornou escritor), Reinaldo Junior (Mahommah G Baquaqua, escravo da África Ocidental que viveu no Brasil e nos Estados Unidos, onde publicou a sua biografia em que relata a terrível experiência brasileira), Aline Deluna (Virgínia Leone Bicudo, socióloga e primeira profissional brasileira não médica a se tornar psicanalista), Flávio Bauraqui (Luiz Gama, líder abolicionista, jornalista e poeta brasileiro), Bárbara Reis (Rosa Parks, ativista americana dos direitos civis), Bukassa Kabengele (Nelson Mandela, advogado, ex-presidente da África do Sul, líder do movimento contra o Apartheid, que segregava os negros no país), Angelo Flavio (James Baldwin, escritor, dramaturgo, poeta e crítico social americano), Samuel Melo (Malcolm X, ativista dos direitos civis americano), Aílton Graça (Milton Santos, geógrafo, jornalista, advogado e professor universitário brasileiro), Guilherme Silva (Martin Luther King, pastor batista e ativista dos direitos civis americano), Ivy Souza (Nina Simone, cantora, compositora e ativista dos direitos civis americana), Mariana Nunes (Lélia Gonzalez, historiadora, antropóloga e professora brasileira), Babu Santana (Muhammad Ali, maior pugilista de todos os tempos), Naruna Costa (Angela Davis, filósofa, ativista e professora americana), Valdinéia Soriano (Luiza Bairros, administradora e cientista social brasileira), Taís Araújo (Marielle Franco, vereadora, socióloga e ativista de direitos humanos brasileira), Tatiana Tibúrcio (Mirtes Souza, mãe do menino Miguel), Silvio Guindane (Neilton Matos Pinto, pai do adolescente João Pedro) e Tulanih Pereira (manifestante que representa os protestos raciais, como o caso de George Floyd nos Estados Unidos). O especial “Falas Negras” ocupa o seu lugar de fala, fazendo o grito “Basta!” ecoar e incomodar. As “Falas Negras” de Manuela e Lázaro importam, tanto quanto as vidas.

Assista à apresentação especial de “Falas Negras”: