Blog do Paulo Ruch

Cinema, Moda, Teatro, TV e… algo mais.

Isio Ghelman, Vannessa Gerbelli e Eriberto Leão são os protagonistas da peça “Fim de Caso”/Foto: Ale Catan

Clássico da literatura inglesa escrito por Graham Greene é levado aos palcos brasileiros após idealização de Thereza Falcão, Guilherme Piva e Felipe Lima, provando que o teatro brasileiro abraça com a mesma qualidade os mais diversos gêneros teatrais

O teatro brasileiro possui uma intrínseca vocação democrática para abraçar com a mesma qualidade os mais diversos gêneros narrativos, independente de seu tempo, origem ou tema. Há espaço para comédias românticas ou rasgadas, teatro político e grandes clássicos da literatura moderna, como “Fim de Caso”, incensado romance escrito pelo inglês Graham Greene em 1951, levado às telas com êxito em 1999, estrelado por Julianne Moore e Ralph Fiennes. Thereza Falcão, Guilherme Piva e Felipe Lima tiveram a feliz ideia de encenar este texto elegante, denso, complexo, pleno em nuances, que aborda com genuína inteligência e notável sensibilidade a extensa lista de variações que permeiam as relações norteadas pelo amor.

Tendo como pano de fundo os horrores da Segunda Guerra Mundial, “Fim de Caso” se debruça num turbulento triângulo amoroso, com suas idas e vindas temporais, sem que sejam preteridos temas como fé, descrença, ciúme e promessas

Adaptada admiravelmente por Thereza Falcão, “Fim de Caso” se concentra em um peculiar triângulo amoroso envolvendo um acomodado casal, o funcionário público Henry, Isio Ghelman, e sua ambígua esposa Sarah, Vannessa Gerbelli, e o amante desta, o atormentado escritor Brendix, Eriberto Leão, tendo como pano de fundo o ódio imperioso da Segunda Guerra Mundial. Entre idas e vindas temporais, passeando por elementos caros como religiosidade, fé, descrença, ciúme, promessas, a peça, dirigida com apuro visual e olhar preciso por Guilherme Piva, entrega ao público um painel infinitamente bem desenhado da rica paleta emocional de seus personagens.

Cercados por uma equipe técnica respeitável, Eriberto Leão, Vannessa Gerbelli e Isio Ghelman acertam precisamente o tom de seus personagens nesta montagem que nos oferta a chance de decodificarmos as vias de expressão do amor sem o cajado do julgamento moral

A montagem vangloria-se de ter em sua construção nomes de realce como André Cortez (cenário), Maneco Quinderé (luz), Fabio Namatame (figurinos), Marcia Rubin (movimento), Rico e Renato Vilarouca (projeções), e Maison Wilkins (trilha original). Eriberto Leão mira e acerta com altivez cênica no alvo das obsessões e aflições de Brendix. Vannessa Gerbelli, linda como uma “pin-up” de seu tempo, esmiúça com perspicácia as frequências múltiplas do comportamento de Sarah. E Isio Ghelman enquadra com racionalidade o seu Henry na correta moldura da resignação e autoestima frágil. “Fim de Caso” nos oferta a chance de decodificarmos com mais propriedade as labirínticas vias de expressão do amor, sem o cajado do julgamento moral. Nossa história com esta peça não tem fim ou começo. Só temos que escolher o momento certo para vivê-la.

Obs: Crítica escrita em novembro de 2019.

Marco Nanini é o protagonista de “Greta”, filme no qual defende um dos personagens mais desafiadores de sua carreira/Foto: Divulgação

O público admirador de Marco Nanini acostumado com alguns personagens bonachões de sua carreira irá se surpreender com a performance do ator no primeiro e premiado filme de Armando Praça

Para aqueles que estão familiarizados com o bonachão Eusébio da novela “A Dona do Pedaço”, escrita por Walcyr Carrasco e exibida em 2019 na Rede Globo em seu horário nobre, ou têm em mente a figura popular do patriarca de classe média Lineu de “A Grande Família”, seriado da mesma emissora que ficou no ar durante 13 anos, devem obrigatoriamente conferir a atuação, sem quaisquer dúvidas, mais visceral de toda a espetacular carreira de Marco Nanini. O ator é o protagonista do primeiro filme do cearense Armando Praça, “Greta” (Brasil, 2019), vencedor dos prêmios de Melhor Filme, Direção e Ator no Cine Ceará 2019, e Melhor Filme no Festival de Cinema Lésbico e Gay de Milão 2019.

No longa inspirado na famosa peça teatral de Fernando Melo “Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá” já se falava a respeito de um problema gravíssimo que assola atualmente o sistema público de saúde do país, a falta de leitos hospitalares

Inspirado livremente na famosa peça de Fernando Melo “Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá”, o filme roteirizado por Armando é centrado no solitário enfermeiro de um hospital público de Fortaleza, Pedro, Marco Nanini, que em meio ao seu caos estrutural, decide, por falta de leitos, levar para a sua casa Jean, Démick Lopes, acusado de homicídio, objetivando que sua melhor amiga, a transexual Daniela, Denise Weinberg, pudesse ser tratada por uma equipe médica de sua grave doença. Desejoso de saciar suas carências afetivas e sexuais, Pedro, cujo ídolo é a atriz sueca Greta Garbo, inicia uma complexa e imprevisível relação com o homem delinquente que hospedou.

A produção conta com uma direção delicadíssima de Armando Praça, distante do gênero melodramático, e um elenco que oferta aos espectadores atuações memoráveis, representado por Démick Lopes e Denise Weinberg, além do próprio Nanini

A delicadíssima direção de Armando Praça optou por uma narrativa desprovida de trilha sonora, afastando qualquer aproximação com o gênero melodramático, destacando a aridez das situações com o seu drama fluindo naturalmente. Com enfoque nos intérpretes, sua câmera se sai eficiente e legítima na abordagem da nudez e do sexo. Marco Nanini, com angústia intrínseca permanente e gestual estudado com precisão matemática, está implacável cenicamente. Démick Lopes, um excelente artista nascido no Ceará em franca ascensão, trava um duelo memorável com Nanini. E Denise Weinberg, num tocante desempenho, confere à transexual defrontada com a morte próxima uma gigantesca altivez. “Greta” é uma bela obra de Armando Praça, que trata com rara sensibilidade sobre os medos do indivíduo, o medo da solidão, da finitude, e da entrega ao amor, seja ele qual for. Ao contrário de Greta Garbo, nenhum de nós, nem Pedro, nem Jean tampouco Daniela deseja ficar só. 

Assista ao trailer do filme:

Giovanna Antonelli, Renata Sorrah e Vanessa Giácomo interpretam respectivamente Lívia, Stella e Cléo na nova série original do Globoplay “Filhas de Eva”/Estevam Avellar/Globo

Na série escrita por Adriana Falcão, Jô Abdu, Martha Mendonça e Nelito Fernandes, Stella, vivida por Renata Sorrah, uma das protagonistas, noticia, em plena festa pelos seus 50 anos de casamento, a sua decisão de se divorciar

No Dia Internacional da Mulher o Globoplay nos apresentou em sua nova série original, “Filhas de Eva”, três mulheres com vivências diferenciadas que possuem em comum o desejo de fazer as suas próprias escolhas em busca da liberdade pessoal. A bem alinhavada obra, cujos escopos são os dramas natos às relações humanas/afetivas sem se afastar das pinceladas de um leve humor, foi criada e escrita por Adriana Falcão, Jô Abdu, Martha Mendonça e Nelito Fernandes, com redação final de Martha Mendonça, tendo o seu prólogo na luxuosa festa de bodas de ouro de Stella (Renata Sorrah, majestosa) com o influente advogado Ademar (Cacau Amaral). Após assistir aos vídeos que traçam um painel de sua vida, Stella surpreende a todos com um pedido público de divórcio. No mesmo evento, encontra-se sua filha Lívia (Giovanna Antonelli, vigorosa), uma badalada e metódica psicóloga casada com o também psicólogo Kleber (Dan Stulbach, certeiro no tom), um homem ressentido com o sucesso da esposa. Eles têm uma filha, a questionadora Dora (Debora Ozório, talentosa revelação). Em outra ponta da história nos deparamos com Cléo (Vanessa Giácomo, lindamente à vontade), uma moça despachada envolta com as agruras do desemprego, filha de Zezé, Analu Prestes (uma atriz bem-vinda). No primeiro episódio, as circunstâncias a levam a entrar no universo conflituoso de Lívia. Fecha-se assim o conjunto onde as trajetórias dessas três mulheres, fortes à sua maneira, entrelaçam-se.

Com direção elegante de Leonardo Nogueira, Felipe Louzada e Nathalia Ribas, “Filhas de Eva” contribui para a dramaturgia no sentido de reafirmar as lutas legítimas de mulheres de gerações distintas

Na trama, que já em seu introito ostentou traições e chantagem, as elegantes direção artística de Leonardo Nogueira e direção de Felipe Louzada e Nathalia Ribas apostaram em takes em que espelhos se tornam “personagens” e posicionamentos de câmera incomuns, com a captura das cenas através de frestas. Sobressaíram-se a fotografia de André Horta, que explorou bastante as luzes naturais, as estudadas direção de arte de Daniel Flaksman, cenografia de Keller Veiga e produção de arte de Carolina Pierazzo, os figurinos sofisticados de Marília Carneiro, e a bela produção musical de Nani Palmeira e Rafael Langoni, com regravações de “You Are My Sunshine” e “Can’t Help Falling in Love”, além de “Fever”. Na nostálgica e lírica abertura, que reproduz vários momentos do casal Stella e Ademar em filmagens e fotos, estão os atores Marcella Rica e Yuri Ribeiro, que defendem os personagens mais jovens. “Filhas de Eva” colabora com a dramaturgia no sentido de colocar em posições destacadas as lutas legítimas de mulheres de gerações distintas que visam a mudar suas vidas, independente das consequências, estimuladas pelo valor da liberdade. Afinal, são todas filhas de Eva.

Assista ao trailer de “Filhas de Eva”:

O ator Christian Malheiros é o protagonista do filme “Sócrates”/Foto: Divulgação

Premiadíssimo em importantes festivais, como o Independent Spirit Awards e o Festival do Rio, “Sócrates”, que teve o aval do celebrado diretor e produtor Fernando Meirelles, narra de forma contundente a história de um jovem negro homossexual que só deseja obter as cinzas de sua mãe falecida, enfrentando durante este périplo todos os tipos de preconceito

Há filmes ditos independentes que não podem passar despercebidos aos olhos do público no circuito cinematográfico. Um exemplo é o premiadíssimo longa de estreia de Alexandre Moratto, com a chancela valorosa de Fernando Meirelles como produtor executivo (O2 Play), “Sócrates” (Brasil, 2018). Vitorioso no Independent Spirit Awards 2019 com o prêmio Someone to Watch, no Festival do Rio 2018 com o Prêmio Félix de Melhor Filme de Ficção, no Festival Mix Brasil com as láureas de Melhor Filme, Diretor e Ator (Christian Malheiros, também indicado ao Independent Spirit Awards), além de outros prêmios internacionais e Menção Honrosa na Mostra Internacional de São Paulo,
a obra, uma produção do Instituto Querô e Querô Filmes, montada e corroteirizada por Alexandre e Thainá Mantesso, narra a pungente e dolorida trajetória do jovem Sócrates (Christian Malheiros, excepcional, um ator que se expressa com potência máxima em seu triste olhar), de 15 anos, que após perder a sua mãe, vê-se sozinho numa Baixada Santista periférica com miséria dominante, retrato do Brasil real, em busca inglória por um emprego qualquer para sobreviver. Fugindo do pai opressor e da prostituição e tendo que lidar com a sua homossexualidade (consumada com Maicon, o brutalmente ótimo Tales Ordakji), Sócrates, que deseja lançar as cinzas maternas em um lugar digno, é a prova viva do abismo social brasileiro, onde milhões de jovens foram usurpados de seu futuro.

O filme, que revela as promessas Alexandre Moratto, diretor, e Christian Malheiros, ator, descende das linguagens cinematográficas do Cinema Novo, vistas em filmes dos expoentes Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos

Com pegada de câmera glauberiana, esta peça fílmica neorrealista contemporânea, que se conecta com a linguagem crua cinemanovista de Nelson Pereira dos Santos, além de lançar as promessas Alexandre Moratto e Christian Malheiros, serve como sinal de alerta urgente para o establishment desigual e injusto vigente na nação da “ordem”, do “progresso” e das castas cada vez mais privilegiadas.

Assista ao trailer do filme:

Karine Teles como Gilda, na série selecionada para o Festival de Berlim, na Mostra Berlinale Series, “Os Últimos Dias de Gilda”/Foto: Divulgação

Dando continuidade a uma bem-sucedida parceria entre a atriz e roteirista Karine Teles e o diretor, produtor e também roteirista Gustavo Pizzi, a série colocou o país pela primeira vez na disputa desta categoria no Berlinale Series deste ano

Karine Teles despertou a atenção do público cinematográfico em “Que Horas Ela Volta?” (2015), de Anna Muylaert, representando a ponta privilegiada da distensão social entre patrões e empregados. Já em “Benzinho” (2018), juntou-se ao diretor e roteirista Gustavo Pizzi, coescrevendo e protagonizando a história de uma divertida família de classe média que sofre com a iminência de um de seus filhos ir para o exterior (ambos haviam trabalhado antes no longa “Riscado”, de 2010). Essa bem-sucedida parceria rendeu o tenso “Os Últimos Dias de Gilda”, com direção e produção de Gustavo, baseado na peça homônima de Rodrigo de Roure, encenada por Karine em 2004. A ótima série, roteirizada pela dupla, logrou um feito inédito, ser a primeira produção brasileira do gênero selecionada para o Festival de Berlim deste ano, na Mostra Berlinale Series.

Lançada no Canal Brasil, “Os Últimos Dias de Gilda” envolve o público num clima de crescente tensão ao abordar a convivência de Gilda, uma mulher liberal e independente, com os moradores conservadores de sua rua, na qual se imiscuem intolerância religiosa, associação entre política e religião, violência policial/miliciana e preconceito comportamental

A trama original do Canal Brasil, com fotografia naturalista de Pedro Faerstein (onde há também momentos iluminados pictoricamente com resultados elegantes), aborda com propriedade questões relacionadas à intolerância religiosa, associação entre religião e política, violência policial/miliciana e liberdade sexual feminina. Gilda é uma criadora de porcos e galinhas, cozinheira, que vive entre seu trabalho, papos com a amiga Jandira (Ana Carbatti) e os muitos envolvimentos amorosos. No entanto, ela mora numa rua dominada por evangélicos, empenhados na eleição do pastor Ismael (Higor Campagnaro), casado com a preconceituosa e amarga Cacilda (Julia Stockler), que a persegue impiedosamente. Adepta de religião de matriz africana, Gilda é cada vez mais ameaçada. Dividida em quatro episódios, marcados pela direção precisa e sensível de Gustavo, a história prende o espectador pela sua crescente tensão com consequências imprevisíveis.

Uma obra que exalta a liberdade e o querer das mulheres, provando o tamanho da potência quando se unem contra toda e qualquer opressão

O elenco é impecável, começando por mais uma soberba atuação de Karine, desde já uma das estrelas do cinema contemporâneo. Acompanham-na com irretocáveis composições de seus personagens os citados Ana Carbatti, Higor Campagnaro e Julia Stockler, Antonio Saboia (Wallace, policial que vigia a rua), Inez Viana (Celina, mãe de Gilda), Dida Camero (Teresa, mãe de santo), João Vitor Silva (Alvinho, jovem amante de Gilda) e Erom Cordeiro (Sargento Jordão). Tecnicamente, além da fotografia, a direção de arte detalhada de Dina Salem Levy, os figurinos bastante coerentes de Diana Leste e a bem conduzida trilha sonora original de Pedro Sodré e Rudah foram inegavelmente entregues em boas mãos. “Os Últimos Dias de Gilda”, uma produção da Baleia Filmes, é em sua essência uma obra que realça o poder feminino contra toda e qualquer opressão. Um filme que exalta a liberdade e o querer das mulheres, provando o tamanho da potência quando se unem. Na verdade, são os primeiros dias de Gilda em uma longa batalha ainda a ser vencida.

Maria Bethânia foi a grande estrela do sábado de Carnaval deste ano com a sua primeira live/Foto: Globoplay/Reprodução

13 de fevereiro, uma data que deve ser comemorada por Maria Bethânia, como todas as datas importantes, segundo sua mãe, Dona Canô

Num 13 de fevereiro de 1965 Maria Bethânia se apresentava no emblemático show “Opinião”. Em 13 de fevereiro de 2016 uma de nossas mais grandiosas cantoras desfilava pela Mangueira campeã que a homenageava. Sábado de Carnaval, 13 de fevereiro de 2021, Maria protagoniza a sua primeira live, com exibição aberta no Globoplay. Segundo a intérprete, sua mãe lhe aconselhou que datas importantes devem ser celebradas. A filha de Dona Canô abre o show cantando lindamente à capela a romântica “Explode Coração”, de Gonzaguinha.

A cantora, completando 56 anos de carreira, com a sua voz única e brilhante, presenteou o público com clássicos como “Cálice” e “O Que É, O Que É?, além de inéditas de seu novo álbum “Noturno”, pedindo, no início de seu show, “Vacina, Respeito, Verdade e Misericórdia

Acompanhada de músicos extraordinários (Paulo Dafilin, violão; João Camarero, violão; Jorge Helder, baixo; e Marcelo Costa, percussão), a ilustre artista de Santo Amaro da Purificação, Bahia, com 56 anos de carreira, fez um show arrebatador, forte, emocionante e necessário neste momento em que precisamos tanto de algo que nos acarinhe, como a grande arte de Bethânia. Com roteiro da própria, houve citações literárias de insignes escritores, como Fernando Pessoa e Clarice Lispector, que antecederam as canções, elemento que passou a incorporar em suas apresentações desde o show “Rosa dos Ventos”, em 1971. No setlist estiveram músicas inéditas de seu novo disco “Noturno”, como “Lapa Santa” e “De Onde Eu Vim”. Os clássicos, na voz única e brilhante da irmã de Caetano Veloso, tornam-se mais clássicos, como “Onde Estará o Meu Amor?”, “Reconvexo”, “Olhos nos Olhos”, “Cálice”, “Volta por Cima”, “O Que É, O Que É? e “Evidências”. No palco da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, com cenografia minimalista de Fernando Schmidt (havia uma original cadeira estilizada que remetia a um tronco de árvore usada pela cantora), fotografia admirável de Césio Lima e Willian Andrade e design de luz deslumbrante de Ana Luzia de Simone (a designer se utilizou de vasta e encantadora paleta), a Maria descalça e de branco nos comoveu com sua bela versão da dilacerante “2 de Junho”, de Adriana Calcanhotto, sobre a trágica morte do menino Miguel, em 2020. Com direção artística do tarimbado LP Simonetti, produção de Juliana Silleman e Valéria Amaral (uma produção Quitanda Produções) e coprodução de Márcio Debellian (diretor do ótimo documentário “Fevereiros”, 2017), Maria Bethânia nos ofertou um Carnaval diferente, sem os desfiles das escolas de samba e os blocos de rua, no entanto mais bonito e catártico, dando-nos a certeza de que temos uma das maiores artistas da música mundial, que lá no início de seu show disse com voz firme o que mais desejava: “Vacina, Respeito, Verdade e Misericórdia”. Essa é a nossa “Menina dos Olhos de Oyá”.

Marcello Melo Jr. interpreta o primeiro-sargento do BOPE Mikhael na série original do Globoplay exibida atualmente pela Rede Globo/Foto: Carlos Fofinho/Divulgação

A figura anti-heroica de oficial do BOPE é retomada na série original do Globoplay, em exibição na Rede Globo, “Arcanjo Renegado”, uma criação de José Junior, do Grupo Afroreggae

Desde o sucesso do filme “Tropa de Elite” (2007), de José Padilha, a figura anti-heroica de oficial do BOPE (Batalhão de Operações Especiais), segmento da Polícia Militar do Rio de Janeiro, tornou-se atraente para o desenvolvimento de narrativas audiovisuais, como é o caso da série original do Globoplay “Arcanjo Renegado”, de José Junior, do Grupo AfroReggae, estreia do último dia 4 na Rede Globo. O eletrizante thriller policial produzido pelo AfroReggae Audiovisual, com coprodução da Hungry Man, conta com as impecáveis direções de Heitor Dhalia (“O Cheiro do Ralo” e “À Deriva”), direção geral, e André Godói, direção (junto com Heitor).

A eletrizante história dirigida por Heitor Dhalia e André Godói centra-se na trajetória de Mikhael, Marcello Melo Jr., que, quando criança, vê o seu pai policial morto por criminosos, e já adulto, como primeiro-sargento do BOPE, revela-se um oficial implacável com o banditismo

A envolvente trama de Rafael Spínola (roteirista-chefe), Débora Guimarães, Gabriel Maria (texto final), José Junior (texto final) e José Luiz Magalhães aborda a trajetória do primeiro-sargento do BOPE Mickael (Marcello Melo Jr.), do prestigiado grupo Arcanjo, um rapaz que desde a infância convive com a violência das comunidades. Mikhael, criança, cujo sonho é ser policial como o pai, acaba vendo a sua referência ser morta por bandidos. Já como primeiro-sargento, tendo como principal parceiro o sargento Rafael (Alex Nader), é duro e implacável com o crime, como se quisesse honrar a memória do pai. Com sequências de se tirar o fôlego da guerra de facções com a intervenção do BOPE, além do resgate do filho da deputada estadual presidente da Alerj, Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Manuela Berenguer (Rita Guedes), que mantém um segredo com Gabriel, o coronel da corporação, (Leonardo Brício), a série busca também humanizar o tipo policial, revelando o drama de Rafael com sua esposa Sarah, (Erika Januza), e seu filho doente. No rastro das operações truculentas do BOPE está o destemido jornalista Ronaldo Leitão, (Álamo Facó), dedicado a denunciar abusos contra os direitos humanos em tempo real. Ronaldo se relaciona com Barata, (Flávio Bauraqui), chefe de gabinete do corrupto Governador Custódio Marques (Bruno Padilha), que visa à reeleição.

“Arcanjo Renegado” é uma série pulsante cujo um de seus maiores méritos é ter adotado um viés extremamente realista, mostrando tanto o abismo social que leva ao crime quanto a equivocada política de enfrentamento do crime por parte de forças de segurança do Estado

Um dos muitos méritos da obra é assumir um viés extremamente realista. Nada do que vemos nos soa estranho, o que lhe confere enorme credibilidade (a corrupção sistêmica das instituições, a política combativa ao crime fundada na violência ostensiva etc). Valorizada pelo bom elenco (que contou ainda com Guti Fraga – Vice-Governador Luís Eustáquio, Ademir Emboava – financiador da campanha do Governador e intermediador das propinas, e Renata Tavares – mãe de um rapaz supostamente assassinado pelo BOPE) e acertada fotografia crua de Pepe Mandes, “Arcanjo Renegado” é uma série pulsante que desvela as feridas abertas do abismo social que leva ao crime e a contínua ineficiência do Estado no seu enfrentamento, agravada pela corrupção. Uma verdade nada angelical que jamais pode ser renegada.

Assistam ao trailer da série:

O arquiteto Paulo (Emilio Dantas) e a bailarina Maria Alice (Sophie Charlotte) vivem uma relação com reviravoltas no primeiro episódio de “Todas As Mulheres do Mundo”/Foto: Victor Pollack/Globo

Escrita por Jorge Furtado e Janaína Fischer, com ideia original de Domingos Oliveira e Maria Ribeiro, a série da Rede Globo “Todas As Mulheres do Mundo” fala essencialmente sobre o amor, suas relações e desfechos, tendo como fonte inspiradora vários textos do dramaturgo e roteirista, como o filme homônimo de 1966

Se os apreciadores do tema “amor” quiserem se aprofundar sobre este sentimento que move o mundo não irão se desapontar se forem buscar suas causas e efeitos na insuspeita fonte contida na rica obra de Domingos Oliveira, ator, dramaturgo, roteirista e diretor. E é a partir desta fonte, incluindo o filme homônimo de 1966, estrelado por Paulo José e Leila Diniz, que Jorge Furtado e Janaína Fischer escreveram a bela série da Rede Globo (também disponível no Globoplay) que estreou na última terça, “Todas As Mulheres do Mundo”, uma ideia original do próprio Domingos e de Maria Ribeiro. As outras obras que serviram de referência aos autores foram os textos de “Edu, Coração de Ouro”, “Amores”, “Separações”, “Os Inseparáveis”, “A Primeira Valsa”, “BR 716” e “Largando o Escritório”.

A mesma trinca bem-sucedida de diretores da série “Shippados”, Patrícia Pedrosa (direção artística), Ricardo Spencer e Renata Porto D’Ave (diretores) são responsáveis pela condução da história de Paulo, um sedutor arquiteto que se encanta pela beleza da bailarina Maria Alice em uma noite de Natal, representados respectivamente por Emilio Dantas e Sophie Charlotte

Com as primorosas direção artística de Patrícia Pedrosa e direção de Ricardo Spencer e Renata Porto D’Ave (trinca bem-sucedida de “Shippados”), o primeiro episódio, “Maria Alice”, apresenta-nos o protagonista Paulo, Emilio Dantas (ator que reafirma o seu grande talento a cada trabalho), um arquiteto/artista/poeta sedutor incorrigível que, numa alegre noite de Natal em sua casa, onde festeja sua animada amiga Laura (a ótima Martha Nowill), uma divertida mulher que deseja engravidar antes dos 40, conhece “o grande amor da sua vida”, a linda bailarina Maria Alice (Sophie Charlotte, iluminada). Nesta mesma noite natalina, Paulo recebe de seu amigo, o desiludido Cabral (Matheus Nachtergaele, sempre bom), a missão de cuidar temporariamente de seu adorável cão Oliveira. Maria Alice decide acabar com o seu noivado e mergulhar de cabeça nessa aventura poético/romântica com Paulo, com direito a idas à praia, passeios noturnos cariocas e horas intensas de amor.

Um dos maiores atrativos da série é a luxuosa produção musical de Rafael Langoni Smith e Iuri Cunha, que traz na abertura de cada episódio uma celebrada cantora, como Marisa Monte no primeiro, dando a sua versão para o clássico romântico de Pixinguinha “Carinhoso”

Os diretores imprimem fluidez e dinamismo às cenas, sem perder o lirismo. Dante Belluti, diretor de fotografia (também de “Shippados”), usa matizes solares e se esmera nas externas noturnas. A edição final de Cris Carneiro nos leva para uma montanha-russa de emoções. A produção musical maravilhosa de Rafael Langoni Smith e Iuri Cunha com clássicos na voz de Marisa Monte, como o tema de abertura “Carinhoso”, de Pixinguinha (haverá outras cantoras o interpretando a cada episódio, ao todo são 12, como Rita Lee, Maria Bethânia e Céu), enlaça qualquer espectador. Além da abertura, Marisa nos enterneceu com alguns de seus sucessos, como “Depois” e “O Que Se Quer”. Completam o inspirado elenco deste capítulo Ricardo Gelli (Leopoldo, o noivo de Maria Alice), Paula Possani (a veterinária Dra. Tânia) e Pedro Henrique Cassiano (Vitor, bailarino amigo de Maria Alice). “Todas As Mulheres do Mundo” traz ao público no momento certo a glorificação do amor, tão defendida por Domingos Oliveira. Todos os amores de Domingos, inclusive à vida, estão nesta apaixonante série.

Assistam ao trailer da série:

Eduardo Sterblitch e Tatá Werneck formam um divertido e singular casal em “Shippados”/Foto: Divulgação/Globoplay

“Shippados”, série da Rede Globo, também disponível no Globoplay, prova com inteligência que a comédia romântica é um gênero que pode atingir todos os nichos de público

As comédias românticas, segundo alguns, agradam unicamente ao público feminino. De acordo com outros, trata-se de entretenimento meramente escapista. Na verdade, ambas as óticas são reducionistas e preconceituosas. Se o produto audiovisual (TV, streaming, cinema) se fundamentar em uma estrutura narrativa inteligente, sem abdicar de seus elementos cômicos e românticos característicos, o assunto se encerra, pois se tem uma obra universal disponível a todos os espectadores. É o caso da deliciosa série “Shippados” (2019), estreia da Rede Globo no último dia 12, com a assinatura de Alexandre Machado e Fernanda Young (último trabalho da autora).

A divertida história de Alexandre Machado e Fernanda Young é centralizada em dois jovens “diferentões”, Enzo e Rita, que procuram a sua “cara metade” em aplicativos de encontro, sendo invariavelmente malsucedidos. Tudo muda quando esse casal tão fora dos padrões se esbarra

Nos primeiros episódios conhecemos os jovens “diferentões” Enzo (Eduardo Sterblitch) e Rita (Tatá Werneck), ambos carentes, sem uma base familiar sólida e uma profissão estabelecida. Adeptos dos aplicativos de encontros, eles são vítimas do estranhamento de seus possíveis pares às suas personalidades não convencionais e arrebatadoramente francas. Na volta de um desses “matches” malsucedidos, a vlogger Rita e Enzo, que divide o apartamento com um casal nudista tresloucado (Luis Lobianco e Clarice Falcão), aproximam-se. Em cenários urbanos, como o interior dos metrôs, esses jovens irresistíveis travam diálogos divertidos e inspirados sobre a vida, comportamentos, esquisitices, relações, passado e família, sempre num tom puro e espontâneo. Conforme a história se desenrola, ficamos cada vez mais fascinados por esses dois tipos tão fora dos padrões. Mérito não só do ótimo texto, mas dos protagonistas, dois dos maiores nomes da nova geração do humor. Mérito também da esperta e elegante direção de Ricardo Spencer e Renata Porto D’Ave, com direção artística de Patrícia Pedrosa. Atentem para a trilha sonora sensacional da série, que lista talentos independentes brasileiros, como Vanguart (com o tema de abertura “Estive”), O Terno e Los Hermanos. Brilham com Tatá e Eduardo os atores Luis Lobianco, Clarice Falcão e Yara de Novaes, impagáveis. A fotografia de Dante Belluti, a produção de arte de Eugenia Maakaroun e os figurinos de Tatiana Rodrigues e Cao Albuquerque são caprichados. Há quem duvide que “deu match” entre “Shippados” e o público?

Assista ao trailer de “Shippados”:

Antonio Banderas protagoniza mais um filme com origens autobiográficas de Pedro Almodóvar/Foto: Divulgação

O último filme de Pedro Almodóvar, que levou os prêmios de Melhor Ator e Melhor Trilha Sonora no Festival de Cannes, não foge à regra de ser para os seus espectadores uma experiência sempre indescritível e renovada

Assistir a uma obra de Pedro Almodóvar sempre será uma experiência indescritível e renovada, no sentido de que somos revolvidos em sensações e emoções íntimas que só mesmo este grande cineasta e roteirista espanhol é capaz de fazê-lo. Este conjunto de percepções não poderia inexistir ao se ver o mais novo filme do autor de “A Lei do Desejo” e “Tudo Sobre Minha Mãe”, “Dor e Glória” (“Dolor y Gloria”, Espanha, 2019), vencedor dos Prêmios de Melhor Ator para Antonio Banderas e Trilha Sonora para Alberto Iglesias no Festival de Cannes.

Todos os elementos que são muito pessoais para o cineasta e roteirista já agraciado com o Oscar estão presentes em “Dor e Glória”, como a religiosidade na infância, sua forte ligação com a mãe e o despertar para a sua homossexualidade

Representando seu país na disputa por uma vaga no Oscar 2020, o já premiado com esta láurea Almodóvar escreveu e dirigiu um de seus longas mais pessoais e delicados, trazendo à tona a religiosidade presente em sua infância (não tão bem vista na figura dos padres), seu forte elo com a mãe (na ficção, temos a sempre bela e talentosa Penélope Cruz e a cativante Julieta Serrano) e o despertar da homossexualidade quando menino (o encantador Asier Flores). Sendo um filme musicado para realçar as emoções, finamente irônico, sem preterir algumas vezes das cores vibrantes que o identificam, Pedro narra a história de Salvador Mallo (Banderas, em estupenda contenção dramática), um cineasta afastado de seu ofício, deprimido e solitário, acompanhado somente de suas dores físicas, que necessita viajar ao passado para se entender melhor no angustiante tempo atual. Nesta jornada unilateral sofrida, alimentado por remédios e drogas, Salvador se depara com o ator de um de seus filmes, antigo desafeto, Alberto (o excelente Asier Etxeandia) e um amor do passado, Federico (o também ótimo Leonardo Sbaraglia). Lutando contra as doenças da alma e do corpo, o protagonista busca encontrar o sentido equilibrado de sua essência para poder apenas continuar. Um filme comovente com a chancela almodovariana.

Assista ao trailer do filme: