Blog do Paulo Ruch

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A atriz Lupita Nyong’o em cena do filme “Nós”/Foto: Divulgação

Jordan Peele, cineasta que conquistou o público e a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas com o cult de terror “Corra!”, aposta neste mesmo filão em “Nós”, trazendo em sua trama uma família de classe média americana aterrorizada ao se deparar em uma viagem de férias com o seu “duplo”

Em 2018, o mundo do cinema descobriu o talento criativo do diretor e roteirista americano Jordan Peele, que foi agraciado com o Oscar de Melhor Roteiro Original por “Corra!” (“Get Out”, 2017). O também ator Jordan surpreende o público mais uma vez ao lançar em março do ano seguinte o assustador e inventivo “Nós” (“Us”, EUA), obedecendo à mesma linha de terror cult que o consagrou com o longa anterior. Agora, Peele se concentra em uma típica família classe média estadunidense que decide passar as suas férias em uma praia turística chamada Santa Cruz. A esposa Adelaide (a oscarizada atriz queniano-mexicana Lupita Nyong’o) possui lembranças nada agradáveis desta mesma região praiana no longínquo 1986, em um brinquedo de parque de diversões com espelhos, no qual se deparou em um deles não com o seu reflexo, mas com o seu duplo com vida própria. Casada com Gabe (Winston Duke), e mãe do casal de adolescentes Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex), Addy/Adelaide vê tudo se transformar, com consequências aterrorizantes, a partir da aparição no jardim da casa de veraneio de uma misteriosa família.

Quem for assistir a “Nós” se fartará com boas doses de sustos e cenas carregadas de violência num cenário que reporta em certas ocasiões aos filmes de terror B com ingredientes apocalípticos de sci-fi

A direção de Jordan Peele faz o espectador perder o seu fôlego, com os sustos de praxe, a hiperviolência e as viradas surpreendentes.
Seu roteiro é uma recriação engenhosa e sofisticada com toques apocalípticos de sci-fi dos filmes de terror B. E não há demérito nisso.
A bonita Lupita Nyong’o é uma intérprete visivelmente madura, sabendo com mestria ofertar a ambiguidade de suas personagens, com expressões de medo e pavor e fúria animalesca. Por sinal, todo o elenco tem o seu valor, juntando-se a ele o casal Elisabeth Moss (Kitty) e Tim Heidecker (Josh).

Além de contribuir com a sua criatividade, “Nós” assume um papel ainda mais importante na indústria do cinema dos Estados Unidos ao colocar como protagonista uma família afrodescendente liderada pela estrela Lupita Nyong’o

“Nós” é mais uma obra de Jordan Peele que serve para dar uma lufada de criatividade à cinematografia dos Estados Unidos por vezes repetitiva e voltada para as bilheterias fáceis dos blockbusters.
Além disso, ao ceder o protagonismo a uma família negra como símbolo legítimo da classe média americana cumpre o papel primordial de contribuir para a diversidade e representatividade cinematográficas. 

Assista ao trailer do filme:

O diretor Caco Ciocler, que aparece em algumas cenas de seu filme, dentro do ônibus que é usado para a viagem ao Uruguai

Em comemoração aos 52 anos do Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, que são completados hoje, houve na última quinta-feira a exibição on-line do filme dirigido por Caco Ciocler, “Partida”, seguida de debate com a sua presença. A seguir, a crítica:

O diretor Caco Ciocler aproveita um acontecimento da História recente do Brasil, a ascensão da extrema-direita ao poder em outubro de 2018, para realizar um road movie documental que se sustenta nas aspirações político/sociais frustradas de um grupo diverso de pessoas

Dentre os inúmeros gêneros existentes no universo cinematográfico o “road movie” é um dos mais estimados. Qualquer cinéfilo que se preze cita um exemplar de sua preferência à primeira inquirição. O “road movie” documental, a despeito de sua menor frequência nas telas, possui inegável valor. Apostando nesta premissa, o diretor Caco Ciocler realiza uma joia recente do cinema brasileiro com o premiado doc “Partida” (2019), um recorte tocante das aspirações político/sociais frustradas de um grupo de pessoas após a temerária ascensão da extrema-direita ao poder no país no cerrar das portas de 2018.

A ideia do filme surge a partir do momento em que Caco Ciocler ouve da atriz e também diretora Georgette Fadel que ela se candidataria à Presidência da República em 2022, o que o leva a pensar em uma viagem de ônibus com destino ao Uruguai reunindo um determinado grupo com o objetivo de se encontrar com o ex-Presidente do país platino Pepe Mujica

Depois de ouvir a atriz e diretora Georgette Fadel se declarar candidata à Presidente da República em 2022, o também produtor Caco (junto com Beto Amaral) decide convocá-la, e mais alguns, a uma viagem de ônibus rumo ao Uruguai com pretensões de encontrar o ex-Presidente Pepe Mujica, sem nenhum aviso prévio. Sem se enquadrar nos cinemas direto e verdade (visto que o grupo técnico aparece em boa parte da projeção como se fosse um “personagem”), a obra flui brilhantemente sob a égide do generoso acaso e das improvisações dos membros da equipe de filmagem, uma trupe quase mambembe. Em meio a altercações políticas entre uma intensa Georgette e seu principal “oponente” Léo (Léo Steinbruch), criamos empatia por esses seres aventureiros, sonhadores, contraditórios e frágeis, porém fortes em suas determinações estrada afora.

Extremamente sensível em seu olhar para a realidade próxima que o cerca, Caco Ciocler faz de “Partida” um filme sobre buscas e sonhos sem medidas, no qual o futuro pode sim ser o presente desejado, ainda que demorado

Caco Ciocler demonstra enorme sensibilidade com o seu olhar para a realidade que o cinge tão proximamente. Acredita na coletividade e no afeto humanos. Crê às cegas no improvável, sendo desperto pela magia do benevolente destino. “Partida” é um filme sobre buscas, jamais despedidas. Um filme de sonhos sem medidas. No ônibus antigo, do passado, todos ainda vislumbram no futuro o presente desejado por ora adiado. “Partida” não é para se dizer “adeus”. No máximo, um “até breve”, mesmo que dure um pouco mais.

Assista ao trailer do filme:

Foto: Divulgação

Nanni Moretti realiza um documentário sobre um dos períodos mais sangrentos da história chilena, quando em 1973 o governo legítimo de Salvador Allende é deposto com o apoio dos Estados Unidos, representados pela figura do Secretário de Estado, Henry Kissinger, levando o país a uma ditadura comandada pelo General Augusto Pinochet

Esteve em cartaz nos cinemas brasileiros em 2019 uma obra do aclamado cineasta italiano Nanni Moretti, o oportuno documentário “Santiago, Itália” (“Santiago”, 2018), vencedor do David di Donatello 2019 de Melhor Documentário (sua mais recente produção, um drama, chama-se “Tre Piani”, 2020). O doc relata os episódios que marcaram uma das ditaduras militares mais implacáveis e cruéis da América Latina, a chilena, que tomou o poder em setembro de 1973, depondo o presidente eleito democraticamente Salvador Allende. Porém, o grande mote do filme do também ator e roteirista, autor dos elogiados longas “Caro Diário” (1994), “O Quarto do Filho” (2000) e “Habemus Papam” (2011) foi a primordial ajuda da embaixada italiana, oferecendo asilo e vistos para a Itália, aos perseguidos políticos do governo de Augusto Pinochet. Nanni, mesmo afirmando não ser imparcial, procurou ouvir os dois lados da história numa série numerosa de depoimentos, utilizando-se outrossim de preciosas imagens de arquivo, como as que mostram o Estádio Nacional do Chile, que serviu de enorme centro de detenção para os opositores do regime totalitário. No filme fica evidente o financiamento norte-americano ao golpe, com o apoio da imprensa chilena, justificado por Henry Kissinger, Secretário de Estado à época, como uma forma de não estimular os governos italiano e francês, com seus partidos socialistas, suscetíveis às políticas sociais de Allende. Moretti oferece a cineastas, como Patricio Guzmán, empresários, professora, artesão e muralista a oportunidade de dar o seu testemunho (seja em espanhol ou italiano), assim como a militares condenados por seus crimes. O único senão do documentário de Nanni Moretti foi seguir os padrões mais convencionais deste gênero cinematográfico, com depoimentos de personagens da História entremeados por imagens de arquivo, como foi dito antes. No entanto, a força deste período histórico que jamais deve ser esquecido não tira o interesse do espectador. Nanni Moretti merece o nosso respeito por revolver as lembranças desta triste passagem de nosso país vizinho. “Santiago, Itália” se torna ainda mais relevante quando vemos no Brasil a defesa aberta da volta de um regime tão desumano quanto ilegal, como o é a ditadura.

Assista ao trailer do filme:

Uma das formações originais da Blitz, com Evandro Mesquita à frente, no posto até hoje, e Lobão ao fundo, na bateria/Foto: Divulgação

Em sessão on-line promovida pelo Centro de Artes UFF, os internautas puderam assistir ao abrangente documentário de Paulo Fontenelle, experiente no gênero, “Blitz, O Filme”, e depois conversar com ele sobre esta obra que retrata uma das bandas mais populares do BRock, pioneira não só neste movimento, mas em muitos aspectos, como o visual e o musical, incluindo letras e melodias

No dia 06 de agosto houve mais um “Cine Debate” on-line promovido pelo Centro de Artes UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, com a presença do diretor e roteirista do documentário “Blitz, o Filme”, Paulo Fontenelle. A seguir a crítica:

Pensem numa banda surgida no início dos anos 80, cujos integrantes formularam uma nova linguagem de comunicação musical, inclusive dialogada e cotidiana, fundamentada na criatividade visual e performática, com influências teatrais (como o lendário Asdrúbal Trouxe o Trombone, de onde vieram o vocalista Evandro Mesquita e a diretora de palco, a atriz Patrycia Travassos), com a presença de duas lindas moças, Fernanda Abreu e Márcia Bulcão, que não só cantavam mas criavam suas próprias coreografias, e um time de excelentes músicos de fazer inveja a qualquer grupo, como Ricardo Barreto, Juba, Billy Forguieri e Antônio Pedro, todos filhos legítimos da “cara do Rio de Janeiro” daquela época, em que a praia das dunas do Posto 9 e o Arpoador simbolizavam seus “lares”. Quem pensou Blitz (nome dado pelo cantor e compositor Lobão devido às recorrentes paradas policiais antes dos ensaios em seu estúdio no Joá, no Rio de Janeiro, sofridas por Evandro e outros), acertou. E Paulo Fontenelle, experiente em docs como “Sobreviventes – Os Filhos da Guerra de Canudos” e “Evandro Teixeira – Instantâneos da Realidade”, acertou em cheio na realização de “Blitz, o Filme” (2019). Paulo não se esquivou em adotar a narrativa clássica deste gênero cinematográfico, como o respeito à cronologia dos fatos, o bom número de imagens de arquivo e os depoimentos dos envolvidos no curso da banda, apostando no potencial de seu conteúdo, com um ritmo fluente e empolgante que faz com que embarquemos nessa viagem movida a muitas cores fluorescentes. Paulo, também o roteirista, mantém-se imparcial do começo ao fim, sem colocar o conjunto num pedestal. Estão lá as incompatibilidades pessoais, os ciúmes e disputas egoicas, o erro da superexposição, a censura às canções e as seguidas rupturas e retornos da banda, em atividade até hoje, atraindo novos e antigos fãs. Paulo Fontenelle se firma como um admirável contador de histórias reais, avalizando o devido lugar que a Blitz deve ter como pioneira do BRock. “Blitz, o Filme” já nasceu “estourado”. Você saberá amá-lo. 

 

 

Assista ao trailer do filme: 
 

Hebe
Foto: Divulgação/TV Globo

Uma das maiores comunicadoras do país, Hebe Camargo reunia carisma, credibilidade e clareza discursiva, sendo mais do que justificável a realização de uma série sobre a sua trajetória

A televisão só é eficaz se cumprir o seu precípuo papel de se comunicar diretamente com o público. Para que isso seja factível é indispensável que haja profissionais no veículo que reúnam atributos como credibilidade, carisma e clareza no discurso. A apresentadora Hebe Camargo reunia tudo isso e talvez um pouco mais, tornando-se assim uma das maiores comunicadoras do país. Justifica-se deste modo a realização de uma série dedicada a esta fulgurante mulher de Taubaté, interior de São Paulo, que também se sobressaiu como cantora.

Carolina Kotscho não poupou o público de nada que pudesse nublar a verdadeira personalidade de Hebe, contraditória, exuberante ou exagerada, feliz ou triste, e acima de tudo humana e corajosa, mostrando-nos além disso os seus excessos com o álcool e a sua defesa da transexualidade e da homossexualidade

“Hebe”, criada e escrita com extraordinário brilho por Carolina Kotscho (com diálogos excepcionais), reestreou seu primeiro episódio na Rede Globo na quinta-feira passada, trazendo-nos à lembrança recortes cruciais que definem com estrita precisão traços que identificam a personalidade contraditória, humana, exuberante ou exagerada, feliz ou entristecida, e corajosa desta artista que faz parte da história da TV brasileira. Carolina não nos deixou escapar nada em seu introito, que mostra a apresentadora já em tratamento contra um câncer, e 25 anos antes, defendendo a transexualidade de Roberta Close e o travestismo artístico de Patrício Bisso, a homossexualidade, combatendo as sobras da censura de uma democracia nascente (na pele do censor Guimarães, Fernando Eiras, magnífico), insurgindo-se contra a intolerância de seu diretor Walter Clark (Danilo Grangueia, vigoroso). Seus excessos no álcool não ficaram de fora nem sua relação inconstante com o ciumento marido Lélio (Marco Ricca com seu sotaque paulistês carregado está irrepreensível). Assim como o seu amor incondicional pelo filho Marcelo (Caio Horowicz, acertadamente introspectivo). O fiel sobrinho Cláudio coube ao ótimo Danton Mello.

A personificação de Andrea Beltrão da apresentadora Hebe é um marco em sua carreira

Andrea Beltrão, numa devastadora personificação de Hebe, impressiona nos detalhes de sua riquíssima composição (voz, olhar, trejeitos, postura). Um marco em sua carreira. Mauricio Farias, diretor artístico, e Maria Clara Abreu, diretora, exploram lindamente a câmera em suas distintas possibilidades. Com direção de arte de Luciane Nicolino, figurino de Antônio Medeiros e caracterização de Simone Batata irretocáveis, “Hebe” consagra-se como um sublime retrato de uma admirável estrela que tinha “peninha” de morrer.

Categorias: TV

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Foto: Marcelo Santos Braga

Todas as quintas-feiras, acontece o “Cine Debate”, sessões on-line de filmes seguidas de debate.
Numa parceria entre o Centro de Artes UFF e a Olhar Distribuidora, o longa exibido no dia 16/07 foi o documentário “Meu Nome é Daniel” (2018).
A seguir, a crítica:

Daniel Gonçalves, portador de uma doença rara que limita os seus movimentos, assume as funções de diretor, corroteirista e coprodutor de “Meu Nome é Daniel”, sendo o primeiro brasileiro nesta condição a comandar um longa-metragem

“Meu Nome é Daniel”, documentário baseado na vida do cineasta do município de Barra Mansa, Rio de Janeiro, Daniel Gonçalves (diretor, corroteirista e coprodutor), portador de uma doença rara com limitações motoras, sendo o primeiro brasileiro nesta condição a comandar uma obra do gênero, é um filme que subverte. Alternando cenas de arquivo em Super 8 e VHS de suas infância e adolescência e começo da fase adulta, narrada com ritmo e pausas certeiros em primeira pessoa por Daniel, o que confere à produção uma poderosa legitimidade, tudo é contado ao público sem pudores, de forma franca e clara, como a naturalidade de sua família em lidar com a situação, algumas manifestações de preconceito da sociedade, sua iniciação sexual, as festinhas juvenis, as relações afetivas e suas escolhas profissionais.

Com o aval de Roberto Berliner, diretor de “Nise: O Coração da Loucura”, na coprodução do longa, o documentário não pretende ser, segundo o próprio Daniel Gonçalves, “um filme de coitadinho ou super-herói” ou “um filme de superação”, o que lhe denota um caráter tematicamente subversivo 

O roteiro assinado por Daniel, Débora Guimarães e Vinícius Nascimento (também montador, realiza um ótimo trabalho), eficientíssimo em sua estrutura, com pinceladas de humor contextualizado, tem como ponto de partida a busca de seu protagonista por um diagnóstico preciso para a sua condição física, mas o filme, coproduzido por Roberto Berliner e Rodrigo Letier, não se resume a isso. Evitando temas musicais com o objetivo de afastar qualquer provocação sentimentalista, “Meu Nome é Daniel” subverte no sentido de que não pretende ser, segundo o seu diretor, “um filme de coitadinho ou super-herói” tampouco “um filme de superação”.

Premiado em três importantes festivais, o documentário nos leva a uma reflexão obrigatória e necessária a respeito da conceituação do que é ser “normal”

Premiado na Mostra de Tiradentes (Melhor Longa-Metragem pelo Júri Popular), nos Festivais Internacional de Cine de Cartagena de Índias 2019 (Prêmio Documental Calificado Oscar) e do Rio (Menção Honrosa Direção de Documentário), “Meu Nome é Daniel” é uma obra imprescindível, necessária, que nos leva à reflexão obrigatória do que é ser normal, abraçando generosamente a diversidade em todas as suas camadas, sem omitir o que dela decorre. Daniel Gonçalves representa o que há de íntegro e reto no ser humano. Daniel é bem mais do que o substantivo próprio do título de um belo filme. Daniel são muitos, mas poucos são aqueles que oferecem a sua beleza de vida em imagens.

Assista ao trailer do filme:

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Foto: Glauco Firpo/Gshow

Muitas atrações cujos temas são voltados para o isolamento social em decorrência da pandemia surgiram em diferentes plataformas, destacando-se entres elas a estrelada e roteirizada por Bruno Mazzeo

Neste momento insólito pelo qual passamos, reféns de uma pandemia sem precedentes no país há mais de um século, com o isolamento social recomendado, e as TVs abertas, a cabo e o streaming se firmando como algumas escolhas de lazer disponíveis para os confinados, pululam nos mesmos atrações que atribuem ao tema o seu mote principal. É o caso da divertida e muito bem realizada série multiplataforma “Diário de Um Confinado”, uma criação de Bruno Mazzeo (ator e também roteirista) e Joana Jabace, sua esposa, a quem coube a função de diretora artística, na Rede Globo. Somam-se à inspirada equipe de roteiristas Rosana Ferrão, Leonardo Lanna e Verônica Debom.

A própria casa de Bruno Mazzeo serviu como única locação da série, sendo que quase tudo referente à produção fora feito de modo remoto

Com a casa do intérprete servindo de locação, sofrendo certas adaptações, quase tudo fora feito remotamente, como as avaliações de figurino e arte (houve o envio de determinados objetos), e a participação dos atores, com a exceção de Debora Bloch, que é vizinha real de Bruno. Só um profissional técnico, após isolamento no local, trabalhou presencialmente, o diretor de fotografia Glauco Firpo.

O enredo é desenvolvido em cima da figura de um homem solteiro de classe média que por contingências da pandemia se depara com uma infinitude de ações higienizantes de proteção além de ser vítima dos conflitos psicológicos ocasionados por uma rotina (ou falta de) solitária forçada

A história é focada em Murilo, um homem solteiro, de classe média, que se defronta com todos os tipos de vicissitude decorrentes do confinamento, que vão desde os inúmeros cuidados de higiene preventiva aos percalços psicológicos de uma vida solitária forçada por meses. Murilo, já paranoico, tem que enfrentar as paranoias em sua potência máxima de sua vizinha (Debora Bloch, impagável) e de sua mãe (Renata Sorrah, maravilhosamente cômica). Entre uma engraçada sessão de análise interrompida e outra por uma doutora à beira de um ataque de nervos representada por Fernanda Torres (perfeita na neurastenia), Murilo se vê às voltas com a “embalagem perigosa” de uma pizza e os ataques virtuais ninfomaníacos de uma paquera, uma hilária Luciana Paes.

Uma série com grandes qualidades técnicas, que faz jus a entusiasmados elogios

Não se pode negar a qualidade técnica da produção, como se tivesse sido feita em um estúdio. Tudo merece louvor: roteiro, direção, atuações, fotografia, som. “Diário de Um Confinado” é como aquela pizza que se pedia nos sábados pré-pandemia: saborosa, sempre queríamos mais uma fatia e cheia de bons ingredientes. E, claro, com uma embalagem que não fosse uma vilã.

 

Categorias: TV

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Foto: Diego Garcia/Divulgação

Conhecido por sua subversão temática, vista em sua obra anterior, “Boi Neon”, Gabriel Mascaro antevê em seu mais novo longa um Brasil distópico dominado por uma fanática corrente religiosa que prega conceituações distorcidas dos elementos sagrados e profanos, que afetam diretamente o comportamento humano e sua relação com o casamento, o amor, a fé e o sexo 

Foi lançado no dia 27 de junho do ano passado o impactante novo filme do diretor pernambucano Gabriel Mascaro, conhecido pelo público a partir do sensível e original “Boi Neon” (2015), “Divino Amor”. Neste longa estrelado por Juliano Cazarré, o cineasta subvertia o universo machista dos vaqueiros ao desenhar um de seus membros como um homem que sonhava em criar vestidos. Esta mesma subversão, que passa a ser uma marca do cineasta, é agravada em “Divino Amor”, no sentido em que se profetiza um Brasil distópico em 2027, oficialmente laico, mas dominado (e oprimido) por uma vertente religiosa intolerante de caráter evangélico que leva às últimas consequências os seus conceitos radicais e distorcidos a respeito da fé, do amor, do casamento e do sexo, misturando indiscriminadamente no mesmo cadinho o profano/”pecado” (swing de casais, valorização dos corpos nus em alguns de seus rituais) e o sagrado (tudo se faz em nome de um Deus misericordioso).

Dira Paes, em performance corajosa, representa uma funcionária de cartório que tenta convencer os casais a não se divorciarem, atendendo aos seus dogmas questionáveis, ao mesmo tempo em que frequenta raves evangélicas nas quais seu Deus popstar é idolatrado 

O roteiro inteligente, apropriado e espertíssimo de Gabriel Mascaro, Rachel Daisy Ellis, Esdras Bezerra e Lucas Paraizo nos traz uma brilhante e corajosa Dira Paes como uma funcionária pública de cartório, Joana, que com seu jeito polido e manipulador tenta convencer os casais a não efetivarem o divórcio pretendido em nome da manutenção do amor máximo traduzido no núcleo familiar convencional. Joana, adoradora da burocracia estatal, frequentadora de raves evangélicas grandiosas em que o seu Deus é popstar, é casada com o florista de funerais Danilo (o ótimo Julio Machado), que, assim como ela, frequenta o fechado grupo religioso “Divino Amor”. Uma incompatibilidade do casal desequilibrará a sua fé até então inexpugnável.

O filme de Gabriel Mascaro conta com eficientes suportes técnicos, como a fotografia onírica de Diego Garcia e a trilha de DJ Dolores, sendo sustentado ainda por outros artistas afinados em suas participações 

Com fotografia desbotada, onírica e com néons de Diego Garcia, trilha sonora instigante do DJ Dolores (dentre outros), o perturbador filme tem o seu elenco completo por Emílio de Mello (fantástico como o pastor de drive thru), Thalita Carauta (perfeita na indignação de uma cliente do cartório), Teca Pereira (convincente como a Mestra Divino Amor) e Mariana Nunes

(simboliza com fidedignidade a esposa angustiada por suas dúvidas afetivas/emocionais).

Assista ao trailer do filme:

 

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Foto: Fábio Rocha/Globo

A série “Aruanas” é lançada na Rede Globo em um momento em que autoridades do Poder Executivo Federal não escondem suas posições oficiais contrárias à preservação do meio ambiente, o que torna a obra extremamente necessária e atual

Inicialmente lançada na plataforma de streaming Globoplay em 2019, a ótima e obrigatória primeira temporada da série de Estela Renner e Marcos Nisti, com a colaboração de Pedro de Barros, “Aruanas”, chega à TV aberta (Rede Globo; em 3 de julho do ano citado a emissora exibiu o seu primeiro episódio na “Sessão Globoplay”) num momento apropriadíssimo em que o Brasil assiste estarrecido ao aumento desenfreado dos desmatamentos e queimadas na Amazônia e na Mata Atlântica, ao afrouxamento da fiscalização ambiental, ao discurso racista quanto à população indígena nativa e à declarada política oficial executiva contrária à preservação de nossos ecossistemas em prol de um suposto desenvolvimento econômico para o país.

A envolvente trama é centralizada em quatro ativistas ambientais pertencentes a ONG Aruana que se despem de todos os medos com o objetivo de desbaratar um esquema criminoso em áreas de preservação orquestrado pelo poderoso dono de uma mineradora

A instigante história, também uma produção da Maria Farinha Filmes, concentra-se nos esforços das destemidas ativistas da ONG Aruana, a imponente advogada Verônica (Taís Araújo), a jornalista Natalie, que subverte as normas do veículo onde trabalha em nome do que acredita (Débora Falabella), a impetuosa Luiza (Leandra Leal), e a autoconfiante estagiária Clara (Thainá Duarte), em uma arriscada investigação que visa a desmascarar os graves danos causados pelas atividades ilícitas da mineradora KM na região fictícia de Cari, no Amazonas, cujo dono é o inescrupuloso e dissimulado Miguel (Luiz Carlos Vasconcelos). Miguel é assessorado pelo misterioso Felipe (Gustavo Falcão) e Olga Ribeiro (Camila Pitanga em participação especial), uma advogada sensual e influente. Somam-se a este espetacular elenco artistas valorosos como Vitor Thiré (André, um rapaz prático e objetivo que cuida do setor de comunicação e relações públicas da ONG), Ravel Andrade (Pontocom, encarregado da parte tecnológica da organização), Rômulo Braga (o inconstante arquiteto Bruno, financiador da Aruana, que se vê dividido entre Verônica e Natalie), Gustavo Vaz (Gregory, um antropólogo dedicado à proteção dos povos indígenas), Bruno Goya (Falcão, incumbido de planejar as ações da Aruana) e Rafael Primot (Ramiro, ex-namorado de Clara, com quem mantinha uma relação abusiva).

Com admiráveis direção geral de Estela Renner e artística de Carlos Manga Jr., “Aruanas”, que contou com a parceria técnica do Greenpeace, transcende o campo ficcional e se conecta legitimamente com o espectro real de um Brasil negligenciado

O thriller ambiental com timing perfeito se vale da direção geral precisa e habilidosa de Estela Renner, auxiliada pelos diretores Bruno Safadi e Lucio Tavares. A beleza natural local, seu povoado, as ações do grupo e a arquitetura arrojada de Brasília são captados por uma câmera generosa e esperta. Lançada em 150 países, com a parceria técnica do Greenpeace, a série possui a chancela do tarimbado diretor artístico Carlos Manga Jr.. “Aruanas” transcende esplendidamente a esfera ficcional com sua contundência denunciatória, fazendo com que cada espectador se conscientize e se sinta um pouco ativista dessa causa que é de todos nós. Um ativismo artístico de que precisamos.

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Foto: Paulo Ruch

A artista Letícia Novaes, egressa do extinto duo Letuce, agora liderando a banda Letrux, com sua multiplicidade de talentos condensados em originais canções, acompanhadas de caráter performático, realiza um show arrebatador que estremeceu as estruturas do tradicional Teatro da UFF, em maio de 2019

O Teatro da UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, estremeceu seus pilares na noite de 31 de maio do ano passado, com a presença magnética de uma artista múltipla, dotada de uma expressividade singular, bela, sensual, divertida, que deixou sua enorme legião de fãs, em sua grande maioria jovens, extasiados, hipnotizados, fiéis absolutos com suas vozes variadas aos versos de suas irresistíveis e originais canções. A responsável por essa sinergia artística memorável com o seu público é a carioca Letícia Novaes, da banda Letrux, também atriz, compositora, escritora e instrumentista, que passou a ser conhecida na primeira década dos anos 2000 com o duo Letuce, ao lado de Lucas Vasconcellos.

Razões não faltam para tecer elogios ao Letrux, que aposta no carisma de sua intérprete, possuidora de potente voz, e no ecletismo de suas influências musicais, dentre tantos outros predicados

A partir de 2017, quando lançou seu primeiro disco solo “Letrux em Noite de Climão” (elogiadíssimo pela crítica especializada), a ótima intérprete passou a construir com solidez e inegável personalidade a sua carreira, sustentada pelo seu arrebatador carisma, presença cênica impressionante, voz potente com trânsito espantoso entre notas distintas (o que lhe confere notória versatilidade) e um setlist eclético com influências do pop eletrônico (e seus synths em profusão) e de outros gêneros, como o funk e o rap, que se manifestam no fraseado conversado de algumas de suas composições.

Tendo como aliados excelentes músicos, Letrux, não se eximindo de sua aguda verve crítica, demonstrada entre um clássico de sua autoria e uma versão deliciosa de um hit, confirma-se como uma artista com grande personalidade, escapando de qualquer rótulo que enclausure seu exponencial talento

Vestindo um lindo macacão vermelho com decotes generosos, valorizando a sua esbelteza, Letrux realizou o seu show acompanhada de músicos excepcionais: Bruno Gafanhoto (bateria, substituindo Lourenço Vasconcellos), Arthur Braganti (teclado e sintetizador), Natália Carrera (guitarra), Martha V (guitarra) e Thiago Rebello (baixo). Majestosamente performática, crítica, política, sagaz, irreverente e sexy, Letrux sacudiu a todos com os seus já clássicos “Flerte Revival”, “Ninguém Perguntou por Você” e “Que Estrago”. Não faltaram ainda, para o deleite geral, competentíssimas releituras de “Unchained Melody”, dos Righteous Brothers, e “Human Nature”, de Madonna.
Letrux é uma artista com um brilho todo especial. Suas letras falam quase sempre sobre o amor, com espaços necessários para a liberdade de ser e de estar do indivíduo. Letrux não é indie, alternativa, tampouco cult. Letrux é do mundo e para o mundo. A noite histórica na UFF traduz bem isso.

Em 13 de março de 2020, Letrux lançou o seu tão aguardado segundo álbum, “Letrux aos Prantos”, tido como mais denso e intenso, segundo a própria, com a participação especial de Liniker e os Caramelows.

Assista ao novo clipe de Letrux, “Eu Estou aos Prantos”, com direção, edição e finalização de Júlio Parente:

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