
Após discutir sobre a homofobia em sua peça “3 Maneiras de Tocar no Assunto”, desta vez o dramaturgo Leonardo Netto questiona com a mesma qualidade a violência intrínseca ao homem
Em 1963, em seu livro “Eichmann em Jerusalém”, a filósofa alemã Hannah Arendt criava o conceito “a banalidade do mal”, referindo-se ao cometimento de barbáries como se fossem atos comuns por indivíduos desprovidos de crítica em resposta a ordens burocráticas.
De modo menos específico, mais amplificado, o dramaturgo Leonardo Netto (responsável pelo pungente texto de “3 Maneiras de Tocar no Assunto”) se debruça indomitamente em sua nova peça, sucesso no Rio de Janeiro e em São Paulo, “O Motociclista no Globo da Morte”, sobre a condição atávica da violência do ser humano e como isso se reflete das mais variadas formas na sociedade, seja em um ambiente simples e público, como um bar, seja nas altas esferas de poder que inventam as suas guerras.
Uma história/relato rica em detalhes que entrega à plateia diversas camadas de tensão
Dirigida por Rodrigo Portella e protagonizada por Eduardo Moscovis (a primeira parceria da dupla), a montagem nos apresenta o matemático Antônio, um homem racional e pacífico, que diante de episódios alheios à sua vontade se vê obrigado a encarar um lado de sua personalidade até então desconhecido.
A valiosa dramaturgia em tom confessional de Leonardo Netto nos impressiona pela riqueza dos detalhes, pelo empenho de sua pesquisa histórica e pelo modo pelo qual é desenvolvida, entregando à plateia uma história/relato com diversas camadas de tensão.
O diretor Rodrigo Portella aposta todas as suas fichas no primoroso texto e no fenomenal poder de interlocução de Eduardo Moscovis, um ator que respeita as pausas e reverencia a melodia das palavras
Rodrigo Portella, um diretor que se sobressai no cenário teatral pela ótica singular com que conduz suas obras, aposta com audácia todas as suas fichas no primoroso texto e no fenomenal poder de interlocução de seu intérprete.
Eduardo Moscovis, vencedor do Prêmio Shell de Teatro 2026 (RJ), assombra-nos com a sua precisão interpretativa, sua atuação matemática sem erros de cálculo e seu domínio de cena tendo que enfrentar o enorme desafio de se expressar artisticamente sentado todo o tempo (ótima direção de movimento de Toni Rodrigues).
Eduardo tem vultoso respeito pelas pausas e se valendo de sua bela voz reverencia a melodia das palavras.
“O Motociclista no Globo da Morte” nos leva em sua garupa em alta velocidade bradando um discurso anti-violência que vai na contramão do mundo.








