Blog do Paulo Ruch

Cinema, Moda, Teatro, TV e… algo mais.

Em uma das fábulas morais de “Tudo” Vladimir Brichta e Julia Lemmertz, ele um artista plástico e ela uma servidora de repartição pública/Foto: Flavia Canavarro

Julia Lemmertz, Dani Barros, Vladimir Brichta, Claudio Mendes e Márcio Vito interpretam os personagens ou mais de um das três fábulas morais que compõem a narrativa da peça

A obra do argentino Rafael Spregelburd levada aos palcos pelas mãos habilidosas e olhar crítico do diretor, tradutor e adaptador Guilherme Weber traz à baila temas que nos são muito caros, além de universais e atemporais, a burocracia no Estado, a arte que invariavelmente se transforma em negócio e a religião que se torna superstição. Topou se entregar neste promissor debate cênico um time de atores de alto calibre interpretativo que se equivalem no rico despudor de contar ao público em forma de fábula moral todas as incongruências e contrariedades inerentes aos assuntos em pauta: Julia Lemmertz, Dani Barros, Vladimir Brichta, Claudio Mendes e Márcio Vito. Dividida em três situações e ambientes, uma repartição pública, uma festa de Natal e a casa de um casal, com a presença de um narrador, a peça não se furta a adotar um escancarado nonsense muito bem servido pela notável expressividade física de seu elenco. Não faltam ao discurso teatral referências com propriedade à mitologia grega e episódio bíblico.

Com fascinante integração entre ator e texto, feito conquistado por seu diretor Guilherme Weber, assistir a “Tudo” é uma forma de exorcizar alguns de nossos medos

Guilherme Weber atinge fascinante integração entre atores e texto, ocupando dinamicamente o perímetro da ribalta. Cada artista tem o seu grande momento na montagem, não importando se de modo cômico, dramático ou tragicômico. O espetáculo está assaz bem amparado em seus aspectos técnicos. A cenografia crua com elementos industriais/tecnológicos de Dina Salem Levy, a iluminação instigante de Renato Machado com luzes fosforescentes, os figurinos pertinentes, entre o sóbrio e o extravagante, de Kika Lopes, a trilha original de elevado bom gosto com alusões ao tango de Rodrigo Apolinário e a primorosa preparação corporal de Toni Rodrigues completam um painel estético que se agrega sobremaneira à excelência da produção. É impossível não identificar em “Tudo” uma conectividade com a realidade nossa de cada dia, despertando-nos emoção, reflexão e diversão. “Tudo”, em certo momento, fala-nos sobre não sentir medo. Ir ao teatro e assistir a “Tudo” é uma forma de exorcizar alguns de nossos medos. E isso é tudo.

Alanis Guillen vive a arredia Juma Marruá no remake de “Pantanal”/Foto: TV Globo/João Miguel Júnior

“Pantanal” conta a saga de uma família em uma região que nos é tão distante mas ao mesmo tempo tão íntima

As dúvidas quanto ao sucesso de uma novela fazem parte de sua realização. As dúvidas quanto ao sucesso de um remake são ainda maiores. Bruno Luperi, indômito como um peão, recebeu o aval de seu avô, o grande contador de causos Benedito Ruy Barbosa, para adaptá-la para a Rede Globo em seu horário nobre (Bruno foi um dos colaboradores de Benedito em “Velho Chico”, novela exibida em 2016 pela mesma emissora). Desde a sua estreia no final de março o país tem parado em frente à TV para acompanhar a saga de uma família em uma região que nos é tão distante mas ao mesmo tempo tão íntima. A trama, que conta com a magistral e inebriante direção artística de Rogério Gomes e Gustavo Fernández, resgata profundamente o Brasil que estava silenciado dentro de nós. Além de nos entreter e emocionar, os capítulos de “Pantanal” despertam a nossa consciência sobre o inacreditável patrimônio ambiental que possuímos, recrudescendo nossas ânsias de luta em preservá-lo (e a nós mesmos).

O elenco da trama das 21h assume com brilho a alma dos personagens

Ademais, não são vezeiras as ocasiões em que se reúne em uma obra, dentre revelações e veteranos, tantos atores que assumiram com brilho a alma de seus personagens. Alanis Guillen, como Juma, transforma o selvagem em belo, encantando-nos com seu enorme talento. Par perfeito de Alanis, Jesuita Barbosa nos causa distintas emoções com a complexa construção de seu Jove. E o que se pode dizer da firmeza de Guito (Tibério), do magnetismo de Gabriel Sater (Trindade), da sensibilidade de José Loreto (Tadeu), do desejo ensandecido de Leandro Lima (Levi) e da crueza desconcertante de Juliano Cazarré (Alcides)? E a jovem atriz Bella Campos que transita tão bem pela ambiguidade de Muda? Quanta luz e força há em cena quando vemos Osmar Prado (Velho do Rio), Marcos Palmeira (José Leôncio), Dira Paes (Filó), Almir Sater (Eugênio), Irandhir Santos (José Lucas), Camila Morgado (Irma), Murilo Benício (Tenório), Isabel Teixeira (Maria Bruaca) e Selma Egrei (Mariana). Julia Dalavia, como Guta, mistura doçura e maturidade em seus momentos. Todos são potências naturais do Pantanal.

História, música e imagens provocam a contemplação do público

“Pantanal”, com sua história envolvente, lindas trilha sonora (produção musical de Rodolpho Rebuzzi e Rafael Luperi) e imagens (direção de fotografia de Sergio Tortori e Henrique Sales) e realismo mágico fascinante, torna-nos mais contemplativos, serenos, em meio a um panorama atual do mundo tão desolador e triste. “Pantanal” nos faz juntar os pedaços de palavras de Juma e escrever “ESPERANÇA”.

Categorias: TV

O ator Paulo Lessa é um dos protagonistas de “Cara e Coragem”, como o segurança Ítalo/Foto: TV Globo/Sergio Zalis

“Cara e Coragem”, novela de Claudia Souto, estreia com Taís Araujo, Paulo Lessa e Ícaro Silva como alguns de seus protagonistas, respeitando um nobre anseio artístico do saudoso Milton Gonçalves

Não terá sido apenas uma coincidência que no dia da estreia de “Cara e Coragem”, novela das 19h da Rede Globo criada e escrita por Claudia Souto, com direção artística de Natalia Grimberg, na segunda-feira passada, um de nossos maiores nomes da teledramaturgia, Milton Gonçalves, tenha deixado o país mais triste com a sua partida. A conexão se dá pelo fato da eletrizante e divertida trama de Claudia conter em seu elenco três atores negros defendendo papéis protagonistas, Taís Araujo, Paulo Lessa e Ícaro Silva. Seu Milton defendia e lutou abertamente pela supressão dos estereótipos atribuídos aos artistas negros na seleção dos personagens. “Cara e Coragem” é o resultado positivo da batalha pessoal do “negro em movimento” Milton Gonçalves.

Paulo Lessa, que também é modelo, já possui uma bem-sucedida carreira publicitária, além de ter feito inúmeras participações na TV em novelas e seriados

Este introito nos serve para falar um pouco mais desse jovem, bonito e talentoso intérprete, neto da grande dama Cléa Simões, Paulo Lessa, um carioca também modelo que quase foi para a Europa jogar futebol profissional, mas que se rendeu à sua verdadeira vocação, atuar. Claro que a sua popularidade aumentará com Ítalo, seu personagem no folhetim, um segurança inteligente, charmoso e bem-sucedido apaixonado pela empresária Clarice Gusmão, Taís Araujo (o casal conquistou o público). No entanto, Paulo já traz consigo uma consistente carreira na televisão, desde que estreou com uma participação em “A Favorita”, novela de João Emanuel Carneiro reprisada no momento na Rede Globo. Em seguida, na mesma emissora, provou que podia muito mais, dessa vez com um papel fixo, o arquiteto Mário, em “Viver a Vida” (2009), de Manoel Carlos.
O ator foi visto em múltiplas campanhas publicitárias, em sua maioria solares e destinadas ao público jovem, que poderia se identificar com o seu perfil. Nos últimos anos ocupou lugar de destaque nos folhetins da RecordTV “Belaventura” (o caçador de recompensas Accalon), “Jesus” (o nômade Goy) e “Gênesis” (o general egípcio Bakari). No primeiro capítulo de “Cara e Coragem” vimos que Paulo está bem à vontade e seguro como Ítalo, o que lhe permitirá mostrar todo o seu potencial. Paulo Lessa, que foi o compositor Sinhô em filme sobre Pixinguinha, com cara, coragem e brilho saberá fazer valer o glorioso legado de Seu Milton Gonçalves.

Categorias: TV

Romulo Estrela, na frente à direita, junta-se à CiaTeatro EPIGENIA, fundada pela atriz Luciana Fávero e Gustavo Paso, autor e diretor do espetáculo/Foto: Luciana Salvatore

Romulo Estrela incorpora com brilhantismo o personagem-título da adaptação da obra machadiana, que reproduz com beleza elementos góticos e expressionistas, além de adotar um tom farsesco/burlesco

Revolver a riquíssima literatura machadiana forjando o seu encontro com as aberrações políticas vigentes do país não é das tarefas mais tranquilas. Destemidos, os autores Celso Taddei e Gustavo Paso (também diretor) se inspiraram livremente em um dos contos mais celebrados do “Bruxo do Cosme Velho” para realizar o mais novo espetáculo da CiaTeatro EPIGENIA, “O Alienista” (1882). À companhia, que completa 22 anos, juntou-se um dos atores mais talentosos e requisitados de sua geração, Romulo Estrela, a quem coube a desafiadora missão de incorporar o lunático e tirânico personagem-título, o alienista Dr. Simão Bacamarte. Romulo se despe brilhantemente de sua persona executando um trabalho de construção de personagem arrebatador, memorável em todos os detalhes, desde a postura física até a entonação de sua voz. A potente montagem, que nos entrega com beleza elementos góticos e expressionistas, mostra o insano périplo do cientificista que ambiciona dominar o mundo, utilizando-se de seus estudos duvidosos que objetivam tornar os homens manipuláveis. Num tom farsesco/burlesco, Simão tem que se aproximar de políticos espúrios adeptos da promíscua equação religião/política a fim de colocar em prática o seu intento de edificar um asilo, a Casa Verde, cuja proposta é confinar sem critérios estabelecidos todos os “loucos” da metrópole Itaguaí.

“O Alienista” busca a lucidez de suas plateias em um Brasil chafurdado por uma classe dirigente insana e enlouquecida, os reais pacientes de Simão Bacamarte

A direção apaixonada de Gustavo Paso se alimenta de doses consideráveis de acidez, comicidade e crítica social, valendo-se apropriadamente de recursos cênicos como o coro grego, a pantomima e até mesmo a commedia dell’arte com tintas mais sombrias. Contando com um numeroso elenco de atores/cantores adoráveis, como os ótimos Gláucio Gomes, Vitor Thiré, Tecca Maria e Luciana Fávero (fundadora da companhia ao lado de Gustavo Paso), além de Tatiana Sobral, Samir Murad, Dodi Cardoso, Renato Peres, Anna Hannickel, Laura Canabrava, Renato Ribone, Erick Villas e Eduardo Zayit, o encenador se favorece com a imponência do cenário criado pelo próprio (ele assina a direção de arte), possuidor de mais de um plano com rampas, entradas e escadas com apostas no branco, no preto e no cinza. Os figurinos de Graziella Bastos, assaz originais e eloquentes, ostentam caráter distópico/apocalíptico. A sublime trilha original executada ao vivo por André Poyart transita pelo lúgubre, pelo suspense, sem se distanciar do belo (reserva-se em momento oportuno uma emocionante surpresa com efeitos catárticos). A soberba iluminação de Paulo Cesar Medeiros enleva o público com sua sabedoria estética entre sombras, focos e gerais. O visagismo de Gustavo Paso, Graziella Bastos e Renato Ribone nos impacta pela sua força expressiva. “O Alienista”, com sua pujança textual e cênica, não só presta uma homenagem a Machado de Assis, mas o usa como instrumento legítimo para buscar a lucidez de suas plateias em um Brasil chafurdado por uma classe dirigente alienada, enlouquecida e insana, os reais pacientes de Simão Bacamarte.

Foto: Paulo Ruch

A atriz e produtora Mariana Ximenes na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, no Parque Cândido Portinari.

Paulistana, Mariana começou a se interessar pelas Artes Cênicas já na infância quando montou a sua primeira peça no colégio onde estudava.

Tempos depois, decidida a seguir a carreira artística estudou no Teatro Escola Célia Helena.

Estreou na TV muito jovem, com apenas 17 anos, na novela escrita por Walcyr Carrasco e exibida pelo SBT “Fascinação”, representando a personagem Emília.

Ainda neste mesmo ano, 1998, fez a sua estreia na Rede Globo participando de um episódio de “Você Decide” e do especial de fim de ano “Sandy & Junior”.

A estreia em telenovelas da emissora carioca foi vista no horário das 19h em uma trama de Euclydes Marinho, “Andando nas Nuvens”, em que interpretou a noviça Celina (Prêmio Qualidade Brasil Atriz Revelação).

Após uma rápida participação no folhetim “Força de um Desejo”, a artista sente o gosto do sucesso, principalmente entre as crianças, ao defender Bionda, papel criado por Carlos Lombardi para a sua história das sete da noite “Uga Uga” (recebeu o prêmio Qualidade Brasil Melhor Atriz, além do prêmio de Atriz Revelação no quadro “Melhores do Ano” no extinto “Domingão do Faustão”).

Sua próxima aparição na teledramaturgia da Globo ocorreu em um episódio da série “Brava Gente” (chegou a fazer um outro episódio mais tarde), sendo chamada posteriormente para integrar o elenco de sua segunda novela de Walcyr Carrasco, “A Padroeira” (viveu Izabel de Avelar).

A seguir vieram escalações para diferentes produções, como “Os Normais” e a “A Turma do Didi”.

Em 2003 faz a sua primeira minissérie na emissora, o drama histórico de Letícia Wierzchowski adaptado por Maria Adelaide Amaral e Walther Negrão, “A Casa das Sete Mulheres” (na obra, encarnou uma das sete corajosas mulheres que se veem ameaçadas durante a Revolução Farroupilha, Rosário).

Neste mesmo ano ganha o seu primeiro protagonismo em novelas ao personificar a heroína romântica Ana Francisca de “Chocolate com Pimenta”, escrita por Walcyr Carrasco para a faixa das 18h (esta produção de época foi um êxito de público e crítica).

Sua primeira oportunidade em estar numa trama do horário nobre veio com “América”, de Gloria Perez, cujo tema central era a emigração de brasileiros para os Estados Unidos e todas as adversidades por que passam até chegar lá, inclusive quando o conseguem (a Mariana coube o papel da rebelde Raíssa, que se destacou na produção).

Em seguida à boa repercussão de Raíssa, a intérprete marcou presença na minissérie “JK”, de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, além de ser uma das artistas principais do folhetim das sete de João Emanuel Carneiro, “Cobras & Lagartos”, como Bel, uma violoncelista órfã.

Outra telenovela importante em que assumiu uma das personagens centrais foi a eletrizante e elogiada “A Favorita”, de João Emanuel Carneiro, em 2008 (nesta obra, que elevou o autor a outro status, a atriz deu vida a Lara Fontini, filha da grande vilã da história, Flora, Patrícia Pillar).

Mais um momento marcante em sua carreira a esperava, incorporar sua primeira vilã, a Clara de “Passione”, de Silvio de Abreu (a vilania assistida no horário nobre era compartilhada com Reynaldo Gianecchini, Fred).

Dois anos depois, em 2012, estava de volta às produções televisivas, como “As Brasileiras” (protagonizou o episódio “A Adormecida de Foz do Iguaçu”) e o remake de “Guerra dos Sexos”, de Silvio de Abreu (a artista reviveu Juliana, personagem de Maitê Proença na versão original de 1983).

Seu próximo folhetim foi o vencedor do Emmy Internacional “Joia Rara”, de Thelma Guedes e Duca Rachid, no qual incorporou a vedete de cabaré Aurora Lincoln.

Em 2014 retorna à popular sitcom “A Grande Família” (já havia participado do longevo seriado em 2003).

Uma de suas atuações mais populares, em que pôde mostrar grande domínio da comédia, observou-se em “Haja Coração”, de Daniel Ortiz, novela levada ao ar em 2016 (“Haja Coração” é uma releitura de um dos maiores sucessos de Silvio de Abreu, “Sassaricando”, de 1987; Mariana recriou com brilho a espevitada feirante Tancinha, papel de Claudia Raia na primeira versão).

Ainda em 2016 assumiu um dos principais papéis da série de terror “Supermax”.

Foi vista como Adalgisa Bastos na minissérie de Ricardo Linhares “Se Eu Fechar Os Olhos Agora”, baseada no livro homônimo de Edney Silvestre.

Está na segunda temporada da série do Globoplay “Ilha de Ferro”, de Max Mallmann e Adriana Lunardi, como a Dra. Olívia Mossen.

A atriz possui um currículo invejável na área cinematográfica, na qual, além de atuar, produziu e dublou.

Em quase 40 filmes, entre longas e curtas-metragens, Mariana deu a sua contribuição para as produções “Caminho dos Sonhos”, de Lucas Amberg (sua estreia); “Dias de Nietzsche em Turim”, de Júlio Bressane; “O Invasor”, de Beto Brant (Melhor Atriz Coadjuvante no Festival do Recife; Prêmio Qualidade Brasil Melhor Atriz Coadjuvante; Grande Prêmio do Cinema Brasileiro Melhor Atriz Coadjuvante); “O Homem do Ano”, de José Henrique Fonseca; “Gaijin – Ama-me como Sou”, de Tizuca Yamasachi; “A Máquina”, de João Falcão; “Muito Gelo e Dois Dedos D’Água”, de Daniel Filho; “A Mulher do Meu Amigo”, de Cláudio Torres; “Bela Noite Para Voar”, de Zelito Viana; “Hotel Atlântico”, de Suzana Amaral; “Quincas Berro D’Água”, de Sérgio Machado; “Os Penetras”, de Andrucha Waddington; “O Gorila”, de José Eduardo Belmonte; “O Uivo da Gaita”, de Bruno Safadi; “Para Sempre Teu, Caio F.”, documentário de Candé Salles; “Quase Memória”, de Ruy Guerra; “Zoom”, de Pedro Morelli; “Prova de Coragem”, de Roberto Gervitz; “Uma Loucura de Mulher”, de Ligocki Jr.; “Um Homem Só” (Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Gramado), de Cláudia Jouvin; “Os Penetras 2 – Quem Dá Mais?”, de Andrucha Waddington; “D.P.A. – O Filme”, de André Pellenz; “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues; “L.O.C.A. – Liga das Obsessivas Compulsivas por Amor”, de Cláudia Jouvin; e “Capitu e o Capítulo”, de Júlio Bressane, ainda sem data de estreia.

No teatro, encenou quase uma dezena de espetáculos, além de ocupar as funções de consultora de projetos incentivados e gerente de planejamentos.

Algumas de suas peças que podemos destacar estão “A Rosa Tatuada”, de Tennessee Williams (contracenou com Louise Cardoso); o espetáculo “A Paixão de Cristo” (como Maria); “Os Lusíadas”; “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues; “Os Altruístas”, de Nicky Silver (direção de Guilherme Weber); e “Cara Palavra” (espetáculo on-line montado em 2020 com as atrizes Andréia Horta, Débora Falabella e Bianca Comparato).

Atualmente, Mariana Ximenes, uma das mais belas e talentosas atrizes de sua geração, encanta o público de TV com uma belíssima e delicada interpretação, desde já um marco em sua carreira, como Luísa, a Condessa de Barral, na novela criada e escrita por Thereza Falcão e Alessandro Marson, com direção artística de Vinícius Coimbra, “Nos Tempos do Imperador”, exibida às 18h na Rede Globo.

Seu Jorge é o protagonista do filme de estreia de Wagner Moura na direção/Foto: Divulgação

Após ser recebido com sucesso há dois anos no Festival de Berlim, excelente filme de estreia de Wagner Moura como diretor finalmente é lançado no país

Dois anos se passaram até que o público brasileiro tivesse o privilégio de assistir à estreia espetacular de Wagner Moura como diretor de filmes. Seu auspicioso début não poderia ter sido mais apropriado aos tempos sombrios em que vivemos, com a democracia sendo ameaçada frequentemente pelas altas esferas do poder. “Marighella” (2019), inspirado no livro “Marighella: O Guerrilheiro Que Incendiou O Mundo” (2012), do jornalista Mário Magalhães, exibido e aclamado no Festival de Berlim, resgata com brilhantismo parte da trajetória marcante do poeta e deputado baiano que decidiu aderir à luta armada para enfrentar a truculência da ditadura militar no Brasil (1964-1985).

O pujante roteiro de Felipe Braga e Wagner Moura oferece ao público uma espiral crescente de tensão mostrando explicitamente muitos dos horrores praticados pelo regime militar brasileiro

Desde a doída separação de seu filho Carlinhos (Renato Assunção e Francisco Matheus Bacelar de Araújo em diferentes fases; os dois jovens intérpretes se saem bem), deixado em Salvador, e de sua mulher Clara (Adriana Esteves) em São Paulo, até as confabulações logísticas de Carlos Marighella, o “Preto” (Seu Jorge, magistral), com o seu grupo político, no período de 1964 a 1969, quando é brutalmente executado, o longa, sustentado pelo pujante roteiro de Felipe Braga e Wagner Moura (alguns de seus diálogos contêm fina ironia), fisga os espectadores com sua espiral crescente de tensão e cenas dos horrores reais perpetrados pelo regime autoritário, representados por um visceral e assustador Bruno Gagliasso (Delegado Lúcio).

Tendo Chico Science & Nação Zumbi em sua trilha, “Marighella” é a prova de que o seu diretor estreante não só é hábil e talentoso como também é um filho que não foge à luta

Com um plano-sequência inicial que já se tornou histórico, flashbacks e cenas de ação de se tirar o fôlego, “Marighella” possui parcela significativa de takes registrados por steadycam, o que lhe confere extremo dinamismo e realismo. Merecem destaque a montagem vertiginosa de Lucas Gonzaga, a impecável direção de arte de Frederico Pinto, a estudada, por vezes crua e seca, fotografia de Adrian Teijido e a valiosa música de Antonio Pinto (a impactante canção de Chico Science & Nação Zumbi “Monólogo ao Pé do Ouvido” está na trilha). O elenco formidável é composto por um time engajado: Herson Capri (o jornalista Jorge Salles), Luiz Carlos Vasconcelos (Almir), Humberto Carrão (Humberto), Ana Paula Bouzas (Maria), Bella Camero (Bella), Adanilo (Danilo), Jorge Paz (Jorge), Charles Paraventi (Bob), Rafael Lozano (Rafael), Brian Townes (Wilson Chandler), Henrique Vieira (Frei Henrique) e Guilherme Ferraz (Guilherme). A irrepreensível preparação de elenco ficou a cargo de Fátima Toledo, responsável por produções como “Cidade de Deus” e “Cidade Baixa”. “Marighella”, em cartaz nos cinemas e lançado no último dia 4 no Globoplay, é uma obra devastadoramente urgente e patriota que nos prova que Wagner Moura não só é um hábil e talentoso cineasta como também é um filho que não foge à luta.

Assista ao trailer oficial do filme:

Valentina Herszage (Flávia), Wladimir Brichta (Neném), Mateus Solano (Guilherme) e Giovanna Antonelli (Paula) são os quatro protagonistas de “Quanto Mais Vida, Melhor!”/Foto: João Miguel Júnior/Globo

“Quanto Mais Vida, Melhor!” se encaixa com perfeição na faixa das 19h pois consegue com grande êxito abraçar o espírito e os gêneros que a caracterizam

Tramas das 19h costumam invariavelmente inserir em suas narrativas doses de leveza, comédia, ação, fantasia e aventura. Núcleos dramáticos são mais raros. O público cativo deste horário já imagina o que irá encontrar. Com a primeira novela inédita da Rede Globo nesta faixa após a pandemia (incluída com propriedade no texto), “Quanto Mais Vida, Melhor!”, criada e escrita por Mauro Wilson (“A Mulher Invisível” e “Doce de Mãe”, obras vencedoras do Emmy Internacional) os telespectadores encontraram tudo isso e muito mais. Vale dizer com camadas extras de qualidade. A aguardada produção escrita com Marcelo Gonçalves, Mariana Torres e Rodrigo Salomão reuniu quatro protagonistas bastante carismáticos e talentosos: Mateus Solano, Wladimir Brichta, Giovanna Antonelli e Valentina Herszage (a atriz despontou como a apresentadora Hebe Camargo nos filme e série homônimos). Os três primeiros possuem forte vocação para o humor, cabendo todavia a Mateus a responsabilidade pelo drama, exercendo-a com linda dignidade.

Os quatro protagonistas terão um encontro ao acaso em uma viagem de avião que marcará de vez as suas vidas

Na inventiva e bem urdida história de Mauro Wilson, com direção geral de Pedro Brenelli e artística de Allan Fiterman, Mateus Solano interpreta o arrogante e vaidoso cirurgião Guilherme, que vai mal no casamento com a ex-modelo internacional Rose (Bárbara Colen estreando com brilho em novelas depois de sua bem-sucedida passagem pelos cinemas em longas-metragens como “Aquarius” e “Bacurau”). Carol Macedo representa Rose na mocidade quando desfilava nas passarelas de Roma. A ex-modelo enfrenta a resistência ao seu casamento de sua sogra, a pernóstica Celina (Ana Lúcia Torre), cujo marido Daniel Monteiro, Tato Gabus Mendes, adota uma postura neutra. Os dois intérpretes, com suas experiências, conferem enorme credibilidade ao casal. Matheus Abreu recebeu a missão de personificar Antônio, filho de Guilherme, a quem confronta, e Rose. Mariana Sousa Nunes integra o núcleo do médico como Dra. Joana, que já em sua primeira aparição demonstrou ter ciúme de Guilherme. Wladimir Brichta compõe com charme e ironia Neném, um decadente jogador de futebol que já foi o camisa 10 da seleção brasileira além de fazer parte do escrete do Flamengo. Quando jogou no exterior, conheceu Rose, por quem se apaixonou. O jovem ator a quem coube defender Neném nesta fase se chama Leonardo Zanchin. O simpático jogador tem duas filhas, Martina (Agnes Brichta, filha de Wladimir) e Bianca (Sara Vidal), uma de cada casamento. Martina é filha de Jandira (Micheli Machado) e Bianca é filha de Betina (Carol Garcia). Todas moram na mesma casa com o ex-marido, que voltou a viver com a mãe Nedda devido ao seu complicado momento financeiro. Nedda, dona de um salão de beleza que sofreu os reveses da pandemia, é desempenhada pela ótima Elizabeth Savala, que imprime à sua personagem um ar de mãe acolhedora e compreensiva. Marcos Caruso encarna com a categoria de sempre o técnico de Neném, Osvaldo. A única chance que resta ao atleta é fazer um teste para a Ponte Preta em São Paulo. Giovanna Antonelli defende com saborosa desenvoltura a empoderada, agora falida, empresária dos cosméticos Paula Terrare. Sua empresa, a Terrare Cosméticos, também sofreu com a pandemia. Bruno Cabrerizo, esbelto e convincente, interpreta o vice-presidente da empresa Marcelo. Ambos mantém um ardente caso. Paula é ameaçada por sua maior rival, a também empresária do ramo de cosméticos Carmem (Julia Lemmertz muito bem com um visual “femme fatale”). Valentina Herszage assume com sua inata graça Pink/Flávia, uma dançarina de pole dance com problemas familiares e econômicos. Flávia se envolve com o roubo de uma mala com dólares incentivada pela colega de boate Cora (Valentina Bandeira). Jaffar Bambirra é Murilo, músico que trabalha na mesma boate, a “Pulp Fiction”. Jaffar em sua cena mostrou ter uma bonita voz ao entoar uma canção. O rapaz musicista se encanta por Flávia. Luciana Paes encarna com personalidade a sua madrasta Odete. Os quatro se encontrarão por acaso em uma viagem de avião a São Paulo que os levará a um final trágico e surpreendente. É justo que se ressalte que o piloto do avião tem como ator um hilário Gillray Coutinho (participação especial).

Direção espertíssima e moderna, impecáveis figurinos e fotografia, e maravilhosos efeitos especiais são alguns dos trunfos que marcaram a estreia de Mauro Wilson como autor titular de novelas

A direção de Allan Fiterman e Pedro Brenelli é espertíssima, moderna, ágil e engenhosa, com cortes e aproximações de câmera velozes. A equipe, que também é composta por Ana Paula Guimarães, Natalia Warth, Dayse Amaral Dias e Bernardo Sá, privilegiou os closes nos detalhes, nas tomadas de cena por cima, no acompanhamento bem próximo da movimentação dos personagens e na divisão de telas. Os excelentes figurinos são da tarimbada Natália Duran Stepanenko. A direção de fotografia de Henrique Sales realçou com beleza e elegância as cores e luzes de cada cena. Os efeitos especiais de Luiz Fernando e Marcelo Goulart são maravilhosos. “Quanto Mais Vida, Melhor!”, que marca a estreia de Mauro Wilson como autor titular de novelas, trouxe de volta à TV a boa sensação de que a vida ressurgiu. E não há nada melhor que isso!

Assista ao teaser oficial da novela:

Categorias: TV

No capítulo de quarta-feira, 10/11, os gêmeos Christian e Renato se encontram/Foto: Globo

Cauã Reymond se junta pela segunda vez ao seleto time de atores que enfrentaram o enorme desafio de encarar gêmeos em produções da emissora, como Tony Ramos e Glória Pires

Tramas cujos protagonistas são irmãos gêmeos tendem invariavelmente a atrair a atenção e cair no gosto do público. Novelas como “Baila Comigo”, de Manoel Carlos (1981, com Tony Ramos como João Victor e Quinzinho) e “Mulheres de Areia”, de Ivani Ribeiro (1993, com Glória Pires como Ruth e Raquel) não nos deixam mentir. Para que isso aconteça os gêmeos têm que apresentar personalidades muito distintas entre si, não sendo obrigatório que um seja mau e outro seja bom (“Baila Comigo” é um apropriado exemplo). Outro fator importante é que o ator ou atriz escalada entenda o desafio que está em suas mãos e o enfrente bem. Pelo primeiro capítulo da nova novela das 21h da Rede Globo, “Um Lugar Ao Sol”, criada e escrita por Lícia Manzo (“A Vida da Gente”, “Sete Vidas”), uma especialista em retratar o cotidiano do ser humano e seus conflitos mais comuns com grande domínio, vimos que Cauã Reymond cumpriu com larga competência sua árdua missão, defender os gêmeos separados na infância em Goiânia Christian e Christopher/Renato (Cauã já havia incorporado gêmeos na minissérie de Maria Camargo “Dois Irmãos”, baseada no livro homônimo de Milton Hatoum).

As vidas dos irmãos gêmeos Christian e Christopher/Renato são transformadas a partir do momento em que descobrem a verdadeira história de seus passados

Órfãos de mãe, falecida no parto, passam a ser criados pelo pai que, por não ter condições financeiras, entrega apenas um deles a um abonado casal (boas participações de Rafael Primot e Lorena Comparato) em férias que o leva para o Rio de Janeiro. Ao completarem 18 anos, percebemos a crítica da autora ao abismo social do país ao mostrar a oposição das festas e o perfil gerado nos aniversariantes pelo seu status. Christian é simples, trabalhador e determinado (criado num abrigo por Avany, Inez Viana, ótima numa participação especial). Ele possui um irmão de criação com algumas necessidades, Ravi, Lauan do Amaral Magalhães (a jovem promessa Juan Paiva o representa mais crescido). Tanto Ravi quanto Christian foram devolvidos ao abrigo pela mesma família que os adotou. Já Renato é um playboy mimado e irresponsável, educado pela superprotetora e leviana Elenice e pelo austero José Renato (os respeitados Ana Beatriz Nogueira e Genezio de Barros). Ambos os rapazes perdem no vestibular. Christian por não conseguir conciliar o trabalho com os estudos e Renato simplesmente por não querer estudar. Desiludido e ao saber da existência de seu irmão gêmeo por meio de seu pai legítimo Ernani, Marcio Vito, Christian ruma para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor (na verdade, pretende achar o seu irmão). Renato, chocado ao descobrir não ser filho biológico após a morte de seu pai, viaja para a Europa e se envolve num acidente, que o faz repensar seus atos (o maniqueísmo começa a se desfazer). Lá, conhece a bela Bárbara (Alinne Moraes; sempre prazeroso vê-la em cena). No Rio, morando numa comunidade e trabalhando como manobrista no aeroporto, o destino de Christian é cruzado com o da atraente e espontânea Lara (Andréia Horta excelente num papel diverso em sua carreira), fazendo-o com que reveja os seus sonhos.

Maurício Farias, diretor artístico, e André Câmara, diretor geral, fizeram um primeiro capítulo redondo, bem alinhavado, no qual a clareza e a fluidez da narrativa se sobressaíram

Os diretores artístico Maurício Farias e geral André Câmara expõem com clareza e fluidez a narrativa da obra. O capítulo ficou redondo, bem alinhavado, revelando aos espectadores com enorme mérito de que se trata a história, quais são os principais conflitos que desencadearão os demais. Houve também tomadas aéreas de admirável impacto visual, captadas nas capitais de Goiás e Rio de Janeiro. A equipe de direção é composta ainda por Vicente Barcellos, Clara Kutner, João Gomez, Pedro Freire e Maria Clara Abreu. A direção de fotografia ficou sob o comando de Inti Briones, Chico Rufino e Alexandre Fructuoso. O trio se utilizou de uma paleta ampla de possibilidades neste episódio de estreia, como matizes mais desbotados em algumas cenas (com direito à luz estourada), adoção de cores mais fortes e realçadas (como no momento em que Lara está dançando numa roda de samba e conhece Christian) e o aproveitamento das luzes artificiais das ruas cenográficas, resultando num bonito efeito. A produção musical ocupou um lugar de destaque na trama. Os produtores Branco Mello, Márcio Lomiranda e Mú Carvalho abraçaram com afeto a brasilidade de nossas canções, a começar pelo empolgante tema de abertura, “Sulamericano”, uma parceria de BaianaSystem e Manu Chao, além de “Explode Coração” na versão de Zizi Possi e “Ser Feliz”, de Caraivana. Escrita com Leonardo Moreira e Rodrigo Castilho, e tendo uma participação especial adorável de Tonico Pereira como o professor Romero, “Um Lugar Ao Sol” parece ter conquistado o seu lugar. Parece não, conquistou.

Assista ao teaser oficial de “Um Lugar Ao Sol”:

Categorias: TV

Camila Queiroz (Angel) entre Romulo Estrela (Cristiano) e Agatha Moreira (Giovanna), o explosivo trio de “Verdades Secretas II”/Foto: Pedro Pinho

“Verdades Secretas”, exibida em 2015, impactou o público ao abordar temas tabus na televisão brasileira, como prostituição de luxo e dependência química em crack, tendo como um de seus principais cenários uma agência de modelos

Em 2015 Walcyr Carrasco impactou o público com um conjunto de personagens amorais numa sedutora trama das 23h exibida pela Rede Globo que continha prostituição de luxo (promovida por meio do chamado “book rosa”), tráfico de drogas (entorpecentes sintéticos), dependência química (em específico o crack) e toda a sorte de traições, tendo como um de seus principais cenários uma agência de modelos, a Fanny Models (Marieta Severo interpretava Fanny Richard, a proprietária da agência). A novela ganhadora do Emmy Internacional “Verdades Secretas”, reprisada atualmente em edição especial na emissora, deixou em aberto no seu final a possibilidade de uma sequência. A mente produtiva e inquieta do autor criou assim “Verdades Secretas II”, lançada no último dia 20 de outubro ao vivo no Globoplay para assinantes e não assinantes (para estes, somente o primeiro episódio), tornando-se a primeira novela original da plataforma de streaming.

A trama de Walcyr Carrasco traz de volta as atrizes Camila Queiroz e Agatha Moreira, que brilharam na novela original como Angel e Giovanna respectivamente, e um dos atores mais disputados do momento, Romulo Estrela

A história, escrita com Marcio Haiduck, Nelson Nadotti e Vinicius Vianna, inicia-se com a ex-modelo Angel (Camila Queiroz adotando o novo tom de arrogância do papel) em apuros financeiros após o fatal e nebuloso acidente automobilístico que vitimou o seu marido Guilherme (Gabriel Leone). Atolada em dívidas e com um filho pequeno para cuidar, Fabrício (Bernardo Lessa; a criança sofre de uma grave doença), a outrora inocente Arlete decide retomar a carreira na moda com a ajuda de seu amigo, o booker Visky (Rainer Cadete mantém a fórmula do sucesso de seu personagem), agora trabalhando em outra agência de São Paulo, capitaneada por Blanche (a luxuosa presença da atriz portuguesa Maria de Medeiros; Maria ganhou o mundo com a sua participação no filme de Quentin Tarantino “Pulp Fiction”, de 1994). O que Angel não supunha é que o lado sombrio do qual fez parte um dia continua vigente, desta vez na empresa de Blanche. Já Giovanna (Agatha Moreira selvagem e sensual; a atriz ostenta cabelos curtos e loiros), egressa de Paris, onde trabalhou como modelo, é movida pela sanha de provar que Angel matou o seu pai, o empresário Alexandre Ticiano (Rodrigo Lombardi). Para isso, contrata os serviços de Cristiano (Romulo Estrela com forte presença cênica; o intérprete, que vem colecionando protagonistas desde a novela “Deus Salve o Rei”, está em ótima forma física), um misterioso ex-policial com quem acaba se envolvendo.

Amora Mautner, a quem cabe a direção artística da produção do Globoplay, imprimiu à obra uma sofisticação visual impressionante, fazendo inclusive alusão ao clássico hitchcockiano “Janela Indiscreta”, com cenas que desnudam o cotidiano dos personagens por meio de suas janelas

Neste primeiro capítulo, vimos bons embates entre Angel e Giovanna e um promissor jogo sexual entre esta e o investigador (há uma deliciosa cena de dança entre ambos muito bem coreografada; mérito da coreógrafa e professora de dança Grazzy Brugner). Amora Mautner, diretora artística, coloca suas fichas com arrojo na sofisticação visual dos takes, imprimindo a “Verdades Secretas II” um timing qualitativo próprio do cinema e das séries do streaming. A diretora abraçou com notável propriedade o legado hitchcockiano do clássico de 1954 “Janela Indiscreta” (“Rear Window”) ao desvelar o cotidiano dos personagens Angel, Giovanna e Cristiano através das janelas de seus prédios. O efeito é fantástico. Por sinal, a maneira como retrata em imagens a fileira de edifícios paulistanos é um primor. A direção também incorporou à narrativa grafismos coloridos que indicam nomes e horários, o que lhe confere um caráter moderno. Amora conta com a valiosa direção dos cineastas Bruno Safadi (“Love Film Festival”), Gabriela Amaral Almeida (“O Animal Cordial) e Fellipe Barbosa (“Gabriel e a Montanha”). A estonteante fotografia de Andre Horta explora os muitos néons e ambientes esverdeados de uma São Paulo com tintas futuristas, como o edifício-garagem onde ocorre o encontro de Cristiano e Giovanna. O primeiro capítulo nos trouxe de volta bons atores de “Verdades Secretas”, como Guilhermina Guinle (Pia), Dida Camero (Lurdeca), Gláucio Gomes (Robério), João Vitor Silva (Bruno) e Adriano Toloza (Igor). Na trama, também estão os excelentes Maria Luisa Mendonça (em participação especial, defende a angustiada Araídes, uma antiga amante do pai de Guilherme, com quem teve uma filha, Lara, Julia Byrro), Sérgio Guizé (Ariel, dono de uma boate, a Radar Club) e Gabriel Braga Nunes (Percy, o milionário sócio de Ariel que se interessará por Angel). Ícaro Silva e Erika Januza são mais dois nomes da história que prometem. Ícaro representa o modelo Joseph, amante de Blanche, com quem Visky terá um affair. E Erika vive a modelo Laila, casada com Ariel, a qual será obrigada pela dona da agência Blanche Models a consumir remédios para emagrecer. Com uma selecionadíssima produção musical de Eduardo Queiroz, que inclui “Flerte Revival” na voz de Letrux, e “Two Weeks” (tema de abertura), de FKA Twigs, “Verdades Secretas II” se consagra como um ótimo thriller erótico/policial, não sendo segredo para ninguém que o público está preso com a técnica do “shibari” aos seus próximos capítulos.

Assista ao trailer oficial de “Verdades Secretas II”:

Lucas Oradovski caracterizado como a intrigante e sedutora figura burlesca do belo documentário de Manuh Fontes/Foto: Leandro Pagliaro/Divulgação

Responsável pelo argumento, a atriz e produtora Maytê Piragibe se lança em um delicado projeto pessoal que visa a esmiuçar o processo de criação artística, valendo-se dos depoimentos de atores de gerações diversas

“Talvez criar não seja nada mais do que se lembrar profundamente”. Com este pensamento sobre a criação do filósofo e poeta tcheco Rainer Maria Rilke se inicia o envolvente documentário com argumento de Maytê Piragibe e roteiro e direção de Manuh Fontes “Mise en Scène – A Artesania do Artista” (2021), disponível recentemente no catálogo do Globoplay. Vários atores de inegável relevância e outros talentos mais jovens foram convocados por Manuh a darem os seus esclarecedores depoimentos sobre seus processos de criação artística, entremeados com suas visões particulares acerca da infância, vida, política e morte.

Neste documentário livremente inspirado na obra do filósofo Rilke, o público descobre como surgiu a paixão de Antonio Fagundes pela leitura e como Marco Nanini se comporta atualmente com relação ao tempo

Livremente inspirada na obra de Rilke, a cineasta inseriu acertadamente belas citações na voz cristalina de Gloria Pires. Entre uma fala e outra, há as aparições idílicas de uma figura burlesca (Lucas Oradovski; excelente em sua expressão corporal; esta mesma figura se relaciona com uma menina sorridente, Violeta Piragibe, filha de Maytê). Antonio Fagundes relata que uma enfermidade na infância o levou a ficar acamado por seis meses, fazendo-o se apaixonar pela leitura (ele valoriza ainda o hábito da observação). Fagundes, em tom assertivo, diz que o teatro é a “pátria do ator”. Marco Nanini revela que precisa se despir do personagem, não levá-lo consigo. Ele confessa estar passando por uma fase mais contemplativa em sua vida, com uma perspectiva sobre o tempo distinta de quando era mais jovem. Zezé Motta afirma que ao compor uma música pensa logo em uma personagem. A atriz de filmes de sucesso como “Xica da Silva” (1976) e “Quilombo” (1984) não hesita em defender que os artistas devem assumir uma posição política, além de nos contar uma experiência pessoal de violência na época da ditadura militar. Cássia Kis não estima o termo “interpretar” e sim “estar presente, viver”. Cássia levanta ilações de que ninguém sabe como o outro nos enxerga, dizendo que nem ela mesma sabe quem é. Dira Paes discorre sobre o “deslocamento de energia” na atuação, falando também sobre a necessidade de se ter um foco. A intérprete paraense que começou a sua carreira ainda muito menina em um filme do diretor inglês John Boorman, “A Floresta das Esmeraldas” (1985), reflete que a composição de uma personagem se inicia a partir do momento em que calça os seus sapatos. Camila Pitanga assevera que a dança sempre teve um papel importante em sua vida na expressão artística (há uma cena em que Camila divide um instante espontâneo ao piano com a sua filha Antonia Pitanga). Maytê Piragibe recorre a rituais terapêuticos (cristais, aromaterapia etc) para se desprender de possíveis energias pesadas colhidas em uma cena específica. Maytê encena performances em uma praia ornada com instalações. Gabriel Leone confidencia-nos acerca de sua relação ambígua com o espelho, sem desmerecer a sua significância na criação de um papel. O ator nos apresenta um processo criativo com todas as suas etapas em que se transforma em um ser feminino. Bruno Fagundes assegura-nos que as cores ocupam uma função precípua em seu processo de criação. Em certa ocasião, o filho de Antonio Fagundes lança mão de tintas coloridas, espalha-as em uma tela em branco sobre o chão com as suas próprias mãos, deixando que aflore seu furor criativo. O colombiano Gustavo Miranda se diz encantado com a riqueza cultural de nosso país, referindo-se sobretudo à efervescência da cidade de São Paulo, na qual sempre há um lugar onde se pratica a arte. O bailarino também colombiano Mauricio Flórez se encarrega de executar plásticos e harmônicos movimentos corporais.

“Mise en Scène – A Artesania do Artista” é antes de tudo uma produção que cumpre seu papel de louvor à cultura com inegável magnitude

A direção de fotografia de Leandro Pagliaro (produtor executivo juntamente com Manuh Fontes e Maytê Piragibe) prima pelo bom gosto, com o aproveitamento de luzes naturais e indiretas, como abajures e velas, logrando um exitoso resultado. O belo documentário de Manuh Fontes, que exibe sensibilidade na direção e coerência no roteiro, apoia-se na poética e fluente trilha de Lucas Marcier e Rodrigo de Marsillac e na bem conduzida montagem de Isabel Salomon. “Mise en Scène – A Artesania do Artista”, que concorreu ao Prêmio de Melhor Documentário no Festival Independente de Toronto, no Canadá, alveja públicos que se engajam no aprimoramento das artesanias de suas criações de vida pessoais e artísticas, cumprindo seu papel de louvor à cultura com inegável magnitude.

Assista ao trailer oficial do documentário: