Saja Kilani interpreta uma das voluntárias da organização humanitária Crescente Vermelho que tenta resgatar a menina Hind Rajab em uma área de conflito em Gaza/Foto: Divulgação
Um filme que em seus créditos finais nos provoca o mais doloroso dos silêncios
O que resta durante os créditos finais de “A Voz de Hind Rajab” (“Sawt Hind Rajab”, “The Voice of Hind Rajab”, Tunísia, França, 2025), vencedor do Grande Prêmio do Júri (Leão de Prata) do Festival de Veneza 2025, forte candidato ao Oscar de “Melhor Filme Internacional”, é o mais doloroso dos silêncios. O lancinante drama/thriller psicológico baseado em acontecimentos reais dirigido e roteirizado pela tunisiana Kaouther Ben Rania (“As 4 Filhas de Olfa”, 2023) retrata as angustiantes horas que se passam enquanto em janeiro de 2024 voluntários do Crescente Vermelho (organização humanitária ligada a Cruz Vermelha), localizada na Palestina, comunicam-se minuto a minuto com uma menina de 6 anos, Hind Rajab, presa em um carro em Gaza junto aos familiares mortos após ataques israelenses.
A diretora e roteirista Kaouther Ben Rania nos mostra o quanto é frágil o limite entre a racionalidade e a emoção dos voluntários de uma organização humanitária em situações-limite
A obra, com fotografia crua, movimentos de câmera rápidos e trepidantes e closes bem fechados em seus atores, captura o espectador com doses elevadíssimas de tensão, colocando em debate toda a burocracia presente no resgate de feridos em um estado de guerra, cuja demora pode custar vidas. Kaouther Ben Rania foi bastante cuidadosa e sensível no tratamento de seu roteiro, mostrando-nos o quanto o limite entre a racionalidade e a emoção/empatia dos voluntários de uma organização desta magnitude em situações-limite pode ser frágil.
Uma escolha pungente da diretora é o uso da voz real da menina Hind em seus diálogos com o Crescente Vermelho e seus parentes.
A existência de uma obra como “A Voz de Hind Rajab” é indispensável como prova da estupidez das guerras
O elenco, formado por Saja Kilani, Motaz Malhees, Clara Khoury e Amer Hlelel, fornece-nos interpretações arrebatadoras.
“A Voz de Hind Rajab” é um filme incômodo, difícil de se assistir pela dor que a sua realidade nos causa, porém a sua existência é indispensável como prova legítima da estupidez das guerras e principalmente de quem as causa, a raça humana.
Wagner Moura, vencedor no Festival de Cannes na categoria “Melhor Interpretação Masculina” tem grandes chances de ser indicado ao Oscar/Foto: Divulgação
Kleber Mendonça Filho se mantém leal aos seus princípios e valores ao retratar a jornada tempestuosa do personagem central
Kleber Mendonça Filho, um dos cineastas mais relevantes do país, é um artista antes de tudo inquieto. Inquieto com opressões de quaisquer tipos e mazelas sociais de toda sorte. Esse olhar desassossegado é percebido em sua rica filmografia (“O Som Ao Redor”, 2012; “Aquarius”, 2016; “Bacurau”, 2019; e “Retratos Fantasmas”, 2023). Em sua mais recente obra, “O Agente Secreto” (Brasil, França, Países Baixos e Alemanha, 2025), vencedor de 2 prêmios no Festival de Cannes (Melhor Interpretação Masculina para Wagner Moura e Melhor Direção) e uma infinidade de outras láureas, Kleber, também roteirista, mantém-se leal aos seus princípios e valores ao retratar a jornada tempestuosa de Marcelo/Armando (Wagner Moura), um competente pesquisador universitário na área de Engenharia, que sai de São Paulo rumo a Pernambuco em busca de seu filho, acolhimento e proteção dos que compartilham as mesmas ideias políticas em um ano, 1977, ainda regido pelos mandos e desmandos de uma ditadura militar.
Respaldado por um elenco que defende com grandeza a missão de seus papéis, Wagner Moura está decerto em seu apogeu artístico
Dividido em atos, com direito a pertinentes flashbacks, o thriller/drama que não dispensa elementos surrealistas e menções cinematográficas, segura o espectador na poltrona em suas 2h40min graças, dentre outras virtudes, à elevada tensão, acompanhante fiel da narrativa, e à natural identificação com o personagem central. Wagner Moura, alvo de justificadas especulações sobre uma possível indicação ao Oscar ®️, está decerto em seu apogeu artístico, sabendo dosar com extraordinária habilidade técnica e emoção, cortando toda peça de composição excessiva, o que resulta em uma atuação espantosamente crível. Wagner se vê muito bem respaldado por um elenco que defende com grandeza a missão de seus papéis, como Tânia Maria, Maria Fernanda Cândido, Alice Carvalho, Luciano Chirolli, Gabriel Leone, Thomás Aquino, Isabél Zuaa, Hermila Guedes, Roney Villela, João Vitor Silva, Licínio Januário e Marcelo Valle. Com impecável fotografia de Evgenia Alexandrova e magnífica direção de arte de Thales Junqueira, “O Agente Secreto” espiona e acha o bom cinema.
O ator australiano Jacob Elordi encarna a criatura que ganhou vida pelas mãos do Dr. Victor Frankenstein, interpretado por Oscar Isaac/Divulgação/Netflix
Nada mais natural que o diretor de obras como o “O Labirinto do Fauno” e “A Forma da Água” desejasse imprimir a sua visão sobre o célebre livro de Mary Shelley
Guillermo Del Toro, cineasta, roteirista e produtor mexicano, consagrou-se mundialmente por levar às telas de cinema obras abertamente fantasiosas que se alinhavam com o terror. Nada mais natural então que o diretor de filmes como “O Labirinto do Fauno” (2006) e “A Forma da Água” (2017, vencedor do Oscar de “Melhor Filme” e “Melhor Direção”), desejasse imprimir o seu olhar sobre uma das histórias fantásticas mais apreciadas ao longo dos tempos, a do cientista Victor Frankenstein e sua criatura, originalmente publicada pela escritora britânica Mary Shelley em 1818 com o título “Frankenstein ou o Prometeu Moderno” (já são conhecidas representações clássicas na Sétima Arte do livro de Mary, como a do diretor James Whale, “Frankenstein”, 1931, com Boris Karloff).
A escalação de Jacob Elordi, bonito ator australiano, causa-nos uma dualidade de impressões, já que a criatura não transmite como de costume uma imagem assustadora
A produção de Guillermo disponível na Netflix, a qual não aboliu a estética gótica do romance em que se baseia, veio se somar com êxito à seleta lista dos que se atreveram a reproduzir os episódios que levaram o homem da ciência a desafiar Deus e a morte. Responsável também pelo roteiro, Del Toro se esmerou nos detalhes e não preteriu os diálogos fartos e a narração em off, fazendo com que o espectador obtivesse todo o esclarecimento de sua narrativa. Ainda quanto à sua recriação cinematográfica, algo que a diferencia de outras versões é a escalação do bonito ator australiano Jacob Elordi para personificar a criatura, geralmente assustadora, e neste caso não, causando-nos uma dualidade de impressões. Ademais, seu perfil comportamental em que há nobreza de espírito e altruísmo nos gera maior empatia com a sua penosa condição. A direção conduz com eficiência de sobra a grandiloquência do longa, que possui belíssimos design de produção (Tamara Deverell e Sean Bailey) e fotografia (Dan Laustsen).
Um filme que nos garante legítimo alumbramento
O elenco, talentoso, contribui para o bom resultado da empreitada, contando com, além de Jacob, Oscar Isaac como Victor Frankenstein, Mia Goth (neta da atriz Maria Gladys), Christoph Waltz e Felix Kammerer. Guillermo Del Toro, um esteta por natureza, garante-nos legítimo alumbramento.
Rafael Vitti interpreta Pedro, um chef de cozinha que tem a sua vida virada de cabeça para baixo após o diagnóstico de uma grave doença enquanto cuida de seu cão Caramelo/Divulgação/Netflix
Assim como “Beethoven, O Magnífico” e “Marley & Eu”, filmes do mesmo filão, “Caramelo” atinge espectadores distintos em busca de emoçõese diversão
Filmes que abordam a relação entre humanos e cachorros já saem na frente pelo histórico milenar de afetuosidade entre ambos. Longas-metragens de sucesso como “Beethoven, O Magnífico” (1992) e “Marley & Eu” (2008) servem como atestado desse apelo junto ao público. “Caramelo” (2025), dirigido por Diego Freitas, roteirizado por ele, Rod Azevedo e Vitor Brandt, lançado recentemente pela Netflix, abraça com inegável êxito este atraente filão capaz de reunir distintos espectadores em frente à TV ou outro meio em busca de emoção, entretenimento e reflexões.
A despeito do tema inevitavelmente espinhoso, direção e roteiro conferem à produção várias camadas positivas
A obra protagonizada por Rafael Vitti, em uma atuação dramática sobeja em qualidades jamais vista em sua bem-sucedida carreira, e pelo cãozinho travesso Caramelo (Amendoim), atende fartamente aos predicados elencados acima ao abordar a comovente história do sous chef Pedro que, após ser promovido a chef de um refinado restaurante, descobre ser portador de uma gravíssima doença, o que o faz rever todos os seus planos, tendo ao mesmo tempo que lidar com os cuidados do animal que o elegeu como tutor. A despeito do tema inevitavelmente espinhoso, Diego Freitas, com a sua direção e o roteiro, garante ao público muitos momentos belos, divertidos, leves, de ação e romance, conferindo à produção várias camadas positivas, sendo amparado por uma fotografia luminosa, viva, de Kauê Zilli. O cast, bem escalado, reúne uma trupe de ótimos atores engajada com a proposta fílmica: Carolina Ferraz, Kelzy Ecard, Arianne Botelho, Olívia Araújo, Cristina Pereira, Roger Gobeth , Noemia Oliveira, Bruno Vinícius, Ademara e Paola Carosella.
“Caramelo” é um filme honesto com suas próprias belezas, devendo ser assistido por todas as famílias, incluindo seus melhores amigos de quatro patas, isso, claro, se eles deixarem.
Alana Cabral, Sophie Charlotte e Dira Paes são as três Graças do folhetim das 21h da Rede Globo/Estevam Avellar/TV Globo
“Três Graças” recebeu a incumbência de despertar o interesse do público que ficou ligado na adaptaçãode “Vale Tudo”
Após a enorme repercussão da adaptação de “Vale Tudo” (2025), coube ao experiente autor Aguinaldo Silva, dono de sucessos absolutos como a própria “Vale Tudo” original de 1988 (escrita ao lado de Gilberto Braga e Leonor Bassères), “Tieta” (1989) e “Senhora do Destino” (2004), todas obras exibidas na Rede Globo, e aos roteiristas Virgílio Silva e Zé Dassilva, manter em frente à TV o público que se delicia com um bom melodrama, aquele com direito a heroínas aguerridas (Gerluce, Sophie Charlotte), vilãs arquetípicas (Arminda, Grazi Massafera) e suas vítimas e o mocinho/galã (Paulinho Reitz, Romulo Estrela) que surge inesperadamente no meio do caminho das primeiras.
O tema das mães solo, problema de saúde pública e social do país, ocupa um espaço relevante na trama
Aguinaldo é um dos poucos novelistas atuais que sabe exatamente do que os espectadores gostam, e ciente disso, colocou todos os ingredientes mencionados e mais alguns temperos no primeiro capítulo da nova novela das 21h da Rede Globo. Neste entroito narrativo, apreciamos o legítimo debate sobre o problema de saúde pública e social das mães solo no Brasil, representado na figura das Maria das Graças (Sophie Charlotte, Dira Paes como Lígia e Alana Cabral como Joélly). O empresário inescrupuloso e dissimulado Feretti (Murilo Benício) que ganha fortunas ajudado pela amante Arminda com a adulteração de remédios nos lembra um fato bárbaro recente no noticiário. A doença neurológica com lapsos de memória de Josefa (Arlete Salles), mãe de Arminda e avó de Raul (Paulo Mendes) é negligenciada pelos próprios, não se tratando de uma surpresa no contexto real.
Direção caprichada e elenco que promete manter a sua força com talento
A direção caprichada com zooms acelerados e impactantes e tomadas aéreas espertas de drones do diretor artístico Luiz Henrique Rios, que conta com a direção geral de Luis Felipe Sá, indica que o profissional e seus colaboradores vieram para deixar suas marcas. O elenco lançou sua força e promete segurá-la com todo o talento (tivemos ainda as presenças de Gabriela Loran como a farmacêutica Viviane, Gabriela Medvedovsky como a estagiária policial Juquinha, Augusto Madeira como o porteiro Rivaldo e Rodrigo García como o assistente pessoal de Feretti Macedo). Enfim, a função do primeiro capítulo de uma novela que é a de nos mostrar um apanhado geral e interessante do que iremos assistir foi cumprida, valendo muito a pena sintonizar “Três Graças” depois do telejornal nacional.
Rodrigo Santoro interpreta um simplório barqueiro que auxilia Tereza, Denise Weinberg, a realizar um sonho antes de ser confinada compulsoriamente em um local exclusivo para idosos por determinação do Estado/Foto: Guillermo Garza/Divulgação
Premiado com o Urso de Prata em Berlim, o filme mostra um Estado autoritário que obriga os idosos a se afastarem da sociedade em prol de uma economia mais producente
O diretor recifense Gabriel Mascaro tem um reconhecido pendor para abordar com excelência temas distópicos em seus filmes. Em “Divino Amor” (2019), o alerta aos riscos do extremismo religioso em um futuro obscuro nos foi dado. Agora, em “O Último Azul” (Brasil, Chile, México, Países Baixos, 2025), vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim (Grande Prêmio do Júri), Gabriel, também roteirista ao lado de Tibério Azul, não se furtou a colocar o avesso da utopia como pano de fundo para nos narrar a história de Tereza (Denise Weinberg), uma operária septuagenária de uma fábrica situada nos rincões da Amazônia que vê o seu mundo ruir após a decisão segregacionista de um governo autoritário e corrupto de isolar pessoas idosas em áreas determinadas a fim de robustecer a economia local somente com a força de trabalho jovem. A pujante denúncia que o criativo e bem alinhavado roteiro da dupla levanta sobre práticas etaristas na sociedade encontra respaldo no que vivenciamos de forma mais ou menos explícita nos tempos atuais em que se agrega exacerbado valor à juventude.
“O Último Azul” reforça o momento glorioso do cinema brasileiro tanto aqui quanto no exterior
O longa-metragem, com inebriante fotografia de Guillermo Garza (além dos filtros, imagens de locais amazônicos que embasbacam), reuniu um elenco de peso, com Denise Weinberg estupenda como a mulher que deseja realizar o sonho de voar de avião antes de perder a liberdade e Rodrigo Santoro fantástico como Cadu, um simplório barqueiro que surge em seu caminho. Ambos estão muitíssimo bem acompanhados por intérpretes que abrilhantam a obra de Mascaro: a atriz cubana Miriam Socarrás, Clarissa Pinheiro, Adanilo e Rosa Malagueta.
“O Último Azul”, que nos faz rir da tragicidade dos absurdos cada vez mais possíveis da existência coletiva, reforça o glorioso momento do cinema brasileiro tanto aqui quanto no exterior, provando que não nos falta capital artístico de qualidade (ideias, atores, técnicos) que nos faça querer voar tão alto quanto Tereza.
Jesuita Barbosa caracterizado como Ney Matogrosso na época em que o cantor integrava o grupo Secos & Molhados/Foto: Divulgação/Netflix
“Homem Com H” acerta ao escalar Jesuita Barbosa para viver Ney Matogrosso, um artista único com personalidade forte e contestadora
Talvez um dos maiores desafios para um diretor que queira fazer uma cinebiografia de um grande artista, no caso um dos mais respeitados do país, Ney Matogrosso, marcado não só pelo seu talento único mas também por sua personalidade forte e contestadora, seja garimpar e encontrar o nome certo para interpretá-lo de forma que se evite a imitação, o mimetismo, e sim que se construa a sua persona com emoção, senso de observação aguçado e profundos estudo e pesquisa, oferecendo-nos a sua versão mais verdadeira e crível do retratado. Esta missão nada fácil foi cumprida com infinito esplendor, deslumbramento, por Jesuita Barbosa, um ator que distribui sensibilidades por onde quer que passe, no adorável, sensível e bem cuidado longa de Esmir Filho, “Homem Com H” (2025), também roteirista da obra, baseada no livro de Julio Maria, “Ney Matogrosso: A Biografia”.
Esmir Filho, diretor e roteirista, dentre tantos méritos, açambarca toda a trajetória do artista, na medida exata, passando pela infância e culminando na consagração absoluta
Dentre os tantos méritos de Esmir está a sua larga capacidade, respeitando-se a lógica cronológica, de açambarcar na medida exata toda a trajetória riquíssima do ídolo nascido em Bela Vista (MS), passando pela infância com a educação severa do pai (Rômulo Braga), o serviço militar, o início da carreira com suas discordâncias no Secos & Molhados, a censura que sofreu na ditadura militar, sua virada na profissão como cantor solo, sua relação difícil com a imprensa, seus romances com mulheres e homens, como o cantor e compositor Cazuza (Jullio Reis) e o médico Marco de Maria (Bruno Montaleone), com quem se casou, a perda de amores e amigos pela epidemia de Aids, a consagração absoluta e os sucessos que se eternizaram, como “Rosa de Hiroshima” e “Bandido Corazon”.
Um elenco talentoso e comprometido com a responsabilidade que lhe foi dada
O elenco conta com atores talentosos assaz comprometidos com a responsabilidade que lhes foi dada, brilhando com fulgor, como Rômulo Braga, Hermila Guedes, Davi Malizia, Jullio Reis, Bruno Montaleone, Augusto Trainotti, Carol Abras e Lara Tremoroux.
“Homem com H”, com edição inspirada de Germano de Oliveira (notem a cena em que Jesuita canta “Homem Com H”), deve ser visto pelas suas qualidades artísticas e por nos revelar parte valiosa da nossa cultura por meio da história de uma revolução chamada Ney Matogrosso.
Analu Prestes interpreta a professora aposentada Maria Emília no monólogo adaptado de um conto de Lygia Fagundes Telles/Foto: Alexia Maltner
Sílvia Monte, diretora e produtora, idealizou e adaptou pela primeira vez para o teatro o conto “Senhor Diretor”, integrante da obra “Seminário dosRatos“
Estamos vivendo atualmente não só no Brasil, como em vários outros países, o recrudescimento de correntes político/ideológicas de viés reacionário as quais se balizam na defesa enfática em prol da sociedade de costumes tradicionais e de uma moral atentatória às liberdades individuais. Pensamentos como esses sempre existiram, mas a sua emergência após tantas conquistas é, de fato, um preocupante retrocesso. A grande escritora Lygia Fagundes Telles, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), vencedora do Prêmio Camões e primeira brasileira a ser indicada ao Prêmio Nobel de Literatura, já abordava com excelência este tema em seu conto “Senhor Diretor”, integrante da obra “Seminário dos Ratos”, lançada em 1977. Sílvia Monte, diretora e produtora, ciente desses movimentos e convencida da relevância dos escritos da autora de romances como “Ciranda de Pedra” (1954) e “As Meninas” (1973), idealizou e adaptou com beleza e sensibilidade pela primeira vez para o teatro o conto que discorre sobre um dia na vida, o seu aniversário, de Maria Emília, uma professora paulista aposentada com 62 anos de idade, que ao caminhar pelas ruas de São Paulo se indigna ao se defrontar com uma capa de revista em uma banca de jornal em que se encontra um casal em trajes menores abraçado, decidindo de pronto escrever uma carta de protesto para o diretor do impresso “Jornal da Tarde”.
Vê-se na peça uma valorização bem-vinda das palavras em seu infinito esplendor
A partir desta decisão de Maria Emília, a estrutura dramatúrgica do monólogo é elaborada, pois a personagem ao imaginar o que escreveria para o “senhor diretor” mergulha em um processo íntimo de reavivamento de suas memórias concomitante às suas impressões demasiado pessoais acerca de assuntos sensíveis à humanidade, como envelhecimento, sexualidade, desejos, loucura e morte. Apesar do desfile de suas posições castradoras, com as quais ela mesma se confunde vez ou outra, mostrando em alguns instantes um olhar positivamente aceitável, como a sua crítica às propagandas em massa, Maria Emília conquista a plateia com a sua sutil ironia e acachapante sinceridade. Sílvia Monte nos proporciona com a sua adaptação e direção uma montagem realçada por inúmeras qualidades, sendo uma delas a de amalgamar com precisão e destreza as linguagens literária e teatral, provando ser cada vez mais possível beber na fonte riquíssima que são as obras de nossos magnos escritores. O que se vê na peça em sua completude é uma valorização bem-vinda das palavras em todo o seu infinito esplendor. Ouvi-las de um conto de Lygia Fagundes, adoravelmente distribuídas em suas frases claras, diretas e límpidas, embevece qualquer espectador que se encante com a nossa língua pátria. Outros pontos significativos de sua direção são a diversidade de marcações pensadas com acurada visão cênica, explorando todas as possibilidades do tablado, a inserção das músicas em momentos-chaves do entrecho e a absoluta confiança depositada no reconhecido talento de Analu Prestes.
Analu Prestes atinge com sublimidade todas as camadas da complexa e difusa personalidade da professora Maria Emília
Analu Prestes, atriz santista com imenso prestígio nos palcos brasileiros, também respeitada pelas suas contribuições nas áreas das Artes Plásticas, Cenografia e Figurinos, prova-nos com a sua fineza interpretativa e a sua inteligência na condução das emoções o quanto a sua escolha para viver Maria Emília foi perfeita. Bonita, carismática, dona de uma voz canora, Analu atinge com sublimidade todos as camadas da complexa e difusa personalidade da professora que se refugiou à tarde em uma sala de cinema. A intérprete, meticulosa na composição de sua personagem, atribuindo importância aos pequenos gestos, como a colocação de um par de luvas, desliza empertigada pela ribalta usando eficazmente o seu corpo como linguagem artística (competentíssima direção de movimento de Mari Amorim). Vale destacar, outrossim, a sua espantosa aptidão em dialogar com o público em um tom, pode-se dizer, confessional, e o modo versátil como incorpora outros tipos que margeiam o seu papel.
“Senhor Diretor” é uma sincera carta de amor às letras e ao palco
O cenário e os figurinos ficaram sob a responsabilidade da própria Analu. Tendo como efeito a concentração saudável das atenções na artista e sua palavra, optou-se pela economicidade de elementos cenográficos, adotando-se tão somente uma cadeira de madeira giratória colocada no centro do palco que serve sobremaneira às exigências dramatúrgicas. Já os sóbrios e elegantes figurinos de Maria Emília obedecem ao bom corte de suas blusa e saia, com contrastes assumidos entre as tonalidades de areia, caramelo e preto, incluindo-se os acessórios. José Henrique Moreira, com a sua iluminação, cria uma atmosfera sedutora e coerente com o enredo, plena em nuances, que passam pelos sombreados, como os vistos na atriz ao fundo do espaço teatral com o apoio das projeções, focos e planos mais ou menos abertos em que se sobrepõe a suavidade visual. A alternância de matizes vermelho e azul também se estabelece em alguns episódios. A trilha musical de Sílvia Monte junto à direção e produção musical de Yahn Wagner com os seus arranjos causa-nos uma legítima satisfação em virtude de sua preciosidade e brilho configurados a partir do empenho de instrumentistas e coro vigorosos (canções como “O Último Tango em Paris”, de Gato Barbieri, e “Moteto em Ré Menor Beba Coca-Cola”, de Gilberto Mendes e Décio Pignatari, fazem parte da apresentação).
“Senhor Diretor” cumpre sua altaneira missão em unir duas das mais lindas artes escrevendo com bela caneta-tinteiro uma sincera carta de amor às letras e ao palco, casados sob a bênção de uma senhora atriz, Analu Prestes.
Parte do elenco do espetáculo “O Bem Amado”: da esquerda para a direita, Rose Abdallah, Ataíde Arcoverde, Patricia Pinho, Luiz Furlanetto, Diogo Vilela, Renata Castro Barbosa, Chris Penna e Tadeu Mello/Foto: Victor Hugo Cecatto
O legado de Dias Gomes nos serve de parâmetro para que vejamos que o Brasil tão estudado por ele continua o mesmo com as suas múltiplas mazelas e corrupções de todos os tipos
Resgatar a obra teatral valiosíssima do também autor de novelas e romancista baiano Dias Gomes já é por si só um vultoso mérito. Sua habilidade ímpar em inserir em sua dramaturgia elementos eivados de crítica social em que não são poupadas quaisquer instituições, sejam elas o Estado, o Judiciário e até mesmo a Igreja, atacando firmemente a hipocrisia moral e de costumes dos indivíduos, com doses largas de humor ácido, desconcertante e sarcástico, em um tom assumido de farsa, torna-o um intelectual diferenciado e incômodo, cujo legado nos serve de parâmetro para que vejamos que o Brasil tão estudado por ele em sua trajetória profissional continua o mesmo hoje com as suas múltiplas mazelas, injustiças e corrupções de todos os tipos. Peças teatrais como “O Pagador de Promessas” (1959) e “O Berço do Herói” (1963) são exemplos clássicos de seu pensamento contestador, cada uma com o seu diapasão. Além dessas, há uma outra tão aclamada quanto que representa com primor as ideias geniais deste escriba que se tornou membro da Academia Brasileira de Letras: “Odorico, O Bem Amado, ou Os Mistérios do Amor e da Morte”(1962). E foi justamente com a montagem de “O Bem Amado” que a dupla formada pelo ator Diogo Vilela e o diretor Marcus Alvisi voltou a se unir após muitas parcerias nos palcos. A eles se juntou também o diretor Richard Luiz.
Os diretores Marcus Alvisi e Richard Luiz nos ofertam um espetáculo vivo, alegre, lírico e com “timing” perfeito
Mantendo o espírito iconoclasta de Dias, a hilariante e visualmente bela encenação já nasceu exitosa, conquistando desde a sua estreia em janeiro deste ano uma soma de mais de 20 mil espectadores pelos teatros do Rio de Janeiro. Marcus Alvisi e Richard Luiz ofertam ao público com notáveis acerto e propriedade, a despeito da morte sempre, de uma forma ou outra, estar presente nas linhas do texto, um espetáculo vivo, alegre e lírico, atingindo um “timing” perfeito, no qual se percebe a inspiração em gêneros como a “comédia de erros” e a movimentação cênica de um “vaudeville”. Como é de conhecimento comum, Dias Gomes se utiliza em suas criações com inigualável destreza dos chamados arquétipos. Em “O Bem Amado”, por exemplo, circulam pela mesma história o “coronel”, o “capitão”, “as donzelas” e o “vigário”, só para citar alguns. Todos eles, nesta peça, são capturados pelos diretores com absoluta fidelidade e ciência de suas importâncias. Outro recurso usado com bastante sucesso pela direção é a trilha sonora a cargo do próprio Marcus Alvisi, que adota músicas com dimensões sinfônicas, marcantes e eloquentes, tocadas por instrumentos diversos, como o berimbau. “Carcará”, de João do Vale e José Cândido, ocupa um lugar especial na obra.
Diogo Vilela domina com absoluta proficiência a escancarada comicidade que Odorico Paraguaçu exige e todos os atores que o cercam emanam brilho próprio
Incorporar Odorico Paraguaçu, o coronel desprovido de ética, caráter e escrúpulos, candidato à prefeitura de Sucupira, cidade fictícia a léguas de Salvador, na Bahia, cuja principal plataforma de campanha é a inauguração de um cemitério para os seus habitantes demandaria um ator com sólidos alicerces na comédia e que fosse despudoradamente talentoso. Diogo Vilela, forte nome das artes nacionais, preenche com folga esses pré-requisitos e o que se vê é um intérprete amplamente à vontade na ribalta, arrancando risos a cada cena em que aparece, dominando com absoluta proficiência a escancarada comicidade que o polêmico personagem exige, atendendo com desvelo aos ricos pormenores que o desenham. Um legítimo e adorável Odorico em franca sintonia com o universo “deverasmente” absurdo de Sucupira. O numeroso elenco que o cerca emana brilho próprio, estando todos os atores, assim como o protagonista, em consonância com a ambiência particular do microcosmo retratado. Tadeu Mello, como Dirceu Borboleta, convence-nos sobremaneira com o seu olhar sobre o homem refém de suas ansiedades, ingênuo, com a inglória função de assessorar o vil político. Chris Penna, como Zeca Diabo, constrói com vigor o seu pistoleiro religioso, atento às pitorescas características que o tornam um divertido marginal. As Irmãs Cajazeiras Dorotéa, Judicéa e Dulcinéa, símbolos exponenciais da hipocrisia das damas citadinas travestidas de suposta retidão e decência, representadas respectivamente por Patricia Pinho, Rose Abdallah e Renata Castro Barbosa, transmitem-nos a fogosidade incontornável e a extravagância comportamental deste trio saborosamente ruidoso. Ataíde Arcoverde, como o coveiro ocioso Chico Moleza, evidencia-nos a soturnidade risível que o seu papel lhe cobra. Luiz Furlanetto, como Hilário Cajazeira, oferece-nos a severidade do homem detentor de uma verdade transformadora na trama. Gabriel Albuquerque, como o jornalista Neco Pedreira, ostenta com desembaraço o principal oposicionista de Odorico. Alê Negão (Dermeval), Ezequiel Vasconcelos (Mestre Ambrósio), Lucas Figueiredo (Primo Ernesto), Marco Áureo (Vigário) e Rollo (Zelão) mantêm suas posturas coerentes com as necessidades essenciais dos tipos que defendem.
Dias Gomes é um dos “bem amados” da ribalta brasileira
Os caprichados cenário e figurinos tiveram a assinatura de Ronald Teixeira e Pedro Stamford. Ronald e Pedro nos proporcionam espontâneo deslumbramento com a sensibilidade com que criaram o espaço onde se desenrola a história, com seus enormes panos com retalhos nas laterais e ao fundo, os galhos secos e as janelas suspensas, a cerca e o mobiliário em madeira, levando-nos para essa nova Sucupira idealizada. Já os figurinos, em sua maioria em tons terrosos e crus, sobressaem-se e nos impressionam pela riqueza dos numerosos detalhes e referências, com o uso variado de tecidos e materiais. As escolhas das peças contribuíram distintamente para a familiarização do público com o habitat desses personagens tão emblemáticos. Daniela Sanchez, iluminadora, desenvolve um belo trabalho ao privilegiar tons naturalistas/amarelados nas cenas abertas, com enfoque, dependendo das situações, nas tonalidades mais fortes, como o vermelho, ou suaves, como o lilás. Daniela faz um produtivo aproveitamento do fundo do palco, ao se utilizar dos tecidos como aliados de sua sedutora luz. O visagismo de Mona Magalhães e a direção de movimento de Juliana Medella configuram-se como potentes instrumentos de que se valem os intérpretes para a construção bem-sucedida dos papéis que lhe couberam. O elenco teve ganhos inquestionáveis com suas colaborações específicas.
“O Bem Amado” oferece às plateias teatrais aquilo que mais o define como obra dramatúrgica: a legítima diversão. Mas nos enriquece também com o pensamento avançado de um autor capaz de enxergar os lados mais obscuros do indivíduo, responsáveis pela formação de uma sociedade alimentada por vícios morais e desvios éticos. Dias Gomes é um dos “bem amados” da ribalta brasileira.
Kelzy Ecard, como a professora Norma Aparecida, uma fã apaixonada por Chico Buarque desde a infância, em “Meu Caro Amigo”/Foto: Renato Mangolin
Montado originalmente há 15 anos, o monólogo musical “Meu Caro Amigo” volta à cena com os mesmos realizadores devido ao seu caráter atual
As músicas têm o poder indissolúvel de exercer um papel fundamental em nossas vidas, sendo referências eloquentes de momentos marcantes pelos quais passamos. Há grandes artistas que nos influenciam e modificam nossas existências de uma forma mais abrangente e rica, considerando o impressionante legado construído por anos. É o caso de um dos maiores intérpretes e compositores brasileiros, Chico Buarque de Hollanda. Naturalmente, muitos indivíduos atingidos pelas criações desses ídolos desenvolvem com os mesmos uma relação apaixonada e febril durante fases importantes de suas próprias trajetórias. Torna-se imperioso afirmar que vários desses grandes artistas se misturam direta ou indiretamente com a História do país em que atuam, o que realça o seu valor para a sociedade. Partindo desta premissa, a relação fã/ídolo tendo como pano de fundo períodos históricos, o dramaturgo Felipe Barenco, a diretora Joana Lebreiro e a atriz Kelzy Ecard levaram à ribalta há 15 anos o monólogo musical “Meu Caro Amigo”. Ciente de que o espetáculo se mantinha atual, carecendo apenas de alguns alinhamentos com a época vigente, o trio responsável pela peça, a partir da idealização de Kelzy, decidiu remontá-la para que novas e antigas plateias pudessem testemunhar e reviver respectivamente a deliciosa, poética e emocionante caminhada de Norma Aparecida, uma professora de História que desde a infância nutre uma adoração imensurável por Chico Buarque, resolvendo aos 60 anos de idade se apresentar em um show interpretando as suas músicas a fim de homenageá-lo.
Dramaturgia envolvente e bem-humorada de Felipe Barenco somada à direção sensível e hábil de Joana Lebreiro
Em sua envolvente, delicada e bem-humorada dramaturgia, Felipe nos oferta a linha evolutiva do sentimento de Norma pelo cantor e compositor, pontuando com esmero passagens determinantes da vida da professora que vão de 1966 a 2016, como o seu primeiro contato com Chico pela televisão, a educação rígida do pai, as reuniões familiares regadas a discussões políticas, a formação do fã-clube, seu ingresso na faculdade, seu engajamento político/estudantil e seus relacionamentos amorosos. O autor se mostrou bastante criterioso ao não preterir episódios de nossa História recente essenciais para o entendimento do que observamos hoje, como o Golpe Militar de 1964, a Passeata dos Cem Mil, o Ato Institucional Nº 5, a Anistia, o Movimento pelas Diretas Já, as eleições presidenciais de 1989, as eleições presidenciais de 2002 e o renascimento de forças de extrema direita nos últimos anos. Mais de 30 canções de Chico, em sua maioria clássicos incontestes, foram inseridas na trama, sendo ouvidas tanto originalmente quanto na voz límpida e sedutora da protagonista acompanhada pelo notável pianista João Bittencourt. Joana Lebreiro, com a sua direção sensível e hábil, alternando-se entre o despojamento e a concisão, encarregou-se de transmitir ao público com sobeja eficiência o universo particular e encantador de Norma. Joana conduziu a sua atriz para uma vereda em que houvesse espaços para uma interação espontânea com os espectadores, próxima a um bate-papo, um colóquio saboroso, e outros em que se buscou tons mais sóbrios e intimistas, observados em falas confessionais da personagem e em alguns números musicais. A diretora permitiu em todos os aspectos que Kelzy brilhasse livremente.
Quem não conhecia os dotes de cantora da maravilhosa atriz Kelzy Ecard irá se embevecer com as suas versões para as canções de Chico
Kelzy Ecard, atriz reconhecida com larga experiência nos palcos, oferece-nos uma linda performance de Norma Aparecida, vivaz, tocante, admirável em todas as nuances que compõem a personalidade desta professora movida à paixão. A intérprete, possuidora de múltiplas ferramentas artísticas, atesta-nos o seu domínio cênico absoluto, dando voz com bastante desenvoltura aos outros personagens que margeiam os diversos núcleos formadores de sua jornada. Impressiona-nos a sua capacidade de interlocução com o público, sempre feita de modo natural e genuíno. Quem não conhecia os dotes de cantora desta maravilhosa atriz irá se embevecer com as suas versões para as canções de Chico que não raro tocam fundo o coração (excelente preparação vocal de Pedro Lima). Kelzy Ecard, pode-se afirmar, é uma artista completa, fazendo-nos rir e emocionar, cantar e vibrar, cabendo-nos com júbilo aplaudi-la ao final. A direção musical coube a Marcelo Alonso Neves, que cumpriu com devoção a sua honrosa missão carregada de responsabilidades. Marcelo selecionou, o que não deve ter sido fácil, mas de certa maneira teve a sua cota de prazer, dentre uma obra extensa repleta de clássicos, mais de três dezenas de canções de Chico Buarque que pudessem ser inseridas na montagem respeitando a sua lógica narrativa. Ademais, deveria haver uma distribuição entre aquelas que seriam tocadas originalmente e outras que seriam cantadas pela atriz. Com equilíbrio, harmonia e coerência, Marcelo permite que a plateia se deleite com músicas como “A Banda”, “Apesar de Você”, “João e Maria”, “Todo o Sentimento”, “Eu Te Amo” e “Cálice”. O pianista João Bittencourt, além de acompanhar belamente Kelzy em suas interpretações, criou com talento passagens musicais que cumpriram o seu papel de realçar determinadas cenas. A cenografia e os figurinos tiveram a assinatura da dupla Dani Vidal e Ney Madeira. Ambos conceberam um cenário formoso e aconchegante, rico em detalhes e referências, com mais de uma dezena de LPs de diferentes fases da carreira de Chico suspensos à esquerda da ribalta, abajures de tamanhos distintos também suspensos e outro de pé, uma pequena mesa de madeira e sua cadeira, um balanço infantil, um sofá antigo estampado, um cortinado, tapetes e caixas de som com funções secundárias. Também houve grande acerto ao vestir a artista com um caftã vermelho com frases bordadas em azul e um legging, dando-lhe a oportunidade de se movimentar com fluidez e liberdade. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros valoriza a elegância e o bom gosto com o uso de um spot localizado atrás de Kelzy em certos instantes (como em algumas apresentações musicais), a exploração de refletores laterais bem nas pontas do palco, a aposta em planos com gradações próximas ao amarelo e a utilização de LEDs e filtros vermelhos e lilases. O efeito geral é fascinante.
“Meu Caro Amigo” é um espetáculo cheio de encantos que não deve ser apreciado apenas por aqueles que admiram a gigantesca carreira de Chico Buarque de Hollanda, devendo ser visto por todos aqueles que admiram uma realização teatral com potentes qualidades, que vão das músicas arrebatadoras tocadas e cantadas em cena à atuação de uma artista que de tão talentosa poderia ser chamada de “cara amiga do teatro”, a nossa “cara amiga” Kelzy Ecard.