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Foto: TV Globo

Um dos capítulos mais marcantes de “O Outro Lado do Paraíso” 

As cenas de ontem à noite de “O Outro Lado do Paraíso”, novela das 21h da Rede Globo escrita por Walcyr Carrasco, que envolveram o julgamento do delegado Vinícius (Flávio Tolezani), acusado de ter molestado diversas vezes a sua enteada Laura (Bella Piero) quando esta tinha apenas oito anos de idade definitivamente abalaram os telespectadores brasileiros por seu alto grau de impacto, emoção, choque e verossimilhança. Há muito tempo não se via em nossa teledramaturgia uma sequência dramática desta magnitude nas dependências de um tribunal, com a participação de tantos personagens importantes para o desenvolvimento de sua história, com um texto de extrema relevância para a sociedade (o crime de pedofilia), dirigida de forma absolutamente irretocável e magistral por Mauro Mendonça Filho (diretor artístico) e André Felipe Binder (diretor geral). Não só a maneira corajosa e cautelosa com a qual o seu autor tratou o tema desde o início de sua trama contribuiu para o sucesso e o interesse por este núcleo específico, mas as atuações arrebatadoras, comoventes, coerentes e sensíveis de seus atores foram essenciais para o ápice de seu enredo no capítulo passado.

O caminho percorrido até o julgamento de Vinícius 

Fazendo parte do mirabolante plano de vingança de Clara (Bianca Bin), auxiliada pelos seus pretendentes Patrick (Thiago Fragoso) e Renato (Rafael Cardoso), o desmascaramento do delegado corrupto e cínico vivido por Flávio Tolezani, que já trabalhou com Walcyr Carrasco em “Verdades Secretas” e “Êta Mundo Bom!”, deu-se de modo paulatino, com vieses investigativos regados a doses fartas de suspense. A vítima dos abusos, a doce Laura (Bella Piero), sempre foi associada a uma jovem com comportamento estranho e antissocial. Sua relação com o padrasto era invariavelmente tensa, e sua mãe, a fútil e zelosa esposa Lorena (Sandra Corveloni), não lhe dava a atenção merecida. Laura não se relacionava com rapazes, até que conheceu o médico Rafael, interpretado por Igor Angelkorte. O carinho e as sinceras intenções demonstradas por ele logo conquistaram a arredia moça. À medida que o namoro assumido avançava, com a contrariedade patente de Vinícius e a anuência da mãe, as complicações de relacionamento do casal apareciam. Laura tinha evidentes dificuldades de ser tocada, acariciada. A afetuosidade lhe parecia algo repulsivo. E o sexo lhe soava agressivo e aterrorizante. Este comportamento pouco comum da filha de Lorena deixou seu namorado confuso e desorientado. Ao contar para o seu colega Renato o que estava se passando, Rafael acabou dando as ferramentas que faltavam para Clara iniciar a sua vingança contra o delegado. Com o casamento dos jovens, o problema de Laura se acentuou, e as desconfianças sobre o seu passado com o padrasto recrudesceram. Em sua lua de mel, um bicho de brinquedo em forma de tartaruga lhe foi clandestinamente entregue (na verdade, pelo delegado), causando-lhe um surto emocional. Com a ajuda da advogada Adriana (Julia Dalavia), que domina as técnicas de “coach”, na qual se inclui a hipnose, a namorada de Rafael faz uma regressão, e se lembra de todos os abusos sexuais sofridos em uma antiga casa onde moravam. Somente com a empregada Sebastiana (Ilva Niño) na residência, a pequena Laura brincava no quintal, próxima a um tanque de tartarugas. Aproveitando-se que sua mulher trabalhava fora, Vinícius molestava a indefesa menina repetidas vezes, deixando-lhe quase sempre machucada, com manchas aparentes pelo corpo. Clara, Patrick e Renato, com o auxílio do delegado Bruno (Caio Paduan), empenharam-se na busca de provas materiais e testemunhais que pudessem levar à condenação do suspeito. Alzira (Bela Carrijo), mãe de mais uma vítima, esta com doze anos, foi encontrada. O laptop do delegado foi apreendido, mas nada parecia suficiente para incriminá-lo (havia em seus arquivos uma galeria de fotos de moças, mas sem conotação sexual). O julgamento ocorreu em mais de uma sessão, o que rendeu a Patrick, assistente de acusação (o papel de promotor coube a Charles Fricks), a possibilidade de achar Sebastiana, muito doente, em um asilo. Os depoimentos a favor de Laura até então foram infrutíferos, combatidos com veemência pelo advogado de defesa personificado por Ernani Moraes. Durante todo o embate jurídico, sob os olhares atônitos da audiência, Vinícius se manteve impassível, certo de sua absolvição. Até que a empregada idosa depõe, causando espanto e assombro com suas revelações escabrosas sobre as violências sofridas pela menina. O seu silêncio, motivado por medo e necessidade de sobrevivência, fora perdoado pela vítima. Nesse tempo, as reações de Lorena provavam a sua impotência e desespero diante da verdade dos fatos que se desvelava. Arrolada como testemunha de defesa de seu marido, Lorena, em depoimento comovente, sofrido e tocante, assume que nunca enxergara o que realmente estava diante de seus olhos, afirmando que o inimigo pode estar bem ao seu lado (nesta hora, numa cena bastante indicativa, Clara olha de soslaio para Renato, que está ao seu lado). O jogo vira contra Vinícius. O delegado, acuado, não deixando o seu peculiar cinismo, confessa os seus abjetos crimes. Ridiculariza a sua esposa. Diz que se casou tão somente para ter próximo de si quem de fato desejava, a sua filha Laura, uma criança. Vinícius debocha das leis e da integridade humana, nesse caso, de uma menina. Com os assistentes aturdidos com os desdobramentos surpreendentes e chocantes do caso, o juiz Gustavo (Luis Melo) sentencia o réu à condenação. Vinícius caminha indiferente no tribunal com um sorriso de escárnio no rosto, ouvindo gritos de indignação dos presentes.

O texto afiado, a direção impecável e as atuações arrebatadoras 

Este foi, sem dúvida, um dos melhores capítulos de toda a novela de Walcyr Carrasco. Com boa orientação jurídica, Walcyr conduziu esta precípua passagem do folhetim com inegáveis propriedade e excelência. A direção sensível e inteligente de Mauro Mendonça Filho e equipe não deixou escapar uma reação sequer dos personagens. Cada olhar, cada gesto, cada movimentação em cena, cada fala mereceu o seu destaque. Os atores foram brilhantes em suas atuações, com suas emoções e sensibilidades à flor da pele. Se para nós telespectadores assistir ao desfecho desta história foi difícil e penoso, o mesmo deve ter ocorrido com o elenco. Flávio Tolezani impressionou com sua postura fria e gélida. Seu olhar parado, fixo, insensível, típico dos criminosos, chocou . O seu descarado cinismo perante os seus pares nos provocou incômodo. Flávio Tolezani é um excelente ator, e esta foi uma das melhores, senão a melhor, interpretação de toda a sua bem-sucedida carreira. Sandra Corveloni, também ótima atriz, passou-nos com pungência a grandeza da dor da traição e da humilhação sofridas. Seu pranto, seus olhos perdidos, e sua fraqueza como mulher e como pessoa diante do peso da verdade cruel nos comoveram profundamente. Bella Piero, tão jovem, teve que enfrentar em seus primeiros anos de profissão um desafio assustador, e se revelou uma intérprete com enorme maturidade, defendendo com dignidade, verdade e emoção, do começo ao fim, o percurso doloroso de Laura, sem perder a ternura que a caracteriza. Igor Angelkorte, um artista possuidor de trabalhos elogiados no teatro, e que vem construindo uma bela carreira na televisão, provou-nos a sua enorme capacidade emotiva e sua fonte legítima de sensibilidade ao dar vida ao médico que acompanha o sofrimento de sua namorada desde o início, não a abandonando em nenhum momento. Igor sai fortalecido profissionamente desta novela. Thiago Fragoso dominou completamente o seu personagem Patrick, ostentando toda a firmeza, segurança, determinação e empenho que se espera de um habilidoso advogado. Thiago Fragoso defendeu com altivez e brio o seu assistente de acusação. Luis Melo, um intérprete com inúmeras e incontestes qualidades, impôs-se como o austero juiz Gustavo. Luis se vale de olhares discretos e eloquentes para nos dizer o que pretende. Somente atores de sua relevância e talento o conseguem. Ernani Moraes, com sua destreza interpretativa, criou um advogado de defesa perspicaz, agressivo e manipulador. E, por último, a presença de uma notável atriz, Ilva Niño, querida e talentosíssima, que já nos sensibilizou em novelas como “Água Viva” e nos divertiu em “Roque Santeiro”. Que escalação perfeita trazer de volta à tela esta artista que merece toda a nossa reverência. Sua atuação como Sebastiana foi contundente e inesquecível.

A mensagem do autor, e a lição que fica 

Enfim, um capítulo que vai ficar em nossas memórias, em todos os sentidos. Nunca se falou tão abertamente e com enorme mérito sobre pedofilia na ficção, em pleno horário nobre, e na TV aberta. Walcyr Carrasco e toda a sua equipe de colaboradores, diretores e elenco merecem os nossos parabéns. Um passo importante contra este crime foi dado. Usou-se um meio de comunicação poderoso como a televisão como forma de esclarecimento, informação e denúncia. Um relevante serviço social. A pedofilia não vai acabar, mas haverá muito mais pessoas conscientes, prontas e dispostas a denunciá-la. Em 20 de fevereiro de 2018 vimos em “O Outro Lado do Paraíso” a confirmação do trecho da música de abertura da novela “Boomerang Blues”, de Renato Russo: “Tudo o que você faz Um dia volta pra você E se você fizer o mal Com o mal mais tarde você vai ter de viver…”. Alguns ainda saberão disso. Na novela… e na vida.

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Foto: João Caldas Fº

Encenar Nelson Rodrigues é um ato que se justifica por si mesmo. Trazer à baila a sua dramaturgia tão particular e relevante desperta inapelavelmente o interesse do público teatral em testemunhar um novo olhar sobre a sua obra. A ideia de se remontar “Boca de Ouro”, um dos maiores clássicos de Nelson, peça escrita em 1959, considerada uma de suas “tragédias cariocas”, possui méritos incontestes. Enriquece e valoriza os nossos palcos, resgatando a figura deste autor que retratou como poucos a complexidade psicológica do indivíduo, traduzida nos seus costumes e comportamentos, e nas relações sociais com os seus pares, sejam eles familiares ou não. O consagrado diretor mineiro Gabriel Villela, revelado nos anos 90 junto com outros encenadores, pisou anteriormente no provocativo terreno rodriguiano, ao montar “A Falecida” e “Vestido de Noiva”. A história de “Boca de Ouro” brinca magistralmente com os conceitos de verdade e não verdade. Boca de Ouro (Malvino Salvador), que atende pelos epítetos de “O Drácula de Madureira” e “O Assassino de Mulheres”, é um poderoso e temido contraventor do jogo do bicho do subúrbio carioca, obsessivo por ouro, ao ponto de ter extraído todos os seus dentes, e ter colocado uma arcada feita com o metal precioso. Diz-se também que o homem torcedor do Fluminense (como o dramaturgo) que nasceu na pia do banheiro de uma gafieira (fato que não pode ser dito em sua frente, sob pena de vê-lo encolerizado) furtava as alianças das mulheres casadas com quem se relacionava, com o propósito de derretê-las para a feitura de seu caixão de ouro, um sonho recorrente. Quando se inicia a trama, já sabemos da morte por assassinato do bicheiro. Este crime é o ponto de partida para que o jornalista investigativo Caveirinha (Chico Carvalho), do impresso “O Sol”, saia em busca de esclarecimentos para a sua alentada matéria (como se sabe, o elemento “imprensa” ocupa lugar de destaque em outra de suas peças, “Beijo no Asfalto”; Nelson dominava profundamente o tema, devido à sua profissão de jornalista; o ambiente das redações de jornais lhe era, portanto, bastante íntimo, fazendo-nos compreender a sua inserção em seus textos). A linha dramatúrgica de “Boca de Ouro” se divide em três versões sobre a morte de Leleco (Claudio Fontana), um cidadão em apuros com suas dívidas, sem que nenhuma delas corresponda necessariamente com a verdade absoluta dos fatos, comprovando a intenção do autor em realizar um jogo cênico em que se questiona o que é verídico ou não, deixando fluir a imaginação do espectador, ao mexer com as diferentes camadas emotivas e comportamentais dos personagens envolvidos no enredo. As três possibilidades de ação/reação destes proporcionaram a Nelson Rodrigues a exploração de inúmeras situações contrastantes que contribuíram para a costura inteligente de seu corpo narrativo. Este recurso de dramaturgia se configura nos encontros entre Caveirinha e uma das muitas amantes de Boca, Guigui (Lavínia Pannunzio). Guigui narra ao ávido repórter as circunstâncias de um suposto crime de assassinato cometido por Boca contra Leleco, ligando diretamente a esposa do rapaz, a lasciva Celeste (Mel Lisboa). A partir das três versões dos fatos do crime, tem-se, outrossim, três versões da personalidade do bicheiro de Madureira. O conhecimento ou desconhecimento de sua morte faz com que a empertigada madame monte um perfil do homem que queria ser rei asteca de acordo com as suas emoções e memórias oscilantes. Dependendo das versões apresentadas por Guigui, seu marido Agenor (Leonardo Ventura) revela distintas reações, com ausência ou não de ciúme. As narrações da amante ora desenhavam um Boca de Ouro cruel, sanguinolento (fazendo jus ao seu apelido) e impiedoso, ora o mostravam como um homem irresistivelmente conquistador, com aspirações megalômanas e extravagantes, como os desejos de ser coroado como um imperador de civilização antiga ou ser enterrado em um esquife de ouro. Nestas versões, o mesmo Boca de Ouro capaz de assassinar é o Boca de Ouro religioso, com fé, que se aconselha com uma Entidade (Cacá Toledo) e mantém um pequeno altar, ou o Boca de Ouro generoso que se dispõe a fazer uma doação para uma associação filantrópica formada por três alvoroçadas grã-finas, amparadas pelos seus guarda-chuvas (Leonardo Ventura, Cacá Toledo e Guilherme Bueno). Desta forma, constrói-se, aos poucos, o arquétipo mítico, adorado e falado, para o bem ou para o mal, acima dos meros mortais. Gabriel Villela, em sua direção, provou-nos mais uma vez o quanto é brilhante ao conjugar a exuberância visual/estética de suas peças (Gabriel na maioria das vezes assina os cenários, figurinos e adereços de suas montagens, como neste caso, nas quais percebemos diversas referências e inspirações), com a solidez estrutural dos textos que resolve encenar, resultando em perfeita e admirável sintonia cênica. Aliás, não nos custa lembrar da importância que o crítico e acadêmico Sábato Magaldi, um dos maiores especialistas em Nelson Rodrigues no país, teve para o diretor, o que provavelmente o fez compreender de forma mais ampla o pródigo universo ficcional do “Anjo Pornográfico”. Gabriel se utilizou, sempre com o primor que caracteriza o seu trabalho, das referências estilísticas que o distinguiram como grande encenador. Em “Boca de Ouro” adota-se a estética do circo-teatro (uma de suas principais marcas), do Teatro Mambembe e da Commedia Dell’Arte (visível sobremaneira nos trajes dos personagens, nos adereços e no conjunto cenográfico). Na condução dos dez atores do espetáculo, valorizou-se a essência do melodrama, buscando-se o máximo de suas expressividades, tanto em suas gesticulações corporais ou imobilidades (influências da Mímica e do Expressionismo Alemão), quanto no fraseado meticulosamente saboreado sílaba por sílaba, num acento próprio, particularíssimo, alguns tons acima, de modo proposital, como se a intenção fosse a de realçar, destacar, elevar a palavra de Nelson, e toda a carga de ironia, malícia, dramaticidade e duplo sentido que a definem. Seus famosos bordões e interjeições, como “Batata!”, ganham a distinção merecida. A peça contém um espectro carnavalesco, tipicamente carioca, com confetes e serpentinas sendo lançados ao alto, a fim de demarcar certas cenas. A tragicidade inerente ao texto está presente de maneira alegórica, simbolista e até mesmo, pode-se dizer, poética. O fio narrativo é entremeado de modo coerente por canções intrinsecamente nacionais (com exceção de dois clássicos estrangeiros), com forte apelo emotivo e nostálgico junto à plateia, entoadas pela afinadíssima Crooner, personificada por Mariana Elisabetsky, com o acompanhamento ao piano do craque Jonatan Harold. Gabriel Villela, com “Boca de Ouro”, confessa publicamente toda a sua reverência e respeito ao dramaturgo pernambucano de alma carioca. Quanto ao seu elenco, todos os seus atores estão profundamente imersos não só na linguagem e no mundo rodriguianos, como no discurso teatral específico de Gabriel Villela. Para um intérprete participar da montagem de uma peça de Nelson se faz necessário um estudo de interpretação mais intenso, pois diferentes são seus meios de comunicação, e o que se testemunhou em “Boca de Ouro” foi a adesão irrestrita desses insignes e talentosos artistas, que além de defenderem seus papéis com fulgor e garra, cantam suas músicas com amor e verdade, dançam com o entusiasmo e a sensualidade exigidos, e tocam com extrema competência (no caso, Jonatan Harold, com o seu piano). Malvino Salvador é um ator que, para se conhecer por inteiro a sua capacidade interpretativa, tem-se que obrigatoriamente lhe assistir em cima de um palco. Um sucesso reconhecido e incontestável com a sua galeria de papéis na TV, Malvino nos arrebata e nos comove em cena com a sua potência e pujança dramáticas, o seu humor desenhado na entonação que imprime às suas falas e às suas expressões faciais, e ao seu excelente trabalho de corpo com o intento de garantir ao seu personagem a maior credibilidade possível. O Boca de Ouro construído pelo ator nascido em Manaus é no mínimo memorável. Composto com minúcias e riqueza de detalhes, Malvino Salvador passeia com grande desenvoltura pela controversa personalidade e difícil psicologia deste contraventor que incita amores, paixões, curiosidade e ódio daqueles com os quais conviveu, causando no público uma irrefreável empatia com a sua performance. Espanta-nos sua aptidão em se metamorfosear de um papel para o outro (quem conferiu “Chuva Constante”, de Keith Huff, sabe o que digo). Destemido ao aceitar desafios como esse, nunca aceitando em se acomodar na “zona de conforto”, Malvino Salvador atinge um momento de glória em sua já tão bem-sucedida carreira. Lavínia Pannunzio fez de sua Guigui uma mulher sofisticada, autoconfiante, com certo ar pernóstico e soberbo. A atriz, com uma postura encantadoramente elegante, em todos os seus sentidos, evoca uma série de sentimentos em sua crucial personagem, atendendo às versões diferenciadas sobre o fato que diz respeito àquele que lhe foi importante na vida como amante. Suas reações variam, e a intérprete as cumpre com garbo. Em sua atuação, as emoções vão do amor incontido pelo contraventor até a descrição, com frieza, de sua face menos nobre. Mel Lisboa comprova indubitavelmente, ao defender Celeste, a esposa de Leleco, nas três ocasiões díspares da história contada por Guigui, a sua retumbante maturidade artística. É fato que nos acostumamos com a figura doce e angelical da atriz, mas este olhar se transforma ao nos defrontarmos com a sua visão interpretativa exponencialmente forte da mulher que, para resolver um problema que envolve diretamente seu marido no que tange a questões financeiras, assume posições antagônicas que exigem da bela artista uma exposição de diversas camadas emocionais, todas resolvidas com elogiável plenitude. Seja adotando uma atitude sensualizada, seja personificando um outro lado de Celeste, mais prático, frio e objetivo, a atriz cresce enormemente em cena. Claudio Fontana tem a missão de defender dois personagens, o Dentista que coloca a arcada de ouro em Boca, e Leleco. Esta mesma missão lhe abriu um leque de amplas viabilidades de interpretação, que o fez enveredar pelos caminhos mais certeiros e apropriados. Se para o Dentista o ator apostou em um tipo com toques de caricatura, no que concerne a Leleco, os caminhos se tornaram mais desafiadores, haja vista que os acontecimentos das três situações da peça o obrigam a ostentar características extremas de um homem acuado e pressionado por fatores adversos, como o adultério (um dos temas favoritos de Nelson), a traição em sentido amplo e irrestrito, e a sensação de se estar “sem saída” diante de um episódio. Claudio se sobressai com louvável dignidade ao acatar as exigências formadoras dos perfis de seus papéis. Já Chico Carvalho se encarrega de dar vida a dois personagens do texto de Nelson: o repórter Caveirinha e Maria Luísa, uma senhora afetadíssima possuidora de segredos irreveláveis. Dotado de imensa vocação para criar tipos, brincando de forma divertida com a sua voz, Chico delineia os traços de duas pessoas totalmente opostas. Caveirinha é um repórter que não mede esforços para realizar a sua tão almejada matéria jornalística, e Maria Luísa, com uma feminilidade excêntrica, traz consigo uma névoa de mistérios, cabendo-lhe primordial função na elucidação e esclarecimento das circunstâncias que marcaram a morte do até então “imortal” bicheiro. Leonardo Ventura encarna com brio o marido de Guigui, Agenor (além de uma das três grã-finas da associação filantrópica). Leonardo, ao compor Agenor, em certas passagens lhe empresta tons de passividade de acordo com o teor das narrações de sua esposa, e em outras se mostra firme e decidido, motivado por ciúme, ao ponto de abandonar a sua mulher. Cacá Toledo se incumbe de personificar quatro figuras na dramaturgia de Nelson: o Secretário, a Segunda grã-fina, a Entidade e o Locutor. Cacá usa sua versatilidade para oferecer verossimilhança, dentro do contexto rodriguiano, a esses personagens. A Entidade, chamada por Boca de Ouro de Preto, faz-nos ouvir aquela voz familiar dos Pretos Velhos, entidades da Umbanda e Candomblé. O Locutor reverbera a sua voz impostada e sensacionalista típica dos programas de rádio da época, e sua grã-fina se revela nada puritana em seus supostos bem-intencionados objetivos. Guilherme Bueno interpreta tanto o fotógrafo quanto a Terceira grã-fina. Guilherme usa a sua habilidade corporal a fim de se colocar em consonância com o profissional que se desdobra, a todo e qualquer custo, na procura por um flagrante. Quanto à sua grã-fina, segue com a mesma acertada frequência com que os outros dois intérpretes impingiram às mulheres em busca de doações: espevitada, indócil, despudorada e com alguma dose de histeria. Guilherme cumpre muito bem o que lhe foi demandado pela direção. Mariana Elisabetsky nos dá o prazer de ouvir a sua límpida voz cantarolando com magnificência músicas que calam fundo em nossos corações e sensibilidades. Mariana serve como porta-voz de canções que remetem ao universo carioca, abrindo, por exemplo, o espetáculo com o hino “Cidade Maravilhosa”, de André Filho. Com um tempo próprio, a atriz/cantora ainda nos embevece com “Ave Maria no Morro”, “A Noite do Meu Bem” e “Vingança”, respectivamente de Herivelto Martins, Dolores Duran e Lupicínio Rodrigues. Mariana também interpreta “Bang Bang (My Baby Shot Me Down)”, de Sonny Bono. Vale ressaltar que a atriz Lavínia Pannunzio, num instante emocionado, canta “Ne me quitte pas”, de Jacques Brel. Jonatan Harold, que vive Maestro, defronte ao seu piano do lado direito da ribalta, acompanha com segurança e destreza, pontuando cena a cena, o desenvolvimento do entrecho, realçando o clima de gafieira dos anos 50, com toda a carioquice a que se tem direito. Jonatan ficou responsável pelos ótimos arranjos musicais e colaboração musical (o pianista ainda nos celebra com uma versão de “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo). Na montagem que em muitos de seus momentos se aproxima bastante de um musical, ainda temos “Na Cadência do Samba”, de Ataulfo Alves e Paulo Gesta, “Não Deixe o Samba Morrer”, de Edson e Aluisio, e “De Frente Pro Crime”, de João Bosco e Aldir Blanc. A eclética e competentíssima direção musical e a notável preparação vocal ficaram sob os cuidados de Babaya Morais. Os cenários, figurinos e adereços, como dito antes, são de autoria de seu diretor. Quanto à parte cenográfica, retratando com charme e fidelidade o universo instigante e luxurioso de um cabaré/gafieira, Gabriel distribuiu em pontos estratégicos do palco (na frente à esquerda, e numa linha semicircular ao fundo) mesas e cadeiras de madeira (de cor preta) com respaldos vazados, sobre as quais se encontram pequenos abajures, que são mantidos acesos, quando necessários. Essas mesmas mesas servem como bases para que os atores, que usam dedais metálicos, batuquem simulando o ato de se datilografar (objetiva-se a referência a uma redação de jornal). À esquerda da ribalta, há uma escada vermelha de madeira que é usada para inúmeras cenas importantes, com os intérpretes se equilibrando sobre os seus degraus (nota-se uma passagem em particular que nos lembra a famosa “cena do balcão” de “Romeu e Julieta”, de Shakespeare). E bem no centro do tablado, o móvel mais simbólico de toda a história: um sofá/cadeira forrado com um tecido de cor mostarda invariavelmente utilizado por Boca de Ouro – um amarelo obviamente intencional. Este sofá/cadeira se encontra sobre um minipalco circular, sujeito à movimentação por força dos atores (o minipalco pode servir como um pedestal, também). Como arremate deste suntuoso cenário, taças e candelabro. Os figurinos, outra especialidade do encenador, são luxuosamente coloridos e criativos, abraçando uma infinidade de peças de vestuário que ajudam sem sombra de dúvidas no processo não só de embelezamento do espetáculo, mas como fator de melhor compreensão da história e do perfil de seus participantes, além de fazer com que a plateia mergulhe de cabeça no mundo de Nelson Rodrigues. Gabriel Villela se valeu, no caso de Boca de Ouro, de um casaco preto de mangas compridas com capuz, meias de mesma tonalidade cobrindo as pernas, bermuda escura florida, além de outras indumentárias, como gorro, chapéu e capa. O figurinista não só abusou, felizmente, das cores, mas dos brilhos. Estes dois elementos são vistos em profusão em longos transparentes com bordados, estolas, turbantes, faixas douradas, saias, golas que lembram a de um arlequim, ternos, gravatas, plumas etc. Isso nos mostra as múltiplas influências de variadas épocas de que se utiliza para dar corpo e vida aos personagens de sua peça. Rosely Fiorelli se encarregou da eminente direção de movimento. Graças ao seu “know-how” e ao seu entendimento do que pretendia o diretor, Rosely colocou os atores em um sem número de posições, algumas posadas com expressividades significativas, e outras, incluindo as danças, que demonstram o quanto de simbolismo pode haver em um simples gesto com os braços ou em um posicionamento ajoelhado, respeitando evidentemente o contexto cênico. A iluminação de Wagner Freire nos inebria e fascina pelos seus tons bruxuleantes, e por adotar assumidamente uma atmosfera que reportasse sem desvios ao ambiente peculiar a um cabaré/gafieira dos anos 50. Os pontos de luz advindos dos delicados abajures nos oferecem o clima perfeito do local de encontros, dança e música. Wagner teve como propósito diversificar o máximo que pôde as possibilidades de texturas luminosas. Em algumas ocasiões, vê-se um plano semiaberto (jamais estourado), com tonalidades próximas à sépia. Cores primárias, como o azul, também colaboram. As sombras e os focos pontuais nos atores são demasiado utilizados. Blecautes com picos de estroboscópios simulam espertamente os flashes do Fotógrafo. A interseção entre fog e luz nos transmite uma sensação etérea do mundo onde se desenrola a ação. A maquiagem de Claudinei Hidalgo é notadamente expressiva, realçando as faces do elenco com bases mais claras ou esmaecidas, valorizando as mulheres com batons de vermelho intenso, e destacando, em ambos os gêneros, as linhas de suas sobrancelhas (o sangue cenográfico merece menção pelo seu realismo e impacto). “Boca de Ouro” nos leva a crer que o teatro está mais vivo do que nunca. O resgate da obra de nosso maior dramaturgo, Nelson Rodrigues, feito por um de nossos diretores mais imaginativos e consagrados, Gabriel Villela, dois artistas genuína e essencialmente nacionais, numa era em que a autoestima do brasileiro precisa ser realimentada, resulta em uma equação infalível de sucesso. Malvino Salvador de volta aos palcos encarnando de forma absolutamente nova, refrescando óticas passadas sobre o ser mítico contraventor, outrossim se configura como mais uma razão para a realização desta montagem inesquecível. Os atores que o acompanham, sem quaisquer receios de se entregarem às almas conflituosas pensadas na mente de Nelson, também já valem a ida ao teatro. Os aplausos finais se justificam. Há uma luz dourada no fim do túnel para a cultura geral de nosso país. Tão dourada quanto o sorriso aberto e cheio de significados de Boca de Ouro.

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O modelo Andre Fellipe na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, no Parque Cândido Portinari.
Andre é carioca, sendo agenciado por várias agências: AVE Management (Singapura), The Fashion Model Management (Milão, Itália), Mega Model Brasil (São Paulo), Divo MGMT Brazil, One Management (NYC), MGM Germany e Leni’s Model Management (Londres).
Por um tempo, morou na Ásia, sendo capa da “L’Officiel” Singapura.
Fez campanha para a Calvin Klein, Brooksfield JUNIOR e Neill Katter.
Foi clicado por Ronald Luv para um ensaio em p&b, publicado no site “The Fashionisto”, e por outros profissionais, como Guille Vargas Pohl, Yeral Solis Martinez, Ítalo Gaspar (“Coitus Magazine), Jeff Segenreich, Xavier Samré, Eber Figueira, Hudson Rennan e Marcos Florentino.
Estampou a capa da 34ª edição da “FFWMAG”.
No Fashion Rio Outono Inverno 2014, circulou pelas passarelas de três grifes: Coca-Cola Jeans, R.Groove e TNG.
Possui ensaios na “Desnudo Magazine” (fotografado por Patricio Roldan), para a marca Erreà Republic (Dinamarca) e “POSH Magazine” (foto de Fernando Machado).
Fez um vídeo publicitário para a Fashion Park, no Chile.
Na edição de inverno 2016 da São Paulo Fashion Week, o modelo desfilou para João Pimenta (na mesma semana de moda, só que em outras temporadas, desfilou para marcas distintas, como Osklen e Colcci).
Atualmente, Andre Fellipe reside em Milão, Itália.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

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Foto: Sergio Zalis/Rede Globo

Ontem à noite, o público cativo das 19h certamente se embeveceu e se inebriou com o primeiro capítulo de “Deus Salve o Rei”, a nova novela do horário na Rede Globo, marcando a estreia de Daniel Adjafre como autor titular na emissora. Jamais vimos na teledramaturgia brasileira, com o auxílio bem-vindo das tecnologias da computação gráfica, cenas tão grandiloquentes e exuberantes, somente vistas nas telas de cinema, servindo a uma trama medieval com todos os requintes que ela merece, com disputas entre reinos, casamentos prometidos, lutas entre príncipe e salteadores, belas princesa e plebeia, e reis em conflito. Tanta grandiosidade visual, associada naturalmente à Sétima Arte, fez com que este primeiro capítulo fosse exibido em seis capitais do país. Com direção artística de Fabrício Mamberti, a história começa com expressivas imagens congeladas de soldados em brutais e sangrentas batalhas campais (algo como a técnica “tableau vivant”, conferida no filme de Martti Helde, “Na Ventania”). Somos apresentados aos primórdios do enredo pela voz de Rosamaria Murtinho, a Rainha Crisélia, do Reino de Montemor. Segundo ela, durante 300 anos, o Reino sempre primou pela proteção de suas fronteiras, vivendo de suas conquistas, tendo fartura e bonança graças à extração de minério de ferro, à lavoura e ao gado. No entanto, não houve a preocupação com bem tão precioso: a água. O rio que o abastecia secou. A saída fora entrar em acordo com o reino mais próximo, Artena. Em troca da água, o minério de ferro. Objetivando a sua independência, é construído em Montemor o grande aqueduto, que demandou anos, e hordas de operários. Chega o dia em que a Rainha Crisélia, ao lado de seu neto, o Príncipe Afonso (Romulo Estrela), entrega aos seus súditos a água esperada, em uma portentosa cerimônia. Para decepção geral, seu jorro minguou. O lago que servia como fonte do aqueduto também secou, anunciou um soldado. Conhecemos o outro herdeiro do trono de Montemor: o atoleimado e mulherengo Príncipe Rodolfo, personificado por Johnny Massaro. Rodolfo é notificado por sua avó sobre o fracasso de sua obra. Numa reunião familiar na Sala do Trono, fica decidido pela Rainha que a paz existente entre os Reinos de Montemor e Artena, que já dura 50 anos, será mantida, e com isso, o seu acordo. Afonso se prontifica a realizar uma expedição às colinas em busca de uma nova fonte de água. Viajamos para o Reino de Artena, e nos deparamos com a linda e doce Amália (Marina Ruy Barbosa), dona de uma barraca de caldos. Independente, Amália resiste às pressões de seu futuro marido, o comerciante de tecidos Virgílio (Ricardo Pereira), para abandonar o trabalho, e se dedicar exclusivamente a ele. Nas dependências externas do castelo do Rei Augusto (Marco Nanini), ouvimos a composição poética, ao som das cordas de um alaúde, de Istvan, o Marquês de Córdona (Vinícius Calderoni), apaixonado pela bela e soberba Princesa Catarina (Bruna Marquezine), que nos deixa clara a sua rejeição pelo inocente rapaz. Catarina é avisada por Lucíola (Carolina Ferman), sua camareira e confidente, de que o seu pai, Augusto, quer falar com ela. Em sua sala, o Rei Augusto diz a sua filha o quanto preza o seu pretendente, até que são interrompidos pelo conselheiro Demétrio (Tarcisio Filho). Leal ao Rei, informa-lhe sobre o destino malsucedido do aqueduto. Neste momento, testemunhamos a ganância e a falta de ética de Catarina, ao propor ao pai que aproveitem a situação de fragilidade do Reino de Montemor para alterarem o acordo em favor de Artena, sendo imediatamente repreendida pelo justo e honrado Augusto. A cena termina com o Rei comentando: “ É como diz o ditado, Demétrio. Se quiser fazer Deus rir, faça planos. E eu acrescentaria. E se quiser fazê-lo gargalhar, faça planos para seus filhos”. Enquanto isso, em Montemor, após o afetado e fútil Príncipe Rodolfo determinar aos seus criados o que desejaria para a sua festa, uma importante conversa entre os irmãos reais ocorre, na presença do médico Lupércio (Pascoal da Conceição), que cuida de sua avó. Lupércio lhes afirma que os lapsos de memória da Rainha Crisélia estão evoluindo, e que se trata de uma doença desconhecida, sem tratamento (o que no futuro, viria a ser conhecido como o Mal de Alzheimer). Rodolfo revela a sua face mais feia, ao demonstrar friamente o seu desinteresse pela saúde da Rainha. Num colóquio particular, ciente de seu estado clínico, Crisélia comunica a Afonso que o seu desejo é que, quando volte da expedição, assuma o trono. Amália chega à sua casa, e como de costume, seus pais Martinho (Giulio Lopes) e Constância (Debora Olivieri) estão discutindo (o casamento deles foi arranjado). Amália tem um irmão, Tiago (Vinícius Redd). Ambos discorrem sobre o amor e o casamento. Neste instante, a moça deixa transparecer a sua porção romântica e idealista. Em seus aposentos, o Rei Augusto confessa a Demétrio que está na hora de sua filha se casar, e que o Marquês de Córdona seria o seu marido ideal, por ser um homem virtuoso. Assim, Catarina poderia se tornar uma pessoa melhor, mais indulgente, segundo o próprio rei. O Príncipe Afonso se despede de sua avó, e inicia, acompanhado de Cássio (Caio Blat), o Comandante do Exército de Montemor, a expedição em busca de água para o reino. Quinze dias depois, Afonso, um pouco desiludido, diz a Cássio que se não encontrarem água no vale próximo, dará por encerrada a expedição. Constantino, o Duque de Vicenza (José Fidalgo) lhes conta que encontrou restos de comida não muito longe, o que indica a presença de ladrões. Durante a cavalgada, são surpreendidos pelo bando de salteadores. Decorre uma violenta batalha entre os dois lados, com direito a lutas bem coreografadas, e difíceis de serem executadas, vale dizer. Numa sucessão de cenas de violência estetizada, em que corpos são perfurados de forma inclemente por lanças e flechas, sobram mortos e feridos. O Príncipe se afasta de seus aliados, e acaba sendo gravemente ferido por uma flecha. Em Artena, Augusto comunica a Catarina que o Marquês pediu o seu consentimento para se casar com ela, recebendo a sua aprovação, para desgosto da princesa. Amália sai pelo campo com o seu irmão para colher laranjas, rabanetes e manjericão. Tiago vai para um lado, e sua irmã para o outro. De repente, Amália cai com o seu cesto. Próximo dela, o Príncipe desfalecido e pálido. Os olhos da Princesa o miram com paixão. Ele, mesmo desacordado, aperta com força a sua mão, não a largando mais. Em uma bonita cena final, a câmera voa alto sobre o casal, fechando com uma estonteante paisagem de montanhas ao fundo. O texto escrito por Daniel Adjafre e Cláudia Gomes, com a colaboração de Angélica Lopes, Péricles Barros e Sérgio Marques é um primor. Não é fácil engendrar uma trama passada na Idade Média, em locais fictícios, criar personagens condizentes com aquela época, e que sejam ao mesmo tempo críveis, causando empatia nos telespectadores, construir elos entre os núcleos, tornando a fantasia próxima de nós. Tudo isso foi logrado pela equipe de autores, que se esmeraram na construção dos diálogos, inteligentes, sendo alguns muito bem-humorados, e outros emocionantes. Há espaço tanto para o romance, quanto para o drama e a comédia. A direção artística de Fabrício Mamberti e geral de Luciano Sabino, tendo como colaboradores os diretores João Boltshauser, Oscar Francisco, Pedro Brenelli e Bernardo Sá merece quantos elogios forem possíveis. Imaginamos a dificuldade em conduzir e comandar certas cenas, principalmente as de batalhas, e aquelas que necessitam de um considerável número de figurantes e elenco de apoio. Não menos complexas são as cenas entre dois ou três atores, como as com Marco Nanini, Bruna Marquezine e Tarcisio Filho, ou entre Rosamaria Murtinho e Romulo Estrela, que demandaram um intimismo maior, uma delicadeza em seu tempo. O elenco é um acerto indiscutível. A escalação optou por nomes jovens, alguns bastante queridos e admirados pelo público, apostou corajosamente em Romulo Estrela para ser o protagonista masculino, convocou atores experientes, e grandes representantes da arte nacional, como Marco Nanini e Rosamaria Murtinho. Bruna Marquezine, no alto de sua esbelteza, destila a empáfia de Catarina. Marina Ruy Barbosa abusa, para o nosso agrado, de sua formosura para compor Amália. Johnny Massaro, antes de tudo, possui uma veia cômica como poucos de sua idade, mas sabe, da mesma maneira, imprimir a dramaticidade perfeita ao seu personagem, como o fez com Rodolfo. Romulo Estrela tem todos os méritos para se tornar uma das opções de sua geração para protagonizar histórias com as quais o seu perfil se encaixe. O bonito ator, que já brilhou em outras produções da emissora, como “Liberdade, Liberdade”, e mais recentemente na minissérie “Entre Irmãs”, preferiu o caminho da sobriedade e do comedimento, convencendo indubitavelmente na postura e na voz de seu Príncipe Afonso. Caio Blat, Ricardo Pereira, Tarcisio Filho, Pascoal da Conceição, Debora Olivieri, Giulio Lopes, Vinícius Redd e Carolina Ferman defenderam com garbo as exigências dramáticas de seus papéis, enriquecendo cada cena de que participaram. José Fidalgo e Vinicius Calderoni, em suas aparições, já provaram que são garantias de bons momentos no folhetim. Marco Nanini, um de nossos maiores intérpretes, colecionador de personagens inesquecíveis em telenovelas, como “Gabriela” e “Brega e Chique”, além, é claro, do seriado “A Grande Família”, sem trocadilhos, é uma presença nobre em cena, com todo o seu conhecimento interpretativo e inteligência emocional, valorizando cada palavra, cada frase emitida pelo seu Rei Augusto, que já nos conquistou. Marco emprestou ao seu papel a severidade esperada de um soberano, mas também uma sensibilidade irresistível. Rosamaria Murtinho, outra insigne atriz de nossas Artes, faz parte da História de nossa TV, com carreira prodigiosa, assim como Marco Nanini, no cenário teatral, e o convite que lhe foi feito para dar vida à honrada Rainha Crisélia não poderia ter sido mais oportuno. Rosamaria nos transmite uma beleza de interpretação que transcende as telas, não nos poupando de sua vasta emoção ao desenhar os traços delicados e necessariamente austeros de sua Rainha. A cenografia de Keller Veiga e Pedro Equi é deslumbrante em sua amplidão, no que corresponde aos espaços palacianos, e charmosa e coerente no que se refere aos ambientes mais simples, como a casa de Amália. A cidade cenográfica, com suas fachadas e logradouros, impressiona. A cenografia virtual, que nos provoca alumbramento, coube a Marcio Fontes e Glaucio Lazaro. Nininha Médicis ficou encarregada da produção de arte impecável. Cada detalhe, como taças de metal, os elementos que ornamentam a feira de Artena, os aspectos domésticos da morada plebeia, os pontos caracterizadores do banheiro de Catarina nos causam assombro pelo seu capricho e pesquisa. Mariana Sued se incumbiu da confecção dos figurinos riquíssimos. A riqueza dos costumes não se restringe ao sentido literal do termo, com todos os enfeites, ornamentos e filigranas estilísticas das vestes nobres, mas na elegância simplória das vestimentas dos plebeus, e na eloquência estética dos uniformes dos soldados reais (a equipe de figurinistas assistentes e apoio ao figurino é enorme). A direção de fotografia ficou sob a batuta de Alexandre Fructuoso. Alexandre explorou bastantes possibilidades de texturas, filtros e luminosidades. Seu trabalho é irretorquivelmente magistral. Alexandre impingiu um colorido vívido às cenas de multidão, como na inauguração do aqueduto. Escolheu as sombras e meias-luzes nas dependências do palácio, como na conversa definitiva entre o Rei Augusto e a Princesa Catarina, e tonalidades azuladas nas noites do Reino de Artena. Os efeitos especiais de Federico Farfan, e os efeitos visuais de Marcelo Nicacio e Rafael Ambrosio, em associação com a avançada tecnologia da computação gráfica, podem ser definidos, sem hesitação, como excelentes, servindo para o ótimo acabamento estético da produção. A lindíssima abertura foi imaginada por Alexandre Romano, Flavio Mac, Fabricio Duque e Felipe Lobo. Este criativo e inspirado quarteto se utilizou de tons amarelos/dourados fortes (há uma evolução para outras cores, algumas mais escuras), e uma câmera em movimentos contínuos e circundantes que testemunha fatos que aludem ao enredo, com as pessoas simbolizadas por bonecos meticulosamente artesanais (parecem feitos de cobre). Há um séquito de cidadãos plebeus carregando baldes de água em direção a um castelo no alto de uma colina, um casal apaixonado, uma moça fugitiva, rosas e seus galhos retorcidos, chuvas de flechas em uma batalha, uma ave com olhos faiscantes, uma princesa sendo coroada, terminando com um soldado de costas para uma mulher. Uma pequena obra-prima com a voz divina da jovem norueguesa de 21 anos Aurora interpretando a canção folclórica “Scarborough Fair”. As magníficas músicas originais receberam a assinatura de Alexandre de Faria e Rodrigo Marsillac, com gerência musical de Marcel Klemm. As músicas, de caráter essencialmente épico, foram gravadas na República Tcheca pela Orquestra Filarmônica de Praga, no Smecky Music Studio, durante quatro dias (a orquestra está acostumada a fazer trilhas para filmes relevantes, como a trilogia de “O Poderoso Chefão”). O resultado ficou esplêndido. “Deus Salve o Rei”, definitivamente, levando-se em conta o seu inesquecível primeiro capítulo, já entrou para a história da TV brasileira. Muitos são os motivos para prender o telespectador, e fazê-lo acompanhar esta encantadora e mágica história. Por algumas dezenas de minutos, de segunda a sábado, iremos nos sentir como nobres ou plebeus, em Montemor ou Artena, isso não importa. O importante é embarcar nesta fascinante obra teledramatúrgica, cheia de sonhos e fantasia. Se Deus salvou o Rei, também salvou a luz criativa, a ousadia e o talento de toda a equipe da nova novela das 19h, “Deus Salve o Rei”.

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Foto: Ramón Vasconcelos/Gshow

Desde a década de 70 nos acostumamos a assistir pela TV aos clássicos do cinema-catástrofe norte americano, como “O Destino do Poseidon”, de Ronald Neame (1972) e “Inferno na Torre”, de John Guilhermin (1974). Houve um interregno deste gênero, até que nos anos 90 se percebeu o surgimento de muitos longas que tinham os seus roteiros baseados em catástrofes, fossem elas naturais, como “Twister”, de Jan de Bont (1996), ou não, como “Independence Day”, de Roland Emmerich (1996) e “Titanic”, de James Cameron (1997). Com a proximidade dos anos 2000, e suas teorias sobre o fim do mundo, a indústria do cinema lançou obras pessimistas e sobrenaturais, como “Fim dos Dias”, de Peter Hyam (1999). Até hoje são distribuídos no circuito filmes de temática catastrófica, ainda mais com os avanços da computação gráfica. No Brasil, em se tratando de televisão, raros são os casos em que eventos com a magnitude de uma catástrofe foram retratados. Um dos melhores exemplos talvez seja a novela de Silvio de Abreu, “Torre de Babel” (1998), na qual a personagem de Adriana Esteves, Sandrinha, causou a explosão de um shopping. No entanto, não podemos deixar de destacar outras duas novelas exibidas no momento, “O Fim do Mundo”, de Dias Gomes (1996), reprisada no Canal Viva, e “Apocalipse”, de Vivian de Oliveira, na RecordTV. Uma das apostas da Rede Globo para este início de ano é a minissérie de Elena Soarez e Luciano Moura (com a colaboração de Sofia Maldonado), “Treze Dias Longe do Sol”, com a direção artística do próprio Luciano Moura. A minissérie, em resumo, discorre sobre os treze dias em que o engenheiro Saulo (Selton Mello), a médica Marion, filha do dono do prédio que abrigaria uma clínica, Dr. Rupp (Lima Duarte), interpretada por Carolina Dieckmann, Yasmin (Camila Márdila), a filha grávida de um dos operários, Jesuíno (Antonio Fábio), e mais alguns operários tentam sobreviver, após seu desabamento, nos escombros do edifício construído com materiais e quantidades adulterados pelo engenheiro e pela diretora financeira Gilda (Debora Bloch) da Baretti Construtora, de propriedade do inescrupuloso e corrupto Vitor Baretti (Paulo Vilhena), com o intuito de desviar recursos para a compra de parte da empresa. Impossível para nós, telespectadores, não nos lembrarmos de casos reais, como o desabamento de dezenas de apartamentos do edifício Palace II, ocorrido criminosamente em pleno domingo de Carnaval de 1998, matando 8 pessoas, e deixando 176 famílias desabrigadas, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Na cena inicial do episódio “Falha Estrutural”, vemos Saulo defronte ao mar com pensamentos suicidas. Partimos para o prédio em construção, localizado em São Paulo, com sua visão externa. Em seu interior, o engenheiro fita, angustiado, uma enorme rachadura que teima em aparecer em um dos pavimentos. Conversa rapidamente com Gilda ao telefone sobre problemas de pagamento a fornecedores. Fica-nos claro que há uma conta com fundos ilegais que não pode ser mexida. Sob uma chuva torrencial, Vitor chega ao edifício. A relação entre ele e Saulo não é das melhores. Falam acerca da pressão dos compradores do prédio com relação ao atraso de sua entrega, e das iminentes vistorias. Ocorre também um conflito sobre quem deverá ir ao encontro com o prefeito, demonstrando a colaboração deste com práticas ilícitas. Marion chega ao local para vistoriar o andamento das obras (ela representa o seu pai, que está adoentado, recuperando-se de um AVC), percebendo que há ainda muito o que se fazer, sendo sempre contrariada pelo engenheiro. O casal deixa à vista um clima de romance mal resolvido. A chuva continua a cair forte, e um alagamento suspeito irrompe do chão. Yasmin vai visitar o seu pai Jesuíno em seu local de trabalho. Desconhecendo seu estado de gravidez, Jesuíno reage mal. Existe uma relação estranha entre ambos. Na reunião em que se espera a presença do prefeito, Vitor se mostra bastante inquieto devido a negociações espúrias não fechadas. Luciano Chirolli, como Samuel Krieg, representa o prefeito, que já assentiu a negociata com o jovem empresário. Enquanto os operários Zica (Démick Lopes) e Dario (Glauber Amaral) brigam por dívidas, a água continua a brotar do chão. E não é cano estourado. Marion continua a encontrar uma série de irregularidades na obra, como cilindros de oxigênio armazenados. O que se esperava finalmente aconteceu. O prédio desabou. As cenas dirigidas por Luciano Moura e Isabel Valiante são incrivelmente realistas e impactantes, com efeitos especiais de altíssimo nível, similares aos vistos nas produções do gênero americanas. O construtor Vitor fica sabendo do sinistro pelo celular, ao mesmo tempo em que jornalistas, já cientes, fotografam-no impiedosamente. Num ambiente de total desolação, com uma montanha imensurável de concretos em pedaços, carro de Bombeiros e socorristas chegam aos montes. O diretor optou por fazer uma tomada aérea central, a fim de que tivéssemos a real noção da tragédia. A montagem e edição de imagens é rápida, tremida, nervosa, acompanhando a velocidade dos acontecimentos, não poupando o público das cenas de pessoas feridas, ensanguentadas, desacordadas. Uma reprodução fiel do que nos habituamos a assistir nos telejornais. Registros dignos de um atentado terrorista. Passamos para o Quartel de Bombeiros onde se encontra o Capitão Marco Antônio, personificado por Fabrício Boliveira. O Major, enfrentando a resistência do Capitão, que alega estar suspenso, e o Regimento não permite a sua saída, designa-o para ajudar nos resgates. Paira a dúvida sobre o que o Capitão deve ter feito ao ponto de ter sido punido. Lá chegando, toma a frente das operações de salvamento. No imenso escritório central da Baretti Construtora, Gilda, atônita, anda de um lado para o outro dando ordens, até que sabe por Vitor de que tanto Saulo quanto Marion estão soterrados. Dr. Rupp, aos prantos, debate-se em sua cama ao tomar conhecimento da situação de sua filha. Nos resgates, o Capitão Marco Antônio tem que tomar decisões difíceis, que contrariam as normas convencionais de procedimentos de salvação nestes casos. No local das buscas, Gilda, em estado de choque, procura ao máximo atrapalhar o trabalho dos assistentes sociais. Há a suspeita de que Saulo esteja entre os mortos encontrados. Entretanto, Ilana Krieg (Maria Manoella), sua ex-mulher, acompanhada de uma assistente social (Dani Nefussi), não reconhece o corpo, espantando-se ao saber que Marion está entre os soterrados. Num espaço de terror, em meio a poças d’água, jorros de água, escuridão e entulhos, o engenheiro parece catatônico. Ouvem-se gritos de toda parte. Dario, um dos operários, está gravemente ferido, e é socorrido pelo seu irmão Daréu (Rômulo Braga). Um fio desencapado próximo à água os ameaça com a eletrocussão. Entre os sobreviventes, está Bené (Arilson Lopes). Alguns gritam, entre eles Marion: – Saulo, nós temos que sair daqui!. Saulo se levanta e vai em direção aos irmãos, sendo agredido. O engenheiro pega uma pedra, golpeando Daréu na cabeça com brutalidade. A insanidade começa a imperar no universo onde a lei da sobrevivência ditará as regras. O texto de Elena Soarez e Luciano Moura obedece aos preceitos determinantes deste gênero narrativo, cumprindo a sua precípua função de imprimir à trama doses substanciais de ação, terror e suspense, em paralelo, nesta minissérie, a uma rede de intrigas que envolve corrupção, ganância e sede de poder, não abrindo mão, contudo, de conflitos de caráter afetivo. Os diálogos são fluidos, certeiros e afiados, adequando-se à objetividade deste tipo de história. Na categoria em que se insere esta espécie de roteiro não são permitidas cenas demoradas, tampouco conversações longas, atingindo-se desta forma o timing exigido em situações fictícias desta natureza. Luciano Moura e Isabel Valiante se empenharam em retratar em imagens convincentes e chocantes esta série de episódios marcados pelo horror do desabamento de um prédio com pessoas em seu interior. Como já foi dito anteriormente, amparados em efeitos especiais de potência visual inacreditável, procuraram extrair do elenco os principais aspectos definidores das personalidades de seus personagens. Há um elemento comum na quase totalidade das cenas levadas ao ar: a tensão. Uma tensão em diferentes nuances, apropriada ao contexto e à contingência dos fatos. O elenco, muito bem escalado, reúne intérpretes com carreira consolidada no cinema, como Selton Mello, e na TV, como Carolina Dieckmann. Por sinal, é o reencontro deste casal que tanto sucesso fez na novela de Walther Negrão, “Tropicaliente” (1994), como Vitor e Açucena, respectivamente. Selton construiu o engenheiro Saulo com certa frieza e distanciamento. O engenheiro, mesmo ciente de seus atos errados e condenáveis, imbui-se de uma força interna que o faz seguir em frente na prática de seus intentos criminosos. Nota-se, de modo quase imperceptível, um sentimento de culpa em sua consciência (com a exceção da cena inicial). Carolina Dieckmann, como Marion, transmitiu-nos toda a sensação de incredulidade que perpassa os seus sentimentos. Existe em sua relação com o engenheiro vestígios de ressentimento e mágoa. A atriz soube traduzir com distinta eficiência estas impressões de sua identidade. Paulo Vilhena encarna com notável pujança o arrogante herdeiro da Baretti Construtora. Paulo coloriu o jovem ambicioso e corrupto com tintas de cinismo e empáfia, transitando para outra esfera de reações emotivas quando o seu plano de enriquecimento ilícito começa a ruir. Debora Bloch abrilhantou o episódio ao criar uma mulher rude, insensível, gananciosa, que se vale de seu alto cargo para se locupletar. Gilda não se deixa atemorizar ao lançar mão de expedientes reprováveis com o propósito de burlar a lei. A atriz garantiu excelentes cenas à minissérie. Fabrício Boliveira defendeu com grande dignidade o personagem Marco Antônio, Capitão do Corpo de Bombeiros. Seu olhar fixo é sofrido por guardar na memória um fato na profissão que o traumatizou. Todavia, seu entusiasmo em salvar vidas no local do desmoronamento empolga e comove. Por sinal, a cena em que dá ordens aos demais bombeiros, contrariando os procedimentos de praxe, merece menção. Lima Duarte, como Dr. Rupp, dispensa comentários, pois sua simples aparição engrandece e enobrece qualquer produção teledramatúrgica. Luciano Chirolli, importante ator de teatro, valorizou sobremaneira o megaconstrutor Krieg, oferecendo-nos a real dimensão de sua condição como empresário avesso à ética, em conluio promíscuo com o poder político. Camila Márdila, intérprete brasiliense que se destacou no filme “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, personificou com sensibilidade a filha grávida rejeitada pelo pai. Maria Manoella, como Ilana, a ex-mulher de Saulo, expressou tanto o desespero com a possível morte do engenheiro, quanto a decepção ao saber da presença de Marion na obra, o que lhe causou evidente ciúme. Os demais atores do elenco se sobressaíram, como Dani Nefussi (atriz que se notabilizou no longa de Anna Muylaert “Mãe Só Há Uma”), Antonio Fábio, Arilson Lopes (Bené), Démick Lopes, Rômulo Braga e Glauber Amaral. A direção de fotografia de Ralph Strelow e Rodrigo Monte se mostra coerente com a temática, apostando nas tonalidades acinzentadas, frias, cruas. O cinza da obra, dos concretos, do dia chuvoso, além da impessoalidade das salas da grande construtora. A inteligente e difícil montagem coube à dupla Marcio Hashimoto e Lucas Gonzaga. Na instigante abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguelê e Renan de Moraes temos a ótima canção de PJ Harvey, “When Under Ether”, na versão de Beto Villares e Érico Theobaldo. Nela, a câmera passeia por objetos e locações diferenciadas, com suave fusão de imagens. O universo familiar, com móbiles infantis, óculos e aliança se mistura ao local da tragédia, com seus elevadores, suas lâmpadas piscando, a água invadindo o piso, capacetes, crachás e armários de operários. “Treze Dias Longe do Sol”, uma coprodução da Rede Globo com a O2 Filmes, é uma minissérie que traz uma renovação na teledramaturgia brasileira em termos de linguagem, haja vista que não estamos habituados, como dito, a este gênero narrativo. Com cada episódio possuindo um título específico, não seremos poupados de elementos que naturalmente atraem a nossa atenção e interesse, como suspense, ação, intrigas, terror e até um pouco de romance. Veremos a que ponto chega o comportamento humano diante das situações mais adversas, em que a vida e a morte estão intimamente ligadas. Valerá a pena ficarmos os próximos nove episódios em frente à TV. Bem longe do Sol.

 

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Foto: Elisa Mendes

No ano 2000, os amantes de cinema de todo o mundo ficaram impressionados com o mais novo filme do cineasta dinamarquês seguidor do Movimento Dogma 95, Lars Von Trier, estrelado pela cantora e compositora islandesa Björk, “Dançando no Escuro”. O longa-metragem fazia parte de uma trilogia chamada “Coração de Ouro” (as demais obras eram “Ondas do Destino” e “Os Idiotas”). Vencedor da Palma de Ouro em Cannes como Melhor Filme e Melhor Atriz, também foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O drama musical narrava a história da imigrante tcheca Selma Jesková, nos Estados Unidos de 1964, em plena Guerra Fria, vítima de uma doença degenerativa cujo principal sintoma era a cegueira completa, que se desdobrava diuturnamente no trabalho em uma fábrica local com o único propósito de juntar o dinheiro necessário para pagar a cirurgia de seu filho adolescente Gene, que possivelmente desenvolveria a enfermidade genética. Traduzir esta trama espinhosa, doída, porém cheia de poesias e lirismo, para o teatro, incluindo-se as canções de melodia diferenciada e única de Björk, parecia, à primeira vista, uma tarefa impossível de se realizar. Não para o nova-iorquino Patrick Ellsworth. A atual montagem no Brasil teve a sua semente nos tempos de escola de teatro da ainda estudante Juliane Bodini. Há exatos dez anos, na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro, Juliane, sob a supervisão de seu professor, o dramaturgo e diretor Paulo Afonso de Lima, foi apresentada ao impactante filme de Trier. Junto com seus colegas, fez uma montagem baseada na criação do cineasta, e prometeu a si mesma que no futuro, já como profissional, encenaria o musical “Dançando no Escuro”. Com os direitos comprados em 2015, associada ao também ator e produtor Luis Antonio Fortes, dá início à longa empreitada que resultaria em um dos melhores musicais jamais vistos nos últimos anos no país. Com precisa e cuidadosa tradução de Elidia Novaes, foi convidada para a direção do espetáculo a ótima atriz Dani Barros, estreante nesta função. Dani se celebrou ao protagonizar o incensado monólogo “Estamira”. Seria este um dos maiores desafios da trajetória bem-sucedida da artista. Desafio aceito, “Dançando no Escuro”, findo todo o seu processo de construção, tornou-se um dos espetáculos mais elogiados da temporada, com excelente receptividade de público e crítica. Sua estreia no Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro, ocorreu em outubro passado, e se estendeu até novembro. Durante os quatro primeiros dias de dezembro fez uma curta e elogiada passagem pelo Teatro da UFF, em Niterói, município fluminense. A montagem hoje já conta com duas indicações para o Prêmio Cesgranrio de Teatro: Melhor Atriz em Musical para Juliane Bodini e Melhor Direção Musical para Marcelo Alonso Neves. A dramaturgia bem estruturada de Patrick Ellsworth, centrada na linearidade, sem que esta comprometesse o dinamismo e timing da ação narrativa, foi respeitada com esmero pela tradutora. A peça conta a história desta imigrante de um país comunista, Selma Jesková, vivida por Juliane Bodini, que se adapta ao ritmo frenético de um trabalho fabril em terras com ideologias políticas e econômicas distintas, tendo como objetivo principal a salvação de seu doce filho Gene (Fábio Cardoso) da doença que já a acomete. Confessa admiradora dos musicais hollywoodianos (segundo ela, estes mesmos filmes não deveriam ter o “grand finale”, a fim de que pudéssemos imaginar a continuação de seus ingênuos entrechos). Nos intervalos em que não está trabalhando (empacotando grampos, aproveita as folgas para aumentar o seu orçamento), Selma ensaia com os seus companheiros de fábrica um musical. Quem os dirige é o exigente Samuel (Andrêas Gatto). Selma aluga um trailer simples, pertencente ao cordial policial Bill Houston (Lucas Gouvêa), casado com a deslumbrada e fútil Linda Houston (Julia Gorman). No ambiente de trabalho, Selma ouve as declarações afetuosas de Jeff (Luis Antonio Fortes), e recebe os conselhos e orientações de sua melhor amiga, a ponderada Carmen Baker (Cyria Coentro). Cada vez mais perseverante em seus intentos, decide labutar à noite, também. Neste turno, conhece a espontânea e masculinizada supervisora Dolores (Suzana Nascimento). Os funcionários dos períodos antecedentes são fiscalizados com mãos de ferro pelo supervisor Norman (Marino Rocha). Em meio às perigosas e arriscadas prensas e chapas da fábrica, a mãe de Gene vai perdendo a sua visão progressivamente. Este drama pessoal não a afasta de seus sonhos musicais, e por enquanto não a tira dos ensaios da peça. A moça amante dos passos compassados e ritmados do sapateado é invariavelmente visitada pelo seu filho. Todos se perguntam por que Selma trabalha tanto. Para ela, a verdade não seria adequada, preferindo a versão de que manda todas as suas economias para o seu pai, um ex-bailarino tcheco. Já praticamente sem visão, o que lhe acarreta não só prejuízos físicos e profissionais, Selma é surpresa ao ser abordada pelo inicialmente cordato Bill. O policial, capaz de agrados como presentear Gene com uma bicicleta nova, está atolado em dívidas, não tendo como saldá-las. Com a pretensão de manter o seu padrão econômico confortável, e não desagradar a Linda, pede-lhe um empréstimo. A negativa incisiva de Selma provoca consequências inesperadas para a sua vida, de seu filho, e de seus amigos, fazendo com que tenha que tomar as mais difíceis decisões, resistindo de maneira férrea às circunstâncias que poderão fazê-la abrir mão de seus sonhos tão caros. Os episódios que demarcam a narrativa de Patrick Ellsworth são alinhavados de forma que acompanhemos com bastante interesse a trajetória cronológica desta rica e complexa personagem, com seus reveses e fugazes alegrias. O autor não deixou que faltassem os ingredientes indispensáveis para o nascimento de um bom espetáculo musical. Em “Dançando no Escuro”, nos núcleos em que se desenrolam as ações, há suspense, tensão crescente, conflitos, amores, amizade, preconceitos, traição, injustiça, inclemência… Entretanto, há um generoso espaço para a instigante e etérea musicalidade de Björk, entrevendo-se outrossim um sutil humor em alguns diálogos. Os comentários políticos discriminatórios com doses de ufanismo exercem o seu papel reflexivo no público. A direção de Dani Barros, pode-se dizer, é espetacular. Incrível como a encenadora logrou manter toda a ambiência sugerida no texto de Patrick baseado no filme. A sensibilidade da diretora permitiu com que atravessasse o seu olhar através da sensibilidade da personagem central da história. A sua dinâmica, movimentada e ágil montagem, com reverências oportunas aos instantes de pausa e silêncio, sabendo com argúcia inserir e distribuir os quadros musicais sem que houvesse uma ruptura da fluidez narrativa, proporcionou a realização de um espetáculo com duração de duas horas, com direito à intervalo, sem que percamos as expectativas sobre o que irá acontecer nos minutos seguintes, como se estivéssemos assistindo a uma obra cinematográfica, onde, afinal, tudo começou. Dani pôs os seus atores-cantores, nove ao todo, em constante movimentação, aproveitando sobremaneira o largo perímetro cênico de que dispunha, inclusive o proscênio, os flancos próximos às coxias e a plateia. Todavia, nem tudo é só movimento na peça em questão. Enquanto alguns intérpretes contracenam, outros se mantêm sentados nas laterais cumprindo missões de vital importância sonora para o universo dramatúrgico. Valendo-se de sua inquestionável e notória experiência como atriz, Dani Barros acolheu calorosamente o seu elenco, extraindo com delicadeza as emoções implícitas de cada artista, buscando a fundo as principais intenções de seus papéis, alcançando, assim, a verdade cênica pretendida. A sua capacidade de fazer com que o espetáculo não resvalasse para o melodrama, pois armadilhas existem, e de não permitir que os sofrimentos de Selma fossem um “trunfo” para tocar o espectador, pode ser considerada como outro de seus méritos. Dani Barros, em sua estreia como diretora teatral, ostentou visíveis qualidades de quem já exerce este ofício por largo tempo, ainda mais se atentarmos para o fato de que se trata de um gênero musical, conhecido por apresentar dificuldades técnicas que lhe são natas. Paralelo à sua profissão de atriz, Dani Barros pode, sem quaisquer hesitações, aventurar-se em projetos teatrais futuros. O resultado será, como o de agora, certamente elogiável. A direção musical e os arranjos ficaram sob o encargo de Marcelo Alonso Neves, respeitado profissional da área (a ÁUDIO CÊNICO ficou responsável pelo desenho de som – Andrea Zeni e Joyce Santiago). Tendo em mãos as canções originais de Björk (com boas versões de Marcelo Frankel e Juliane Bodini), e um quarteto de músicos admiravelmente talentosos, constituído pelos multi-instrumentistas Vanderson Pereira e Dilson Nascimento, pelo baterista Johnny Capler e pelo baixista Allan Bass, Marcelo nos ofertou um panorama melódico irresistível na sua alternância de potência, intimismo, graça e ritmo. Nada escapa à imaginação do diretor musical. Os atores se utilizam quando sentados nas laterais do tablado de objetos improváveis, e deles tiram as mais variadas sonoridades, lembrando-nos do mestre Hermeto Paschoal. Batidas com as mãos em seus próprios corpos, e sons de suas bocas, como assovios, contribuem para a complementação da cena vigente. Vale dizer que dois dos músicos são deficientes visuais, uma iniciativa de robusto valor, provando a necessidade de se praticar a inclusão social, independente da área de atuação. Juliane Bodini, atriz e cantora de musicais de sucesso, arrebata-nos irreversivelmente com a veracidade tocante e a sensibilidade aguçada da sua visão particular sobre a mãe imigrante obcecada em salvar o filho da possível cegueira hereditária. A personagem Selma Jesková lhe oferece infinitas possibilidades de evidenciar suas emoções pessoais, podendo atingir níveis de intensidade bastante diferenciados, e Juliane se sai bem em todas as ocasiões em que aquelas lhe são pedidas. Sua linda e afinadíssima voz possui um timbre capaz de alcançar todo e qualquer tipo de nota, assemelhando-se de forma inacreditável ao timbre da cantora Björk, com seus agudos inconfundíveis. Cyria Coentro, uma intérprete de grande presença cênica (não nos custa lembrar de suas mais recentes atuações na TV, como na novela “Velho Chico” e na supersérie “Os Dias Eram Assim”, na Rede Globo), constrói com linhas e contornos demasiado nítidos, e desta forma amplamente convincentes, a forte, sensata, justa e sensível Carmen Baker, a melhor amiga da protagonista, presente nos bons e nos mais difíceis momentos. Com sua bonita e segura entonação vocal, Cyria brilha a cada vez que nos demonstra a amizade imensurável que sente por Selma, não se deixando abater face a algumas resistências de sua amiga. Luis Antonio Fortes (idealizador da montagem juntamente com Juliane Bodini) imprime à sua personificação de Jeff, o jovem colega de trabalho de Selma que não esconde a paixão nutrida por ela, a legitimidade essencial para crermos na pureza e ternura de seu amor. Luis empresta ainda ao seu papel uma certa docilidade encantadora. Andrêas Gatto assume o papel de Samuel, o funcionário da fábrica que dirige a montagem musical de seus colegas. Andrêas se impõe notadamente nas cenas em que tem que nos transmitir a autoridade implícita em um encenador perante o seu elenco. Com passagens da peça nas quais dirige os atores sentado em uma das cadeiras do teatro percebemos a qualidade extensiva de sua voz. Assim como consegue se mostrar exigente, da mesma maneira se evidencia sutil e cauteloso ao abordar Selma em uma situação delicada. A Fábio Cardoso coube a não fácil tarefa de dar vida a um adolescente de 12 anos prestes a completar 13 (somente com esta idade faria a cirurgia intentada por sua mãe). E Fábio se sai muitíssimo bem. O jovem intérprete realiza um trabalho de composição em que se acredita piamente na ingenuidade, na fragilidade e na pureza de um menino nesta faixa etária (considerando o contexto da peça, inclusive o período em que se passa). Fabio também ostenta com convicção a enorme afetuosidade e sintonia que possui com a sua progenitora. Julia Gorman expõe suas potencialidades artísticas, extremamente visíveis, nos dois papéis em que tem que se desdobrar. Julia Gorman ao interpretar Linda Houston, elabora com tintas certas a bonita mulher que se deixa corromper pelos vícios de futilidade alimentados pelo seu marido Bill. Notamos em suas atitudes um ar de arrogância e sentimento de superioridade. Com o desenrolar dos acontecimentos, passamos a conhecer uma outra Linda, agressiva e impiedosa. Julia outrossim se encarrega de criar um perfil para uma funcionária da fábrica participante do musical em montagem. A funcionária/atriz em pauta deixa escapar sinais de deslumbramento ao se dar conta da possibilidade de ascender no espetáculo. Como se vê, Julia Gorman precisou desfilar em cena camadas de personalidades com distâncias entre si. E o fez com o requinte exigido. Lucas Gouvêa se incumbiu de dar forma ao seu papel, o policial Bill Houston. Lucas se esmerou com inegável êxito ao fazer a transição do Bill cortês, bom policial, generoso e solidário, para o Bill acuado, descompensado, criminoso e chantagista. Depois, sem tons acima, projetou nos palcos a imagem de um homem vulnerável, sem saída, refém das circunstâncias que ele mesmo criou. Defende a seguir um magistrado com a solenidade e dureza que lhe convêm. Marino Rocha se engaja com as posturas firmes críveis e indispensáveis a um supervisor de turno de uma fábrica, traçando com linhas coerentes os elementos que privilegiam o comportamento de seu Norman. Desta maneira, Marino se harmoniza com o universo da montagem, dando-lhe valorosa contribuição. Suzana Nascimento, atriz que despertou aplausos em seu monólogo “Calango Deu! Os Causos da Dona Zaninha” (a peça dirigida por Isaac Bernat, e escrita pela própria atriz, está completando cinco anos de temporada), destacou-se ao incorporar Dolores, a supervisora do turno da noite, quando Selma decide trabalhar neste período. Nota-se claramente que a intenção de Suzana foi a de compor um tipo, e esta bem-sucedida intenção transformou Dolores, com seus gestos e postura masculinizados e até mesmo grosseiros, em uma figura leve e divertida. Além de pontuar a sua composição no corpo, Suzana imaginou uma voz não convencional para a sua personagem. Coube, também, a Suzana, encarnar uma policial/guarda em um momento crucial da encenação. Este papel lhe exigiu uma complexa dualidade, pois, a princípio, não se espera de alguém que ocupe este posto a manifestação patente de seus sentimentos e de sua misericórdia com relação ao próximo, e testemunhamos justamente o contrário, resultando em uma passagem comovente do musical. O cenário de Mina Quental faz uma reprodução inteligente, criativa e pessoal do ambiente de uma fábrica. Mina, sabidamente, “inventou” uma fábrica norte-americana dos anos 60. Somos surpresos por um enorme painel ao fundo do palco (com direito à escada de ferro, e lógico, a um pequeno segundo plano – lugar que exerce papel decisivo na história). Todo este painel, com textura terrosa, crua, é preenchido por múltiplos objetos (não obrigatoriamente relacionados a uma fábrica), como calotas, mangueiras enroladas, e até mesmo um violão. O efeito é espantoso e belo. A cenógrafa se utilizou também de cerca de uma dezena de cadeiras metálicas, que são deslocadas conforme as exigências da ação. Há ainda duas mesas corrediças bastante funcionais. Os figurinos são de Carol Lobato. Carol apostou na fidelização do período e local específicos em que se desenrola a narrativa. Com indiscutível coerência e praticidade, a figurinista vestiu as atrizes com vestidos em tons crus e terrosos, em conformidade com o cenário, acinturados e com botões. Seus sapatos são pretos. A fim de diferenciá-la dos demais, a responsável pelos figurinos emprestou a Selma de Juliane Bodini o indefectível par de óculos de grau, um lenço estampado e meias de cor escura, além de uma bolsa. Já os atores foram trajados com macacões, seguindo a mesma linha lógica de tonalidade assumida. E como acessórios, quepes, boots e vestimentas de magistrado. A inebriante iluminação de Felicio Mafra, incontestavelmente, colaborou de maneira sublime não só para o embelezamento estético/visual do espetáculo, mas também no sentido de contextualizar com absoluta ciência as cenas decorridas com os seus respectivos graus de emoção e ação atingidos. Felicio priorizou o tom suavemente amarelado de sua luz na maior parte da montagem, conferindo-lhe ao mesmo tempo naturalidade e distanciamento ficcional. O iluminador lançou mão de focos pontuais, feixes atravessados e entrecruzados, e luzes azuis. Potentes spots serviram como faróis de carro. Em determinadas situações, escolheu um plano mais aberto, com o propósito voluntário de diferenciação do clima dramatúrgico. Veem-se as sombras dos músicos que se encontram por detrás de uma tela translúcida componente do painel cenográfico. A direção de movimento e as coreografias tiveram a assinatura de Denise Stutz. Já as aulas de coreografia e sapateado foram dadas por Clara Equi. E, por fim, Camila Caputti, que se responsabilizou pela preparação corporal e, também, pelas coreografias. As três profissionais demonstraram excelência conjunta na criação dos movimentos coreográficos do musical, peças indissociáveis para a concretização deste gênero com sucesso. Todas as passagens, sem exceção, em que os atores tiveram que exibir os seus dotes de dança, foram invariavelmente sedutoras. Sem extravagâncias acrobáticas, realçando o charme e o encantamento que os movimentos ao som da música podem nos proporcionar, os números de coreografia de “Dançando no Escuro” ocupam um lugar de destaque na encenação. Mirna Rubim se incumbiu da preparação vocal do elenco. Os atores revelaram, em momentos solo ou em coro, suas potencialidades e aptidões como cantores de um musical, associando com equilíbrio as exigências técnicas e a sensibilidade e a emoção demandadas nas interpretações das composições da montagem. Marcio Mello é o visagista do espetáculo. De maneira acertada e congruente, optou por colocar as atrizes com o rosto ao natural (no máximo se percebe uma maquiagem bem discreta) e os cabelos presos em coque. Bruno Dante fez a confecção do Boneco. Não se pode falar muito a respeito deste assunto, pois contaríamos a surpresa de um dos grandes momentos da peça. O que posso lhes dizer é que Bruno fez algo impactante, inacreditável aos nossos olhos, misturando com maestria beleza, fantasia e realidade. “Dançando no Escuro”, com direção de produção de Jéssica Santiago, é um musical essencialmente humanista. Em seu cerne, fala-se sobretudo sobre o ser humano. Seus desejos, sentimentos, qualidades e a ausência delas. Mostra o quanto as pessoas podem ser norteadas pelo amor e pela amizade, pela devoção e persistência. Revela-nos também a face sombria do indivíduo, com as suas práticas intolerantes, preconceituosas, injustas e traiçoeiras. Nada mais atual. “Dançando no Escuro” lança uma nova luz no gênero musical brasileiro. “Dançando no Escuro” nos abre as portas para um novo olhar acerca da complexidade das emoções do homem. Com a história de Selma Jesková, tudo se clarifica no que concerne às infinitas dimensões do amor materno. Apesar das dores por que passa, a lição que Selma nos deixa não tem nada de escura. Seu amor é imensamente claro. Seu amor literalmente… cura.

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Foto: Divulgação

Em sua primeira apresentação em Niterói, no Rio de Janeiro, em seu suntuoso Teatro Municipal, a linda paraibana Lucy Alves conquistou irremediavelmente o público da cidade, que lotou o espaço em suas duas únicas sessões. Revelada no Brasil pela sua bem-sucedida participação na segunda temporada do reality musical da Rede Globo, “The Voice Brasil”, em 2013, a também atriz fez sucesso na novela de Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Barbosa Luperi, “Velho Chico”, interpretando Luzia, na mesma emissora (sua atuação lhe rendeu prêmios de Atriz Revelação). Vestindo uma saia platinada fluida e um top dourado, a compositora e multi-instrumentista que está no ar em “Tempo de Amar”, folhetim de Alcides Nogueira e Bia Corrêa do Lago, como Eunice, mostrou no espetacular show dirigido por Davi Moraes (também guitarrista) todo o seu virtuosismo no manuseio de instrumentos que remetem às tradições culturais nordestinas, como o acordeão, a escaleta e a guitarra baiana, além de nos impressionar com a sua intimidade com o violino e o violão. A intérprete, graduada em Música pela UFPB (Universidade Federal da Paraíba), esteve acompanhada por músicos extremamente talentosos, em evidente sintonia com o seu espírito musical, como o próprio Davi, Cesinha na bateria, Leonardo Reis na percussão e eletrônicos, e Pedro Dantas no baixo. Lucy Alves, que começou a se interessar pelo universo dos sons ainda na infância, integrando orquestras e cameratas, desfilou em seu show um repertório marcado por canções de forte apelo melódico, com letras poéticas e de caráter romântico, como o irresistível e dançante hit “Caçadora”, composto por César Lemos e Bruno Caliman, lançado no início deste ano. Ao anunciar a sua interpretação, a plateia demonstrou entusiasmo, sendo um dos pontos altos da noite. Aliás, não faltaram momentos inesquecíveis durante a apresentação da artista que faz parte do grupo nordestino Clã Brasil. Lucy evocou, com os acordes de seu violino, uma emocionante e bela versão de “Chorando Se Foi”, sucesso celebrado pelo conjunto Kaoma, como introdução, emendando com a romântica e arrepiante “Verdadeiro Amor”. Impossível não se deixar tocar face à beleza desta canção. Como convidada especial, Julia Braga, cantora e percussionista nascida em Cabo Frio, no Rio de Janeiro. As duas tiveram nítido entrosamento, deixando à mostra a admiração mútua, ao cantarem “Mar e Maria”, uma composição inédita de Lucy e Carlinhos Brown. A cantora, com CDs lançados tanto em sua carreira solo quanto com o Clã Brasil, fez algumas homenagens em sua apresentação em Niterói. Em conversa direta e espontânea com os espectadores de várias faixas etárias, provando que os seus talento e carisma ultrapassam quaisquer espécies de nichos, lembrou de sua passagem pela novela “Velho Chico”, referindo-se inclusive a Domingos Montagner. Em seguida, entoa “Meu Cantar”, escrita em parceria com Luiz Fernando Carvalho, o diretor artístico da produção televisiva na qual se destacou. Houve também uma referência à artista cearense Eliane, a “Rainha do Forró”, com “Amor ou Paixão” (o coautor da música é Natinho da Ginga). Trouxe para nós uma criação de Pretinho da Serrinha e Rogê, “Beija-Flor”. Lucy ofereceu ainda ao público a sua colaboração com Yuri Queiroga em “Xaxado Chiado”, e a inédita “Fora do Eixo”. Com pujante presença cênica e estonteantes ritmo e sensualidade ao dançar ao som de suas músicas, além dos instantes bossanovistas em que cantarolou sentada em um banco dedilhando o seu violão, Lucy Alves, indicada ao Grammy Latino na categoria “Melhor Álbum de Música Regional ou de Raízes Brasileiras” (“Lucy Alves & Clã Brasil no Forró do Seu Rosil”), possuidora de uma lindíssima voz, não esconde as suas ricas influências musicais, como a tradição regional de nomes como Luiz Gonzaga e Zé Ramalho, passando pelo forró, maxixe, xaxado, coco, pop, jazz, bossa nova, samba carioca, blues, choro e o eletrônico. A excelente banda que a acompanhou teve direito a um momento solo, aproveitado com perfeição. A limpidez sonora de seus instrumentos ressoou com magnificência. A performance de Lucy ostenta, para a nossa felicidade, o seu forte lado de atriz, com gestuais notadamente interpretativos e expressivos. Uma das bem-vindas características de seu show foi a saborosa interatividade com as pessoas, descendo do palco algumas vezes, passeando pela plateia com carinho e calor, pedindo a todos que a acompanhassem nas músicas em coro e com palmas. Não poderiam faltar, claro, em seu setlist, canções de seus mestres. De Luiz Gonzaga, encantou-nos com a emblemática “Que Nem Jiló”, e de Zé Ramalho, embalou-nos com a icônica “Frevo Mulher”. Lucy Alves, que na última edição do Rock in Rio se apresentou ao lado de João Donato, Tiê, Emanuelle Araújo e Mariana Aydar, definiu em entrevistas que o seu show é “dançante e contemplativo”. Com certeza, sua vibrante, intensa, sensível e personalíssima apresentação nos oferta estes dois importantes aspectos, mas sua performance vai muito além. O show de Lucy Alves, valorizado por uma deslumbrante iluminação, com jogos caprichados de desenhos de luz, em que se vê uma paleta de cores vivas distribuídas em escalas distintas de tons, é um precioso recorte musical de nossas múltiplas sonoridades, um rico e potente panorama de nossas raízes, tradições e contemporaneidades melódicas e rítmicas. Lucy Alves, que em dezembro entrará em estúdio com um novo projeto para a gravadora Warner, é uma estrela nata que ultrapassa os limites das suas próprias influências e formações. Por isso se diferencia. Lucy Alves não é mais uma aposta ou uma promessa, e sim uma das melhores cantoras surgidas nos últimos tempos. Sua grandeza e brilho nos palcos não me deixam mentir. Lucy Alves, “a caçadora da beleza da nossa música”.