Hebe
Foto: Divulgação/TV Globo

Uma das maiores comunicadoras do país, Hebe Camargo reunia carisma, credibilidade e clareza discursiva, sendo mais do que justificável a realização de uma série sobre a sua trajetória

A televisão só é eficaz se cumprir o seu precípuo papel de se comunicar diretamente com o público. Para que isso seja factível é indispensável que haja profissionais no veículo que reúnam atributos como credibilidade, carisma e clareza no discurso. A apresentadora Hebe Camargo reunia tudo isso e talvez um pouco mais, tornando-se assim uma das maiores comunicadoras do país. Justifica-se deste modo a realização de uma série dedicada a esta fulgurante mulher de Taubaté, interior de São Paulo, que também se sobressaiu como cantora.

Carolina Kotscho não poupou o público de nada que pudesse nublar a verdadeira personalidade de Hebe, contraditória, exuberante ou exagerada, feliz ou triste, e acima de tudo humana e corajosa, mostrando-nos além disso os seus excessos com o álcool e a sua defesa da transexualidade e da homossexualidade

“Hebe”, criada e escrita com extraordinário brilho por Carolina Kotscho (com diálogos excepcionais), reestreou seu primeiro episódio na Rede Globo na quinta-feira passada, trazendo-nos à lembrança recortes cruciais que definem com estrita precisão traços que identificam a personalidade contraditória, humana, exuberante ou exagerada, feliz ou entristecida, e corajosa desta artista que faz parte da história da TV brasileira. Carolina não nos deixou escapar nada em seu introito, que mostra a apresentadora já em tratamento contra um câncer, e 25 anos antes, defendendo a transexualidade de Roberta Close e o travestismo artístico de Patrício Bisso, a homossexualidade, combatendo as sobras da censura de uma democracia nascente (na pele do censor Guimarães, Fernando Eiras, magnífico), insurgindo-se contra a intolerância de seu diretor Walter Clark (Danilo Grangueia, vigoroso). Seus excessos no álcool não ficaram de fora nem sua relação inconstante com o ciumento marido Lélio (Marco Ricca com seu sotaque paulistês carregado está irrepreensível). Assim como o seu amor incondicional pelo filho Marcelo (Caio Horowicz, acertadamente introspectivo). O fiel sobrinho Cláudio coube ao ótimo Danton Mello.

A personificação de Andrea Beltrão da apresentadora Hebe é um marco em sua carreira

Andrea Beltrão, numa devastadora personificação de Hebe, impressiona nos detalhes de sua riquíssima composição (voz, olhar, trejeitos, postura). Um marco em sua carreira. Mauricio Farias, diretor artístico, e Maria Clara Abreu, diretora, exploram lindamente a câmera em suas distintas possibilidades. Com direção de arte de Luciane Nicolino, figurino de Antônio Medeiros e caracterização de Simone Batata irretocáveis, “Hebe” consagra-se como um sublime retrato de uma admirável estrela que tinha “peninha” de morrer.

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Foto: Marcelo Santos Braga

Todas as quintas-feiras, acontece o “Cine Debate”, sessões on-line de filmes seguidas de debate.
Numa parceria entre o Centro de Artes UFF e a Olhar Distribuidora, o longa exibido no dia 16/07 foi o documentário “Meu Nome é Daniel” (2018).
A seguir, a crítica:

Daniel Gonçalves, portador de uma doença rara que limita os seus movimentos, assume as funções de diretor, corroteirista e coprodutor de “Meu Nome é Daniel”, sendo o primeiro brasileiro nesta condição a comandar um longa-metragem

“Meu Nome é Daniel”, documentário baseado na vida do cineasta do município de Barra Mansa, Rio de Janeiro, Daniel Gonçalves (diretor, corroteirista e coprodutor), portador de uma doença rara com limitações motoras, sendo o primeiro brasileiro nesta condição a comandar uma obra do gênero, é um filme que subverte. Alternando cenas de arquivo em Super 8 e VHS de suas infância e adolescência e começo da fase adulta, narrada com ritmo e pausas certeiros em primeira pessoa por Daniel, o que confere à produção uma poderosa legitimidade, tudo é contado ao público sem pudores, de forma franca e clara, como a naturalidade de sua família em lidar com a situação, algumas manifestações de preconceito da sociedade, sua iniciação sexual, as festinhas juvenis, as relações afetivas e suas escolhas profissionais.

Com o aval de Roberto Berliner, diretor de “Nise: O Coração da Loucura”, na coprodução do longa, o documentário não pretende ser, segundo o próprio Daniel Gonçalves, “um filme de coitadinho ou super-herói” ou “um filme de superação”, o que lhe denota um caráter tematicamente subversivo 

O roteiro assinado por Daniel, Débora Guimarães e Vinícius Nascimento (também montador, realiza um ótimo trabalho), eficientíssimo em sua estrutura, com pinceladas de humor contextualizado, tem como ponto de partida a busca de seu protagonista por um diagnóstico preciso para a sua condição física, mas o filme, coproduzido por Roberto Berliner e Rodrigo Letier, não se resume a isso. Evitando temas musicais com o objetivo de afastar qualquer provocação sentimentalista, “Meu Nome é Daniel” subverte no sentido de que não pretende ser, segundo o seu diretor, “um filme de coitadinho ou super-herói” tampouco “um filme de superação”.

Premiado em três importantes festivais, o documentário nos leva a uma reflexão obrigatória e necessária a respeito da conceituação do que é ser “normal”

Premiado na Mostra de Tiradentes (Melhor Longa-Metragem pelo Júri Popular), nos Festivais Internacional de Cine de Cartagena de Índias 2019 (Prêmio Documental Calificado Oscar) e do Rio (Menção Honrosa Direção de Documentário), “Meu Nome é Daniel” é uma obra imprescindível, necessária, que nos leva à reflexão obrigatória do que é ser normal, abraçando generosamente a diversidade em todas as suas camadas, sem omitir o que dela decorre. Daniel Gonçalves representa o que há de íntegro e reto no ser humano. Daniel é bem mais do que o substantivo próprio do título de um belo filme. Daniel são muitos, mas poucos são aqueles que oferecem a sua beleza de vida em imagens.

Assista ao trailer do filme:

 

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Foto: Glauco Firpo/Gshow

Muitas atrações cujos temas são voltados para o isolamento social em decorrência da pandemia surgiram em diferentes plataformas, destacando-se entres elas a estrelada e roteirizada por Bruno Mazzeo

Neste momento insólito pelo qual passamos, reféns de uma pandemia sem precedentes no país há mais de um século, com o isolamento social recomendado, e as TVs abertas, a cabo e o streaming se firmando como algumas escolhas de lazer disponíveis para os confinados, pululam nos mesmos atrações que atribuem ao tema o seu mote principal. É o caso da divertida e muito bem realizada série multiplataforma “Diário de Um Confinado”, uma criação de Bruno Mazzeo (ator e também roteirista) e Joana Jabace, sua esposa, a quem coube a função de diretora artística, na Rede Globo. Somam-se à inspirada equipe de roteiristas Rosana Ferrão, Leonardo Lanna e Verônica Debom.

A própria casa de Bruno Mazzeo serviu como única locação da série, sendo que quase tudo referente à produção fora feito de modo remoto

Com a casa do intérprete servindo de locação, sofrendo certas adaptações, quase tudo fora feito remotamente, como as avaliações de figurino e arte (houve o envio de determinados objetos), e a participação dos atores, com a exceção de Debora Bloch, que é vizinha real de Bruno. Só um profissional técnico, após isolamento no local, trabalhou presencialmente, o diretor de fotografia Glauco Firpo.

O enredo é desenvolvido em cima da figura de um homem solteiro de classe média que por contingências da pandemia se depara com uma infinitude de ações higienizantes de proteção além de ser vítima dos conflitos psicológicos ocasionados por uma rotina (ou falta de) solitária forçada

A história é focada em Murilo, um homem solteiro, de classe média, que se defronta com todos os tipos de vicissitude decorrentes do confinamento, que vão desde os inúmeros cuidados de higiene preventiva aos percalços psicológicos de uma vida solitária forçada por meses. Murilo, já paranoico, tem que enfrentar as paranoias em sua potência máxima de sua vizinha (Debora Bloch, impagável) e de sua mãe (Renata Sorrah, maravilhosamente cômica). Entre uma engraçada sessão de análise interrompida e outra por uma doutora à beira de um ataque de nervos representada por Fernanda Torres (perfeita na neurastenia), Murilo se vê às voltas com a “embalagem perigosa” de uma pizza e os ataques virtuais ninfomaníacos de uma paquera, uma hilária Luciana Paes.

Uma série com grandes qualidades técnicas, que faz jus a entusiasmados elogios

Não se pode negar a qualidade técnica da produção, como se tivesse sido feita em um estúdio. Tudo merece louvor: roteiro, direção, atuações, fotografia, som. “Diário de Um Confinado” é como aquela pizza que se pedia nos sábados pré-pandemia: saborosa, sempre queríamos mais uma fatia e cheia de bons ingredientes. E, claro, com uma embalagem que não fosse uma vilã.

 

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Foto: Diego Garcia/Divulgação

Conhecido por sua subversão temática, vista em sua obra anterior, “Boi Neon”, Gabriel Mascaro antevê em seu mais novo longa um Brasil distópico dominado por uma fanática corrente religiosa que prega conceituações distorcidas dos elementos sagrados e profanos, que afetam diretamente o comportamento humano e sua relação com o casamento, o amor, a fé e o sexo 

Foi lançado no dia 27 de junho do ano passado o impactante novo filme do diretor pernambucano Gabriel Mascaro, conhecido pelo público a partir do sensível e original “Boi Neon” (2015), “Divino Amor”. Neste longa estrelado por Juliano Cazarré, o cineasta subvertia o universo machista dos vaqueiros ao desenhar um de seus membros como um homem que sonhava em criar vestidos. Esta mesma subversão, que passa a ser uma marca do cineasta, é agravada em “Divino Amor”, no sentido em que se profetiza um Brasil distópico em 2027, oficialmente laico, mas dominado (e oprimido) por uma vertente religiosa intolerante de caráter evangélico que leva às últimas consequências os seus conceitos radicais e distorcidos a respeito da fé, do amor, do casamento e do sexo, misturando indiscriminadamente no mesmo cadinho o profano/”pecado” (swing de casais, valorização dos corpos nus em alguns de seus rituais) e o sagrado (tudo se faz em nome de um Deus misericordioso).

Dira Paes, em performance corajosa, representa uma funcionária de cartório que tenta convencer os casais a não se divorciarem, atendendo aos seus dogmas questionáveis, ao mesmo tempo em que frequenta raves evangélicas nas quais seu Deus popstar é idolatrado 

O roteiro inteligente, apropriado e espertíssimo de Gabriel Mascaro, Rachel Daisy Ellis, Esdras Bezerra e Lucas Paraizo nos traz uma brilhante e corajosa Dira Paes como uma funcionária pública de cartório, Joana, que com seu jeito polido e manipulador tenta convencer os casais a não efetivarem o divórcio pretendido em nome da manutenção do amor máximo traduzido no núcleo familiar convencional. Joana, adoradora da burocracia estatal, frequentadora de raves evangélicas grandiosas em que o seu Deus é popstar, é casada com o florista de funerais Danilo (o ótimo Julio Machado), que, assim como ela, frequenta o fechado grupo religioso “Divino Amor”. Uma incompatibilidade do casal desequilibrará a sua fé até então inexpugnável.

O filme de Gabriel Mascaro conta com eficientes suportes técnicos, como a fotografia onírica de Diego Garcia e a trilha de DJ Dolores, sendo sustentado ainda por outros artistas afinados em suas participações 

Com fotografia desbotada, onírica e com néons de Diego Garcia, trilha sonora instigante do DJ Dolores (dentre outros), o perturbador filme tem o seu elenco completo por Emílio de Mello (fantástico como o pastor de drive thru), Thalita Carauta (perfeita na indignação de uma cliente do cartório), Teca Pereira (convincente como a Mestra Divino Amor) e Mariana Nunes

(simboliza com fidedignidade a esposa angustiada por suas dúvidas afetivas/emocionais).

Assista ao trailer do filme:

 

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Foto: Fábio Rocha/Globo

A série “Aruanas” é lançada na Rede Globo em um momento em que autoridades do Poder Executivo Federal não escondem suas posições oficiais contrárias à preservação do meio ambiente, o que torna a obra extremamente necessária e atual

Inicialmente lançada na plataforma de streaming Globoplay em 2019, a ótima e obrigatória primeira temporada da série de Estela Renner e Marcos Nisti, com a colaboração de Pedro de Barros, “Aruanas”, chega à TV aberta (Rede Globo; em 3 de julho do ano citado a emissora exibiu o seu primeiro episódio na “Sessão Globoplay”) num momento apropriadíssimo em que o Brasil assiste estarrecido ao aumento desenfreado dos desmatamentos e queimadas na Amazônia e na Mata Atlântica, ao afrouxamento da fiscalização ambiental, ao discurso racista quanto à população indígena nativa e à declarada política oficial executiva contrária à preservação de nossos ecossistemas em prol de um suposto desenvolvimento econômico para o país.

A envolvente trama é centralizada em quatro ativistas ambientais pertencentes a ONG Aruana que se despem de todos os medos com o objetivo de desbaratar um esquema criminoso em áreas de preservação orquestrado pelo poderoso dono de uma mineradora

A instigante história, também uma produção da Maria Farinha Filmes, concentra-se nos esforços das destemidas ativistas da ONG Aruana, a imponente advogada Verônica (Taís Araújo), a jornalista Natalie, que subverte as normas do veículo onde trabalha em nome do que acredita (Débora Falabella), a impetuosa Luiza (Leandra Leal), e a autoconfiante estagiária Clara (Thainá Duarte), em uma arriscada investigação que visa a desmascarar os graves danos causados pelas atividades ilícitas da mineradora KM na região fictícia de Cari, no Amazonas, cujo dono é o inescrupuloso e dissimulado Miguel (Luiz Carlos Vasconcelos). Miguel é assessorado pelo misterioso Felipe (Gustavo Falcão) e Olga Ribeiro (Camila Pitanga em participação especial), uma advogada sensual e influente. Somam-se a este espetacular elenco artistas valorosos como Vitor Thiré (André, um rapaz prático e objetivo que cuida do setor de comunicação e relações públicas da ONG), Ravel Andrade (Pontocom, encarregado da parte tecnológica da organização), Rômulo Braga (o inconstante arquiteto Bruno, financiador da Aruana, que se vê dividido entre Verônica e Natalie), Gustavo Vaz (Gregory, um antropólogo dedicado à proteção dos povos indígenas), Bruno Goya (Falcão, incumbido de planejar as ações da Aruana) e Rafael Primot (Ramiro, ex-namorado de Clara, com quem mantinha uma relação abusiva).

Com admiráveis direção geral de Estela Renner e artística de Carlos Manga Jr., “Aruanas”, que contou com a parceria técnica do Greenpeace, transcende o campo ficcional e se conecta legitimamente com o espectro real de um Brasil negligenciado

O thriller ambiental com timing perfeito se vale da direção geral precisa e habilidosa de Estela Renner, auxiliada pelos diretores Bruno Safadi e Lucio Tavares. A beleza natural local, seu povoado, as ações do grupo e a arquitetura arrojada de Brasília são captados por uma câmera generosa e esperta. Lançada em 150 países, com a parceria técnica do Greenpeace, a série possui a chancela do tarimbado diretor artístico Carlos Manga Jr.. “Aruanas” transcende esplendidamente a esfera ficcional com sua contundência denunciatória, fazendo com que cada espectador se conscientize e se sinta um pouco ativista dessa causa que é de todos nós. Um ativismo artístico de que precisamos.

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Foto: Paulo Ruch

A artista Letícia Novaes, egressa do extinto duo Letuce, agora liderando a banda Letrux, com sua multiplicidade de talentos condensados em originais canções, acompanhadas de caráter performático, realiza um show arrebatador que estremeceu as estruturas do tradicional Teatro da UFF, em maio de 2019

O Teatro da UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, estremeceu seus pilares na noite de 31 de maio do ano passado, com a presença magnética de uma artista múltipla, dotada de uma expressividade singular, bela, sensual, divertida, que deixou sua enorme legião de fãs, em sua grande maioria jovens, extasiados, hipnotizados, fiéis absolutos com suas vozes variadas aos versos de suas irresistíveis e originais canções. A responsável por essa sinergia artística memorável com o seu público é a carioca Letícia Novaes, da banda Letrux, também atriz, compositora, escritora e instrumentista, que passou a ser conhecida na primeira década dos anos 2000 com o duo Letuce, ao lado de Lucas Vasconcellos.

Razões não faltam para tecer elogios ao Letrux, que aposta no carisma de sua intérprete, possuidora de potente voz, e no ecletismo de suas influências musicais, dentre tantos outros predicados

A partir de 2017, quando lançou seu primeiro disco solo “Letrux em Noite de Climão” (elogiadíssimo pela crítica especializada), a ótima intérprete passou a construir com solidez e inegável personalidade a sua carreira, sustentada pelo seu arrebatador carisma, presença cênica impressionante, voz potente com trânsito espantoso entre notas distintas (o que lhe confere notória versatilidade) e um setlist eclético com influências do pop eletrônico (e seus synths em profusão) e de outros gêneros, como o funk e o rap, que se manifestam no fraseado conversado de algumas de suas composições.

Tendo como aliados excelentes músicos, Letrux, não se eximindo de sua aguda verve crítica, demonstrada entre um clássico de sua autoria e uma versão deliciosa de um hit, confirma-se como uma artista com grande personalidade, escapando de qualquer rótulo que enclausure seu exponencial talento

Vestindo um lindo macacão vermelho com decotes generosos, valorizando a sua esbelteza, Letrux realizou o seu show acompanhada de músicos excepcionais: Bruno Gafanhoto (bateria, substituindo Lourenço Vasconcellos), Arthur Braganti (teclado e sintetizador), Natália Carrera (guitarra), Martha V (guitarra) e Thiago Rebello (baixo). Majestosamente performática, crítica, política, sagaz, irreverente e sexy, Letrux sacudiu a todos com os seus já clássicos “Flerte Revival”, “Ninguém Perguntou por Você” e “Que Estrago”. Não faltaram ainda, para o deleite geral, competentíssimas releituras de “Unchained Melody”, dos Righteous Brothers, e “Human Nature”, de Madonna.
Letrux é uma artista com um brilho todo especial. Suas letras falam quase sempre sobre o amor, com espaços necessários para a liberdade de ser e de estar do indivíduo. Letrux não é indie, alternativa, tampouco cult. Letrux é do mundo e para o mundo. A noite histórica na UFF traduz bem isso.

Em 13 de março de 2020, Letrux lançou o seu tão aguardado segundo álbum, “Letrux aos Prantos”, tido como mais denso e intenso, segundo a própria, com a participação especial de Liniker e os Caramelows.

Assista ao novo clipe de Letrux, “Eu Estou aos Prantos”, com direção, edição e finalização de Júlio Parente:

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Foto: Caio Gallucci

Usando como inspiração para o seu texto uma das lendas mais universais de que se tem conhecimento, A Lenda do Rei Arthur, a dramaturga Marcia Zanelatto faz uma declarada celebração das variadas vertentes de liberdade do indivíduo, traçando um apropriado paralelo com a realidade política de nosso país 

Quando a arte, no caso cênica, presta, com proficiência e responsabilidade, um serviço ao público em que há um paralelo contundente com a realidade que nos cinge, testemunha-se um momento único indelével, ficando o mesmo resguardado e intocado em nossa memória mais afetiva. Este fenômeno se perfaz ao se assistir à arrebatadora superprodução musical “Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade – Ao Som de Raul Seixas”. A celebrada dramarturga Marcia Zanelatto (texto original), conhecida por sua sensibilidade social, juntou-se a outra referência nos palcos, Guilherme Leme Garcia (concepção e direção) e a uma equipe de peso, associando contextualmente (mesmo que de forma elíptica), com visceralidade artística, a universalidade da lenda do Rei Arthur à conjuntura política, e seu viés comportamental, do Brasil, em prol de todas as vertentes de liberdade (de ser, de escolher, de decidir…).

Disputas de poder, conflitos amorosos e maquinações palacianas são entremeados por interpretações impecáveis de seus atores de canções não menos impactantes de um de nossos maiores nomes da música, Raul Seixas 

A envolvente trama, questionando as noções de tempo, percorre a incrível trajetória do justo e democrático Arthur ainda jovem rumo ao poder da Bretanha (ameaçada pela invasão saxônica), em meio às guerras internas entre romanos e bretões. O Arthur rei (Paulinho Moska, brilhantemente altivo) se aconselha com o sábio Merlin (Vera Holtz, em audiovisual, transcende seu enorme talento). O rei que sonha com a divisão de poderes numa Távola Redonda, desde a juventude disputa o seu amor pela bela Duquesa Guinevere (Larissa Bracher perfeita nas angústias e paixões da mulher surpreendida pelo destino) com o amigo, o Cavalheiro Lancelot (Gustavo Machado, possante como o homem aguerrido). Este quarteto se soma aos pérfidos conselheiros Dreadmor e Anamorg (Patrick Amstalden e Kacau Gomes, impagáveis), e a um time de 17 atores/cantores pulsantes para montar este notável enredo embalado pelos hinos libertários de Raul Seixas (vigorosa direção musical e arranjos de Fabio Cardia e Jules Vandystadt, executados por seis músicos). O set design e a cenografia arrojada, a luz onírica e o belo e lisérgico videodesign são de Camila Schmidt, Anna Turra e Roger Velloso, os figurinos luxuosos (prata e brilho) são de João Pimenta, o deslumbrante visagismo coube a Fernando Torquatto, e as coreografias graciosas e robustas são de Toni Rodrigues.

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Foto: Divulgação

Monique Gardenberg participou de debate, em maio do ano passado, em cinema universitário de Niterói, no Rio de Janeiro, após a exibição especial de seu filme “Paraíso Perdido”, uma joia cinematográfica que exalta dentro de uma família o irresistível repertório musical “brega” do país

Em 16 de maio do ano passado, o Cine Arte UFF, que integra o Centro de Artes UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, contou com a presença da cineasta, diretora teatral, produtora e roteirista Monique Gardenberg no debate após a sessão especial de seu último filme, o encantador, sensível e poético “Paraíso Perdido” (2018). Monique, celebrada no cinema com obras como “Jenipapo” (1995), “Benjamim” (2004) e “Ó, Paí Ó” (2007), mergulha fundo, com nítida paixão pessoal, no fascinante universo do cancioneiro romântico do país, com pérolas musicais tachadas por muitos, de forma pejorativa, como bregas. 

Trilha sonora fascinante de Zeca Baleiro, elenco impecável encabeçado por Erasmo Carlos, roteiro bem estruturado da própria diretora centrado em múltiplos e peculiares personagens, além da fotografia do experiente Pedro Farkas valorizam sobremaneira o longa

Gardenberg, que também assina o roteiro (rico em costuras e desdobramentos narrativos) se vale desta abundante musicalidade (trilha fantástica de Zeca Baleiro, que inclui Márcio Greick , Reginaldo Rossi e Roberto Carlos) para alinhavar as intrincadas e surpreendentes ligações entre os seus adoráveis e diversificados personagens, os quais possuem, em sua maioria, como refúgio seguro das hostilidades urbanas, o clube noturno “Paraíso Perdido”.
O clube, que apresenta shows tão pitorescos quanto memoráveis (um dos pontos altos do filme), pertence ao patriarca José (Erasmo Carlos em atuação iluminada), pai de Ângelo (Julio Andrade, irresistível) e avô de Ímã, uma talentosa drag queen (Jaloo, vibrante) e Celeste (Julia Konrad, precisa na fragilidade). Ímã é filho da detenta Eva (Hermila Guedes, uma atriz de personalidade forte), que se apaixona pela colega Milene (Marjorie Estiano explorando a sua versatilidade).
O gatilho da história ocorre a partir do encontro, numa blitz, entre o policial Odair (Lee Taylor, seu domínio em cena impressiona) e o cantor Teylor (Seu Jorge, inspiradíssimo), que o convida para ir ao clube.
Odair é filho de Nádia (Malu Galli, soberba), uma cantora que sofreu uma agressão que a deixou surda. Humberto Carrão como Pedro, o amante de Ímã, defende com nobreza o seu trabalho mais desafiador, e Felipe Abib, como Joca, o pai do filho que Celeste está esperando, realiza uma elogiável composição.
Louvado pela fotografia inebriante de Pedro Farkas, “Paraíso Perdido” é um tesouro cinematográfico atual que revela o seu despudor em afirmar que o amor pode ser diverso e honesto, ao som de todas as canções, inclusive as mais “bregas”.

Assista ao trailer do filme:

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Foto: Divulgação

O grande sucesso literário de Louisa May Alcott, “Little Women”, trouxe a diretora de “Lady Bird”, Greta Gerwig, de volta às telas, resultando na indicação do filme a seis categorias do Oscar 2020

A pergunta que se faz ao assistirmos à nova adaptação cinematográfica de “Little Women” (1868), grande sucesso literário da americana Louisa May Alcott , “Adoráveis Mulheres” (“Little Women”, EUA, 2019), da diretora Greta Gerwig (“Lady Bird”), candidata a seis categorias do Oscar 2020 (Melhor Filme; Atriz, Saoirse Ronan; Atriz Coadjuvante, Florence Pugh; Melhor Roteiro Adaptado, Greta Gerwig; Melhor Figurino, Jacqueline Durran – vencedora; e Melhor Trilha Sonora Original, Alexandre Desplat) é o que o torna tão fascinante e atemporal para leitores do mundo inteiro, a despeito de se passar em um período específico da História norte-americana, a Guerra de Secessão (1861-1865). Possivelmente a desmedida força feminina e sua indissociável união e solidariedade (a sororidade de nossos tempos) de uma família, as March, confrontada com as intempéries da guerra (como a ausência de seu patriarca), formada por quatro irmãs, a escritora liberal e feminista Jo (a belíssima Saoirse; merecida indicação), a aspirante à atriz que sonha constituir uma família Meg (Emma Watson), a pianista Beth (Eliza Scanlen), e a exigente pintora Amy (Florence Pugh), lideradas pela generosa mãe Mary (a iluminada Laura Dern; que prazer vê-la em cena).

Greta Gerwig procurou não se arriscar em inovações estéticas e formais, preferindo reproduzir a linguagem convencional de um filme de época focado nas relações familiares, mantendo, a despeito disso, a sua relevância como obra cinematográfica

O roteiro de Greta, orgânico, soube entrelaçar os conflitos particulares e coletivos dessas mulheres com notada propriedade. Sua direção (esnobada pelo Oscar, o que gerou estranheza) não buscou inovações estéticas e formais arriscadas, preferindo os padrões convencionais infalíveis de um filme de época com foco no núcleo familiar, proporcionando-nos cenas lindamente coreografadas. Greta, uma jovem com seus 36 anos, sem dúvida é uma cineasta de inegável competência, sendo um nome forte na indústria do cinema estruturalmente dominada pelos homens. Merecem destaque a direção de arte de Jess Ronchor e os figurinos de Jacqueline Durran. O filme conta com a presença majestática de Meryl Streep, como a ranzinza Tia March, e os galãs da vez Timothée Chalamet e Louis Garrel. O longa talvez peque pelo excesso de diálogos que possam confundir a plateia e a trilha sonora bonita porém intermitente de Alexandre Desplat. No entanto, “Adoráveis Mulheres” mantém sua relevância. Louisa May Alcott está bem representada.

Assista ao trailer do filme:

 

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Foto: Divulgação

“O Farol” emula com outros filmes famosos que tiveram como mote a solidão e o confinamento experimentado por dois indivíduos, trazendo como “vítimas” dessa situação atores com trajetórias bem opostas, Willem Dafoe e Robert Pattinson 

A solidão compartilhada involuntária, experimentada por dois indivíduos, sempre foi nobremente explorada na cinematografia mundial. Seja numa ilha deserta com Lee Marvin e Toshiro Mifune durante a 2a Guerra Mundial (“Inferno no Pacífico, 1968), ou no interior de uma cela de prisão brasileira com William Hurt e Raul Julia (“O Beijo da Mulher Aranha”, 1985), numa chave dramática distinta. No caso do vencedor da Crítica Internacional da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2019, “O Farol” (“The Lighthouse”, EUA, Canadá, 2019), do americano Robert Eggers (“A Bruxa”), trata-se da convivência movida a tensão máxima entre o irascível e tirânico zelador de farol Thomas Wake (William Dafoe) e o novato faroleiro Ephraim Winslow (Robert Pattinson) confinados numa longínqua ilha no início do século XX. Enfrentando todas as espécies de revés, incluindo as intempéries naturais, esses dois homens, vítimas da situação opressora que lhes foi imposta, ficam sempre no perigoso limite entre a sanidade e a loucura. 

O formato em tela quadrada aumenta a sensação de claustrofobia, valorizada pela bela fotografia expressionista em p&b de Jarin Blaschke, indicada ao Oscar deste ano

Filmado com arrojo e apuro visual por Eggers, que preferiu lançá-lo em tela quadrada, aumentando a sensação de claustrofobia, o longa, cujo roteiro com diálogos afiados lhe pertence e ao irmão Max Eggers, reserva ao público uma espiral crescente de suspense e terror com pitadas de delírio psíquico. O veterano Dafoe e Pattinson (galã revelado na saga “Crepúsculo”) travam um inexorável duelo de titãs (ambos impressionam, mas Robert Pattinson nos surpreende como grande ator) na produção em preto e branco expressionista fotografada em instigantes locações por Jarin Blaschke (indicado ao Oscar deste ano) e musicada de modo perturbador por Mark Korven. 

O produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, emplaca mais um longa de qualidade no mercado externo, firmando o seu empenho em se engajar em obras com grande potencial artístico

“O Farol”, coproduzido pela RT Features de Rodrigo Teixeira, é um belo e pungente filme de arte (sem reducionismos) que faz com que nos defrontemos com a psiquê humana quando é levada aos extremos da sobrevivência e do convívio forçado. O que Wake e Ephraim não sabem é que não estão sós com o farol e as gaivotas. Nós estamos o tempo inteiro com eles.

Assista ao trailer do filme: