Blog do Paulo Ruch

Cinema, Moda, Teatro, TV e… algo mais.

Sylvia Bandeira e Mauricio Baduh oferecem ao público o vasto repertório de sucessos do cantor e compositor francês/Foto: Luciana Mesquita

Idealizada por Sylvia Bandeira e escrita por Saulo Sisnando, a encantadora montagem musical faz uma associação entre as lindas canções românticas de Charles Aznavour e as histórias narradas pelos seus personagens

Quando se pensa em amor, algo etéreo, abstrato, indefinível, e quando se pensa no quanto a música pode bem traduzi-lo, torna-se inescapável associá-lo a um dos maiores intérpretes do cancioneiro romântico francês e mundial do século XX, Charles Aznavour. Como o amor permite muitas interpretações e óticas, sendo algo em sua essência mágico, o mesmo nos oferece a possiblidade de recriá-lo, inventá-lo, obedecendo à nossa farta imaginação. Idealizado por Sylvia Bandeira e escrito por Saulo Sisnando, o encantador espetáculo musical “Charles Aznavour – Um Romance Inventado” vale-se com distinta propriedade dessas premissas para se estruturar dramaturgicamente. A narrativa nos apresenta Isabel (Sylvia Bandeira), uma atriz que já teve seus momentos de glória e hoje convive sem melancolia com a solidão e as lembranças. Isabel recebe a visita de Heitor (Mauricio Baduh), um jornalista independente com personalidade retraída que deseja entrevistá-la, sobretudo com a finalidade de esmiuçar o romance que tivera com o grande “chansonnier”. Há entre eles algo em comum com relação a Aznavour. Heitor diz ser seu filho. A partir daí, ambos confidenciam um ao outro episódios de suas vidas que acabam por fortalecer o sentimento imperante nas canções extraordinariamente lindas do artista nascido em Paris.

Sylvia Bandeira e Mauricio Baduh brilham em cena ao dar voz aos clássicos do cantor e compositor francês na peça dirigida com notável êxito por Daniel Dias da Silva

O autor Saulo Sisnando costura com admirável fluidez toda a gama de ficções que perpassam a montagem, alcançando a vitória ao fisgar o público que de pronto simpatiza de modo irremediável pelo casal. Saulo inseriu em seu texto com muita fineza recortes de humor, garantindo surpresas ao final. O diretor Daniel Dias da Silva logrou com notável êxito a comunhão equilibrada entre a história e os sucessos cantados magnificamente pela dupla, sendo que estes ocupam lugares contextualizados, fato meritório. Sylvia Bandeira, atriz bela e talentosa, com sua voz marcante e sedutora, impõe-se naturalmente no palco, exibindo sua sintonia com a arte teatral. Ao cantar, transmite-nos com plenitude e potência as emoções contidas nas músicas do também compositor e ator. Mauricio Baduh faz uma composição bastante segura e sóbria, impressionando a plateia com seu vozeirão perfeito. Tanto Sylvia quanto Mauricio nos brindam com um francês impecável, além de duetos emocionantes. Estão presentes clássicos que ultrapassam gerações, como “La Bohème”, “She” e “Que Ces’t Triste Venise”. Liliane Secco, magistral na direção musical e arranjos, ainda nos oferta todo o seu brilho como musicista ao acompanhar ao piano o também brilhante violinista Ulisses Nogueira. Felício Mafra se encarrega de iluminar a peça com inspirada elegância, conferindo-lhe elementos suaves nas cores lilás, violeta, azul e vermelho. Felício em nenhum momento carrega nos tons, até mesmo os planos mais abertos e focos se sobressaem pela bonita e calculada sutileza. Gisele Batalha, responsável pelos cenário e figurinos, faz uma acertada escolha tanto em um quanto no outro. O cenário, que corresponde à casa de Isabel, um ambiente extremamente aconchegante, destaca-se pelo capricho e bom gosto com que foi imaginado, apostando as suas fichas no clássico, visto em móveis de madeira, abajures e chaise longue. Os figurinos atendem com coerência às situações vividas pelos personagens e aos seus perfis, logicamente, que vão do preto com brilho ao blaizer xadrez. Marluce Medeiros mostra vasta eficiência na direção de movimento, provada em instantes graciosos de dança do casal e na maneira como os dois se posicionam e se mexem, inclusive com a utilização eloquente dos braços, ao interpretarem as canções. “Charles Aznavour – Um Romance Inventado” é uma obra que exalta o amor, todas as formas de amor, reais e inventadas. Charles Aznavour certamente aprovaria.

Otavio Augusto, comemorando 60 anos de carreira, interpreta um coronel aposentado e viúvo em confronto com os seus quatro filhos/Foto: Elisa Mendes

A envolvente e atualíssima peça de Gustavo Pinheiro serve como plataforma para que se discutam acidamente temas comuns a um pai moribundo atuante na ditadura militar e seus filhos

Quando um membro que assume papel de liderança em um núcleo familiar adoece a ponto de ser confinado em um quarto de hospital, poucos caminhos se apresentam para os seus entes próximos, a conciliação nesta contingência delicada ou a altercação generalizada com a rememoração de episódios marcantes. No caso da envolvente e atualíssima peça de Gustavo Pinheiro “A Tropa”, com direção de Cesar Augusto, evidentemente a segunda opção é eleita como uma rica plataforma de discussões, argumentações ácidas de lado a lado, enfim, um acerto de contas dilacerante entre o pai moribundo, um coronel viúvo aposentado atuante na ditadura militar e seus quatro filhos, cada um deles com suas questões mal resolvidas, passíveis do julgamento do outro.

Entre o drama e o humor, Otavio Augusto, numa marcação de difícil execução, prova com o seu talento e personalidade por que é um dos melhores e mais respeitados intérpretes do país

Temas como homossexualismo, dependência química, corrupção e correntes político/ideológicas são trazidas à tona com acentuada propriedade por Gustavo, autor com notória intimidade com a arquitetura dramatúrgica. Um dos muitos méritos de seu texto é a inserção de camadas de humor que em momento algum anulam a dramaticidade bem estruturada. Colaboradora inconteste para o resultado exitoso da montagem que estreou em 2016 está a esmerada direção de Cesar Augusto, um estudioso contumaz das sedutoras engrenagens teatrais. Cesar se alinha com sucesso às proposições cênicas do texto ao preencher todos os espaços (físicos e imateriais) possíveis, venerando silêncios e solilóquios relevantes. Otavio Augusto como o coronel reproduz com fidedignidade todo o sobejo talento e personalidade que o fizeram um dos melhores e mais respeitados intérpretes do país. Numa marcação de difícil execução, Otavio coloca toda a sua expressividade emotiva em sua face e braços (seja na comicidade ou no drama o artista extrapola os limites do admirável). Seus filhos Humberto, Artur, Ernesto e João Baptista são defendidos com verdade e valorosa compreensão de suas missões respectivamente por Alexandre Menezes, Daniel Villas (substituindo Alexandre Galindo), André Rosa e Daniel Marano. Suas interações e com Otavio são genuínas e potentes. A cenografia de Cesar Augusto abraça a esperada assepsia hospitalar na qual se sobressaem o verde e o branco (utilizam-se módulos que fazem as vezes de móveis, além da cama médica). Os figurinos de Ticiana Passos desenham com lealdade os perfis dos personagens (adotam-se estilos despojados e sóbrios). E a luz de Adriana Ortiz ganha o público pela sua coerência e beleza, com planos abertos que atendem a diferentes gradações e focos precisos e calculados. “A Tropa” é uma obra robusta e necessária que enfrenta e disseca as hipocrisias de nossa sociedade, combatendo-as onde geralmente nascem, os nossos próprios lares.

Eliane Giardini e Marcos Caruso interpretam respectivamente Roberta e Mariano, um casal que após quatro décadas de convivência decide se separar/Foto: Eduardo Chamon

Leilah Assumpção, autora do clássico teatral “Fala Baixo Senão Eu Grito”, usa a sua narrativa como palco para discussões sobre etarismo, sexo na maturidade e machismo

Falar dramaturgicamente sobre o processo de envelhecimento do indivíduo sem resvalar para a depreciação gratuita requer profunda delicadeza e olhar sensível de quem o faz. Sendo assim, não é de se espantar que a autora do texto da comovente, humanista e engraçada peça “Intimidade Indecente”, com dois gigantes intérpretes queridíssimos no país, Eliane Giardini e Marcos Caruso, tenha a valiosa assinatura de Leilah Assumpção, dona do clássico teatral “Fala Baixo Senão Eu Grito”. Leilah nos conta de forma bastante espontânea e próxima a trajetória de um casal, Roberta e Mariano, que decide se separar após 40 anos de vida em comum quando ambos já passaram dos 60 anos. A questão chave é que embora um e outro tomem rumos diferentes, o forte laço que os une nunca se rompe. A dramaturga usa com inteligência e espirituosidade a sua narrativa como palco para discussões sobre etarismo, sexo na maturidade, machismo, outras possibilidades de afeto, abandono familiar e perdas.

A direção de Guilherme Leme Garcia, confiando nos talentos de Eliane Giardini e Marcos Caruso, permite-lhes uma bem-vinda liberdade

Guilherme Leme Garcia, o diretor, ciente da potência em cena que são os seus atores, assumindo total confiança em seus talentos, permite-lhes uma bem-vinda liberdade, usando com equilíbrio o centro da ribalta e seu proscênio com belos momentos. Eliane Giardini e Marcos Caruso são artistas superlativos em sua essência, grandiosos em tudo o que fazem. Nos embates entre seus personagens, “bate-bolas” memoráveis, alcançam os mesmos níveis de graça e dramaticidade em frações de segundo para o delírio da plateia, que acompanha com sincera empatia os caminhos e descaminhos desse casal. Toni Rodrigues, diretor de movimento, realiza com notável credibilidade a transformação postural de Eliane e Marcos, que dispensam quaisquer outros recursos facilitadores. Aurora dos Campos, consagrada cenógrafa, sabedora da natureza do espetáculo (um espetáculo de e para atores), aposta na unicidade de um sofá claro. A luz de Tomás Ribas é precisa, cuidadosa, bonita e elegante, dando espaço a focos intimistas e a um inebriante azul. Aline Meyer, diretora musical, cumpre com êxito o seu papel de embelezar a montagem com arranjos ao piano. “Intimidade Indecente” é uma irresistível e tocante comédia que reafirma a importância de Leilah Assumpção como autora teatral e Eliane Giardini e Marcos Caruso como atores. Esta é uma verdade pública e decente.

Diogo Vilela revive o grande artista niteroiense que imortalizou canções como “Conceição”/Foto: Victor Zorzal

A brilhante trajetória de Diogo Vilela nos palcos está atrelada às suas memoráveis homenagens a Cauby Peixoto

Quando se pensa na brilhante trajetória de Diogo Vilela pelos palcos é impossível não associá-la às suas memoráveis homenagens a um de nossos maiores cantores, Cauby Peixoto. Baseado no repertório de “Cauby, Cauby!” (2006), o talentosíssimo intérprete também da TV e do cinema, revive em seu mais novo espetáculo musical a voz de “Conceição”, “Cauby, Uma Paixão”, com roteiro de Flavio Marinho e direção de Marco Aurélio Monteiro. Marco realiza com maestria um amálgama perfeito entre dramaturgia e show, tornando a montagem infalivelmente encantadora e emocionante. Flavio Marinho, um craque no manejo das palavras, incrementa o seu texto com uma fina ironia o adaptando aos tempos atuais, abordando, por exemplo, as fake news. Um dos grandes méritos da obra é saber intercalar os impecáveis números musicais com as cenas em que Diogo, como Cauby, conversa com o público usando todo o seu carisma sobre passagens da vida e carreira do artista, como a estada nos Estados Unidos.

Diogo Vilela arrebata o público com sua voz potente e a sua dedicação a nos aproximar ao máximo da figura do artista niteroiense

Diogo Vilela, com ótimo visagismo de Mona Magalhães, trajando o brilho inconfundível do ídolo (acervo pessoal de Cauby), certifica-nos sobre a completude de seu talento, arrebatando o público com sua voz potente, afinada, com extensões e graves arrepiantes. O ator se ateve a todos os detalhes que pudessem nos aproximar ao máximo do cantor niteroiense, como as posições e deslocamentos das mãos, além da semelhança incrível com as notas da sua entonação vocal/musical.

“Cauby, Uma Paixão” é uma lindíssima e tocante encenação que mostra o quanto a musicalidade dos nossos atores deve ser reverenciada

Cabe destacar o virtuosismo dos três músicos que o acompanham: Roberto Bahal no piano, Helbe Machado na bateria e Fernando Trocado no sax/sopros. A charmosa e envolvente direção de arte de Ronald Teixeira se soma à inebriante luz de Daniela Sanchez que nos transporta para o universo mágico do homenageado. Liliane Secco se encarrega com primor da direção musical, que inclui desde o clássico “Bastidores” passando pela bossanovista “Samba do Avião” até standards como “New York, New York”. “Cauby, Uma Paixão”, lindíssima e tocante encenação, mostra-nos o quanto o nosso país é musical e o quanto a musicalidade dos nossos atores deve ser reverenciada. Não só Cauby Peixoto é uma paixão. Diogo Vilela também.

Vera Fischer, Mouhamed Harfouch e Larissa Maciel estrelam a comédia dirigida por Tadeu Aguiar/Foto: Carlos Costa


O dramaturgo Eduardo Bakr consegue reunir com sucesso em sua comédia inédita doses de drama e suspense com reviravoltas surpreendentes

O público brasileiro de teatro ansiava pela sua volta. O mesmo público ansiava por leveza nos palcos nesses tempos nada leves. E é justamente a leveza aliada a um humor farsesco burilado com pitadas de drama num contexto de suspense com múltiplas reviravoltas que a deliciosa comédia de Eduardo Bakr “Quando Eu For Mãe Quero Amar Desse Jeito” oferta aos espectadores. A muitíssimo bem alinhavada dramaturgia se concentra na figura de Dulce Carmona (Vera Fischer), uma mãe castradora, elitista, em declínio financeiro e preconceituosa, confrontada com o casamento próximo de seu filho inconstante e um tanto infantilizado Lauro (Mouhamed Harfouch) com a fútil e aparentemente superficial Gardênia (Larissa Maciel), herdeira de um império dos parafusos, porcas e arruelas. A partir do primeiro encontro entre as futuras sogra e nora regado a trocas de farpas impiedosas para o desespero histriônico de Lauro até a efetivação do matrimônio, a montagem ganha um fôlego crescente com as situações apresentadas, tendo como efeito mais do que positivo o interesse da plateia pelo desfecho imprevisível.

A direção inteligente e fluida de Tadeu Aguiar permite que seu elenco de grandes atores, Vera Fischer, Larissa Maciel e Mouhamed Harfouch preencham ricamente suas cenas

Além do mérito dramatúrgico e da direção, a produção pode se jactar em ter em seu elenco três grandes intérpretes que são sobejos em seus recursos cênicos. A direção de Tadeu Aguiar, inteligente e fluida, permite que o texto siga um curso vitorioso, deixando os atores preencherem com riqueza a cena. Vera Fischer, sempre diva, compõe com força, sedução e sarcasmo a sua irresistível mãe. Vera é Vera, encanta mesmo sem querer. Larissa Maciel, esbanjando beleza, prova ser uma atriz com talento de sobra para se embrenhar com segurança no traiçoeiro terreno da comédia. Já Mouhamed Harfouch, um artista fascinante e carismático, entrega-se de tal forma a todas as possibilidades corporais, incluindo sua fala construída, sem rede de proteção, que só nos resta aplaudi-lo. Um ator de mãos dadas com a comicidade.

Com equipe técnica de primeira, “Quando Eu For Mãe Quero Amar Desse Jeito” nos faz lembrar do sentimento que devemos ter pelo teatro

A trilha sonora original coube à respeitada Liliane Secco, que cria arranjos ao piano e acordes que remetem ao suspense. O admirável cenário de Natália Lana prima pela grandiloquência, com escadaria, cortinas e lustre portentosos. Os figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal ostentam elegância e coerência. O design de luz de Daniela Sanchez é lindamente balanceado, aproveitando os matizes que lhe são viáveis. “Quando Eu For Mãe Quero Amar Desse Jeito” é uma obra adoravelmente divertida e sensível que nos faz lembrar depois de tanto tempo que devemos voltar a amar o teatro sempre “desse jeito”.

Em uma das fábulas morais de “Tudo” Vladimir Brichta e Julia Lemmertz, ele um artista plástico e ela uma servidora de repartição pública/Foto: Flavia Canavarro

Julia Lemmertz, Dani Barros, Vladimir Brichta, Claudio Mendes e Márcio Vito interpretam os personagens ou mais de um das três fábulas morais que compõem a narrativa da peça

A obra do argentino Rafael Spregelburd levada aos palcos pelas mãos habilidosas e olhar crítico do diretor, tradutor e adaptador Guilherme Weber traz à baila temas que nos são muito caros, além de universais e atemporais, a burocracia no Estado, a arte que invariavelmente se transforma em negócio e a religião que se torna superstição. Topou se entregar neste promissor debate cênico um time de atores de alto calibre interpretativo que se equivalem no rico despudor de contar ao público em forma de fábula moral todas as incongruências e contrariedades inerentes aos assuntos em pauta: Julia Lemmertz, Dani Barros, Vladimir Brichta, Claudio Mendes e Márcio Vito. Dividida em três situações e ambientes, uma repartição pública, uma festa de Natal e a casa de um casal, com a presença de um narrador, a peça não se furta a adotar um escancarado nonsense muito bem servido pela notável expressividade física de seu elenco. Não faltam ao discurso teatral referências com propriedade à mitologia grega e episódio bíblico.

Com fascinante integração entre ator e texto, feito conquistado por seu diretor Guilherme Weber, assistir a “Tudo” é uma forma de exorcizar alguns de nossos medos

Guilherme Weber atinge fascinante integração entre atores e texto, ocupando dinamicamente o perímetro da ribalta. Cada artista tem o seu grande momento na montagem, não importando se de modo cômico, dramático ou tragicômico. O espetáculo está assaz bem amparado em seus aspectos técnicos. A cenografia crua com elementos industriais/tecnológicos de Dina Salem Levy, a iluminação instigante de Renato Machado com luzes fosforescentes, os figurinos pertinentes, entre o sóbrio e o extravagante, de Kika Lopes, a trilha original de elevado bom gosto com alusões ao tango de Rodrigo Apolinário e a primorosa preparação corporal de Toni Rodrigues completam um painel estético que se agrega sobremaneira à excelência da produção. É impossível não identificar em “Tudo” uma conectividade com a realidade nossa de cada dia, despertando-nos emoção, reflexão e diversão. “Tudo”, em certo momento, fala-nos sobre não sentir medo. Ir ao teatro e assistir a “Tudo” é uma forma de exorcizar alguns de nossos medos. E isso é tudo.

Alanis Guillen vive a arredia Juma Marruá no remake de “Pantanal”/Foto: TV Globo/João Miguel Júnior

“Pantanal” conta a saga de uma família em uma região que nos é tão distante mas ao mesmo tempo tão íntima

As dúvidas quanto ao sucesso de uma novela fazem parte de sua realização. As dúvidas quanto ao sucesso de um remake são ainda maiores. Bruno Luperi, indômito como um peão, recebeu o aval de seu avô, o grande contador de causos Benedito Ruy Barbosa, para adaptá-la para a Rede Globo em seu horário nobre (Bruno foi um dos colaboradores de Benedito em “Velho Chico”, novela exibida em 2016 pela mesma emissora). Desde a sua estreia no final de março o país tem parado em frente à TV para acompanhar a saga de uma família em uma região que nos é tão distante mas ao mesmo tempo tão íntima. A trama, que conta com a magistral e inebriante direção artística de Rogério Gomes e Gustavo Fernández, resgata profundamente o Brasil que estava silenciado dentro de nós. Além de nos entreter e emocionar, os capítulos de “Pantanal” despertam a nossa consciência sobre o inacreditável patrimônio ambiental que possuímos, recrudescendo nossas ânsias de luta em preservá-lo (e a nós mesmos).

O elenco da trama das 21h assume com brilho a alma dos personagens

Ademais, não são vezeiras as ocasiões em que se reúne em uma obra, dentre revelações e veteranos, tantos atores que assumiram com brilho a alma de seus personagens. Alanis Guillen, como Juma, transforma o selvagem em belo, encantando-nos com seu enorme talento. Par perfeito de Alanis, Jesuita Barbosa nos causa distintas emoções com a complexa construção de seu Jove. E o que se pode dizer da firmeza de Guito (Tibério), do magnetismo de Gabriel Sater (Trindade), da sensibilidade de José Loreto (Tadeu), do desejo ensandecido de Leandro Lima (Levi) e da crueza desconcertante de Juliano Cazarré (Alcides)? E a jovem atriz Bella Campos que transita tão bem pela ambiguidade de Muda? Quanta luz e força há em cena quando vemos Osmar Prado (Velho do Rio), Marcos Palmeira (José Leôncio), Dira Paes (Filó), Almir Sater (Eugênio), Irandhir Santos (José Lucas), Camila Morgado (Irma), Murilo Benício (Tenório), Isabel Teixeira (Maria Bruaca) e Selma Egrei (Mariana). Julia Dalavia, como Guta, mistura doçura e maturidade em seus momentos. Todos são potências naturais do Pantanal.

História, música e imagens provocam a contemplação do público

“Pantanal”, com sua história envolvente, lindas trilha sonora (produção musical de Rodolpho Rebuzzi e Rafael Luperi) e imagens (direção de fotografia de Sergio Tortori e Henrique Sales) e realismo mágico fascinante, torna-nos mais contemplativos, serenos, em meio a um panorama atual do mundo tão desolador e triste. “Pantanal” nos faz juntar os pedaços de palavras de Juma e escrever “ESPERANÇA”.

Categorias: TV

O ator Paulo Lessa é um dos protagonistas de “Cara e Coragem”, como o segurança Ítalo/Foto: TV Globo/Sergio Zalis

“Cara e Coragem”, novela de Claudia Souto, estreia com Taís Araujo, Paulo Lessa e Ícaro Silva como alguns de seus protagonistas, respeitando um nobre anseio artístico do saudoso Milton Gonçalves

Não terá sido apenas uma coincidência que no dia da estreia de “Cara e Coragem”, novela das 19h da Rede Globo criada e escrita por Claudia Souto, com direção artística de Natalia Grimberg, na segunda-feira passada, um de nossos maiores nomes da teledramaturgia, Milton Gonçalves, tenha deixado o país mais triste com a sua partida. A conexão se dá pelo fato da eletrizante e divertida trama de Claudia conter em seu elenco três atores negros defendendo papéis protagonistas, Taís Araujo, Paulo Lessa e Ícaro Silva. Seu Milton defendia e lutou abertamente pela supressão dos estereótipos atribuídos aos artistas negros na seleção dos personagens. “Cara e Coragem” é o resultado positivo da batalha pessoal do “negro em movimento” Milton Gonçalves.

Paulo Lessa, que também é modelo, já possui uma bem-sucedida carreira publicitária, além de ter feito inúmeras participações na TV em novelas e seriados

Este introito nos serve para falar um pouco mais desse jovem, bonito e talentoso intérprete, neto da grande dama Cléa Simões, Paulo Lessa, um carioca também modelo que quase foi para a Europa jogar futebol profissional, mas que se rendeu à sua verdadeira vocação, atuar. Claro que a sua popularidade aumentará com Ítalo, seu personagem no folhetim, um segurança inteligente, charmoso e bem-sucedido apaixonado pela empresária Clarice Gusmão, Taís Araujo (o casal conquistou o público). No entanto, Paulo já traz consigo uma consistente carreira na televisão, desde que estreou com uma participação em “A Favorita”, novela de João Emanuel Carneiro reprisada no momento na Rede Globo. Em seguida, na mesma emissora, provou que podia muito mais, dessa vez com um papel fixo, o arquiteto Mário, em “Viver a Vida” (2009), de Manoel Carlos.
O ator foi visto em múltiplas campanhas publicitárias, em sua maioria solares e destinadas ao público jovem, que poderia se identificar com o seu perfil. Nos últimos anos ocupou lugar de destaque nos folhetins da RecordTV “Belaventura” (o caçador de recompensas Accalon), “Jesus” (o nômade Goy) e “Gênesis” (o general egípcio Bakari). No primeiro capítulo de “Cara e Coragem” vimos que Paulo está bem à vontade e seguro como Ítalo, o que lhe permitirá mostrar todo o seu potencial. Paulo Lessa, que foi o compositor Sinhô em filme sobre Pixinguinha, com cara, coragem e brilho saberá fazer valer o glorioso legado de Seu Milton Gonçalves.

Categorias: TV

Romulo Estrela, na frente à direita, junta-se à CiaTeatro EPIGENIA, fundada pela atriz Luciana Fávero e Gustavo Paso, autor e diretor do espetáculo/Foto: Luciana Salvatore

Romulo Estrela incorpora com brilhantismo o personagem-título da adaptação da obra machadiana, que reproduz com beleza elementos góticos e expressionistas, além de adotar um tom farsesco/burlesco

Revolver a riquíssima literatura machadiana forjando o seu encontro com as aberrações políticas vigentes do país não é das tarefas mais tranquilas. Destemidos, os autores Celso Taddei e Gustavo Paso (também diretor) se inspiraram livremente em um dos contos mais celebrados do “Bruxo do Cosme Velho” para realizar o mais novo espetáculo da CiaTeatro EPIGENIA, “O Alienista” (1882). À companhia, que completa 22 anos, juntou-se um dos atores mais talentosos e requisitados de sua geração, Romulo Estrela, a quem coube a desafiadora missão de incorporar o lunático e tirânico personagem-título, o alienista Dr. Simão Bacamarte. Romulo se despe brilhantemente de sua persona executando um trabalho de construção de personagem arrebatador, memorável em todos os detalhes, desde a postura física até a entonação de sua voz. A potente montagem, que nos entrega com beleza elementos góticos e expressionistas, mostra o insano périplo do cientificista que ambiciona dominar o mundo, utilizando-se de seus estudos duvidosos que objetivam tornar os homens manipuláveis. Num tom farsesco/burlesco, Simão tem que se aproximar de políticos espúrios adeptos da promíscua equação religião/política a fim de colocar em prática o seu intento de edificar um asilo, a Casa Verde, cuja proposta é confinar sem critérios estabelecidos todos os “loucos” da metrópole Itaguaí.

“O Alienista” busca a lucidez de suas plateias em um Brasil chafurdado por uma classe dirigente insana e enlouquecida, os reais pacientes de Simão Bacamarte

A direção apaixonada de Gustavo Paso se alimenta de doses consideráveis de acidez, comicidade e crítica social, valendo-se apropriadamente de recursos cênicos como o coro grego, a pantomima e até mesmo a commedia dell’arte com tintas mais sombrias. Contando com um numeroso elenco de atores/cantores adoráveis, como os ótimos Gláucio Gomes, Vitor Thiré, Tecca Maria e Luciana Fávero (fundadora da companhia ao lado de Gustavo Paso), além de Tatiana Sobral, Samir Murad, Dodi Cardoso, Renato Peres, Anna Hannickel, Laura Canabrava, Renato Ribone, Erick Villas e Eduardo Zayit, o encenador se favorece com a imponência do cenário criado pelo próprio (ele assina a direção de arte), possuidor de mais de um plano com rampas, entradas e escadas com apostas no branco, no preto e no cinza. Os figurinos de Graziella Bastos, assaz originais e eloquentes, ostentam caráter distópico/apocalíptico. A sublime trilha original executada ao vivo por André Poyart transita pelo lúgubre, pelo suspense, sem se distanciar do belo (reserva-se em momento oportuno uma emocionante surpresa com efeitos catárticos). A soberba iluminação de Paulo Cesar Medeiros enleva o público com sua sabedoria estética entre sombras, focos e gerais. O visagismo de Gustavo Paso, Graziella Bastos e Renato Ribone nos impacta pela sua força expressiva. “O Alienista”, com sua pujança textual e cênica, não só presta uma homenagem a Machado de Assis, mas o usa como instrumento legítimo para buscar a lucidez de suas plateias em um Brasil chafurdado por uma classe dirigente alienada, enlouquecida e insana, os reais pacientes de Simão Bacamarte.

Foto: Paulo Ruch

A atriz e produtora Mariana Ximenes na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, no Parque Cândido Portinari.

Paulistana, Mariana começou a se interessar pelas Artes Cênicas já na infância quando montou a sua primeira peça no colégio onde estudava.

Tempos depois, decidida a seguir a carreira artística estudou no Teatro Escola Célia Helena.

Estreou na TV muito jovem, com apenas 17 anos, na novela escrita por Walcyr Carrasco e exibida pelo SBT “Fascinação”, representando a personagem Emília.

Ainda neste mesmo ano, 1998, fez a sua estreia na Rede Globo participando de um episódio de “Você Decide” e do especial de fim de ano “Sandy & Junior”.

A estreia em telenovelas da emissora carioca foi vista no horário das 19h em uma trama de Euclydes Marinho, “Andando nas Nuvens”, em que interpretou a noviça Celina (Prêmio Qualidade Brasil Atriz Revelação).

Após uma rápida participação no folhetim “Força de um Desejo”, a artista sente o gosto do sucesso, principalmente entre as crianças, ao defender Bionda, papel criado por Carlos Lombardi para a sua história das sete da noite “Uga Uga” (recebeu o prêmio Qualidade Brasil Melhor Atriz, além do prêmio de Atriz Revelação no quadro “Melhores do Ano” no extinto “Domingão do Faustão”).

Sua próxima aparição na teledramaturgia da Globo ocorreu em um episódio da série “Brava Gente” (chegou a fazer um outro episódio mais tarde), sendo chamada posteriormente para integrar o elenco de sua segunda novela de Walcyr Carrasco, “A Padroeira” (viveu Izabel de Avelar).

A seguir vieram escalações para diferentes produções, como “Os Normais” e a “A Turma do Didi”.

Em 2003 faz a sua primeira minissérie na emissora, o drama histórico de Letícia Wierzchowski adaptado por Maria Adelaide Amaral e Walther Negrão, “A Casa das Sete Mulheres” (na obra, encarnou uma das sete corajosas mulheres que se veem ameaçadas durante a Revolução Farroupilha, Rosário).

Neste mesmo ano ganha o seu primeiro protagonismo em novelas ao personificar a heroína romântica Ana Francisca de “Chocolate com Pimenta”, escrita por Walcyr Carrasco para a faixa das 18h (esta produção de época foi um êxito de público e crítica).

Sua primeira oportunidade em estar numa trama do horário nobre veio com “América”, de Gloria Perez, cujo tema central era a emigração de brasileiros para os Estados Unidos e todas as adversidades por que passam até chegar lá, inclusive quando o conseguem (a Mariana coube o papel da rebelde Raíssa, que se destacou na produção).

Em seguida à boa repercussão de Raíssa, a intérprete marcou presença na minissérie “JK”, de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, além de ser uma das artistas principais do folhetim das sete de João Emanuel Carneiro, “Cobras & Lagartos”, como Bel, uma violoncelista órfã.

Outra telenovela importante em que assumiu uma das personagens centrais foi a eletrizante e elogiada “A Favorita”, de João Emanuel Carneiro, em 2008 (nesta obra, que elevou o autor a outro status, a atriz deu vida a Lara Fontini, filha da grande vilã da história, Flora, Patrícia Pillar).

Mais um momento marcante em sua carreira a esperava, incorporar sua primeira vilã, a Clara de “Passione”, de Silvio de Abreu (a vilania assistida no horário nobre era compartilhada com Reynaldo Gianecchini, Fred).

Dois anos depois, em 2012, estava de volta às produções televisivas, como “As Brasileiras” (protagonizou o episódio “A Adormecida de Foz do Iguaçu”) e o remake de “Guerra dos Sexos”, de Silvio de Abreu (a artista reviveu Juliana, personagem de Maitê Proença na versão original de 1983).

Seu próximo folhetim foi o vencedor do Emmy Internacional “Joia Rara”, de Thelma Guedes e Duca Rachid, no qual incorporou a vedete de cabaré Aurora Lincoln.

Em 2014 retorna à popular sitcom “A Grande Família” (já havia participado do longevo seriado em 2003).

Uma de suas atuações mais populares, em que pôde mostrar grande domínio da comédia, observou-se em “Haja Coração”, de Daniel Ortiz, novela levada ao ar em 2016 (“Haja Coração” é uma releitura de um dos maiores sucessos de Silvio de Abreu, “Sassaricando”, de 1987; Mariana recriou com brilho a espevitada feirante Tancinha, papel de Claudia Raia na primeira versão).

Ainda em 2016 assumiu um dos principais papéis da série de terror “Supermax”.

Foi vista como Adalgisa Bastos na minissérie de Ricardo Linhares “Se Eu Fechar Os Olhos Agora”, baseada no livro homônimo de Edney Silvestre.

Está na segunda temporada da série do Globoplay “Ilha de Ferro”, de Max Mallmann e Adriana Lunardi, como a Dra. Olívia Mossen.

A atriz possui um currículo invejável na área cinematográfica, na qual, além de atuar, produziu e dublou.

Em quase 40 filmes, entre longas e curtas-metragens, Mariana deu a sua contribuição para as produções “Caminho dos Sonhos”, de Lucas Amberg (sua estreia); “Dias de Nietzsche em Turim”, de Júlio Bressane; “O Invasor”, de Beto Brant (Melhor Atriz Coadjuvante no Festival do Recife; Prêmio Qualidade Brasil Melhor Atriz Coadjuvante; Grande Prêmio do Cinema Brasileiro Melhor Atriz Coadjuvante); “O Homem do Ano”, de José Henrique Fonseca; “Gaijin – Ama-me como Sou”, de Tizuca Yamasachi; “A Máquina”, de João Falcão; “Muito Gelo e Dois Dedos D’Água”, de Daniel Filho; “A Mulher do Meu Amigo”, de Cláudio Torres; “Bela Noite Para Voar”, de Zelito Viana; “Hotel Atlântico”, de Suzana Amaral; “Quincas Berro D’Água”, de Sérgio Machado; “Os Penetras”, de Andrucha Waddington; “O Gorila”, de José Eduardo Belmonte; “O Uivo da Gaita”, de Bruno Safadi; “Para Sempre Teu, Caio F.”, documentário de Candé Salles; “Quase Memória”, de Ruy Guerra; “Zoom”, de Pedro Morelli; “Prova de Coragem”, de Roberto Gervitz; “Uma Loucura de Mulher”, de Ligocki Jr.; “Um Homem Só” (Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Gramado), de Cláudia Jouvin; “Os Penetras 2 – Quem Dá Mais?”, de Andrucha Waddington; “D.P.A. – O Filme”, de André Pellenz; “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues; “L.O.C.A. – Liga das Obsessivas Compulsivas por Amor”, de Cláudia Jouvin; e “Capitu e o Capítulo”, de Júlio Bressane, ainda sem data de estreia.

No teatro, encenou quase uma dezena de espetáculos, além de ocupar as funções de consultora de projetos incentivados e gerente de planejamentos.

Algumas de suas peças que podemos destacar estão “A Rosa Tatuada”, de Tennessee Williams (contracenou com Louise Cardoso); o espetáculo “A Paixão de Cristo” (como Maria); “Os Lusíadas”; “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues; “Os Altruístas”, de Nicky Silver (direção de Guilherme Weber); e “Cara Palavra” (espetáculo on-line montado em 2020 com as atrizes Andréia Horta, Débora Falabella e Bianca Comparato).

Atualmente, Mariana Ximenes, uma das mais belas e talentosas atrizes de sua geração, encanta o público de TV com uma belíssima e delicada interpretação, desde já um marco em sua carreira, como Luísa, a Condessa de Barral, na novela criada e escrita por Thereza Falcão e Alessandro Marson, com direção artística de Vinícius Coimbra, “Nos Tempos do Imperador”, exibida às 18h na Rede Globo.