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Foto: Divulgação

Os conceitos sobre as atuações anteriores do Coringa, cada uma delas com seus inegáveis valores, devem ser reavaliados após a performance perturbadora de Joaquin Phoenix

Desde a década de 60 há gostos para todos os Coringas, um dos vilões mais fascinantes da galeria dos que confrontaram o Homem-Morcego. Há os que preferem a icônica caricatura de Cesar Romero no seriado sessentista (série “Batman, 1966 – 1968). Existem aqueles que se embevecem com o magistral histrionismo de Jack Nicholson na versão de Tim Burton (“Batman”, 1989). Outros ficaram arrebatados com a performance devastadora de Heath Ledger no longa de Christopher Nolan (“Batman – O Cavaleiro das Trevas”, 2008). E, por último, possivelmente a atuação metamorfoseada de Jared Leto em “Esquadrão Suicida” (2016) tem os seus defensores. No entanto, a partir do lançamento recente de “Coringa” (“Joker”, EUA, Canadá, 2019), do americano Todd Phillips, os conceitos estabelecidos até então sobre a composição do temível clown devem ser reavaliados com a inacreditável e perturbadora visão de Joaquin Phoenix para o personagem, tornando-se um fortíssimo candidato para amealhar o Oscar 2020 na categoria. 

O filme mostra Coringa como um comediante com transtornos mentais em busca do sucesso que à medida que sofre os reveses que o impedem de conquistar o seu sonho entra em um espiral de autodestruição irreversível

“Coringa” se passa em uma caótica Gotham City refém da greve dos lixeiros. Na cidade infestada por ratos vive Arthur Fleck (Phoenix), um angustiado comediante que se sustenta graças a bicos, portador de um transtorno mental que o faz soltar involuntariamente sinistras gargalhadas, independente das situações. Seu sonho é ser um artista cômico famoso, e o passaporte para esta condição seria uma participação no programa de humor de Murray Franklin (Robert de Niro, soberbo), uma clara alusão ao ótimo “O Rei da Comédia” (1982), de Martin Scorsese, com o próprio De Niro. Arthur, que cuida de sua frágil mãe (Frances Conroy, digna), numa jornada insana de sobrevivência pessoal, distancia-se mais ainda da razão ao se defrontar com doloridas verdades familiares. 

Não há qualquer sentido nas críticas sofridas pelo longa de Todd Phillips de que o mesmo justificaria as vilanias perpetradas pelo personagem clownesco

Com magnífica direção de Phillips (“Se Beber, Não Case!”, 2009), coescrito com engenho por ele e Scott Silver, “Coringa”, vencedor do Leão de Ouro em Veneza (e Melhor Trilha Sonora, notável), desmente as críticas de que justificaria as vilanias de seu personagem, confirmando em definitivo o supremo valor desta obra fílmica que não nos provoca nenhuma gargalhada, espontânea ou involuntária, e sim um sério e inevitável assombro.

Assista ao trailer do filme:

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Foto: Divulgação

Os filmes que possuem o espaço como um de seus “personagens principais” invariavelmente levam o público ao encantamento, e com o mais novo longa com esta temática, “Ad Astra: Rumo às Estrelas”, não foi diferente 

Filmes que se passam no espaço sempre nos proporcionam um encantamento, tanto pela sua beleza literalmente infinita quanto pelo seu mistério insondável. Desde a obra-prima de Stanley Kubrick, “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968) até o oscarizado “Gravidade”, de Alfonso Cuarón (2013), não tem sido diferente. Este tipo de obra cinematográfica pautado em tantos gêneros, como ficção científica, drama, suspense etc, costuma atrair levas de cinéfilos às salas de projeção. O mais recente deles é o espetacular “Ad Astra: Rumo às Estrelas” (“Ad Astra”, EUA, 2019), do diretor americano James Gray, desde já candidato a um punhado de indicações às categorias técnicas do Oscar 2020, podendo até mesmo haver surpresas nas consideradas principais (filme, diretor, ator e roteiro original). 

Brad Pritt, em uma de suas melhores atuações, magnetiza as plateias como um astronauta que tem como missão ir a Netuno evitar com que descargas elétricas provenientes do planeta, devido a um projeto espacial específico envolvendo o seu pai desaparecido, prejudiquem a Terra

Com a presença magnética de Brad Pitt como o Major Roy McBride em uma performance interiorizada de alto nível, o longa, escrito por Gray e Ethan Gross, coproduzido pelo indômito compatriota Rodrigo Teixeira (RT Features) junto a Brad e James (e outros), possui uma pegada existencialista perfeita ao descrever, num futuro próximo, a pessoal e solitária jornada do astronauta McBride rumo a Netuno (com escalas na Lua e Marte), ao qual seu pai, o respeitado Dr. Clifford McBride (Tommy Lee Jones, notável), fora enviado há cerca de três décadas, e de onde não mais voltou. A missão de Roy é suprimir as sobrecargas elétricas que ameaçam a vida na Terra, possivelmente provocadas por um desvio do projeto de exploração liderado pelo seu pai, com quem tinha contas afetivas a acertar. 

Com fotografia estonteantee as presenças luxuosas de Donald Sutherland e Liv Tyler (além de Tommy Lee Jones), “Ad Astra: Rumo às Estrelas” é indiscutivelmente um dos melhores lançamentos do ano

Com fotografia deslumbrante de tirar o fôlego de Hoyte Van Hoytema, direção com incríveis perícia e habilidade de James Gray e participações de luxo do insigne Donald Sutherland e da eterna musa Liv Tyler, “Ad Astra…” se destaca pela inteligência de seus argumento e roteiro, seu timing equilibrado sem atropelos, e sua realização artística irrepreensível, tornando-se um dos melhores lançamentos do ano indiscutivelmente. 

Assista ao trailer do filme:

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Foto: Divulgação

Clint Eastwood, ator presente nos westerns spaguetti italianos, e conhecido pelo policial Harry Callahan, da franquia “Dirty Harry”, passou a ganhar importância como cineasta a partir de “Bird”, sensível relato sobre o músico Charlie Parker 

No longínquo ano de 1988, o até então respeitado ator oriundo dos westerns spaguetti dos anos 60 Clint Eastwood sagrou-se como diretor ao lançar a sensível cinebiografia do músico Charlie Parker, “Bird”. Daí em diante, o mítico intérprete que imortalizou o policial Harry Callahan (“Dirty Harry”) nos cinemas vem dirigindo obras importantes, premiadas e elogiadas (“Os Imperdoáveis”, “Menina de Ouro”) no mercado americano, tornando-se um dos melhores profissionais da direção no país. 

Centrado num simplório produtor de lírios que sempre negligenciou a família, e que com a falência iminente resolve se envolver com o crime organizado, “A Mula” conta com um elenco estelar, que inclui Andy Garcia e Bradley Cooper

O mais recente e elogiadíssimo longa de Clint, no qual vive o protagonista Earl Stone, é o ótimo “A Mula” (“The Mule”, EUA, 2018). Earl é um nonagenário produtor de lírios de Illinois, Estados Unidos, que sempre negligenciou a família em benefício de seu trabalho, custando-lhe profundas mágoas de sua ex-mulher Mary (a extraordinária Dianne Wiest, uma das atrizes-símbolos de Woody Allen) e da filha Iris (a bonita filha do diretor Alison Eastwood). O falido produtor, sem saída aparente, decide se render ao crime organizado, servindo como “mula” (transportador de drogas) de um poderoso cartel mexicano liderado por Laton (o formidável Andy Garcia). Em seu encalço está o agente Bates (Bradley Cooper, em atuação não raro elegante e convincente), obedecendo às ordens de seu chefe (o prestigiado Laurence Fishburne), sendo auxiliado por Trevino (Michael Peña). 

Com críticas ao racismo entranhado na cultura americana, o filme de Clint Eastwood, baseado em um artigo de um tradicional jornal do país, confirma a proeminência do cineasta no seleto grupo dos grandes realizadores cinematográficos 

Com pequenas notas sobre o racismo ianque contra negros e mexicanos, o filme, que se baseou em um artigo do “The New York Times”, corrobora o olhar matemático de Clint Eastwood ao conduzir sua câmera, realizando um memorável road movie com matizes dramáticos e de suspense, transformando o irônico anti-herói Earl num sujeito irresistível a partir da segunda metade da produção.
Impossível não se comover com esta lenda do cinema mundial chamada Clint Eastwood, um pilar vivo e inquebrantável da Sétima Arte. 

Assista ao trailer do filme:

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Foto: Mauricio Fidalgo/Globo

“Segunda Chamada” é uma importante série que se apresenta em um momento delicado do país, em que se discute com a veemência necessária a relevância da educação em uma sociedade que se propõe a se desenvolver, usando como ferramenta narrativa de comunicação os dramas e conflitos atinentes a professores e alunos do turno da noite de uma escola pública de São Paulo

Na terça-feira passada, o público teve a chance de acompanhar o segundo episódio de um dos melhores produtos televisivos teledramatúrgicos do momento, a série da dupla Carla Faour e Julia Spadaccini, com direção artística de Joana Jabace, “Segunda Chamada”, na Rede Globo. Esta obra profundamente humanista chega nos lares brasileiros numa era oportuna, em que se discute com maior veemência a relevância da educação no país e o seu papel dentro da sociedade. Sem caracteres políticos, a excelente série pretende com notada sensibilidade, sem abdicar do realismo que o tema pede, colocar uma lente de aumento generosa nos dramas e conflitos individuais e coletivos de professores e alunos do turno da noite voltado para jovens e adultos de uma instituição pública de São Paulo, a Escola Estadual Carolina de Jesus. Com as inegáveis qualidades técnicas já consolidadas neste gênero, “Segunda…” açambarca um leque amplo de situações envolvendo os personagens deste instigante universo. Os professores são muito mais do que instrumentos de transmissão de conhecimento, cumprindo, cada qual ao seu jeito, a função de intermediar, contemporizar ou remediar os dilemas nascidos neste núcleo. O valoroso elenco reúne talentos de vivências e formações diversas, resultando em uma equipe de peso que brilha a cada cena.

Com um elenco de inegável valor capitaneado por Debora Bloch, a série certamente nos oferecerá em seus próximos episódios lições de cidadania e dignidade humana, cada vez mais em falta no Brasil

No time dos professores temos a idealista e determinada Júlia (Debora Bloch), a conciliadora e divertida Eliete (Thalita Carauta), o bem-intencionado Marco André (Silvio Guindane) e a dedicada, porém um pouco arredia Sônia (Hermila Guedes). Jaci, o diretor racional e exigente, ficou a cargo de Paulo Gorgulho. Na turma de alunos há a jovem Solange (Carol Duarte), despreparada para ser mãe; o travesti que convive com o medo, Natasha (Linn da Quebrada); o motoboy castigado pela dura rotina (Felipe Simas) e a senhora que abandona o preconceito de gênero Dona Jurema (Teca Pereira). Completam este admirável cast José Dumont, Nanda Costa e Mariana Nunes. Com “Segunda Chamada”, nós, telespectadores, também seremos alunos dessa escola com nome de escritora, aprendendo com cada episódio as lições de cidadania e dignidade humana que somente uma sala de aula pode dar.

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Foto: Elisa Mendes

“Caranguejo Overdrive”, da Aquela Cia. de Teatro, ganhou mais força junto ao público após o cancelamento de suas apresentações em um importante centro cultural do Rio de Janeiro

Em 2015, sem muitas expectativas por parte de seus realizadores, estreava no Rio de Janeiro um espetáculo que viria a se tornar um fenômeno teatral, com extensões nacionais e internacionais. Conquistando os principais prêmios da área e elogios efusivos da crítica, a peça “Caranguejo Overdrive”, da prestigiada Aquela Cia. de Teatro, cofundada por Pedro Kosovski e Marco André Nunes, autor e diretor da montagem respectivamente, resiste com bravura e dignidade à passagem do tempo, com todas as suas transformações políticas, imperando nos palcos de origem cada vez mais atual e condizente com o momento em que vivemos. Vítima de um gesto arbitrário há pouco (o cancelamento de suas apresentações no Centro Cultural Banco do Brasil, CCBB Rio, dentro do projeto “30 Anos de Cias.”, na comemoração dos 30 anos do importante centro cultural, sem qualquer justificativa), “Caranguejo…” sai fortalecido deste episódio, recebendo do público um incondicional acolhimento, que lotou as últimas sessões de sua temporada no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto com um sentimento maior de comunhão.

A peça narra o périplo sofrido de um catador de caranguejos da região do mangue do Rio de Janeiro que é convocado para lutar na Guerra do Paraguai, e que ao retornar à sua cidade se defronta com mudanças urbanísticas irreversíveis que o farão passar por um surpreendente processo de transformação pessoal 

A trama impressionantemente bem construída por Pedro, com riquíssima pesquisa histórica e alto teor crítico, tendo como fontes referenciais a obra do geógrafo Josué de Castro (autor de “Geografia da Fome”) e o revolucionário movimento musical manguebeat (fundado por Chico Science e pela banda Mundo Livre S/A), conta-nos a desoladora história de Cosme, um simplório catador de caranguejos da região do mangue do Rio de Janeiro, que após servir ao Exército brasileiro na sangrenta Guerra do Paraguai (1864 – 1870), vivenciando todos os horrores possíveis, retorna à sua cidade, totalmente irreconhecível, com o mangue que antes o alimentara aterrado por supostas obras de modernização. Cosme, com sequelas psicológicas acentuadas, testemunhando a nova realidade, sofrendo influências distantes do entendimento, transforma-se, respeitando um ciclo inexplicável, naquilo que sempre o sustentou como homem: um caranguejo e suas idiossincrasias.

A sintonia entre o arrojo da direção, a “pulsação” da direção musical e o fulgor e resistência de seu elenco faz com que “Caranguejo Overdrive” deixe a sua marca por onde quer que se apresente

Com a direção não raro arrojada de Marco André Nunes, a pulsante direção musical de Felipe Storino (os músicos em cena Pedro Nego, Maurício Chiari e Pedro Leal “enfurecem” melodicamente a narrativa com qualidade indizível), esta encenação, símbolo potente do Teatro Físico, tem ao seu dispor um elenco fulgurante, abnegado de suas limitações, indo sem temor até as fronteiras de seus irrefutáveis talentos, ou mesmo as transcendendo. Todos os louros e ovações são poucos para esse time de resistentes artistas, vitoriosos em suas vontades e amor ao que fazem, formado por Carolina Virgüez, Alex Nader, Eduardo Speroni, Matheus Macena e Fellipe Marques. “Caranguejo Overdrive” possui uma alma andante, sempre avante, perseverante, deixando por onde quer que passe uma marca de seu “mangue reflexivo e incômodo”.

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Foto: João Miguel Jr./TV Globo

Walcyr Carrasco dá a sua valiosa contribuição na desconstrução de mais um preconceito, dentre tantos em nossa sociedade, o machismo, ao apresentar ao público a relação afetiva entre um homem mais moço e uma mulher madura

Numa cultura na qual o machismo sempre teve um papel preponderante, sendo que esta condição desigual e injusta entre os gêneros felizmente passa por um processo de reavaliação alimentado por diversos grupos civis, o lindo e tocante romance entre o jovem Zé Hélio (a revelação Bruno Bevan) e a recém divorciada Beatriz (a consagrada Natalia do Vale) na novela de Walcyr Carrasco com direção artística de Amora Mautner “A Dona do Pedaço”, na Rede Globo, como obra audiovisual de alcance infinito na coletividade, cumpre uma função social de desconstrução de preconceito (a relação entre um homem mais moço e uma mulher mais madura) de inegável relevância. 

Natalia do Vale, consagrada atriz, e Bruno Bevan, jovem revelação, com seus respectivos talentos, são responsáveis diretos pela química e consequente sucesso do casal

O casal Zé Hélio/Beatriz tem encantado os telespectadores desde as suas primeiras cenas na academia de ginástica, e não são poucas as razões para o sucesso deste par.
Um dos maiores acertos foi a aposta no niteroiense formado em Publicidade, com carreira bem-sucedida de modelo, e passagens por vários cursos importantes de teatro (CAL, Tablado e Escola de Atores Wolf Maya), Bruno Bevan. Bruno, além de sua beleza inconteste, possui postura elegante, tempo perfeito das falas e controle das emoções.
Natalia do Vale, uma de nossas atrizes mais queridas, talentosíssima, bela, doce, com uma trajetória brilhante na teledramaturgia, torna a personagem ainda mais crível. 

Texto e direção compartilham sensibilidade e delicadeza na concepção das lindas cenas de Zé Hélio e Beatriz

O texto de Walcyr é meticuloso, prudente, delicado e sensível.
Sem atropelos ou pressa, o autor sabiamente criou a ambiência de aproximação de ambos respeitando as fases basilares de uma conquista romântica, ciente da vulnerabilidade de Beatriz, e do cuidado exigido pelo tema.
A direção de Amora e Luciano Sabino (diretor geral) compreende a real dimensão emotiva deste envolvimento e as barreiras sociais que o cercam, imprimindo às suas cenas ternura sem em nenhum instante resvalar no clichê do sentimentalismo ou pieguice, fácil armadilha.
A cena recente que culminou no beijo entre Zé Hélio e Beatriz é desde já uma das mais bonitas, difíceis e bem dirigidas do folhetim das 21h.
Termino a análise com a frase de Hélio para sua namorada: “Meu coração tem a idade do teu”. 

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Foto: Elisa Mendes

Após personagens marcantes na televisão, Emilio Dantas retorna às suas origens artísticas, o teatro, com uma comédia escrita e dirigida por Silvio Guindane

Depois de sucessos retumbantes com dois personagens seguidos na TV nas novelas “A Força do Querer” (2017), de Gloria Perez, e “Segundo Sol” (2018), de João Emanuel Carneiro, ambas exibidas na Rede Globo (Rubinho e Beto Falcão, respectivamente), Emilio Dantas, um dos melhores atores de sua geração, teve a sábia decisão de retornar aos palcos com a comédia “Ele Não Está Mais Aqui”, um texto de Silvio Guindane, dirigido por ele mesmo, com a assistência de direção de Isabel Guerón, tendo ao seu lado a bela companhia de intérpretes íntimos com este gênero nada fácil (o espetáculo foi apresentado em abril deste ano no Teatro Abel, em Niterói, no Rio de Janeiro, marcando a sua estreia em solo fluminense, importante vitrine cultural do país).

A história da peça gira em torno dos embates invariavelmente cômicos entre meios-irmãos envoltos nos emaranhados burocráticos típicos de uma partilha de bens deixados por um parente

A trama, uma escancarada crítica à acachapante burocracia brasileira, aborda uma questão universal, a disputa por irmãos, no caso meios-irmãos, num momento constrangedor e inevitável, a partilha de bens (fonte inesgotável para situações cômicas, se vistas por outro prisma, após o falecimento do patriarca endinheirado. Emilio vive José, o exasperado varejista têxtil em declínio financeiro, numa atuação desabusada, despudorada, liberta, recheada de distintas reações. Thelmo Fernandes esbanja graça e versatilidade na composição do melodramático português Miguel, um economista com TOCs (Transtornos Obsessivos Compulsivos). O ator angolano Omar Menezes aposta no gestual e na caracterização ao personificar o irmão desenhista especial Francisco (desenhos incríveis de Paulo Caruso). Silvio Guindane alinhava a sua dramaturgia sem pontas soltas, redonda, buscando com sua direção uma dinâmica própria, valorizando os embates interpretativos, confiando plenamente em seu elenco. “Ele Ainda Não Está Aqui” é uma comédia que tem como uma de suas principais qualidades a leveza, não se eximindo de ser despretensiosa, desejando tão somente deixar o público mais feliz depois de muitas risadas francas.