Blog do Paulo Ruch

Cinema, Moda, Teatro, TV e… algo mais.

Eduardo Sterblitch e Tatá Werneck formam um divertido e singular casal em “Shippados”/Foto: Divulgação/Globoplay

“Shippados”, série da Rede Globo, também disponível no Globoplay, prova com inteligência que a comédia romântica é um gênero que pode atingir todos os nichos de público

As comédias românticas, segundo alguns, agradam unicamente ao público feminino. De acordo com outros, trata-se de entretenimento meramente escapista. Na verdade, ambas as óticas são reducionistas e preconceituosas. Se o produto audiovisual (TV, streaming, cinema) se fundamentar em uma estrutura narrativa inteligente, sem abdicar de seus elementos cômicos e românticos característicos, o assunto se encerra, pois se tem uma obra universal disponível a todos os espectadores. É o caso da deliciosa série “Shippados” (2019), estreia da Rede Globo no último dia 12, com a assinatura de Alexandre Machado e Fernanda Young (último trabalho da autora).

A divertida história de Alexandre Machado e Fernanda Young é centralizada em dois jovens “diferentões”, Enzo e Rita, que procuram a sua “cara metade” em aplicativos de encontro, sendo invariavelmente malsucedidos. Tudo muda quando esse casal tão fora dos padrões se esbarra

Nos primeiros episódios conhecemos os jovens “diferentões” Enzo (Eduardo Sterblitch) e Rita (Tatá Werneck), ambos carentes, sem uma base familiar sólida e uma profissão estabelecida. Adeptos dos aplicativos de encontros, eles são vítimas do estranhamento de seus possíveis pares às suas personalidades não convencionais e arrebatadoramente francas. Na volta de um desses “matches” malsucedidos, a vlogger Rita e Enzo, que divide o apartamento com um casal nudista tresloucado (Luis Lobianco e Clarice Falcão), aproximam-se. Em cenários urbanos, como o interior dos metrôs, esses jovens irresistíveis travam diálogos divertidos e inspirados sobre a vida, comportamentos, esquisitices, relações, passado e família, sempre num tom puro e espontâneo. Conforme a história se desenrola, ficamos cada vez mais fascinados por esses dois tipos tão fora dos padrões. Mérito não só do ótimo texto, mas dos protagonistas, dois dos maiores nomes da nova geração do humor. Mérito também da esperta e elegante direção de Ricardo Spencer e Renata Porto D’Ave, com direção artística de Patrícia Pedrosa. Atentem para a trilha sonora sensacional da série, que lista talentos independentes brasileiros, como Vanguart (com o tema de abertura “Estive”), O Terno e Los Hermanos. Brilham com Tatá e Eduardo os atores Luis Lobianco, Clarice Falcão e Yara de Novaes, impagáveis. A fotografia de Dante Belluti, a produção de arte de Eugenia Maakaroun e os figurinos de Tatiana Rodrigues e Cao Albuquerque são caprichados. Há quem duvide que “deu match” entre “Shippados” e o público?

Assista ao trailer de “Shippados”:

Antonio Banderas protagoniza mais um filme com origens autobiográficas de Pedro Almodóvar/Foto: Divulgação

O último filme de Pedro Almodóvar, que levou os prêmios de Melhor Ator e Melhor Trilha Sonora no Festival de Cannes, não foge à regra de ser para os seus espectadores uma experiência sempre indescritível e renovada

Assistir a uma obra de Pedro Almodóvar sempre será uma experiência indescritível e renovada, no sentido de que somos revolvidos em sensações e emoções íntimas que só mesmo este grande cineasta e roteirista espanhol é capaz de fazê-lo. Este conjunto de percepções não poderia inexistir ao se ver o mais novo filme do autor de “A Lei do Desejo” e “Tudo Sobre Minha Mãe”, “Dor e Glória” (“Dolor y Gloria”, Espanha, 2019), vencedor dos Prêmios de Melhor Ator para Antonio Banderas e Trilha Sonora para Alberto Iglesias no Festival de Cannes.

Todos os elementos que são muito pessoais para o cineasta e roteirista já agraciado com o Oscar estão presentes em “Dor e Glória”, como a religiosidade na infância, sua forte ligação com a mãe e o despertar para a sua homossexualidade

Representando seu país na disputa por uma vaga no Oscar 2020, o já premiado com esta láurea Almodóvar escreveu e dirigiu um de seus longas mais pessoais e delicados, trazendo à tona a religiosidade presente em sua infância (não tão bem vista na figura dos padres), seu forte elo com a mãe (na ficção, temos a sempre bela e talentosa Penélope Cruz e a cativante Julieta Serrano) e o despertar da homossexualidade quando menino (o encantador Asier Flores). Sendo um filme musicado para realçar as emoções, finamente irônico, sem preterir algumas vezes das cores vibrantes que o identificam, Pedro narra a história de Salvador Mallo (Banderas, em estupenda contenção dramática), um cineasta afastado de seu ofício, deprimido e solitário, acompanhado somente de suas dores físicas, que necessita viajar ao passado para se entender melhor no angustiante tempo atual. Nesta jornada unilateral sofrida, alimentado por remédios e drogas, Salvador se depara com o ator de um de seus filmes, antigo desafeto, Alberto (o excelente Asier Etxeandia) e um amor do passado, Federico (o também ótimo Leonardo Sbaraglia). Lutando contra as doenças da alma e do corpo, o protagonista busca encontrar o sentido equilibrado de sua essência para poder apenas continuar. Um filme comovente com a chancela almodovariana.

Assista ao trailer do filme:

O ator galês Taron Egerton caracterizado como o cantor e compositor Elton John na cinebiografia musical dirigida por Dexter Fletcher/Foto: Divulgação

“Rocketman” se soma a muitas outras cinebiografias musicais que fizeram sucesso ao retratar os seus astros, sendo a mais recente delas “Bohemian Rhapsody”, sobre a banda também inglesa Queen

Muitas cinebiografias musicais já foram feitas em diferentes épocas e obtiveram boas acolhidas pelo público, como “A Fera do Rock” (1989; sobre Jerry Lee Lewis), “Tina” (1993; sobre Tina Turner) e “Ray” (2004; sobre Ray Charles). A mais recente delas foi o estrondoso sucesso “Bohemian Rhapsody” (2018), que mostrava a trajetória impressionante da banda inglesa Queen. Faltava contar a história de um popstar também inglês, Sir Elton John, e sua trajetória de altos e baixos.

Com escalações acertadíssimas, como Taron Egerton como Elton John, e Jamie Bell como o compositor Bernie Taupin, o filme de Dexter Fletcher se vale da busca de acontecimentos na vida do intérprete de inúmeros hits para justificar a sua personalidade autodestrutiva, regada a altas doses de álcool, drogas e barbitúricos

“Rocketman”, dirigido pelo ator e cineasta britânico Dexter Fletcher, foi lançado no Festival de Cannes do ano passado. Dexter, que se mostrou um virtuose neste tipo de filme, não poderia ter sido mais feliz na escalação do intérprete de Elton, o galês Taron Egerton, excepcional em sua composição, não deixando escapar nenhum dos maneirismos do cantor. Outra acertada escolha do diretor foi convidar o ótimo Jamie Bell (“Billy Elliot”), um deleite para os saudosistas, para viver o inseparável amigo compositor Bernie Taupin. O diretor, que lança mão de inúmeras licenças poéticas, foi buscar na difícil infância do astro, marcada pela severidade do pai (Steven Mackintosh) e leviandade da mãe, Bryce Dallas Howard, as possíveis causas para a sua autodestruição pessoal com álcool, drogas e barbitúricos, além da baixa autoestima e vício em sexo. Dexter se vale em muitos momentos de delírios/sonhos para simbolizar comportamentos de John, como a prática de orgias e a gênese de canções.

“Rocketman” agrada não só aos fãs de Elton John, mas a maioria de seus espectadores, devido à evidente empatia criada entre estes e o retratado, provando-nos o quão frágil pode ser a fronteira entre a glória e o abismo, tendo o talento extraordinário do cantor e compositor como entremeio

Para os fãs, a maioria de seus hits está presente, em contextos bem distintos. Tem desde a comovente “Your Song” à frenética “Crocodile Rock”. Com “Rocketman” é impossível não criar uma forte empatia com o retratado, com todos os seus dramas, excentricidades e genial talento. “Rocketman” é um filme feérico como Elton John, mas que não deixa de ser obscuro quando deve ser. A obra de Dexter Fletcher prova o quão frágil pode ser a fronteira entre a glória e o abismo, tendo o talento extraordinário em seu entremeio. Só mesmo um “rocketman” como Elton John para sair ileso disso tudo.

Assista ao trailer do filme:

O jornalista da “Folha de São Paulo” Ricardo Della Coletta fazendo a cobertura em Brasília no documentário “Cercados: A Imprensa Contra o Negacionismo na Pandemia”/Foto: Globoplay/Divulgação

No último dia 3 de dezembro, data em que o Brasil contabilizou mais de 175.000 mortes causadas pela pandemia de Covid-19, a plataforma de streaming Globoplay lança o impactante documentário “Cercados – A Imprensa Contra o Negacionismo na Pandemia”, dirigido pelo jornalista e documentarista Caio Cavechini, com roteiro do próprio Caio e da também jornalista Eliane Scardovelli, ambos do “Profissão: Repórter”, da Rede Globo. O título, muito apropriado, faz referência ao “cercadinho” no qual jornalistas profissionais ficavam na entrada do Palácio da Alvorada (residência oficial da Presidência da República), em Brasília, à espera da chegada do Presidente da República Jair Bolsonaro em busca de suas declarações, não raro polêmicas e furiosas, acerca da situação pandêmica no país. Constantemente agredidos por seus apoiadores exaltados, os veículos de imprensa, por razões de segurança, viram-se obrigados a se retirarem do local em definitivo. “Cercados…”, com gravações também em São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus e Fortaleza, traça um painel riquíssimo dos principais fatos, e não foram poucos, que desenharam o quadro trágico enfrentado pela sociedade face ao negacionismo declarado da principal autoridade executiva da nação. Fatos como o pedido de demissão do Ministro da Saúde Nelson Teich, que não se sustentou no meio do confronto “ciência x anti-ciência”, assim como o seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta. O doc nos traz momentos comoventes, como os dolorosos trabalhos dos fotógrafos Raphael Alves (Agência EFE) e Edmar Barros (Associated Press) em uma Manaus devastada pelo vírus. Da mesma forma nos toca a peregrinação incansável de uma esposa na porta de um hospital em São Paulo acompanhando o estado de saúde de seu marido por mais de 40 dias, tendo como testemunha a repórter Danielle Zampollo. O modo como o jornalismo foi arrebatado por uma torrente de informações e notícias relevantes a cada hora e o combate ferrenho às fake news são esmiuçados com precisão. O documentário mostra a tensão dos bastidores do “Jornal Nacional”, principal jornalístico da Rede Globo, e de outros órgãos de informação (como G1, O Estado de São Paulo, CNN Brasil etc), não se eximindo de revelar a exaustão de alguns de seus profissionais. Uma das cenas mais marcantes da produção exibe o momento em que o Presidente da República é interpelado pelo jornalista da “Folha de São Paulo” Ricardo Della Coletta acerca de sua suposta ingerência na Polícia Federal. Também foi vital ressaltar a união desses mesmos veículos de imprensa na divulgação do número de casos e óbitos causados pelo coronavírus, quando o Ministério da Saúde criou obstáculos em fazê-lo. Com montagem coerente e bem estruturada de Caio Cavechini, Eliane Scardovelli e João Rocha, e envolvente trilha original de Pedro Penna, “Cercados: A Imprensa Contra o Negacionismo na Pandemia” é um registro crucial e histórico que nos cerca das mais pungentes verdades.

Assista ao trailer do documentário:

Onze atores de um total de vinte e dois que participaram do especial da Rede Globo “Falas Negras”: no alto, da esquerda para a direita, Bárbara Reis, Babu Santana, Taís Araújo e Izak Dahora; no meio, Mariana Nunes, Guilherme Silva e Tatiana Tibúrcio; e abaixo, Bukassa Kabengele, Aline Deluna, Reinaldo Junior e Olívia Araújo/Fotos: Victor Pollak e João Cotta/Globo

O especial “Falas Negras”, um misto de linguagem cinematográfica documental com monólogos teatrais, coincide com o espancamento e morte brutais de um homem negro por agentes de segurança brancos de uma rede de supermercados em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, na noite anterior ao Dia Nacional da Consciência Negra

Quinta-feira passada, 19 de novembro de 2020. João Alberto Figueira Freitas, negro, 40 anos, é brutalmente espancado até a morte por dois agentes de segurança brancos de uma rede de supermercados em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Sexta-feira, 20 de novembro de 2020, Dia Nacional da Consciência Negra, a Rede Globo exibe o especial “Falas Negras”. Obra idealizada e escrita pela talentosa Manuela Dias (“Justiça” e “Amor de Mãe”), com o respaldo da ótima pesquisa de texto de Thaís Fragozo e a sublime direção artística de Lázaro Ramos, que explora com olhar sensível infinitas possibilidades, “Falas Negras”, um impactante misto de linguagem cinematográfica documental com os monólogos teatrais, presta-se oportunamente a dar voz, de 1600 aos dias atuais, a figuras históricas e pessoas comuns negras vitimadas pelo racismo institucionalizado universal e atemporal.

Valorizado por excelentes fotografia, figurinos, trilha sonora e cenário, “Falas Negras” reúne 22 depoimentos reais de grandes figuras históricas e pessoas comuns vítimas do racismo, como Martin Luther King, Nelson Mandela, Marielle Franco e Mirtes Souza, mãe do menino Miguel

Com fotografia deslumbrante de Pablo Baião, figurinos caprichados de Tereza Nabuco, trilha sonora instigante de Wilson Simoninha e lindo cenário (com destaque para o baobá) de Mauro Vicente, o especial enfileira em ordem cronológica 22 depoimentos reais emocionados, intensos e esclarecedores de símbolos negros representativos, como Martin Luther King, Luiz Gama, Malcolm X, Rosa Parks, Angela Davis, Muhammad Ali, Nelson Mandela, Marielle Franco, além de vítimas recentes como Neilton Matos Pinto (pai do adolescente João Pedro, assassinado em sua própria casa por forças policiais) e Mirtes Souza (empregada doméstica mãe de Miguel, menino morto ao cair do prédio após ações e omissões de sua patroa branca).

Com elenco irretocável composto por Taís Araújo, Babu Santana e Fabrício Boliveira, o especial da Rede Globo disponível no Globoplay ocupa legitimamente o seu lugar de fala, fazendo ecoar e incomodando com o seu grito de “Basta!”

O elenco é fabuloso, sendo que todos se esmeraram em suas composições (gestual, prosódia), elevando ao máximo sua carga emotiva. Abrilhantaram o especial Heloisa Jorge (Nzinga Mbandi, Rainha do Reino do Dongo e Matamba), Izak Dahora (Toussaint Louverture, líder da Revolução do Haiti), Olívia Araújo (Harriet Tubman, ex-escrava que se tornou cozinheira e enfermeira na Guerra Civil Americana a fim de obter informações secretas, ajudando na fuga de centenas de escravos do sul do país para o norte), Fabrício Boliveira (Olaudah Equiano, ex-escravo nigeriano que se tornou escritor), Reinaldo Junior (Mahommah G Baquaqua, escravo da África Ocidental que viveu no Brasil e nos Estados Unidos, onde publicou a sua biografia em que relata a terrível experiência brasileira), Aline Deluna (Virgínia Leone Bicudo, socióloga e primeira profissional brasileira não médica a se tornar psicanalista), Flávio Bauraqui (Luiz Gama, líder abolicionista, jornalista e poeta brasileiro), Bárbara Reis (Rosa Parks, ativista americana dos direitos civis), Bukassa Kabengele (Nelson Mandela, advogado, ex-presidente da África do Sul, líder do movimento contra o Apartheid, que segregava os negros no país), Angelo Flavio (James Baldwin, escritor, dramaturgo, poeta e crítico social americano), Samuel Melo (Malcolm X, ativista dos direitos civis americano), Aílton Graça (Milton Santos, geógrafo, jornalista, advogado e professor universitário brasileiro), Guilherme Silva (Martin Luther King, pastor batista e ativista dos direitos civis americano), Ivy Souza (Nina Simone, cantora, compositora e ativista dos direitos civis americana), Mariana Nunes (Lélia Gonzalez, historiadora, antropóloga e professora brasileira), Babu Santana (Muhammad Ali, maior pugilista de todos os tempos), Naruna Costa (Angela Davis, filósofa, ativista e professora americana), Valdinéia Soriano (Luiza Bairros, administradora e cientista social brasileira), Taís Araújo (Marielle Franco, vereadora, socióloga e ativista de direitos humanos brasileira), Tatiana Tibúrcio (Mirtes Souza, mãe do menino Miguel), Silvio Guindane (Neilton Matos Pinto, pai do adolescente João Pedro) e Tulanih Pereira (manifestante que representa os protestos raciais, como o caso de George Floyd nos Estados Unidos). O especial “Falas Negras” ocupa o seu lugar de fala, fazendo o grito “Basta!” ecoar e incomodar. As “Falas Negras” de Manuela e Lázaro importam, tanto quanto as vidas.

Assista à apresentação especial de “Falas Negras”:

Haia, a bruxa vivida por Cássia Kis, pratica um ritual em Roman, Nikolas Antunes, em “Desalma”, série do Globoplay/Foto: Estevam Avellar

A premiada autora Ana Paula Maia decide abraçar um gênero pouco explorado no Brasil, mas bastante difundido em outros países, o thriller/drama sobrenatural, na recém-lançada série do Globoplay “Desalma”, com direção artística de Carlos Manga Jr.

O audiovisual brasileiro não visitou com frequência o gênero thriller/drama sobrenatural como outros países o fizeram, seja em obras de Kubrick, “O Iluminado” (1980), ou Alejandro Amenábar, “Os Outros” (2001). No Brasil, João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein foram bem-sucedidos com a série “A Cura” (2009), na Rede Globo. A premiada autora Ana Paula Maia resolveu romper esta barreira com “Desalma”, série criada e escrita por ela, lançada no Globoplay no último dia 22. Com direção artística de Carlos Manga Jr. (“Se Eu Fechar Os Olhos Agora”) e direção de João Paulo Jabur e Pablo Müller, a produção se destaca por pujante apuro visual, exuberância das locações e marcação precisa das cenas, sendo ambientada numa cidade fictícia do sul do país, Brígida, cujos habitantes descendem de ucranianos e buscam manter intactas suas tradições.

A história estrelada por Cássia Kis, Cláudia Abreu e Maria Ribeiro começa em 2018 com uma tragédia, trinta anos depois de outro episódio cercado de mistério ter assombrado a fictícia cidade de Brígida, no sul do Brasil

Em 2018, após um fato trágico e misterioso envolvendo Roman (Nikolas Antunes), que, doente, retorna à sua cidade natal 30 anos depois, época na qual outros episódios traumáticos ocorreram, sua mulher Giovana (Maria Ribeiro) e suas duas filhas Melissa (Camila Botelho) e Emily (Juliah Mello) vão morar na casa onde ele crescera. A família é auxiliada por Ignes (Cláudia Abreu), prima de Roman, angustiada e assombrada por fantasmas do passado. Ignes é casada com Boris (Ismael Caneppele). O casal possui um filho, Anatoli (João Pedro Azevedo), que passa a ostentar comportamentos estranhos. Seu falecido irmão Aleksey (Nicolas Vargas) foi acusado de assassinar Halyna, (Anna Melo), filha de uma das figuras mais conhecidas e temidas da cidade, a bruxa Haia (Cássia Kis), que além de carregar essa dor brutal diz ser capaz de trazer os mortos de volta à vida. Há ainda o clã formado pelo fazendeiro Ivan (Bruce Gomlewsky), sua esposa Anele (Isabel Teixeira) e o casal de filhos gêmeos Iryna (Nathália Falcão) e Maksym (Giovanni di Lorenzo).

Bela fotografia com filtros azulados sombrios e um elenco que reúne veteranos a um time de talentos de uma novíssima geração, associados ao tino de Ana Paula Maia para desenvolver narrativas sobrenaturais fazem de “Desalma” uma ótima série

Com um elenco poderoso de veteranos e atores de uma nova geração prontos para despontar, “Desalma” é uma série que mergulha fundo na dor da alma humana, suscitando no espectador o sentimento caro que um bom thriller propõe, a expectativa, sendo também um tabuleiro soturno cujas peças/personagens se interconectam de modo engenhosamente coeso. Entre um susto aqui e outro mais adiante, valorizados pela inebriante fotografia com filtros azulados sombrios que permeia a narrativa, a nova obra brasileira disponível no canal de streaming Globoplay mostra que Ana Paula Maia conhece sobremaneira a “alma do negócio” para se fazer uma ótima série.

Assista ao trailer da série:

Nathalia Timberg, na época da apresentação do espetáculo “Através da Iris”, estava perto de completar 90 anos/Foto: Rodrigo Lopes

Em “Através da Iris”, uma das maiores damas do teatro e da TV brasileiros, Nathalia Timberg, dá vida à icônica designer de interiores, Iris Apfel, um símbolo fashionista de Nova York, cujo tema é “More is more, less is bore”

Na época em que estava prestes a completar 90 anos, no final de julho de 2019, uma das maiores damas do teatro e da TV brasileiros, Nathalia Timberg, decidiu comemorar a data em grande estilo, naquele lugar que, sem dúvida, é a sua segunda casa, o palco. Dessa celebração se originou um lindo, inteligente e bem-humorado espetáculo, “Através da Iris”, com dramaturgia de Cacau Higino e direção de Maria Maya. Nathalia dá vida à icônica designer de interiores, transformada em símbolo absoluto da moda mundial, a nova-iorquina criada nos arredores de Manhattan, Iris Apfel. Iris, no alto de seus 97 anos, caracteriza-se por ser uma mulher sempre à frente do seu tempo. Alcunhada como a “estrela geriátrica”, formada em História da Arte, defensora do lema “More is more, less is bore”, a involuntária fashionista se encontra em sua multicolorida casa, onde todos os elementos se imiscuem, do pop ao barroco, passando pelo clássico, concedendo uma entrevista reveladora para uma equipe de televisão. Neste testemunho, do qual a plateia se torna cúmplice fiel, a distinta senhora que decorou a Casa Branca 9 vezes, destila sua verve sarcástica, com sua autenticidade desconcertante, sobre vários temas que lhe foram e lhe são caros, como família, casamento, solidão, costumes e moda, é claro.

Com dramaturgia fluida assinada por Cacau Hygino e direção de Maria Maya focada no carisma de sua intérprete, Nathalia Timberg, sem surpresas para o público, revela-se fulgurante no palco, em que se destacam, entre outros méritos, a sua estudada e imbatível maneira de falar o texto

Cacau Hygino constrói uma narrativa fluida, com costuras bem definidas, tendo como um de seus maiores atrativos a potente comunicação com o público. Maria Maya, em inteira consonância com o texto de Cacau, foca explicitamente, com notável acerto, na figura carismática de sua intérprete.
Nathalia Timberg incorpora Iris Apfel com o brilho soberano que incondicionalmente a acompanha. Apostando com louvor na geometria delicada dos gestos, na naturalidade sofisticada de sua atuação, e em seu estudado falar, imbatível, Nathalia fulgura na ribalta. “Através da Iris” é uma peça que encanta, que nos ensina a conhecer o tempo e o ser humano feminino sem temer as liberdades. Um espetáculo que eleva a expressão em todas as suas correntes. E isso só seria possível através da íris de Nathalia Timberg. 

A atriz Lupita Nyong’o em cena do filme “Nós”/Foto: Divulgação

Jordan Peele, cineasta que conquistou o público e a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas com o cult de terror “Corra!”, aposta neste mesmo filão em “Nós”, trazendo em sua trama uma família de classe média americana aterrorizada ao se deparar em uma viagem de férias com o seu “duplo”

Em 2018, o mundo do cinema descobriu o talento criativo do diretor e roteirista americano Jordan Peele, que foi agraciado com o Oscar de Melhor Roteiro Original por “Corra!” (“Get Out”, 2017). O também ator Jordan surpreende o público mais uma vez ao lançar em março do ano seguinte o assustador e inventivo “Nós” (“Us”, EUA), obedecendo à mesma linha de terror cult que o consagrou com o longa anterior. Agora, Peele se concentra em uma típica família classe média estadunidense que decide passar as suas férias em uma praia turística chamada Santa Cruz. A esposa Adelaide (a oscarizada atriz queniano-mexicana Lupita Nyong’o) possui lembranças nada agradáveis desta mesma região praiana no longínquo 1986, em um brinquedo de parque de diversões com espelhos, no qual se deparou em um deles não com o seu reflexo, mas com o seu duplo com vida própria. Casada com Gabe (Winston Duke), e mãe do casal de adolescentes Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex), Addy/Adelaide vê tudo se transformar, com consequências aterrorizantes, a partir da aparição no jardim da casa de veraneio de uma misteriosa família.

Quem for assistir a “Nós” se fartará com boas doses de sustos e cenas carregadas de violência num cenário que reporta em certas ocasiões aos filmes de terror B com ingredientes apocalípticos de sci-fi

A direção de Jordan Peele faz o espectador perder o seu fôlego, com os sustos de praxe, a hiperviolência e as viradas surpreendentes.
Seu roteiro é uma recriação engenhosa e sofisticada com toques apocalípticos de sci-fi dos filmes de terror B. E não há demérito nisso.
A bonita Lupita Nyong’o é uma intérprete visivelmente madura, sabendo com mestria ofertar a ambiguidade de suas personagens, com expressões de medo e pavor e fúria animalesca. Por sinal, todo o elenco tem o seu valor, juntando-se a ele o casal Elisabeth Moss (Kitty) e Tim Heidecker (Josh).

Além de contribuir com a sua criatividade, “Nós” assume um papel ainda mais importante na indústria do cinema dos Estados Unidos ao colocar como protagonista uma família afrodescendente liderada pela estrela Lupita Nyong’o

“Nós” é mais uma obra de Jordan Peele que serve para dar uma lufada de criatividade à cinematografia dos Estados Unidos por vezes repetitiva e voltada para as bilheterias fáceis dos blockbusters.
Além disso, ao ceder o protagonismo a uma família negra como símbolo legítimo da classe média americana cumpre o papel primordial de contribuir para a diversidade e representatividade cinematográficas. 

Assista ao trailer do filme:

O diretor Caco Ciocler, que aparece em algumas cenas de seu filme, dentro do ônibus que é usado para a viagem ao Uruguai/Foto: Divulgação

Em comemoração aos 52 anos do Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, que são completados hoje, houve na última quinta-feira a exibição on-line do filme dirigido por Caco Ciocler, “Partida”, seguida de debate com a sua presença. A seguir, a crítica:

O diretor Caco Ciocler aproveita um acontecimento da História recente do Brasil, a ascensão da extrema direita ao poder em outubro de 2018, para realizar um road movie documental que se sustenta nas aspirações político/sociais frustradas de um grupo diverso de pessoas

Dentre os inúmeros gêneros existentes no universo cinematográfico o “road movie” é um dos mais estimados. Qualquer cinéfilo que se preze cita um exemplar de sua preferência à primeira inquirição. O “road movie” documental, a despeito de sua menor frequência nas telas, possui inegável valor. Apostando nesta premissa, o diretor Caco Ciocler realiza uma joia recente do cinema brasileiro com o premiado doc “Partida” (2019), um recorte tocante das aspirações político/sociais frustradas de um grupo de pessoas após a temerária ascensão da extrema direita ao poder no país no cerrar das portas de 2018.

A ideia do filme surge a partir do momento em que Caco Ciocler ouve da atriz e também diretora Georgette Fadel que ela se candidataria à Presidência da República em 2022, o que o leva a pensar em uma viagem de ônibus com destino ao Uruguai reunindo um determinado grupo com o objetivo de se encontrar com o ex-Presidente do país platino Pepe Mujica

Depois de ouvir a atriz e diretora Georgette Fadel se declarar candidata à Presidente da República em 2022, o também produtor Caco (junto com Beto Amaral) decide convocá-la, e mais alguns, a uma viagem de ônibus rumo ao Uruguai com pretensões de encontrar o ex-Presidente Pepe Mujica, sem nenhum aviso prévio. Sem se enquadrar nos cinemas direto e verdade (visto que o grupo técnico aparece em boa parte da projeção como se fosse um “personagem”), a obra flui brilhantemente sob a égide do generoso acaso e das improvisações dos membros da equipe de filmagem, uma trupe quase mambembe. Em meio a altercações políticas entre uma intensa Georgette e seu principal “oponente” Léo (Léo Steinbruch), criamos empatia por esses seres aventureiros, sonhadores, contraditórios e frágeis, porém fortes em suas determinações estrada afora.

Extremamente sensível em seu olhar para a realidade próxima que o cerca, Caco Ciocler faz de “Partida” um filme sobre buscas e sonhos sem medidas, no qual o futuro pode sim ser o presente desejado, ainda que demorado

Caco Ciocler demonstra enorme sensibilidade com o seu olhar para a realidade que o cinge tão proximamente. Acredita na coletividade e no afeto humanos. Crê às cegas no improvável, sendo desperto pela magia do benevolente destino. “Partida” é um filme sobre buscas, jamais despedidas. Um filme de sonhos sem medidas. No ônibus antigo, do passado, todos ainda vislumbram no futuro o presente desejado por ora adiado. “Partida” não é para se dizer “adeus”. No máximo, um “até breve”, mesmo que dure um pouco mais.

Assista ao trailer do filme:

Foto: Divulgação

Nanni Moretti realiza um documentário sobre um dos períodos mais sangrentos da história chilena, quando em 1973 o governo legítimo de Salvador Allende é deposto com o apoio dos Estados Unidos, representados pela figura do Secretário de Estado, Henry Kissinger, levando o país a uma ditadura comandada pelo General Augusto Pinochet

Esteve em cartaz nos cinemas brasileiros em 2019 uma obra do aclamado cineasta italiano Nanni Moretti, o oportuno documentário “Santiago, Itália” (“Santiago”, 2018), vencedor do David di Donatello 2019 de Melhor Documentário (sua mais recente produção, um drama, chama-se “Tre Piani”, 2020). O doc relata os episódios que marcaram uma das ditaduras militares mais implacáveis e cruéis da América Latina, a chilena, que tomou o poder em setembro de 1973, depondo o presidente eleito democraticamente Salvador Allende. Porém, o grande mote do filme do também ator e roteirista, autor dos elogiados longas “Caro Diário” (1994), “O Quarto do Filho” (2000) e “Habemus Papam” (2011) foi a primordial ajuda da embaixada italiana, oferecendo asilo e vistos para a Itália, aos perseguidos políticos do governo de Augusto Pinochet. Nanni, mesmo afirmando não ser imparcial, procurou ouvir os dois lados da história numa série numerosa de depoimentos, utilizando-se outrossim de preciosas imagens de arquivo, como as que mostram o Estádio Nacional do Chile, que serviu de enorme centro de detenção para os opositores do regime totalitário. No filme fica evidente o financiamento norte-americano ao golpe, com o apoio da imprensa chilena, justificado por Henry Kissinger, Secretário de Estado à época, como uma forma de não estimular os governos italiano e francês, com seus partidos socialistas, suscetíveis às políticas sociais de Allende. Moretti oferece a cineastas, como Patricio Guzmán, empresários, professora, artesão e muralista a oportunidade de dar o seu testemunho (seja em espanhol ou italiano), assim como a militares condenados por seus crimes. O único senão do documentário de Nanni Moretti foi seguir os padrões mais convencionais deste gênero cinematográfico, com depoimentos de personagens da História entremeados por imagens de arquivo, como foi dito antes. No entanto, a força deste período histórico que jamais deve ser esquecido não tira o interesse do espectador. Nanni Moretti merece o nosso respeito por revolver as lembranças desta triste passagem de nosso país vizinho. “Santiago, Itália” se torna ainda mais relevante quando vemos no Brasil a defesa aberta da volta de um regime tão desumano quanto ilegal, como o é a ditadura.

Assista ao trailer do filme: