
Um casal, ela deficiente auditiva, e ele ouvinte, precisa rever as dinâmicas de comunicação entre si após o nascimento da filha
Em 1986, chegou às telas de cinema um filme que mudaria a maneira como os espectadores se comportariam diante da presença de uma deficiente auditiva como protagonista de sua história: “Os Filhos do Silêncio” (“Children of a Lesser God”), dirigido por Randa Haines, com Marlee Matlin (atriz surda vencedora do Oscar no ano seguinte) e William Hurt.
Quase 40 anos depois, o respeitado audiovisual espanhol nos presenteia com uma produção comovente (daquelas que nos deixam com um nó na garganta em boa parte de sua projeção), jamais capacitista, muito pelo contrário, “Surda” (“Sorda”, 2025), em que a sua trama é centrada no relacionamento de um casal, a ceramista deficiente auditiva Ángela (Miriam Garlo, também portadora da condição) e o ouvinte Héctor (Álvaro Cervantes), que após o nascimento da filha ouvinte precisam rever as dinâmicas de comunicação estabelecidas ao longo de três anos de convivência.
Em seu excelente longa de estreia, continuação de seu curta-metragem homônimo de 2023, Eva Libertad, também roteirista e irmã de Miriam Garlo, atinge sucessivas vitórias ao mirar o seu sensível e humanista olhar nos dois lados envolvidos, mostrando-nos distintas intolerâncias, amplificadas pelas dos pais de Ángela (Elena Irureta e Joaquín Notario) e obviamente da sociedade.
Miriam Garlo e Álvaro Cervantes nos entregam atuações de altíssimo nível
A direção de Eva Libertad (Prêmio Goya de Diretor Estreante) valoriza uma câmera que busca ao máximo o naturalismo de seus intérpretes e dos momentos cotidianos que vivenciam, os grandes silêncios e sons, resultando em uma obra com extraordinária verossimilhança.
Mirian Garlo e Álvaro Cervantes nos entregam atuações de altíssimo nível, precisas, contundentes, merecendo ambos respectivamente o Prêmio Goya de Melhor Atriz Revelação e Melhor Ator Coadjuvante.
“Surda”, que também saiu agraciado no Festival Internacional de Cinema de Berlim com o Prêmio do Público, onde foi lançado, revela com magnificência o quanto pode ser sofrido o processo da maternidade no seio de um casamento quando a diferença se impõe, ensinando-nos que o primeiro passo a ser dado é a comunhão com a tolerância, algo que o mundo resiste sempre em entender.








