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Foto: Divulgação do filme

“Tinta Bruta”, um dos mais relevantes filmes independentes gaúchos dos últimos anos, estreia no Cine Arte UFF, com direito à debate com a presença de seus diretores e dos atores principais 

Em 8 de dezembro do ano passado, assisti, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de janeiro, a um filme bem interessante, e relevante para os tempos atuais, pertencente à atual cena cinematográfica independente gaúcha, “Tinta Bruta”, dirigido e roteirizado por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. No dia 7, após a exibição de estreia do longa-metragem, houve um debate, no mesmo local, com a participação de Filipe e Marcio, e dos atores Shico Menegat e Bruno Fernandes.

“Tinta Bruta”, corajosamente e sem ser panfletário, toca em temas importantíssimos e atuais, como o bullying e a homofobia, tornando-se um pujante instrumento artístico denunciatório contra a prática de uma série de preconceitos e intolerâncias

A produção, que se passa em um centro da cidade nada glamouroso de Porto Alegre, toca, com notável propriedade, em temas contemporâneos delicados, como voyeurismo virtual, bullying, homoafetividade e homofobia, firmando-se assim como uma obra fílmica denunciatória das práticas da intolerância e do preconceito. Sem ser, o que é um grande mérito, panfletário, “Tinta Bruta” conta a história do solitário Pedro (Shico Menegat), um jovem homossexual que ganha a vida fazendo performances sensuais na internet, cujo maior atrativo é o fato de pintar o próprio corpo com tintas coloridas que, sob uma luz especial, ganham aspectos fluorescentes, como o neón (seu nick é Garoto Neon). Pedro, durante a sua via-crúcis numa terra onde a lei é a não aceitação, envolve-se com o bailarino Leo (Bruno Fernandes), enquanto aguarda a sentença de um processo de agressão da qual é acusado.

Premiado e elogiado no Brasil e mundo afora, “Tinta Bruta” serve como arma legítima contrária ao retrocesso cultural e comportamental que estamos vivendo

O filme levou importantes prêmios: Melhor Filme Teddy Award Berlim 2018, Grande Prêmio do Festival do Rio 2018, Melhor Filme CICAE Art Cinema Award Berlim 2018, dentre outros, além de ter recebido efusivos elogios do “Exberliner”, “Hollywood Reporter” e “Variety”. Com elenco afinado (e premiado), bela fotografia de Glauco Firpo e desenho de som dançante de Tiago Bello e Marcos Lopes, “Tinta Bruta” é essencial como arma legítima contra o retrocesso cultural/comportamental do país.

 

Assista ao trailer: https://www.youtube.com/watch?v=zM9Q36ZKJqY

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Foto: Divulgação do filme

“O Beijo no Asfalto” tem sessão especial no Cine Arte UFF 

No dia 29 de novembro de 2018, o Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, teve o privilégio de sediar a pré-estreia especial do primeiro filme dirigido pelo ator Murilo Benício, “O Beijo no Asfalto”, sua versão para um dos maiores clássicos do dramaturgo Nelson Rodrigues (a peça foi publicada em 1960).

O diretor Murilo Benício esteve presente, e participou de um debate com o público 

Após a exibição do longa-metragem houve um esclarecedor debate com o próprio Murilo Benício e uma interessada plateia, bastante motivada e feliz com o que acabara de assistir. Fiz duas perguntas ao diretor. Disse-lhe que havia percebido influências e/ou referências em sua narrativa cinematográfica, como uma estética cinemanovista urbana (como as obras de Nelson Pereira dos Santos), além dos recursos de metalinguagem e melodrama. Perguntei-lhe se as mesmas foram intencionais. Murilo, generoso e franco todo o tempo, afirmou que o resultado foi fruto de muitos filmes aos quais assistiu na vida, e que suas imagens ficaram em seu inconsciente. Indaguei-lhe como exerceu a sua função de diretor, sendo que esta demanda uma certa autoridade, e como fora a sua relação com os atores mais experientes, como Fernanda Montenegro, Stênio Garcia e Otávio Müller. O cineasta asseverou que sempre esteve aberto às melhores ideias.

Fotografia de Walter Carvalho, roteiro do próprio Benício, e elenco com Lázaro Ramos como protagonista 

O “O Beijo no Asfalto” é uma preciosidade do cinema nacional, fotografada com a elegância em “p & b” do esteta Walter Carvalho (como não nos lembrarmos do cinema noir?), com roteiro brilhantemente estruturado por Benício, tendo em seu excelente elenco nomes, além dos já citados, como Amir Haddad, Lázaro Ramos, Débora Falabella, Augusto Madeira, Marcelo Flores, Luiza Tiso e Arlindo Lopes. A trilha sonora calcada em um suspense crescente, composta com refinamento é de Berna Ceppas. O filme, que estreou oficialmente nos cinemas em 6 de dezembro do ano passado, não só lança Murilo Benício como diretor , como corrobora mais um de seus inegáveis talentos.

Assista ao trailer: https://www.youtube.com/watch?v=lWkIzlwG0Hc

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Foto: Ale Catan

“Dogville”, um dos melhores filmes de Lars Von Trier, cofundador do Movimento Dogma 95, em sua versão para os palcos 

Em 2003, oito anos depois de ter criado o manifesto conhecido como “Dogma 95”, junto com Thomas Vinterberg (um movimento cinematográfico que pregava, dentre outras coisas, formas mais simples e realistas de se fazer filmes, que atingiam tanto as técnicas industriais e comerciais utilizadas, quanto as temáticas abordadas), o dinamarquês Lars Von Trier lança um de seus mais emblemáticos, originais e contundentes longas-metragens, “Dogville”, protagonizado por Nicole Kidman. Um dos grandes diferenciais desta obra era a adoção de um ambiente absolutamente teatral que servisse para o desenvolvimento de seu entrecho. Em um enorme espaço que simbolizava a cidade que intitula a produção, Lars demarcou em seu chão linhas representativas dos limites de todas as áreas importantes da localidade interiorana dos Estados Unidos. Como era esperado, o filme conquistou público e crítica. Impossível seria não sair impressionado do cinema após a projeção de uma criação tão catártica de Trier. E um desses espectadores foi Felipe Lima, o idealizador da montagem brasileira de “Dogville”, em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro, e que depois cumprirá temporada em São Paulo. Felipe se juntou ao diretor Zé Henrique de Paula, e ambos se aventuraram nesta empreitada arriscadíssima de transpor para os palcos um filme potencialmente difícil, complexo, intrincado, mas carregado de uma inteligência estética e textual arrebatadora. Se a versão para a ribalta lograsse êxito, o impacto cênico, e consequente sucesso como realização teatral, estariam garantidos.

A sábia decisão de se inverter as linguagens na adaptação teatral de “Dogville”

A questão crucial que torna “Dogville” uma montagem inovadora foi exatamente a decisão sábia de inverter as linguagens, ou seja, se a obra de Lars Von Trier possui um viés teatralizado, o caminho a ser seguido pela peça seria a de se assumir como uma encenação com uma marca, um selo cinematográfico. E ao trilhar esta vereda com recursos fílmicos, o espetáculo estrelado por Fábio Assunção, Mel Lisboa, Selma Egrei, Bianca Byington, Chris Couto, Thalles Cabral e mais dez atores de inegável talento se firma como uma das principais atrações do cenário teatral do eixo Rio-São Paulo. No entanto, “Dogville” não é tão somente uma peça que nos desestabiliza pelo seu encantamento estético/visual, mas sim pela força brutal, cortante e incisiva de sua impecável dramaturgia, brilhantemente traduzida por Davi Tápias. O texto de Von Trier é universal, com pesquisas que passeiam pelas searas filosóficas, sociológicas e antropológicas. Esta mesma universalidade, evidente, aproxima-nos daquele microcosmo tão fictício quanto real que Dogville, a pequena cidade do interior dos Estados Unidos, perto das Montanhas Rochosas, epicentro da trama, representa. Não à toa o espetáculo se inicia com a citação de um pensamento do dramaturgo Harold Pinter feita pela figura do Narrador (Eric Lenate), que discorre acerca do que é verdadeiro ou falso, o que é real e o que é ficção.

A trama narra a trajetória de uma jovem, Grace, que chega a uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos, é acolhida pelos seus moradores, e que de repente se vê subjugada e explorada pelos próprios, com consequências imprevisíveis  

A história começa com a chegada de uma suposta fugitiva, Grace (Mel Lisboa), à cidadezinha de Dogville, habitada por pessoas trabalhadoras que vivem da mineração. São cidadãos comuns, de bem, simples, sendo que cada um deles exerce uma atividade em prol do coletivo. Nesta região próxima a outra cidade, Georgetown, o conceito de coletividade é obedecido com absoluta fidelidade. Nesses tempos miseráveis e sombrios pós-Depressão de 29, a jovem, que se supõe, é perseguida por bandidos/gângsteres, em um primeiro momento, é recebida e acolhida por seus moradores, tipos marcantes, distintos entre si. Tom (Rodrigo Caetano), um escritor romântico e sonhador, é quem primeiro a recebe. Tom é filho de um sisudo médico, Thomas (Blota Filho). Chuck, interpretado por Fábio Assunção, é um homem desconfiado, com um caráter inquisidor, quase inflexível. Chuck é casado com uma mulher insegura, Vera (Bianca Byington), mãe de seus filhos, dentre eles um bebê, e o garoto Jason (Dudu Ejchel). Há uma senhora que gosta de cuidar de pés de groselha, Ma Ginger (Selma Egrei). Um rapaz, Jack MacKay (Munir Pedrosa), que sofre de cegueira. Um moço bem jovem, Bill Henson (Thalles Cabral), com personalidade ansiosa. Marcelo Villas Boas vive o embriagado Ben. Chris Couto personifica a severa Sra. Henson. Já Fernanda Thurann encarna uma moça que vive sendo assediada pelos rapazes. Compõem o grupo de moradores que parecem carregar todos em seu íntimo doses latentes de amargura as atrizes Anna Toledo (Martha) e Fernanda Couto (Glória) e o ator Gustavo Trestini (Sr. Henson). A permanência e guarida de Grace dependem de seus serviços prestados à comunidade. Serviços comuns, tarefas domésticas do dia a dia. Aos poucos, com as notícias (verdadeiras ou falsas?) vindas de fora acerca da identidade de Grace e de seus atos, o comportamento dos pacatos e até então inofensivos cidadãos se transforma em níveis ascendentes reveladores de suas faces mais obscuras. Se antes a relação dessas pessoas com a moça forasteira se baseava em uma certa justiça e adequação, agora os elos de ligação entre aquelas e a jovem são regidos pela bestialidade, pela intolerância, pelo pré-julgamento, pelo preconceito e pela desumanidade. A tensão dessas mesmas relações dentro de um microcosmo social como Dogville desencadeia um processo assustador de deterioração dos valores éticos e morais dos indivíduos, levando as suas histórias pessoais a um desfecho pautado pela imprevisibilidade.

A associação vitoriosa do texto pujante de Lars Von Trier com a direção inteligente e sensível de Zé Henrique de Paula 

O texto de Lars Von Trier é estruturado em cima de um arco narrativo que privilegia os diálogos dos personagens, mostrando, com a passagem dos períodos temporais, as alterações de tons e intenções daqueles quando direcionados à interlocutora principal (Grace). Trier costura sem azáfama uma linha de desenvolvimento de ações que respeita o momento certo em que as causalidades que provocam as mudanças comportamentais de seus tipos surgem, oferecendo ao público camadas de drama, suspense e horror (associado a violências físicas e morais). A capacidade que o autor/cineasta possui em construir figuras humanas que se encaixam em uma normalidade linear, cuja estabilidade pode ser despedaçada com um “simples apertar de gatilho” é no mínimo perturbadora. A direção de Zé Henrique de Paula consegue com o seu sensível olhar e inteligência cênica resgatar bravamente a noção dos grandes espetáculos, na melhor das acepções, ou seja, aqueles que reúnem um numeroso elenco, associado a uma estética deslumbrante e a um sólido e consistente conteúdo. Zé Henrique, com proeza, tendo ao seu dispor 16 atores, atinge um patamar de mestria ao fazê-los ocupar com sentido a maior parte do perímetro teatral, além de lhes pedir que, na maioria das vezes, não deixem de executar movimentos que sejam coerentes com os perfis de seus papéis. Todo este aparato disponível é organizado de modo harmônico, por mais árduo que isto possa parecer. O conjunto cênico/textual/interpretativo de “Dogville” é irrepreensível. Utilizando-se de inebriantes projeções visuais em dois planos, algumas com interações muito bem pensadas, o diretor monta com engenhosidade, tendo à mão sedutores recursos, esta peça que laça a atenção de sua plateia em suas quase duas horas de duração, o tempo necessário e justo para a realização da arquitetura da encenação. Outro instrumento usado por Zé Henrique, e que serve eficientemente ao espetáculo, dando-lhe maior compreensão, é a sua divisão em capítulos com títulos, que demarca com precisão as passagens relevantes do texto.

Um elenco irrepreensível que confere credibilidade indispensável aos tipos humanos complexos retratados   

O elenco, a despeito de seu número elevado (o que poderia ser um problema no momento das avaliações), é extraordinariamente talentoso. Todos sem exceção estão imbuídos da essência da alma de seus personagens. Cabe lembrar que a preparação dos atores ficou a cargo de Inês Aranha. Mel Lisboa, como Grace, segura com firmeza a sua ambiguidade. Eric Lenate constrói um Narrador persuasivo. Fábio Assunção imprime com clareza a inflexibilidade desgostosa de Chuck. Selma Egrei, como Ma Ginger, transita com enorme distinção entre a doçura e a aspereza. Bianca Byington representa com convicção a fragilidade emocional de Vera. Rodrigo Caetano desenha com expansividade o espectro romântico/sonhador do escritor Tom. Marcelo Villas Boas manifesta com confiança a exaltação embriagada do transportador de cargas Ben. Fernanda Thurann exibe os trejeitos melindrados de Liz. Thalles Cabral, com voz composta, ostenta a exasperação do jovem Bill. Chris Couto, como a Sra. Henson, mostra as filigranas da severidade da Sra. Henson. Blota Filho, como o médico Thomas, encontra o direcionamento certeiro da rudeza de seu papel. Munir Pedrosa, como Jack MacKay, revela o sofrimento incontido do rapaz vítima de cegueira. Dudu Ejchel nos convence com a dissimulação de Jason. Anna Toledo, como Martha, Gustavo Trestini, como o Sr. Henson, e Fernanda Couto, como Glória, exprimem desenvoltura na apresentação de seus tipos dentro do contexto em que estão inseridos.

Cenário que se alimenta da crueza e do arrojo, e iluminação que nos transporta para o universo estranho e sombrio da pequena cidade 

Bruno Anselmo executou um ótimo trabalho cenográfico. Se por um lado, Bruno adotou a economicidade de mais de uma dezena de cadeiras distribuídas pelo palco vazio, e que atendem aos mais diversos apelos da narrativa, por outro assumiu com sublime eficiência a espetacularização das eloquentes, belas e informativas projeções visuais, com direito a ousadas interatividades (aí se encontra o elemento cinematográfico da montagem), elaboradas com notável criatividade, tendo como diretor audiovisual Laerte Késsimos e como criador do vídeo mapping o VJ Alexandre Gonzalez. O cenógrafo se utilizou, além de vários objetos de lida enfileirados no fundo do palco, como baldes e regadores, de uma sacada metálica bastante funcional, cujo acesso dos atores é feito por uma escada à vista. Este recurso faz com que a peça tenha, claro, dois planos de ação, igualmente importantes. As projeções são feitas em dois grandes painéis minimamente vazados que se movimentam à mercê das solicitações dramatúrgicas. Fran Barros apostou em uma iluminação delicada, tênue, elegante, sem extravagâncias ou efeitos mirabolantes dispensáveis. A impressão que nos é passada pela luz de Fran é a de houve o propósito de, com seus focos indiretos e laterais (sem preterir os frontais), valorizar o universo ficcional e misterioso daquela cidade, realçando de certo modo a estranheza de seus habitantes. Para isso, o iluminador não se eximiu em explorar as sombras, as meias-luzes e as tonalidades levemente amareladas e azuladas. O fundo da ribalta e a sacada são vez ou outra objetos de sua inspirada iluminação.

Figurinos estudados com primor e trilha sonora original envolvente 

Os figurinos de João Pimenta são exponencialmente caprichados em seus detalhes e congruentes com o período, o local e a situação sócio/econômica vigente. João, conceituado estilista, esmerou-se ao máximo em agregar aos personagens por meio de suas vestimentas as características natas daqueles moradores e da forasteira Grace. A visualização cênica dos figurinos soa potente, vistosa e harmônica. Os intérpretes são trajados com uma rica gama de capas, sobretudos, casacos, macacões, aventais, lenços e boots. Procurou-se uma aproximação, e o resultado é gratificante, com o mundo particular dos mineradores de Dogville, em que a miserabilidade está sempre à espreita. Os tecidos em tons crus e sóbrios, como o cinza (e tonalidades em azul e lilás) são lavados, desbotados e manchados. Já Grace se diferencia por sua natureza, usando calça e blusa em cores mostarda e bordeaux, respectivamente. A trilha sonora original, composta por Fernanda Maia, evidencia com absoluta e inquestionável proficiência o entrosamento, a sintonia fina entre o som melódico e o desenho narrativo/dramatúrgico da peça. A trilha funciona com elevado padrão como instrumento de caráter colaborativo no entendimento facilitado da engrenagem do enredo.

Por que “Dogville” merece o olhar do público

“Dogville” é um espetáculo que naturalmente se insere em um quadro honorífico de montagens teatrais que merecem o seu atento e terno olhar, por toda a coragem e responsabilidade cênicas imbuídas em sua realização. Os temas abordados possuem conexão direta com a contemporaneidade e os aspectos deteriorados de sociedades em processo de falência ética, não importando a sua dimensão. Há, infelizmente, uma Dogville, e seu cão Moisés com latido não menos sofrido, no íntimo de quase todos nós. O mundo deveria aprender muito mais com os cães. Seus latidos são mais honestos e humanos.

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Foto: João Cota/TV Globo

O bem-vindo retorno de Aguinaldo Silva ao realismo fantástico, gênero que o consagrou 

Depois de uma trama com elementos realistas no horário nobre da Rede Globo (“Segundo Sol”, de João Emanuel Carneiro), Aguinaldo Silva, um dos mais respeitados e consagrados teledramaturgos do país, resolveu retomar um gênero que lhe é bastante caro, o realismo fantástico (visto nas obras literárias de Gabriel García Marquez e cinematográficas de Luis Buñuel), em sua nova história para a faixa das 21h, “O Sétimo Guardião”. Aguinaldo não se celebrizou somente com este gênero, associado a novelas como “Pedra sobre Pedra”, “Fera Ferida” e “A Indomada” (no ar no canal Viva), haja vista que grandes e indiscutíveis sucessos da televisão, que fugiam deste viés, tiveram a sua assinatura ou coassinatura, como “Império” (reconhecida com o Emmy Internacional) e “Vale Tudo” (também reprisado no Viva, este marco da TV foi coescrito por Gilberto Braga e Leonor Bassères), respectivamente.

Um casamento desfeito em cima da hora, a guerra declarada dos vilões, um gato misterioso e onipresente, e guardiões que mantêm um segredo sobre a maior riqueza da Humanidade 

O autor, nascido em Carpina, Pernambuco, reeditando a parceria exitosa com Rogério Gomes, diretor artístico (“Império”), transferiu os acontecimentos do seu enredo para a fictícia cidade, situada em meio a um vale, sem qualquer sinal de internet, de Serro Azul. Esta localidade é vizinha de outras regiões conhecidas pelo público de alguns folhetins de Aguinaldo, como Tubiacanga (“Fera Ferida”) e Greenville (“A Indomada”). Mas, em seu primeiro capítulo, a sinopse se inicia em São Paulo, na sofisticada e moderna mansão de Valentina Marsalla (Lilia Cabral, atriz que esteve presente em muitas telenovelas do escritor), nos momentos que antecedem o casamento de seu filho Gabriel (Bruno Gagliasso) e Laura (Yanna Lavigne), filha do poderoso empresário Olavo (Tony Ramos). O enlace, a despeito dos jovens se gostarem, faz parte de um vultoso acordo financeiro firmado entre os pais dos nubentes. Deste acordo depende a sobrevivência dos negócios de Valentina. Ansiosa, trajando um belo vestido vermelho, destratando a sua secretária Louise (Fernanda de Freitas), a prepotente mulher se comunica com o seu filho, que já está a caminho. No trânsito caótico da metrópole paulistana, Gabriel se depara com o enigmático gato León. Horas antes, acompanhamos Padre Ramiro (Ailton Graça) indo de bicicleta a Serro Azul. Em sua trilha, encontra o onipresente felino. Já na cidade, conhecemos um rapaz rebelde e folgazão, Júnior (José Loreto). Júnior e León, o gato, estranham-se. León, visto também pelo índio mendigo Feliciano (Leopoldo Pacheco; Feliciano se disfarça de morador de rua), pertence a Egídio, Antonio Calloni. O gato, na verdade, segundo Judith (Isabela Garcia), sua empregada, sumiu. Ficamos sabendo pelo próprio Egídio que León não lhe pertence, não é um gato, e que não pode desaparecer. O sumiço do animal significa que fora atrás de alguém para substituí-lo em uma importante função. O personagem de Calloni, um guardião-mor, percorre um salão, o “Salão dos Retratos”, onde estão as pinturas dos homens que o antecederam no cargo (são rostos de nomes notórios da televisão, como Carlos Manga, Gonzaga Blota, Herval Rossano, Roberto Talma e Roberto Farias, numa bonita homenagem). Aparece em cena o severo Prefeito de Serro Azul, Eurico, papel de Dan Stulbach (um dos guardiões, junto com Feliciano). O prefeito insinua que se o gato sumiu isso indica que Egídio está para morrer. Mais duas guardiãs se encontram: a esotérica Milu, Zezé Polessa, e a dona de uma pousada/cabaré Ondina, Ana Beatriz Nogueira. Um homem estranho, Robério (Heitor Martinez), observa a dupla e outros guardiões, como o delegado Joubert (Milhem Cortaz; a autoridade policial possui uma suspeita relação com peças íntimas femininas) e o médico José Aranha (Paulo Rocha), caminhando em direção a uma reunião. Após opiniões de lado a lado, Milu avisa aos seus companheiros de irmandade que, segundo a sua coruja empalhada Minerva, o sétimo guardião não será nenhum deles, e sim um forasteiro. Voltando à mansão dos Marsalla, Gabriel, depois de falar com a sua mãe, sempre em um tom tenso, dirige-se ao seu banheiro para tomar banho. Do box, avista León mais uma vez (impressionante a troca de olhares entre ambos). Em seguida, descobre-o no fundo de uma de suas fotos com Laura. Múltiplas imagens desconexas se misturam à sua frente em uma perturbadora visão, fazendo com que se decida a não se casar, e cumprir o seu destino. Mesmo diante do desespero e ira de sua mãe, vai embora. Ela ordena a Sampaio, Marcello Novaes (bom rever esta dupla, no ar em “Vale Tudo”), uma espécie de capanga, a trazê-lo de qualquer jeito, ainda que “morto”. Olavo chega, e interpela Sampaio sobre a ausência de Gabriel. Em uma das melhores cenas da noite, Lilia Cabral e Tony Ramos travam um embate memorável. Ali, naquele instante, ficou selada a guerra declarada do casal (num lance bem sacado da direção, após as ameaças coléricas de Olavo, recebidas com silêncio devastador de Valentina, Tony caminha em “slow motion” em direção à câmera, enquanto a imagem de Lilia fica desfocada). Ao saber de toda a verdade, Laura resolve viajar. Em Serro Azul, surgem outros personagens, como o comerciante Nicolau (Marcelo Serrado), um sujeito grosseirão e divertido que tenta a todo o custo ter mais um filho (para ser um jogador de futebol) com a sua esposa Afrodite (Carolina Dieckmann); Bebeto, Eduardo Speroni, único homem de seus quatro filhos, que adora dançar, para o desgosto de seu pai; e Marilda (Letícia Spiller, com um sotaque particular), a primeira-dama da cidade que guarda um segredo quanto à sua juventude (Marilda é irmã de Marlene/Valentina, que a despreza, e mãe de Júnior). Marina Ruy Barbosa é a professora Luz, moça com poderes sobrenaturais, por quem Júnior é apaixonado. Tem como melhor amiga Elisa (Giullia Buscacio). Bruna Linzmeyer interpreta Lourdes Maria, uma jovem ambiciosa que será a principal rival de Luz (Lourdes se interessa pelo personagem de José Loreto, que não lhe dá a mínima). Larissa Ayres encarna Diana, uma das filhas de Nicolau (mais uma decepção para esse pai que sempre quis um menino para ser um craque dos gramados). Adriana Lessa defende a dona de um salão de beleza, Clotilde, amiga de Marilda. Uma revelação desconcertante é feita: Egídio abandonou Marlene/Valentina anos atrás no altar, em Serro Azul, sendo talvez este o motivo que a tenha deixado tão amarga e infeliz (em cenas de flashback, a atriz Giulia Figueiredo personifica a noiva abandonada aos prantos). O que houve de fato é que Egídio recebeu um chamado do gato León (um enorme mistério o envolve) para ser o guardião-mor do segredo da fonte da gruta da cidade, tendo que abrir mão de toda a sua vida. Lucci Ferreira representa o radialista Patrício Nasser. Houve passagens de “gore movie”, subgênero dos filmes de terror, no primeiro capítulo: após uma conversa com o seu avô zeloso, Sóstenes, Marcos Caruso, a bela Luz vê a sua xícara tremer, e sair de seu interior uma mão assustadora. Caio Blat vive Geandro, o filho mais velho do prefeito e de Marilda, que está num processo de reabilitação de sua dependência das drogas. No casarão em que deve ficar o guardião-mor, Egídio abre uma porta, e chega ao esconderijo que vigiou por tanto tempo, a fonte em cujo fundo de suas águas se encontra a maior riqueza da Humanidade. Lá, encontra o gato León, e a impressão que temos é a de que as suas palavras para o felino foram derradeiras (vale ressaltar a excelente cena com Antonio Calloni, e a beleza deslumbrante do lugar com suas águas azuis hipnotizantes, com um trabalho primoroso de fotografia e cenografia). Enquanto isso, ocorre uma perseguição implacável de carros envolvendo Gabriel e Sampaio, até que o carro do primeiro, em uma sequência de takes cinematográficos, despenca de uma ribanceira. Luz, em seu quarto, passa a ter visões aterrorizantes, como a do rapaz ensanguentado escorado na guarda de sua cama lhe pedindo para que o salve. Sabendo da existência da maior riqueza do mundo em Serro Azul, e certo que Gabriel está morto, Sampaio revela sua imensa crueldade e ganância ao enterrar o jovem em uma cova rasa (uma cena digna dos mais sombrios filmes de horror). O que Sampaio não sabe é que Luz fora avisada por León sobre algo errado que está acontecendo, e que a moça se encaminha para o local, sem saber verdadeiramente o que houve (a aparição de Luz trajada de branco nos remeteu às lendárias e fantasmagóricas mulheres que andam sós pelas estradas, e assustam os motoristas). Sempre em dúvida se está sonhando ou acordada, Luz vê a mão de Gabriel emergir da terra, sob as vistas do gato. Ao vê-la se mexer, socorre o rapaz, que ao acordar, pergunta-lhe: – Você é um anjo? E finaliza: – Eu tô no céu.

O equilíbrio alcançado por Aguinaldo Silva com os múltiplos elementos de um folhetim, e a direção arrojada que traduz com excelência as intenções do autor  

Aguinaldo Silva, com a colaboração de Joana Jorge, Mauricio Gyboski e Zé Dassilva (a sinopse foi desenvolvida pelo autor com os seus alunos do curso Master Class) engendrou uma história com elevado potencial de entreter e prender a atenção dos telespectadores. O equilíbrio minuciosamente calculado em suas tramas e subtramas entre os elementos de fantasia e misticismo, doses de horror, suspense, romance, humor e ação confere à novela atual qualidades incontestes, confirmando a relevância deste produto teledramatúrgico. A retomada, por parte de Aguinaldo, de um dos gêneros que o consagrou (o realismo fantástico), e que estava em falta na TV, não só refresca a linguagem televisiva deste horário, como serve de estímulo àqueles que se cansaram de assistir a entrechos exclusivamente urbanos com tintas demasiado reais.  A direção artística de Rogério Gomes e geral de Allan Fiterman, e a direção de Luciana de Oliveira, Fabio Strazzer, Davi Lacerda, Guto Arruda Botelho, Pedro Brenelli e Caio Campos expuseram ampla excelência neste primeiro episódio, no qual se perceberam fluidez das cenas, tomadas ousadas que aproveitaram as locações internas (como as mansões de Valentina e Olavo), e externas, como o casarão dos guardiões, belas panorâmicas, takes áereos, cortes rápidos e sobreposição dinâmica e veloz das imagens. Não podemos deixar de mencionar as ótimas cenas das quais fez parte o gato León (são na verdade três “gatos”, um real da raça americana bombaim, que se assemelha a uma minipantera, outro “animatronic”, um gato mecanizado, e outro criado por computação gráfica).

Um elenco espetacular que marca o primeiro encontro real de Lilia Cabral e Tony Ramos em novelas 

O elenco de “O Sétimo Guardião” prima pela diversificação de talentos. Lilia Cabral e Tony Ramos, contracenando incrivelmente pela primeira vez, arrebataram-nos com a sua promissora dupla de vilões (por sinal, também é a primeira vez que Tony faz uma novela de Aguinaldo com um personagem). Bruno Gagliasso e Marina Ruy Barbosa formarão um par romântico que, ao que parece, irá movimentar as torcidas nas redes sociais. Os intérpretes que defendem os guardiões são artistas dignos de merecidos elogios, como Antonio Calloni, Ana Beatriz Nogueira, Zezé Polessa, Dan Stulbach, Leopoldo Pacheco, Milhem Cortaz e Paulo Rocha. Há também os ótimos atores que voltaram a trabalhar com o autor, como Letícia Spiller, Marcello Novaes, Marcelo Serrado, Carolina Dieckmann, Caio Blat, Ailton Graça, Heitor Martinez, Adriana Lessa e Lucci Ferreira. Atores de outras gerações deram a sua valiosa contribuição, como José Loreto, Bruna Linzmeyer, Fernanda de Freitas, Yanna Lavigne, Giullia Buscacio, Eduardo Speroni e Larissa Ayres. E para completar, as presenças ilustres de atores como Marcos Caruso e Isabela Garcia.

Elogiáveis abertura, direção de fotografia, figurinos, produção de arte e trilha sonora com Fleetwood Mac 

A bonita e vertiginosa abertura coube a Alexandre Romano, Christiano Calvet, Daniel Tumati e Caramurú Baumgartner. Com efeitos de computação gráfica e animação, calcada em imagens caleidoscópicas, com o colorido que lhe é inerente, a abertura começa com o abrir estilizado dos olhos do gato/personagem. Em seguida, a câmera nervosa faz movimentos rápidos e acrobáticos pela cidade grande (São Paulo) e por Serro Azul. Lugares emblemáticos da região fictícia, como a gruta, a igreja e a pousada são retratados, sendo que em alguns deles objetos característicos são aumentados de modo irreal. O ritmo da abertura segue com fidelidade aos acordes da maravilhosa música “The Chain”, do grupo anglo-americano Fleetwood Mac. A caprichada direção de fotografia ficou a cargo de Sergio Tortori. A figurinista Natalia Duran Stepanenko cumpriu com esmero e coerência a sua missão. Mirica Vianna realizou uma impecável produção de arte. Com a gerência musical de Marcel Klemm e as músicas originais de Rodolpho Rebuzzi e Rafael Langoni, a produção ganhou em qualidade (a trilha original desenhou com perfeição as cenas). Canções como “Melatonin” (Phoria), “These Boots Are Made For Walkin'” (Lewonda), “Truth” (Alexander Bert), e “Pra Swingar” (Som Nosso de Cada Dia) nos embalaram, e nos fizeram “sentir” com muito mais prazer a história.

A quem caberá o papel do oitavo guardião? 

“O Sétimo Guardião” estreou com a força necessária para nos transportar para um mundo mágico, livrando-nos um pouco da dura realidade que nos cerca, sem no entanto abrir mão das peças que montam o quebra-cabeças de um verdadeiro folhetim. Uma trama instigante e bem urdida, personagens atraentes interpretados por um elenco de primeira, e uma direção competentíssima que sabe traduzir em fascinantes imagens a riqueza de uma boa ficção nos garantem a diversão de se assistir à nova obra de Aguinaldo Silva. Enquanto Léon sai em busca do “Sétimo Guardião”, nós, o público, já somos o oitavo. Afinal, sabemos guardar na memória o segredo de uma ótima novela.

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Foto: Ramón Vasconcelos/TV Globo

O caso que aterrou o país, sua adaptação literária, e o retorno de Maria Camargo à dramaturgia da Rede Globo

A nova série da Rede Globo, disponível na plataforma de streaming Globoplay, estreou na última sexta-feira, marcando a volta da autora Maria Camargo, após “Dois Irmãos”, em 2017, à dramaturgia da emissora. Com “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum, ficou-nos bastante evidente a destreza com que Maria logra adaptar obras literárias para o segmento audiovisual. Desta vez, a escritora, ao lado de Bianca Ramoneda, Fernando Rebello e Pedro de Barros, valeu-se de um dos casos mais assombrosos da história da medicina brasileira, narrado no livro “A Clínica: A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih”, de Vicente Vilardaga, para contar aos espectadores, com os ingredientes de livre inspiração cabíveis, os fatos que culminaram na execração pública e condenação criminal de um dos profissionais da área de reprodução assistida mais respeitados no país. A partir de 2009, a imprensa iniciou um processo de revelação dos crimes seriados cometidos pelo médico paulista por meio da denúncia de dezenas de pacientes que deixaram para trás o medo e a vergonha, e resolveram trazer à baila as violências que sofreram. Roger Abdelmassih foi condenado a 278 anos de prisão por 52 estupros e 4 tentativas de estupro contra 52 mulheres.

A história de um casal que quer apenas ter um filho, cuja mulher vê o seu mundo desmoronar de uma hora para a outra 

No primeiro episódio “Stela”, protagonizado por Adriana Esteves, testemunhamos o angustiante périplo da professora e de seu marido, o piloto Homero (Leonardo Netto), no ano de 1994, ao consultório do simpático, educado e sedutor Dr. Roger Sadala (Antonio Calloni) que, muito habilmente, e se utilizando de frases de cunho religioso, como “Eu só sou um instrumento Dele (Deus)”, convence-os e lhes dá a esperança de ter um filho ou mais, depois de tantas tentativas frustradas, ou seja, promete-lhes o que realmente querem ouvir. Como recurso dramatúrgico, Maria dividiu a narrativa em dois tempos, o antes e o depois de o médico ser denunciado por suas práticas delituosas. Em 2007, vimos Dr. Sadala, ou Dr. Vida (como ficara conhecido por suas proezas médicas), discursando em uma festa comemorativa, a “Festa da Fertilidade”, pelos 30 anos de sucesso da reprodução assistida no mundo. Lá estava a sua família, como a esposa adoentada e melancólica Glória (Mariana Lima), sua mãe que o bajula sempre que possível Olímpia (Juliana Carneiro da Cunha, como atriz convidada), e seus filhos Clarice (Silvia Lourenço), Henrique (Gabriel Muglia), também médico, Tamires (Bianca Müller) e Leila (Sabrina Greve). Assim como conhecemos a jornalista Mira, Elisa Volpatto, dedicada ao desmascaramento do médico já alvo de denúncias, e Pedro Henrique (Pedro Nercessian), responsável ferrenho pela manutenção da boa imagem de Roger. Somos informados sobre as desconfianças de Glória quanto à fidelidade de seu marido (nada que um bonito anel de presente não resolva), enquanto Stela sonha com a sua tão aguardada gravidez. Nos exames em sua paciente, percebemos o quanto o médico é carinhoso e solícito. Um médico que ao se despedir não dispensa um beijo no rosto. As cenas em torno da reprodução dos óvulos de Stela são cercadas de imensa expectativa. Na confortável casa de Roger Sadala são vistos muitos objetos religiosos. A religiosidade exacerbada está clara na personalidade do médico, que não economiza a quantidade de vezes em que emite a palavra “fé”. Num jantar em família dos Sadala, a autoridade do patriarca é nítida, e sua agressividade ao ser contestado, mesmo que seja com um gracejo, também. Retornando à festa comemorativa, notamos as trocas de olhares insinuantes entre Roger e uma de suas pacientes, a linda advogada Carolina (Paolla Oliveira). Mira fica atenta a todos os passos do médico, da mesma forma observado pela secretária Daiane (Jéssica Ellen), a mando de Glória. Uma pessoa não esperada se aproxima da festa. Esta pessoa é Stela, uma mulher desnorteada, que ao se ver diante de seu algoz desfalece. De volta ao ano de 1994, Stela, já no hospital, é sedada para que sejam realizados os procedimentos clínicos da fertilização. No quarto vazio e desolador, completamente inerte, a professora que apenas queria realizar o sonho de ser mãe é vilipendiada pelas mãos grossas do médico a quem entregara a sua confiança. Numa cena dirigida com extremo cuidado e prudência, mas nem por isso menos impactante, Stela é estuprada pelo Dr. Roger Sadala. Não só o seu sonho de ser mãe acabou. Tudo acabou. Segundo ela mesma diz em depoimento gravado, estratégia adotada pela direção logo nos primeiros e últimos minutos do episódio: “Perdi tudo”.

Amora Mautner lidera a direção sofisticada e elegante, apesar da aridez e peso dramático do texto 

A direção artística de Amora Mautner (com direção da própria com Joana Jabace e Guto Botelho, e geral de Joana) se coloca em um patamar de excelência, primor e bom acabamento indiscutível. A câmera explora takes que possam sair do lugar comum, com tomadas vistas de cima e de baixo, focos em objetos, e registros espertos de movimentações de personagens. Houve grande domínio no que se refere às passagens alternadas de tempo, obedecendo a não linearidade imposta pelo texto. A direção, a despeito de um assunto tão espinhoso, conseguiu imprimir elegância e sofisticação às cenas. Uma das sacadas da série que merece a nossa observação acurada são os depoimentos gravados em vídeo das vítimas, que ofertam à produção ares de documentário (Roger Sadala também fala para a câmera, mas em outro contexto).

Num elenco com Antonio Calloni, Adriana Esteves e Mariana Lima, todos se destacam 

O elenco está afiadíssimo, plenamente investido na atmosfera sufocante e tensa desta trama que carrega em si mesma um apelo dramático nato. Antonio Calloni, um ator com reconhecidas qualidades, desponta mais uma vez com este papel difícil para qualquer intérprete. Antonio compõe Roger com fineza, carisma e força, não deixando de lado uma faceta ameaçadora intrínseca ao seu caráter criminoso. Com toda a certeza, este deverá ser um dos melhores trabalhos deste artista tão admirado pelo seu talento e versatilidade. Adriana Esteves, uma atriz lembrada por suas notórias vilãs, sendo também ótima em comédias, mostra-nos com imensurável verdade a fragilidade e a insegurança de uma mulher que não pode ter filhos, a sua incontida vontade de realizar o seu sonho, e depois nos comove com a sua dor irreparável após tanta violência contra a sua dignidade. Mariana Lima, que vem de uma excelente performance na supersérie “Os Dias Eram Assim”, revela-nos um certo estoicismo, uma acomodação diante dos reveses sofridos, como a doença que a abate e o casamento infeliz com o seu adúltero e tirano marido. A Glória de Mariana se mantém empertigada, mesmo que o seu rosto nos transmita profunda tristeza. Leonardo Netto cumpre com louvor o papel do marido resignado, mas disposto a oferecer à sua esposa o desejo que ela mais cultiva. A sua desesperança depois de tantos infortúnios, como dívidas e interrupções de gravidez de Stela, é sugerida pelo seu olhar perdido e incrédulo. O capítulo, contou, enfim, com estrelas como Vera Fischer, Juliana Carneiro da Cunha e Paolla Oliveira, atrizes conceituadas do cinema, como Denise Weinberg e Sabrina Greve, e outros talentos de gerações diferentes, como Noemi Marinho, Elisa Volpatto, Pedro Nercessian, Jéssica Ellen, Silvia Lourenço, Bianca Müller e Gabriel Muglia.

Direção de fotografia com texturas cinematográficas, direção e produção de arte, além dos cenários, reconhecidamente competentes, figurinos em consonância com os personagens, edição eficiente e abertura que valoriza a forma feminina como vítima 

A direção de fotografia de Marcello Trotta nos remete a uma textura cinematográfica com tons levemente esverdeados que se aproximam de um cenário hospitalar. Mesmo fora deste universo, Marcello procurou filtros mais sóbrios, sem exageros, o que, certamente, conferiu uma crueza necessária à obra, além de sombras e luzes artificiais da cena. O resultado é coerente, realista e fiel à abordagem da produção. Os competentes trabalhos de direção de arte, cenografia e produção de arte couberam, respectivamente, a Valdy Lopes, Renata Rugai e Avelino Los Reis, e Camila Galhardo. Do mesmo modo que o figurinista Cassio Brasil vestiu com absoluta propriedade os personagens, independente de suas condições sociais. A edição de Vicente Kubrusly, Leo Domingues e Pablo Ribeiro é a consequência de uma parceria eficiente que soube lidar, usando-se uma dinâmica exigível, com uma narrativa segmentada em dois períodos, de maneira que o público não se confundisse com o desenrolar do entrecho. Marcel Klemm (gerência musical) e Eduardo Queiroz (música original) pontuaram com vultoso acerto os desenhos melódicos das cenas, acatando os climas das situações dramáticas. A abertura de Alexandre Romano e Valericka Rizzo nos introduz, com o requinte e a plasticidade de suas imagens em velocidade lenta, a um mundo feminino, através das formas, posições e situações angustiantes e solitárias materializadas em seus corpos, desrespeitados e usurpados pela violência física e moral irreparáveis perpetradas por um homem insuspeito, ao som da triste e bonita canção natalina “Silent Night”, na voz inacreditável de Loro Bardot (a música, traduzida para o português como “Noite Feliz”, foi composta por Franz Gruber e Joseph Mohr; provavelmente esta canção foi escolhida pelo contraponto pureza X violência).

A relevância de “Assédio” ser exibida nos momentos sombrios em que vivemos 

“Assédio”, em seu primeiro episódio, provou-nos e nos promete ser mais um produto dramatúrgico de irrestrita qualidade e apuro, seja em termos narrativos, seja na perspicaz direção, ou na escalação perfeita de seu elenco, que ainda trará nomes como Felipe Camargo, João Miguel, Hermila Guedes, Susana Ribeiro e Monica Iozzi. “Assédio” é uma história que tem a obrigação de ser contada e esmiuçada, para os que já a conhecem e os que não. A sua coincidente apresentação em uma época delicada e assustadora em que se incita o ódio contra as minorias, inclusive as mulheres, que mais uma vez se uniram nas redes sociais como sinal vital de defesa, é mais do que apropriada e urgente. Esta série não deveria se restringir tão somente a um canal de streaming, e sim veiculada abertamente para toda uma nação, a fim de que possamos esclarecer pelo menos algumas mentes obscurecidas por supostas verdades morais. Basta de assédio. Basta de assédio de todos os tipos. Que o único assédio que sobreviva seja aquele baseado única e exclusivamente no amor. Mas no mundo distópico em que vivemos isso não passa de uma quimera.

 

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O cantor, apresentador e repórter João Gordo na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, em sua temporada Verão 2016.
João, que nasceu em São Paulo, tornou-se conhecido em todo o país como vocalista da banda de punk Ratos de Porão, na qual entrou em 1983 (seu primeiro show foi na PUC paulista; o grupo Ratos de Porão é uma referência neste gênero musical, sendo prestigiado internacionalmente).
Em 1996, inicia uma longeva carreira de apresentador na MTV Brasil, tendo comandado um sem número de programas: “MTV No Ar” (somente como repórter), “Suor MTV”, “Garganta e Torcicolo”, “Gordo Pop Show”, “Gordo On Ice”, “Gordo a Go-Go” (durou cinco anos), “Piores Clipes do Mundo”, “Gordo à Bolonhesa”, “Gordo Freak Show”, “Gordo Visita” (esteve nesta produção por três anos), “Gordo Viaja”, “Caveirão do Gordo” e “Fundão MTV”.
No ano de 2008, torna-se um dos jurados do programa do SBT “Astros”, uma atração inspirada no antigo “Show de Calouros”, da mesma emissora.
Já em 2009, retorna ao canal onde começou, sendo convocado para a apresentação de dois programas: “Gordo Chic Show” e “Gordoshop”.
Entre 2010 e 2012, foi repórter do extinto programa apresentado por Marcos Mion, “Legendários”, exibido na RecordTV.
Na mesma RecordTV, exerce novamente a função de jurado, desta vez no “talent show” “Ídolos Kids”.
Seu último programa como apresentador, “Eletrogordo”, foi ao ar há dois anos no Canal Brasil.
Nos cinemas, dublou as vozes dos personagens Buzz no filme “Deu Zebra” (“Racing Stripes”, no original), de Frederik du Chau, e Fletch, do longa britânico “Matadores de Vampiras Lésbicas” (“Lesbian Vampire Killers”, no original), de Phil Claydon.
João Gordo segue com a sua carreira musical com a banda Ratos de Porão.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

 

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Foto: Elvis Moreira

A ousadia por trás do sonho realizado dos produtores e diretores artísticos Klebber Toledo e Rick Garcia

Se há uma palavra que possa traduzir a realização da superprodução musical “Isaura Garcia, O Musical”, a mais justa e adequada é ousadia. Uma ousadia evidente tanto por parte de seu idealizador, Rick Garcia (neto da artista homenageada), quanto de seu coprodutor e codiretor artístico Klebber Toledo (junto com Rick). Em 2009, Klebber e Rick participaram de outro importante projeto teatral sobre a trajetória de uma das mais importantes cantoras brasileiras, estrela da Era do Rádio, a paulistana do Brás Isaura Garcia, apelidada, devido ao seu jeito genuinamente autêntico e único, de a “Personalíssima”. Nesta encenação, chamada “Isaurinha – Samba, Jazz & Bossa Nova”, havia os mesmos profissionais de renome que hoje estão na montagem atual, como Rosamaria Murtinho e Sylvio Lemgruber, responsável à época pelas direção e coreografia (a atriz Flavia Magnani também atuou na primeira versão, defendendo Amélia Garcia, a mãe da intérprete, revivendo-a agora). Se naquele momento já se via uma produção relevante, que mesclava teatro, dança, show e cinema (com 16 artistas, entre atores e bailarinos), o que se testemunha por ora, com o mesmo texto de Júlio Fischer, com a direção cênica da experiente Jacqueline Laurence, é um espetáculo de grandes dimensões e qualidades, que fazem jus à representatividade artística de Isaurinha Garcia. Imagina-se que este deva ter sido um sonho antigo de Rick, Klebber e Márcia Martins, que exerce a mesma função de diretora de produção. Com “Isaura Garcia, O Musical”, pode-se dizer que a máxima “O Brasil não tem memória” não se aplica às montagens brasileiras musicais, que, não é de agora, têm se dedicado a homenagear insignes nomes do cancioneiro popular de nosso país. De “Estrela Dalva”, com Marília Pêra (há 31 anos), a “Elza” (sobre Elza Soares), “Dona Ivone Lara – O Musical” e “Lady Crooner” (a respeito de Ângela Maria) no presente, contradiz-se cenicamente esta assertiva (decerto que há uma lacuna, por parte de vários setores, na lembrança de outros nomes que deixaram seu legado nas Artes).

O texto de Júlio Fischer, dividido em três tempos cronológicos, prima pela fidelização aos fatos da vida da cantora 

O espetáculo escrito por Júlio Fischer se estruturou em uma narrativa apropriadamente dividida em três planos cronológicos, que marcam a juventude, a maturidade e seus derradeiros anos de vida, intercalados por belos números musicais (em algumas ocasiões, de forma demasiado interessante, esses planos imiscuem-se). Pretendeu-se com bastante eficácia desenhar o arco existencial da cantora sem se prender obrigatoriamente à ordem natural do tempo, tanto é que a cena de abertura nos revela a intérprete em seu esplendor (Kiara Sasso), seguida, logo depois, pela passagem em que Isaura (Rosamaria Murtinho), já idosa e insegura, dentro do camarim de uma boate, resiste a se apresentar, temendo uma performance aquém dos seus anos de glória. Por sinal, um dos inegáveis méritos da montagem é a sua isenção quanto à história deste símbolo da música nacional, não se furtando a desnudar seu comportamento por vezes intempestivo e impróprio para os costumes da sociedade conservadora vigente. Sua figura é retratada com fidelidade, sem concessões ou condescendências, mostrando seu linguajar não convencional, seu incontido desejo pelos homens, suas fraquezas sentimentais, e até mesmo sua dificuldade em se expressar corretamente em seu idioma. Não se escondeu que a grande estrela não sabia ler as partituras de suas emblemáticas músicas, tampouco seu alcoolismo e os abusos físicos que sofria de um de seus maridos. Essas características realçam o compromisso de seu dramaturgo em nos exibir nos palcos a Isaurinha Garcia como a conheceram, e não em um tom absolutamente laudatório.

O retrato de uma juventude difícil, relacionamentos afetivos tempestuosos, sucesso avassalador, sem que se perca a graça e o humor da peça 

A plateia acompanha a jovem sendo oprimida pelo seu pai Manoel Garcia (Renan Duran), que não aceitava a sua decisão de seguir a carreira artística (sua implicância preconceituosa, inclusive, referia-se aos sambas que entoava). A moça amparada por sua mãe Amélia (Flavia Magnani) temia os socos brutos do pai em sua boca que a impediam de cantar. Sempre acompanhada de sua fiel amiga Cecília (Anna Paula Borges), com seu modo espevitado, frequentava os programas de calouros. Sua voz potente, com carregado sotaque paulistano, impressionava a todos por onde quer que passasse. Sua voz particular também é aproveitada nos reclames comerciais das rádios, até conhecer Teófilo (Leonardo Brício), o diretor de criação de uma delas. Seus gênios opostos, personalidades conflitantes, mentiras e cobranças levaram ao fim do relacionamento (nunca houve um casamento oficial). A peça nos leva junto com Isaurinha pelas suas andanças pelas rádios e audições públicas (dentre elas, com o famoso cantor Vassourinha, personificado por Samuel Melo), até o momento de suas ascensão e estrelato. No auge da fama, numa viagem a Recife, ainda envolvida com Teófilo, encanta-se pelo charme de um pianista iniciante, Walter Wanderley  (Iano Salomão). Vivida nesta fase por Soraya Ravenle, a cantora sofre as experiências pessoais e profissionais mais penosas de sua vida. Walter, um dos pioneiros da Bossa Nova, questionava a maneira com que Isaura cantava, com seus “vibratos operísticos”. A paixão movida a agressões, ofensas e separações levou ao término definitivo do romance que deixou feridas abertas em ambos. A despeito de sua jornada glamourosa pontuada por dores e sofrimentos, Júlio Fischer aposta com constância no leve humor, na graça despretensiosa (este elemento do musical se deve em muito à personalidade de Isaura). O autor, com imensa habilidade, consegue, ao fim, formatar um espetáculo vibrante, alegre e emocionante, sendo as interpretações e números musicais, sejam eles exuberantes ou mais intimistas, indiscutíveis colaboradores para o efeito catártico do espetáculo.

A direção cênica de Jacqueline Laurence confere beleza e momentos únicos ao espetáculo

A direção cênica sempre inteligente de uma profissional como Jacqueline Laurence, como é de se esperar, soma diversos predicados à encenação teatral. Reverente ao escopo do texto de Júlio, a diretora, com maestria e percepção, distribuiu, entre o conjunto narrativo, os quadros cotidianos, que englobam acontecimentos do dia a dia, e da carreira da cantora, com as devidas interlocuções dos personagens. A inserção estratégica dos instantes musicais, que agregam ou não coreografias de bailarinos, imprimem à montagem um andamento lógico e atraente para o público. Jacqueline extraiu de seu numeroso elenco e ensemble atuações que se aproximassem verdadeiramente do período reproduzido, seja na postura formal e exagerada dos apresentadores dos programas de calouros e de rádio, na euforia azafamada dos fãs, na teatralização das mensagens dos cronistas, e claro, no modo como fez com que suas atrizes protagonistas, responsáveis pela incorporação de Isaura, comovessem o público com toda a carga de emoção, nivelada ao máximo, ao interpretarem as canções que tanto causaram a alegria dos ouvintes. Seu admirável olhar para a construção da obra lhe permitiu criar momentos de retumbante beleza, como ocorre quando Soraya Ravenle interpreta a sua primeira canção, vista por nós sob um deslumbrante e longo vestido, sobre um tablado escondido que a faz ficar suspensa, como se estivesse fantasiosamente levitando. E com a mágica, tocante e inesquecível passagem em que Rosamaria Murtinho se senta, bem próxima dos espectadores, na pequena escada que leva ao palco, e canta com sublimidade, coberta por pétalas de rosas jogadas.

Um elenco que mostra imenso prazer em estar em cena, e contar a história de Isaura Garcia

A direção artística de Klebber Toledo e Rick Garcia corrobora a competência e dedicação extremada desses dois homens de teatro, empreendedores, destemidos, audazes, sensíveis e parceiros no objetivo de enriquecer não só os nossos palcos, mas a nossa música, ao nos trazer de volta a nossa Isaura Garcia. O elenco liderado por Rosamaria Murtinho, Soraya Ravenle e Kiara Sasso se afina brilhantemente com a montagem musical. Rosamaria, uma de nossas maiores atrizes do teatro e da TV, representando Isaura no ocaso de suas vida e carreira, impressiona a todos não só pelo seu pujante vigor e presença cênica, mas pela intensidade emocional emprestada à personagem. Sua Isaura, em fase, condói-nos dizer, “esquecida”, dilacera os corações mais frágeis. Sua lucidez ao olhar para o passado é um rescaldo da mulher magnífica que sempre foi. Arrebata-nos outrossim a limpidez intocada da voz da  intérprete, garantindo à plateia, nos instantes em que canta, minutos do mais absoluto enlevo. Soraya Ravenle, cantora e atriz das mais respeitadas, requisitadíssima no mercado dos musicais, com sua triunfante primeira aparição em cena já no meio da peça, causa-nos assombro pelo seu total e irrestrito domínio da técnica vocal. Aliando com sabedoria humor e drama, Soraya arremata com brilho e garbo a personalidade complexa da estrela em pauta. Como Isaura, corresponde com felicidade ampla ao comportamento forte e impulsivo da cantora numa etapa realçada pela fama e pelas decepções amorosas. Kiara Sasso, outra excelsa atriz de musicais, colecionadora de um sem número de participações em superproduções do gênero, inclusive adaptações de sucessos da Broadway, encanta irremediavelmente o público de “Isaura Garcia, O Musical”. Além de sua voz estudada, lapidada, com irretocáveis afinação e extensão, sua composição para a jovem Isaurinha, impetuosa, divertida, determinada, é cheia de graça e doçura, mas que traz em si, ao mesmo tempo, uma força intrínseca irrefreável que salta aos olhos mais atentos, uma das peculiaridades marcantes da cantora. Enfim, três grandes estrelas dando vida a outra grande estrela. Todo o elenco está em consonância com o espírito proposto pela dramaturgia de Júlio. Há um prazer visível no conjunto de intérpretes (incluindo o corpo de bailarinos) em estar ali contribuindo com a sua parte ao contar a história de Isaurinha. Leonardo Brício, como Teófilo, passeia com desenvoltura pelas fases de seu papel, ostensivas de seu indomável ciúme de sua companheira, e de sua resignação pela postura omissiva adotada na relação. Iano Salomão, ao encarnar Walter Wanderley, imprime a rudeza e severidade do pianista, não se eximindo em nos transmitir o seu afeto um tanto torto ofertado à cantora (seu sotaque bem construído, em nenhum instante, escapa-lhe). Anna Paula Borges, como Cecília, reflete a fidelidade inabalável da amiga confidente da “Personalíssima”. Samuel Melo esbanja a alegria contagiante do cantor Vassourinha ao acompanhar a estrela em suas apresentações. Flavia Magnani reveste com segurança e sensibilidade a zelosa mãe Amélia Garcia. E Renan Duran, ao representar seu pai, Manuel Garcia, compõe com clareza o homem conservador, agressivo e preconceituoso, que tanto sofrimento causou à filha. Os demais atores cumprem com galhardia às funções que lhe são designadas, merecendo os nossos elogios: Lázaro Menezes (Reinaldo), Alessandro Faleiro (Otávio Gabus Mendes, Gustavo Diretor RCA e Roberto Amaral), Bibi Cavalcante (Emilinha Borba, Repórter e Cronista), Flávio Rocha (Blota Jr., Cícero Nunes e Apresentador), Juliana Rockstroh (Elza Laranjeira, Jornalista e Vizinha), Paulo Giardini (Sampaio, Aldo Cabral e Antônio Maria), Pedro Barroso (Messias Evangelino, Palhaço e Cauby Peixoto), Sidney Navarro (Jurandy e Fã) e Tay Ravelli (Dona Matilde, Neide Fraga e Cronista).

Figurinos encantadores, coreografias cativantes, iluminação valorosa, direção musical irretocável e cenário tecnológico contribuem para a excelência do musical  

Os figurinos de Fause Haten comprovam o sucesso deste profissional reconhecido no mundo da moda. Fause criou vestidos deslumbrantes, com muitos brilhos, para Isaura Garcia em suas apresentações em público (Rosamaria, Soraya e Kiara são brindadas com peças belíssimas). Da mesma forma, o figurinista/estilista se empenhou em reproduzir com bastante lealdade o vestuário que se usava no período. Os homens com seus ternos sóbrios, e as mulheres com seus vestidos com saias rodadas. O resultado de sua rica pesquisa colabora não só para o embelezamento da montagem, mas para sua credibilidade histórica. As coreografias de Sylvio Lemgruber correspondem com inteligência às cadências das músicas entoadas na encenação. Todos os ritmos musicais (sambas, canções românticas etc) exibidos são saborosamente traduzidos pelos bailarinos e atores com passos precisos e coerentes, num panorama visual bonito, aprazível e alegre de se ver (há de se notar que Sylvio, em algumas coreografias, utilizou-se dos movimentos do balé clássico). A preparação vocal interpretativa, a cargo de Rose Gonçalves, revelou-se eminentemente eficaz, em especial nos acentos/sotaques paulistanos e nordestino, imprescindíveis para a legítima identificação das figuras da narrativa. Mario Junior se responsabilizou pela fulgurante iluminação da obra cênica. Planos abertos que mostrassem a plenitude dos ambientes, fossem caseiros ou dos programas de rádio e de calouros foram utilizados. E focos que nos envolvessem com o intimismo das situações também foram sabiamente aproveitados. Uma luz em total sintonia com o espírito musical da peça. A direção e produção musical e a preparação vocal de Bibi Cavalcante, um dos pontos altos da encenação, indicaram-nos a sua absoluta capacidade em aproveitar ao máximo de seus atores/cantores a excelência de suas vozes, com os seus respectivos registros, assumindo o compromisso de obedecer com fidedignidade aos acordes melódicos característicos das canções de Isaura Garcia. Bibi exerceu o seu ofício com primor e apuro. Os arranjos originais são da própria Bibi, Marcos Romera, Leandro Nonato, Paulo Malheiros e Tércio Guimarães. O espetáculo possui uma impecável orquestra ao vivo de 18 músicos regida pela maestrina e pianista Claudia Elizeu (também assistente de direção musical). A cenografia do espetáculo contou com a contribuição ímpar, com resultados, além de eficientes, funcionais e bonitos, de projeções em 3D no fundo do palco simulando com todos os seus aparatos os universos onde se passam os episódios da trajetória da cantora. A empresa responsável pelos belos efeitos foi a Illusion Studio, formada por Claudio Inácio, Nicolas Moreira e Jefferson Raposo. A assessoria de cenografia ficou sob o encargo de Gláucia Berbari.

Uma homenagem justa a uma cantora à frente de seu tempo

“Isaura Garcia, O Musical” presta um relevante serviço às Artes por resgatar a história de uma cantora singular, com voz diferenciada, uma transgressora para os padrões de sua época. Uma mulher que sofreu, mas que soube brilhar em meio à dor. A autora de sucessos como “Sorriso de Paulinho”, “Aperto de Mão”, “De Conversa Em Conversa” e “Mensagem” não passou em vão por esta vida. Deixou a sua marca, o seu legado, a sua personalidade forte. Por este, e tantos outros motivos, “Isaura Garcia, O Musical” é um espetáculo “Personalíssimo”.