Fernando
Foto: Divulgação do filme

A importância do documentário no Brasil, o empenho dos diretores e roteiristas Igor Angelkorte, Paula Vilela e Julia Ariani em levar “Fernando” às telas, sua passagem por festivais e os prêmios ganhos  

Fazer cinema no Brasil sempre foi difícil. A despeito dessa contingência adversa, produtores, diretores e atores nunca se deram por vencidos, e a indústria audiovisual, mesmo que interrompida por períodos pontuais, ressurge com a força que lhe é peculiar. A “Retomada”, ocorrida na metade da década de 90 com “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, de Carla Camuratti, não me deixa mentir. Aventurar-se na realização de um gênero como o documentário é uma missão ainda mais inglória. A ficção, por carregar em si mesma um apelo natural de entretenimento, associado em não raros casos ao viés comercial, não se depara com obstáculos visíveis que possam atrapalhar o seu encontro com o público. O documentário, por sua natureza autoral, possuidor de um nicho de espectadores específicos, enfrenta reveses próprios que devem ser enfrentados com destemor pelos profissionais apreciadores deste valoroso tipo de filme. O Brasil, em sua rica filmografia, com todos os seus movimentos estéticos, invariavelmente ocupou um lugar de destaque no segmento dos documentários, sendo este representado por nomes como Silvio Tendler, Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Cada vez mais, estão sendo produzidos em nosso país filmes desta vertente com abordagens diversificadas e relevantes. Muitos documentaristas enveredaram pelos caminhos políticos, como Silvio Tendler (“Os Anos Jk” – Uma Trajetória Política” e “Jango”; atualmente está em cartaz com “Dedo na Ferida”), outros, como Eduardo Coutinho, optaram por temas religiosos (“Santo Forte”) e sociais e comportamentais (“Edifício Master”), e há aqueles como João Moreira Salles, que se debruçaram em obras bastante pessoais (“Santiago” e “Nelson Freire”). Igor Angelkorte, ator, dramaturgo e diretor teatral (Igor havia dirigido uma websérie, “Ferrugem”), Paula Vilela, atriz, produtora e idealizadora, e Julia Ariani não se intimidaram em colocar em prática uma ideia potencialmente não comercial, íntima e pessoal para os três, mas que tivesse elementos suficientes para surpreender e comover as plateias de cinema, não somente as que estimam o gênero documentário. Esta mesma ideia consistia no registro filmográfico do dia a dia de uma pessoa que lhes é demasiado cara e fundamental em suas carreiras, o ator e professor de teatro Fernando Bohrer. Igor, Paula e Julia transpuseram outra barreira ao levar adiante este projeto que durou mais de um ano para ficar pronto. Dirigir e roteirizar em conjunto. A afinidade e sintonia de pensamentos e o mesmo olhar cinematográfico deste brilhante trio resultaram em um documentário com inquestionável qualidade, “Fernando”, lançado em junho de 2017. O filme foi exibido no Festival de Málaga (Cine en Español Sessão Oficial Documentários 2018), na 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes (Seleção Oficial Mostra Olhos Livres 2018), e no Olhar de Cinema Curitiba Int’l Film Festival (Prêmio do Público 2017 e Menção Honrosa Prêmio Olhares Brasil 2017).

Fotografia crua e naturalista, direção de arte e figurinos fiéis à realidade e montagem fluida

A ótima fotografia naturalista, real, crua, quase sem filtros, ficou sob o encargo de Pedro Faerstein. No entanto, este naturalismo por vezes é coerentemente quebrado por sombras e semi-luzes. Pedro soube aproveitar com precisão as possibilidades de luz proporcionadas pelos vários ambientes em que se passa a ação, inclusive as externas. A direção de arte e os figurinos de Liza Machado trouxeram a verdade cotidiana da vida de Fernando para bem próximo de nós. A montagem de Igor Angelkorte, Julia Ariani, Marina Figueiredo e Paula Vilela respeitou o tempo narrativo da obra sem grandes rupturas, ofertando-nos agradáveis linearidade e fluidez, não permitindo que perdêssemos uma única vez o interesse pela história. O elenco tem a participação de Rubens Barbot, Carolina Virgüez, o pianista Jacob Herzog, Igor Angelkorte, Chandelly Braz, Paula Vilela, Arnaldo Marques, Claudia Mele, Damiana Guimarães e Ligia Veiga.

O humanismo de “Fernando”, e por que se deve conhecer a vida do ator e professor de teatro Fernando Bohrer

“Fernando” é uma obra poética, pungente, bela e comovente, que faz um retrato sensível de um homem cuja vida é voltada para a arte da interpretação e a de ensinar, misturando com delicadeza ficção e realidade. O filme se distancia magistralmente dos documentários convencionais, nos quais se vê a conjunção de depoimentos e imagens de arquivo, conduzindo-nos com extrema habilidade e emoção, através de suas cenas inspiradas, com locações na cidade de Niterói, onde o friburguense Fernando mora, e no Rio de Janeiro, inclusive a Casa das Artes de Laranjeiras, instituição da qual é professor. Pode-se dizer que “Fernando” é um filme para se contemplar. Com influências da cinematografia francesa, com seus takes pausados, diálogos entremeados por longos silêncios, transformação do cotidiano em algo visualmente rico e significativo, esta obra fílmica possui, dentre os seus inúmeros méritos, o de ter, como seu personagem central, um indivíduo apaixonado, intenso, generoso, humano, bravo e encantadoramente sedutor. Acompanhamos a sua rotina como se fôssemos seus amigos ou seus alunos. Aprendemos com as suas aulas de teatro, solidarizamo-nos com ele em suas idas à médica (Carolina Virgüez, firme e convincente), sofremos com ele, torcemos, ficamos com os olhos marejados, sentimos arrepios emocionados. Sua relação com seu companheiro (Rubens Barbot, excelente) é arrebatadora, tocante, com uma cumplicidade sem igual. Um papo trivial entre eles na hora de preparar uma refeição, ou no momento de dormir, ganha uma dimensão humanizada. “Fernando” é em sua natureza um filme humanista. Humanista e otimista. Certas doses de melancolia presentes em sua narrativa não destituem o seu nato otimismo. Há em suas linhas e entrelinhas sinal de esperança. Com este documentário, passamos a acreditar um pouco mais no homem, e em suas qualidades e virtudes. Vimos o homem pianista, o professor que nos ensina a respirar, e a nos conscientizar com os nossos corpos no processo de construção do personagem. Testemunhamos o artista simples que almoça na praça, e faz anotações na intimidade. Deparamo-nos com a sua humildade ao receber orientações do diretor Igor Angelkorte quando encenou a peça “Elefante”. Embarcamos na sua profusão de criatividade ao explicar à representante de uma editora como gostaria que o seu livro fosse escrito. O homem que se reúne com os amigos, que não acredita na política, e sim, na vida. Nossos corações se apertam ao olharmos a sua prosaica volta para a casa, solitário, numa rua de Niterói, parando em uma banca de frutas, escolhendo bananas e uvas. Simples, mas forte em sua mensagem. O filme desmistifica o ofício de ator quando o associam ao glamour, à fama, ao prestígio, ao dinheiro e ao poder. Sua vida não tem glamour, pois é real. Fernando não sai em capa de revista. Nem está nas redes sociais. Sua vida não é acompanhada por milhões de seguidores. Isso não o faz menos artista. Fernando é um artista imenso. Fernando é uma aula de ser humano. Igor Angelkorte, Paula Vilela e Julia Ariani perceberam isso. E souberam com grande maestria dividir Fernando conosco. Todos, atores e não atores, devem obrigatoriamente assistir a esse documentário. Ao final da sessão, prestaremos mais atenção nos detalhes do cotidiano. Não reclamaremos de sua monotonia e repetição. Basta que nos lembremos da riqueza “simplória” da rotina de Fernando. Tive o privilégio de conhecer e conversar com este homem por duas vezes. Tive o privilégio de vê-lo em cena. Senti vontade de voltar no tempo, e ser um de seus alunos. Pude lhe dar um forte abraço. Todos deveriam lhe dar um forte abraço. Conhecer Fernando deveria ser uma regra.

31880696_164929814186848_3814506789408342016_o
Foto: Matheus José Maria

A ousadia de Maitê Proença e Amir Haddad em montarem um texto do século XV, e a tradução impecável de José Francisco Botelho indicada ao Prêmio Jabuti

O teatro é um espaço artístico democraticamente aberto para a concretização de muitas possibilidades. Possibilidades que transcendem até mesmo o conceito universal compreendido como prática teatral. Imaginemos um texto literário publicado por um inglês, Geoffrey Chaucer, na segunda metade do século XV (1475), no final da Idade Média, dividido em contos, os “Contos da Cantuária”, sendo que, em um deles, “A Mulher de Bath”, a personagem principal, Alice, é uma mulher à frente de seu tempo, libertária, viúva em cinco casamentos, à procura de um sexto marido, defensora de suas escolhas numa relação matrimonial, incluindo-se a satisfação plena e absoluta de sua sexualidade, enfrentando, por intermédio de suas inteligentes artimanhas, os mandos e desmandos de seus cônjuges, três deles poderosos e endinheirados, quando sequer se poderia aventar o surgimento de movimentos propriamente feministas, que só viriam a tomar forma no distante século XX. Este mesmo texto com vieses progressistas serviu de base à época para a sedimentação, solidificação e consolidação da literatura inglesa como a conhecemos, seja na língua do país de origem, na poesia, na ficção e na oratória. Até William Shakespeare se valeu desses escritos como referência para a criação de suas clássicas peças. A atriz e escritora Maitê Proença se interessou por um dos contos de Chaucer (justamente “A Mulher de Bath”), tornando-se a idealizadora deste aparentemente difícil projeto, e convidou para dirigi-la nos palcos ninguém menos do que um de nossos mais respeitados e eminentes diretores brasileiros, Amir Haddad, fundador do célebre grupo Tá na Rua. O primeiro passo seria o de se fazer uma tradução que aproximasse o legado do escritor e filósofo inglês o máximo possível de uma experiência teatral convincente e aprazível, com uma linguagem que conquistasse as plateias, sem ferir o cerne da literatura de seu autor. A José Francisco Botelho coube a desafiadora missão de traduzir a obra de Chaucer. Não se pode ignorar o fato de que os seus contos foram imaginados no período medieval, com modos de tratamento diferenciados e vocabulário rebuscado. José Francisco, indicado ao Prêmio Jabuti por este trabalho, transpôs com avolumada destreza e habilidade os originais para uma linha de comunicação cênica que pudesse ser absorvida com facilidade pelo público. Sua grande sacada foi a de ter se inspirado, para tal feito, no rico cancioneiro popular nacional, na saborosa musicalidade dos repentes nordestinos, na tradição da trova gaúcha, e na poesia oral do interior do país. Sua tradução dimensiona a leveza e o humor de maneira que assumam lugar de destaque na peça. Não se pode considerar a literatura de Geoffrey Chaucer como um produto dramatúrgico com todos os elementos que o caracterizam. Mas em sua essência percebemos uma legítima teatralidade, o que justifica a sua transposição para o campo cênico. O próprio Amir Haddad diz: “O apelo teatral de sua narrativa é evidente e poderoso e serve muito bem a ideia de um teatro que se quer mais, o teatro para saber o que é isso, o teatro”. Maitê, mais uma vez movida pela sua paixão em encenar um dos “Contos da Cantuária”, traz para si a tarefa hercúlea de adaptar a tradução de José Francisco para a ribalta. Seu empenho, sua devoção e sua alegria ao realizar este sonho profissional são visíveis não só em sua cuidadosa adaptação, mas em sua total entrega à personificação da mulher que intitula o espetáculo. Segue o que disse a atriz: “Nunca estive tão segura da qualidade do que ofereço ao público. Em conteúdo e diversão.”

Alice, a “Mulher de Bath”, impressiona pelas suas ideias progressistas em plena Idade Média

A história se passa em 1380 durante uma peregrinação rumo ao túmulo de São Thomas Becket, na região da Cantuária (Canterbury), e dentre os peregrinos se encontra Alice. Há entre eles uma competição de contos, que deverão abordar diversos tempos e lugares. O vencedor, ou seja, o melhor narrador, teria direito a uma noite de excessos na mais famosa taverna do local. Alice passa a narrar então as suas aventuras e desventuras por que passou durante os seus cinco casamentos, tendo saído viúva de todos eles, como fora dito antes. Trata-se de uma mulher com um discurso fervoroso, acalorado, sem pudor, no qual desvela corajosamente seus sentimentos, desejos, emoções e escolhas. Uma retórica forte em defesa de sua condição feminina. A mulher de Bath (uma cidade da Inglaterra) discorre sobre fatos íntimos com espantosa naturalidade. Muitas questões são levantadas por Alice, levando-se em conta seus cinco matrimônios. O amor, a paixão, o sentido de pecado, a liberdade sexual feminina, a religiosidade, o poder e a hierarquia no casamento, e o dinheiro como mola de interesse da relação são objetos de reflexão deste indivíduo com ideias inacreditavelmente avançadas para o seu tempo. Toda a sua eloquente fala vem acompanhada por um autêntico humor. Entretanto, a despeito de se notar em suas palavras uma conotação pró-feminismo, constatamos que esta mesma mulher não se furta de nos confidenciar seus erros, defeitos, e ardis de que se valeu para enganar os seus maridos, principalmente os mais velhos e abonados. Alice não é contra os homens, muito pelo contrário. Julga importante sua união com eles por meio da instituição do casamento. A prova desta posição se evidencia pelas suas vontades de se casar novamente (esta circunstância a conduz aos vários matizes de suas reflexões e observações). Em determinado momento da montagem, a intérprete pede permissão aos espectadores para encenar um outro conto (cuja inserção foi aprovada pelo seu diretor), fabular, ambientado no reino fantasioso e lendário do Rei Arthur. A lição deste conto, que envolve um rapaz acusado de estupro e sua busca infatigável pela descoberta dos mistérios que encobrem o real desejo das mulheres, a mando da Rainha, a fim de que a sua punição não lhe seja imputada – a pena de morte, interliga-se com os conceitos e preconceitos associados à beleza, à velhice e ao amor incondicional.

Amir Haddad impõe ao espetáculo a liberdade artística que o consagrou

A direção de Amir Haddad confere ao espetáculo uma saudável liberdade artística. Esta liberdade é perceptível em bastantes situações e opções cênicas, como por exemplo as oportunidades concedidas à atriz em se conectar francamente com o seu público, como se estivesse em meio a um diálogo ou conversação. Logo no início da peça, Maitê, num tom coloquial, deixa-nos informados sobre do que se trata a história que irá nos contar, fazendo uma comparação entre aquele tempo em que se saía das trevas para se encontrar a luz e os atuais. O resultado é uma intimidade conquistada genuinamente com os espectadores graças ao seu grande poder de sedução artística. Amir optou pelo espaço cênico amplamente aberto, imiscuindo elementos cenográficos e coxias. As marcações definidas, variadas, foram pensadas de modo a ocupar a maior extensão possível do perímetro do teatro. O encenador também procurou dinamizar o desenvolvimento narrativo com estratégicas entradas e saídas de cena da protagonista. Houve de sua parte uma atenção especial em desenhar toda a montagem com as intervenções e pontuações musicais de Alessandro Persan (também assistente de direção), presente durante todo o espetáculo, fazendo as vezes, quando necessário, de intérprete.

Maitê Proença, uma intérprete cada vez mais luminosa 

Maitê Proença, uma de nossas maiores estrelas da TV e do cinema, surgida no início da década de 80, com relevante trajetória no teatro também, possui, não há como negar, aquilo que os americanos costumam atribuir às suas atrizes com imensurável potencial de construir uma carreira de sucesso, somando a um só tempo beleza, talento e carisma, o “star quality”. Sua entrada discreta no palco, sem que a peça tivesse sequer começado, com as luzes do teatro ainda acesas e a plateia se acomodando, apenas com uma música sendo tocada por Alessandro Persan, posicionado no fundo esquerdo do palco, já causa um certo frisson nos espectadores. Ao introduzir sua conversa com o público, imediatamente nos damos conta de sua elevada capacidade de encantamento, uma avassaladora simpatia que se alia a uma irresistível naturalidade ao falar. Ou seja, Maitê consegue em poucos instantes o que já é um enorme ganho para a intérprete, dominar os que foram lhe assistir. No melhor dos sentidos. A artista pôde, com esta montagem, realizar um valioso exercício de atuação, pois muitos são os momentos em que tem que manifestar, de diferentes formas, as nuances de emoções de sua personagem, além dos que estão presentes na fábula, como a Rainha, o jovem e a idosa. Maitê, com uma postura empertigada e elegante invejável, movimenta-se com altivez por toda a ribalta, gesticula com graça, faz mesuras, deita-se, sempre com desenvoltura. Uma prova de sua elogiável expressividade corporal. Uma das características mais marcantes da performance de Maitê é a sua equilibrada frequência de humor. Sua comicidade é fina, concisa, no ponto certo. Nada do que diz nos soa ofensivo, independente do significado das palavras. Completando 40 anos de carreira, Maitê Proença não só continua belíssima, como o seu talento está cada vez mais lapidado.

Cenário baseado em símbolos da época, figurinos vivos e exuberantes, adereços delicados, iluminação objetiva, sem firulas estéticas, preparação corporal elogiável e trilha sonora coerente e fiel ao período

O cenário de Luiz Henrique Sá exerce a função de, com poucos, mais expressivos elementos, reportar-nos ao universo medieval em que decorrem os episódios do conto. Sua economicidade traduz uma escolha convicta por representar o período através de símbolos. Seus móveis de madeira possuem desenhos recortados (cadeiras, mesa com pés vazados, banqueta, uma espécie de confessionário com seu respectivo genuflexório com detalhes em azul-marinho – que terá outra missão, e um cortinado cor de areia ao fundo). O músico e ator Alessandro Persan conduz a sua trilha sonora tendo o seu instrumento de trabalho em cima de um suporte de madeira, em consonância com o que foi descrito. Há ainda como significativos complementos cálices e jarra prateados e livros com brochura antiga. Os figurinos são de Angèle Fróes, que se destacam pela vivacidade e exuberância de suas cores, e pelo respeito aos cortes usados neste tempo histórico. Maitê, na maior parte da obra, veste um bonito vestido em camadas com vermelhos distintos, no qual se veem bordados e transparências, calçando com harmonia sapatos de mesma tonalidade (assemelha-se a um escarpim), além de um cinto verde com um camafeu. A intérprete lança mão de um mantô bordeaux por vezes. Em outra ocasião, traja mais um vestido, seguindo a mesma linha de bordados e transparências, com texturas verde-água. E como arremate, numa cena imponente, apresenta-se com uma bela capa vermelha com capuz, realçada pela beleza da atriz. Alessandro Persan usa peças, camisa, calça e sapatos, pretas. Os delicados adereços são criação de Marcilio Barroco. A artista tem os seus cabelos presos por uma rede branca transparente ornada por pedras em formato de pérolas, assim como ostenta um marcante crucifixo sobre o colo do peito. Como a Rainha exibe a sua coroa cheia de brilhos ofuscantes. A iluminação de Vilmar Olos privilegia o plano aberto, com pequenas oscilações de intensidade, sempre se harmonizando com o andamento do entrecho cênico. Vilmar disponibiliza quatro refletores na reta do chão, numa geometria praticamente quadrangular, com seus feixes direcionados para a atriz no centro do tablado. Lança mão até mesmo da iluminação completa da plateia. Seu trabalho busca e consegue uma objetividade e precisão visuais, sem truques ou firulas estéticas, ofertando ao espetáculo e às suas variações narrativas o mais coerente e indispensável resultado. Marina Salomon ficou responsável pela preparação corporal da atriz. Marina realizou um ótimo trabalho, extremamente bem compreendido por Maitê. Como já mencionado anteriormente, a intérprete chama a atenção pela sua postura ereta, elegante, altiva, típica de uma fidalga. Em nenhum episódio, a artista se desgarra de sua consciência corporal. E são muitas as variantes de movimentações que lhe são exigidas. Como se trata de um solo artístico, a despeito das entradas necessárias de Alessandro Persan, este quesito é demasiado importante, pois todos os olhos estão voltados para a sua performance. A trilha sonora pertence a Alessandro Persan. O músico executa com impecável eficiência a sua incumbência de atribuir à encenação a ambiência identificável do período medieval por intermédio das melodias. Sejam elas incidentais/instrumentais, utilizando-se de instrumentos musicais da época, como a harpa, sejam com suportes vocais, como cantos gregorianos, o fato é que a sua música é praticamente um personagem do espetáculo, considerando-se a sua relevância no desenho do quadro narrativo.

Uma peça cujo tema reverbera nos tempos atuais

“A Mulher de Bath”, de Geoffrey Chaucer, possui inegáveis méritos. Trata-se de um retrato com registros históricos que carrega em si elementos conectivos com a realidade contemporânea. As ideias progressistas/feministas, avant-garde, sem ranços chauvinistas, de Alice reverberam na atualidade com os movimentos pós-feministas que grassam no final da segunda década dos anos 2000. “A Mulher de Bath” não é um espetáculo que se propõe a pôr em questão, de forma adversa, o papel do homem na sociedade. Nem desconsidera o estado de ser masculino. Longe disso. A peça tão somente abre um espaço, usando um termo presente, ao poder de fala da mulher. Não vamos cair no fácil clichê de que se trata de uma obra que faz apologia ao empoderamento feminino. Esta expressão criada recentemente serve sim ao poder da mulher. Ao poder da mulher que exige respeito e igualdade. “A Mulher de Bath” é uma peça sobre mulher, com a voz de uma mulher, dirigida por um homem, mas, prova de sua inquestionável significância, voltada para todos. Homens, mulheres… e mulheres de Bath.

20161015085151288355i
Foto: Juliana Hilal

A montagem de um texto necessário e extremamente atual 

Há cinquenta anos, no dia 4 de abril de 1968, um dos maiores e mais importantes líderes do movimento em defesa dos direitos civis dos negros, o americano nascido em Atlanta Martin Luther King Jr., era assassinado na sacada do hotel Lorraine, em Memphis, estado do Tennessee. Em 9 de outubro de 2015, um dos casais de artistas mais populares do país, admirados não só pelo seu inquestionável talento, mas pelas ideias que preconizam, seus posicionamentos sociais e artísticos, seu engajamento em causas coletivas, sua representatividade nas Artes e na sociedade como um todo, Lázaro Ramos e Taís Araújo, estreavam em São Paulo o espetáculo “O Topo da Montanha”, da jovem dramaturga Katori Hall, também americana. A encenação que se passa no quarto do hotel citado na noite anterior à morte criminosa do líder ganhador do Nobel da Paz (1964) carrega em si mesma uma fonte inesgotável de símbolos e significados que a fazem ser associada a um ato público cênico da mais alta relevância. Sua montagem se revela como uma pujante resposta aos tempos de intolerância generalizada em que vivemos, potencializados pela globalização virtual, em que vozes de ódio contra as diferenças, muitas vezes acobertadas pelo anonimato covarde, ocupam seus lugares. Essas vozes são ouvidas e replicadas, transformando-se em uma devastadora onda falso moralista, discriminatória e intransigente, com consequências preocupantes. Cabe a nós, sociedade cônscia da preservação do direito inalienável de igualdade entre os homens, resistir, sem violência, através da união pelo poder da palavra, do diálogo, da representação política isenta e justa, e das manifestações culturais e artísticas legitimadas, a esses ataques que passam ao largo da razão.

Um encontro ficcional que mudou o líder pacifista Martin Luther King Jr.

A trama se desenrola, como dito, em um quarto de hotel numa noite chuvosa de Memphis, em que se vê um Martin Luther King (Lázaro Ramos) solitário, sedento por tragadas de cigarro, fazendo rápidas anotações em um pequeno bloco, transmitindo-nos um pouco de angústia e ansiedade, a todo o momento se perguntando onde estaria o seu amigo Ralph, após o seu derradeiro discurso (“I’ve Been to the Mountaintop – “O Topo da Montanha”) na Igreja de Mason, na mesma cidade. Todo o desenho da situação começa a mudar a partir da entrada em cena da camareira do hotel, Camae, uma jovem espontânea, simples e contestadora, em seu primeiro dia de trabalho, interpretada por Taís Araújo. A construção da relação do Reverendo protestante Martin e da camareira Macae se dá de forma paulatina, em meio a conversas corriqueiras e fugazes, provocações e questionamentos de ambas as partes até se chegar a um intenso embate ideológico que leva o líder religioso a um processo profundo de revisão de seus métodos de propagação de ideias junto às massas oprimidas de sua nação. Casado, com filhos, carinhoso com sua família, o homem que pregava o amor (jamais a violência, adotada por outro grande líder defensor dos direitos dos negros, Malcom X), como forma eficaz de debelar as desigualdades e injustiças de seu povo, utilizando-se do mecanismo das marchas, como a célebre “Marcha sobre Washington”, de 1963, (onde proferiu o antológico discurso “I Have a Dream”), é confrontado sistematicamente pela bela Camae, que além de o seduzir, lembra-lhe de que os dois, a despeito de pertencerem à mesma raça, e de lutarem pelos mesmos direitos, representam classes sociais diferentes, sendo ele, em suas palavras, um “negro burguês”. Essas contendas entre o casal no espaço exíguo do hotel, entre idas e vindas de um discreto banheiro (há um certo ar claustrofóbico no quarto 306 do hotel Lorraine, como se ambos fossem obrigados a ficar ali, proibidos de sair, devido às fortes chuvas, e por conseguinte forçados a se defrontar), interrompidas pelas tosses recorrentes de Martin causadas pelo fumo, não são exclusivas no encontro da dupla, havendo manifestações de afetuosidade e companheirismo, pois afinal, efetivamente, são vítimas do mesmo regime segregacionista dos Estados Unidos que começou a se avolumar na década de 50. Com o passar das horas, Camae, com sua habilidade retórica, consegue, aos poucos, fazer com que Luther King inicie uma autoavaliação pessoal, possibilitando-lhe enxergar que, por trás do homem firme e incisivo na oratória e no enfrentamento corajoso das mazelas sociais, existe um ser humano comum, frágil, sensível, com dúvidas referentes a Deus e à sua própria fé. Um homem com medo da morte. Um homem que teme o seu fim sem dar continuidade à sua luta. Esta jornada de Macae em busca do autoconhecimento do reverendo e de sua humanização é sem dúvida uma das propostas da peça. À certa altura do espetáculo, ocorre uma reviravolta de identidades que irá modificar amiúde os contexto e sentido da narrativa, com o uso criterioso e convincente de licenças poéticas. A obra caminha para o seu final com passagens inflamadas e emocionantes, fazendo jus à trajetória marcante e indispensável do líder pacifista que mudou a História dos Estados Unidos da América e sua relação com os seus filhos negros.

Dramaturgia fluente, instigante, poética e divertida

Quando a dramaturgia de Katori Hall foi levada aos palcos ingleses em 2009, os espectadores e a crítica londrinos logo foram conquistados, resultando no Prêmio Lawrence Olivier de Melhor Peça Estreante. O sucesso atravessou o Atlântico quando, em 2011, foi a vez da Broadway apresentar a sua versão, com Samuel L. Jackson e Angela Bassett. Aqui no Brasil a tradução ficou a cargo de Silvio Albuquerque (com consultoria dramatúrgica de Angelo Flávio), que realizou um primoroso trabalho, mantendo toda a atmosfera envolvente, intimista e poética, leve e dramática (o humor sempre presente no espetáculo é um elemento que oferece à encenação uma ponte de comunicação indiscutivelmente bem-sucedida com a plateia, graças ao carisma de seus protagonistas, favorecendo o nascimento de uma empatia salutar com os personagens), com uma dinâmica crescente e progressiva imprescindível para que acompanhemos com evolutivo interesse o desenvolvimento narrativo. O texto não faz um retrato biográfico estrito do reverendo considerado por muitos um mártir. Fatos históricos e passagens da sua vida são citados, mas inseridos na contextualização dramatúrgica adotada. A concepção de se colocar uma personagem externa (Camae) com o intuito de se fazer um contraponto com Martin, a fim de que as ideias e pensamentos dos dois lados fossem colocados frente a frente impulsiona a peça, conferindo-lhe notável fluidez e agilidade cênica.

Uma direção focada na legitimidade da interpretação dos atores

A direção ficou sob o encargo do próprio Lázaro Ramos, que teve como codiretor Fernando Philbert. Conciliar direção e atuação é uma tarefa arriscada e audaciosa, no entanto o diretor, que já conduziu montagens elogiadas como “Namíbia, Não!”, sai-se brilhantemente bem nesta função. Lázaro e Fernando miraram o seu olhar com generosidade para o campo interpretativo. Apostando na força emotiva dos atores protagonistas, atingir-se-ia com mais facilidade a verdade genuína dos personagens, absolutamente necessária para o sucesso da peça. O empenho da direção foi alcançado ao se perceber um elevado grau de credibilidade na performance do elenco. O foco centrado no permanente jogo cênico travado entre Luther King e Macae demandou da dupla de diretores uma imensurável capacidade de armar movimentações cênicas, assim como as pausas e os silêncios, aproveitando da melhor maneira o espaço do palco, garantindo à obra um espectro completo e eminentemente convincente. Sob o ponto de vista estético, há uma exuberante profusão de imagens projetadas no fundo da ribalta (de arquivo, exibindo fatos simbólicos da luta dos negros pelos seus direitos civis, e de insignes personalidades negras). Este recurso quando bem utilizado (como ocorre na peça) serve como instrumento infalível de embelezamento da produção assim como meio de informação complementar do texto (preciosa, com valoroso trabalho de pesquisa, colaboração de Rico Vilarouca e Renato Vilarouca).

Um grande encontro entre Lázaro Ramos e Taís Araújo

Lázaro Ramos, como o Reverendo Martin Luther King Jr., um ator com um carisma indescritível, constrói este emblemático personagem percorrendo uma série de caminhos de interpretação que se ramificam em diversas camadas emocionais, sendo todas elas correspondidas com garbo pelo talentoso artista. Lázaro desfila com desenvoltura por variados aspectos do perfil de seu complexo papel. Primeiramente, ostenta um Martin naturalista e sóbrio, em seus pioneiros colóquios com Macae. O tom irônico, objetivo e rápido de suas reações às investidas inquisidoras da camareira define um outro segmento de sua atuação. Na TV e no cinema, o público se acostumou, ao assistir a alguns de seus populares tipos, em testemunhar um intérprete com nítido pendor para a comédia. Em alguns instantes da peça, presenciamos este resvalo humorístico de Lázaro, para o delírio do público. Em determinadas ocasiões, podemos conferir a canalização de suas emoções para um nível de potência elevado. Lázaro Ramos, pode-se afirmar com toda a certeza, personificou este mito histórico com distintas galhardia, elegância, inteligência e dignidade. Taís Araújo (indicada ao Prêmio Shell), reconhecidamente uma de nossas estrelas da televisão, possuidora de um “star quality” inquestionável (com vasta experiência nos outros dois setores, as Artes Cênicas e o cinema), resolveu mergulhar fundo na alma misteriosa de sua personagem Macae. Macae surge de repente na história, manipulando com destreza os desdobramentos dos episódios daquela noite, envolvendo Martin numa rede de revelações próprias que o faz ser levado ao seu autoconhecimento. Esta difícil missão exige de Taís um notável “tour de force” interpretativo, no qual ela mesma se impõe o desafio de manter a ambiguidade da origem de sua personagem. A atriz, do mesmo modo que Lázaro, foi conduzida por uma linha de interpretação que lhe exigiu a apresentação de diferenciadas manifestações comportamentais, em consonância com as emoções esperadas. A artista compõe com admirável compreensão de seu papel uma Macae simplória, popular, espontânea, natural e divertida. Mas Macae a obriga a expressar ainda mais a sua habilidade como intérprete, ao fazer com que identifiquemos na camareira do hotel uma mulher persuasiva, dotada de impressionante personalidade, com a capacidade de, apoiada na sua inteligência ideológica, induzir o seu companheiro de quarto, o líder Martin, a rever toda a sua vida e posição política. Enfim, Lázaro Ramos e Taís Araújo, juntos em cena, comprovam-nos o potente entrosamento artístico que existe entre eles, como se cada um conhecesse do outro as suas diversas e intrínsecas intenções no palco, correspondendo, a partir dessas impressões intuitivas, com a excelência das suas reações.

Cenografia, projeções visuais, iluminação, figurinos e trilha sonora prestam reverência à época histórica

A cenografia de André Cortez, baseada nos tons crus e neutros, como o cinza e o branco, sobressai-se pela sua notória funcionalidade somada à fidelização ao universo de um quarto simples de hotel americano do final da década de 60. André se vale de todos os elementos caracterizadores da ambiência do aposento, utilizando-se de duas camas de solteiro, com diminutas mesas de cabeceira (uma delas ao pé da cama) com seus respectivos abajures, uma mesa circular com duas cadeiras, uma espécie de pufe, e um cabideiro. O cenógrafo teve a feliz e criativa ideia de montar uma armação vazada, com possibilidades de ser deslocada, que delimita as dimensões do quarto. Em seu fundo, existe uma porta que leva ao banheiro, sempre à vista (como arremate, algo que se assemelha a um papel de parede figurativo típico desses cômodos). André Cortez possui dois grandes aliados, Rico e Renato Vilarouca (como supracitado, as instigantes projeções se conectam eficazmente com o cenário, com deslumbrantes efeitos). Foi deixado um estreito espaço à frente da armação como representação da sacada do hotel, não poucas vezes frequentada pelos atores. A bonita iluminação de Walmyr Ferreira optou por matizes distintos, mantendo-se coerente ao investir em um tom suave, sóbrio e natural na maioria das cenas cotidianas. Dependendo da intensidade do trecho da narrativa, Walmyr elevava o grau de luminosidade. Em momentos mais reflexivos, adotou um forte foco lateral, provocando belos efeitos de luz e sombras. Possivelmente numa alusão ao assassinato de Luther King, faltando pouco tempo para o fato, iluminou a área do tablado de vermelho. Na parede do banheiro, nota-se uma branda iluminação esverdeada. Blecautes e espocar de luzes, como referência aos relâmpagos, surpreende-nos. Tereza Nabuco teve a incumbência de escolher os figurinos do espetáculo. E o fez com notada competência, novamente, como o resto da equipe, respeitando os registros históricos e factuais da montagem. Lázaro trajou um conjunto preto de terno, gravata, calça e sapatos sociais, em contraste com uma camisa branca, complementado por um chapéu de época de feltro marrom (o personagem possui uma pequena mala ou bolsa escura). E Taís vestiu um uniforme de camareira amarelo mostarda com avental, mangas e golas brancas, além de calçar sapatos também de cor preta, e usar um casaco bordeaux. A trilha sonora e o desenho de som couberam, respectivamente, a Wladimir Pinheiro e Laércio Salles. A dupla teve a sensibilidade exigível para pontuar com precisão as passagens que solicitavam uma intervenção musical. Logo no início da obra, ouvimos uma melodia com acordes que nos reportam ao jazz, e em outras ocasiões há inserções de canções que nos lembram hinos religiosos de igreja, além do incremento de uma trilha incidental insinuante.

O legado de Martin Luther King Jr., e a contribuição de “O Topo da Montanha”

“O Topo da Montanha” é, antes de tudo, um manifesto pelo qual se prega o respeito pela igualdade de direitos dos homens, tendo como arma a mais implacável de todas aquelas que estão ao nosso alcance: o amor. Trata-se de um espetáculo cênico que serve como ferramenta de humanização de um líder que, independente de suas ideias e convicções ideológicas, era antes de qualquer coisa um cidadão como os demais, com suas fraquezas, medos, incertezas e vulnerabilidades, temente à morte, mas que, mesmo resistindo, deixou um bastão para ser passado adiante para os que ficaram, ou seja, que seus ideais de lutas pelos direitos civis dos negros permanecessem, jamais fossem negligenciados ou esquecidos. Após 50 anos, este bastão empunhado com tanta nobreza, perseverança e bravura por Martin Luther King Jr. continua a passar de mão em mão, pois a intolerância, o racismo, a discriminação e a segregação racial estão aí, cada vez mais presentes. Não é fácil atingirmos, todos nós, negros e brancos, a “Terra Prometida” onde se encontram a paz e a igualdade humanas defendidas por Martin. Não é fácil subir até “O Topo da Montanha”. Acalma-nos saber que por ora o bastão esteve nas mãos de dois artistas respeitáveis, corajosos e lutadores. Lázaro Ramos e Taís Araújo chegaram ao “O Topo da Montanha” com este espetáculo.

20171025-ea-onde-nascem-os-fortes-81
Foto: Estevam Avellar/Gshow

Estreia a aguardada supersérie de George Moura e Sergio Goldenberg 

Ao se ter a notícia de que haveria uma supersérie escrita pela dupla de autores George Moura e Sergio Goldenberg, que escreveram tanto a minissérie “Amores Roubados” (que será regravada em espanhol com outros intérpretes) e o remake da novela “O Rebu”, tendo como o seu diretor artístico José Luiz Villamarim (diretor de ambas as produções citadas), o público assíduo destes dois gêneros teledramatúrgicos imediatamente cria auspiciosas expectativas. Ademais, este trio competentíssimo de profissionais costuma reunir em seu elenco atores do mais alto calibre com quem já trabalhou, além de apostar em nomes já estabelecidos no mercado, mas com os quais não teve ainda uma parceria. Na noite de ontem, finalmente estreou na Rede Globo “Onde Nascem Os Fortes”, protagonizada por um time de artistas de distintas gerações, todos com reconhecimento pelos seus talento e trajetória, como Patricia Pillar, Alexandre Nero, Fabio Assunção, Debora Bloch, Marco Pigossi, Gabriel Leone, Alice Wegmann, Jesuíta Barbosa e Maeve Jinkings. A história, com ares de western contemporâneo, é passada na cidade fictícia de Sertão (as impressionantes locações, que mostram o semiárido brasileiro, situam-se nos estados do Piauí, no Parque Nacional Serra da Capivara, e Paraíba – na cidade de Cabaceiras, no Cariri paraibano), no interior nordestino.

Uma história com amores intensos e ódios acirrados

O primeiro capítulo, logo em sua cena inicial, já nos revela o jeito particular de Villamarim dirigir. Com uma câmera acoplada a uma bicicleta de trilhas, fazemos o mesmo percurso inóspito realizado pela jovem destemida Maria (Alice Wegmann com os cabelos curtos e desconstruídos), nos confins desérticos de Sertão. Enquanto isso, outro jovem, tão aventureiro quanto, o paleontólogo Hermano (Gabriel Leone com um visual bem oposto ao mostrado em “Os Dias Eram Assim”), acompanhado da motorista de seu pai, Gil (Clarissa Pinheiro), numa caminhonete, regozija-se de suas recentes descobertas científicas locais. Após ter a sua bicicleta quebrada, Maria é abordada por rapazes mal-intencionados, sendo salva por Hermano. A partir deste casual encontro começará um romance com tintas shakespearianas, com bastantes conflitos entre as famílias do casal, impedindo a consumação de seu amor. Hermano é filho de Pedro Gouveia, um empresário poderoso e temido, dono de uma fábrica de bentonita, vivido por Alexandre Nero, e Rosinete, Debora Bloch, uma sofrida e abnegada mulher que se dedica a cuidar de sua filha enferma, Aurora, Lara Tremouroux. Maria é irmã gêmea do irresponsável e mulherengo Nonato, Marco Pigossi. O paleontólogo dá uma carona à bonita moça de Recife até o famoso Bar do Chico. Lá chegando, vê que seu irmão está envolvido em um jogo perigoso com armas e bebidas, e o repreende. Fica-nos clara a relação forte e simbiótica que há entre os irmãos, tão unidos quanto distantes no comportamento. Hermano e Maria combinam de se encontrar no show de Shakira do Sertão (Jesuíta Barbosa) na boate Bodão. A mãe dos gêmeos, Cássia (Patricia Pillar), uma empenhada engenheira química, não consegue qualquer contato com os seus filhos. Cássia esconde um segredo de seu passado que envolve a sua passagem por Sertão. Voltando à personagem de Debora Bloch. Rosinete, traída pelo seu marido com Joana (Maeve Jinkings), funcionária da empresa, como já dito, devota a sua vida à filha (há uma cena com grande sensibilidade e beleza em que Rosinete banha cada parte do corpo de Aurora com delicadeza). Católica fervorosa, a mãe zelosa, descrente dos médicos, agarrada ao seu terço, exercita-se correndo na escuridão da noite do deserto, sob a luz só de uma lanterna e o som companheiro de seu fone (a direção captou inspiradas e belas imagens noturnas de Debora correndo, com angulações de câmera inventivas). Enquanto corre, faz as suas preces. Apesar de não ser tão presente, Pedro demonstra carinho pelos filhos. Na boate Bodão, em uma das melhores cenas do capítulo, Shakira do Sertão se apresenta cantando o clássico de Rosana, “O Amor e o Poder” (incrivelmente produzido, exalando sensualidade e sedução, Jesuíta nos conquista com a sua performance estudada; seu personagem, na verdade Ramirinho, filho do juiz Ramiro, Fabio Assunção, que desconhece a sua vida dupla, promete ótimos momentos). A dança luxuriosa de Shakira encanta os irmãos. Contudo, Nonato decide ir para outras paragens, enquanto Maria espera por Hermano. Não muito longe, pessoas do local se reúnem, bebem, e se exibem com suas motos barulhentas. Pedro Gouveia, fugindo da solidão de casa, chega ao lugar, sendo bajulado por todos. Neste instante, Nonato já havia conhecido Joana em um bar. Pedro se aproxima, e espanta o rapaz galanteador. Embriagado, o filho de Cássia deixa um recado para a sua irmã no celular, sem sucesso. Desnorteado, retorna ao bar, e provoca o empresário, sendo enxotado pelos seus capangas. Nesse mesmo tempo, Maria e Hermano visitam as deslumbrantes cavernas com pinturas rupestres de Sertão (as gravações foram feitas no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, com suas pinturas reais). Após Hermano lhe ensinar sobre a história das pinturas, em meio ao cenário fascinante de pedras, os jovens trocam carícias e beijos. Em um descampado, com ventos de poeira iluminados pelos faróis do carro parado, Nonato é brutalmente espancado pelos capangas de Gouveia. Em outro lugar sinistro, Gouveia ameaça o rapaz ensanguentado, mas decide lhe dar uma chance. O moço “louco”, quase desfalecido, enfrenta seu oponente, que, furioso, encosta a arma em seu rosto, ameaçando atirar. Não sabemos o que de fato ocorreu com Nonato, o mote da sinopse da supersérie. Em seguida, surge a figura imponente do juiz Ramiro treinando caça, ao lado de seu guarda-costas Damião, Pedro Wagner. O tiro de seu rifle faz a ponte com a cena de Nonato que ficou em aberto. O capítulo de estreia de “Onde Nascem Os Fortes”, que tem a colaboração de Flavio Araújo, Mariana Mesquita e Claudia Jouvin, termina com Damião colocando em Ramiro o seu impecável terno branco, que ao final diz: – Todos os dias são do caçador”.

Texto bem estruturado e envolvente e direção habilidosa e inventiva 

O texto de George Moura e Sergio Goldenberg é bem estruturado, envolvente, com bons personagens construídos, em que se veem elementos com capacidade para segurar o interesse dos telespectadores pelos seus próximos episódios. Em seu entrecho, há fartas doses de amor (seja ele romântico ou familiar), ódio, sede de justiça, espalhadas sobre um terreno árido e sem lei (ou com leis próprias), no qual se impõem o coronelismo e toda a sua implacabilidade, algo recorrente até nos dias atuais. A direção de José Luiz Villamarim, neste primeiro capítulo, ostentou a sua qualidade genuína com influências nitidamente cinematográficas. José Luiz valoriza os movimentos, a ação, os closes, as panorâmicas, as distâncias e os olhares inusitados vistos pela lente de sua câmera (a supersérie tem ainda como diretores Walter Carvalho e Isabella Teixeira, com direção geral de Luisa Lima).

Um elenco primoroso formado por atores de gerações distintas

O elenco é um dos pontos altos da atração, transmitindo com enorme credibilidade as nuances do perfil de seus personagens. Patricia Pillar, como Cássia, segura e cativante, esbanjou o apego que sente pelos filhos, enquanto Debora Bloch nos convenceu com o seu brilho nato como a mãe infeliz e incrédula com a doença de sua filha e o casamento falido. Alexandre Nero compôs com notável precisão os traços que definem Pedro Gouveia, seja ao nos passar a sua aura de poder, mando e desmando, seja ao revelar o seu lado amoroso como pai. Fabio Assunção, em uma única cena, prometeu-nos uma sublime interpretação, num papel totalmente diferente daqueles que já fez em sua prodigiosa carreira. Marco Pigossi, em participação especial, construiu Nonato com acertadas camadas de rebeldia, carência, insolência e irracionalidade. Gabriel Leone e Alice Wegmann, excelentes escalações, possuem potente química como casal, provando-nos o porquê de serem considerados uns dos melhores atores jovens surgidos em sua geração, assim como Jesuíta Barbosa, um intérprete de cinema que se supera a cada trabalho em televisão (Jesuíta tem um carisma, uma docilidade pessoal que o distingue sobremaneira). Maeve Jinkings, respeitável atriz, uniu com equilíbrio a sensualidade e o carinho de Joana com relação ao seu amante, sem abrir mão da firmeza de seu papel nas sequências de tensão. Lara Tremouroux imprimiu com emoção à sua personagem Aurora as cargas exigíveis de fragilidade, vulnerabilidade e ternura. Clarissa Pinheiro, como Gil, em suas rápidas aparições, indica-nos uma boa participação.

A direção de fotografia de Walter Carvalho, a produção musical irresistível e a abertura com Zeca Veloso 

A irretocável, como de costume, direção de fotografia de Walter Carvalho aposta na luminosidade pujante, clara e ensolarada do universo desértico do sertão do Nordeste, na crueza realista sem tons fortes das cenas cotidianas, nas cores das luzes que alumiam a festiva noite da cidade, e na exploração de contrastes noturnos nos locais abertos e vazios (como na cena de Rosinete correndo). A fotografia usada nas cenas do casal de jovens no interior da caverna também merecem destaque. A produção musical de Eduardo Queiroz se sobressaiu pela coerência e adequação das músicas selecionadas, como a belíssima “Vapor Barato”, na voz de Gal Costa. A música original de Marcell Klemm também cumpriu com congruência sua missão de emoldurar melodicamente os quadros cênicos. A abertura de Alexandre Romano, Flavio Mac e Christiano Calvet, composta por recortes de imagens de cenas da supersérie em variados matizes, é embalada pela voz aguda e afinadíssima de Zeca Veloso, com Caetano Veloso, Moreno Veloso e Tom Veloso, na encantadora “Todo Homem” (há um refrão que se encaixa na busca infatigável de Cássia pelo filho desaparecido: “Todo homem precisa de uma mãe”).

Por que “Onde Nascem Os Fortes” merece ser vista

“Onde Nascem Os Fortes” corrobora o investimento da emissora em produzir com cada vez mais qualidade, excelência e apuro estético as superséries, valorizadas por dramaturgias elaboradas, elenco exponencialmente capacitado e diversificado, e direção não raro primorosa. Não à toa muitos intérpretes demonstram a sua vontade de atuar nessas obras. Não faltam motivos para se acompanhar esta história com personagens tão ricos e ao mesmo tempo brasileiros, em terras não menos brasileiras. Os sentimentos e conflitos são universais, mas o olhar do espectador de nosso país se identificará com uma de suas raízes nas plagas do interior esquecido do Nordeste, com todas as suas contradições, disputas de poder, e ausência de leis, com a exceção da “Lei do Mais Forte”. Nos torrões onde nasceram os fortes Pedro Gouveia e Ramiro, nos quais “Todos os dias são do caçador”, “caças” como os “Nonatos da vida” poderão ganhar a sua voz na força de mulheres como Cássia e Maria. E tudo poderá se transformar em “Onde Nascem As Mulheres Fortes”.

038
O cantor Gian, da dupla sertaneja Gian & Giovani, ao lado da blogueira de moda Tati Moreto, na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, no Parque Cândido Portinari.
À época, Gian ainda era casado com Tati Moreto.
Aparecido dos Reis Morais, ou Gian, nasceu em Claraval, Minas Gerais.
A história musical de Gian começou já em sua infância, em Franca, interior de São Paulo, quando, ao lado de seus irmãos Arnaldo e Marcelo, o Giovani, passou a demonstrar grande familiaridade com o violão.
O pai dos três, S. Francisco, ao perceber o talento dos filhos para a música resolveu criar um grupo, o Trio Sereno, Sereninho e Gaúchinho.
Surgiram as primeiras apresentações ao vivo em bares e restaurantes.
Arnaldo, devido a problemas com a sua voz, teve que deixar o trio.
A dupla restante chamou a atenção de um comerciante local que decidiu apadrinhá-la, sugerindo-lhe um novo nome: Gian & Giovani.
Com muitas dificuldades conseguiram gravar o primeiro tape.
Apresentaram-no ao diretor da extinta gravadora Continental, Paulo Rocco, que aprovou o resultado, lançando assim o primeiro disco de Gian & Giovani, em 1988.
Seu primeiro sucesso nas paradas se chamava “Amante Anônimo”, e em seguida vieram outros, como “Espuma da Cerveja” e “Você Em Minha Vida”.
Lançaram o seu segundo CD em 1990, atingindo a marca de 400.000 cópias vendidas, garantindo-lhes um “Disco de Ouro” (uma de suas canções, “Nem Dormindo Consigo Te Esquecer” foi bastante premiada).
Contratados pela gravadora BMG, seu sexto CD (o segundo pela gravadora) é lançado no mercado em 1996, e uma de suas faixas, “1, 2, 3” faz enorme sucesso (Gian & Giovani se tornam uma das principais duplas sertanejas do país).
Participaram do especial “Amigos”, na Rede Globo.
Em 1998, o oitavo CD, “Meu Brasil”, é lançado, alcançando novamente expressiva repercussão (a música “O Grande Amor da Minha Vida” teve ótima aceitação popular; no mesmo ano, gravam um CD ao vivo, além dos registros do mesmo show que o originara em VHS e DVD, posteriormente).
Em 2003, contratados pela Sony Music, foram indicados ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Sertaneja.
Em 2007, produzem o seu segundo DVD, “Uma História de Sucesso”.
No ano seguinte, completam 20 anos de carreira.
Foram convidados em 2010 para participarem do DVD especial em comemoração aos 50 anos de carreira do cantor e compositor Roberto Carlos, “Emoções Sertanejas” (a dupla interpretou “Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo”).
Em outubro de 2014, Gian e Giovani anunciam o fim da dupla.
Em março deste ano, foi comunicada a volta da dupla para meados de agosto.
Com discos de ouro, platina, platina duplo, diamante, Gian & Giovani, com uma imensa lista de sucessos musicais nas paradas, figuraram no final dos anos 90 dentre as cinco duplas sertanejas mais importantes do Brasil.
Tati Moreto é blogueira de moda e beleza.
Fisioterapeuta de formação, foi modelo e dançarina dos programas “Fantasia” e “Domingo Legal”, no SBT.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

 

22792247_886732831477077_3229784521606656223_o
Foto: Igor Mota

A impressionante atualidade de “O Julgamento de Sócrates”

Em pleno século XXI, já passadas quase duas décadas, vivemos no mundo, especificamente no Brasil, tempos obscurantistas, nebulosos, marcados por movimentos impulsionados pela intolerância, em todos os seus aspectos, que grassam irrefreavelmente pela sociedade civil. Sinais de intolerância à sexualidade do indivíduo, às suas crenças religiosas, e às suas convicções políticas são cada vez mais constantes, assumindo um caráter de “normalidade”. Intolerância à ideia do outro. Com a proliferação das redes sociais, que vieram tanto para o bem quanto para o mal, esta cultura do ódio se tornou mais evidente. As pessoas, pertencentes a quaisquer segmentos sociais, tornaram-se detentoras da verdade absoluta, observada em opiniões sobre assuntos diversos. Pensar e se expressar individualmente hoje em dia é um ato de coragem. Assumir posições que não agradam à maioria requer a ciência das consequências nem sempre favoráveis. A liberdade geral está em xeque. O perigo real ao cerceamento da liberdade de expressão se revela inclusive nas manifestações artísticas. Artistas vivenciam involuntariamente experiências “kafkianas”. São acusados por crimes “inventados”. Faz-se necessário aos cidadãos de bem acenderem o sinal de alerta diante das políticas predatórias, discriminatórias e intolerantes alimentadas em cima da ignorância dos facilmente manipuláveis. Face a esta conjuntura, a montagem comemorativa dos 50 anos de carreira de Tonico Pereira, em seu primeiro monólogo, “O Julgamento de Sócrates”, de Ivan Fernandes, baseado na obra “Apologia de Sócrates”, de Platão (aproximadamente 399 a.C), impõe-se por suas incontestes atualidade e oportunidade, gerando, de modo imediato, sensação de empatia e identificação do público. A peça, dirigida por Tonico Pereira e Ivan Fernandes, contextualiza-se no fato histórico do julgamento do filósofo grego Sócrates (nascido, presume-se, em 470 a.C), acusado pelos crimes de incitar os jovens com ideias potencialmente subversivas, contrárias por conseguinte ao Estado, e por não respeitar e venerar os deuses da Grécia Antiga, e sua condenação à morte por envenenamento.

Um fato histórico para ser lembrado e relembrado

A encenação começa com o depoimento do próprio Tonico acerca dos “Sócrates” que conheceu em sua cidade natal, Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Pessoas comuns que o influenciaram como cidadão, e artistas, diretores como Luiz Mendonça e Amir Haddad, que foram fundamentais em sua formação e evolução como ator. A partir daí, o intérprete, já incorporado como Sócrates, no ambiente de um tribunal, em que os espectadores fazem as vezes de jurados, desfia a sua afiada oratória, como instrumento de defesa, entremeada por perguntas a si mesmo, questionamentos, elucubrações, ilações e aforismos. Sócrates, para os seus acusadores, é considerado o mais sábio dos sábios, pois assim asseverara o oráculo do Deus Apolo. Como pode um Deus conceder esta honraria a um homem sem fé? O filósofo, segundo ele, é vítima de reiteradas calúnias. Seus detratores não possuem qualquer espécie de provas que corroborem os crimes que lhe foram imputados, como as suas potenciais violações às regras e leis do Estado. Sócrates alega que uma das razões para que se tenha tanto ódio e inveja de sua condição de pensador se deve ao fato de conseguir por meio de sua habilidosa retórica desmascarar os pretensos sábios, fazendo-os enxergar a sua legítima ignorância. O acusado não se escusa ao defender as suas ideias até o fim, não temendo sequer a morte, que lhe parece tão próxima. Para o homem dotado de insigne sabedoria não há dúvida no que concerne à chance de escolha entre a morte, que lhe é desconhecida, e a manutenção ferrenha de suas convicções ideológicas, porquanto estas lhe são conhecidas e certas, garantindo-lhe a sua integridade moral, sobretudo ao não se submeter a condições, ajustes, tratos ou conluios propostos a fim de abjurar os pensamentos que o norteiam, e que servem de referência para os jovens sedentos de saber. Contraditoriamente, Sócrates solta, vez ou outra, a sua célebre sentença “Só sei que nada sei”, atestando a sua própria ignorância defronte aos grandes mistérios e conhecimentos sobre a vida, em oposição aos seus pares que se assoberbam ao ostentarem a sua duvidosa sabedoria.

A adaptação engenhosa de Ivan Fernandes de “Apologia de Sócrates”, de Platão

O texto de Ivan Fernandes nos chama a atenção pela sua notória comunicabilidade, inteligibilidade e fluidez narrativa. Um espetáculo teatral cuja figura central é o filósofo Sócrates poderia provocar nos incautos a falsa sensação de hermetismo dramatúrgico, o que, felizmente, não acontece. Ivan foi engenhoso e cuidadoso o suficiente ao fazer uma adaptação de “Apologia de Sócrates” que nos fosse bastante acessível. Há, por parte do autor, uma preocupação com a valorização das palavras e frases ditas pelo pensador. O dramaturgo buscou ao máximo uma linha direta entre o protagonista e a plateia, obedecida com êxito pela direção. Procurou-se outrossim, com resposta rápida e interação imediata dos espectadores, uma aproximação com a realidade atual, com os acontecimentos vigentes do país, sobretudo políticos. As associações de nomes conhecidos com pronúncias gregas causam a espontaneidade dos risos coletivos. A dramaturgia de Ivan Fernandes é redonda, fechada, enxuta, sem prolixidades, objetiva e certeira, mantendo o interesse do público em todas as suas fases.

Uma direção que aposta na força da palavra e no dinamismo cênico

A direção de Ivan Fernandes e Tonico Pereira se propõe, e logra com distinta propriedade, harmonizar-se com a estrutura do texto cênico. Tonico, como Sócrates, segue a orientação de traçar um desenho dinâmico de movimentação do personagem, com pausas pontuais e calculadas. O perímetro da ribalta, principalmente em seu centro, na lateral direita e na faixa do proscênio, é explorado com coerência, sem extrapolações de medidas. A adoção desta diretriz faz com que o espetáculo se desenvolva num tempo razoável, sem que a sua organicidade seja prejudicada. As vezes em que Tonico se dirige à plateia são demasiado bem-sucedidas, funcionando com perfeição. Propositalmente, há “saídas” do personagem, garantindo frescor e leveza à encenação.

Tonico Pereira, um artista que reafirma o seu imensurável talento

Tonico Pereira, um intérprete com enorme apelo junto às plateias, dotado de personalidade, popularidade e carisma únicos, dono de uma vasta coleção de papéis inesquecíveis e marcantes na TV, tendo trabalhado com alguns dos principais cineastas brasileiros, além de ser um artista genuinamente de teatro, pois foi nele que começou há cinco décadas, celebra com magnificência a sua merecida efeméride. Tonico, com a responsabilidade e o desafio de dar vida ao grande filósofo de Atenas, tão somente reafirma o seu imensurável talento ao criar e compor personagens, passeando com espantosa naturalidade e credibilidade por não poucos atalhos e caminhos de interpretação, margeados com níveis de emoção e dramaticidade oscilantes em seu nível de potência. Associado não raras vezes à sua infinita capacidade de construir tipos cômicos, o protagonista, sem preterir o seu irresistível humor nato, revelado nesta peça com apropriada discrição, esbanja admirável intimidade com o drama puro, realçado pela indignação, assombro e dúvidas que acompanham Sócrates acerca dos motivos que o levaram ao julgamento público. Sua postura incisiva e perscrutadora, confrontando as acusações sem alicerces sólidos com a sua balizada defesa se apresenta como ponto alto da montagem. Com gesticulações críveis e tom vocal próximo ao de um diálogo ou conversa (em outras ocasiões, indicando-nos um desabafo), Tonico Pereira, sempre com a resposta acolhedora e fiel de seus espectadores, realiza um primoroso e dignificante trabalho de atuação em seu primeiro monólogo, sempre um processo arriscado para qualquer artista, independente de sua experiência.

A valorização do ator por meio da economicidade certeira do cenário e figurinos

Os cenário e figurinos são de Palloma Morimoto. Palloma, tanto em um quanto em outro, optou pelo conceito da economicidade, entretanto, este mesmo conceito deveria cumprir os critérios de eficiência, congruência e praticidade, correspondentes às linhas e entrelinhas do contexto narrativo, o que foi indiscutivelmente promovido pela profissional. Há em seus objetivos um acerto inquestionável, que se vislumbra ao conferir mais valorização e destaque à figura solitária de Sócrates no universo de um tribunal, acompanhado somente de seus pensamentos e reflexões de defesa, com o intento de se livrar das acusações arbitrárias que lhe foram impostas. Com relação à cenografia, a visão que temos é a de uma cadeira de madeira toda trabalhada em suas formas, com respaldo comprido, posicionada bem no centro da ribalta, tendo em seu lado direito uma base (provavelmente de madeira), em formato cilíndrico, pintada com tintas pretas manchadas, servindo como suporte para um imponente cálice dourado no qual se encontra o veneno que seria sorvido pelo filósofo em caso de sua condenação. No fundo do espaço, uma extensa cortina negra. Quanto aos figurinos, Palloma vestiu Tonico Pereira com uma camisa folgada de cortes retos e uma calça de bainhas altas e largas em tons assumidamente crus e claros, calçando apenas um par de sandálias em consonância com o período histórico grego retratado.

Iluminação precisa e trilha sonora exuberante

A iluminação e a trilha sonora original ficaram sob o encargo de Frederico Eça. A iluminação de Frederico é elogiável, não se deixando levar por recursos que não complementassem a estruturação do quadro cênico. Bonita e precisa, a luz do espetáculo se caracteriza primordialmente por um plano aberto, deixando todos os detalhes da encenação à vista do público. Este plano aberto talvez traduza uma aproximação com a aridez da situação vivida por Sócrates, com a sua realidade nada fantasiosa tampouco onírica, e sim trágica. Utilizando-se de quatro refletores traseiros, Frederico se apropria também do azul forte para realçar algumas passagens. Usam-se focos bem pontuais sobre Tonico, além de uma iluminação com intensidade acima da média em um determinado episódio. A trilha sonora original é bastante convincente, desenhando com proficiência e impacto cenas relevantes da peça. Adotando acordes instrumentais com caráter majestoso, Frederico demarca etapas da narrativa com a tensão, o suspense e o clímax solicitados, atingindo com êxito o resultado esperado.

“Sócrates, presente!”

“O Julgamento de Sócrates” é uma encenação teatral com vastos méritos, essencialmente por colocar em pauta, tendo por base uma obra tão relevante quanto antiga, e nem por isso menos atemporal e universal, um tema presente com força em nossa atualidade, a intolerância à liberdade de expressão, de ideias e pensamentos. Num período em que vivemos sob a égide do que é supostamente certo ou errado de se dizer, esta proposta se torna eminentemente indispensável. Um momento no qual raro se escuta o outro. Em que o diálogo é aniquilado com a expressão órfã de argumentos “Não concordo, eu acho que…”. Além disso, temos em cena um de nossos mais representativos atores, em estado de graça nos palcos, soltando a sua voz em defesa de nossas liberdades. Que “O Julgamento de Sócrates” sirva de lição para que as nossas vozes não sejam silenciadas. Que os seus ecos se façam ouvir além-fronteiras. Que se respeite a democracia nascida nas terras socráticas. Calar uma voz, seja de que forma for, apenas faz com que surjam milhares de outras, tão indignadas como a de Sócrates. Mais atual, impossível. Sócrates, presente!.

070
O modelo Bruno Corteletti na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, no Parque Cândido Portinari, em São Paulo.
Bruno é capixaba, sendo agenciado pela Way Model Management (São Paulo), Major (Nova York) e CDU Model Management (Japão).
Dentre os lugares mundo afora onde realizou trabalhos incluem-se Nova York, Hamburgo, Milão, Istambul, Malásia, Cingapura e Hong Kong.
Em Milão, representou marcas como Versace, Valentino, Dolce & Gabbana e Costume National.
Para a publicação japonesa “Leon Magazine”, o modelo pôde ser visto em várias páginas usando marcas como Moncler Lunettes, Botega Venetta, 999.9, Ptolemy48 e Ahlem.
Bruno já fez inúmeros ensaios para diferentes fotógrafos, como Kentaro Kamata & Tomoo Syoju (“Safari Magazine”), Mehmet Erzincan (“All Magazine”), Jerry Choi (editorial “Watches” na revista “Esquire Hong Kong”), Felipe Gachido (sites “Gusman” e “Made in Brazil”), Pedro Pedreira (site da Way Model), Didio (ensaio em dupla com o modelo Danilo Borgato; também foi destaque da sessão “Go See” do site “TheOnes2Watch”), Eber Figueira, Hudson Rennan, João Araújo (ensaio “Sunshine Guys” para a “Ohlala Mag”) e Gabeh Araujo.
No Minas Trend, desfilou para Ricardo Almeida.
Na São Paulo Fashion Week Outono Inverno 2015, circulou pelas passarelas de Lino Villaventura, e na edição comemorativa dos 20 anos da SPFW, desfilou pelas grifes Cavalera e Lino Villaventura.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG