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O humorista Léo Lins, durante a gravação do programa do SBT “The Noite Com Danilo Gentili”, na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week.
Léo Lins é carioca.
Sua estreia como comediante foi com o espetáculo de stand-up comedy, no qual havia shows de mágica, “Pão e Circo”.
Em seguida, passou a fazer parte do primeiro grupo de stand-up comedy do país, o “Comédia em Pé”.
Também é escritor, tendo lançado dois livros sobre este gênero de apresentação humorística, o “Notas de Um Comediante de Stand-up Comedy” (o primeiro que discorre sobre o tema no Brasil) e “Segredos da Comédia Stand-up”, além de “Sapo Césio – Uma História de Vida Contagiante”.
Estreou na televisão em 2008 no quadro do “Domingão do Faustão”, da Rede Globo, “Quem Chega Lá”, em que foi um dos finalistas (os participantes mostravam esquetes próprios de humor).
Em 2009, começou a sua carreira solo com o espetáculo “Surreal”.
Léo soma a incrível marca de mais de mil shows de stand-up comedy, inclusive internacionais, apresentados no Reino Unido, e em países como Portugal, Japão e Alemanha.
No ano seguinte, foi contratado pela Band como redator da atração comandada por Marcos Mion, “Legendários”.
Como ator, foi visto na novela “Malhação”, da TV Globo.
Foi entrevistado no “Programa do Jô” (Rede Globo), no jornalístico “A Liga” (Band), além de ter participado do humorístico “A Praça é Nossa” (SBT).
Em 2011, a Band o contratou para integrar a bancada do talk-show de Danilo Gentili, “Agora é Tarde” (a produção durou dois anos).
No final de 2013, Danilo Gentili se mudou para o SBT, criando o programa “The Noite”, levando consigo praticamente toda a sua equipe, incluindo Léo Lins.
Como repórter, entrevistou várias personalidades, como Stan Lee, Harisson Ford, Tim Burton e George Miller.
Esteve na atração “República do Stand-up”, no Comedy Central, e no documentário de Pedro Arantes, “O Riso dos Outros”.
Narrou a série “A História dos Bêbados”, no Comedy Central.
Estará no filme de Fabrício Bittar, com estreia prevista para novembro deste ano, “Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro” (no elenco, Danilo Gentili, Murilo Couto, Dani Calabresa e o apresentador Ratinho).
Desde 2014, Léo Lins é membro fixo do talk-show de Danilo Gentili, “The Noite com Danilo Gentili”, no SBT.

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

 

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O repórter do programa “The Noite com Danilo Gentili”, Murilo Couto, na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week.
O paraense, nascido em Belém, Murilo Couto, também é ator, humorista e músico.
Graduado em Publicidade, trabalhou como produtor em uma rádio.
Em 2004, pisa pela primeira vez nos palcos.
Quatro anos depois, funda o primeiro grupo de stand-up comedy do Pará, o “Em Pé na Rede”.
Sua estreia como ator, na televisão, foi na décima sétima temporada de “Malhação”, “Malhação ID”, na Rede Globo, em que defendeu o personagem Beto.
Tornou-se um dos participantes do espetáculo de stand-up comedy, “Comédia em Pé”, um dos pioneiros da safra recente do gênero.
A Band o contrata para integrar a equipe, liderada por Danilo Gentili, do talk-show “Agora é Tarde” (a atração dura dois anos, de 2011 a 2013).
Parte desta mesma equipe, incluindo Murilo e Danilo, ruma para o SBT, emissora paulista na qual produz o talk-show “The Noite com Danilo Gentili”, no ar até hoje.
O humorista também possui um canal de vídeos no YouTube.
Outro trabalho como ator, novamente tendo Danilo Gentili como parceiro, foi na série da Fox Brasil, “Politicamente Incorreto”.
Baixista e tecladista, formou a Banda Renatinho, ao lado do comediante Murilo Meirelles e da atriz Tatá Werneck (o grupo se apresentou no programa exibido pelo canal Multishow “O Estranho Mundo de Renatinho”).
Murilo Couto faz parte do elenco do mais novo filme de Fabrício Bittar, a comédia de terror “Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro”, junto com Dani Calabresa, Danilo Gentili, Léo Lins, e o apresentador Ratinho (o roteiro foi escrito pelo próprio Danilo Gentili).

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

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O repórter do programa “The Noite com Danilo Gentili” Murilo Couto entrevistando um dos convidados da edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week.
O paraense, nascido em Belém, Murilo Couto, também é ator, humorista e músico.
Graduado em Publicidade, trabalhou como produtor em uma rádio.
Em 2004, pisa pela primeira vez nos palcos.
Quatro anos depois, funda o primeiro grupo de stand-up comedy do Pará, o “Em Pé na Rede”.
Sua estreia como ator, na televisão, foi na décima sétima temporada de “Malhação”, “Malhação ID”, na Rede Globo, em que defendeu o personagem Beto.
Tornou-se um dos participantes do espetáculo de stand-up comedy, “Comédia em Pé”, um dos pioneiros da safra recente do gênero.
A Band o contrata para integrar a equipe, liderada por Danilo Gentili, do talk-show “Agora é Tarde” (a atração dura dois anos, de 2011 a 2013).
Parte desta mesma equipe, incluindo Murilo e Danilo, ruma para o SBT, emissora paulista na qual produz o talk-show “The Noite com Danilo Gentili”, no ar até hoje.
O humorista também possui um canal de vídeos no YouTube.
Outro trabalho como ator, novamente tendo Danilo Gentili como parceiro, foi na série da Fox Brasil, “Politicamente Incorreto”.
Baixista e tecladista, formou a Banda Renatinho, ao lado do comediante Murilo Meirelles e da atriz Tatá Werneck (o grupo se apresentou no programa exibido pelo canal Multishow “O Estranho Mundo de Renatinho”).
Murilo Couto faz parte do elenco do mais novo filme de Fabrício Bittar, a comédia de terror “Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro”, junto com Dani Calabresa, Danilo Gentili, Léo Lins, e o apresentador Ratinho (o roteiro foi escrito pelo próprio Danilo Gentili).

Foto: Paulo Ruch

Agradecimento: TNG

 

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Foto: Daniel Chiacos/Divulgação

A conexão da diretora Carolina Jabor com uma realidade atual e preocupante

Não poucas vezes ocorre de uma obra ser lançada, seja ela literária, televisiva, e neste caso, especificamente, cinematográfica, tendo sido idealizada e desenvolvida muito antes, e o seu conteúdo principal coincidir, se este é o verbo adequado, com acontecimentos correlatos atuais e factuais que atingem em cheio os cidadãos da sociedade, tornando esta mesma obra tão ou mais atraente e apropriada do que por sua própria natureza já poderia ser. É o que acontece com uma das cineastas que mais tem se destacado nos últimos anos, representante de uma novíssima geração, Carolina Jabor (“Boa Sorte”, 2014), ao mostrar ao grande público o seu mais recente longa-metragem, intitulado com bastante coerência, “Aos Teus Olhos”, seguindo a sua linha de abordagem de temas polêmicos, como a alta capacidade destrutiva inerente às comunicações instantâneas virtuais em desmoronar a imagem pública de alguém, baseada tão somente em circunstâncias, situações, ilações e episódios que potencialmente poderiam justificar o “linchamento moral” (expressão usada pela diretora) de que sofre a pessoa alvo dos ataques. Em abril de 2018, mais de duas semanas após o seu lançamento, notícias sobre supostos casos de pedofilia grassaram nas mídias nacionais (hoje sob investigação), e as perigosas “fake news” estão cada vez mais em pauta devido à sua gravidade e rapidez de disseminação nos meios das redes sociais, na tentativa de agregar o maior número possível de usuários junto a uma causa ou ideia.

Carolina Jabor e os roteiristas Lucas Paraizo e George Moura, supervisor, deixam com o público o poder de decidir acerca da culpabilidade ou não do personagem principal 

Carolina Jabor, com extrema responsabilidade e cuidado, lança mão de um suposto caso de pedofilia praticado por um professor de natação de um clube de classe média, Rubens, interpretado por Daniel de Oliveira, junto a um de seus alunos, Alex (Luiz Felipe Mello), um menino de oito anos. Na verdade, o suposto ato pedófilo é apenas um instrumento eficaz que serve brilhantemente à proposta de Carolina, que contou com os excelentes roteiristas Lucas Paraizo e George Moura (supervisor) para fazer uma forte e pungente denúncia contra este nocivo e acessível poder que está bem ao alcance das pessoas comuns, que se sentem no direito, sem estarem alicerçadas em provas materiais legitimamente configuradas e legais, por meio da troca de mensagens privadas e públicas, de colocar em “julgamento” alguém que consideram “inadequado” ao convívio social. Escorada pelos excelentes diálogos de Lucas e George, Carolina cria uma história dramática, envolvente, que vai ganhando, com o desenrolar de seu entrecho, um suspense irresistível. Tendo como inspiração a peça do catalão Josep Maria Miró, “O Princípio de Arquimedes” (“El Principi d’Arquimedes”, 2012), e o longa-metragem espanhol “El Virus de La Por” (2015), de Ventura Pons, os roteiristas estruturaram a narrativa de modo que os espectadores se confundam no que concerne à realidade dos fatos, usando a ambiguidade da personalidade de Rubens, e as possíveis variações de impressões e interpretações de acontecimentos naturais a uma criança de 8 anos. Essas dubiedades pessoais são uma pujante arma usada por Carolina para se manter distanciada do espinhoso assunto, deixando a cargo das plateias tomar a sua própria decisão quanto à culpabilidade ou não do acusado.

Uma envolvente e perturbadora história que se vale de um suposto caso de pedofilia para denunciar o perigo do julgamento precipitado dos indivíduos nos meios virtuais  

Rubens é um rapaz bonito, carismático, atlético e popular, professor adorado pelos seus alunos, e admirado por sua competência pela diretora do clube Ana (Malu Galli). Alex, filho de pais separados que vivem às turras, Davi (Marco Ricca) e Marisa (Stella Rabello), também apresenta um comportamento que suscita questionamentos, ao se revelar amedrontado um dia antes de uma competição esportiva, o que leva o seu professor a levá-lo em separado ao vestiário, longe das câmeras, a fim de acalmá-lo. No filme, uma habilidade do roteiro, em instante algum ouvimos a versão da criança, que acaba ficando, para a sua frustração, em segundo lugar no certame. A partir daí, passa a não querer mais frequentar as aulas de natação. Segundo sua mãe, uma mulher nervosa e solitária, o menino lhe disse que o seu professor lhe deu um beijo na boca. Marisa conta ao seu ex-marido o episódio, deixando-o, assim como nós, desorientados. Há outra grande sacada em “Aos Teus Olhos”, que é a de exibir Rubens como sendo um jovem adulto realmente capaz de aliciar crianças, facilitado pelo seu constante contato com elas. Em conversas no vestiário com o seu colega, o professor Heitor (Gustavo Falcão), Rubens, de modo fanfarrão, bem diferente da forma como se comporta para os demais, revela-se desrespeitoso ao se referir às desenvolvidas formas físicas e às atitudes de algumas alunas adolescentes, pronuncia termos chulos, comenta sobre uma de suas mães de maneira desairosa, sendo repreendido pelo amigo, além de armazenar nos arquivos do seu celular fotos dessas alunas, e adicioná-las na rede social mesmo sendo menores de idade. Um fato pontual nos chama a atenção. Um menino homossexual lhe agradece os conselhos que lhe foram dados na conquista de outro garoto. Enfim, são evidências que, queiramos ou não, colocam-nos em dúvida, sempre propositadamente pelo roteiro. Outra questão demasiado relevante levantada pela diretora é a suposta homossexualidade do professor, que, por sinal, possui uma namorada, Sofia (Luisa Arraes). As perguntas, dentre tantas, que nos são feitas são as seguintes: “Se Rubens fosse comprovadamente heterossexual, haveria tanta celeuma e ódio por parte dos pais dos alunos? E se ele fosse ríspido e grosseiro com os seus filhos, ao invés de ser carinhoso, haveria tamanho levante dos pais?” O que não se pode em nenhum momento é associar naturalmente homossexualismo com pedofilia, como, devido à ignorância e ao preconceito, muitas pessoas o fazem.

Carolina Jabor se revela uma diretora com grande domínio sobre as imagens

A direção de Carolina Jabor comprova a sua imensurável destreza em conduzir uma câmera (impossível não dizer que pode se tratar de algo atávico, haja vista, como sabem, que é filha de Arnaldo Jabor, um de nossos melhores cineastas). Carolina se empenha com enorme êxito em desfilar os perfis psicológicos dos principais personagens do filme, condição impreterível para que nós mesmos, como já fora dito, desenhemos as nossas conclusões de suas ações e posicionamentos. A diretora extrai de seu formidável elenco atuações intensas, ricas, incomodamente poderosas. Ela abusa com impressionante segurança dos movimentos de câmera que acompanham os seus atores, principalmente por trás, cenas no interior dos carros, closes nos dispositivos eletrônicos (destaque para as cenas em que Marisa escreve pela primeira vez em um grupo de mensagens privadas a denúncia ao professor, apagando e corrigindo as palavras ansiosamente, e depois, em outro grupo maior, curtindo o que está em consonância com suas acusações, num processo assustador de aniquilamento da imagem de um homem; e a em que Rubens apaga as fotos de seus arquivos, além daquela em que a forte luz do seu celular reflete em seu rosto apavorado e atônito, ao ler a notícia negativa o envolvendo). Possivelmente as cenas feitas com maior maestria e simbologia foram aquelas executadas dentro da piscina, de todos os ângulos viáveis, com efeitos visualmente belos e perturbadores. Os olhares dos intérpretes nos dizem muito de suas intenções e reações.

Daniel de Oliveira, Marco Ricca, Malu Galli e Stella Rabello ostentam com excelência seu potencial interpretativo diante das complexidades psicológicas e comportamentais envolvendo os seus personagens 

Daniel de Oliveira foi uma escolha acertadíssima. Com experiência respeitável no cinema, o ator conhece com perfeição a linguagem deste veículo. Encaixando-se com exatidão no “physique du rôle” do personagem, Daniel, sem dúvida, um de nossos atores jovens com trajetória mais sólida e consistente, construiu o seu complexo personagem com uma dedicação apurada e inteligente, atendo-se a detalhes gestuais e de postura, e emissão vocal que nos fazem ter dúvidas acerca da orientação sexual de Rubens. Um trabalho que lhe exigiu sutileza e observação. Ele é ao mesmo tempo viril e delicado, forte e frágil, sedutor e repulsivo (quando ostenta o seu outro lado). Daniel de Oliveira faz um percurso difícil de seu papel, que vai da euforia como educador de crianças em um clube até o total e absoluto desalento e abandono face ao desmoronamento de sua imagem e vida. Um notável momento na carreira do ator. Marco Ricca, como sempre excelente em todos os papéis que defende, mais uma vez não nos desaponta. Marco absorve as oscilações de humor, as dúvidas e hesitações de Davi com soberba compreensão das situações vividas pelo seu personagem. Mantendo uma postura severa, impassível, mesmo extremamente abalado com o fato, Marco Ricca, convicto e resoluto, não desvia de sua admirável rota de interpretação um minuto sequer, atingindo com grandeza seus objetivos. Podemos dizer que uma de suas melhores cenas é aquela em que defronte ao delegado (Rodrigo de Jesus) toma conhecimento de que o seu filho poderá passar por um exame de corpo de delito. Malu Galli, atriz de imenso potencial dramático, ganhou para si a responsabilidade de emprestar à diretora do clube uma inicial imparcialidade e sobriedade que aos poucos vai se transmutando face à modificação dos eventos. Esta sequência de acontecimentos exige da atriz elogiável exercício de controle de suas emoções, pois está no centro da crise deflagrada. Stella Rabello realiza um honroso trabalho de composição de personagem. Cabe-lhe fornecer a Marisa uma gama de sentimentos de graus variáveis, que permeiam a emoção desvairada, a intensidade comportamental, a sede irrefreável pela sua “justiça”, e sua cegueira temerária, em nome da proteção de seu filho, que a faz se precipitar de maneira insana, tornando-se a maior representante desta espiral de irracionalidade de linchamento moral do professor. Luisa Arraes, Gustavo Falcão, Luiz Felipe Mello, Rodrigo de Jesus e Clarissa Pinheiro (a garota de programa na delegacia) se saem muito bem em seus papéis.

Direção de fotografia em consonância com a realidade, montagem calculada com precisão e trilha sonora atordoante 

O filme, que foi laureado no Festival do Rio 2017 (Melhor Ator – Daniel de Oliveira, Melhor Ator Coadjuvante – Marco Ricca, Melhor Roteiro e Melhor Filme do Júri Popular), no Prêmio Petrobras de Cinema (Melhor Ficção Mostra SP 2017), no Mix Brasil (Melhor Direção), e no Festival de Havana (Prêmio Signis 2017), teve como diretor de fotografia Azul Serra (Azul apostou em tons neutros, naturais, quase esmaecidos, que se aproximassem ao máximo da realidade), como montador Sergio Mekler (há um sequenciamento, com cortes precisos, em que se busca uma crescente atmosfera de tensão e suspense) e como titulares da trilha sonora o mesmo Sergio e Thiago Nassif (a trilha é atordoante, acompanhando com fidelidade as perturbações psicológicas dos personagens).

“Aos Teus Olhos” faz uma denúncia urgente e indispensável sobre a “Corte Sumária” em que se transformou a internet, por meio de suas comunicações virtuais instantâneas

“Aos Teus Olhos” é uma obra necessária, indispensável e obrigatória, que cumpre um papel denunciatório urgente das mazelas virtuais, que se alastram dia após dia com maior realce. Mazelas essas, reafirmo, com potencial destrutivo da imagem individual sem precedentes e irreversível. Pode-se considerar hoje a internet como uma “Corte Sumária”, por seu viés julgador e poderoso, sem a preocupação de se ter provas materiais, baseada apenas nas vontades de uma pessoa que acredita numa verdade que pode ser somente a sua, com consequências devastadoras para quem for a sua vítima. Com a internet, abriram-se, perigosamente, novos conceitos de verdade, apoiados em suas rápidas ferramentas com comunicação de largo alcance. Carolina Jabor abriu ainda mais os nossos olhos. “Aos Teus Olhos” é um filme para ser curtido, favoritado e compartilhado. Sem julgamentos precipitados. Que fique bem claro.

Fernando
Foto: Divulgação do filme

A importância do documentário no Brasil, o empenho dos diretores e roteiristas Igor Angelkorte, Paula Vilela e Julia Ariani em levar “Fernando” às telas, sua passagem por festivais e os prêmios ganhos  

Fazer cinema no Brasil sempre foi difícil. A despeito dessa contingência adversa, produtores, diretores e atores nunca se deram por vencidos, e a indústria audiovisual, mesmo que interrompida por períodos pontuais, ressurge com a força que lhe é peculiar. A “Retomada”, ocorrida na metade da década de 90 com “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, de Carla Camuratti, não me deixa mentir. Aventurar-se na realização de um gênero como o documentário é uma missão ainda mais inglória. A ficção, por carregar em si mesma um apelo natural de entretenimento, associado em não raros casos ao viés comercial, não se depara com obstáculos visíveis que possam atrapalhar o seu encontro com o público. O documentário, por sua natureza autoral, possuidor de um nicho de espectadores específicos, enfrenta reveses próprios que devem ser enfrentados com destemor pelos profissionais apreciadores deste valoroso tipo de filme. O Brasil, em sua rica filmografia, com todos os seus movimentos estéticos, invariavelmente ocupou um lugar de destaque no segmento dos documentários, sendo este representado por nomes como Silvio Tendler, Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Cada vez mais, estão sendo produzidos em nosso país filmes desta vertente com abordagens diversificadas e relevantes. Muitos documentaristas enveredaram pelos caminhos políticos, como Silvio Tendler (“Os Anos Jk” – Uma Trajetória Política” e “Jango”; atualmente está em cartaz com “Dedo na Ferida”), outros, como Eduardo Coutinho, optaram por temas religiosos (“Santo Forte”) e sociais e comportamentais (“Edifício Master”), e há aqueles como João Moreira Salles, que se debruçaram em obras bastante pessoais (“Santiago” e “Nelson Freire”). Igor Angelkorte, ator, dramaturgo e diretor teatral (Igor havia dirigido uma websérie, “Ferrugem”), Paula Vilela, atriz, produtora e idealizadora, e Julia Ariani não se intimidaram em colocar em prática uma ideia potencialmente não comercial, íntima e pessoal para os três, mas que tivesse elementos suficientes para surpreender e comover as plateias de cinema, não somente as que estimam o gênero documentário. Esta mesma ideia consistia no registro filmográfico do dia a dia de uma pessoa que lhes é demasiado cara e fundamental em suas carreiras, o ator e professor de teatro Fernando Bohrer. Igor, Paula e Julia transpuseram outra barreira ao levar adiante este projeto que durou mais de um ano para ficar pronto. Dirigir e roteirizar em conjunto. A afinidade e sintonia de pensamentos e o mesmo olhar cinematográfico deste brilhante trio resultaram em um documentário com inquestionável qualidade, “Fernando”, lançado em junho de 2017. O filme foi exibido no Festival de Málaga (Cine en Español Sessão Oficial Documentários 2018), na 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes (Seleção Oficial Mostra Olhos Livres 2018), e no Olhar de Cinema Curitiba Int’l Film Festival (Prêmio do Público 2017 e Menção Honrosa Prêmio Olhares Brasil 2017).

Fotografia crua e naturalista, direção de arte e figurinos fiéis à realidade e montagem fluida

A ótima fotografia naturalista, real, crua, quase sem filtros, ficou sob o encargo de Pedro Faerstein. No entanto, este naturalismo por vezes é coerentemente quebrado por sombras e semi-luzes. Pedro soube aproveitar com precisão as possibilidades de luz proporcionadas pelos vários ambientes em que se passa a ação, inclusive as externas. A direção de arte e os figurinos de Liza Machado trouxeram a verdade cotidiana da vida de Fernando para bem próximo de nós. A montagem de Igor Angelkorte, Julia Ariani, Marina Figueiredo e Paula Vilela respeitou o tempo narrativo da obra sem grandes rupturas, ofertando-nos agradáveis linearidade e fluidez, não permitindo que perdêssemos uma única vez o interesse pela história. O elenco tem a participação de Rubens Barbot, Carolina Virgüez, o pianista Jacob Herzog, Igor Angelkorte, Chandelly Braz, Paula Vilela, Arnaldo Marques, Claudia Mele, Damiana Guimarães e Ligia Veiga.

O humanismo de “Fernando”, e por que se deve conhecer a vida do ator e professor de teatro Fernando Bohrer

“Fernando” é uma obra poética, pungente, bela e comovente, que faz um retrato sensível de um homem cuja vida é voltada para a arte da interpretação e a de ensinar, misturando com delicadeza ficção e realidade. O filme se distancia magistralmente dos documentários convencionais, nos quais se vê a conjunção de depoimentos e imagens de arquivo, conduzindo-nos com extrema habilidade e emoção, através de suas cenas inspiradas, com locações na cidade de Niterói, onde o friburguense Fernando mora, e no Rio de Janeiro, inclusive a Casa das Artes de Laranjeiras, instituição da qual é professor. Pode-se dizer que “Fernando” é um filme para se contemplar. Com influências da cinematografia francesa, com seus takes pausados, diálogos entremeados por longos silêncios, transformação do cotidiano em algo visualmente rico e significativo, esta obra fílmica possui, dentre os seus inúmeros méritos, o de ter, como seu personagem central, um indivíduo apaixonado, intenso, generoso, humano, bravo e encantadoramente sedutor. Acompanhamos a sua rotina como se fôssemos seus amigos ou seus alunos. Aprendemos com as suas aulas de teatro, solidarizamo-nos com ele em suas idas à médica (Carolina Virgüez, firme e convincente), sofremos com ele, torcemos, ficamos com os olhos marejados, sentimos arrepios emocionados. Sua relação com seu companheiro (Rubens Barbot, excelente) é arrebatadora, tocante, com uma cumplicidade sem igual. Um papo trivial entre eles na hora de preparar uma refeição, ou no momento de dormir, ganha uma dimensão humanizada. “Fernando” é em sua natureza um filme humanista. Humanista e otimista. Certas doses de melancolia presentes em sua narrativa não destituem o seu nato otimismo. Há em suas linhas e entrelinhas sinal de esperança. Com este documentário, passamos a acreditar um pouco mais no homem, e em suas qualidades e virtudes. Vimos o homem pianista, o professor que nos ensina a respirar, e a nos conscientizar com os nossos corpos no processo de construção do personagem. Testemunhamos o artista simples que almoça na praça, e faz anotações na intimidade. Deparamo-nos com a sua humildade ao receber orientações do diretor Igor Angelkorte quando encenou a peça “Elefante”. Embarcamos na sua profusão de criatividade ao explicar à representante de uma editora como gostaria que o seu livro fosse escrito. O homem que se reúne com os amigos, que não acredita na política, e sim, na vida. Nossos corações se apertam ao olharmos a sua prosaica volta para a casa, solitário, numa rua de Niterói, parando em uma banca de frutas, escolhendo bananas e uvas. Simples, mas forte em sua mensagem. O filme desmistifica o ofício de ator quando o associam ao glamour, à fama, ao prestígio, ao dinheiro e ao poder. Sua vida não tem glamour, pois é real. Fernando não sai em capa de revista. Nem está nas redes sociais. Sua vida não é acompanhada por milhões de seguidores. Isso não o faz menos artista. Fernando é um artista imenso. Fernando é uma aula de ser humano. Igor Angelkorte, Paula Vilela e Julia Ariani perceberam isso. E souberam com grande maestria dividir Fernando conosco. Todos, atores e não atores, devem obrigatoriamente assistir a esse documentário. Ao final da sessão, prestaremos mais atenção nos detalhes do cotidiano. Não reclamaremos de sua monotonia e repetição. Basta que nos lembremos da riqueza “simplória” da rotina de Fernando. Tive o privilégio de conhecer e conversar com este homem por duas vezes. Tive o privilégio de vê-lo em cena. Senti vontade de voltar no tempo, e ser um de seus alunos. Pude lhe dar um forte abraço. Todos deveriam lhe dar um forte abraço. Conhecer Fernando deveria ser uma regra.

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Foto: Matheus José Maria

A ousadia de Maitê Proença e Amir Haddad em montarem um texto do século XV, e a tradução impecável de José Francisco Botelho indicada ao Prêmio Jabuti

O teatro é um espaço artístico democraticamente aberto para a concretização de muitas possibilidades. Possibilidades que transcendem até mesmo o conceito universal compreendido como prática teatral. Imaginemos um texto literário publicado por um inglês, Geoffrey Chaucer, na segunda metade do século XV (1475), no final da Idade Média, dividido em contos, os “Contos da Cantuária”, sendo que, em um deles, “A Mulher de Bath”, a personagem principal, Alice, é uma mulher à frente de seu tempo, libertária, viúva em cinco casamentos, à procura de um sexto marido, defensora de suas escolhas numa relação matrimonial, incluindo-se a satisfação plena e absoluta de sua sexualidade, enfrentando, por intermédio de suas inteligentes artimanhas, os mandos e desmandos de seus cônjuges, três deles poderosos e endinheirados, quando sequer se poderia aventar o surgimento de movimentos propriamente feministas, que só viriam a tomar forma no distante século XX. Este mesmo texto com vieses progressistas serviu de base à época para a sedimentação, solidificação e consolidação da literatura inglesa como a conhecemos, seja na língua do país de origem, na poesia, na ficção e na oratória. Até William Shakespeare se valeu desses escritos como referência para a criação de suas clássicas peças. A atriz e escritora Maitê Proença se interessou por um dos contos de Chaucer (justamente “A Mulher de Bath”), tornando-se a idealizadora deste aparentemente difícil projeto, e convidou para dirigi-la nos palcos ninguém menos do que um de nossos mais respeitados e eminentes diretores brasileiros, Amir Haddad, fundador do célebre grupo Tá na Rua. O primeiro passo seria o de se fazer uma tradução que aproximasse o legado do escritor e filósofo inglês o máximo possível de uma experiência teatral convincente e aprazível, com uma linguagem que conquistasse as plateias, sem ferir o cerne da literatura de seu autor. A José Francisco Botelho coube a desafiadora missão de traduzir a obra de Chaucer. Não se pode ignorar o fato de que os seus contos foram imaginados no período medieval, com modos de tratamento diferenciados e vocabulário rebuscado. José Francisco, indicado ao Prêmio Jabuti por este trabalho, transpôs com avolumada destreza e habilidade os originais para uma linha de comunicação cênica que pudesse ser absorvida com facilidade pelo público. Sua grande sacada foi a de ter se inspirado, para tal feito, no rico cancioneiro popular nacional, na saborosa musicalidade dos repentes nordestinos, na tradição da trova gaúcha, e na poesia oral do interior do país. Sua tradução dimensiona a leveza e o humor de maneira que assumam lugar de destaque na peça. Não se pode considerar a literatura de Geoffrey Chaucer como um produto dramatúrgico com todos os elementos que o caracterizam. Mas em sua essência percebemos uma legítima teatralidade, o que justifica a sua transposição para o campo cênico. O próprio Amir Haddad diz: “O apelo teatral de sua narrativa é evidente e poderoso e serve muito bem a ideia de um teatro que se quer mais, o teatro para saber o que é isso, o teatro”. Maitê, mais uma vez movida pela sua paixão em encenar um dos “Contos da Cantuária”, traz para si a tarefa hercúlea de adaptar a tradução de José Francisco para a ribalta. Seu empenho, sua devoção e sua alegria ao realizar este sonho profissional são visíveis não só em sua cuidadosa adaptação, mas em sua total entrega à personificação da mulher que intitula o espetáculo. Segue o que disse a atriz: “Nunca estive tão segura da qualidade do que ofereço ao público. Em conteúdo e diversão.”

Alice, a “Mulher de Bath”, impressiona pelas suas ideias progressistas em plena Idade Média

A história se passa em 1380 durante uma peregrinação rumo ao túmulo de São Thomas Becket, na região da Cantuária (Canterbury), e dentre os peregrinos se encontra Alice. Há entre eles uma competição de contos, que deverão abordar diversos tempos e lugares. O vencedor, ou seja, o melhor narrador, teria direito a uma noite de excessos na mais famosa taverna do local. Alice passa a narrar então as suas aventuras e desventuras por que passou durante os seus cinco casamentos, tendo saído viúva de todos eles, como fora dito antes. Trata-se de uma mulher com um discurso fervoroso, acalorado, sem pudor, no qual desvela corajosamente seus sentimentos, desejos, emoções e escolhas. Uma retórica forte em defesa de sua condição feminina. A mulher de Bath (uma cidade da Inglaterra) discorre sobre fatos íntimos com espantosa naturalidade. Muitas questões são levantadas por Alice, levando-se em conta seus cinco matrimônios. O amor, a paixão, o sentido de pecado, a liberdade sexual feminina, a religiosidade, o poder e a hierarquia no casamento, e o dinheiro como mola de interesse da relação são objetos de reflexão deste indivíduo com ideias inacreditavelmente avançadas para o seu tempo. Toda a sua eloquente fala vem acompanhada por um autêntico humor. Entretanto, a despeito de se notar em suas palavras uma conotação pró-feminismo, constatamos que esta mesma mulher não se furta de nos confidenciar seus erros, defeitos, e ardis de que se valeu para enganar os seus maridos, principalmente os mais velhos e abonados. Alice não é contra os homens, muito pelo contrário. Julga importante sua união com eles por meio da instituição do casamento. A prova desta posição se evidencia pelas suas vontades de se casar novamente (esta circunstância a conduz aos vários matizes de suas reflexões e observações). Em determinado momento da montagem, a intérprete pede permissão aos espectadores para encenar um outro conto (cuja inserção foi aprovada pelo seu diretor), fabular, ambientado no reino fantasioso e lendário do Rei Arthur. A lição deste conto, que envolve um rapaz acusado de estupro e sua busca infatigável pela descoberta dos mistérios que encobrem o real desejo das mulheres, a mando da Rainha, a fim de que a sua punição não lhe seja imputada – a pena de morte, interliga-se com os conceitos e preconceitos associados à beleza, à velhice e ao amor incondicional.

Amir Haddad impõe ao espetáculo a liberdade artística que o consagrou

A direção de Amir Haddad confere ao espetáculo uma saudável liberdade artística. Esta liberdade é perceptível em bastantes situações e opções cênicas, como por exemplo as oportunidades concedidas à atriz em se conectar francamente com o seu público, como se estivesse em meio a um diálogo ou conversação. Logo no início da peça, Maitê, num tom coloquial, deixa-nos informados sobre do que se trata a história que irá nos contar, fazendo uma comparação entre aquele tempo em que se saía das trevas para se encontrar a luz e os atuais. O resultado é uma intimidade conquistada genuinamente com os espectadores graças ao seu grande poder de sedução artística. Amir optou pelo espaço cênico amplamente aberto, imiscuindo elementos cenográficos e coxias. As marcações definidas, variadas, foram pensadas de modo a ocupar a maior extensão possível do perímetro do teatro. O encenador também procurou dinamizar o desenvolvimento narrativo com estratégicas entradas e saídas de cena da protagonista. Houve de sua parte uma atenção especial em desenhar toda a montagem com as intervenções e pontuações musicais de Alessandro Persan (também assistente de direção), presente durante todo o espetáculo, fazendo as vezes, quando necessário, de intérprete.

Maitê Proença, uma intérprete cada vez mais luminosa 

Maitê Proença, uma de nossas maiores estrelas da TV e do cinema, surgida no início da década de 80, com relevante trajetória no teatro também, possui, não há como negar, aquilo que os americanos costumam atribuir às suas atrizes com imensurável potencial de construir uma carreira de sucesso, somando a um só tempo beleza, talento e carisma, o “star quality”. Sua entrada discreta no palco, sem que a peça tivesse sequer começado, com as luzes do teatro ainda acesas e a plateia se acomodando, apenas com uma música sendo tocada por Alessandro Persan, posicionado no fundo esquerdo do palco, já causa um certo frisson nos espectadores. Ao introduzir sua conversa com o público, imediatamente nos damos conta de sua elevada capacidade de encantamento, uma avassaladora simpatia que se alia a uma irresistível naturalidade ao falar. Ou seja, Maitê consegue em poucos instantes o que já é um enorme ganho para a intérprete, dominar os que foram lhe assistir. No melhor dos sentidos. A artista pôde, com esta montagem, realizar um valioso exercício de atuação, pois muitos são os momentos em que tem que manifestar, de diferentes formas, as nuances de emoções de sua personagem, além dos que estão presentes na fábula, como a Rainha, o jovem e a idosa. Maitê, com uma postura empertigada e elegante invejável, movimenta-se com altivez por toda a ribalta, gesticula com graça, faz mesuras, deita-se, sempre com desenvoltura. Uma prova de sua elogiável expressividade corporal. Uma das características mais marcantes da performance de Maitê é a sua equilibrada frequência de humor. Sua comicidade é fina, concisa, no ponto certo. Nada do que diz nos soa ofensivo, independente do significado das palavras. Completando 40 anos de carreira, Maitê Proença não só continua belíssima, como o seu talento está cada vez mais lapidado.

Cenário baseado em símbolos da época, figurinos vivos e exuberantes, adereços delicados, iluminação objetiva, sem firulas estéticas, preparação corporal elogiável e trilha sonora coerente e fiel ao período

O cenário de Luiz Henrique Sá exerce a função de, com poucos, mais expressivos elementos, reportar-nos ao universo medieval em que decorrem os episódios do conto. Sua economicidade traduz uma escolha convicta por representar o período através de símbolos. Seus móveis de madeira possuem desenhos recortados (cadeiras, mesa com pés vazados, banqueta, uma espécie de confessionário com seu respectivo genuflexório com detalhes em azul-marinho – que terá outra missão, e um cortinado cor de areia ao fundo). O músico e ator Alessandro Persan conduz a sua trilha sonora tendo o seu instrumento de trabalho em cima de um suporte de madeira, em consonância com o que foi descrito. Há ainda como significativos complementos cálices e jarra prateados e livros com brochura antiga. Os figurinos são de Angèle Fróes, que se destacam pela vivacidade e exuberância de suas cores, e pelo respeito aos cortes usados neste tempo histórico. Maitê, na maior parte da obra, veste um bonito vestido em camadas com vermelhos distintos, no qual se veem bordados e transparências, calçando com harmonia sapatos de mesma tonalidade (assemelha-se a um escarpim), além de um cinto verde com um camafeu. A intérprete lança mão de um mantô bordeaux por vezes. Em outra ocasião, traja mais um vestido, seguindo a mesma linha de bordados e transparências, com texturas verde-água. E como arremate, numa cena imponente, apresenta-se com uma bela capa vermelha com capuz, realçada pela beleza da atriz. Alessandro Persan usa peças, camisa, calça e sapatos, pretas. Os delicados adereços são criação de Marcilio Barroco. A artista tem os seus cabelos presos por uma rede branca transparente ornada por pedras em formato de pérolas, assim como ostenta um marcante crucifixo sobre o colo do peito. Como a Rainha exibe a sua coroa cheia de brilhos ofuscantes. A iluminação de Vilmar Olos privilegia o plano aberto, com pequenas oscilações de intensidade, sempre se harmonizando com o andamento do entrecho cênico. Vilmar disponibiliza quatro refletores na reta do chão, numa geometria praticamente quadrangular, com seus feixes direcionados para a atriz no centro do tablado. Lança mão até mesmo da iluminação completa da plateia. Seu trabalho busca e consegue uma objetividade e precisão visuais, sem truques ou firulas estéticas, ofertando ao espetáculo e às suas variações narrativas o mais coerente e indispensável resultado. Marina Salomon ficou responsável pela preparação corporal da atriz. Marina realizou um ótimo trabalho, extremamente bem compreendido por Maitê. Como já mencionado anteriormente, a intérprete chama a atenção pela sua postura ereta, elegante, altiva, típica de uma fidalga. Em nenhum episódio, a artista se desgarra de sua consciência corporal. E são muitas as variantes de movimentações que lhe são exigidas. Como se trata de um solo artístico, a despeito das entradas necessárias de Alessandro Persan, este quesito é demasiado importante, pois todos os olhos estão voltados para a sua performance. A trilha sonora pertence a Alessandro Persan. O músico executa com impecável eficiência a sua incumbência de atribuir à encenação a ambiência identificável do período medieval por intermédio das melodias. Sejam elas incidentais/instrumentais, utilizando-se de instrumentos musicais da época, como a harpa, sejam com suportes vocais, como cantos gregorianos, o fato é que a sua música é praticamente um personagem do espetáculo, considerando-se a sua relevância no desenho do quadro narrativo.

Uma peça cujo tema reverbera nos tempos atuais

“A Mulher de Bath”, de Geoffrey Chaucer, possui inegáveis méritos. Trata-se de um retrato com registros históricos que carrega em si elementos conectivos com a realidade contemporânea. As ideias progressistas/feministas, avant-garde, sem ranços chauvinistas, de Alice reverberam na atualidade com os movimentos pós-feministas que grassam no final da segunda década dos anos 2000. “A Mulher de Bath” não é um espetáculo que se propõe a pôr em questão, de forma adversa, o papel do homem na sociedade. Nem desconsidera o estado de ser masculino. Longe disso. A peça tão somente abre um espaço, usando um termo presente, ao poder de fala da mulher. Não vamos cair no fácil clichê de que se trata de uma obra que faz apologia ao empoderamento feminino. Esta expressão criada recentemente serve sim ao poder da mulher. Ao poder da mulher que exige respeito e igualdade. “A Mulher de Bath” é uma peça sobre mulher, com a voz de uma mulher, dirigida por um homem, mas, prova de sua inquestionável significância, voltada para todos. Homens, mulheres… e mulheres de Bath.

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Foto: Juliana Hilal

A montagem de um texto necessário e extremamente atual 

Há cinquenta anos, no dia 4 de abril de 1968, um dos maiores e mais importantes líderes do movimento em defesa dos direitos civis dos negros, o americano nascido em Atlanta Martin Luther King Jr., era assassinado na sacada do hotel Lorraine, em Memphis, estado do Tennessee. Em 9 de outubro de 2015, um dos casais de artistas mais populares do país, admirados não só pelo seu inquestionável talento, mas pelas ideias que preconizam, seus posicionamentos sociais e artísticos, seu engajamento em causas coletivas, sua representatividade nas Artes e na sociedade como um todo, Lázaro Ramos e Taís Araújo, estreavam em São Paulo o espetáculo “O Topo da Montanha”, da jovem dramaturga Katori Hall, também americana. A encenação que se passa no quarto do hotel citado na noite anterior à morte criminosa do líder ganhador do Nobel da Paz (1964) carrega em si mesma uma fonte inesgotável de símbolos e significados que a fazem ser associada a um ato público cênico da mais alta relevância. Sua montagem se revela como uma pujante resposta aos tempos de intolerância generalizada em que vivemos, potencializados pela globalização virtual, em que vozes de ódio contra as diferenças, muitas vezes acobertadas pelo anonimato covarde, ocupam seus lugares. Essas vozes são ouvidas e replicadas, transformando-se em uma devastadora onda falso moralista, discriminatória e intransigente, com consequências preocupantes. Cabe a nós, sociedade cônscia da preservação do direito inalienável de igualdade entre os homens, resistir, sem violência, através da união pelo poder da palavra, do diálogo, da representação política isenta e justa, e das manifestações culturais e artísticas legitimadas, a esses ataques que passam ao largo da razão.

Um encontro ficcional que mudou o líder pacifista Martin Luther King Jr.

A trama se desenrola, como dito, em um quarto de hotel numa noite chuvosa de Memphis, em que se vê um Martin Luther King (Lázaro Ramos) solitário, sedento por tragadas de cigarro, fazendo rápidas anotações em um pequeno bloco, transmitindo-nos um pouco de angústia e ansiedade, a todo o momento se perguntando onde estaria o seu amigo Ralph, após o seu derradeiro discurso (“I’ve Been to the Mountaintop – “O Topo da Montanha”) na Igreja de Mason, na mesma cidade. Todo o desenho da situação começa a mudar a partir da entrada em cena da camareira do hotel, Camae, uma jovem espontânea, simples e contestadora, em seu primeiro dia de trabalho, interpretada por Taís Araújo. A construção da relação do Reverendo protestante Martin e da camareira Macae se dá de forma paulatina, em meio a conversas corriqueiras e fugazes, provocações e questionamentos de ambas as partes até se chegar a um intenso embate ideológico que leva o líder religioso a um processo profundo de revisão de seus métodos de propagação de ideias junto às massas oprimidas de sua nação. Casado, com filhos, carinhoso com sua família, o homem que pregava o amor (jamais a violência, adotada por outro grande líder defensor dos direitos dos negros, Malcom X), como forma eficaz de debelar as desigualdades e injustiças de seu povo, utilizando-se do mecanismo das marchas, como a célebre “Marcha sobre Washington”, de 1963, (onde proferiu o antológico discurso “I Have a Dream”), é confrontado sistematicamente pela bela Camae, que além de o seduzir, lembra-lhe de que os dois, a despeito de pertencerem à mesma raça, e de lutarem pelos mesmos direitos, representam classes sociais diferentes, sendo ele, em suas palavras, um “negro burguês”. Essas contendas entre o casal no espaço exíguo do hotel, entre idas e vindas de um discreto banheiro (há um certo ar claustrofóbico no quarto 306 do hotel Lorraine, como se ambos fossem obrigados a ficar ali, proibidos de sair, devido às fortes chuvas, e por conseguinte forçados a se defrontar), interrompidas pelas tosses recorrentes de Martin causadas pelo fumo, não são exclusivas no encontro da dupla, havendo manifestações de afetuosidade e companheirismo, pois afinal, efetivamente, são vítimas do mesmo regime segregacionista dos Estados Unidos que começou a se avolumar na década de 50. Com o passar das horas, Camae, com sua habilidade retórica, consegue, aos poucos, fazer com que Luther King inicie uma autoavaliação pessoal, possibilitando-lhe enxergar que, por trás do homem firme e incisivo na oratória e no enfrentamento corajoso das mazelas sociais, existe um ser humano comum, frágil, sensível, com dúvidas referentes a Deus e à sua própria fé. Um homem com medo da morte. Um homem que teme o seu fim sem dar continuidade à sua luta. Esta jornada de Macae em busca do autoconhecimento do reverendo e de sua humanização é sem dúvida uma das propostas da peça. À certa altura do espetáculo, ocorre uma reviravolta de identidades que irá modificar amiúde os contexto e sentido da narrativa, com o uso criterioso e convincente de licenças poéticas. A obra caminha para o seu final com passagens inflamadas e emocionantes, fazendo jus à trajetória marcante e indispensável do líder pacifista que mudou a História dos Estados Unidos da América e sua relação com os seus filhos negros.

Dramaturgia fluente, instigante, poética e divertida

Quando a dramaturgia de Katori Hall foi levada aos palcos ingleses em 2009, os espectadores e a crítica londrinos logo foram conquistados, resultando no Prêmio Lawrence Olivier de Melhor Peça Estreante. O sucesso atravessou o Atlântico quando, em 2011, foi a vez da Broadway apresentar a sua versão, com Samuel L. Jackson e Angela Bassett. Aqui no Brasil a tradução ficou a cargo de Silvio Albuquerque (com consultoria dramatúrgica de Angelo Flávio), que realizou um primoroso trabalho, mantendo toda a atmosfera envolvente, intimista e poética, leve e dramática (o humor sempre presente no espetáculo é um elemento que oferece à encenação uma ponte de comunicação indiscutivelmente bem-sucedida com a plateia, graças ao carisma de seus protagonistas, favorecendo o nascimento de uma empatia salutar com os personagens), com uma dinâmica crescente e progressiva imprescindível para que acompanhemos com evolutivo interesse o desenvolvimento narrativo. O texto não faz um retrato biográfico estrito do reverendo considerado por muitos um mártir. Fatos históricos e passagens da sua vida são citados, mas inseridos na contextualização dramatúrgica adotada. A concepção de se colocar uma personagem externa (Camae) com o intuito de se fazer um contraponto com Martin, a fim de que as ideias e pensamentos dos dois lados fossem colocados frente a frente impulsiona a peça, conferindo-lhe notável fluidez e agilidade cênica.

Uma direção focada na legitimidade da interpretação dos atores

A direção ficou sob o encargo do próprio Lázaro Ramos, que teve como codiretor Fernando Philbert. Conciliar direção e atuação é uma tarefa arriscada e audaciosa, no entanto o diretor, que já conduziu montagens elogiadas como “Namíbia, Não!”, sai-se brilhantemente bem nesta função. Lázaro e Fernando miraram o seu olhar com generosidade para o campo interpretativo. Apostando na força emotiva dos atores protagonistas, atingir-se-ia com mais facilidade a verdade genuína dos personagens, absolutamente necessária para o sucesso da peça. O empenho da direção foi alcançado ao se perceber um elevado grau de credibilidade na performance do elenco. O foco centrado no permanente jogo cênico travado entre Luther King e Macae demandou da dupla de diretores uma imensurável capacidade de armar movimentações cênicas, assim como as pausas e os silêncios, aproveitando da melhor maneira o espaço do palco, garantindo à obra um espectro completo e eminentemente convincente. Sob o ponto de vista estético, há uma exuberante profusão de imagens projetadas no fundo da ribalta (de arquivo, exibindo fatos simbólicos da luta dos negros pelos seus direitos civis, e de insignes personalidades negras). Este recurso quando bem utilizado (como ocorre na peça) serve como instrumento infalível de embelezamento da produção assim como meio de informação complementar do texto (preciosa, com valoroso trabalho de pesquisa, colaboração de Rico Vilarouca e Renato Vilarouca).

Um grande encontro entre Lázaro Ramos e Taís Araújo

Lázaro Ramos, como o Reverendo Martin Luther King Jr., um ator com um carisma indescritível, constrói este emblemático personagem percorrendo uma série de caminhos de interpretação que se ramificam em diversas camadas emocionais, sendo todas elas correspondidas com garbo pelo talentoso artista. Lázaro desfila com desenvoltura por variados aspectos do perfil de seu complexo papel. Primeiramente, ostenta um Martin naturalista e sóbrio, em seus pioneiros colóquios com Macae. O tom irônico, objetivo e rápido de suas reações às investidas inquisidoras da camareira define um outro segmento de sua atuação. Na TV e no cinema, o público se acostumou, ao assistir a alguns de seus populares tipos, em testemunhar um intérprete com nítido pendor para a comédia. Em alguns instantes da peça, presenciamos este resvalo humorístico de Lázaro, para o delírio do público. Em determinadas ocasiões, podemos conferir a canalização de suas emoções para um nível de potência elevado. Lázaro Ramos, pode-se afirmar com toda a certeza, personificou este mito histórico com distintas galhardia, elegância, inteligência e dignidade. Taís Araújo (indicada ao Prêmio Shell), reconhecidamente uma de nossas estrelas da televisão, possuidora de um “star quality” inquestionável (com vasta experiência nos outros dois setores, as Artes Cênicas e o cinema), resolveu mergulhar fundo na alma misteriosa de sua personagem Macae. Macae surge de repente na história, manipulando com destreza os desdobramentos dos episódios daquela noite, envolvendo Martin numa rede de revelações próprias que o faz ser levado ao seu autoconhecimento. Esta difícil missão exige de Taís um notável “tour de force” interpretativo, no qual ela mesma se impõe o desafio de manter a ambiguidade da origem de sua personagem. A atriz, do mesmo modo que Lázaro, foi conduzida por uma linha de interpretação que lhe exigiu a apresentação de diferenciadas manifestações comportamentais, em consonância com as emoções esperadas. A artista compõe com admirável compreensão de seu papel uma Macae simplória, popular, espontânea, natural e divertida. Mas Macae a obriga a expressar ainda mais a sua habilidade como intérprete, ao fazer com que identifiquemos na camareira do hotel uma mulher persuasiva, dotada de impressionante personalidade, com a capacidade de, apoiada na sua inteligência ideológica, induzir o seu companheiro de quarto, o líder Martin, a rever toda a sua vida e posição política. Enfim, Lázaro Ramos e Taís Araújo, juntos em cena, comprovam-nos o potente entrosamento artístico que existe entre eles, como se cada um conhecesse do outro as suas diversas e intrínsecas intenções no palco, correspondendo, a partir dessas impressões intuitivas, com a excelência das suas reações.

Cenografia, projeções visuais, iluminação, figurinos e trilha sonora prestam reverência à época histórica

A cenografia de André Cortez, baseada nos tons crus e neutros, como o cinza e o branco, sobressai-se pela sua notória funcionalidade somada à fidelização ao universo de um quarto simples de hotel americano do final da década de 60. André se vale de todos os elementos caracterizadores da ambiência do aposento, utilizando-se de duas camas de solteiro, com diminutas mesas de cabeceira (uma delas ao pé da cama) com seus respectivos abajures, uma mesa circular com duas cadeiras, uma espécie de pufe, e um cabideiro. O cenógrafo teve a feliz e criativa ideia de montar uma armação vazada, com possibilidades de ser deslocada, que delimita as dimensões do quarto. Em seu fundo, existe uma porta que leva ao banheiro, sempre à vista (como arremate, algo que se assemelha a um papel de parede figurativo típico desses cômodos). André Cortez possui dois grandes aliados, Rico e Renato Vilarouca (como supracitado, as instigantes projeções se conectam eficazmente com o cenário, com deslumbrantes efeitos). Foi deixado um estreito espaço à frente da armação como representação da sacada do hotel, não poucas vezes frequentada pelos atores. A bonita iluminação de Walmyr Ferreira optou por matizes distintos, mantendo-se coerente ao investir em um tom suave, sóbrio e natural na maioria das cenas cotidianas. Dependendo da intensidade do trecho da narrativa, Walmyr elevava o grau de luminosidade. Em momentos mais reflexivos, adotou um forte foco lateral, provocando belos efeitos de luz e sombras. Possivelmente numa alusão ao assassinato de Luther King, faltando pouco tempo para o fato, iluminou a área do tablado de vermelho. Na parede do banheiro, nota-se uma branda iluminação esverdeada. Blecautes e espocar de luzes, como referência aos relâmpagos, surpreende-nos. Tereza Nabuco teve a incumbência de escolher os figurinos do espetáculo. E o fez com notada competência, novamente, como o resto da equipe, respeitando os registros históricos e factuais da montagem. Lázaro trajou um conjunto preto de terno, gravata, calça e sapatos sociais, em contraste com uma camisa branca, complementado por um chapéu de época de feltro marrom (o personagem possui uma pequena mala ou bolsa escura). E Taís vestiu um uniforme de camareira amarelo mostarda com avental, mangas e golas brancas, além de calçar sapatos também de cor preta, e usar um casaco bordeaux. A trilha sonora e o desenho de som couberam, respectivamente, a Wladimir Pinheiro e Laércio Salles. A dupla teve a sensibilidade exigível para pontuar com precisão as passagens que solicitavam uma intervenção musical. Logo no início da obra, ouvimos uma melodia com acordes que nos reportam ao jazz, e em outras ocasiões há inserções de canções que nos lembram hinos religiosos de igreja, além do incremento de uma trilha incidental insinuante.

O legado de Martin Luther King Jr., e a contribuição de “O Topo da Montanha”

“O Topo da Montanha” é, antes de tudo, um manifesto pelo qual se prega o respeito pela igualdade de direitos dos homens, tendo como arma a mais implacável de todas aquelas que estão ao nosso alcance: o amor. Trata-se de um espetáculo cênico que serve como ferramenta de humanização de um líder que, independente de suas ideias e convicções ideológicas, era antes de qualquer coisa um cidadão como os demais, com suas fraquezas, medos, incertezas e vulnerabilidades, temente à morte, mas que, mesmo resistindo, deixou um bastão para ser passado adiante para os que ficaram, ou seja, que seus ideais de lutas pelos direitos civis dos negros permanecessem, jamais fossem negligenciados ou esquecidos. Após 50 anos, este bastão empunhado com tanta nobreza, perseverança e bravura por Martin Luther King Jr. continua a passar de mão em mão, pois a intolerância, o racismo, a discriminação e a segregação racial estão aí, cada vez mais presentes. Não é fácil atingirmos, todos nós, negros e brancos, a “Terra Prometida” onde se encontram a paz e a igualdade humanas defendidas por Martin. Não é fácil subir até “O Topo da Montanha”. Acalma-nos saber que por ora o bastão esteve nas mãos de dois artistas respeitáveis, corajosos e lutadores. Lázaro Ramos e Taís Araújo chegaram ao “O Topo da Montanha” com este espetáculo.