Blog do Paulo Ruch

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Viktoria Miroshnichenko, a “Grandona” do filme de Kantemir Balagov, impressiona com sua atuação catatônica/Foto: Divulgação

Temas bélicos ou com viés revolucionário sempre foram abordados na prestigiada cinematografia russa, tendo como seu maior representante Serguei Eisenstein, que deixou como legado obras-primas como “O Encouraçado Potemkin”

As temáticas bélicas ou revolucionárias sempre estiveram presentes nas obras cinematográficas russas. Serguei Eisenstein, um dos maiores cineastas de todos os tempos, deixou como legado obras-primas como “O Encouraçado Potemkin” (1925) e filmes considerados clássicos como “Alexander Nevsky” (1938), este último codirigido por Dmitri Vasilyev. Em dezembro de 2019, foi lançado no Brasil o longa-metragem mais destacado da safra recente do cinema russo, representante oficial do país a tentar uma vaga na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional de 2020, “Uma Mulher Alta” (“Dylga”, Rússia, 2019), do jovem cineasta Kantemir Balagov, premiado na Mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes 2019 com a Melhor Direção.

O filme, que é baseado no livro laureado em 2015 com o Nobel de Literatura “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, de Svetlana Aleksiévitch, traz duas ótimas atrizes em seu elenco, Viktoria Miroshnichenko e Vasilisa Perelygina, transmitindo ao público, ao final, somando-se suas qualidades e desacertos, uma importante mensagem antibelicista

Baseado no livro “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, da vencedora do Nobel de Literatura de 2015 Svetlana Aleksiévitch, o filme, que se passa no pós-guerra, em 1945, numa Leningrado com a sua população arrasada, acompanha a dolorida trajetória de duas mulheres que combateram juntas no front, Yia (Viktoria Miroshnichenko em atuação impressionante e catatônica), uma enfermeira que sofre de síndrome pós-concussão (a “Grandona”), e Masha (a ótima e linda Vasilisa Perelygina), uma ex-soldada. Ambas se unem visceralmente neste cenário de vidas ceifadas, horrores perpetuados, indiferença e cinismo dos poderosos e traumas pessoais múltiplos em busca de um sentido para as suas existências, que poderá vir por meio de um filho, apesar de todos os inexpugnáveis obstáculos. O longa ostenta um acabamento visual irretocável, cuja fotografia de Ksenia Sereda explora os matizes fortes do verde e do vermelho, rivalizando com a tristeza vigente. No entanto, o ritmo pouco ágil com cenas demasiado longas e silenciosas o aproxima de uma certa monotonia. Mesmo assim, “Uma Mulher Alta” conserva seus valores e qualidades, provocando interesse. Sua mensagem antibelicista nos faz pensar que a guerra não tem rosto de mulher, não tem rosto de homem, tampouco rosto de criança. Simplesmente a guerra não deveria ter rostos humanos.

Obs: Crítica escrita em 20/01/2020

Assista ao trailer do filme:

Tiago Leifert, apresentador do “Big Brother Brasil” desde 2017/Foto: TV Globo

Vindo do esporte, já com experiências na área do entretenimento, Tiago Leifert é convidado para assumir o comando do “BBB” após Pedro Bial apresentá-lo por 16 anos

Após 16 anos, em substituição ao respeitado apresentador Pedro Bial, com seus poéticos discursos de eliminação, um rapaz com curtos cabelos loiros e espertos olhos azuis, que havia se consagrado na área do esporte, já com algumas experiências no entretenimento, fora convidado pelo diretor Boninho a assumir o comando do reality show mais assistido do país, o “Big Brother Brasil”, na Rede Globo. Como se sairia este paulistano amante dos games no comando da atração que paralisa o Brasil nos primeiros meses do ano? A incógnita sobre a sua atuação se transmutaria em certeza ao percebermos que Tiago Leifert abraçou com gigante profissionalismo e tocante sensibilidade o programa que atiça torcidas na nação quase como as de futebol.

Em março de 2020, o apresentador, assim como a população mundial, foi pego de surpresa com a eclosão da Covid-19, tendo que se submeter aos riscos de uma doença muito pouco conhecida, e se adaptar aos mais rígidos protocolos de segurança impostos pela emissora onde trabalha, a partir da decisão pela continuação do reality

O moço que traja jaquetas bonitas desejadas a cada noite começou a encarar desafios assustadoramente reais, mais imaginativos do que qualquer ficção, a partir de março de 2020, quando eclodiu a pandemia de Covid-19 no planeta. Numa experiência jamais vivida pela televisão mundial, o apresentador se submeteu a todos os riscos imagináveis decorrentes de uma doença muito pouco conhecida, obedecendo aos rígidos protocolos de segurança impostos pela emissora, assim que se decidiu pela continuação do programa. Transgredindo uma das normas pétreas do reality, Tiago teve que informar com bastante delicadeza e cuidado aos confinados o que um vírus gripal estava fazendo com a população mundial. Na final da edição, sem festa tampouco plateia, depois de anunciar a vencedora Thelma Assis, o jornalista com formação em Psicologia deixou que a sua emoção represada por semanas seguidas aflorasse ao vivo. Difícil não dividir este choro com ele.

Na edição deste ano, o “Big dos Bigs”, Tiago teve que enfrentar, além da pandemia que havia se agravado, acontecimentos importantes na Casa, como a incompreensão de alguns participantes com relação ao ator Lucas Penteado e questões raciais envolvendo outros dois, o que o levou a ter uma conversa histórica com os confinados sobre a simbologia do “black power”

Em 2021, já com vacinas sendo aplicadas em um sem número de países, mas com a pandemia sem controle em nosso território, o também apresentador do “The Voice Brasil” dá início ao “Big dos Bigs”, com cem dias de duração. Seus desafios seriam possivelmente maiores face aos acontecimentos intensos da Casa. Com a saída do ator Lucas Penteado, não compreendido por parte dos participantes, Tiago lhes disse que faltou “fair play”. Em outro episódio envolvendo dois confinados em que um comentário levantou questões raciais, o apresentador, sem texto pronto, não fez um discurso tradicional, mas conversou de forma impactante sobre a simbologia do “black power” para a comunidade preta, num momento histórico da produção. No dia da final do “BBB21”, um dia de festa, falece há pouco mais de uma hora antes de iniciar o programa o ator e humorista Paulo Gustavo, deixando o Brasil consternado. Além de comunicar aos finalistas Juliette, Camilla e Fiuk o ocorrido no intervalo da edição, o apresentador teve que dar andamento à atração com o país ainda em choque. Tarefa para grandes profissionais. Durante o show do rapper Projota com a participação de Lucas Penteado, Tiago deixou as formalidades de lado, saltou do tablado onde estava, e se juntou aos finalistas para cantar e vibrar com emoção explosiva. Minutos depois, a câmera o flagrou em um momento de distinta humanidade, com seus olhos mais azulados com o choro, ao agradecer em silêncio solitário a difícil missão cumprida. Essa grande e complexa orquestra chamada televisão precisa cada vez mais de maestros sensíveis e profissionais como Tiago Leifert. Tiago Leifert é o verdadeiro “Big dos Bigs”.

Letícia Colin, como a dependente química Amanda, em uma das cenas mais dramáticas da série “Onde Está Meu Coração”/Foto: Fábio Rocha/Globo

O imbatível quarteto George Moura e Sergio Goldenberg, roteiristas, e José Luiz Villamarim e Luisa Lima, supervisor e diretora artísticos respectivamente, reúnem suas notórias potencialidades profissionais para contar ao público a trajetória dolorosa de uma médica de classe média alta vítima dos estragos causados pela dependência química em crack

O tema da dependência química não raro atinge a sensibilidade do público pelo grau de sofrimento em sua vítima e naqueles que a cercam, sejam eles familiares, amigos ou colegas de trabalho. E é sobre este assunto espinhoso, muitas vezes evitado pela sociedade, que a afinada dupla de roteiristas George Moura e Sergio Goldenberg (“O Rebu”, “Onde Nascem Os Fortes”) resolveu se debruçar dessa vez na série original do Globoplay, com exibição na última segunda-feira de seu primeiro episódio na Rede Globo, “Onde Está Meu Coração” (a produção foi mostrada com sucesso no Berlin Series Market & Conference do 70º Festival Internacional de Berlim, Berlinale, do ano passado). Tendo outra dupla notável por trás, a diretora artística Luisa Lima e o supervisor artístico José Luiz Villamarim, a história se concentra na dolorosa trajetória de Amanda (Letícia Colin), uma jovem médica filha de um casal de classe média alta, o também médico David (Fábio Assunção) e a executiva do setor de portos Sofia (Mariana Lima), que vê a sua vida ser seriamente comprometida pelo vício em crack. Casada com o bem-sucedido e apaixonado arquiteto Miguel (Daniel de Oliveira), um usuário casual da droga, Amanda, já sofrendo com os efeitos devastadores da adicção, não evita que os mesmos interfiram no relacionamento sexual de ambos e na eficiência de seu ofício, a despeito de ser uma boa médica. Seus pais, que já possuem um passado com as drogas (a dependência e internação de David e a morte ainda não explicada de outro filho), são alertados pela filha Julia (Manu Morelli) sobre o vício da irmã. Entre a rotina pesada do hospital e recaídas na dependência, a atormentada moça se percebe cada vez mais acuada, fugindo do fantasma da internação que a leva a repensar a própria existência.

Luisa Lima merece atenção pela sua direção elegante na qual é realçada a rica arquitetura urbana de São Paulo com o respaldo das belas locações das casas dos personagens, valendo ainda ressaltar a brilhante trilha sonora de Daniel Roland que conta com Elvis Presley e Nick Cave

A elegante direção de Luisa Lima se apoia na exploração inteligente da bela paisagem urbana de São Paulo (uma ode à arquitetura), incluindo lindas locações das casas dos personagens. A diretora apostou nos grandes planos, imagens desfocadas, closes bem fechados, além da valorização dos corredores, que podem ser brancos e amplos, ou escuros e claustrofóbicos. Letícia Colin assume o protagonismo com delirante intensidade. Fábio Assunção e Mariana Lima transmitem com excelência a nítida sensação de dor e impotência dos pais. Daniel de Oliveira reflete com a mesma qualidade este sentimento. Manu Morelli revelou-se promissora em suas cenas e Rodrigo García se destacou como o traficante Edu. O elenco é completo por talentos como Camila Márdila (como Vivian, uma cliente sedutora e abastada que se interessa por Miguel), Ana Flávia Cavalcanti (Inês, enfermeira do hospital), Magali Biff (uma das pacientes de Amanda) e Démick Lopes (o motorista do carro que conduz a médica). Embalada pela brilhante e diversa trilha sonora de Dany Roland (Elvis Presley com “My Way”, Nick Cave com “Into My Arms” e Depeche Mode com “Enjoy The Silence”), a nova série do Globoplay propõe uma discussão séria sobre o flagelo do crack em nossa realidade, que dilacera pessoas inclementemente, fazendo-as perder a dignidade e a identidade, tratado com políticas equivocadas do Estado. “Onde Está Meu Coração” nos ajuda a encontrar os corações perdidos dos reféns das pedras que ardem.

Assista ao trailer de “Onde Está Meu Coração”:

Alinne Moraes e Ana Beatriz Nogueira estrelam o espetáculo escrito por Gustavo Pinheiro/Foto: Guga Melgar

O dramaturgo Gustavo Pinheiro, conhecido pelos sucessos “A Tropa” e “Alair”, debruça-se na análise das complexas narrativas discursivas e todos os seus desdobramentos surgidas a partir do encontro (e “desencontros”) de duas médicas

Gustavo Pinheiro, prestigiado dramaturgo especialista em abordar temáticas diversas, vindo de sucessos como “A Tropa” e “Alair”, resolveu se debruçar no espetáculo “Relâmpago Cifrado” (título de um trecho do poema de Drummond “Amor e seu Tempo”, do livro “As Impurezas do Branco”), com a argúcia e a solidez narrativa que lhe são características, na infinda riqueza dos encontros (e “desencontros discursivos”) entre pessoas devotadas a um mesmo ofício, no caso a Medicina, com todas as contradições individuais, complexidades comportamentais e oscilações emocionais de cada uma das médicas envolvidas em sua história.

Ana Beatriz Nogueira se encarrega de dar vida a uma médica conceituada, com personalidade dura e irônica, a quem a também médica interpretada por Alinne Moraes, de perfil obstinado e autoconfiante, recorre com o intento de obter uma carta de recomendação para estudar na Universidade de Harvard

Para dar vida a essas doutoras combativas em suas opiniões, uma de nossas mais brilhantes atrizes, Ana Beatriz Nogueira, e Alinne Moraes, uma intérprete que foi além de sua beleza, convencendo-nos de seu irrefutável talento no decorrer de sua carreira. Ana defende uma médica respeitada, formada em Harvard, dura, irônica, sinuosa, contendo, no entanto, uma fragilidade latente. Alinne personifica a profissional prática, obstinada, autoconfiante, com conceitos duvidosos acerca da ética, cujo intento é obter da primeira uma carta de recomendação para pesquisar na mesma Harvard.

Dirigida com sintonia cênica por Clarisse Derziê Luz e Leonardo Netto, que privilegiam o texto e as atrizes, “Relâmpago Cifrado” nos oferece atuações brilhantes de Ana Beatriz Nogueira e Alinne Moraes, cujo efeito imediato é magnetizar o público do início ao fim

A inteligente peça, calcada num embate contínuo e fascinante de inquirições, réplicas e tréplicas entre as médicas, é dirigida com admirável sintonia cênica (privilegiando o texto e as atrizes) por Clarisse Derziê Luz e Leonardo Netto. Ambos se valeram das frequências dramáticas de intensidades múltiplas de Ana e Alinne, realçando suas pausas estratégicas, contando com a luxuosa colaboração de Leila Pinheiro em sua trilha sonora original elegante e melancólica, para arrematar com estudada precisão esta montagem que reserva ao público um desfecho surpreendente, tocante e digno. Ana Beatriz Nogueira, utilizando-se de sua inestimável grandeza como artista, magnetiza a plateia do início ao fim. Alinne Moraes nivela-se ao brilho de sua colega com uma atuação encantadoramente madura. Alicerçada no dourado refinado da luz de Aurélio de Simoni, “Relâmpago Cifrado” se configura como obra meritória em seu caráter decifrador das almas tempestuosas e não codificáveis do ente humano. 

Obs: Crítica escrita em dezembro de 2019.

Isio Ghelman, Vannessa Gerbelli e Eriberto Leão são os protagonistas da peça “Fim de Caso”/Foto: Ale Catan

Clássico da literatura inglesa escrito por Graham Greene é levado aos palcos brasileiros após idealização de Thereza Falcão, Guilherme Piva e Felipe Lima, provando que o teatro brasileiro abraça com a mesma qualidade os mais diversos gêneros teatrais

O teatro brasileiro possui uma intrínseca vocação democrática para abraçar com a mesma qualidade os mais diversos gêneros narrativos, independente de seu tempo, origem ou tema. Há espaço para comédias românticas ou rasgadas, teatro político e grandes clássicos da literatura moderna, como “Fim de Caso”, incensado romance escrito pelo inglês Graham Greene em 1951, levado às telas com êxito em 1999, estrelado por Julianne Moore e Ralph Fiennes. Thereza Falcão, Guilherme Piva e Felipe Lima tiveram a feliz ideia de encenar este texto elegante, denso, complexo, pleno em nuances, que aborda com genuína inteligência e notável sensibilidade a extensa lista de variações que permeiam as relações norteadas pelo amor.

Tendo como pano de fundo os horrores da Segunda Guerra Mundial, “Fim de Caso” se debruça num turbulento triângulo amoroso, com suas idas e vindas temporais, sem que sejam preteridos temas como fé, descrença, ciúme e promessas

Adaptada admiravelmente por Thereza Falcão, “Fim de Caso” se concentra em um peculiar triângulo amoroso envolvendo um acomodado casal, o funcionário público Henry, Isio Ghelman, e sua ambígua esposa Sarah, Vannessa Gerbelli, e o amante desta, o atormentado escritor Brendix, Eriberto Leão, tendo como pano de fundo o ódio imperioso da Segunda Guerra Mundial. Entre idas e vindas temporais, passeando por elementos caros como religiosidade, fé, descrença, ciúme, promessas, a peça, dirigida com apuro visual e olhar preciso por Guilherme Piva, entrega ao público um painel infinitamente bem desenhado da rica paleta emocional de seus personagens.

Cercados por uma equipe técnica respeitável, Eriberto Leão, Vannessa Gerbelli e Isio Ghelman acertam precisamente o tom de seus personagens nesta montagem que nos oferta a chance de decodificarmos as vias de expressão do amor sem o cajado do julgamento moral

A montagem vangloria-se de ter em sua construção nomes de realce como André Cortez (cenário), Maneco Quinderé (luz), Fabio Namatame (figurinos), Marcia Rubin (movimento), Rico e Renato Vilarouca (projeções), e Maison Wilkins (trilha original). Eriberto Leão mira e acerta com altivez cênica no alvo das obsessões e aflições de Brendix. Vannessa Gerbelli, linda como uma “pin-up” de seu tempo, esmiúça com perspicácia as frequências múltiplas do comportamento de Sarah. E Isio Ghelman enquadra com racionalidade o seu Henry na correta moldura da resignação e autoestima frágil. “Fim de Caso” nos oferta a chance de decodificarmos com mais propriedade as labirínticas vias de expressão do amor, sem o cajado do julgamento moral. Nossa história com esta peça não tem fim ou começo. Só temos que escolher o momento certo para vivê-la.

Obs: Crítica escrita em novembro de 2019.

Marco Nanini é o protagonista de “Greta”, filme no qual defende um dos personagens mais desafiadores de sua carreira/Foto: Divulgação

O público admirador de Marco Nanini acostumado com alguns personagens bonachões de sua carreira irá se surpreender com a performance do ator no primeiro e premiado filme de Armando Praça

Para aqueles que estão familiarizados com o bonachão Eusébio da novela “A Dona do Pedaço”, escrita por Walcyr Carrasco e exibida em 2019 na Rede Globo em seu horário nobre, ou têm em mente a figura popular do patriarca de classe média Lineu de “A Grande Família”, seriado da mesma emissora que ficou no ar durante 13 anos, devem obrigatoriamente conferir a atuação, sem quaisquer dúvidas, mais visceral de toda a espetacular carreira de Marco Nanini. O ator é o protagonista do primeiro filme do cearense Armando Praça, “Greta” (Brasil, 2019), vencedor dos prêmios de Melhor Filme, Direção e Ator no Cine Ceará 2019, e Melhor Filme no Festival de Cinema Lésbico e Gay de Milão 2019.

No longa inspirado na famosa peça teatral de Fernando Melo “Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá” já se falava a respeito de um problema gravíssimo que assola atualmente o sistema público de saúde do país, a falta de leitos hospitalares

Inspirado livremente na famosa peça de Fernando Melo “Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá”, o filme roteirizado por Armando é centrado no solitário enfermeiro de um hospital público de Fortaleza, Pedro, Marco Nanini, que em meio ao seu caos estrutural, decide, por falta de leitos, levar para a sua casa Jean, Démick Lopes, acusado de homicídio, objetivando que sua melhor amiga, a transexual Daniela, Denise Weinberg, pudesse ser tratada por uma equipe médica de sua grave doença. Desejoso de saciar suas carências afetivas e sexuais, Pedro, cujo ídolo é a atriz sueca Greta Garbo, inicia uma complexa e imprevisível relação com o homem delinquente que hospedou.

A produção conta com uma direção delicadíssima de Armando Praça, distante do gênero melodramático, e um elenco que oferta aos espectadores atuações memoráveis, representado por Démick Lopes e Denise Weinberg, além do próprio Nanini

A delicadíssima direção de Armando Praça optou por uma narrativa desprovida de trilha sonora, afastando qualquer aproximação com o gênero melodramático, destacando a aridez das situações com o seu drama fluindo naturalmente. Com enfoque nos intérpretes, sua câmera se sai eficiente e legítima na abordagem da nudez e do sexo. Marco Nanini, com angústia intrínseca permanente e gestual estudado com precisão matemática, está implacável cenicamente. Démick Lopes, um excelente artista nascido no Ceará em franca ascensão, trava um duelo memorável com Nanini. E Denise Weinberg, num tocante desempenho, confere à transexual defrontada com a morte próxima uma gigantesca altivez. “Greta” é uma bela obra de Armando Praça, que trata com rara sensibilidade sobre os medos do indivíduo, o medo da solidão, da finitude, e da entrega ao amor, seja ele qual for. Ao contrário de Greta Garbo, nenhum de nós, nem Pedro, nem Jean tampouco Daniela deseja ficar só. 

Assista ao trailer do filme:

Giovanna Antonelli, Renata Sorrah e Vanessa Giácomo interpretam respectivamente Lívia, Stella e Cléo na nova série original do Globoplay “Filhas de Eva”/Estevam Avellar/Globo

Na série escrita por Adriana Falcão, Jô Abdu, Martha Mendonça e Nelito Fernandes, Stella, vivida por Renata Sorrah, uma das protagonistas, noticia, em plena festa pelos seus 50 anos de casamento, a sua decisão de se divorciar

No Dia Internacional da Mulher o Globoplay nos apresentou em sua nova série original, “Filhas de Eva”, três mulheres com vivências diferenciadas que possuem em comum o desejo de fazer as suas próprias escolhas em busca da liberdade pessoal. A bem alinhavada obra, cujos escopos são os dramas natos às relações humanas/afetivas sem se afastar das pinceladas de um leve humor, foi criada e escrita por Adriana Falcão, Jô Abdu, Martha Mendonça e Nelito Fernandes, com redação final de Martha Mendonça, tendo o seu prólogo na luxuosa festa de bodas de ouro de Stella (Renata Sorrah, majestosa) com o influente advogado Ademar (Cacau Amaral). Após assistir aos vídeos que traçam um painel de sua vida, Stella surpreende a todos com um pedido público de divórcio. No mesmo evento, encontra-se sua filha Lívia (Giovanna Antonelli, vigorosa), uma badalada e metódica psicóloga casada com o também psicólogo Kleber (Dan Stulbach, certeiro no tom), um homem ressentido com o sucesso da esposa. Eles têm uma filha, a questionadora Dora (Debora Ozório, talentosa revelação). Em outra ponta da história nos deparamos com Cléo (Vanessa Giácomo, lindamente à vontade), uma moça despachada envolta com as agruras do desemprego, filha de Zezé, Analu Prestes (uma atriz bem-vinda). No primeiro episódio, as circunstâncias a levam a entrar no universo conflituoso de Lívia. Fecha-se assim o conjunto onde as trajetórias dessas três mulheres, fortes à sua maneira, entrelaçam-se.

Com direção elegante de Leonardo Nogueira, Felipe Louzada e Nathalia Ribas, “Filhas de Eva” contribui para a dramaturgia no sentido de reafirmar as lutas legítimas de mulheres de gerações distintas

Na trama, que já em seu introito ostentou traições e chantagem, as elegantes direção artística de Leonardo Nogueira e direção de Felipe Louzada e Nathalia Ribas apostaram em takes em que espelhos se tornam “personagens” e posicionamentos de câmera incomuns, com a captura das cenas através de frestas. Sobressaíram-se a fotografia de André Horta, que explorou bastante as luzes naturais, as estudadas direção de arte de Daniel Flaksman, cenografia de Keller Veiga e produção de arte de Carolina Pierazzo, os figurinos sofisticados de Marília Carneiro, e a bela produção musical de Nani Palmeira e Rafael Langoni, com regravações de “You Are My Sunshine” e “Can’t Help Falling in Love”, além de “Fever”. Na nostálgica e lírica abertura, que reproduz vários momentos do casal Stella e Ademar em filmagens e fotos, estão os atores Marcella Rica e Yuri Ribeiro, que defendem os personagens mais jovens. “Filhas de Eva” colabora com a dramaturgia no sentido de colocar em posições destacadas as lutas legítimas de mulheres de gerações distintas que visam a mudar suas vidas, independente das consequências, estimuladas pelo valor da liberdade. Afinal, são todas filhas de Eva.

Assista ao trailer de “Filhas de Eva”:

O ator Christian Malheiros é o protagonista do filme “Sócrates”/Foto: Divulgação

Premiadíssimo em importantes festivais, como o Independent Spirit Awards e o Festival do Rio, “Sócrates”, que teve o aval do celebrado diretor e produtor Fernando Meirelles, narra de forma contundente a história de um jovem negro homossexual que só deseja obter as cinzas de sua mãe falecida, enfrentando durante este périplo todos os tipos de preconceito

Há filmes ditos independentes que não podem passar despercebidos aos olhos do público no circuito cinematográfico. Um exemplo é o premiadíssimo longa de estreia de Alexandre Moratto, com a chancela valorosa de Fernando Meirelles como produtor executivo (O2 Play), “Sócrates” (Brasil, 2018). Vitorioso no Independent Spirit Awards 2019 com o prêmio Someone to Watch, no Festival do Rio 2018 com o Prêmio Félix de Melhor Filme de Ficção, no Festival Mix Brasil com as láureas de Melhor Filme, Diretor e Ator (Christian Malheiros, também indicado ao Independent Spirit Awards), além de outros prêmios internacionais e Menção Honrosa na Mostra Internacional de São Paulo,
a obra, uma produção do Instituto Querô e Querô Filmes, montada e corroteirizada por Alexandre e Thainá Mantesso, narra a pungente e dolorida trajetória do jovem Sócrates (Christian Malheiros, excepcional, um ator que se expressa com potência máxima em seu triste olhar), de 15 anos, que após perder a sua mãe, vê-se sozinho numa Baixada Santista periférica com miséria dominante, retrato do Brasil real, em busca inglória por um emprego qualquer para sobreviver. Fugindo do pai opressor e da prostituição e tendo que lidar com a sua homossexualidade (consumada com Maicon, o brutalmente ótimo Tales Ordakji), Sócrates, que deseja lançar as cinzas maternas em um lugar digno, é a prova viva do abismo social brasileiro, onde milhões de jovens foram usurpados de seu futuro.

O filme, que revela as promessas Alexandre Moratto, diretor, e Christian Malheiros, ator, descende das linguagens cinematográficas do Cinema Novo, vistas em filmes dos expoentes Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos

Com pegada de câmera glauberiana, esta peça fílmica neorrealista contemporânea, que se conecta com a linguagem crua cinemanovista de Nelson Pereira dos Santos, além de lançar as promessas Alexandre Moratto e Christian Malheiros, serve como sinal de alerta urgente para o establishment desigual e injusto vigente na nação da “ordem”, do “progresso” e das castas cada vez mais privilegiadas.

Assista ao trailer do filme:

Karine Teles como Gilda, na série selecionada para o Festival de Berlim, na Mostra Berlinale Series, “Os Últimos Dias de Gilda”/Foto: Divulgação

Dando continuidade a uma bem-sucedida parceria entre a atriz e roteirista Karine Teles e o diretor, produtor e também roteirista Gustavo Pizzi, a série colocou o país pela primeira vez na disputa desta categoria no Berlinale Series deste ano

Karine Teles despertou a atenção do público cinematográfico em “Que Horas Ela Volta?” (2015), de Anna Muylaert, representando a ponta privilegiada da distensão social entre patrões e empregados. Já em “Benzinho” (2018), juntou-se ao diretor e roteirista Gustavo Pizzi, coescrevendo e protagonizando a história de uma divertida família de classe média que sofre com a iminência de um de seus filhos ir para o exterior (ambos haviam trabalhado antes no longa “Riscado”, de 2010). Essa bem-sucedida parceria rendeu o tenso “Os Últimos Dias de Gilda”, com direção e produção de Gustavo, baseado na peça homônima de Rodrigo de Roure, encenada por Karine em 2004. A ótima série, roteirizada pela dupla, logrou um feito inédito, ser a primeira produção brasileira do gênero selecionada para o Festival de Berlim deste ano, na Mostra Berlinale Series.

Lançada no Canal Brasil, “Os Últimos Dias de Gilda” envolve o público num clima de crescente tensão ao abordar a convivência de Gilda, uma mulher liberal e independente, com os moradores conservadores de sua rua, na qual se imiscuem intolerância religiosa, associação entre política e religião, violência policial/miliciana e preconceito comportamental

A trama original do Canal Brasil, com fotografia naturalista de Pedro Faerstein (onde há também momentos iluminados pictoricamente com resultados elegantes), aborda com propriedade questões relacionadas à intolerância religiosa, associação entre religião e política, violência policial/miliciana e liberdade sexual feminina. Gilda é uma criadora de porcos e galinhas, cozinheira, que vive entre seu trabalho, papos com a amiga Jandira (Ana Carbatti) e os muitos envolvimentos amorosos. No entanto, ela mora numa rua dominada por evangélicos, empenhados na eleição do pastor Ismael (Higor Campagnaro), casado com a preconceituosa e amarga Cacilda (Julia Stockler), que a persegue impiedosamente. Adepta de religião de matriz africana, Gilda é cada vez mais ameaçada. Dividida em quatro episódios, marcados pela direção precisa e sensível de Gustavo, a história prende o espectador pela sua crescente tensão com consequências imprevisíveis.

Uma obra que exalta a liberdade e o querer das mulheres, provando o tamanho da potência quando se unem contra toda e qualquer opressão

O elenco é impecável, começando por mais uma soberba atuação de Karine, desde já uma das estrelas do cinema contemporâneo. Acompanham-na com irretocáveis composições de seus personagens os citados Ana Carbatti, Higor Campagnaro e Julia Stockler, Antonio Saboia (Wallace, policial que vigia a rua), Inez Viana (Celina, mãe de Gilda), Dida Camero (Teresa, mãe de santo), João Vitor Silva (Alvinho, jovem amante de Gilda) e Erom Cordeiro (Sargento Jordão). Tecnicamente, além da fotografia, a direção de arte detalhada de Dina Salem Levy, os figurinos bastante coerentes de Diana Leste e a bem conduzida trilha sonora original de Pedro Sodré e Rudah foram inegavelmente entregues em boas mãos. “Os Últimos Dias de Gilda”, uma produção da Baleia Filmes, é em sua essência uma obra que realça o poder feminino contra toda e qualquer opressão. Um filme que exalta a liberdade e o querer das mulheres, provando o tamanho da potência quando se unem. Na verdade, são os primeiros dias de Gilda em uma longa batalha ainda a ser vencida.

Maria Bethânia foi a grande estrela do sábado de Carnaval deste ano com a sua primeira live/Foto: Globoplay/Reprodução

13 de fevereiro, uma data que deve ser comemorada por Maria Bethânia, como todas as datas importantes, segundo sua mãe, Dona Canô

Num 13 de fevereiro de 1965 Maria Bethânia se apresentava no emblemático show “Opinião”. Em 13 de fevereiro de 2016 uma de nossas mais grandiosas cantoras desfilava pela Mangueira campeã que a homenageava. Sábado de Carnaval, 13 de fevereiro de 2021, Maria protagoniza a sua primeira live, com exibição aberta no Globoplay. Segundo a intérprete, sua mãe lhe aconselhou que datas importantes devem ser celebradas. A filha de Dona Canô abre o show cantando lindamente à capela a romântica “Explode Coração”, de Gonzaguinha.

A cantora, completando 56 anos de carreira, com a sua voz única e brilhante, presenteou o público com clássicos como “Cálice” e “O Que É, O Que É?, além de inéditas de seu novo álbum “Noturno”, pedindo, no início de seu show, “Vacina, Respeito, Verdade e Misericórdia

Acompanhada de músicos extraordinários (Paulo Dafilin, violão; João Camarero, violão; Jorge Helder, baixo; e Marcelo Costa, percussão), a ilustre artista de Santo Amaro da Purificação, Bahia, com 56 anos de carreira, fez um show arrebatador, forte, emocionante e necessário neste momento em que precisamos tanto de algo que nos acarinhe, como a grande arte de Bethânia. Com roteiro da própria, houve citações literárias de insignes escritores, como Fernando Pessoa e Clarice Lispector, que antecederam as canções, elemento que passou a incorporar em suas apresentações desde o show “Rosa dos Ventos”, em 1971. No setlist estiveram músicas inéditas de seu novo disco “Noturno”, como “Lapa Santa” e “De Onde Eu Vim”. Os clássicos, na voz única e brilhante da irmã de Caetano Veloso, tornam-se mais clássicos, como “Onde Estará o Meu Amor?”, “Reconvexo”, “Olhos nos Olhos”, “Cálice”, “Volta por Cima”, “O Que É, O Que É? e “Evidências”. No palco da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, com cenografia minimalista de Fernando Schmidt (havia uma original cadeira estilizada que remetia a um tronco de árvore usada pela cantora), fotografia admirável de Césio Lima e Willian Andrade e design de luz deslumbrante de Ana Luzia de Simone (a designer se utilizou de vasta e encantadora paleta), a Maria descalça e de branco nos comoveu com sua bela versão da dilacerante “2 de Junho”, de Adriana Calcanhotto, sobre a trágica morte do menino Miguel, em 2020. Com direção artística do tarimbado LP Simonetti, produção de Juliana Silleman e Valéria Amaral (uma produção Quitanda Produções) e coprodução de Márcio Debellian (diretor do ótimo documentário “Fevereiros”, 2017), Maria Bethânia nos ofertou um Carnaval diferente, sem os desfiles das escolas de samba e os blocos de rua, no entanto mais bonito e catártico, dando-nos a certeza de que temos uma das maiores artistas da música mundial, que lá no início de seu show disse com voz firme o que mais desejava: “Vacina, Respeito, Verdade e Misericórdia”. Essa é a nossa “Menina dos Olhos de Oyá”.