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Blog do Paulo Ruch

  • “Com uma atuação impactante, Leonardo Netto se lança sem medo em uma guerra desigual contra a homofobia na sociedade moderna, fazendo a mesma pergunta que os não ignaros se fazem: – Por quê?”

    julho 31st, 2024
    Leonardo Netto em cena no seu premiado monólogo “3 Maneiras de Tocar no Assunto”/Foto: Dalton Valerio

    O tema “homofobia” é colocado sobre a mesa e discutido seriamente por Leonardo Netto em três solos curtos na peça de sua autoria “3 Maneiras de Tocar no Assunto”

    Há assuntos que devem obrigatoriamente ser colocados sobre a mesa e serem discutidos com seriedade em uma coletividade organizada, como a homofobia e todas as outras formas de fobia quanto à orientação sexual e identidade de gênero de uma pessoa. Por muitos anos, essas pautas foram deixadas de lado no Brasil, pois não interessavam aos segmentos mais conservadores da sociedade, incluindo Poderes como o Executivo e o Legislativo. O resultado de tanta omissão e preconceito foi a triste posição do país em primeiro lugar entre aqueles que mais matam populações LGBT no mundo. Recentemente, alguns avanços foram observados graças à ingerência do Poder Judiciário, na figura do Supremo Tribunal Federal (STF), em prol dessas minorias carentes de quase 70 direitos previstos na Constituição Federal. Partindo desse deplorável quadro de descaso com as diferenças, em particular com os homossexuais, o ator, diretor e dramaturgo niteroiense Leonardo Netto se debruçou com absoluta propriedade e entrega na construção de uma narrativa que abordasse com legitimidade este tema tão relevante e intrínseco ao comportamento humano, no monólogo “3 Maneiras de Tocar no Assunto”, estrelado por ele próprio com a direção de Fabiano Dadado de Freitas. A avassaladora e premiadíssima montagem, vencedora dos prêmios Cesgranrio, APTR-RJ e Cenym de Teatro Nacional, que desde 2019 vem singrando uma exitosa trajetória pelos palcos brasileiros, contém um bem estruturado arco dramatúrgico dividido em três solos curtos que apontam as instâncias “A Escola”, “A Lei” e “O Estado”, nominados respectivamente “O homem de uniforme escolar”, “O homem com a pedra na mão” e “O homem no Congresso Nacional”, representados com vultosa significância, seguindo-se a ordem, por casos reais, sendo alguns fatais, de alunos que sofreram bullying escolar; pela “Revolta de Stonewall”, quando em 28 de junho de 1969, em uma boate de Nova York, “Stonewall Inn”, a comunidade LGBT resistiu bravamente aos ataques sofridos por forças policiais, o que fez com que esse dia se tornasse um marco histórico para os grupos que a compõem, transformando-se no “Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+”; e nas falas e discursos de um deputado ativista gay na tribuna da Câmara nacional, abertamente inspirados em diversas explanações do ex-deputado federal Jean Wyllys.

    Leonardo Netto, em atuação verdadeira e emocionante, enfrentou com múltiplos méritos os desafios que lhe foram propostos pelo seu texto

    O diretor Fabiano Dadado de Freitas soube com louvável ciência equalizar para o público, respeitando-se o nível de importância de cada um, os curtos solos ao seu dispor, imprimindo-lhes com grande adequação as camadas linguísticas solicitadas pelo autor, com um proposital didatismo no primeiro, uma carga emocional mais intensa no segundo, com alguns momentos de ludicidade e liberdade ficcional, e uma coloração com tintas mais inflamadas nas mensagens explícitas do terceiro. Fabiano se utilizou com visível sucesso de imagens projetadas em um telão, em sua maioria de arquivo, com inegável valor para a História, como os registros da “Revolta de Stonewall”, uma jovem e linda Judy Garland cantando e manchetes estarrecedoras de impressos que disseminavam o ódio e a segregação dos homossexuais, além do anúncio da introdução dos solos e suas consequências. O encenador ofertou ao seu artista uma ampla paleta de possibilidades de ocupação espacial, assegurando-lhe interações produtivas tanto com as projeções quanto com os poucos elementos do cenário, mas principalmente com os espectadores. Leonardo Netto, um intérprete com profundo conhecimento das engrenagens teatrais, admiravelmente convicto de suas responsabilidades artísticas, parece-nos um audaz soldado em um campo de batalha, esquivando-se de cada mina que lhe fora colocada pelo inimigo, entregando-se de peito aberto a uma luta aparentemente inglória, mas que, com persistência, resiliência e sabedoria pode ser vencida. Face a esta alvissareira impressão, tem-se o melhor dos corolários, ou seja, a de que Leonardo, com seu elevado talento, enfrentou com múltiplos méritos os desafios que lhe foram propostos pelo seu texto, transmitindo-nos com imensa verdade e larga emoção as mensagens denunciatórias entranhadas no cerne dramatúrgico. Seu magnífico trabalho é completo por uma direção de movimento extraordinária de Marcia Rubin que, com sensibilidade, primor e inspiração, esmiuçou as infindas potencialidades expressivas do material humano, com deslocações vigorosas, danças, saltos e desenhos dos braços no ar.

    Um monólogo que toca o dedo na ferida, sendo um aviso eloquente para a sociedade do real perigo que a adoece

    Mais um ponto alto da peça é a iluminação de Renato Machado, um experiente profissional que sabe, como poucos, identificar o que a cena pede em termos de ambientação. Renato generosamente orna os quadros cênicos com exemplar variedade de técnicas, seja em feixes que se “abrem” em vários outros, surtindo um belo efeito, seja na impressionante exploração de focos sobre o rosto do ator e deslumbrante fruição das sombras. Luíza Fardin, a quem coube o figurino, decidiu pela sobriedade sem prescindir da elegância, trajando o protagonista com um conjunto de terno, calça, camisa e gravata em tons de grafite mais claros ou escuros. Elsa Romero, cenógrafa, apostou no pragmatismo ao distribuir pela ribalta dois praticáveis vazados, um maior e outro menor, com uma bacia d’água sobre um deles, que servem funcionalmente muito bem às necessidades do intérprete. Rodrigo Marçal e Leonardo Netto conceberam uma trilha sonora diversificada e envolvente que se alterna entre o potente (com riffs de “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana), o pop dançante, a balada/rock e o romântico ingênuo na doce voz de Judy Garland, agradando em cheio aos que estimam o ecletismo musical. Tais escolhas se somaram valorosamente às qualidades da peça. “3 Maneiras de Tocar no Assunto” atende a um dos princípios basilares da arte teatral, que é a de ser um instrumento vivo e poderoso de transformação social e cultural. O monólogo criado e encenado por Leonardo Netto toca o dedo na ferida, brada, alerta-nos, reivindica, briga com quem deve se brigar, sendo um aviso eloquente para a sociedade do perigo real que a adoece. Tudo isso com apenas três maneiras de tocar no assunto.                

  • “Em atuação emocionada, intensa e visceral, Isabel Teixeira dá voz ao último e inédito desabafo textual de uma grande dramaturga do nosso país, Jandira Martini.”

    julho 22nd, 2024
    Isabel Teixeira é a protagonista do último texto inédito da dramaturga, atriz e diretora Jandira Martini/Foto: Flora Negri

    Marcos Caruso e Jandira Martini comemoram sim a rara cumplicidade artística que atravessou quatro décadas

    Este ano seriam comemorados os 40 anos de parceria profissional de Marcos Caruso e Jandira Martini, dois consagrados autores, atores e diretores brasileiros, donos de alguns dos maiores sucessos teatrais já vistos, como “Sua Excelência, O Candidato”, “Porca Miséria” e “Operação Abafa”, além de roteiros para o cinema e televisão, como a novela da extinta Rede Manchete, “A História de Ana Raio e Zé Trovão”. Todavia, Marcos e Jandira comemoram sim a rara cumplicidade artística que atravessou quatro décadas ao ser encenado o último e inédito texto da dramaturga falecida em janeiro passado, “Jandira: – Em Busca do Bonde Perdido”, estrelado por Isabel Teixeira. Nada mais justo e coerente que a Mesa2 Produções e os filhos da atriz convidassem o amigo de todas as horas para dirigir este material corajoso e pessoal carregado dos mais profundos e variados sentimentos de um ser humano que teve o diagnóstico de uma agressiva doença.

    Uma dramaturgia que aborda a iminência da finitude do homem com a mais bonita das intenções poéticas e admiráveis bravura e exposição individual

    Como primeira impressão, o espectador de teatro poderia imaginar de que se trataria de uma dramaturgia pesada, sombria e pessimista. Não, Jandira Martini, acostumada a criar comédias inteligentes e escancaradas, não faria isso com o seu público. Há em seu texto a carga dramática inevitavelmente demandada pela situação excepcional por que passa, entretanto, sua mente inventiva abriu as portas para que o humor ocupasse o seu devido espaço, seja em tom de autoironia ou nas observações sarcásticas que elabora com o que acontece ao seu redor, como na dura rotina de procedimentos terapêuticos aos quais tinha que se submeter, a mudança na aparência, os sintomas que a perturbavam e o seu contato com os médicos e outros pacientes. A peça com certeza se encaixa no gênero da autoficção, visto que a plateia é levada com muita naturalidade às rememorações de Jandira de sua infância em Santos, São Paulo, cidade em que nasceu, de suas andanças e brincadeiras fantasiada pelos blocos carnavalescos, de seus amigos que já não estão mais presentes, além da imagem idílica da praia, dos bondes a circular pelas vias urbanas santistas e a piada inesquecível de um ator local em um espetáculo. Todo esse processo que aborda a iminência da finitude do homem é azeitado com a mais bonita das intenções poéticas, eivado de admiráveis bravura e exposição individual, mesmo que a defesa da privacidade lhe fosse uma característica, fazendo com que a sua narrativa mexa inexoravelmente com as sensibilidades alheias.

    Isabel Teixeira é daquelas atrizes ímpares que possuem as suas emoções na superfície da pele contagiando a alma de todos que lhe assistem

    Para o diretor Marcos Caruso esta deve ter sido, sem sombras de dúvida, uma das missões mais desafiadoras de toda a sua extensa e bem-sucedida carreira. Marcos não poderia ser tomado, assumindo potenciais riscos, de parcialidades e freios com objetivos de preservar a imagem de sua amiga, parceira e colega de ofício, justificáveis pela própria natureza do relacionamento, devendo imperativamente se despir desta roupa que lhe cabe e reverenciar cada linha e intenção deixadas pela autora no calor de suas legítimas emoções, e fora o que de maneira inequívoca o sábio diretor fez. Todo o pungente retrato pintado por Jandira Martini sobre ela mesma está lá, em cima do palco, com todas as dores e risos possíveis, para quem quiser ver e escutar. O encenador tinha à frente a sua protagonista Isabel Teixeira, toda uma ribalta vazia explorável e uma dramaturgia que lhe soava bastante familiar, e o que se logrou fora uma obra com irrepreensíveis precisão, delicadeza e paixão, testemunhadas nas bem executadas transições entre passagens de vida distintas de Jandira, nas emoções com altíssima voltagem extraídas da intérprete, na calculada inserção das músicas em momentos-chaves da peça e na aposta na coloquialidade de sua “personagem” como eficaz canal de interlocução com a plateia. Isabel Teixeira, atriz paulistana com notória respeitabilidade por seus gloriosos anos de trabalho dedicados à arte teatral, com merecidíssima admiração no Brasil pelas suas recentes atuações na TV, enquadra-se naqueles casos em que não conseguiríamos enxergar outra atriz que melhor representasse as vivências da dramaturga que também encantou as pessoas com seus papéis no veículo audiovisual. Já de início, Isabel, com seu rosto expressivo, em especial seus olhos verdes, e poderosa voz, ganha a todos com seus inestimáveis carisma, espontaneidade e comunicabilidade. Todos esses aspectos positivos se somam a tantos outros formadores de seu enorme talento, permitindo-lhe a construção perfeita das diversas personas existentes em uma única colocadas à mostra nas sucessivas fases vividas pela artista/mulher Jandira, seja no ápice da dor ou no êxtase da alegria. Isabel Teixeira é daquelas atrizes ímpares que possuem as suas emoções situadas na superfície da pele, bastando que um simples toque lhes seja dado para que se dissipem maravilhosamente pelo espaço e contagiem a alma de todos que lhe assistem. Aline Meyer ficou encarregada pela instigante e diversificada trilha sonora da encenação, enriquecida por acordes de instrumentos de cordas, rufar de tambores, cantos assemelhados ao gregoriano, marchinha de carnaval e clássicos de Raul Seixas (por sinal, Isabel nos surpreende ao interpretar com categoria e potência um deles). Um valoroso apanhado musical com reconhecida contribuição final para a montagem. Fábio Namatame, figurinista, decidiu pela fluidez com elegância ao trajar Isabel com um comprido casaco nude sobre regata e calça chumbo claro. Renata Melo, a quem coube a direção de movimento, realizou-a com imensa competência, haja vista que nos é apresentada uma Isabel Teixeira em total comunhão e domínio de seu corpo. A dupla Beto Bruel e Sarah Salgado nos ofertou uma bela iluminação, na qual prevaleceram feixes que se encontravam formando geometrias, vindos de spots tanto superiores quanto laterais. Houve, também, a predominância das sombras, resultando na valorização imagética de determinadas cenas. “Jandira – Em Busca do Bonde Perdido” é um espetáculo que resgata com louvor e merecimento a personalidade literária de uma excelsa operária das artes, mesmo que tenha sido no momento mais dolorido de sua caminhada pessoal. O teatro com o seu condão redentor não permitiu que Jandira Martini tampouco o público que sempre a ovacionou perdesse esse valioso e inolvidável “bonde”.      

        

  • “Mateus Solano, um artista que divide lindamente com o público os seus múltiplos protagonismos.”

    julho 9th, 2024
    Em seu primeiro monólogo, Mateus Solano dá vida a Augusto, um homem solitário e sonhador que ganha o seu sustento como figurante de produções audiovisuais
    /Foto: Guto Costa

    Mateus Solano e Miguel Thiré retomam a bem-sucedida parceria vista no grande sucesso teatral “Selfie”, tendo dessa vez a companhia de um outro reconhecido talento, Isabel Teixeira

    Entre 2014 e 2016, Mateus Solano e Miguel Thiré contracenaram em um grande sucesso teatral, a comédia “Selfie”, que jogava luz sobre os desafios enfrentados pela sociedade com as novas tecnologias. Passado tanto tempo, a talentosa dupla está de volta com a peça “O Figurante”, fechando a sua 5ª parceria artística, desta vez com Mateus sozinho no palco, debutando em monólogos, e Miguel na direção. Aliou-se a este par uma profissional com vultosa importância, a atriz, dramaturga e diretora Isabel Teixeira, que o ajudou na construção textual do espetáculo, utilizando-se de seu método “Escrita na Cena”, que consiste no fato do ator ser estimulado, durante exercícios de improvisação, a criar e recriar as suas próprias narrativas, tornando-se também um “autor” no processo do fazer teatral. A este método se juntou uma proposta de linguagem já adotada em “Selfie”, caracterizada pela valorização da essencialidade do intérprete, na qual são exploradas de modo produtivo todas as suas ferramentas vocais e corporais, tendo-se o mínimo possível de acessórios cênicos. O somatório dessas bem-vindas experiências resultou na tocante, divertida e melancólica jornada de Augusto, um homem perseguido pelas inclementes solidão e rotina contemporâneas, cujos únicos sonhos são ainda alimentados em seu trabalho como figurante de produções audiovisuais.

    A peça faz uma denúncia sobre a banalização da invisibilidade do indivíduo usando como símbolo o personagem Augusto, vítima constante desse mal social

    Augusto não é um figurante qualquer. A cada participação diária que lhe surge, uma espécie de sobrevida a sua existência vazia, não importando a função que irá exercer, um porteiro de escola, um garçom ou um sócio de uma empresa, Augusto se dedica à contextualização desse “personagem”, frustrando-se invariavelmente ao se dar conta de sua invisibilidade para os demais em um ambiente hostil, opressor e hierarquizado. Para os dramaturgos, o figurante é um símbolo eloquente da invisibilidade sistêmica e banalizada a que se atribui a tantos indivíduos, aos quais lhes é negada inclusive a sua identidade. A dramaturgia de Isabel, Mateus e Miguel, bem costurada, fluida, com tempos eficientemente definidos, conquista-nos de pronto pelo seu viés humanizado, suas evidentes intenções em imprimir leveza com pitadas de pura comédia a uma situação por si só melancólica, fazendo com que torçamos por esse ingênuo personagem jogado às feras do mundo real.

    Há na performance de Mateus Solano uma sedutora e envolvente influência “clownesca”, circense, digna de gênios do cinema mudo, como Charles Chaplin

    Miguel Thiré, tendo profundo conhecimento das extensas habilidades interpretativas de seu parceiro de longa data, extrai o seu melhor, seja no humor seja no drama, deixando-o inteiro em cena, ofertando-lhe liberdade e lhe permitindo uma ampla interlocução com a plateia. Miguel, comprovando o que defende, soube tratar com inteligência a nudez da ribalta, preenchendo lucidamente seus espaços, privilegiando, pela própria condição de Augusto, mais o seu fundo e as laterais, sem deixar, no entanto, de reconhecer o valor das marcações frontais em situações assaz específicas. Mateus Solano é um ator dotado dos mais exponenciais recursos artísticos, com impressionantes variações faciais e emissões distintas de seu aparelho vocal. O intérprete, extremamente íntimo do palco, tendo uma poderosa cumplicidade com os espectadores, não parecendo ser essa a sua primeira vez em monólogos, encarrega-se de representar com tintas diversas e convincentes os personagens criados na imaginação de Augusto. Como se não bastasse esse maravilhoso “tour de force” cênico, o artista brasiliense pré-gravou as falas dos tipos que fazem parte do universo audiovisual do figurante, como a diretora, a atriz/estrela, o ator principal e o fiscal de figurantes. Há na performance de Mateus uma sedutora e envolvente influência “clownesca”, circense, digna de gênios do cinema mudo, como Charles Chaplin, com a realização mímica de atividades cotidianas que conferem sobremaneira um caráter lúdico à obra. A direção de movimento de Toni Rodrigues é excepcional, brilhante, pois sua reconhecida capacidade em fazer com que os atores descubram os próprios corpos e se movimentem de modo compatível com a persona que vivem foi de encontro a um artista que possui robustas expressividades de sua máquina corporal. Dani Sanchez, responsável pelo desenho de luz, proporciona-nos um belo panorama visual em que prevalece uma suave iluminação de spots superiores mais próxima do tom amarelado, vendo-se também feixes laterais, leds e a incidência de matizes fortes, como o vermelho, o azul e o fúcsia. O desenho de som, a direção musical e a trilha original ficaram a cargo de João Thiré, mostrando-se bastante criativos ao transformar sons do cotidiano em compassos rítmicos. João também disponibilizou melodias (com teclados, bateria) e sonoridades urbanas que contribuem com notado êxito para a ambientação da história e dos conflitos do personagem. Carol Lobato, figurinista, optou com sabedoria pela praticidade e conveniência, ao vestir Mateus com um macacão/terno cor de chumbo que lhe possibilitou a vasta liberdade de movimentos exigida pelo seu papel. “O Figurante” é um espetáculo que, através de três grandes e generosos artistas, Mateus Solano, Isabel Teixeira e Miguel Thiré, consegue nos passar com imensa beleza a valiosa mensagem de que não devemos invisibilizar os Augustos do mundo.

  • “Débora Falabella, uma magistral atriz que veste a sua toga, defende a sua arte e chega sempre em primeiro lugar.”

    junho 17th, 2024

    Em “Prima Facie” Débora Falabella representa uma advogada criminalista bem-sucedida cujos clientes preferenciais são acusados de violência sexual/Foto: Annelize Tozetto

    “Prima Facie”, peça premiada e encenada em vários países, escrita pela australiana Suzie Miller, levanta uma questão que diz muito sobre o Brasil, marcando a estreia de Débora Falabella em monólogos

    Há poucos dias, na calada da noite, em regime de urgência, abrindo-se mão de debates em comissões e audiências públicas, parlamentares brasileiros votaram um projeto de lei de forma simbólica, não nominal, que criminaliza mulheres vítimas de abuso sexual caso interrompam o ciclo gestacional a partir da 22ª semana, equiparando-as a homicidas simples. Este episódio atentatório ao que já estabelece o ordenamento jurídico penal do país atualiza de modo surpreendente o espetáculo que vem causando comoção e furor nas plateias teatrais, “Prima Facie”, da escritora, dramaturga, roteirista e advogada nascida em Melbourne, Austrália, Suzie Miller. Traduzida com magnificência por Alexandre Tenório, dirigida por Yara de Novaes e estrelada por Débora Falabella, debutando em monólogos, a peça, cujo título é uma expressão latina que significa “à primeira vista; um evento considerado verdadeiro com base apenas em sua primeira impressão”, estreou em Sydney em 2019, no West End londrino em 2022 e na Broadway no ano passado, sendo hoje encenada, sempre com sucesso, em diversos países. A premiada montagem, inédita no Brasil, cujo livro homônimo teve a sua primeira publicação em 2019, conta-nos a impressionante trajetória de Tessa Ensler, uma advogada criminalista bem-sucedida que defende com gana acusados de violência sexual e se valendo de brechas jurídicas invariavelmente os leva à absolvição, independente de sua culpabilidade ou não. Autoconfiante, persuasiva, questionadora da verdade absoluta como conceito e defensora implacável da literalidade da lei, Tessa, uma mulher ligada à família, vê o seu mundo pessoal desabar quando ela mesma é vítima de abuso sexual de alguém que lhe é bastante próximo, um colega de trabalho, fazendo-a mudar todas as suas visões preestabelecidas de como se deve lidar com um crime dessa proporção e todos os seus desdobramentos psicológicos, com danos à vida profissional e social da mulher violentada.

    A diretora Yara de Novaes, que mantém uma parceria artística de 20 anos com Débora, realiza um trabalho impactante sob todos os aspectos, cumprindo honrosamente a sua missão

    A dramaturga Suzie Miller com notável destreza estrutura o arco dramático em duas etapas, sendo a primeira voltada para o desempenho excepcional de Tessa nos julgamentos com suas capciosas jogadas jurídicas e sua vida social/afetiva comum, dedicando a segunda ao doloroso périplo por que passa ao tentar convencer o machista e misógino sistema judicial de sua condição de vítima de estupro. A autora, com bastante acerto, gerando imediata comunicabilidade, atribui à sua protagonista a função de narradora de sua própria história, além de servir de instrumento para dar vida àqueles que a rodeiam. Sua formação em Direito confere imensa precisão técnica à narrativa, chamando-nos também a atenção quanto às suas riqueza e credibilidade dramatúrgicas, sem espaços não preenchidos, oferecendo-nos uma obra exponencialmente valorosa em suas mensagens e denúncias. Yara de Novaes, com quem Débora mantém uma parceria artística de 20 anos consumada no Grupo 3 de Teatro, entrega-nos uma produção pulsante, corajosa, desafiadora para a sua atriz, em nenhum momento estática, revelando uma total e irrestrita conformidade com a linguagem poderosa do texto que lhe coube, fazendo com que os espectadores se deixem conduzir pela irrefreável escalada de tensão que acomete Tessa em sua inglória peleja individual. Extraindo o melhor de sua artista, aproveitando todas as viabilidades do perímetro cênico, recursos do cenário e projeções, Yara realiza um trabalho impactante sob todos os aspectos, cumprindo honrosamente a sua missão.

    Débora Falabella nos entrega uma atuação tão tocante e comovente que merece um lugar de destaque na galeria daquelas que se tornaram históricas no teatro nacional

    Débora Falabella, uma das grandes atrizes de sua geração, como Tessa Ensler, estarrece a todos com uma atuação que se notabiliza pela visceralidade, entrega e verdade emocionais e entendimento absoluto das razões e motivações de uma personagem tão rica, profunda e complexa. Débora transita com admiráveis firmeza, equilíbrio e força pelas veredas apresentadas por essa mulher possuidora de muitas camadas em sua personalidade, que vão da ironia e sarcasmo ao mais legítimo desespero, frustração e vulnerabilidade. Como se não fosse o suficiente, a atriz mineira nos surpreende com uma invejável expressividade corporal (ótima preparação a cargo de Renan Ferreira) no decorrer de suas cenas. Uma atuação tão tocante e comovente que merece um lugar de destaque na galeria daquelas que se tornaram históricas no teatro nacional. André Cortez, responsável pelo cenário, privilegiou a objetividade e a praticidade, ao dispor sobre o palco cadeiras estofadas em amarelo, algumas sobrepostas em uma mesa, tendo ao fundo um largo e alto painel com textura de madeira, a fim de nos reportar ao ambiente de um tribunal (são assaz eficientes as projeções feitas sobre esse mesmo painel). A luz elegante, com spots laterais, sombras realçadas, momentos para o azul e o vermelho e um plano aberto suave é mérito de Wagner Antônio. A instigante trilha sonora de Morris, baseada na multiplicidade de sons de sintetizadores (bateria, teclados), pontua com coerência o desenho narrativo, com aberturas para canções contemporâneas (a versão de “Girl On Fire”, de Alicia Keys, feita por TUM, Luísa Matsushita & Chuck Hipolitho, é fantástica). Os figurinos são assinados pelo prestigiado Fábio Namatame, que cria com fidelidade as vestimentas do universo jurídico, contribuindo com bom gosto com peças de alfaiataria, como blazers e calças bem cortados. “Prima Facie” é inegavelmente um dos mais relevantes espetáculos montados nos últimos anos. Seu caráter denunciativo, potencial reflexivo e esclarecedor, lucidez e atualidade colaboram em definitivo para essa conclusão. À primeira vista, não se tem uma única dúvida razoável quanto a isso.

  • “Guida Vianna e Silvia Buarque, em uma sensível e afinada sintonia como mãe e filha, ‘rompem a parede de gelo’ ao levar aos palcos uma das mais complexas e tocantes relações humanas.”

    maio 27th, 2024
    Silvia Buarque e Guida Vianna são as estrelas da peça escrita por Daniela Pereira de Carvalho
    /Foto: Nil Caniné

    A dramaturga Daniela Pereira de Carvalho construiu um engenhoso arco narrativo no qual três gerações de mãe e filha e seus respectivos conflitos são apresentadas

    Relações entre mães e filhas, levando-se em consideração o grau de complexidade que as define, sempre foram retratadas ficcional ou factualmente em peças teatrais, filmes e livros. Esses relacionamentos movidos pelas mais diversas emoções e intensidades, em que podem ser encontrados lado a lado o mais infinito amor e a mais implacável das intolerâncias, geram de modo invariável o interesse e a curiosidade do indivíduo. Sendo este um tema inesgotável a ser explorado, marcado pela sua universalidade e atemporalidade, qualquer obra artística que se proponha a abordá-lo sob um novo olhar é bem-vinda. Sendo assim, a dramaturga Daniela Pereira de Carvalho mergulhou com destemor e profundidade no texto do espetáculo “A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe”, que de imediato nos seduz pelo seu bonito e sugestivo título. Daniela, com notável habilidade, construiu um engenhoso arco narrativo no qual três gerações de mãe e filha com seus respectivos conflitos nos são apresentadas, começando com Elisa (Guida Vianna), 70 anos, que reencontra a sua filha Antônia, 50 anos, trinta anos depois, em uma viagem a Mumbai, na Índia, em um quarto de hotel. A longa separação foi motivada pela não aceitação da mãe quanto à homossexualidade de sua filha. A autora se embrenhou neste universo particular de duas mulheres, inundado de mágoas, ressentimentos e culpas, para colocar sobre a mesa uma pauta que aflige severamente a sociedade, a homofobia. Passados 20 anos, agora é a vez de Antônia (Guida Vianna) acertar as contas com a filha Helena (Silvia Buarque), entregue para a adoção ao nascer. O delicado e nervoso reencontro, que ocorre no restaurante de Helena, é cercado de sentimentos similares ao primeiro, ao qual se somam a vergonha da mãe e a impassibilidade da filha. A despeito da aridez dessas reuniões, nas quais em determinados momentos as atrizes protagonizam solilóquios, a dramaturga não dispensa a possibilidade de redenção e afeto mútuo, imprimindo à montagem importantes aspectos humanos.

    “A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe” chega às plateias de muitas maneiras

    Leonardo Netto, a quem coube a bem-sucedida direção, privilegiou nitidamente as atuações de suas intérpretes, visto que seus diferentes papéis possuem uma vasta paleta de elementos comportamentais/emocionais. Desta forma, o texto em si passa a ser também, palavra a palavra, bastante estimado. O diretor, tendo em mãos duas atrizes com valiosa experiência, vale-se disso para desenhar com distinta variação as linhas de marcação do espaço teatral, preenchendo-o harmoniosamente com uma dinâmica compassada. O encenador realiza ainda com sucesso a transição temporal dramatúrgica, que se dá naturalmente, sem grandes rupturas. Guida Vianna, uma atriz com imensa personalidade e irrefutável carisma, laça os olhares do público com sua pujança interpretativa nata. Tanto como Elisa quanto como Antônia, Guida nos oferece um rico compilado de emoções, sabendo alterná-las com sabedoria e tempo cênico exatos. Silvia Buarque, artista conhecedora dos palcos dotada de nuances e sutilezas em suas expressões dramáticas, acompanha lindamente a sua colega de cena nessa fascinante jornada de mães e filhas que atravessa décadas. Silvia encara com altivez os desafios impostos pelas suas duas personagens com caracteres opostos, Antônia e Helena, alcançando honrosamente seus objetivos. Uma talentosa dupla em sensível e afinada sintonia. O cenário de Ronald Teixeira é deslumbrante, com vultoso impacto visual. Ronald espalhou por toda a ribalta folhas secas, suspendeu em posições variadas mais de uma dezena de janelas com formatos desiguais, vazadas e ornadas com ramalhetes, distribuiu algumas cadeiras e uma mesa bistrô sobre o tablado e colocou ao fundo um belo painel espelhado que distorce as imagens. Os figurinos, com destaque para a transparência preta, o brocado e o dourado, além de casuais casaco e vestido, também levam a sua assinatura. Paulo Cesar Medeiros contribui com uma luz elegante, representada por plano geral/aberto em tons amarelados que assumem distintas gradações, spots laterais, focos com blecaute e o uso de filtros vermelho e azul. A sempre competente Marcia Rubin, com a sua direção de movimento, auxilia as atrizes a comporem com maior veracidade os seus papéis. A trilha sonora de Leonardo Netto, servida com ritmos e sons ditados por teclados e sopro, atende eficientemente às demandas da obra. “A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe” é um espetáculo que chega às plateias de muitas maneiras, seja pela presença cativante de suas atrizes, seja pelos assuntos seríssimos levantados, seja pelo fato de que todos nós conhecemos alguma boa história entre mãe e filha. Principalmente se essa filha “escorre dos seus olhos”.

  • “Os sinos dobram enquanto Analu Prestes, Mario Borges e Stela Freitas arrebatam o público em ‘As Crianças’.”

    maio 14th, 2024
    Stela Freitas, Mario Borges e Analu Prestes são físicos nucleares que se confrontam de diversas formas ao debaterem temas universais e em especial os relacionados a um desastre ambiental causado por um acidente nuclear/Foto: Renato Mangolin

    Torna-se impossível não se impressionar com o texto da dramaturga inglesa Lucy Kirkwood

    A peça “As Crianças” (“The Children”) estreou em 2019, ano em que ocorreu a tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais. A peça hoje, em 2024, ano em que ocorrem as devastadoras enchentes no Rio Grande do Sul, continua em cartaz. Ou seja, o espetáculo escrito pela dramaturga inglesa Lucy Kirkwood em 2016, traduzido magistralmente por Diego Teza, indicado a 25 prêmios, sendo vencedor em 9 deles, continua, infelizmente, atual, já que um de seus temas são as consequências ambientais e sociais causadas por um acidente nuclear. A jovem autora Lucy, com notável conhecimento da alma humana e do quanto ela pode ser transformada ao longo da sua existência seja por meio das relações interpessoais ou devido a um trauma de grandes proporções não só para a natureza mas para os indivíduos, possui pleno domínio das palavras e de como construir de modo elaborado um jogo cênico/dramatúrgico de tal forma envolvente que se torna impossível não se impressionar com o seu texto.

    Um casal de físicos nucleares e uma velha amiga de profissão se reencontram quase 40 anos depois e iniciam entre si uma série de diálogos e enfrentamentos nos quais são levantados os mais diversos assuntos, como envelhecimento, traição e ética

    Sua história retrata um casal de físicos nucleares, Dayse e Robin, interpretados respectivamente por Analu Prestes e Mario Borges, habitantes de um lugar afastado e bucólico, vítimas de uma rotina acachapante e de perturbadores fantasmas da usina nuclear objeto de um vazamento assolador localizada não muito distante da região onde vivem, ao ponto de verem o pôr do sol sobre a própria. Esta convivência modorrenta do casal é inesperadamente interrompida com a chegada quase 40 anos depois de uma velha amiga de profissão, Rose, Stela Freitas. Com a formação deste triunvirato, deparamo-nos com um ambiente em que se percebem acidez e ironia nos diálogos e enfrentamentos, no qual são levantados os mais diversos assuntos que os afetam de maneira individual ou não, como envelhecimento (e a busca para retardá-lo) e a maneira como lidamos com o nosso corpo, traição, inveja, desejo na maturidade, o modo como encaramos as doenças, libertação feminina, escassez de recursos naturais e a ética ou falta dela em cada um de nós. Com este rico material, a escritora consegue nos presentear com um arcabouço narrativo poderoso com mensagens que ao final podem ser encaradas como redentoras e esperançosas. Vale destacar ainda que o texto traduzido por Diego tem a peculiaridade, sendo quebrada a quarta parede, de serem ditas em certos momentos as suas rubricas, tão importantes para o entendimento daquele, por alguns de seus personagens.

    Rodrigo Portella, tendo um elenco de altíssima qualidade, deixa a sua marca em um dos melhores espetáculos encenados nos últimos anos

    Rodrigo Portella, um dos diretores mais prestigiados de sua geração, vencedor dos prêmios Cesgranrio, Botequim Cultural e APTR por esta montagem, que também foi laureada com o Cesgranrio e o Botequim Cultural de “Melhor Espetáculo”, é conhecido pelos estudiosos da área e pela classe artística pela sua defesa tenaz da simplicidade teatral, e é com esta mesma simplicidade, porém preciosíssima sob diferentes óticas, que a sua marca é impressa com excelência em um dos melhores espetáculos encenados nos últimos anos. Rodrigo direciona com precisão o seu foco na composição interpretativa de seus atores, na melhor maneira de seu elenco canalizar as mais amplas e ambíguas emoções, no jeito mais eficaz do texto ganhar a embocadura perfeita dos seus artistas. Um profissional que se preocupa em valorizar a ribalta e demais acessórios cênicos com todas as infinitas possibilidades que lhe são oferecidas, reverenciando a tensão, o conflito, no entanto sem abandonar os lugares que a poesia e a graça podem e devem ocupar. O trio de atores escalado para dar vida aos personagens de Lucy Kirkwood, Analu Prestes, Mario Borges e Stela Freitas, todos com reconhecida experiência e talento, é de altíssima qualidade, sendo, sem quaisquer dúvidas, absolutamente responsáveis pelo nível de sucesso alcançado pela peça em todas as suas temporadas. Analu Prestes (Prêmios Shell, Cesgranrio, Botequim Cultural e APTR de Melhor Atriz) nos transmite com espantosa densidade a ambivalência, a amargura e a inconstância de Dayse, além de toda uma sucessão de camadas afetivas que a definem. Mario Borges, como Robin, vale-se com sabedoria de seus recursos interpretativos para criar um tipo que transita pelo caráter bonachão e espirituoso, mas que, dependendo da ocasião, descamba para uma irascibilidade. E Stela Freitas acerta magnificamente ao apostar na impassibilidade, no pragmatismo e no ar “blasé” de sua física nuclear. O cenário do próprio diretor Rodrigo Portella e de Julia Deccache atende ao princípio da simplicidade defendido pelo primeiro, priorizando tão somente elementos vitais para o desenvolvimento da trama, o que de forma alguma lhe tira o charme e o interesse, representados por uma mesa retangular de madeira e suas respectivas cadeiras, além de acessórios lúdicos, como um cavalinho de balanço. Paulo Cesar Medeiros se encarrega de embelezar o espetáculo através de sua luz, caracterizada em grande parte por uma iluminação aberta/geral, próxima ao amarelado, que sofre, dependendo da situação, oscilações de matiz. Paulo se esmera ainda em introduzir deslumbrantes focos, feixes vindos do fundo do palco e spots laterais que exploram belamente o azul e o verde. Os figurinos são criações de Rita Murtinho, que os reportou a um universo distópico, observado nos tons sombrios de cinza/chumbo, acrescidos pelo verde e ocre, em vestimentas que apresentam remendos e costuras. A proposta de Rita, que ainda optou por galochas para os atores, impacta, estando em total consonância com a dramaturgia. A trilha sonora original de Marcello H. e Federico Puppi contribui sobremaneira para a ambiência crível da peça com suas inserções instrumentais calcadas principalmente nos sons graves de cordas, pontuando quadros de tensão, expectativa ou apenas transição de cenas. Marcelo Aquino, responsável pela preparação corporal dos intérpretes, cumpre sua função com vultosa eficiência, porquanto vemos a execução plena tanto postural quanto de movimentos demandada pelos seus personagens. “As Crianças” é uma peça teatral que se destaca pela sua atualidade, sua urgência e inteligência dramatúrgica. Seu forte teor denunciativo jamais passará incólume aos olhos de seus públicos. Uma obra redentora que aposta em um mundo melhor ao acreditar nas futuras gerações, mas isso não seria possível se não fossem as nossas adoráveis “crianças” Analu Prestes, Mario Borges e Stela Freitas, que “brincam” lindamente em cima de um palco.

  • “Vilma Melo, na qualidade de brilhante atriz, reverencia a ancestralidade e a importância da luta do povo preto em ‘Mãe de Santo’.”

    abril 29th, 2024
    Vilma Melo, indicada a relevantes prêmios como “Melhor Atriz”, dá voz a diferentes mulheres negras e suas vivências no monólogo cujo argumento é da filósofa, escritora e professora Helena Theodoro/Foto: Guga Melgar

    Idealizado pela atriz Vilma Melo e o produtor cultural Bruno Mariozz, o monólogo “Mãe de Santo”, com argumento de Helena Theodoro e dramaturgia de Renata Mizrahi, parte da premissa, dentre outras, do quanto são vilipendiadas e ofendidas as mulheres pretas brasileiras

    No último dia 23 de abril o presidente de Portugal Marcelo Rebelo de Sousa disse em pronunciamento que “seu país teve responsabilidade sobre crimes na era colonial, como tráfico de pessoas da África, …” e “que o Estado português deveria reparar danos causados nesse período.”. De fato, as consequências desastrosas para a população negra brasileira são sentidas até os dias de hoje, vistas rotineiramente na exclusão e desigualdade sociais, no preconceito e discriminação raciais, independente das classes ocupadas, e nos crimes de racismo e injúria racial praticados e noticiados com frequência nos meios de comunicação, demandando reparações obrigatórias que revertam ao máximo todo o estrago feito contra um povo e sua cultura. No entanto, em um país em que as mulheres são relegadas a um patamar inferior, pode-se imaginar o quanto, em grau mais elevado, as de pele preta são vilipendiadas e ofendidas com constância. Partindo-se dessa premissa, a atriz Vilma Melo e o produtor cultural Bruno Mariozz idealizaram o projeto de realização do espetáculo “Mãe de Santo”, que contou com o valioso argumento da filósofa, escritora e professora Helena Theodoro, que serviu para que a autora teatral Renata Mizrahi, valendo-se de seus textos e relatos, compusesse com riqueza a dramaturgia que nos é apresentada e que integra a trilogia “Matriarcas”, formada ainda por “Mãe Baiana” e “Mãe Preta”.

    A rica dramaturgia de Renata Mizrahi leva ao público registros reais de discriminação, preconceito e racismo, seja contra uma influencer famosa, uma empregada doméstica ou as próprias Helena Theodoro e Vilma Melo

    Renata, com a adoção de recursos narrativos eficientes, utilizou-se da figura central de uma palestrante, Vilma Melo, que no decorrer de suas falas pertinentes às condições em que mulheres pretas são vítimas de comportamentos alheios discriminatórios em virtude do fato de que são simplesmente mulheres pretas fosse o ponto de partida para que houvesse o compartilhamento de histórias assemelhadas que certificassem a prática racista e sexista predominante em nosso país. Casos que jamais podem cair na banalização e desdém são divididos com a plateia pela protagonista, que se desdobra com seu retumbante talento na representação desses personagens reais, baseados em experiências inclusive da filósofa Helena Theodoro e da própria Vilma, como a revista de “praxe” na bagagem em um aeroporto, o pedido de documentos a uma famosa influencer e blogueira viajando na primeira classe do avião, uma estudante acusada por uma instituição de ensino e punida por isto ao ser a única “culpada” em uma situação em que os seus colegas colaram de sua prova, a empregada doméstica acusada de furto exatamente no dia em que estava de folga, uma representante de religião de matriz africana que em uma viagem para um evento de repercussão internacional para o qual fora convidada se deu conta de sua invisibilidade para os demais, uma grande atriz que se indignou com uma fala equivocada de uma cena de novela e circunstâncias que envolvem algo grave e rotineiro como a intolerância religiosa, ao ponto da vítima não se calar e exclamar: – Não mexam com o meu sagrado!, uma das frases mais impactantes do espetáculo. Contrariando expectativas de que esses temas tão áridos fossem tratados somente com o peso que os mesmos carregam, a dramaturga fez questão de não preterir a leveza em determinados momentos no seu desenho textual, capazes até de arrancar risos (seriam eles nervosos?) dos espectadores. Há que se falar que a dramaturgia abordou, respeitando-se toda a dor existente, um dos acontecimentos mais traumáticos da vida da autora do argumento, a perda precoce de seu filho levado pelas ondas do mar.

    Vilma Melo, grande atriz, é dotada dos mais variados predicados que lhe permitem dar vida com leveza ou graça ou com o mais contundente dos dramas às diversas personagens que interpreta

    Luiz Antonio Pilar, o diretor da montagem, em absoluta conexão com Renata e Vilma, coloca no palco uma bela e poética encenação, sem que todas as sérias denúncias deixem de ocupar o seu lugar de destaque. Ciente das potencialidades artísticas de sua intérprete, Luiz as explora com equilíbrio e sabedoria, acertando, com sua apurada visão, ao inserir nos pontos adequados, os cantos deslumbrantemente entoados por ela. Outro aspecto a ser mencionado é a bem-sucedida e assaz elegante interação entre a atriz e a audiência com perguntas que nos levam à reflexão. Quanto a Vilma Melo, a partir de sua entrada em cena, já formamos a convicção de que estamos diante de uma grande atriz, dotada dos mais variados predicados que lhe permitem dar vida seja com graça e leveza ou com o mais contundente dos dramas às diversas personagens que perpassam o arco narrativo e suas respectivas vivências. A atriz carioca, primeira atriz negra a ganhar o prêmio Shell em 2017, e indicada por este trabalho ao mesmo prêmio Shell em 2023 e ao APTR em 2022, possui a inteligência cênica exigida para enfrentar tamanho desafio e o faz garbosamente, valendo-se da sutileza de seu olhar para nos transmitir algo importante ou de sua potente e bem articulada voz, usada de forma encantadora nas canções emocionantes que interpreta. A trilha sonora original de Wladimir Pinheiro ocupa uma função precípua na peça, conferindo-lhe, tendo por base essencialmente acordes que derivam do som dos atabaques que se somam aos de cordas, um resultado bastante expressivo e de notável beleza, marcando com êxito as cenas e suas transições. O cenário e o figurino foram criações de Clívia Cohen, que soube imprimir ao primeiro uma linda simplicidade coberta de simbolismos, observada nas dezenas de turbantes em preto e branco presos a fios espalhados por toda a ribalta, acompanhados por cadeira, tamborete e bacia de madeira azuis e cercados de bambu, também foi bastante feliz no figurino de Vilma Melo, trajada com um vestido meio ombro azul com estampas de círculos coloridos e acessórios imponentes (há ainda peças que lhe servem posteriormente de Pano da Costa, uma espécie de vestido, e um Ojá, turbante). A iluminação de Anderson Ratto é um indiscutível fator de embelezamento da produção, com o sábio uso dos turbantes que servem como pontos de incidência de sua luz, que passeia por cores como o rosa e o vermelho, além da prevalência do azul em certas ocasiões, focos muito bem calculados e alguns efeitos deslumbrantes, como os spots colocados atrás das cercas de bambu e a luz sobre a bacia d’água. “Mãe de Santo”, que já foi apresentada em festivais internacionais em Cabo Verde e Moçambique, além de Portugal, é uma peça teatral de caráter urgente e necessário, que é para ser vista e revista, pensada, avaliada, visto que assuntos que nos são muito valiosos, como ancestralidade, formação do nosso povo brasileiro, com sua maioria de pessoas pretas, racismo e invisibilidade da mulher negra são tratados com legitimidade e seriedade. “Mãe de Santo” é um grito de “Basta!” em cima de um palco. É um grito de “Não mexam com o meu sagrado!” em cima do mesmo palco.

  • “Em ‘Virginia’, sublime na atuação, sublime na dramaturgia. Tudo está em Cláudia Abreu.”

    março 3rd, 2024
    Cláudia Abreu, atriz consagrada na TV, no teatro e no cinema, estreia como dramaturga em seu primeiro monólogo, sobre a vida e obra da escritora inglesa Virginia Woolf/Foto: Flávia Canavarro

    Cláudia Abreu mergulhou em uma longa e profunda pesquisa sobre Virginia Woolf para levar aos palcos o seu primeiro texto teatral

    Nas Artes Cênicas ou em qualquer meio de expressão artística quando se objetiva retratar uma personalidade de alcance mundial e de notada relevância para a área da qual faz parte há que se ter em mente que uma profunda e longa pesquisa deve ser obrigatoriamente realizada. Foi o que fez a consagrada atriz, roteirista e produtora carioca Cláudia Abreu, amada em todo o Brasil por seus inúmeros personagens na TV, também com presença respeitável tanto nos palcos quanto nas telas de cinema, com a escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941), a quem já fora apresentada no espetáculo “Orlando” (1989), com direção de Bia Lessa. Por alguns anos, Cláudia, formada em Filosofia, mergulhou na rica obra da autora de clássicos como “Mrs. Dalloway”, “As Ondas” e “Ao Farol”, relendo seus livros, estudando suas biografias, diários e memórias. Desta imersão literária surgiu não só o primeiro monólogo da intérprete como também o seu brilhante primeiro texto teatral, digno dos mais experientes dramaturgos, “Virginia”, com direção de Amir Haddad (com quem já havia trabalhado em “Noite de Reis”, em 1997) e codireção de Malu Valle, dois profissionais fundamentais para a concretização do projeto.

    Os diretores Amir Haddad e Malu Valle exploram com proficiência as possibilidades que o binômio texto/ator lhes oferece

    Estruturalmente, não é tarefa fácil condensar a tumultuada e trágica vida pessoal e gloriosa trilha literária de Virginia Woolf em uma hora de encenação, no entanto, com habilidade e noção precisa do espaço dramatúrgico, Cláudia logrou admirável êxito. A autora ofertou ao público com sensibilidade e delicadeza todas as fases marcantes de sua retratada, revelando sua postura feminista, “avant-garde” e competitiva, sua luta contra a opressão paterna, a admiração pela mãe, a paixão pelo conhecimento que lhe foi negado nas escolas, suas constantes angústias, inseguranças, crises nervosas, lapsos de memória, dores com a perda de entes queridos e com os abusos sexuais sofridos, confrontos entre lucidez e loucura, além de suas relações com os muitos irmãos, sua bissexualidade, seu problemático casamento e seu encanto pelo grupo intelectual de Bloomsbury. Vale ressaltar que a dramaturga utilizou a mesma técnica literária usada por seu objeto de estudo, “os fluxos de consciência”, capazes de expressar as vozes reais e fictícias presentes na mente de um personagem. A direção de Amir Haddad (Amir começou a conduzir Cláudia ainda durante a crise sanitária mundial, em encontros virtuais e presenciais) e Malu Valle (que entrou posteriormente) é primorosa no sentido de se afinar completamente com o tom dramatúrgico proposto por Cláudia, em uma união saudável de liberdade e técnica colocada em prática pela atriz (a própria fez menção a isso em seu agradecimento após a sessão da peça). Na verdade, o que se vê é a franca e assumida valorização do binômio texto/ator, e os diretores exploram com reconhecida proficiência esta possibilidade. As marcações são variadas, heterogêneas, deixando a peça solta, fluida, dinâmica, com Cláudia tendo um palco nu e limpo só para si.

    A interpretação de Cláudia Abreu é merecedora de ocupar um lugar de destaque no compilado de suas melhores performances

    Quanto a Cláudia Abreu, se pensávamos que já havíamos testemunhado todo o seu espantoso talento nas várias searas em que atuou, enganamo-nos. Cláudia é capaz de muito mais, de nos surpreender a cada fala de seu texto e movimento executado em cena. Desdobrando-se com desenvoltura em personagens representativos daqueles que estavam no entorno de Virginia (pai, irmãos, marido, amante), e mostrando com intensidade e credibilidade a vasta gama de nuances e camadas emocionais que compunham a personalidade complexa da escritora, Cláudia reafirma mais uma vez que é uma das grandes atrizes de sua geração. Uma interpretação merecedora de ocupar um lugar de destaque no compilado de suas melhores performances. A direção de movimento de Marcia Rubin é excepcional, imprimindo beleza, força, leveza, cadência e harmonia ao instrumento corporal da artista. Cláudia, atendendo com disciplina às orientações de Marcia, mostrou ter um grau de expressividade de movimentos de seu corpo demasiado elogiável. Marcelo Olinto, figurinista, foi extremamente feliz ao vestir a protagonista com um bonito vestido branco longo com características atemporais e neutras, ornado com brocados e pequenos brilhos, com um corte que lhe permitiu executar com facilidade as movimentações e gestuais exigidos. Beto Bruel, a quem coube a iluminação, cumpriu belamente a sua função, alcançando resultados inebriantes com o uso prevalente do azul, da sépia e do branco em sutis nuances, debruçando-se com esmero em focos específicos e diferenciados. A trilha sonora de Dany Roland, com a colaboração de José Henrique Fonseca, possui elementos que nos intrigam e outros que nos chamam a atenção pela delicadeza dos acordes de instrumentos com cordas e teclados, compondo com vultosa satisfação o panorama geral cênico. “Virginia” é uma obra fascinante que destrincha as falas femininas e feministas de uma das escritoras mais influentes do século XX, abordando questões do gênero que afetam sobremaneira a sociedade até hoje. O feminino e toda a sua importância ganha vida e potência na doce e forte voz de Cláudia “Virginia” Abreu.

  • São Paulo Fashion Week Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    janeiro 23rd, 2024
    Foto: Paulo Ruch

    A atriz, modelo e empresária Marina Ruy Barbosa na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week em sua temporada Verão 2016.

    Carioca, Marina iniciou a sua bem-sucedida carreira na televisão em 2003 com uma participação na novela de Ana Maria Moretzsohn “Sabor da Paixão”, exibida às 18h pela Rede Globo.

    Sua primeira personagem fixa em folhetins pôde ser vista em uma trama de Antônio Calmon e Elizabeth Jhin para a faixa das sete horas, “Começar de Novo” (na história interpretava Ana, uma menina misteriosa com poderes sobrenaturais, sendo uma espécie de “anjo da guarda” de Miguel, Marcos Paulo).

    A sua escalação para uma produção do horário nobre, “Belíssima”, em 2005, foi um divisor em sua trajetória, fazendo com que se tornasse conhecida em todo o país (Sabina, o seu papel, tinha uma função importante na história; filha de Vitória, Cláudia Abreu, e Pedro, Henri Castelli, atraía as atenções de sua avó Bia Falcão, a grande vilã interpretada por Fernanda Montenegro).

    No ano de 2006 a artista foi vista em três produções, a série educacional “Tecendo o Saber” e os especiais de fim de ano “Xuxa 20 anos” e “Natal Todo Dia”.

    No ano seguinte foi uma das concorrentes do quadro do extinto “Domingão do Faustão” “Dança das Crianças” (também foi escalada para a telenovela de Walcyr Carrasco das sete horas da noite “Sete Pecados”, em que defendeu Isabel, filha dos personagens de Reynaldo Gianecchini e Giovanna Antonelli).

    Em 2009 Marina atua em três funções diferentes, como apresentadora do “TV Globinho”, como uma das participantes do quadro “Super Chefinhos” do programa “Mais Você” e como Bia, uma adolescente no seriado “Tudo Novo de Novo”.

    Seu folhetim seguinte, assinado pela autora Elizabeth Jhin, chamou-se “Escrito nas Estrelas”, produção levada ao ar às 18h em 2010, em que encarnava uma estudante de balé rebelde, Vanessa.

    Posteriormente, em 2011, Marina ganha mais notoriedade ao personificar Alice, uma vilã que ao final se regenera, em “Morde & Assopra”, telenovela escrita por Walcyr Carrasco para a faixa das sete da noite.

    No ano seguinte a jovem artista é escalada para compor uma estagiária de jornalismo, Juliana, em uma trama pensada pela autora Elizabeth Jhin para as 18h, “Amor Eterno Amor”.

    O ano de 2013 marca o seu reencontro na teledramaturgia com o autor Walcyr Carrasco em sua novela das 21h “Amor à Vida”, em que compôs Nicole, uma órfã milionária prestes a sofrer um golpe urdido por Leila, Fernanda Machado, e Thales, Ricardo Tozzi, que acaba se apaixonando pela sua vítima (a personagem de Marina morre devido a uma grave doença que a acometia, no entanto faz aparições fantasmagóricas esporádicas para o seu pretendente).

    Seu próximo trabalho em novelas seria determinante em sua carreira já que o seu papel, Maria Ísis, em “Império”, trama do horário nobre escrita por Aguinaldo Silva, seria o primeiro em que a atriz representava em uma idade adulta, o que lhe permitiu formar um casal com o ator Alexandre Nero, José Alfredo, obtendo grande aceitação e torcida do público.

    Em seguida, ao lado de Johnny Massaro, embrenha-se em um mundo fabular com diversas influências estéticas, inclusive o filme do cineasta americano Tim Burton “A Noiva-Cadáver”, de 2005, que serviu como inspiração, na série de Cláudio Paiva, Guel Arraes e Newton Moreno “Amorteamo”, como Malvina, uma morta-viva com traços de vilania.

    Um outro ponto de virada em sua carreira pôde ser acompanhado em “Totalmente Demais”, folhetim das 19h criado e escrito por Rosane Svartman e Paulo Halm, em que, como a protagonista Eliza, incorporou uma jovem do interior, quase vítima de abuso de seu padrasto, moradora de rua na cidade grande, que acaba se tornando uma modelo internacional.

    Um de seus papéis mais impactantes viria logo depois na minissérie de Manuela Dias “Justiça”, na qual representou Isabela, uma moça rica e fútil que é assassinada pelo seu noivo (Jesuíta Barbosa) ao ser flagrada o traindo. Sua mãe, a professora Elisa, Débora Bloch, decide buscar justiça pela morte brutal de sua filha.

    Após a impactante participação na minissérie Marina tem de enfrentar um novo desafio em sua carreira, protagonizar, ao lado de Romulo Estrela e Bruna Marquezine, a novela passada na época medieval escrita por Daniel Adjafre “Deus Salve o Rei”, trama das sete da noite em que representou Amália (sua personagem disputava o amor do príncipe Afonso, Romulo, com sua antagonista, a princesa Catarina, Bruna).

    Em pouco tempo a artista já estava escalada para ser a protagonista da próxima telenovela das 21h, “O Sétimo Guardião”, escrita por Aguinaldo Silva, em que vivia Luz, uma moça que se distinguia pelos seus poderes especiais (na trama, seu par romântico coube a Bruno Gagliasso; Luz enfrentava as maldades perpetradas por Valentina, Lília Cabral).

    Marina está no elenco internacional da minissérie de Mauro Lima “Rio Connection”, que após estrear no exterior no ano passado figura como um dos produtos disponíveis no Globoplay (neste projeto dos Estúdios Globo, Sony Pictures Television e produtora Floresta, a atriz criou a personagem Ana).

    Nas salas escuras dos cinemas a intérprete pôde ser vista em três produções, “Xuxa e o Tesouro da Cidade Perdida” (direção de Moacyr Góes), “Sequestro Relâmpago” (direção de Tata Amaral) e “Todas As Canções de Amor” (direção de Joana Mariani).

    Nos palcos, esteve em espetáculos como “Chapeuzinho Vermelho – O Musical”, como a própria, e “7 – O Musical”, da dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho.

    Atualmente, Marina Ruy Barbosa está no ar como a grande vilã de “Fuzuê”, novela criada e escrita por Gustavo Reiz para a faixa das 19h da Rede Globo, com supervisão de Ricardo Linhares e direção artística de Fabrício Mamberti (como Preciosa Montebelo, um papel totalmente diferente de tudo o que já havia feito na TV, Marina expõe toda a faceta maquiavélica, gananciosa e preconceituosa da empresária que não mede esforços para atingir os seus objetivos).

  • “Amaury Lorenzo, um maestro regente do seu próprio corpo.”

    outubro 16th, 2023
    Amaury Lorenzo se vale de muitos recursos corporais e vocais para narrar ao público a terceira e última parte da obra clássica de Euclides da Cunha “Os Sertões”/Foto: Marcos Morteira

    Baseado em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, “A Luta” é um espetáculo que serve para entendermos melhor o Brasil de hoje

    Muito apropriadamente o ator mineiro Amaury Lorenzo ao final do espetáculo que estrela “A Luta” disse ao seu público algo como: “Precisamos conhecer o que aconteceu antes em nosso país para entendermos o que acontece hoje”. Amaury, indicado aos Prêmios Cesgranrio e Cenym de Melhor Ator 2023, referia-se ao tema central de seu monólogo, idealizado e dirigido por Rose Abdallah, escrito por Ivan Jaf, baseado na terceira e última parte da obra clássica de Euclides da Cunha “Os Sertões” (1902), que trata de forma jornalística e não acadêmica a sangrenta Guerra de Canudos (1896-1897), no interior baiano, travada por povos sertanejos liderados por Antônio Conselheiro e forças militares republicanas.

    O dramaturgo Ivan Jaf nos entrega um material robusto aberto à mais acurada reflexão coletiva e Rose Abdallah, idealizadora e diretora, segue o acertado caminho da oralidade mais próxima e íntima não se limitando à fórmula pura e simples da narração objetiva dos fatos

    Ivan Jaf realiza um trabalho dramatúrgico de grande riqueza, realçado pela fidelidade episódica e pelo empenho na valorização dos detalhes, entregando à plateia mais do que um registro histórico relevante do Brasil República, mas também um material robusto aberto à mais acurada reflexão coletiva. Seu texto nos transmite com elevada categoria não só o perfil do homem profundo brasileiro, o sertanejo que vive continuamente com as agruras impiedosas do tempo e com a escassez do essencial para sobreviver, assim como nos descortina as nuances que permeavam a horda de homens e mulheres com suas crianças que serviam cegamente aos mandos autoritários de Conselheiro, que os envolvia com uma religiosidade amedrontadora, fanática, moldada por profecias apocalípticas, imiscuída com interesses políticos. Traçou com minúcias a personalidade castradora do líder de Canudos, calcada em discriminações, sexismo e misoginia. Por outro lado, as tropas obedientes à República não foram poupadas no que diz respeito ao seu propósito irredutível em aniquilar com toda a truculência imaginável, utilizando-se de um poderio bélico avolumado, os insurgentes do arraial. Rose Abadallah sobrepôs com êxito o desafio de se atingir o público e aguçar o seu interesse pela estrutura cênica/dramatúrgica, com um assunto histórico que poderia não ser do domínio de todos, apostando na força dramática (e algumas vezes cômica), no talento e carisma de seu intérprete, obtendo a compreensão absoluta da narrativa. Rose seguiu o caminho acertado da oralidade mais próxima e íntima, não se limitando à fórmula pura e simples da narração objetiva dos fatos. A diretora explorou ao máximo a fisicalidade de Amaury, fazendo com que em muitas ocasiões o ator representasse simultaneamente com o corpo aquilo que dizia, e o espaço teatral, com marcações pujantes pontuadas por ritmos distintos.

    Não há obstáculos para que a entrega de Amaury Lorenzo se consuma de modo pleno, com a sua rara multiplicidade de linguagens corporais e vocais

    Amaury Lorenzo revela uma impressionante capacidade de extrair de seu corpo uma rara multiplicidade de linguagens, valendo-se com sabedoria de suas força e disposição física, enriquecendo extraordinariamente a maneira como se comunica com o seu público. Um artista regente de sua própria máquina corporal. Não há obstáculos para que a sua entrega se consuma de modo pleno. Com total entendimento dos seus feitos, além de jogar e brincar com o instrumento corpóreo que possui, o protagonista também o faz com o seu aparelho vocal, singrando pelos mais diferentes acordes e tons, seja cantando, seja falando, seja gargalhando, seja chorando ou até mesmo reproduzindo o som perturbador de tiros. Um ator que mergulha profundamente e sem medo em uma experiência literário/teatral única. A espetacular direção de movimento leva a dupla assinatura de Amaury e Johaine Hildefonso. A iluminação de Ricardo Meteoro passeia com beleza por diversas possibilidades cromáticas, abraçando o azul, o vermelho, o laranja e o lilás, incluindo a interseção de algumas, como o verde e o rosa. Destacam-se ainda seus focos bem calculados, variando as direções, com belos efeitos. A trilha sonora gravada ficou a cargo de Alexandre Dacosta que, com bastante criatividade, reuniu uma infinidade de sons e ruídos em determinado momento da peça, como barulhos da passagem de trens junto a outras sonoridades urbanas e rurais, e músicas, como “O Guarani”, de Carlos Gomes, e cânticos indígenas, resultando em algo perturbador e forte. “A Luta” é um espetáculo que cumpre um papel fundamental para as Artes e a sociedade, trazendo informação e reflexão sobre a nossa História, sobre um período bárbaro que não deve se repetir, fazendo com que, como bem disse Amaury Lorenzo, conhecendo o passado saibamos entender melhor o nosso presente. Trazendo à luz esse esclarecimento para o público teatral, essa já é uma luta mais do que vencida.

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