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Blog do Paulo Ruch

  • “Em ‘O Pior de Mim’ Maitê Proença se despe de todas as suas personagens e vive o mais difícil papel de sua carreira: ela mesma.”

    outubro 8th, 2023
    Maitê Proença revela ao público suas experiências de vida, que incluem traumas familiares, viagens de autoconhecimento e os desdobramentos na carreira/Foto: Dalton Valério

    Maitê Proença oferta à plateia teatral a versão definitiva de sua história, a única respeitosa à verdade

    Durante décadas a atriz, escritora e apresentadora paulistana Maitê Proença foi endeusada pelo público e pela imprensa por sua beleza ímpar, alçada ao posto de símbolo sexual e admirada pela sua presença luminosa em inúmeras novelas da Rede Globo e produções de sucesso da extinta Rede Manchete, além dos filmes que estrelou. No entanto, essa mesma imprensa que a endeusava também lhe fora cruel e inclemente ao não só questionar o seu talento quando era muito jovem como escancarar para a sociedade episódios de sua vida extremamente íntimos e delicados, envolvendo tragédias familiares. Maitê, uma artista esclarecida e inteligente, resolveu com o monólogo “O Pior de Mim”, escrito pela própria e que originou um livro homônimo, colocar um ponto final nesta história cheia de interpretações alheias e ofertar à plateia teatral a sua versão não só definitiva mas a única respeitosa à verdade, o que só ela mesma poderia fazer.

    A peça entrelaça o que Maitê presenciou e o que presencia com os temas abordados, como o machismo e suas consequências e o etarismo

    O espetáculo que teve anteriormente a sua versão digital destacada pela mídia como um dos melhores espetáculos no formato serve de parlatório para a intérprete desfiar um rosário de assuntos a partir de suas intensas experiências pessoais, passando pelas diferentes fases da vida, como a internação em um colégio, a sua relação com os pais sendo testemunha da espiral crescente de tensão do casal que descambaria para um desfecho infeliz, sua entrada ao acaso no meio artístico por influência de grandes profissionais do teatro e da TV que acreditaram em seu potencial, os empecilhos enfrentados ao desenvolver personagens e suas cenas devido aos impactos emocionais sofridos, suas uniões e separações amorosas e suas viagens pelo mundo que lhe deram um cabedal de conhecimentos, aprendizados e insuspeitadas aventuras, afora os vários acidentes de que fora vítima. A peça cujas direção e concepção cênica couberam a Rodrigo Portella põe em debate questões atualíssimas e relevantes, entrelaçando o que Maitê presenciou e presencia com os temas a serem abordados, como o machismo estrutural entranhado na cultura brasileira tornando o país um dos cinco com maior incidência de feminicídios e o etarismo com as mulheres, especificamente com aquelas com mais de 60 anos.

    Um espetáculo que seduz pela coragem e sinceridade de uma atriz

    Maitê Proença, bela e possuidora de elogiável expressão corporal, tem bastantes recursos individuais ao seu favor, como carisma, credibilidade, talento, espontaneidade e domínio das palavras, para conquistar de imediato os espectadores, que se deixam levar pelo bate-papo quase informal que lhes é proposto. Honesto e não raras vezes irônico, seu texto atinge cada um daqueles que lhe assiste, impondo-lhe invariavelmente uma sequência de reflexões. A direção de Rodrigo Portella imprime, a despeito da aridez dos temas discutidos, leveza e lirismo à montagem, deixando a atriz totalmente à vontade e livre em cena, deslocando-se por todo o palco, dançando, sentando-se à beira da ribalta, num legítimo “tête-tête” com o público. O aspecto lírico/poético é visto na duplicidade de Maitê no espetáculo, pois é filmada a maior parte do tempo pelo ator Renato Krueger (seja falando diretamente com a câmera ou não). As imagens projetadas em uma cortina branca sugerem um elemento expressionista à produção. Marcello H., diretor musical, aposta em melodias com a prevalência do piano, sons instigantes e a canção de Carole King “Where You Lead”. Maitê e Rodrigo Portella dividem a idealização do cenário, composto por mesas de madeira com distintos tamanhos, cada qual num canto do palco, e ao fundo camadas de cortinas transparentes. Também coube a Rodrigo a iluminação do monólogo, realçado por um plano aberto mais suave e natural, focos na atriz e sombreados, além da valorização de alguns matizes, como o azul, o vermelho e o lilás. “O Pior de Mim” é uma obra que nos seduz pela coragem e sinceridade de uma atriz, que se atreve a se desconstruir da imagem que lhe deram à revelia. Um ato de libertação pessoal e artística pouco comum de se ver nos palcos. Um ato teatral e humano que apresenta o melhor da mulher, artista, filha e mãe Maitê Proença.

  • “Carismática e talentosíssima, Evelyn Castro, com sua voz impressionante, leva o público ao delírio em uma homenagem à altura da grande diva do rock, Tina Turner”.

    setembro 11th, 2023
    Evelyn Castro, também uma consagrada comediante, encanta o público com a sua voz ao apresentar os diversos hits da cantora nascida no estado americano do Tennessee/Foto: Debonis

    Evelyn Castro, brilhante atriz de musicais e consagrada comediante, faz uso de sua capacidade extraordinária de comunicação para causar o interesse e a diversão do público com suas experiências pessoais e profissionais e referências à vida de Tina Turner

    Em maio deste ano o mundo se viu órfão de uma das maiores cantoras do século XX, Tina Turner. Nascida no estado americano do Tennessee, Anna Mae Bullock teve uma vida atribulada em meio a glórias de sua carreira e um histórico de abusos e dramas pessoais. Todo o sofrimento que lhe foi infligido nunca fora capaz de arrefecer a sua força e apagar a sua estrela, tendo se tornado um símbolo de resiliência feminina e de beleza e forma física que transcenderam o tempo. Entretanto, para o público brasileiro de shows, esta orfandade pode ser amenizada ao se conferir uma das mais brilhantes atrizes de musicais (“Tim Maia – O Musical”, “Cássia Eller – O Musical”) e consagrada comediante (“Porta dos Fundos”, “Tô de Graça”) em cena interpretando os emblemáticos hits da “Rainha do Rock”, a carioca Evelyn Castro em “Tributo a Tina Turner”. Evelyn, que fez sucesso em novelas como a Deusa de “Quanto Mais Vida, Melhor!” e séries como a Maria Augusta de “Encantado’s, assina o engraçadíssimo texto do espetáculo/show que inclui passagens de sua vida e trajetória artística e referências à história de Tina, utilizando-se com vasta sabedoria de sua capacidade extraordinária de comunicação para interagir de maneira exitosa com o seu público e fazê-lo se interessar e se divertir com as suas experiências, como o início de sua formação musical na igreja e as relações movidas a muito humor na adolescência com os seus pais e na fase adulta com o seu filho.

    Evelyn Castro, dotada de privilegiada voz, com ritmo, charme e sensualidade, corresponde com louvor a clássicos como “We Don’t Need Another Hero”

    Com um visagismo caprichado visto em seus dreads claros, figurino com pegada roqueira (casaco jeans, regata, saia de couro e boots), Evelyn, dotada de uma privilegiada voz com inacreditáveis extensão, afinação e limpidez, além de seu irretocável acento no inglês, corresponde com louvor às mais difíceis exigências das canções eternizadas pela artista que adotou posteriormente a cidadania suíça, brilhando em clássicos com diferentes camadas melódicas, como “What’s Love Got To Do With It”, “Proud Mary”, “We Don’t Need Another Hero”, “I Don’t Wanna Lose You” e “The Best” (reservado para um momento especial), provocando uma verdadeira catarse nos espectadores. A cantora e atriz também brindou o público com uma música não associada comumente a Tina, “The Game of Love”, marcada pelos acordes do multi-instrumentista mexicano Carlos Santana. Com o propósito de reverenciar outros artistas negros que trilharam caminhos vitoriosos, foram lembrados Sade (“Smooth Operator”) e Tim Maia (“Descobridor dos Sete Mares”). Um dos pontos elogiáveis deste merecido tributo consiste no fato de que Evelyn não buscou simplesmente imitar Tina Turner, mas emprestar a sua forte personalidade à figura mítica da estrela. Cabe destacar o ritmo, a expressão corporal, o charme e a sensualidade com que a intérprete valoriza as suas performances. A realização bem-sucedida de “Tributo a Tina Turner” se deve também com muita justiça a uma equipe que prima pela competência e profissionalismo: o diretor musical e baixista Vini Lobo, o guitarrista Sergio Morel, o tecladista Pedro Augusto, o baterista Mauricio Borioni e os ótimos backing vocals Tatty Caldeira (com quem ficou a linda canção “Private Dancer”) e André Viéri (ambos se entregaram ao clima alto astral do show). “Tributo a Tina Turner” é um espetáculo/show que não se restringe tão somente a homenagear uma das mais grandiosas cantoras do planeta, sendo também uma calorosa e sincera celebração, uma animada festa entre Evelyn Castro e seu público, uma emoção coletiva ao som das belas canções de Tina. Uma festa “the best” que alça Evelyn Castro ao posto de diva.

  • “Luisa Thiré e Carolyna Aguiar formam uma dupla cativante em ‘A Inquilina’, peça que nos revela a força e o poder libertador de uma mulher em meio à sua maturidade”.

    setembro 5th, 2023
    Carolyna Aguiar e Luisa Thiré vivem mulheres na faixa dos 50 anos com personalidades totalmente opostas na peça de Jen Silverman/Foto: Pino Gomes

    O etarismo em relação à mulher, em especial na faixa dos 50 anos, é questionado com desassombro na montagem inédita da peça escrita pela premiada dramaturga norte-americana Jen Silverman

    A supervalorização da juventude na sociedade ocidental contemporânea, realçada pela opressão desmedida das redes sociais, inclusive no que concerne ao ser feminino, é uma questão que deve obrigatoriamente ser avaliada e debatida. Uma mulher de 50 anos ou mais ao invés de ser valorizada e admirada pelos seus atributos e belezas naturais invariavelmente acaba sendo colocada, por parte de um segmento social robusto, em um nicho em que as suas potencialidades e habilidades são subestimadas. A premiada dramaturga, romancista e roteirista norte-americana Jen Silverman mergulha com desassombro neste terreno injusto no qual o etarismo assume papel de protagonista em sua peça “A Inquilina” (“The Roommate”), traduzida e adaptada com notável eficiência por Diego Teza em sua versão brasileira, em montagem inédita no país, estrelada por Luisa Thiré e Carolyna Aguiar e dirigida por Fernando Philbert.

    Os choques culturais e comportamentais de duas mulheres, uma da zona rural dos Estados Unidos e outra de uma grande metrópole servem para a discussão apropriada de temas caros a todos nós, não só ao sexo feminino, como solidão e diversidade sexual

    O espetáculo se desenvolve a partir da relação movida a choques culturais e comportamentais entre Sharon (Luisa Thiré), uma dona de casa divorciada, mãe de um filho ausente (Lucas Drummond participa com sua voz em off), moradora da zona rural dos Estados Unidos, e sua inquilina Robyn (Carolyna Aguiar), uma mulher do mundo, também mãe, vinda de Nova York, com posturas e estilos diametralmente opostos aos da primeira, como o veganismo, a sua homossexualidade e o consumo de cannabis, além de um passado fora dos padrões, estando ambas na faixa dos 50 anos. A convivência forçada da dupla impulsiona com propriedade a discussão de temas caros a todos, não só às mulheres, como solidão, relacionamentos virtuais, diversidade sexual, filhos, transformações pessoais e liberdades individuais independente da idade que se tenha. Jen Silverman não se furta a imiscuir em seu texto porções generosas ou mais sutis de humor, associadas à insolência e a transgressão, preocupando-se em manter sólidas a humanidade e a afetividade de suas personagens.

    Quem se habilita em ser a inquilina de Sharon?

    Fernando Philbert atinge consistente êxito ao não desperdiçar a cativante liga existente entre Luisa e Carolyna, promovendo com distinção o desenho dos embates constantes do par, utilizando-se de marcações e transições variadas. Na verdade, Fernando busca a simplicidade e a credibilidade das conexões pessoais dessas duas mulheres, o que o faz com absoluto sucesso. Luisa Thiré transmite com magnitude os detalhes da personalidade da reprimida Sharon, sabendo com o mesmo brilho lhe conferir as nuances de um circunstancial empoderamento (as cenas cômicas mostram uma surpreendente face da atriz). Carolyna Aguiar incorpora com louvor o perfil pragmático, desencanado e sarcástico de Robyn, fazendo com que embarquemos com ela neste bem-sucedido caminho. Duas atrizes belamente afinadas. O cenário de Beli Araújo nos leva para o aconchego de uma moradia rural, com sua mesa central de madeira e cadeiras e uma sugestão de varanda com mesa e assentos típicos. Uma cerca rústica completa a proposta coerente de Beli. Karen Brustollin, responsável pelos figurinos, realiza um ótimo e rico trabalho, usando costumes que se adequam com perfeição ao estilo de cada uma das personagens, como casaco, t-shirt estampada, calça jeans rasgada e botas para Robyn e blusa clara florida, cardigã e saia comprida para Sharon (em outro momento usa um vestido deslumbrante com fenda). Vilmar Olos, iluminador, decidiu apostar em planos mais suaves, semiabertos, evocando com charme a ambiência do cotidiano das duas. O bonito conjunto é formado por uma paleta que inclui luzes com cores primárias, somando-se outras, além de leds. Os focos são muito bem aproveitados. A trilha sonora é de Rodrigo Penna, que oferta à plateia uma criativa junção de sons e canções, flertando com o experimentalismo, mas se valendo também de um techno potente, standards como “New York, New York” e hinos pop como “Heart of Glass”, na voz de Miley Cyrus. Toni Rodrigues, diretor de movimento, explora o melhor das intérpretes, visível em suas posturas congruentes e instantes determinados, como Sharon dançando música eletrônica de modo hilário e Robyn exibindo posições impressionantes de alongamento. “A Inquilina” é um valoroso instrumento cênico regado por um humor irresistível e uma tocante sensibilidade que possui, dentre muitos de seus méritos, o enaltecimento da mulher madura, no alto de seus 50 anos, legitimando seus infinitos direitos de liberdade, transformação pessoal e de espalhar a sua inegável beleza. Quem se habilita em ser a inquilina de Sharon?

  • “O Prazer de Se Aprender com Clarice Lispector ao som de cada sílaba pronunciada por atores movidos a paixão como Melise Maia e Rafael Queiroz.”

    julho 15th, 2023

    Rafael Queiroz interpreta o professor de Filosofia Ulisses e Melise Maia a professora primária Lóri, um casal que passa por todas as etapas e dificuldades de uma conquista até a consumação da
    relação amorosa/Foto: Sabrina da Paz

    A atriz, diretora e roteirista Melise Maia, ciente do poder transformador de Clarice Lispector, idealizou e fez a ótima e pioneira adaptação para os palcos do sexto romance publicado da escritora

    Não há indivíduo que passe incólume ao se deparar com a riquíssima obra da escritora ucraniana que abraçou o Brasil como pátria Clarice Lispector. Seja em suas publicações (romances, contos e ensaios), seja em adaptações para o audiovisual e Artes Cênicas, os íntimos sentimentos e sensações, vividos no cotidiano, de uma das mais importantes literatas brasileiras do século XX, causam de modo não variável uma inescapável identificação em quem se propõe a ser o sujeito passivo de suas expressões pessoais, não importando o gênero a que pertença este sujeito, afinal a autora escrevia para o ser humano (o “ser” humano era uma de suas mais caras questões). A atriz, diretora e roteirista Melise Maia, ciente do poder transformador de Clarice, idealizou e fez a pioneira e ótima adaptação para os palcos de seu sexto romance publicado, “Uma Aprendizagem Ou O Livro dos Prazeres”, de 1969.

    O público acompanha com robusto interesse o périplo deste bonito par rumo ao prazer tāo almejado

    O espetáculo, com o título reduzido para “O Livro dos Prazeres”, apresenta-se como uma chance obrigatória de se mergulhar em um dos muitos mundos particulares da também jornalista que se declarava “brasileira e pernambucana”. A encenação nos introduz no universo da professora primária Lóri (ou Loreley, referência à sereia que encantava navegantes e pescadores na lenda alemã do início do século XIX), Melise Maia, e seu enfrentamento com os próprios desejos, medos, inseguranças, dúvidas e a vontade irredutível de vivenciar intensamente uma paixão que resulte em um verdadeiro amor. Destacando-se como eficiente recurso dramatúrgico, Lóri escreve as futuras linhas de sua história em uma máquina de datilografar (uma alusão a Clarice?). E nesta sua “ficção” encontra um belo rapaz, garboso, Ulisses (Rafael Queiroz), professor de Filosofia, enquanto tentava pegar um táxi. A partir desse primeiro encontro vão se desenrolando passo a passo as complexas etapas que configuram o ato da conquista amorosa, com dificuldades e obstáculos impostos de lado a lado. Ambos transcendem a oposição de gêneros, levando-a para lugares ainda mais remotos. Lóri, numa luta interna para não se deixar vencer pela sua ansiedade, angústia e impaciência face à iminência da realização de seus anseios afetivos, trava uma outra luta com Ulisses, que com aparente racionalidade tenta sempre frear os seus instintos e aspirações, como se colocasse regras em um jogo de sedução que não deveria ser regrado. Mérito da adaptação de Melise, que respeita a sacralidade das intenções da escritora com todas as suas alegorias, idílios e epifanias não raro associados à natureza, o público acompanha com robusto interesse o périplo deste bonito par rumo ao prazer pleno tão almejado.

    Uma montagem sedutora e charmosa com direção de Ernesto Piccolo cujos protagonistas, Melise Maia e Rafael Queiroz, atuam com valiosíssima verdade

    A direção geral de Ernesto Piccolo atinge uma adorável comunhão entre o texto e seus protagonistas, tornando a montagem exponencialmente sedutora e charmosa. Ernesto, ao compreender o desafiador jogo afetivo à sua frente, buscou dinamizar as marcações e movimentações, inclusive com cenas de plateia e à beira do palco (a comunicação com os espectadores nestes momentos é nítida e producente para a peça). O diretor se empenhou e logrou êxito ao colocar sempre que possível um fino e agradável humor em sua condução cênica. Melise Maia e Rafael Queiroz imprimem valiosíssima verdade aos seus personagens, ostentando-nos uma sintonia cujo alcance não é tão simples. Melise transmite com sensibilidade e força a explosão de emoções que cerca o comportamento de Lóri, tendo que atender a oscilações intermitentes dos humores que a invadem. Já Rafael Queiroz, com inquestionável presença de palco, causando um certo frisson com a sua primeira entrada em cena, buscou com louvável acerto um tom mais centralizado, questionador, inquisidor e com um leve cinismo nas entrelinhas de suas falas. Enfim, uma afinadíssima dupla. A refinada direção musical e arranjos ficaram nas excelentes māos do ilustre Edu Lobo, que contou com músicos altamente qualificados e reconhecidos, Mauro Senise (sopros), Cristóvão Bastos (piano) e Jorge Helder (contrabaixo). Rostand Albuquerque executou com beleza, inventividade e coerência o seu cenário, com móveis e objetos em estilo retrô, como uma cadeira de madeira com estofamento branco, mesa com a citada máquina de datilografar e telefone, além de um abajur e luminárias penduradas. Sobre estes elementos um longo móbile formado por diversos livros, ideia que confere maior formosura e harmonia à ambientação proposta (há ainda um extenso painel branco atrás o qual servirá para a luz de Eduardo Salino). A iluminação de Eduardo oferece à plateia uma vasta paleta de coloridos estonteantes, feéricos, com a prevalência do rosa, variações de lilás e azul. A luz aberta sobre os intérpretes e parte do teatro tem efeitos bem-sucedidos. Marcela Treiger esbanja elegância e bom gosto nos figurinos selecionados. Sāo diversas as peças que tāo bem vestem os atores, além dos acessórios, como vestidos, blazers, escarpins e mocassins e roupas de banho. Márcia Rubim, diretora de movimento, contribui com a sua farta experiência no ofício ao provocar tanto em Melise quanto em Rafael a expressividade corporal compatível com os seus personagens com resultados positivos.

    “O Livro dos Prazeres” é um espetáculo pleno em maravilhas cênicas e textuais, entregando ao público a essência reveladora e honesta de uma mulher que nāo temia em dividir com os seus leitores suas dores, sonhos e prazeres. E quem escreveu este “livro teatral” com adorável paixão foram Melise Maia e Rafael Queiroz.

  • “Arlete, Edwin, Amir, Alexandre, Pedro e Lúcio, ‘essa família muito unida’ e também dedicada ao teatro e seu público.”

    julho 10th, 2023
    Edwin Luisi e Arlete Salles, amigos de longa data, encontram-se na peça do neto da atriz, o dramaturgo Pedro Medina/Foto: Guga Melgar

    No espetáculo “Ninguém Dirá Que É Tarde Demais” Arlete Salles, completando 65 anos de carreira à época de sua estreia, está cercada de grandes amigos, como Edwin Luisi e Amir Haddad, e familiares, como o filho Alexandre Barbalho e o neto Pedro Medina, também autor do texto

    Ao se ter o primeiro conhecimento da comédia “Ninguém Dirá Que É Tarde Demais” já sentimos uma ponta de emoção ao constatarmos que liderando o seu elenco estão Arlete Salles e Edwin Luisi, grandes amigos na vida, acompanhados de Alexandre Barbalho e Pedro Medina, respectivamente filho e neto da gloriosa atriz. Na época da estreia da peça, em 2021, Arlete estava completando 65 anos de carreira, e Edwin, 50, e esta efeméride, que não poderia passar em branco, foi brindada com o saboroso, divertido, reflexivo e crítico texto do jovem dramaturgo Pedro Medina. Ajudando a formar essa família estão o mestre Amir Haddad, responsável pela direção artística, o qual havia conduzido os passos de Arlete 35 anos atrás na peça “Felisberto e o Café”, e Lúcio Mauro Filho, que fora enteado da artista, incumbido, ao lado de Máximo Cutrim, da direção musical do espetáculo cujo lindo título foi extraído da canção “O Último Romance”, do grupo Los Hermanos.

    O dramaturgo Pedro Medina insere em sua bem estruturada narrativa temas relevantes como envelhecimento, solidão, padrões impostos pela sociedade e amor e sexualidade na terceira idade

    A montagem tem como pano de fundo de sua história a grave crise sanitária que transformou e assombrou a humanidade (exatamente um ano após a sua eclosão, mas com muitos já vacinados, protocolos de segurança mantidos e um medo persistente). A despeito disso, Pedro Medina mostrou a sua espantosa habilidade em driblar a tragédia com o seu azeitado humor porém não poucas vezes eivado de críticas oportunas aos que não levaram a sério o episódio traumático, ao nos narrar as implicâncias de dois vizinhos, Luiza (Arlete Salles) e Felipe (Edwin Luisi), um com o outro, moradores de prédios contíguos, devido aos seus hábitos domésticos atrelados ao confinamento compulsório, como o som ensurdecedor da lavadora de roupas da primeira e as músicas insistentes do segundo. Felipe, um servidor público aposentado, viúvo, atolado em dificuldades financeiras, com certa confusão mental, viu-se obrigado a morar com o seu filho Mauro (Alexandre Barbalho), um médico homeopata e místico, separado, pressionado pelo aumento da pensão alimentícia de suas filhas. No caso de Luiza é o seu neto Márcio (Pedro Medina), compelido a interromper o seu doutorado, quem passa a dividir o mesmo teto que ela. Dessas convivências forçadas surgirão os mais diversos conflitos, inclusive geracionais. Um encontro casual na rua sem que saibam quem realmente são mexerá com os afetos de Luiza e Felipe, servindo de trampolim para o desenvolvimento dos fatos posteriores. O autor, com bastante sensibilidade e graça, insere em sua bem estruturada narrativa vários temas relevantes às pessoas, como envelhecimento, solidão, padrões impostos pelo meio social, sexualidade na terceira idade e a possibilidade de se viver um grande amor na fase mais madura da vida. Tudo feito com generosas doses de otimismo.

    Uma peça que nos prova a força e a coragem de uma ‘família’ disposta em afirmar e reafirmar a arte teatral em um momento ainda tão delicado

    Amir Haddad, do alto de sua experiência e entendimento cênicos, constrói a montagem sem amarras espaciais, fronteiras preestabelecidas, não havendo marcas totalmente definidas dos locais de ação, deixando os seus atores bem à vontade, circulando com desenvoltura por todas as linhas da ribalta. Algumas ótimas sacadas de Amir foram as decisões de colocar os intérpretes como observadores das cenas dos colegas, como se cada um tivesse seu momento de brilhar, e a presença da música, com os artistas bailando, como condutora da transição dos quadros. Arlete Salles, atriz com imensa popularidade graças a seus antológicos personagens na TV, conjuga com soberba maestria as camadas de drama e humor nas medidas que lhe são exigidas, compondo Luiza com marcante vigor e admirável encanto. Arlete atende com inteligência aos níveis mais racionais e assertivos de seu papel, sendo frágil quando necessário. Edwin Luisi, da mesma forma estimadíssimo pelo público por momentos tão expressivos e inesquecíveis na televisão, representa com notável êxito a personalidade mais angustiada e fragilizada de Felipe, desenhando claramente o distúrbio cognitivo que o acomete, não deixando escapar a comicidade que domina muito bem nos instantes pontuais. Alexandre Barbalho acompanha com acertos todos os tons dramatúrgicos que a peça lhe impõe, fazendo uma bela e afetuosa dobradinha com Edwin. Pedro Medina esbanja espontaneidade e simpatia como o questionador Márcio, obedecendo com credibilidade aos arroubos do jovem estudante. Sua cena com Arlete Salles em que o objeto é um questionário sobre sexo na maturidade é engraçada ao extremo. A direção musical de Lúcio Mauro Filho e Máximo Cutrim é primorosa graças à inspiração da dupla em selecionar um repertório que se destaca pelo ecletismo de gêneros (com parcela significativa de músicas instrumentais), como um samba mais antigo, um bolero, uma valsa, além de canções tidas como verdadeiros clássicos, como “Jura”, de Sinhô, e “Luiza”, de Antonio Carlos Jobim. José Dias montou o seu cenário da maneira mais funcional possível, utilizando-se de uma mesa maior, cabideiros de chão e uma dezena de cadeiras, que servem eficientemente à direção. A figurinista Carol Lobato adotou peças atuais, de caráter urbano, como os moletons de Edwin e Pedro, e tradicionais, como o vestido verde com brocados de Arlete e as roupas sociais de Alexandre, respeitando as características de cada tipo. Aurélio de Simoni, no comando da iluminação, lançou mão de planos mais abertos e outros menos, luzes laterais, focos nos atores e sombras, logrando bons resultados em seu conjunto. “Ninguém Dirá Que É Tarde Demais”, como peça, é a prova inconteste que mostra a força e a coragem dessa “família” em afirmar e reafirmar a arte teatral ainda em tempos delicados, ofertando ao público o frescor de um novo e jovem dramaturgo cheio de ideias para nos contar, Pedro Medina.

  • “Os sublimes pormenores da atuação de Giuseppe Oristanio que humanizaram e aproximaram lindamente Guimarães Rosa de nós.”

    julho 2nd, 2023
    Giuseppe Oristanio como o escritor e diplomata João Guimarães Rosa ao lado do fardão da Academia Brasileira de Letras
    /Foto: Alberto Maurício

    A dramaturga Lívia Baião debruçou-se de forma profunda em uma longa pesquisa acadêmica para mostrar ao público um texto cênico de vultosa importância sobre o escritor e diplomata mineiro João Guimarães Rosa

    Os escritores, seus métodos de criação, suas personalidades e idiossincrasias não raro atiçaram a curiosidade alheia, pois afinal é através de suas obras que somos levados para além de nossa realidade cotidiana. O mineiro de Cordisburgo João Guimarães Rosa, também diplomata, proeminente escritor em seus romances, novelas, poemas e contos, sempre foi objeto de perscrutações devido não somente à sua literatura revolucionária e por isso mesmo bastante criticada mas pelo homem por detrás desta ruptura linguística que ultrapassou as fronteiras do Brasil. Esta premissa serviu para que a dramaturga Lívia Baião se debruçasse de forma profunda em uma longa pesquisa acadêmica sobre a vida do autor de clássicos como “Sagarana” (1946) e “Grande Sertão: Veredas” (1956) e os bastidores que envolveram a produção de seu rico legado. Todo o seu trabalho hercúleo, riquíssimo em detalhes, resultou em um texto cênico de vultosa importância para os palcos teatrais, visto que se fez com clareza, fina ironia e responsabilidade factual um retrato fidelíssimo e sensível de um dos maiores literatos de que já se teve notícia no país, comparável aos grandes ao redor do mundo. A fluida estrutura dramatúrgica de Lívia se concentra nos derradeiros anos de vida de João, necessários para nos revelar uma diversa gama de sentimentos que o rondavam neste momento divisor, como as angústias nascidas da percepção de sua finitude, a vaidade imiscuída com suas inseguranças pessoais e profissionais, suas reações face aos comentários negativos quanto à sua produção literária e a obsessão que o assombrou por anos em ocupar uma das disputadas cadeiras da Academia Brasileira de Letras. A autora brilhantemente atinge o meritório feito de humanizar o escritor, sendo esta uma das características que conferem qualidade à montagem.

    Giuseppe Oristanio se estabelece em uma fase especial de sua admirável carreira com o perfeito trabalho de composição que faz de um personagem real e complexo

    O diretor Ernesto Piccolo conduz com acerto o espetáculo para um caminho em que seja realçada às vistas do público, com a adoção de marcações eminentemente precisas, o pleno desenho comportamental e ideológico de Guimarães Rosa, cuja comunicação com àquele, ao narrar as suas histórias, perfaz-se de modo natural e produtivo. Giuseppe Oristanio se estabelece em uma fase especial de sua admirável carreira com o perfeito trabalho de composição deste personagem real que se destaca pela sua complexidade. Giuseppe se mostra um intérprete altamente estudioso ao se fiar nos quase imperceptíveis detalhes que compõem o espectro deste homem tão relevante para as nossas Letras. As oscilações da voz, com temperaturas diferenciadas, os movimentos corporais e seus mais singelos gestos, a postura definidora de sua personalidade, nada disso ficou de fora dos olhos atentos deste intérprete que esbanjou talento e domínio absoluto em cena. A trilha sonora, a cargo de Rodrigo Penna, valoriza a encenação com inserções estratégicas de melodias instrumentais ao piano que primam pela delicadeza. A ambientação cênica do experiente e respeitado José Dias se mostra assaz apropriada com a economicidade sisuda dos móveis de madeira, sua mesa de trabalho e cadeiras, além de objetos caros ao romancista, como a sua máquina de datilografar e seus livros publicados. Suely Gerhardt, figurinista, foi bastante feliz ao trajar com elegância e particularidade Giuseppe Oristanio se utilizando de um conjunto de terno e gravata borboleta, aproximando-nos ainda mais de sua imagem como a conhecemos. Atente-se para a primorosa reconstituição do fardão da Academia posto à direita da ribalta. A iluminação de Vilmar Olos e Celma Úngaro produz bonitos efeitos no panorama cênico ao apostar em spots com gradações distintas de um amarelo suave que se alterna com o branco e com o foco exclusivo no ator. “Pormenor de Ausência” é um espetáculo que assume posição de destaque na atual cena teatral por trazer à baila o conhecimento humanizado e indispensável para as grandes plateias de um de nossos mais ilustres escritores, João Guimarães Rosa. Em seus pormenores, belamente presentes, é que se descortina a excelência de sua realização.

  • “Uma fantástica e inesquecível viagem com Eriberto Leão em sua nave teatral rumo ao tão sonhado autoconhecimento e cooperação humana.”

    maio 21st, 2023
    Eriberto Leão vive um astronauta obrigado a se confrontar com diversos conflitos internos em seu espetáculo solo/Foto: Emmanuelle Bernard

    Montada como experimento cênico virtual em 2020, a peça “O Astronauta” vem seduzindo plateias presencialmente com a jornada solitária e oprimida de um homem que viaja ao espaço e se confronta com as mais diversas questões existenciais

    Há peças que parecem moldadas para um único e exclusivo ator, atendendo não só ao seu talento e personalidade como às suas expectativas artísticas e intelectuais. Tal conceito se materializa com perfeição no espetáculo idealizado por José Luiz Jr. e escrito por Eduardo Nunes, com direção geral do primeiro, a princípio montado de forma virtual em 2020 (indicado ao Prêmio APTR 2021 como “Melhor Espetáculo Inédito Editado”), “O Astronauta”, com Eriberto Leão (responsável com José Luiz Jr. pela adaptação para os palcos físicos). Hoje seduzindo plateias presenciais, a montagem escrita com apuro e aprofundada pesquisa histórica por Eduardo Nunes nos oferece com inteligência e beleza, emocionando-nos, a jornada solitária e heroica de um astronauta rumo ao mistério do espaço, condição que o leva irremediavelmente ao confronto direto com os seus afetos familiares, representados em passagens com o seu pai (Jaime Leibovitch em participação especial em vídeo), mãe e avô, com o seu primeiro contato com a morte (a de seu avô), com as suas memórias que vão aos poucos se dissipando, com a implacabilidade do tempo e com os seus mais íntimos medos. Não raro essas passagens familiares guardam relação com o encantamento que os corpos celestes nos provocam.

    Com brilhante atuação de Eriberto Leão, caracterizada pela sua absoluta verdade, o espetáculo, além de possuir grande qualidade artística, conduz o público a uma viagem imersiva e sensorial

    Nesta viagem espacial acompanhada ao vivo por milhões de pessoas no mundo (esta contingência é exaltada pelo ambicioso comandante da missão interpretado, também em vídeo, por Zé Carlos Machado), o astronauta mantém contato com Hal, uma fria e por vezes irônica inteligência artificial representada pela voz da atriz Luana Martau (a voz de Hal em cena é uma justa homenagem à maior obra-prima cinematográfica feita sobre o tema até então, “2001: Uma Odisseia no Espaço”, 1968, de Stanley Kubrick, baseada no conto de Arthur C. Clarke, “The Sentinel”, em que um computador, Hal 9000, comunica-se de maneira opressora com o único tripulante da espaçonave). Assumindo claramente uma linguagem própria de cinema, pois se trata de uma ficção científica aliada ao drama, a peça é generosa em outras boas referências à cultura pop, como ao cantor, compositor, ator e produtor musical britânico David Bowie e seu alter ego Ziggy Stardust (dois hinos de David são cantados potentemente por Eriberto, “Starman”, em sua versão original e em português, e “Space Oddity”). Com o objetivo de se questionar modos de expansão da mente, o personagem, em seu discurso incisivo, lembra-nos de próceres da contracultura, como Aldoux Huxley e Timothy Leary. Toda esta fusão de informações/referências contribui para a bem-sucedida contextualização da narrativa e o consequente interesse do público. A direção geral de José Luiz Jr. atinge robusto sucesso com o equilíbrio alcançado com a atuação de Eriberto, suas interações com os ótimos atores participando em vídeo e voz e as concomitantes e lindíssimas projeções de Rico e Renato Vilarouca (o videografismo e a realidade virtual são arrebatadores e possuem valioso registro histórico – vídeo e edição complementar de José Luiz Jr.). José Luiz explora toda a potencialidade interpretativa, comunicativa e física de seu protagonista, ocupando os principais pontos do tablado, inserindo com notável adequação no timing cênico os números musicais. Eriberto Leão, um ator exponencialmente admirado por espectadores das várias áreas onde desempenha a sua arte com vitórias, entrega-se sobremaneira ao universo emocional deste “homem do espaço”, revelando-nos com absoluta verdade e brilho as suas dores existenciais, angústias, conflitos anímicos não resolvidos, temores, além da vulnerabilidade diante de forças que lhe são superiores. Eriberto demonstra ainda superlativa disposição física quando assim lhe é exigido (esmerada preparação corporal de Dani Saad), comunicação fluida muito bem acolhida pelo público e intensidade em seus momentos musicais (direção musical impecável e inspirada de Ricco Viana que nos entrega uma trilha roqueira, intrigante, misteriosa, com ruídos e sinais enigmáticos). Carla Berri, diretora de arte, aposta no estilo e minimalismo ao reproduzir com beleza e assepsia o interior de uma nave, compondo a ribalta com um assento acolchoado em seu centro próximo a um cubo iluminado. Vale-se também de uma estante metálica com várias garrafas dispostas (o minimalismo só é quebrado pela presença do telão semicircular no fundo do palco). Adriana Ortiz realiza um excelente trabalho de iluminação, ora mais delicado e sensível (com tons mais amarelados) ora mais forte e pujante (sobrecarregando no azul e no vermelho), utilizando-se, dentre outros recursos, de quatro “tripés” de spots posicionados estrategicamente. Joana Bueno esbanja criatividade ao desenhar a roupa espacial de Eriberto, com textura acetinada e cores dourada e azul, além do capacete com luz interna. “O Astronauta” não é só um espetáculo de grande qualidade artística em conexão com o nosso tempo e as nossas mais caras questões, mas uma experiência imersiva e sensorial da qual não esqueceremos. Filhos do medo que somos, somos a evolução, cooperemos uns com os outros, não temamos em embarcar com Eriberto Leão nesta viagem pelo universo mental e sideral. Afinal, o “universo é mental”.

  • “As raízes que nos prendem a um espetáculo visualmente arrebatador que eleva o teatro gestual a um patamar de excelência merecido”.

    maio 15th, 2023
    Artur Luanda Ribeiro, um dos membros fundadores da Cia. Do à Deux, no centro do cenário vencedor do Prêmio Shell/Foto: Renato Mangolim

    Muitas são as maneiras de se expressar cenicamente, e a Cia Dos à Deux, com o seu teatro gestual reconhecido internacionalmente, prova-nos a potência e a diversidade de outras linguagens

    Geralmente associamos, até de forma inconsciente, a prática do exercício teatral à oralidade. Pensamos tão logo no texto, em seus diálogos, na tradução ou adaptação. Todavia, muitas são as maneiras de se comunicar com o público adotando-se a mesma potência causada pela palavra. O butô, a despeito de se enquadrar na categoria de dança, possui fortíssimos elementos teatrais. A prestigiada e internacional Cia. Dos à Deux, criada na França, comemorando os seus 25 anos de história, formada por André Curti e Artur Luanda Ribeiro, mergulha em uma pesquisa profunda, cuidadosa e de vultoso impacto visual na manifestação da arte cênica por meio do gesto, da fala imensamente variada e pujante que o nosso corpo transmite. O resultado de tanta paixão da dupla é comprovado em seu mais recente espetáculo, o belíssimo e arrebatador “Enquanto Você Voava, Eu Criava Raízes”.

    André Curti e Artur Luanda Ribeiro são grandes artistas que exploram em seu nível máximo as inimagináveis possibilidades que a máquina corporal tem de se expressar

    Partindo-se da ideia de se convidar os espectadores a imergirem em seus múltiplos medos que os atravessam a fim de se chegar a estados, sentimentos e emoções chamados de “espaços íntimos de sensações” e os modos como lidamos com os nossos abismos pessoais, os nossos vazios internos, a montagem, com o seu estupendo, inventivo e pós-futurista cenário (criação de André e Artur) que nos oferece um enorme círculo com engrenagens metálicas em suas bordas assemelhado a uma lente, tendo em seu centro um tablado, e ao fundo uma espécie de portal (segundo eles, um “oráculo dos sonhos”), exibe-nos dois grandes artistas que exploram em seu nível máximo com impressionante perfeição as inimagináveis possibilidades que a máquina corporal tem de se expressar. Utilizando-se de referências cinematográficas, como o expressionismo alemão de F. W. Murnau (iluminação soberba de Artur Luanda Ribeiro com rica valorização das sombras; Artur também procura dar um especial enfoque à força do azul e do vermelho) e até mesmo David Cronenberg e sua estranheza imagética (vista em algumas projeções; outras tantas, trabalho do diretor de fotografia Miguel Vassy e da artista plástica Laura Fragoso são de uma beleza indescritível), a companhia confirma a sua intenção de se misturar outras artes ao seu repertório. A coreografia imaginada pelo par nos entrega perspectivas tão diversas quanto fascinantes, como corpos em sincronia, corpos que se fundem, duplicam-se e assumem formas não humanas. A encenação é acompanhada pela intrigante música original de Federico Puppi, que se casa brilhantemente com a proposta da narrativa. Ticiana Passos, responsável pelos figurinos, buscou com inteligência a liberdade impressa em saias fluidas para os atores/performers. Com dramaturgia e direção de André Curti e Artur Luanda Ribeiro, unindo o onírico com o lirismo poético, “Enquanto Você Voava, Eu Criava Raízes” reafirma a Cia. Dos à Deux como instrumento artístico poderoso na sedimentação definitiva do teatro gestual como expressão legítima e genuína, abrindo outras portas válidas de comunicação cênica. Nós, o público, criamos raízes com a sua arte e para onde ela for voaremos ao seu lado.

  • “Os Deuses do Teatro abençoam os ‘anjos de cara suja’ de ‘Órfãos’, a ótima peça estrelada por Ernani Moraes, Lucas Drummond e Rafael Queiroz.”

    abril 17th, 2023
    Ernani Moraes vive um homem de negócios misterioso e Rafael Queiroz e Lucas Drummond dois irmãos perturbados pela orfandade e solidão/Foto: Costa Blanca Films e Gaulia Films

    Peça do roteirista e ator norte-americano Lyle Kessler, montada em vários países, inclusive com Albert Finney em uma de suas versões, é apresentada pela primeira vez no Brasil

    Ter uma boa dramaturgia com diálogos bem construídos e tipos humanos com perfis ricos em nuances já apontam os primeiros caminhos viáveis para se obter um êxito teatral. É o que se pode dizer antes de qualquer digressão a respeito da ótima peça do roteirista e ator norte-americano Lyle Kessler “Órfãos”, escrita em 1983, um sucesso internacional montado em países como Estados Unidos, Alemanha e França, tendo sido protagonizada em sua versão inglesa por Albert Finney em 1986 com direito ao prêmio Olivier Award de Melhor Ator do Ano e produção na Broadway com Alec Baldwin em 2013 garantindo uma indicação ao Tony Awards como Melhor Peça do Ano. O texto, inédito no Brasil, também ganhou uma versão para o cinema novamente com Albert Finney no elenco e direção de Alan J. Pakula. Mas outros importantes fatores corroboram a incontestável qualidade do espetáculo, como a tradução clara e fluida de Diego Teza, a direção com sólidos entendimentos sobre as engrenagens cênicas de Fernando Philbert, os talentosos intérpretes entregues em sua plenitude à propositura textual e seus aspectos técnicos caprichados e coerentes.

    Dois irmãos órfãos, perturbados pela ausência materna, vivem em seu mundo particular até que chega uma misteriosa terceira pessoa que lhes apresentará uma possibilidade impensada até então

    Já comparado ao dramaturgo Tennessee Williams, especialista na elaboração de retratos precisos das relações humanas e seus respectivos conflitos, Lyle Kessler cria uma narrativa extremamente envolvente com pinceladas fabulares na qual se imiscuem alguns gêneros e referências, como o drama, o thriller psicológico, uma certa ambiência dos filmes noir, humor e até alguns números musicais. Essa riqueza de elementos serve para nos contar a história de dois irmãos órfãos que vivem em um apartamento depauperado na cidade de Filadélfia, nos Estados Unidos, em uma época não especificada, o ingênuo e um pouco infantilizado Phillip (Lucas Drummond, também idealizador e coordenador do projeto), sem sair de casa por anos devido a uma suposta alergia às coisas em geral, libertando-se através de suas fantasias aventurescas e filmes antigos na TV, e o repressor e agressivo Treat (Rafael Queiroz), que para garantir a sobrevivência de ambos se vale de pequenos furtos nas ruas. A aparente normalidade dos irmãos, confundidos pela ausência materna, é abruptamente quebrada pela visita de Harold (Ernani Moraes), um misterioso homem de negócios com modos sofisticados e elegantes vindo de Chicago, no estado do Illinois. Phillip e Treat não titubeiam em sequestrá-lo ao saberem de suas posses. A partir deste fato pontual a obra com muita sabedoria nos apresenta uma série de reviravoltas em um clima de suspense, jogos psicológicos e tensão, reverberando nas intenções e comportamentos dos personagens, revelando a adoção por parte de Harold de atitudes e sentimentos paternais.

    A despeito de ser uma ótima história de suspense e tensão, “Órfãos” é um grande recorte cênico em que se fala principalmente de afeto e sua busca

    Fernando Philbert, um dos diretores mais requisitados do momento, impõe à montagem uma dinâmica bastante expressiva, não só no que concerne às trocas interpretativas mas também no que tange à máxima exploração dos muitos acessórios espalhados no palco que lhe servem como suportes para relevantes marcações, podendo ser uma cadeira sobre a mesa, uma janela ou mesmo a própria mesa. Outros méritos de Fernando foi manter sem recaídas o nível exigido de tensão, sem preterir, quando assim lhe era exigido, instantes poéticos e silêncios, e a extração significativa das possiblidades artísticas de seu elenco. Ernani Moraes, como Harold, reafirma o que já sabíamos, ou seja, trata-se de um dos melhores atores do país. O ator, famoso por seus papéis na televisão, vários deles na seara da comicidade, mostra-se senhor de si em “Órfãos”, com domínio completo de sua atuação, das complexas emoções de seu personagem. Ora Ernani se apresenta pujante, ora delicado, enigmático, amoroso e incisivo. Ao seu favor está a sua inacreditável voz, marcada por uma gravidade belíssima, que o auxilia a dizer o seu texto com adorável prazer, saboreando as palavras. Lucas Drummond ostenta distinta verdade ao compor a personalidade de Phillip, sabendo com bastante perspicácia equilibrar as características que a compõem, como o seu caráter ingênuo, sonhador e questionador, cabendo-lhe com sucesso as passagens divertidas da encenação. Sua leveza no palco, com movimentos desenhados, impressiona. Rafael Queiroz se destaca notadamente como Treat ao encarná-lo com intensa irascibilidade e imprevisibilidade emocional. O intérprete se esmerou em realçar detalhes que pudessem conferir maior credibilidade ao papel, como pequenos e quase imperceptíveis esgares nos lábios. Enfim, este triângulo de talentos não se afugenta dos desafios e complexidades que lhe foram impostos, logrando resultados elogiáveis. O cenário de Natália Lana preenche o palco com magnitude e realismo. Seu olhar sobre o apartamento dos irmãos é assaz minucioso, detalhista, cheio de pormenores, com destaque para um sofá central com almofadas, janelas ao fundo da ribalta, grandes painéis formados por ripas de madeira e uma mesa com pés hidráulicos. Fica-nos evidente a sua ideia de conferir ares de abandono ao local. Um belo trabalho. A direção musical ficou a cargo de Marcelo Alonso Neves, que, obedecendo ao universo retratado, compôs com brilho e sensibilidade temas incidentais que nos remetem a trilhas cinematográficas, além de inserções maravilhosas de standards do jazz, como “Cheek to Cheek”, nas vozes de Louis Armstrong e Frank Sinatra. Rocio Moure, figurinista, fornece-nos uma diversificada paleta de opções de vestuário, provando sua capacidade, sempre com estilo, elegância e coerência, de complementar o desenho dos personagens da melhor forma possível (são vistos jeans, ternos, moletons, capote etc). A iluminação de Vilmar Olos embeleza o espetáculo por meio de spots laterais, spots no alto na cor azul, um plano aberto mais suave em um tom naturalista, além de deslumbrantes momentos em que o rosa suave, o lilás e o laranja prevalecem. Toni Rodrigues realiza uma espetacular direção de movimento, evidente na maneira segura com que os atores variam seus deslocamentos, caem, sobem em mesa, dançam. “Orfãos” não é tão somente uma peça que nos oferece uma envolvente e instigante história de suspense e tensão, e sim um grande recorte cênico em que se fala principalmente de afeto e de sua busca. Por trás de todas as conflituosas relações humanas que envolvem Phillip, Treat e Harold está essa procura presente em todos nós. Deste afeto teatral jamais seremos órfãos.

  • “Clara Santhana se transforma em outras Marias, com seu distinto talento, dando-lhes voz e a todas que jamais seriam ouvidas.”

    abril 5th, 2023
    Clara Santhana atua, canta e dança em seu novo espetáculo musical, “Outras Marias”/Foto: Ariel Cavotti

    A dramaturga Márcia Zanelatto e a atriz e cantora Clara Santhana se unem novamente após o retumbante sucesso “Deixa Clarear” em um musical que tem por finalidade mostrar a história de sete bravas mulheres que resistiram às dificuldades impostas pela sociedade

    Se há algo em comum entre a dramaturga Márcia Zanelatto e a atriz e cantora Clara Santhana é o desejo genuíno de ambas de fazer, através das Artes, com que grandes mulheres sejam reconhecidas pelos seus valores, talentos e qualidades, alcançando-se o maior número possível de pessoas que, de alguma forma, desconheciam-nas. Um perfeito exemplo desta sintonia ideológico/artística é o musical sobre a cantora e compositora Clara Nunes “Deixa Clarear”, estrelado lindamente por Clara e escrito primorosamente por Márcia, um retumbante sucesso que completa dez anos somando cerca de 500.000 espectadores. O musical “Outras Marias”, idealizado e pesquisado com profundidade pela atriz e cantora, parte da valiosíssima premissa de se representar nos palcos, dentro de um arco narrativo coeso, a história de sete mulheres, sete Marias, que contribuíram com seus atos e resistências para que a condição feminina fosse vista por óticas que fugissem do machismo estrutural e preconceitos os mais diversos.

    “Outras Marias” não é só um entretenimento musical, mas um alerta, uma denúncia, um grito contra as forças que tentam perpetuar a invisibilidade feminina

    Márcia Zanelatto, uma de nossas autoras teatrais mais respeitadas, alinhavou com muita sabedoria, e em alguns casos com humor, os retratos históricos de cada uma dessas Marias, evitando a narração episódica pura e simples, apostando em um compartilhamento dos fatos mais íntimo, pessoal e humanista. Com a direção musical impecável de Cláudia Elizeu, acompanhada em cena das excelentes percussionista Geiza Carvalho e acordeonista Verónica Fernandes, Clara, entre pontos e canções de origem popular, inicia o seu bem-sucedido périplo em nos relatar as vidas de Maria Padilha de Castela (amante do Rei de Castela coroada rainha depois de morta), Maria Felipa de Oliveira (que lutou nas guerras pela independência da Bahia), Maria Quitéria (cigana portuguesa), Maria Bonita (bandoleira mulher de Lampião), Maria Navalha, Maria Doze Homens (capoeirista que enfrentou doze homens em defesa de uma mulher) e Maria Mulambo. Algumas delas foram incorporadas como entidades de religiões de matriz africana praticadas no Brasil. Márcia, com estes relatos, objetivou com notável propriedade levantar questões importantes, como a opressão sofrida pelo ser feminino, o cerceamento de suas liberdades, vontades e escolhas, seus poderes de fala, a busca por um lugar com igualdade de direitos independente do seu gênero e a sua invisibilidade causada pela pele de cor preta. Quanto ao humor, este é percebido, por exemplo, em uma situação em que Clara, num tom professoral e didático, enumera as terminologias reducionistas de caráter machista usadas pelos homens como formas de se tratar uma mulher, resultando quase sempre na objetificação de seu corpo. Patrícia Selonk, uma das fundadoras da Armazém Cia de Teatro e premiada atriz, faz a sua estreia na direção nos provando o quanto a sua riquíssima experiência cênica pode contribuir nesta nova função. Patrícia, com sensibilidade, olhar apaixonado e elogiável tato, explora as inúmeras potencialidades de Clara, tanto como intérprete quanto como cantora, criando marcações que valorizam o centro do palco e o belo cenário de Dóris Rollemberg, com seus imensos painéis de tecido translúcido com emaranhados de cordas vermelhas situados no fundo da ribalta e o manequim confeccionado por Junior Alexandre (ótima sacada). Além disso, a divisão das cenas musicadas e faladas é feita de modo bastante sedutor. Clara Santhana nos encanta irremediavelmente com sua versatilidade, carisma, beleza e talento ao representar, conferindo tons e gradações emocionais diferentes, cada uma das figuras históricas femininas propostas. Valendo-se de sua natural comunicação com o público, a atriz nos revela também a sua habilidade para recortes cômicos. A artista possui vastas força e presença cênicas capazes de levar a plateia consigo por todo o espetáculo. Com a sua admirável voz que passeia pelas mais diversas notas nos cantos entoados, Clara nos apresenta ainda movimentos de corpo, gestuais e danças executados com potência e sensualidade (resultado do incrível trabalho da diretora de movimento Cátia Costa). A iluminação de Daniela Sanchez é deslumbrante, com a adoção de um plano geral suave e a incidência de focos com matizes diferenciados (azuis, lilases e principalmente vermelhos) sobre os painéis citados, uma maravilha absoluta. Os figurinos de Wanderley Gomes primam pela fluidez e elegância, seja pelo tecido de dupla face que serve tanto para uma saia quanto para um xale ou manto ou pelo macacão nude. A peça conta ainda com a poderosa voz em off de Iléa Ferraz e o harmonioso desenho de som de Fernando Capão. “Outras Marias” é uma obra musical que cumpre com maestria a sua missão não só de entreter aqueles que amam a arte teatral mas também a de alertar, denunciar e gritar contra as relutantes correntes que insistem em apagar as mulheres, suas condições e seus legados. Que as Marias se façam ouvir pelo outro, pelos outros e por todos os outros.

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