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Ernani Moraes vive um homem de negócios misterioso e Rafael Queiroz e Lucas Drummond dois irmãos perturbados pela orfandade e solidão/Foto: Costa Blanca Films e Gaulia Films

Peça do roteirista e ator norte-americano Lyle Kessler, montada em vários países, inclusive com Albert Finney em uma de suas versões, é apresentada pela primeira vez no Brasil

Ter uma boa dramaturgia com diálogos bem construídos e tipos humanos com perfis ricos em nuances já apontam os primeiros caminhos viáveis para se obter um êxito teatral. É o que se pode dizer antes de qualquer digressão a respeito da ótima peça do roteirista e ator norte-americano Lyle Kessler “Órfãos”, escrita em 1983, um sucesso internacional montado em países como Estados Unidos, Alemanha e França, tendo sido protagonizada em sua versão inglesa por Albert Finney em 1986 com direito ao prêmio Olivier Award de Melhor Ator do Ano e produção na Broadway com Alec Baldwin em 2013 garantindo uma indicação ao Tony Awards como Melhor Peça do Ano. O texto, inédito no Brasil, também ganhou uma versão para o cinema novamente com Albert Finney no elenco e direção de Alan J. Pakula. Mas outros importantes fatores corroboram a incontestável qualidade do espetáculo, como a tradução clara e fluida de Diego Teza, a direção com sólidos entendimentos sobre as engrenagens cênicas de Fernando Philbert, os talentosos intérpretes entregues em sua plenitude à propositura textual e seus aspectos técnicos caprichados e coerentes.

Dois irmãos órfãos, perturbados pela ausência materna, vivem em seu mundo particular até que chega uma misteriosa terceira pessoa que lhes apresentará uma possibilidade impensada até então

Já comparado ao dramaturgo Tennessee Williams, especialista na elaboração de retratos precisos das relações humanas e seus respectivos conflitos, Lyle Kessler cria uma narrativa extremamente envolvente com pinceladas fabulares na qual se imiscuem alguns gêneros e referências, como o drama, o thriller psicológico, uma certa ambiência dos filmes noir, humor e até alguns números musicais. Essa riqueza de elementos serve para nos contar a história de dois irmãos órfãos que vivem em um apartamento depauperado na cidade de Filadélfia, nos Estados Unidos, em uma época não especificada, o ingênuo e um pouco infantilizado Phillip (Lucas Drummond, também idealizador e coordenador do projeto), sem sair de casa por anos devido a uma suposta alergia às coisas em geral, libertando-se através de suas fantasias aventurescas e filmes antigos na TV, e o repressor e agressivo Treat (Rafael Queiroz), que para garantir a sobrevivência de ambos se vale de pequenos furtos nas ruas. A aparente normalidade dos irmãos, confundidos pela ausência materna, é abruptamente quebrada pela visita de Harold (Ernani Moraes), um misterioso homem de negócios com modos sofisticados e elegantes vindo de Chicago, no estado do Illinois. Phillip e Treat não titubeiam em sequestrá-lo ao saberem de suas posses. A partir deste fato pontual a obra com muita sabedoria nos apresenta uma série de reviravoltas em um clima de suspense, jogos psicológicos e tensão, reverberando nas intenções e comportamentos dos personagens, revelando a adoção por parte de Harold de atitudes e sentimentos paternais.

A despeito de ser uma ótima história de suspense e tensão, “Órfãos” é um grande recorte cênico em que se fala principalmente de afeto e sua busca

Fernando Philbert, um dos diretores mais requisitados do momento, impõe à montagem uma dinâmica bastante expressiva, não só no que concerne às trocas interpretativas mas também no que tange à máxima exploração dos muitos acessórios espalhados no palco que lhe servem como suportes para relevantes marcações, podendo ser uma cadeira sobre a mesa, uma janela ou mesmo a própria mesa. Outros méritos de Fernando foi manter sem recaídas o nível exigido de tensão, sem preterir, quando assim lhe era exigido, instantes poéticos e silêncios, e a extração significativa das possiblidades artísticas de seu elenco. Ernani Moraes, como Harold, reafirma o que já sabíamos, ou seja, trata-se de um dos melhores atores do país. O ator, famoso por seus papéis na televisão, vários deles na seara da comicidade, mostra-se senhor de si em “Órfãos”, com domínio completo de sua atuação, das complexas emoções de seu personagem. Ora Ernani se apresenta pujante, ora delicado, enigmático, amoroso e incisivo. Ao seu favor está a sua inacreditável voz, marcada por uma gravidade belíssima, que o auxilia a dizer o seu texto com adorável prazer, saboreando as palavras. Lucas Drummond ostenta distinta verdade ao compor a personalidade de Phillip, sabendo com bastante perspicácia equilibrar as características que a compõem, como o seu caráter ingênuo, sonhador e questionador, cabendo-lhe com sucesso as passagens divertidas da encenação. Sua leveza no palco, com movimentos desenhados, impressiona. Rafael Queiroz se destaca notadamente como Treat ao encarná-lo com intensa irascibilidade e imprevisibilidade emocional. O intérprete se esmerou em realçar detalhes que pudessem conferir maior credibilidade ao papel, como pequenos e quase imperceptíveis esgares nos lábios. Enfim, este triângulo de talentos não se afugenta dos desafios e complexidades que lhe foram impostos, logrando resultados elogiáveis. O cenário de Natália Lana preenche o palco com magnitude e realismo. Seu olhar sobre o apartamento dos irmãos é assaz minucioso, detalhista, cheio de pormenores, com destaque para um sofá central com almofadas, janelas ao fundo da ribalta, grandes painéis formados por ripas de madeira e uma mesa com pés hidráulicos. Fica-nos evidente a sua ideia de conferir ares de abandono ao local. Um belo trabalho. A direção musical ficou a cargo de Marcelo Alonso Neves, que, obedecendo ao universo retratado, compôs com brilho e sensibilidade temas incidentais que nos remetem a trilhas cinematográficas, além de inserções maravilhosas de standards do jazz, como “Cheek to Cheek”, nas vozes de Louis Armstrong e Frank Sinatra. Rocio Moure, figurinista, fornece-nos uma diversificada paleta de opções de vestuário, provando sua capacidade, sempre com estilo, elegância e coerência, de complementar o desenho dos personagens da melhor forma possível (são vistos jeans, ternos, moletons, capote etc). A iluminação de Vilmar Olos embeleza o espetáculo por meio de spots laterais, spots no alto na cor azul, um plano aberto mais suave em um tom naturalista, além de deslumbrantes momentos em que o rosa suave, o lilás e o laranja prevalecem. Toni Rodrigues realiza uma espetacular direção de movimento, evidente na maneira segura com que os atores variam seus deslocamentos, caem, sobem em mesa, dançam. “Orfãos” não é tão somente uma peça que nos oferece uma envolvente e instigante história de suspense e tensão, e sim um grande recorte cênico em que se fala principalmente de afeto e de sua busca. Por trás de todas as conflituosas relações humanas que envolvem Phillip, Treat e Harold está essa procura presente em todos nós. Deste afeto teatral jamais seremos órfãos.

2 comentários sobre ““Os Deuses do Teatro abençoam os ‘anjos de cara suja’ de ‘Órfãos’, a ótima peça estrelada por Ernani Moraes, Lucas Drummond e Rafael Queiroz.”

  1. Lucas Drummond disse:

    Obrigado pelo carinho e pelas generosas palavras, Paulo!

    Curtido por 1 pessoa

    1. pauloruch disse:

      Lucas, fiquei muito feliz com o espetáculo que me proporcionaram. Lindo e inteligente. Parabéns a você e toda a equipe!

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