“José Luiz Villamarim, George Moura e Sergio Goldenberg se unem em ‘Onde Nascem Os Fortes’, a nova supersérie da Rede Globo, para nos contar uma história intensa e passional, com amores e ódios em sua mais alta potência, tendo como porta-vozes atores com a força de Patricia Pillar, Alexandre Nero, Fabio Assunção e Debora Bloch.”

Publicado: 24/04/2018 em TV

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Foto: Estevam Avellar/Gshow

Estreia a aguardada supersérie de George Moura e Sergio Goldenberg 

Ao se ter a notícia de que haveria uma supersérie escrita pela dupla de autores George Moura e Sergio Goldenberg, que escreveram tanto a minissérie “Amores Roubados” (que será regravada em espanhol com outros intérpretes) e o remake da novela “O Rebu”, tendo como o seu diretor artístico José Luiz Villamarim (diretor de ambas as produções citadas), o público assíduo destes dois gêneros teledramatúrgicos imediatamente cria auspiciosas expectativas. Ademais, este trio competentíssimo de profissionais costuma reunir em seu elenco atores do mais alto calibre com quem já trabalhou, além de apostar em nomes já estabelecidos no mercado, mas com os quais não teve ainda uma parceria. Na noite de ontem, finalmente estreou na Rede Globo “Onde Nascem Os Fortes”, protagonizada por um time de artistas de distintas gerações, todos com reconhecimento pelos seus talento e trajetória, como Patricia Pillar, Alexandre Nero, Fabio Assunção, Debora Bloch, Marco Pigossi, Gabriel Leone, Alice Wegmann, Jesuíta Barbosa e Maeve Jinkings. A história, com ares de western contemporâneo, é passada na cidade fictícia de Sertão (as impressionantes locações, que mostram o semiárido brasileiro, situam-se nos estados do Piauí, no Parque Nacional Serra da Capivara, e Paraíba – na cidade de Cabaceiras, no Cariri paraibano), no interior nordestino.

Uma história com amores intensos e ódios acirrados

O primeiro capítulo, logo em sua cena inicial, já nos revela o jeito particular de Villamarim dirigir. Com uma câmera acoplada a uma bicicleta de trilhas, fazemos o mesmo percurso inóspito realizado pela jovem destemida Maria (Alice Wegmann com os cabelos curtos e desconstruídos), nos confins desérticos de Sertão. Enquanto isso, outro jovem, tão aventureiro quanto, o paleontólogo Hermano (Gabriel Leone com um visual bem oposto ao mostrado em “Os Dias Eram Assim”), acompanhado da motorista de seu pai, Gil (Clarissa Pinheiro), numa caminhonete, regozija-se de suas recentes descobertas científicas locais. Após ter a sua bicicleta quebrada, Maria é abordada por rapazes mal-intencionados, sendo salva por Hermano. A partir deste casual encontro começará um romance com tintas shakespearianas, com bastantes conflitos entre as famílias do casal, impedindo a consumação de seu amor. Hermano é filho de Pedro Gouveia, um empresário poderoso e temido, dono de uma fábrica de bentonita, vivido por Alexandre Nero, e Rosinete, Debora Bloch, uma sofrida e abnegada mulher que se dedica a cuidar de sua filha enferma, Aurora, Lara Tremouroux. Maria é irmã gêmea do irresponsável e mulherengo Nonato, Marco Pigossi. O paleontólogo dá uma carona à bonita moça de Recife até o famoso Bar do Chico. Lá chegando, vê que seu irmão está envolvido em um jogo perigoso com armas e bebidas, e o repreende. Fica-nos clara a relação forte e simbiótica que há entre os irmãos, tão unidos quanto distantes no comportamento. Hermano e Maria combinam de se encontrar no show de Shakira do Sertão (Jesuíta Barbosa) na boate Bodão. A mãe dos gêmeos, Cássia (Patricia Pillar), uma empenhada engenheira química, não consegue qualquer contato com os seus filhos. Cássia esconde um segredo de seu passado que envolve a sua passagem por Sertão. Voltando à personagem de Debora Bloch. Rosinete, traída pelo seu marido com Joana (Maeve Jinkings), funcionária da empresa, como já dito, devota a sua vida à filha (há uma cena com grande sensibilidade e beleza em que Rosinete banha cada parte do corpo de Aurora com delicadeza). Católica fervorosa, a mãe zelosa, descrente dos médicos, agarrada ao seu terço, exercita-se correndo na escuridão da noite do deserto, sob a luz só de uma lanterna e o som companheiro de seu fone (a direção captou inspiradas e belas imagens noturnas de Debora correndo, com angulações de câmera inventivas). Enquanto corre, faz as suas preces. Apesar de não ser tão presente, Pedro demonstra carinho pelos filhos. Na boate Bodão, em uma das melhores cenas do capítulo, Shakira do Sertão se apresenta cantando o clássico de Rosana, “O Amor e o Poder” (incrivelmente produzido, exalando sensualidade e sedução, Jesuíta nos conquista com a sua performance estudada; seu personagem, na verdade Ramirinho, filho do juiz Ramiro, Fabio Assunção, que desconhece a sua vida dupla, promete ótimos momentos). A dança luxuriosa de Shakira encanta os irmãos. Contudo, Nonato decide ir para outras paragens, enquanto Maria espera por Hermano. Não muito longe, pessoas do local se reúnem, bebem, e se exibem com suas motos barulhentas. Pedro Gouveia, fugindo da solidão de casa, chega ao lugar, sendo bajulado por todos. Neste instante, Nonato já havia conhecido Joana em um bar. Pedro se aproxima, e espanta o rapaz galanteador. Embriagado, o filho de Cássia deixa um recado para a sua irmã no celular, sem sucesso. Desnorteado, retorna ao bar, e provoca o empresário, sendo enxotado pelos seus capangas. Nesse mesmo tempo, Maria e Hermano visitam as deslumbrantes cavernas com pinturas rupestres de Sertão (as gravações foram feitas no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, com suas pinturas reais). Após Hermano lhe ensinar sobre a história das pinturas, em meio ao cenário fascinante de pedras, os jovens trocam carícias e beijos. Em um descampado, com ventos de poeira iluminados pelos faróis do carro parado, Nonato é brutalmente espancado pelos capangas de Gouveia. Em outro lugar sinistro, Gouveia ameaça o rapaz ensanguentado, mas decide lhe dar uma chance. O moço “louco”, quase desfalecido, enfrenta seu oponente, que, furioso, encosta a arma em seu rosto, ameaçando atirar. Não sabemos o que de fato ocorreu com Nonato, o mote da sinopse da supersérie. Em seguida, surge a figura imponente do juiz Ramiro treinando caça, ao lado de seu guarda-costas Damião, Pedro Wagner. O tiro de seu rifle faz a ponte com a cena de Nonato que ficou em aberto. O capítulo de estreia de “Onde Nascem Os Fortes”, que tem a colaboração de Flavio Araújo, Mariana Mesquita e Claudia Jouvin, termina com Damião colocando em Ramiro o seu impecável terno branco, que ao final diz: – Todos os dias são do caçador”.

Texto bem estruturado e envolvente e direção habilidosa e inventiva 

O texto de George Moura e Sergio Goldenberg é bem estruturado, envolvente, com bons personagens construídos, em que se veem elementos com capacidade para segurar o interesse dos telespectadores pelos seus próximos episódios. Em seu entrecho, há fartas doses de amor (seja ele romântico ou familiar), ódio, sede de justiça, espalhadas sobre um terreno árido e sem lei (ou com leis próprias), no qual se impõem o coronelismo e toda a sua implacabilidade, algo recorrente até nos dias atuais. A direção de José Luiz Villamarim, neste primeiro capítulo, ostentou a sua qualidade genuína com influências nitidamente cinematográficas. José Luiz valoriza os movimentos, a ação, os closes, as panorâmicas, as distâncias e os olhares inusitados vistos pela lente de sua câmera (a supersérie tem ainda como diretores Walter Carvalho e Isabella Teixeira, com direção geral de Luisa Lima).

Um elenco primoroso formado por atores de gerações distintas

O elenco é um dos pontos altos da atração, transmitindo com enorme credibilidade as nuances do perfil de seus personagens. Patricia Pillar, como Cássia, segura e cativante, esbanjou o apego que sente pelos filhos, enquanto Debora Bloch nos convenceu com o seu brilho nato como a mãe infeliz e incrédula com a doença de sua filha e o casamento falido. Alexandre Nero compôs com notável precisão os traços que definem Pedro Gouveia, seja ao nos passar a sua aura de poder, mando e desmando, seja ao revelar o seu lado amoroso como pai. Fabio Assunção, em uma única cena, prometeu-nos uma sublime interpretação, num papel totalmente diferente daqueles que já fez em sua prodigiosa carreira. Marco Pigossi, em participação especial, construiu Nonato com acertadas camadas de rebeldia, carência, insolência e irracionalidade. Gabriel Leone e Alice Wegmann, excelentes escalações, possuem potente química como casal, provando-nos o porquê de serem considerados uns dos melhores atores jovens surgidos em sua geração, assim como Jesuíta Barbosa, um intérprete de cinema que se supera a cada trabalho em televisão (Jesuíta tem um carisma, uma docilidade pessoal que o distingue sobremaneira). Maeve Jinkings, respeitável atriz, uniu com equilíbrio a sensualidade e o carinho de Joana com relação ao seu amante, sem abrir mão da firmeza de seu papel nas sequências de tensão. Lara Tremouroux imprimiu com emoção à sua personagem Aurora as cargas exigíveis de fragilidade, vulnerabilidade e ternura. Clarissa Pinheiro, como Gil, em suas rápidas aparições, indica-nos uma boa participação.

A direção de fotografia de Walter Carvalho, a produção musical irresistível e a abertura com Zeca Veloso 

A irretocável, como de costume, direção de fotografia de Walter Carvalho aposta na luminosidade pujante, clara e ensolarada do universo desértico do sertão do Nordeste, na crueza realista sem tons fortes das cenas cotidianas, nas cores das luzes que alumiam a festiva noite da cidade, e na exploração de contrastes noturnos nos locais abertos e vazios (como na cena de Rosinete correndo). A fotografia usada nas cenas do casal de jovens no interior da caverna também merecem destaque. A produção musical de Eduardo Queiroz se sobressaiu pela coerência e adequação das músicas selecionadas, como a belíssima “Vapor Barato”, na voz de Gal Costa. A música original de Marcell Klemm também cumpriu com congruência sua missão de emoldurar melodicamente os quadros cênicos. A abertura de Alexandre Romano, Flavio Mac e Christiano Calvet, composta por recortes de imagens de cenas da supersérie em variados matizes, é embalada pela voz aguda e afinadíssima de Zeca Veloso, com Caetano Veloso, Moreno Veloso e Tom Veloso, na encantadora “Todo Homem” (há um refrão que se encaixa na busca infatigável de Cássia pelo filho desaparecido: “Todo homem precisa de uma mãe”).

Por que “Onde Nascem Os Fortes” merece ser vista

“Onde Nascem Os Fortes” corrobora o investimento da emissora em produzir com cada vez mais qualidade, excelência e apuro estético as superséries, valorizadas por dramaturgias elaboradas, elenco exponencialmente capacitado e diversificado, e direção não raro primorosa. Não à toa muitos intérpretes demonstram a sua vontade de atuar nessas obras. Não faltam motivos para se acompanhar esta história com personagens tão ricos e ao mesmo tempo brasileiros, em terras não menos brasileiras. Os sentimentos e conflitos são universais, mas o olhar do espectador de nosso país se identificará com uma de suas raízes nas plagas do interior esquecido do Nordeste, com todas as suas contradições, disputas de poder, e ausência de leis, com a exceção da “Lei do Mais Forte”. Nos torrões onde nasceram os fortes Pedro Gouveia e Ramiro, nos quais “Todos os dias são do caçador”, “caças” como os “Nonatos da vida” poderão ganhar a sua voz na força de mulheres como Cássia e Maria. E tudo poderá se transformar em “Onde Nascem As Mulheres Fortes”.

comentários
  1. Maria Valeria disse:

    Adorei o texto! Assisti ao capítulo e seu texto fez tudo qie assisti ficar infinitamente mais rico!!!

    Curtido por 1 pessoa

    • pauloruch disse:

      Olá, Maria Valeria. Fiquei feliz com o seu comentário. É gratificante saber que o meu texto fez com que a sua impressão sobre a supersérie ficasse mais rica. Muito obrigado. Um abraço.

      Curtir

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