” Acreditamos nas verdades de Armando, Betina, Joelson e Izabella em ‘O que você mentir eu acredito’.”

Publicado: 02/07/2013 em Teatro

312161_10151499038008800_941239805_n
Foto: Silvana Marques

Vivemos em mar de contradições. As contradições da comunicação. Cada vez mais nos deparamos com vastos recursos de comunicabilidade, porém não sabemos fazer uso deles. O incomunicável sobrepuja o comunicável. O social se digladia com o antissocial, e a vitória é do último. Falamos sem sermos ouvidos. Ouvimos pensando que escutamos. Palavras ditas e não ditas. Perdidas. Se “No princípio era o Verbo…”, agora os princípio, meio e fim são silêncio. Partindo desta conjuntura de comportamentos e caracteres existencialistas, o dramaturgo Felipe Barenco se inspirou nos contos do incensado escritor gaúcho Caio Fernando Abreu e constituiu texto cênico, “O que você mentir eu acredito” (frase tirada do conto “Terça-Feira Gorda”), que se trata de projeto cuja idealização coube a Armando Babaioff, Rodrigo Portella e Gustavo Vaz. Representado por quatro personagens, André (Armando Babaioff), Terezinha (Betina Viany), João Carlos (Joelson Medeiros) e Malu (Izabella Luz) o processo da incomunicabilidade humana em sua essência é esmiuçado com profundidade e elevada tensão dramática, todavia sem preterir de inserções pontuais espirituosas. André, João e Tereza formam núcleo familiar desestruturado. O vocábulo “núcleo” perdeu sentido. O filho André não se reconhece, procura a si mesmo, e ninguém o ajuda nesta busca pessoal. Muito pelo contrário. Seus pares contribuem para que sua identificação como indivíduo se afugente de modo superlativo. Filho, pai, avó, estranhos entre si. Não por acaso pausas e minutos silenciosos são constantes na encenação, e cumprem missão de relevância ao sublinhar o desentendimento coletivo. A personagem de Izabella Luz entra na história como “intrusa” que talvez seja mais próxima que os demais. Malu, moça “hipster”, desencadeia reação acelerada de sentimentos, conflitos, dúvidas, embates únicos ou em duplas ou geral, com um sem fim de consequências. A desorientação sexual de André, “devorador” de músicas e livros, recrudesce a falta de alinhamento pacífico da família. Malu se confunde nos próprios sentidos e certezas, ou ausência destes. João é vítima de suas ações e inações, vendo-se “mutilado” por remorsos, culpas, recalques e desesperança. Contudo, assim como os outros, persegue redenção. Terezinha é símbolo do matriarcado que deságua em passividade que por vezes é despertada por firmeza e convicção de posições permeadas por olhar subjetivo e lógico dos acontecimentos, passando ao largo dos sentimentalismos. Armando Babaioff, um dos atores mais prestigiados de sua geração, constrói o perfil de André juntando peças de mosaico simbólicas do absoluto aproveitamento do forte poder da expressividade corporal, fazendo bom uso da voz com entoações várias, utilizando-se de todos e quaisquer mecanismos que exerçam função de enriquecer o material interpretativo do jovem atormentado. Armando Babaioff não deixa escapar detalhes, transformando o “micro” em “macro”. Seus olhos se subdividem na contemplação, na fúria, indignação, contentamento e êxtase. Os dedos são nervosos, dançam “balé da ansiedade”. Reféns do carrasco gestual repetitivo. Betina Viany se vale do largo conhecimento do que se entende por atuação para evidenciar seja por meio da mobilidade ou imobilidade a lacuna ou preenchimento de suas respostas emotivas. Além disso, sai-se otimamente bem com os chistes. Joelson Medeiros alinhava João com tessitura que remete à alienação, confrontação com dilemas interpessoais e fantasmas psíquicos. Joelson perfaz aglutinação escorreita de gama de oscilação de humores lhe rendendo valoroso resultado. E Izabella Luz mergulha em vivacidade numa explosão de manifestações sensoriais. “Dança” vocal e corporalmente, e resgata sensualidade como complemento da faceta ambígua de Malu. A direção de Rodrigo Portella escolhe trilha coerente, racional, proveitosa, engajando-se na “formatação” de conjunto teatral que “grite” para o público os dissabores do “existir” e os amores de se “descobrir”. Não há em sua condução máculas de inutilização do palco. Esquadrinhou as marcações, e se posicionou em direção objetiva não superficial na clarificação do significado da personalidade dos membros do enredo. A cenografia de Edward Monteiro é realçada com ousadia e elementos precisos que a aproximam do “vintage” e do além do contemporâneo. Eloquente presença das luminárias, carpete verde musgo, cadeiras, sofá de couro avermelhado e desdobrável, aquário, e aquilo que se absorveu como sendo o mais arrojado: enorme círculo móvel partilhado em painéis com esquadrias fornidas com tecido translúcido possuidor de engenhosa, lúdica e utilitária movimentação, funcionando como se fosse quase um quinto personagem. A iluminação de Renato Machado assume complexa paleta de compreensões visuais que podem ser adjetivadas como reflexos de sofisticação, modernidade, sombreamento e bruxuleios. O LED moderno trava amistoso diálogo com pontos de luz clássicos advindos de abajures/luminárias. Observa-se luminosidade que lembra o “salmon”. Um diferencial em termos de criação atinente ao aspecto “luz”. Os figurinos de Claudio Tovar mesclam o atual com o íntimo, isto é, aquilo que usamos para nós mesmos. A jaqueta de couro ocre, a calça justa similar a saruel, a regata, e os tênis de André, a saia frufru e os coturnos “fashion” com cadarços “pink” contrastam com o vetusto robe vermelho, a afrouxada gravata e camisa e calça cotidianas de João Carlos e o casaco com ares setentistas, acessórios peculiares, sandálias e meias, e vestido rosa caseiro entretanto forte na mensagem de Terezinha. A concepção sonora de Armando Babaioff e Rodrigo Portella abraça com fidelidade a pujança de compatível sonoplastia que nos insinua sensações de sufoco e angústia, amparada por incursões musicais complementares e felizes na adequada penetração no desenvolvimento da meada. “O que você mentir eu acredito” é entretenimento mobilizador reflexivo que sacode inércias psicológica e cognitiva do homem, apegando-se às verdades e mentiras do ser social em sua intricada vivência. Ao apagar das luzes, o que depreendemos sem hesitação ou tomada de atitude fugidia é que nos defrontamos irremediavelmente com a verdades. As verdades de Armando, Betina, Joelson e Izabella. E verdades são soberanas no império restante.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s