” Percebemos a Vida ao atravessarmos ‘As Portas da Percepção’, abertas com as chaves de Eriberto Leão após ‘JIM’.”

Publicado: 17/07/2013 em Teatro

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Foto: Roberto Teixeira/EGO

John Lennon disse na canção “God”: “o sonho acabou…”. O líder da defesa dos direitos civis dos negros americanos Martin Luther King numa ocasião para plateia de milhares de pessoas discursou: “Eu tenho um sonho…”. Para Eriberto Leão “o sonho não acabou”. Apenas começou. Um sonho que se imiscuiu aos sonhos de tantos outros sonhadores. O sonho de colocar na ribalta sagrada os ensinamentos e aprendizados não menos sagrados do representante de toda uma geração, Jim Morrison, o vocalista e cofundador da mítica banda The Doors. Não deveria ser uma reprodução biográfica, impessoal da conturbada vivência de um dos autores de “Light My Fire”. Fizeram-se prementes mãos conduzidas por engenho, criatividade e alta inteligência a fim de que fosse distribuída em letras, sílabas, palavras, frases e diálogos história real/fictícia que com mérito honrasse a eternizada mensagem de bonito e jovem homem que vivia da música, transformando-a em “arma” que remexesse conscientes e inconscientes coletivos e individuais. O dramaturgo Walter Daguerre (com quem Eriberto já trabalhou em “A Mecânica das Borboletas”) ofereceu-nos generosamente com seus dedos lépidos e inquietos trama escrita sem temeridades na qual houvesse aliança do real com o imaginário, e que aquela tocasse corações selvagens e plácidos. E, sim, de modo implacável, fomos tocados. A ponto de olhos secos se umedecerem. Configurou-se texto em que ser humano imerso em dilacerantes conflitos, João Mota/Mojo (Eriberto Leão), via em seu ídolo (Jim Morrison) o culpado e redentor de erros e acertos próprios. No jardim secreto das moradas silenciosas transgrediu a ausência de som confabulando em tons de cobrança e confessionais com o poeta cantante que se deparou com a “Percepção” após 27 anos de sua “Criação”. E no meio de conversa elucidativa, tensa, emocional, surge bela mulher, Pamela/Anima (Renata Guida), que o orienta, inquire, perscruta e desorienta a já desorientada cabeça perdida na bifurcação cruel das escolhas da existência. Nos espinhosos atalhos terrenos que com pés cansados e descalços deixamos rastros em chão passivo, poucas e únicas vezes nos deparamos com interpretação que foge ao significado literal do termo, subvertendo-o , desobedecendo-o, indo além do além, e Eriberto Leão sem compaixão com a literalidade, exerce ritual mediúnico, incorporador, assustadoramente verdadeiro ao personificar ou encarnar James Douglas Morrison. Somos reportados de maneira inapelável à segunda metade da década de 60, e nas nossas peles pelos se eriçam, respiramos em outra cadência, escutamos as catárticas músicas dos The Doors entoadas por voz ensaiada, cuidada, “lustrada” pelo maior dos preparadores vocais: Deus. Eriberto não apenas canta. Eriberto “clama”, “declama”, “exclama”, “chama” canções em meticulosos e pungentes acordes na sua gravidade e comoventes na sua suavidade. Em país distante das terras onde Sartre nos bistrôs pensou “O Ser e o Nada”, existe ator com missão, dentre muitas, de compartilhar estado de êxtase que estremecesse os alicerces da solidária Arte. Eriberto Leão não somente cumpre o seu ofício, como “descumpre” os limites que nos foram impostos. Graças a Deus! Após “JIM”, tudo lhe será diferente. Como para mim está sendo. A atriz Renata Guida como Pamela/Anima ilustra com firmeza, segurança, disciplina, eloquência e credibilidade agradavelmente “incômodas”, colocando mais diamantes no “céu de Lucy”. O diretor (ou seria um maestro?) Paulo de Moraes, acostumado ao prestígio que o acompanha, repetiu parceria com Leão, e por meio de sua “batuta” fez pó dourado virar ouro mais do que dourado. Orquestrou espetáculo que nos vicia, que da realidade nos dissocia. Deu-nos bilhete único para bem-vindas viagens tormentosas e turbulentas, com escalas em vários e desconhecidos planos que nos separam da Inteligência, da Sabedoria, da Percepção e do Impalpável. Uma lua de mel com o Mistério. A bela direção musical de Ricco Vianna muniu-se dos talentos dos músicos José Luiz Zambianchi (teclados), Felipe Barão (guitarra) e Eduardo Rorato (bateria), que ao vivo nos tornaram mais vivos e capazes de “acendermos nós mesmos os nossos fogos”. As principais concepções melódicas do grupo californiano cujo vocalista se inspirou em Nietzsche, William Blake, Rimbaud e Aldous Huxley foram com cautela e logística emotiva “espalhadas” com jeito sábio e sedutor na encenação. O cenário de Paulo de Moraes provou que o conciso pode ser expansivo, de que o suposto “pouco” na verdade é “muito”. Exorbitantemente “muito”. Gloriosamente “muito”. Um piano inclinado maltratado pela chibata do tempo, com inscrição de curto ciclo de permanência de astro na Terra, encimado por microfone calado, chateado, triste. Além de tantos outros microfones marcando os seus territórios que lhes são de direito no palco. Um girassol indica a presença do Sol, da esperança, da luz cálida em meio a frias elucubrações. Os figurinos de Rita Murtinho reverenciam a fidelidade, dizem “sim” à verdade, e parecem ter buscado em armário qualquer de Jim sua calça justa de couro, sua blusa de botões semiaberta, seu cinturão e botas que auxiliam o artista a usar o corpo de forma elegante, com movimentos sinuosos, cambaleantes, dançantes, contorcidos, bonitos e doídos. O casaco de couro e a saia vistosa e longa de Pamela/Anima nos lembram de que longa pode ser a visão da vida. Vida vistosa e longa. A luz de Maneco Quinderé cumpre potente função de nos deixar reféns da maravilha, da odisseia das cores, do périplo da luminosidade rumo à efeméride, à contemplação, ao ritualístico, ao enlevo, à meditação e à perturbação. Uma explosão luminosa. Um “Big Bang” no tablado. Privilegiados foram os nossos sensores óticos e demais outros. Jim cantou “The End”. Sim, pode ser o fim. O fim que dá início a começo e recomeço. Fim de emoções vãs e obscuridade cognitiva. Nascimento da clarividência. Tudo agora está tão claro, mesmo que as luzes tenham se apagado. Encaminhamo-nos para a porta. Ela se abre. É “A Porta da Percepção”. Obrigado, Jim! Obrigado, Aldous! Esperem, tenho que agradecer ao Eriberto, ao Walter, ao Paulo e a Renata antes de voltar para a minha casa, o meu “Palácio da Sabedoria”. Deixem-me que pense assim. Um “palácio” meu, seu, nosso, cujas portas estarão sempre abertas para os desejosos do Saber.

comentários
  1. Eriberto disse:

    Incrível Paulo. Obrigado poeta.

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    • pauloruch disse:

      Olá, amigo Eriberto. Quanta generosidade, meu “poeta dos palcos”. Este texto é uma prova sincera do que um grande ator é capaz de fazer no teatro, perante um público ávido pela Arte. Você é um representante legítimo de que uma atuação pode ser transformadora. Parabéns. Um grande abraço, e muito obrigado!

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  2. walter daguerre disse:

    Além de tudo é um ótimo texto, Paulo, super bem escrito e que dá uma bela dimensão do que desejamos com o nosso trabalho. Parabéns e obrigado!

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    • pauloruch disse:

      Amigo, Walter. Receber um comentário elogioso de um dramaturgo da sua relevância e respeitabilidade só me fez crer que a dedicação empenhada na escrita do texto se justificou. Ter atingido, como disse, em palavras, algo que simbolizasse “bela dimensão” do que desejaram com o trabalho realizado é homenagem única na vida de alguém que aprecia expor os pensamentos na nossa Língua pátria. Muito obrigado, sucesso, e que tantas outras peças, roteiros e livros maravilhosos venham de sua especial lavra. Um grande e sincero abraço!

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